17/11/2009 - 18:03h A retórica da conversa

Os dez mandamentos para tornar a sua aproximação com outras pessoas mais interessante e qualificada

Adriana Natali – Língua Portuguesa

Escultura do francês Georges Segal: perda de vigor da conversa na vida contemporânea pode engressar as relações humanas

Um dedo de prosa é mais complicado do que parece. Não só para os tímidos. A depender de como é levado, o prosaico bate-papo pode ser a diferença entre um ouvinte resistente ou receptivo a uma opinião. A conversa, do formal diálogo entre estranhos ao papo furado de amigos, requer cuidados e propriedade. Admitido o clichê, conversar é uma arte. E pode ser aprendida.

- Muitos se esquecem de que conversar é envolver com palavras, e não só comunicar assertivamente suas metas, seus desejos e pontos de vista. Dar um “bom dia”, comentar uma opinião ou repartir um bombom, tudo pode iniciar um relacionamento. Mas aproximar-se significa trazer para perto de si. Deve haver lugar para o outro – explica Luís Sérgio Lico, mestre em filosofia e conselheiro empresarial.

Mesmo numa época em que muito se pode dizer dependendo das circunstâncias, o estatuto da conversa já é visto como problemático. Para especialistas, saber conversar virou carência retórica nos centros urbanos, em que as situações de encontro são cada vez mais mediadas e formais. Hoje, até para um reles papo, podemos estar carentes de orientação.
Segundo Lílian Ghiuro Passarelli, vice-coordenadora do curso de Letras da PUC-SP, o princípio mais geral que se espera num diálogo é o da cooperação: a conversa deve construir uma cumplicidade entre seres diferentes.

O princípio cooperativo é ideia cara ao filósofo inglês Herbert Paul Grice (1913-1988), seu maior teorizador. O falante, diz Grice, é cooperativo se informa tudo o que seu interlocutor necessita para entendê-lo, sua contribuição é tão informativa quanto desejada e a intenção por trás de suas palavras fica evidente, sem segundas intenções camufladas.

Princípio geral
O linguista russo Mikhail Bakhtin (1895-1975) dizia que a interação verbal é a realidade fundamental da linguagem, um gênero primário a todos os outros. Cada palavra emitida é determinada tanto pelo fato de que procede como de ser dirigida a alguém. Contemporâneo de Bakhtin, Grice postulou que uma boa conversa tende a ser governada por princípios que compreendem máximas, em quatro categorias:
- Quantidade:
a) que sua participação seja tão informativa quanto o requerido pelos propósitos da conversa;
b) não seja mais informativo que o requerido.

Quem se mostra mais detalhista que o desejado (a) passa por arrogante (assim como quem é genérico demais parece inconsistente); e quem diz mais do que o necessário (b) é tomado por tagarela (quem informa de menos, desinteressante).

- Qualidade: Tente fazer com que a sua contribuição seja genuína, não dizendo a) aquilo que acredita ser falso ou b) não tem evidência suficiente.

- Relação: Seja relevante. É preciso trazer novidade e falar o que interessa, de forma interessante.
- Modo: Seja claro, evitando: a) obscuridade de expressão; b) ambiguidade; c) falta de brevidade; d) falta de ordenação no que diz.

Códigos
As máximas de Grice pressupõem uma troca verbal civilizada, e qualificada. O grau de proximidade entre os falantes, a simetria de papéis, o conhecimento partilhado e o contexto são fatores que podem definir a continuidade de uma discussão.

Para Lílian Passarelli, em qualquer situação devem-se respeitar os códigos de sociabilidade que regem a conversa.
- Sem um repertório linguístico adequado à situação comunicativa, aos interesses do interlocutor, por mais amplo que seja nosso repertório de informações, podemos não nos sair bem em nosso projeto de dizer. É preciso usar o registro adequado para obter o efeito de sentido que pretendemos – afirma Lílian.

Tempos modernos
Pessoas com afinidades podem chegar a conversar muito, mudando sempre de assunto, em contextos distensos (a mesa de bar, a casa de um deles), porque há simetria de papéis e ambos partilham das questões em pauta. Se esses falantes estiverem em outra situação comunicativa (trabalho, evento social), o contexto pode não permitir que ambos travem conversas no mesmo tom.

- Quando os interlocutores não se conhecem muito, o importante é observar o contexto – diz Márcia Molina, doutora em linguística da Universidade Anhembi Morumbi.

O velho gosto por conversar pode estar em transformação, sem que apresente sinais bruscos de mudança. O individualismo, os graus de separação numa sociedade de porte e o ritmo da vida urbana são fatores tidos por Luís Sérgio Lico como desestimulantes do hábito cultural da conversa.

- Seres urbanos não gostam muito de conhecer estranhos. Uma situação clássica é a do elevador: diga “bom dia” e as pessoas fingem que você não existe. Insista, e elas se irritam – diz Lico.

Para Alcir Pécora, professor de literatura da Unicamp, que dá cursos sobre a arte da conversa em organizações como Casa do Saber, o mundo atual viu proliferarem situações que limitam ou afetam a comunicação pessoal. A própria interface eletrônica, de chats e Twitter, pode reorganizar o modo como conversaremos no futuro.

- A tecnologia sendo usada em meio hostil ao convívio tende a fomentar a comunicação em situações de isolamento individual ou de grupos restritos, cujas diferenças não se problematizam desse modo – diz Pécora.

Nas organizações
No mercado, o diálogo tende a artificializar-se, com profissionais em dificuldade de manter conversas sem finalidade associada ao negócio. Há empresas que reprimem conversações, por acreditarem ser perda de tempo; portanto, de dinheiro e produtividade. Mas aprende-se tanto nos papos com colegas de ofício quanto em treinamentos externos, diz Luís Sérgio Lico.

- A diferença é que o conhecimento do lugar de trabalho é usado de forma imediata, prática, e as capacitações demandam maior tempo e profundidade de abordagem – afirma.

A falta de condição organizacional para um bom papo pode levar a problemas de comunicação e a retrabalhos, dizem especialistas. Para Carlos Andrade, do mestrado em linguística da Universidade Cruzeiro do Sul, mesmo nos ambientes profissionais, conversas mais informais são úteis para quebrar formalidades.

- O importante é perceber que, numa troca dialógica bem articulada, haverá a validação de cada falante: percebemos na interlocução se certas enunciações foram pertinentes ou não, até para avaliarmos os rumos da conversa – diz o professor.

Bom papo
Hábito em mutação, a descontração do bate-papo brasileiro pode ter virado ilusão acalentada, mas cada vez menos verificável.

- Nossa cordialidade é ideológica: postula uma mitologia que valoriza carências e vícios sociais históricos. Vou direto ao ponto: conversa, em contexto democrático, supõe qualidade da educação pública. Quando a educação vive em penúria, não há muito a esperar de tudo o que demande linguagem cultivada – diz Alcir Pécora.

Há, verdade, procedimentos retóricos que podem melhorar um papo e transformar a conversa numa real aproximação com o outro. Mas técnicas recentes para adequação discursiva seriam risíveis se vistas como solução a impasses humanos, e não são pretextos para o policiamento neurótico das interações cotidianas.

A utilidade de sugestões, como as destas páginas, não é só dar molho a um diálogo: elas indicam quando deixamos de fazer trocas verbais de qualidade para ganhar uma discussão no grito ou, simplesmente, desistimos de nos aproximar do outro – e nem notamos.
(Colaborou Jezebel Salem)

Os dez mandamentos da conversa
Tenha o que dizer

Conversar sem matéria-prima pode ser um desastre. A boa conversa é a estruturada: é preciso ter algo a dizer. Um repertório de informações significativo pode ser obtido não só pela leitura, mas por outras fontes, como cinema, teatro, sites e revistas especializadas.

- Para que uma conversa se mantenha, uma questão fundamental é o conhecimento de mundo do que será tratado. Quando tenho argumentos para pôr opiniões em xeque, eu me sinto mais seguro para entrar na roda das conversas, independentemente do contexto de produção delas – explica Carlos Andrade, da UnicSul.

Saiba ouvir
Saber ouvir é saber doar-se, diz Osório Antônio Cândido da Silva:
- Escutar com sincera atenção é habilidade que, em razão do desuso, vem sendo perdida – lamenta o professor de oratória.

Em geral, as pessoas gostam de falar, não de ouvir. Ficam tão centradas no que dizer que nem dão bola a quem interage com elas. Para o consultor Reinaldo Polito, a observação é a melhor forma de manter um diálogo.

- Se houver alguém com vontade de falar, fique na sua e só interfira para valorizar o que está sendo comentado e demonstrar que presta atenção – sugere.

Seja significativo
Sonde os assuntos que interessam ao interlocutor e os explore. Para Reinaldo Polito, a conversa fluirá melhor se centrarmos o diálogo num ponto em comum.

- Manter um bom diálogo é sinônimo de não falar de si mesmo. As histórias pessoais devem ser contadas apenas como autogozação – aconselha.

Para Carlos Andrade, num “bom papo” o que é dito deve ser importante a quem dele participa, pela qualidade da informação, pelo valor de quem a fornece.

- O diálogo só é propício quando os interlocutores propõem em suas falas questões pertinentes ao assunto de que se está tratando – afirma Andrade.

Esteja pronto para ter iniciativa
Se a roda de conversa ficar em silêncio, tome a iniciativa de falar, sugere Reinaldo Polito.

- Não se apresse em contar histórias. Comece com perguntas sobre conquistas e viagens do outro, algo que tenha a função de fazer as pessoas se manifestarem.
Se faltar assunto, inspire-se no ambiente e no momento, indica o consultor empresarial Luís Sérgio Lico.

- Se não há nada a falar ou fazer, observe a pessoa, o ambiente e a ocasião, e faça um comentário – afirma.

Colecione pequenas histórias
Ter à mente histórias curtas e atraentes pode tornar uma conversa mais interessante. O consultor Reinaldo Polito aconselha que todos guardem a própria “coleção de histórias”.

- Procure contá-las para os mais íntimos. Se notar que têm impacto, passe a usá-las em outros ambientes. Mas veja se o contexto é apropriado e a narrativa, útil à discussão.

Não estique “temas curingas”
Muita gente acompanha futebol, é capaz de falar sobre o clima e deve ter ouvido a notícia que foi divulgada na TV com insistência. Pela alta probabilidade de formarem o senso comum, “assuntos curingas” são pretextos para iniciar e desenvolver conversas.
Cuidado, todavia, para não se alongar demais neles. Têm curto efeito, dão pouca margem à continuidade da conversa e podem estimular o preconceito sarrista, se a pessoa for fanática por algum time, religião ou partido.

Adapte o vocabulário ao ouvinte
Privilegie o vocabulário do grupo com que interage. Com colegas de trabalho, a linguagem corporativa; entre acadêmicos, algo mais conceitual; com familiares e amigos, cumplicidade. Não use uma variante de linguagem em vez de outra. E busque a variante do idioma adequada. Luís Sérgio Lico sugere atenção redobrada a certas ocorrências linguísticas: rotacismo (”probrema”), pleonasmo (”conviver junto”, “encarar de frente”), gerundismo (”vou estar passando o recado”), equívocos de pronúncia (”piula”, “enlarguecer”, “mulé”) e de concordância (”menas”).

Não atropele a conversa
Um diálogo se desenvolve melhor se nos detemos num tema por mais tempo, em vez de mudarmos de assunto a cada instante.

Busque pular de uma questão a outra só quando sentir que ela se esgotou e não há nada mais a ser dito.

Enquanto fala sobre uma questão, imagine temas oportunos para a sequência, para que o salto entre um e outro não pareça brusco demais.

Evite lançar um comentário sem saber aonde quer chegar com ele.

A hesitação pode interromper o raciocínio de ambos e criar silêncios que não queremos.

Não conte vantagem
A arrogância pode ter efeito destruidor num bate-papo. Para o consultor Luís Sérgio Lico, é preciso cuidado com respostas que ofendam ou indiquem superioridade.

- Humildade é uma erva fina no tempero, seja da conversa amena até os mais requintados discursos – explica.

Agir com isenção e propriedade pode não garantir a defesa de um ponto de vista, mas inspira respeito, diz o consultor, e valoriza a própria imagem.

Discorde sem constranger
Não basta tratar temas com propriedade, deve-se adequar o tom ao tipo de ouvinte. Comentários axiomáticos, definitivos (”essa conversinha de médico é um saco”, “o brasileiro é corrupto”, “detesto quem fala desse jeito”), podem indicar preconceito ou criar referência grosseira para o resto do diálogo: as respostas do ouvinte assumem a rispidez de quem fala com ele.

É preciso cuidado para não fazer generalização desmedida ou impor comparações insustentáveis. Evite contradizer alguém de cara. Elogie um ponto menor da argumentação do outro antes de entrar de sola com uma discordância.

Tipos de conversa
Como conversar em diferentes situações de comunicação cotidiana
Conversa fiada

Conversas informais são marcadas por interrupções (quebras de turno conversacional). Há entradas de novas locuções sem que cada falante tenha concluído a sua. Conversas assim são discursos para atender à pura necessidade de aproximação social.

- Mesa de bar, por exemplo, é um perigo. A bebida acaba por deixar a língua mais solta. Por isso, fique atento aos comentários sobre quem não esteja participando da conversa. É melhor ser discreto e evitar riscos – aconselha o consultor Reinaldo Polito.

Debate argumentativo
Há conversas informais em que o confronto de ideias e argumentos faz repensar o cotidiano e as práticas humanas. Essas são cravadas pelo debate argumentativo, em que os interlocutores procuram não atropelar a vez do outro e argumentar após suas considerações.

No ambiente de trabalho
Organizações são entes jurídicos que se manifestam por pessoas que velam por sua cultura interna. É preciso saber qual a cultura local em ambientes monitorados para evitar constrangimento e má interpretação. Para Reinaldo Polito, se um colega sonda sua vida (se quer saber quanto você ganha, tem aplicado ou gastou nas férias), pega-se um tópico da conversa e muda-se de assunto.

- Se a pergunta for sobre gastos da viagem, diga: “Ficamos duas horas no aeroporto sem saber se embarcaríamos. Você já teve atrasos que afetaram a viagem?” Até o interlocutor narrar seu último atraso de voo, a pergunta foi esquecida – diz.

A hora da piada
A boa piada pode ser desastrosa se enunciada num contexto inadequado. Por isso, é preciso cuidado redobrado com o humor cáustico ou chulo: nem todo tema permite o escracho e nem todo ouvinte vai interpretá-lo como se deseja.

- Humor é sempre o melhor recurso para tornar uma conversa agradável. Se o nível dos interlocutores for baixo, o humor deve ser explícito, exagerado, para não deixar dúvida de que se trata de brincadeira. Se os interlocutores tiverem bom nível, a brincadeira pode ser subentendida, com uso de ironias finas – explica Reinaldo Polito.

31/03/2009 - 15:52h Sarkozy fala errado em francês, mas os jornais de lá corrigem antes de publicar

Interessante artigo publicado no portal Rue89. O tema é a repetição de erros nas falas do presidente da França. O “chiquerrrrrimo” Sarkozy massacra a língua de Molière.

Mas o que acontece com as frases mal construídas, com sintaxes erradas e outros desastre gramaticais das falas presidenciais francesas?

Os jornais simplesmente as escrevem corretamente, corrigindo os erros.

Mas, não seria o caso de reproduzir tal qual, -pergunta a jornalista- insinuando que esse erros são cometidos para bancar o homem da rua, o igual a você. É que Sarkozy tem diploma, governa a “culta” França e os erros podem ser uma tentativa de passar por homem do povo. Mas a mídia da França não deixa passar os erros gramaticais do presidente. A daqui também não, mas o motivo é outro.

E pensar que aqueles que ficam zombando de nosso presidente, sonham com um presidente reconhecido pelo seu diploma… na Sorbonne!
LF

Les médias doivent-ils réécrire Sarkozy quand il fait des fautes?

Par Guillemette Faure | Rue89

Parfois, le président Nicolas Sarkozy massacre la langue française. Le week-end dernier, Le Parisien a publié un petit best-of de ses dernières trouvailles syntaxiques.

Par exemple, défendant le bouclier fiscal devant des ouvriers d’Alstom, dans le Doubs :
« Si y en a que ça les démange d’augmenter les impôts… »
Ou alors parlant des études des élites :
« On se demande c’est à quoi ça leur a servi ? »
Plus couramment, il ampute la moitié des négations, comme dans :
« J’ai pas été élu pour augmenter les impôts. »

Petites corrections

Or que se passe-t-il quand Nicolas Sarkozy est publié ? Son français est corrigé.

Quand Nicolas Sarkozy dit « j’ai pas été élu pour augmenter les impôts », Le Monde corrige en « je n’ai pas été élu ».

Puis « s’il y en a que ça démange d’augmenter les impôts » (Le Monde n’est quand même pas allé jusqu’à écrire « que cela démange »), La Tribune et Le Figaro remettent aussi le Président en français dans le texte.Sarko et ses fautes de langage

On pourra se dire que c’est l’usage de repeigner du français oral pour qu’il soit lisible à l’écrit. Parfois, quand un bout de phrase est trop incompréhensible, le journaliste peut s’en sortir d’un lâche « (…) », ou d’un recours au style indirect.

Tiens, par exemple à Rue89, pour présenter la vidéo de cet épisode, on écrit « Sarkozy se demande à quoi servent les études » plutôt que « Sarkozy se demande “c’est à quoi ça leur a servi” ».

Plus honnête de le publier tel quel ?

Mais n’y a-t-il pas deux poids, deux mesures ? Quand c’est la vraie France qui parle, la presse tend à laisser des vrais grumeaux d’authenticité, voire des « sic » attestant d’un article contenant des vrais morceaux de terroir.

Comme par exemple dans ce reportage du Monde sur les Contis :
»« C’est la faute à la globalisation, depuis Maastricht, tout s’est cassé la gueule », assure Bruno Feron à son vieux copain François Langny, 40 ans, dix ans de ‘Conti’ derrière lui. « Le gouvernement, de toute façon, il a des billes à droite, à gauche… », répond l’ami. « Surtout à droite, ouais… » »
Il y aurait une autre raison à reproduire les mots de Nicolas Sarkozy tels quels. Après tout, l’anglais écorché de George Bush en disait long sur son discours anti-élite, sur la façon dont ce fils de président, petit-fils de sénateur, avait voulu se réinventer en brave gars texan.

On peut aussi penser que Sarkozy bouscule la syntaxe pour jouer le type ordinaire. L’écrire tel quel, ce serait en rendre compte. C’est d’ailleurs ce que fait Jean Veronis sur son blog, quand il explique que Sarkozy marque un retour au parler popu, bien qu’il ait grandi dans des beaux quartiers. « M’enfin, m’ame Chabot ! », « les Français, s’y voulaient pas que j’réforme, y fallait pas qu’y votent pour moi ! »

06/01/2009 - 15:51h Novas regras

PASQUALE EXPLICA

Os acentos diferenciais de ‘pelo’, ‘polo’ e ‘pera’ já vão tarde!

PASQUALE CIPRO NETO
COLUNISTA DA FOLHA

O Acordo passou o facão nos acentos diferenciais. Mantiveram-se só os de “pôde” e “pôr”.
O diferencial de “pôde” é de timbre (fechado, no caso) e distingue “ele pôde” de “ele pode”.
O circunflexo da forma verbal “pôr” a distingue da preposição homógrafa (átona) “por”.
Os demais acentos diferenciais foram sumariamente eliminados pelo Acordo. Deixaram de existir as seguintes grafias: “pára” (do verbo “parar”), “pêlo/s” (substantivos), “pélo”, “pélas” e “péla” (do verbo “pelar”), “pólo/s”, “pôlo/s” e “pêra” (substantivos). Esses acentos se justificavam pelos correspondentes homógrafos átonos: “para” (preposição), “pelo” (combinação de preposição e artigo), “polo” (combinação arcaica de preposição e artigo) e “pera” (preposição arcaica).
Com exceção do acento na forma verbal “para”, os demais já vão tarde. O de “para” fará falta em alguns casos. Um título como “Trânsito pesado para Recife” será ambíguo, portanto não deverá ser publicado.
Por fim, uma novidade: é opcional o acento em “forma” (sinônimo de “molde”). É isso.

05/01/2009 - 15:29h Novas regras

PASQUALE EXPLICA

O adeus ao “chapeuzinho” de “creem”, “veem”, “enjoo”, “voo” etc.

PASQUALE CIPRO NETO – COLUNISTA DA FOLHA

O acento circunflexo também foi “golpeado” pelo Acordo. Um dos casos em que será preciso eliminá-lo é o das formas verbais “creem”, “leem”, “veem”, “deem” e correlatas (”descreem”, “releem”, “reveem”, “preveem” etc.), que se escreviam “crêem”, “lêem” etc.
Convém lembrar que as flexões verbais citadas pertencem aos verbos “crer”, “ler”, “ver”, “dar” e derivados (”descrer”, “reler”, “rever”, “prever” etc.), ou seja, não têm relação com os verbos “vir”, “ter” e derivados (”intervir”, “convir”, “sobrevir”, “provir”, “manter”, “deter”, “obter”, “entreter” etc.).
Isso significa que as formas “têm” e “vêm” (da terceira do plural do presente de “ter” e “vir”, respectivamente) não sofrem alteração, isto é, continuam com o chapeuzinho. Na flexão de verbos derivados de “ter” e “vir”, mantém-se a distinção entre a terceira do singular (”ele mantém”, “intervém”) e a terceira do plural (”eles mantêm”, “intervêm”).
Também não haverá mais circunflexo em “voo”, “enjoo”, “magoo”, “perdoo”, “abençoo”, “abotoo” e similares. É isso.

30/09/2008 - 12:57h Nova ortografia da língua portuguesa

http://www.mundocristao.com.br/blog/uploaded_images/letras-de-madeira2-752875.jpghttp://hsm.updateordie.com/files/2008/06/portunido.jpg

DEH OLIVEIRA colaboração para a Folha Online

Passados 18 anos de sua elaboração, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa promete finalmente sair do papel. Ou melhor: entrar de vez no papel. O Brasil será o primeiro país entre os que integram a CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa) a adotar oficialmente a nova grafia, já a partir do ano que vem.

As regras ortográficas que constam no acordo serão obrigatórias inicialmente em documentos dos governos. Nas escolas, o prazo será maior, devido ao cronograma de compras de livros didáticos pelo Ministério da Educação.

As mudanças mais significativas alteram a acentuação de algumas palavras, extingue o uso do trema e sistematiza a utilização do hífen. No Brasil, as alterações atingem aproximadamente 0,5% das palavras. Nos demais países, que adotam a ortografia de Portugal, o percentual é de 1,6%.

Entre os países da CPLP, já ratificaram o acordo Brasil, Portugal, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Ainda não definiram quando irão ratificar o documento Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor-Leste.

A assinatura desses países, porém, não impede a entrada em vigor das novas regras em todos os países, pois todos concordaram que as mudanças poderiam ser adotadas com a assinatura de pelo menos três integrantes da comunidade.

No Brasil, o acordo — firmado em 1990 – foi aprovado pelo Congresso em 1995. Agora, a implementação definitiva depende apenas de um decreto do presidente Lula, ainda sem data para ocorrer.

Mesmo assim, o MEC (Ministério da Educação) já iniciou o processo de adoção da nova ortografia. Entre 2010 e 2012 é o período de transição estipulado pela pasta para a nova ortografia passar a ser obrigatória nos livros didáticos para todas as séries.

Novas regras

O acordo incorpora tanto características da ortografia utilizada por Portugal quanto a brasileira. O trema, que já foi suprimido na escrita dos portugueses, desaparece de vez também no Brasil. Palavras como “lingüiça” e “tranqüilo” passarão a ser grafadas sem o sinal gráfico sobre a letra “u”. A exceção são nomes estrangeiros e seus derivados, como “Müller” e “Hübner”.

Seguindo o exemplo de Portugal, paroxítonas com ditongos abertos “ei” e “oi” –como “idéia”, “heróico” e “assembléia”– deixam de levar o acento agudo. O mesmo ocorre com o “i” e o “u” precedidos de ditongos abertos, como em “feiúra”. Também deixa de existir o acento circunflexo em paroxítonas com duplos “e” ou “o”, em formas verbais como “vôo”, “dêem” e “vêem”.

Os portugueses não tiveram mudanças na forma como acentuam as palavras, mas na forma escrevem algumas delas. As chamadas consoantes mudas, que não são pronunciadas na fala, serão abolidas da escrita. É o exemplo de palavras como “objecto” e “adopção”, nas quais as letras “c” e “p” não são pronunciadas.

Com o acordo, o alfabeto passa a ter 26 letras, com a inclusão de “k”, “y” e “w”. A utilização dessas letras permanece restrita a palavras de origem estrangeira e seus derivados, como “kafka” e “kafkiano”.

Dupla grafia

A unificação na ortografia não será total. Como privilegiou mais critérios fonéticos (pronúncia) em lugar de etimológicos (origem), para algumas palavras será permitida a dupla grafia.

Isso ocorre principalmente em paroxítonas cuja entonação entre brasileiros e portugueses é diferente, com inflexão mais aberta ou fechada. Enquanto no Brasil as palavras são acentuadas com o acento circunflexo, em Portugal utiliza-se o acento agudo. Ambas as grafias serão aceitas, como em “fenômeno” ou “fenómeno”, “tênis” e “ténis”.

A regra valerá ainda para algumas oxítonas. Palavras como “caratê” e “crochê” também poderão ser escritas “caraté” e “croché”.

Hífen

As regras de utilização do hífen também ganharam nova sistematização. O objetivo das mudanças é simplificar a utilização do sinal gráfico, cujas regras estão entre as mais complexas da norma ortográfica.

O sinal será abolido em palavras compostas em que o prefixo termina em vogal e o segundo elemento também começa com outra vogal, como em aeroespacial (aero + espacial) e extraescolar (extra + escolar).

Já quando o primeiro elemento finalizar com uma vogal igual à do segundo elemento, o hífen deverá ser utilizado, como nas palavras “micro-ondas” e “anti-inflamatório”.

Essa regra acaba modificando a grafia dessas palavras no Brasil, onde essas palavras eram escritas unidas, pois a regra de utilização do hífen era determinada pelo prefixo.

A partir da reforma, nos casos em que a primeira palavra terminar em vogal e a segunda começar por “r” ou “s”, essas letras deverão ser duplicadas, como na conjunção “anti” + “semita”: “antissemita”.

A exceção é quando o primeiro elemento terminar e “r” e o segundo elemento começar com a mesma letra. Nesse caso, a palavra deverá ser grafada com hífen, como em “hiper-requintado” e “inter-racial”.

Ortografias nova e antiga conviverão até 2012

Os estudantes dos ensinos fundamental e médio vão conviver com a dupla ortografia até 2012. Haverá três anos de transição desde a entrada em vigor das mudanças na escrita (a partir do ano que vem) e a obrigatoriedade de utilizar apenas a ortografia atualizada. A tolerância também será estendida para vestibulares e concursos públicos, cujas provas deverão aceitar como corretas as duas normas ortográficas.

As mudanças começarão a ser implementadas a partir dos primeiros anos de formação escolar. Em 2010, os livros destinados a alunos entre 1ª e 5ª séries das escolas públicas deverão conter apenas a nova ortografia. No ano seguinte, a regra valerá também da 6ª à 9ª série. No ensino médio, a medida tem início a partir de 2012.

‘Especialistas acham que é bom para os alunos conviverem com as duas regras, para compararem o que mudou’, afirma Rafael Torino, diretor de Ações Educacionais do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação). Por isso, o Ministério da Educação autorizou a publicação de livros para reposição com a nova ortografia, para todas as séries, já a partir do próximo ano.

O cronograma de implantação da nova grafia na rede pública foi estabelecido pelo FNDE com base no programa de compra para livros didáticos adquiridos pelo órgão e distribuídos a alunos das escolas públicas.

As compras ocorrem com pelo menos dois anos de antecedência. Em março foi aberto o processo de escolha do material para compra dos livros de 1ª a 5ª séries, cujos protótipos já devem ser apresentados na nova ortografia. No caso do livro didático, a legislação dispensa a necessidade de licitação. A escolha é feita com base na análise dos professores da rede de ensino público.

Conheça regras de acentuação do novo acordo ortográfico

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que entra em vigor em 2009, vai alterar a acentuação de algumas palavras, extinguir o uso do trema e sistematizar a utilização do hífen, entre outras mudanças significativas. No Brasil, palavras como “heróico”, “idéia” e “feiúra”, por exemplo, deixarão de ser acentuadas.

O livro “Escrevendo Pela Nova Ortografia” , feito pelo Instituto Houaiss em parceria com a Publifolha, apresenta o acordo na íntegra, com observações e explicações sobre o que mudou. Saiba mais sobre todas as mudanças e veja mais informações sobre o livro.

Veja a seguir as novas regras de acentuação para oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas, retiradas do livro.

(mais…)

07/09/2008 - 14:24h In hoc signo vinces

http://www.revistapiaui.com.br/images/2008/setembro/Artigo_738/artigos_img_topo_artigo.jpg

A tragédia de Romeu e Julieta recontada no português escorreito d’antanho e, na ilustração, no bárbaro internetês hodierno.

 


WALNICE NOGUEIRA GALVÃO – Revista Piauí

Em Verona, por obra de Cupido fulminífero, Julieta e Romeu se apaixonaram, conquanto de clãs em feudo. Como se viu, o solo do feudo, que se dizia sáfaro, era pingue.

Capuletos e Montecchios, senhores de baraço e cutelo de seus rebentos, ameaçaram potro e polé, com tonitruância. Debalde. Por isso, uma entente cordiale enterreirou o caso e extraiu o ucasse: ordálio para avaliar o casal de saberetes. O colendo cabido, de borla e capelo sobre bombazina e cheviote, começou pela dulcinéia, desferindo-lhe uma questão:

– Qual a diferença entre epistemologia e ontologia, tal como postulada pela escola fenomenológica?

A dulcamara respondeu, e bem. A nova questão, que tentou acapachar o suposto acapadoçado, coube ao pelintra:

– Serão acrofobia e oclofobia opostos, ou, ao contrário, podem tornar abilolado o mesmo degas com mania deambulatória?

Não contente de responder corretamente, Romeu ainda os profligou, em objurgatória bem temperada:

– Refuto a contumélia: cediça e epicena é tal questão, para não dizer es-drúxula e periclitante. Vossas munificências querem é procrastinar! Quanta androlatria feudal!

(Nisso, uma maçaroca cujo esturro em prolação desencarquilhava as aurifulgentes comas passou aos boléus no varote.)

O cabido tentou tergiversar, acusando Romeu de tosquenejar. Romeu obtemperou que por fás ou por nefas não se calaria. A protonotária, que executava uma varsoviana anapéstica, deu-lhe razão. O anspeçada batavo adrede auscultou a beletriz. O vavassalo protestou: “Bofé! Isso é vavavá, quando não vuvu!” Esclareça-se que ele não era tatibitate.

Observação vatídica: o fuzuê virou forrobodó. E foi a nota babélica: todos confundiam lumbago com quiasmo, zeugma com hemoptise, suarabácti com anaptixe. Que cizânia entre os doges de Verona! Que facúndia! Que salacidade! Quão pantafaçudos!

A essa altura, Romeu estava atacado de satiríase e Julieta tinha-se tornado vulgívaga. Convolando-se na calada da noite, decidiram fugir no vaticano com toda a palamenta, ucha onusta inclusive, soando o vatapu, em demanda de um tugúrio. E anatematizaram: “É tudo uma choldra!” Alvinitente, a lua dealbava. Ante o casal, prosternavam-se as passariúvas. Uma cáfila desfilava, enquanto algo invisível barria nas matas ciliares, sobre os rípios.

Bem o fizeram. Hodiernamente, pode-se dizer que nada tisnou o contubérnio de Romeu e Julieta, para sempre. Até coube-lhes uma conezia, devidamente subenfiteuticada, concedida como prebenda pelos Capuletos e Montecchios.

(Entretanto, lá atrás um parlapatão regougava: “Eu pertenço ao partido que tem por partido tirar partido de todos os partidos!”)