23/07/2008 - 18:06h Anomalias e FLAP em São Paulo

Anomalías y FLAP 2.0 08 por Alan Mills (blog Revolver)

{n} Siempre me he considerado un ser anómalo. Lo dije recién, en Guatemala, durante un conversatorio sobre la exposición Mundo Capitol y me quedé helado al ver a varias personas asintiendo desde el público. Ay. A veces esperas que te digan “no Alancito, usted es bien normal, mijito”. Pero no existe entidad más sincera que un público concentrado en lo que les estás hablando. Se los digo.

{ñ} Entonces, el ser anómalo debe hablar de su anomalía, integrarla a su universo, a la comunidad. Así se va entendiendo, haciendo entender. Pienso.

{o} Y tiene que conversar sobre otras anomalías, sus parientes, seres análogos, sus estímulos. Así se comunica. Intuyo.

{p} Este sábado 26 de 10:00 a 17:00 horas, en el espacio B_arco de arte contemporáneo en Sâo Paulo (rua dr. virgílio de carvalho pinto, 426), Ana Rüsche y yo impartiremos el taller ANOMALIAS: la enfermedad na tradiçâo. Conversaremos sobre diversos exponentes de las artes plásticas y la literatura contemporánea latinoamericana (de la década del 60 hasta hoy), obras que experimentan con elementos anómalos, híbridos, disonantes, cuyo impacto corroe las estructuras más previsibles, instalando un arte capaz de modificar su entorno.

{q} Serán comentados: El poeta Roberto Piva (Brasil), voz de la locura y los inadaptados, un blasfemo contra la ciudad hipócrita y decadente, a la que le confiere polaridades celestiales e infernales; la producción de los años 70 y 80 del artista plástico Cildo Meireles (Brasil), con la que ataca al régimen totalitario, construyendo obras en soportes “circulables”, como papel moneda, botellas retornables de Coca Cola, cuestionando también la distribución del arte a la población; el proyecto estético del CADA (Colectivo de Acciones de Arte), formado por Diamela Eltit, Raúl Zurita, Lotty Rosenfeld e Fernando Balcells, los cuales, entre 1978 e 1981, elaboraron propuestas artísticas interdisciplinarias desafiando la dictadura de Augusto Pinochet y ampliando de manera radical los limites de las artes; El tiempo principia en Xibalbá, novela de Luis de Lión (Guatemala). Se trata de la novela de una persona de origen maya, donde se desarrolla una visión extrema de la vida en una sociedad fragmentada y violenta, donde la sexualidad manifiesta toda su carga de poder y dominación; las crónicas de Pedro Lemebel (Chile), registro fiel de su posición como artista queer, irónicas y feroces piezas que desmantelan la moral burguesa chilena. Fundador del colectivo Las yeguas del Apocalipsis, Lemebel realizó diversas intervenciones urbanas; Los cuentos de Marcelino Freire (Brasil), escritor que desde los años 90 trabaja la oralidad de los que no tienen voz y de lo políticamente incorrecto, trazando en sus textos un lenguaje directo, que prescinde de ornamentos, discursos contradictorios, donde habla lo que no quiere ser escuchado; sobre los años 2000, serán presentados los trabajos de las artistas Alessandra Cestac (Brasil) y Regina Galindo (Guatemala), que exploran el propio cuerpo como material poético, exponiendo sus distorsiones, dolores y la usurpación de lo femenino, la usurpación de lo humano.

{r} Están todos invitados, incluso los que se sienten así más normalitos, pa’ que nos entiendan.

{s} Dentro de poco se dejará sentir una avalancha de sujetos poéticos (anómalos muchos de ellos) pelas ruas de Sâo Paulo. O festival latinoamericano de poesia, FLAP (1 al 8 de agosto), traerá a muchos amigos de América Latina para hacer lecturas y debatir sobre a poesia y los nuevos medios, cómo se transforma el habla poética en los nuevos soportes virtuales, el mundo de la web 2.0 y las relaciones entre poesía e mercado editorial, marketing y publicidad. A lingua oficial será o portuñol, el cual ya manejo a la perfección. Según la nota de Elisa Andrade Buzzo “a programação inclui debates sobre música (”Zona Franca v: o rap atura a literatura (e vice-versa)”, se destaca a presença em massa de latinos, com mais de vinte escritores (Alan Mills, da Guatemala; Héctor Hernández Montecinos, do Chile; Virginia Fuente, da Argentina; Ernesto Carrión, do Equador; Rodrigo Flores, do México, dentre outros), além dos convidados brasileiros, alguns deles já presentes em outros anos”. Por ahí andaremos, entonces, celebrando la palabra, again.

{t} Viva la conexión! Até mais, caras.

Imágenes: Alessandra Cestac, Cildo Meireles, ww.literaturaguatemalteca.org, fragmento de Purgatorio y afiche de la FLAP por Jozz.

20/07/2008 - 11:23h Antonio Candido, o mestre (IV)

A imagem “http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/dezembro2006/fotosju346-online/ju346pg06a.jpg” contém erros e não pode ser exibida.Em 2004, após a derrota de Marta Suplicy nas eleições municipais, Antonio Candido, apoiador da petista, deu uma entrevista a Folha. Reproduzo a primeira pergunta e a resposta de Antonio Candido.

Folha - Qual a sua avaliação da derrota da prefeita Marta Suplicy?


Antonio Candido -
A mim, como petista, não interessa apenas a vitória. Interessa indagar se o mandatário cumpriu o seu dever à luz dos princípios do partido. Creio que a prefeita Marta cumpriu o dever dela como petista, e isso para mim é muito confortador. Porque ela deu uma orientação democrático-popular ao governo. Não precisa nem enumerar as medidas que beneficiaram os mais pobres -tanto que teve uma votação muito expressiva nas áreas mais pobres da cidade.
É claro que ela não pôde fazer tudo que gostaria, e sobretudo tudo que precisaria fazer, porque uma cidade como São Paulo é dificílima de administrar. Mas deixou bem claro qual era a linha do que faria se reeleita. Isso é uma garantia de futuro. Para mim, uma garantia de que seria uma administração de acordo com os princípios do meu partido.
Os menos favorecidos da cidade de São Paulo vão sentir muito a falta da Marta.

Segue a integra da entrevista

(more…)

20/07/2008 - 10:53h Antonio Candido, o mestre (III)

Foto: ALAN RODRIGUES

As lembranças, os marcos e as principais obras do professor

Um olhar sobre a carreira, das leituras da adolescência à redefinição da crítica literária no Brasil

O Estado de São Paulo

Frases

“Eu diria que depois da minha família e da USP, a terceira grande coisa na minha formação foram meus amigos do grupo de Clima. Nós temos plena consciência de nos termos formado uns aos outros.”

“Vendo as coisas de hoje, percebo que desde logo tive o pendor crítico, não apenas porque sempre gostei de ler os críticos, mas porque assumi instintivamente a atitude crítica. Dos 12 aos 14 anos eu fazia antologias próprias, em cadernos escolares: copiava trechos e depois compilava dados biográficos e apreciações sobre os autores.”

“Nunca tive um método de trabalho. Sou intermitente em matéria de escrita e flutuante em matéria de leitura. Há estações em que trabalho intensamente, outras em que fico na maior inércia. Acho que algumas das coisas que me ajudaram na vida intelectual foram justamente a flutuação, a dispersão, a leitura onívora.”

“Eu não desgostava das ciências sociais e a certa altura passei a gostar mais de antropologia que de sociologia, mas gostava muito mais de literatura. Mas a sociologia foi fundamental na minha formação, na medida em que condicionou a minha visão da sociedade e a minha reflexão política.”

Cronologia

1918
Antonio Candido de Mello e Souza nasce no Rio, mas passa a maior parte da infância em Santa Rita de Cássia, Minas Gerais

1928
Faz sua primeira viagem à Europa, onde permanece por dois anos

1939
Ingressa na Faculdade de Direito da USP. Cursa, ao mesmo tempo, Filosofia

1941
Lança, ao lado de Decio de Almeida Prado, Lourival Gomes Machado, Paulo Emilio Salles Gomes, Ruy Coelho e Gilda de Moraes Rocha, com quem se casaria, a revista Clima

1945
Publica críticas literárias nos jornais Folha da Manhã e Diário de São Paulo

1956
Circula o primeiro número do Suplemento Literário do Estado, caderno idealizado por Antonio Candido

1957
Torna-se professor de literatura brasileira em Assis, no interior de São Paulo, onde fica dois anos

1959
Publica Formação da Literatura Brasileira

1961
Inaugura a cadeira de Teoria Literária na Universidade de São Paulo

1980
Participa, ao lado de intelectuais como Sergio Buarque de Holanda, da fundação do Partido dos Trabalhadores

1998
Recebe, dias antes de completar 80 anos, o Prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa, concedido anualmente
pelo governo de Portugal

2003
Recebe o prêmio Professor Emérito - Troféu Guerreiro da Educação, entregue pelo Centro de Integração Empresa-Escola (Ciee) e o Estado a professores que se destacam no exercício
do magistério

Os livros

FORMAÇÃO DA LITERATURA BRASILEIRA: Estudo do Arcadismo e do Romantismo, considerados pelo autor decisivos para a formação do que denomina “sistema literário”, a articulação de autores, obras e públicos de maneira a estabelecer uma tradição.

PARCEIROS DO RIO BONITO: Reconstrução histórica da sociedade caipira, abrange desde as relações sociais básicas até os meios elementares de subsistência, com intuito de analisar como a expansão da economia capitalista descaracteriza a vida rústica tradicional.

LITERATURA E SOCIEDADE: Aqui, o autor defende que a obra literária deve sempre ser estudada como objeto estético e analisa como as possíveis relações entre a literatura e a sociedade em que se insere podem interferir na definição do papel do crítico literário.

INICIAÇÃO À LITERATURA BRASILEIRA: Repassando desde o século 16 a produção brasileira, o autor mostra como a literatura foi-se formando como atividade regular e instituição de cultura, dada a articulação progressiva de elementos que a tornaram atividade configurada.

TESE E ANTÍTESE: No livro, são analisadas as “personalidades divididas” e contraditórias na obra de romancistas que pertencem a diferentes literaturas, como o francês Alexandre Dumas, o polonês Joseph Conrad e os brasileiros Graciliano Ramos e Guimarães Rosa.

Entre coletâneas e edições originais, a maior parte da obra do professor Antonio Candido continua em catálogo. Abaixo, uma lista de títulos, publicados pela editora Ouro Sobre Azul, com apenas algumas exceções:

Um Funcionário da Monarquia
O Método Crítico de S. Romero
O Observador Literário
Teresina Etc.
O Albatroz e o Chinês
Brigada Ligeira
O Discurso e a Cidade
A Educação pela Noite
Ficção e Confissão
Na Sala de Aula (Ática)
Florestan Fernandes (Fundação Perseu Abramo)
A Personagem de Ficção (Editora Perspectiva)
Recortes
Vários Escritos
O Estudo Analítico do Poema (Editora Humanitas)

20/07/2008 - 10:47h Antonio Candido, o mestre (II)

Um mestre digno de admiração

Dono de um espírito democrático, ele manteve, ao longo da vida, a capacidade de provocar e inspirar

http://www.cultura.mg.gov.br/arquivos/Gabinete/Image/antoniocandido_materia.jpg

Samuel Titan Jr. - O Estado de São Paulo


A certa altura de Formação da Literatura Brasileira (1959), quando se prepara para discutir o aparecimento da ficção romântica como “instrumento de descoberta e interpretação” do País, Antonio Candido dedica alguns parágrafos discretos a Machado de Assis. Observa que o trio romântico realizara uma obra admirável de importação do romance europeu, num exercício de dupla fidelidade - uma “fidelidade dilacerada, por isso mesmo difícil” - em que muitas vezes situações narrativas européias, imitadas com devoção, entravam em conflito com circunstâncias brasileiras, registradas com o mesmo empenho.

O resultado - desigual por definição - desse esforço da geração de Alencar, Macedo e Manuel Antônio de Almeida bem podia ter caído no vazio tão logo a voga romântica foi substituída pela “última novidade ultramarina” - como de fato se deu, sempre segundo Candido, com o advento do romance naturalista. É quando entra em cena Machado de Assis, “esse mestre admirável” que “se embebeu meticulosamente da obra dos predecessores”. A sua obra “pressupõe a existência dos predecessores”, na medida em que Machado se dedicou a “assimilar, aprofundar, fecundar o legado positivo das experiências anteriores”.

A observação, breve mas certeira, posiciona Machado numa tradição local sem reduzi-lo a esta e sugere que seu gênio consistiu menos em “começar da capo” do que em repensar e reescrever o legado do passado. Nesse sentido, Machado é o vértice secreto de Formação (por mais que esta se detenha em 1880, um ano antes das Memórias Póstumas de Brás Cubas), na medida em que o escritor fluminense consuma, superando-o, o esforço de seus predecessores “em seu desejo de ter uma literatura” e dar forma à sua experiência histórica e humana.

Ora, essas fórmulas, que iluminam Machado de Assis, iluminam também a figura desse seu leitor, Antonio Candido, no campo da crítica e da história literária. Imagino que ele, homem discreto, recuse a comparação e acuse a hipérbole. Pode ser. Mesmo assim, é o caso de notar como as idéias mestras de continuidade, aprofundamento e formação parecem ter norteado também o trajeto do crítico desde muito antes do ensaio de 1959: seja no empenho de autoformação levado a cabo pelo rapaz estudioso de que falam os testemunhos biográficos, seja na minúcia com que se “embebeu” (para usar o verbo que aplica a Machado) dos séculos 18 e 19, seja no tema de sua tese de doutorado, o crítico Silvio Romero - escolha das menos glamourosas, mas ditada por uma espécie de senso de missão intelectual.

Mais que isso, assim como Machado prolongava e reescrevia, em modo irônico, o melhor da ficção anterior, assim também Candido repensa o curso da literatura brasileira num espírito que não tem nada de conservador ou continuísta, operando antes sob o signo da vida contemporânea - que contém, no caso, os ingredientes do modernismo, do socialismo e das ciências sociais - estudadas, não por acaso, nos anos de formação da Universidade de São Paulo.

Para dar um exemplo central desse espírito crítico, vale lembrar como a própria fórmula da Formação da Literatura Brasileira vai na contramão da historiografia romântica (ao contrário do que pensam certos críticos) e desnaturaliza seu objeto e seu método. Se a convenção romântica fazia remontar a literatura nacional a alguma data em torno de 1500 - como se nada dificultasse a identidade de natureza, território, nação e literatura -, Candido começa justamente por se perguntar como e quando uma vida literária consistente começa a ganhar contornos diferenciados a partir de uma experiência histórica idem.

Não bastasse isso, o livro de Candido dá mais um passo decisivo, pois essa história sociologicamente informada da formação de uma literatura nacional é também a história da constituição no Brasil de uma esfera de autonomia das formas artísticas - uma esfera que, sendo autônoma e consistente, ganha também uma dinâmica própria e já não se deixa explicar nos termos simplistas de uma sociologia da literatura.

O problema já o interessara em sua tese de sociologia “dura”, Os Parceiros do Rio Bonito, que começara como estudo de uma forma de poesia e dança popular, o cururu, que aos poucos parecia se desligar de suas origens coletivas e coreográficas para ganhar contornos mais individualizados e desritualizados. Mas, para ficar no âmbito da literatura “culta”, note-se como a essa luz o vértice machadiano da Formação ganha todo seu sentido, ao mesmo tempo que se vislumbra a importância formativa que a literatura pós-1922, de Mário e Oswald a Drummond e João Cabral, teve para Candido.

Seria possível prosseguir adiante, comentando os vários desdobramentos e aspectos desse modo de praticar e viver a crítica: a noção fecunda de uma dialética entre o interno e o externo na constituição da obra de arte - idéia que ultrapassa a pecha corrente de “crítica sociologizante”; o estilo generoso de tantos ensaios do autor, que parecem menos preocupados em esgotar narcisicamente seus objetos do que em plantar marcos de orientação para leitores e críticos futuros; ou conceitos específicos, como o de “dialética da malandragem”, capaz de iluminar um aspecto da vida social brasileira, um romance de Manuel Antonio de Almeida e, de quebra, os dribles de um Garrincha (como há pouco sugeriu José Miguel Wisnik em Veneno Remédio).

Fazendo isso, creio que chegaríamos, por vias diversas, a uma mesma constatação: com a obra de Antonio Candido, a crítica e a historiografia literária brasileiras cumprem seu processo de formação e chegam à maioridade. Não porque com ele cheguem a seu termo ou verdade última, longe disso, e sim porque a obra e a atuação de Candido constituíram definitivamente um campo de discussão e dissensão capaz de ficar em pé sobre as próprias pernas, desobrigado de abandonar suas questões e perspectivas próprias a qualquer brisa ou ventania que venha a soprar.

Mas mostrar tudo isso com minúcia ultrapassaria os limites desse artigo, que de resto já ficou longo e sisudo demais. Homenagem sisuda não vale. O que vale é celebrar a conjunção ímpar de literatura, dialética e espírito democrático nessa figura que, aos 90 anos, não perdeu nada do interesse e da capacidade de provocar e inspirar.

Prova disso, para terminar, é uma anedota que, se não for verdadeira, é bene trovata e que talvez não desagrade ao mestre admirável e humorista emérito. Em algum momento dos anos 80, já aposentado, Antonio Candido vai dar uma conferência num auditório da Unicamp. No meio da platéia, um casal de calouros apaixonados não faz muito caso da palestra sobre poesia romântica brasileira e prefere beijar-se prolixamente. Conforme a hora avança, os dois vão se interessando, seguram o fogo e começam a prestar atenção. Logo estão totalmente siderados. Ao final, em meio às palmas, a moça entusiasmada cutuca o rapaz e decreta: “Não é que o velhinho leva jeito!?”

Samuel Titan Jr. é tradutor e professor de literatura comparada da USP

Mensagens de Parabéns

“Antonio Candido é um raro exemplo, em nossa crítica, de um olhar simultaneamente atento ao contexto da obra e aos elementos formais que a constituem - não como reflexo, mas como réplica particularizada ao campo social de onde surgiu. É nesse fecundo trânsito/diálogo entre componentes externos e a transfiguração intrínseca do literário que se articula o discurso de Candido. Mas, paralelamente à erudição e à consistência argumentativa do historiador na clássica Formação da Literatura Brasileira, convém não esquecer suas perspicazes leituras de autores estrangeiros e a acuidade interpretativa no trato pontual de textos, a exemplo das interpretações compiladas em Na Sala de Aula, em que a microscopia do poético é desvelada com argúcia e sensibilidade.”
ANTONIO CARLOS SECCHIN
POETA E ENSAÍSTA

“Antonio Candido trouxe para o âmbito dos estudos literários no Brasil as contribuições mais atualizadas e inovadoras das ciências humanas internacionais a partir de meados do século 20. Além da sociologia, da história e da filosofia, suas análises e cursos incorporaram temas e procedimentos da antropologia e da psicanálise e, já entre os anos 60 e 70, da lingüística. Isso para não falar das próprias correntes da teoria literária. Porém, tais ventos renovadores nunca viraram moeda fácil nem modismo descartável nos textos e aulas do mestre. Pois sempre nos ensinou, e este é o ponto crucial, a começar e a terminar qualquer estudo de obra literária por sua leitura mais atenta e amorosa. Trata-se aqui muito mais de uma atitude, de postura que envolve ética e política em seus mais elevados sentidos, coisa que não se ensina e não se aprende nem com pressa nem com pressuposição, mas com a lenta e erudita frequentação das diferentes vozes da poesia e da ficção, projeto de várias vidas.”
FRANCISCO FOOT HARDMAN
PROFESSOR DE TEORIA LITERÁRIA DA UNICAMP

“Antonio Candido formou várias gerações de grandes críticos brasileiros. Um deles, Davi Arrigucci Jr., escreveu um ensaio definitivo sobre o método crítico de Candido: Movimentos de Um Leitor. Entre outras questões, Davi ressalta a relação da dimensão social com a linguagem. Ou seja, a forma e o conteúdo histórico são inseparáveis numa obra literária. Daí a importância do crítico AC como leitor perspicaz e privilegiado, capaz de aprofundar a compreensão do texto. Essa capacidade de ler e interpretar, que une intuição com erudição e análise, é um dos movimentos mais fascinantes da leitura crítica de Antonio Candido.”
MILTON HATOUM
ESCRITOR

“Embora seja difícil avaliar a atualidade de qualquer trabalho de crítica literária, é inegável que a contribuição de Antonio Candido continua válida e instigante em pelo menos três níveis. Como professor, foi o principal responsável pelo êxito da virada universitária no que era chamado de estudos literários. Como historiador, instituiu uma organização de autores & obras que, polêmica ou não, determinou um cânone. Como explicador de textos, nos doou um aparato metodológico ágil e útil de leitura.”
SILVIANO SANTIAGO
ESCRITOR E ENSAÍSTA

“Ele nos dá a lição da leitura minuciosa, da comunicação clara, da busca pelo exemplo que possa representar o todo e, principalmente, da tentativa de uma visão sistemática dos caminhos da literatura brasileira. Talvez tenha sido o último de uma geração anterior ao divórcio entre a crítica de rodapé e o manual acadêmico. No calor da primeira hora, não evitou os novos e conseguiu produzir visões reveladoras dos clássicos. Sua lição maior? A de que não há por que tomar o texto isoladamente, fora da relação entre o esforço singular e o pacto coletivo que o torna texto literário. Ele oferece ao leitor o raro exemplo da aliança entre o apuro da forma, a relevância do tema e a síntese de processos sociais. Com Antonio Candido parece fácil mostrar como a literatura, o direito à literatura, é parte fundamental do exercício da nossa cidadania.”
JOSÉ LUIZ PASSOS
DIRETOR DO CENTRO DE ESTUDOS BRASILEIROS DA UNIVERSIDADE
DA CALIFÓRNIA

“Na cultura da cordialidade, em que as polêmicas literárias prosperam, sempre reconduzindo o modelo dos nossos primeiros críticos da Escola do Recife, com seu estilo bacharelesco e seu veneno do repente nordestino, Antonio Candido é hoje um exemplo de sobriedade. Não se trata de uma virtude moral, mas de uma qualidade propriamente crítica. Quando não replica a O Seqüestro do Barroco, argüição irônico-cortês que lhe dedica Haroldo de Campos, nos anos 80, essa recusa do princípio do duelo é para nossa crítica um decreto de maturidade.”
LEDA TENORIO DA MOTTA
CRÍTICA LITERÁRIA E TRADUTORA, PROFESSORA DA PUC-SP

“Ao lado de Augusto Meyer, Antonio Candido foi o primeiro que, entre nós, usou sistematicamente da combinação entre sensibilidade e percepção crítica. A aludida combinação é rara, pois supõe o enlace de um reconhecimento o quanto possível imediato de qualidade - a sensibilidade - com uma compreensão da obra, que exige mais do que contato apenas com o literário. Por isso ela é indispensável para que a palavra do crítico se insira no debate crítico - o que não se dá quando o crítico possui apenas ou sensibilidade ou percepção crítica. Acrescento um dado pessoal: ainda quando discorde de posições críticas de Antonio Candido, não esqueço de sempre acentuar que, depois do golpe de 1964, só pude continuar a sobreviver como professor porque ele me aceitou como seu orientando. No Rio, onde vivia, não era aceito para fazer pós-graduação sob a alegação de que fora cassado pelo AI-1.”
LUIZ COSTA LIMA
CRÍTICO LITERÁRIO

“Antonio Candido é importante para a crítica, ainda hoje, justamente enquanto “crítico literário” de fato, isto é, alguém que lê um livro com gosto, analisa-o minuciosamente como objeto particular, e está disposto a produzir um juízo de valor a seu respeito, tendo em vista a sua composição própria e o seu lugar num vasto repertório literário, com o qual o crítico mantém relação de freqüentação assídua e envolvida.”
ALCIR PÉCORA
PROFESSOR DE TEORIA E CRÍTICA LITERÁRIA DA UNICAMP

“Vale lembrar que a importância maior de toda a obra de Antonio Candido é que ele entende a literatura como a ?arma? com a qual defende a dignidade humana.”
OLGÁRIA MATOS
FILÓSOFA

“Tratando-se de Antonio Candido, a expressão “iluminação crítica” não é fórmula batida: corporifica o rigor de uma ética militante e de um método de interpretação em que o empenho racionalista comanda a investigação combinada das produções culturais e dos contextos sociopolíticos. As tensões movem o crítico sensível, mas não contorcem seu discurso: o equilíbrio do estilo, que Candido faz parecer natural, ajuda a compreender como a particularização artística e a dinâmica social iluminam-se reciprocamente.”
ALCIDES VILLAÇA
PROFESSOR DE LITERATURA BRASILEIRA NA USP

20/07/2008 - 10:25h Antonio Candido, o mestre (I)

antoniocandidoestadao.jpg


Antonio Candido, 90 anos

Considerado o maior crítico literário do País, o autor de Formação da Literatura Brasileira ganha documentário sobre sua vida na semana do seu aniversário

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de São Paulo

Apesar de ter aprendido a ler, ainda pequeno, em livros sobre mitos germânicos, o professor de literatura Antonio Candido, que completa 90 anos na quinta-feira, sempre manteve distância cautelosa da mitologia. Ele até imaginou, numa antiga entrevista, como iriam falar dele no futuro, quando se contasse os primórdios da sociologia na Universidade de São Paulo. Irônico, imitou o estilo de seus biógrafos - ou hagiógrafos - ao tentar descrevê-lo como “um professor que se caracterizava pela capacidade de especialização e pela profundidade”, lembrando que, quanto mais escuta o que se conta sobre sua época, tanto mais entende como se constrói a história. Ou o mito. Candido, mais conhecido como crítico literário, nunca se considerou um especialista e jamais se arrependeu de ter feito o curso de Ciências Sociais. Foi, segundo ele, a coluna vertebral de sua visão de mundo - literária, inclusive - e credita seu interesse na área ao amigo Florestan Fernandes, cujo filho, Florestan Fernandes Jr., acaba de dirigir um documentário sobre ele, que vai ao ar pela TV Brasil, na quinta, às 22 horas.

Como de costume, Antonio Candido é a figura central, mas só aparece em gravações antigas. Há muito não concede entrevistas e não abriu exceção nem para o filho do amigo Florestan, que teve de recorrer a entrevistas gravadas há alguns anos e convocar os amigos para falar dele. E são muitos. Quatro deles participaram na última segunda-feira, no teatro da USP, de um debate em que analisaram o papel fundamental que os livros Formação da Literatura Brasileira (1957) ou Os Parceiros do Rio Bonito (1964) tiveram na vida intelectual do País no último meio século: a professora de literatura Walnice Nogueira Galvão, o historiador Carlos Guilherme Motta, o sociólogo Francisco de Oliveira e o jurista Fábio Konder Comparato.

Candido apareceu nesse debate tanto como o professor que tirou do limbo autores antigos (Gregório de Matos, entre eles) quanto o crítico que contribuiu para criar a revista Clima e o Suplemento Literário do Estado, revelando novos escritores (Clarice Lispector, por exemplo), além de ser lembrado como o militante político que ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores (PT) em fevereiro de 1980. Antonio Candido teria gostado de ouvir episódios de uma vida marcada por fatos pitorescos e amizades com os maiores intelectuais que este país já teve, de Mário de Andrade a Sérgio Buarque de Holanda, passando por Paulo Emílio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado, Lourival Gomes Machado e Ruy Coelho.

Entre os episódios engraçados, um que não foi contado durante o debate - seu exame vestibular para a Faculdade de Filosofia-, talvez seja o mais conhecido. Fazia parte da banca o sociólogo francês Roger Bastide, que lhe perguntou qual era a importância sociológica de uma ilha (”une île”), ou seja, qual a importância do isolamento, que segrega os grupos. Ele entendeu como “la importance sociologique du Nil”, tratando logo de discorrer sobre a importância do transbordamento do Rio Nilo para a formação de comunidades no Egito. Bastide deu corda e Candido poderia ter falado horas sobre as cheias do Nilo, não fosse interrompido pelo presidente da banca, o italiano Luigi Galvani. Se isso não provou a verve sociológica de Candido, ao menos ficou como registro de uma tremenda vocação literária. Bastide, que não ligava para a especificidade da ciência sociológica, gostou, mas sua maior influência na faculdade seria o professor Jean Maugüé, que recomendava a seus alunos a leitura de Shakespeare e Dostoievski, além do estudo dos escritos de Marx, ortodoxo comunista que era.

Por causa do curso de Mangüé, Candido viria a se tonar militante do Partido Socialista Brasileiro e participante do Grupo Radical de Ação Popular, que, em 1942, espalhou panfletos contra a ditadura do Estado Novo, condenando-a por manter um posicionamento neutro com os países do Eixo até Vargas ser obrigado a romper relações diplomáticas com o nazi-fascismo. Um ano depois, Candido e outros jovens formados em Direito organizaram uma Frente de Resistência e, em 1944, por iniciativa do amigo Paulo Emílio Salles Gomes, criador da Cinemateca Brasileira, essa frente manteve contato com um grupo de comunistas dissidentes que discordavam do apoio do PC a Vargas. Entre eles estava Caio Prado Júnior, lembrado pelo historiador Carlos Guilherme Motta, no debate da USP, como um dos representantes da oligarquia, da “gauche elegante”, que refletiu sobre as desigualdades do Brasil. Candido seria, segundo ele, o limite do pensamento radical da classe média que freqüentou a Faculdade de Filosofia, apesar de o crítico sempre ter se definido como “desprovido de cabeça política”. Tendo convicção e princípios, não sabia transformá-los em ação, disse numa entrevista, revelando ter um um fundo de ceticismo que “atrapalha os ímpetos da militância”.

Essa modéstia não impediu, diz o professor de sociologia Francisco de Oliveira, que Candido fornecesse os instrumentos sensoriais para interpretar o Brasil, destacando seu papel cultural nas transformações políticas do País, em especial com Os Parceiros do Rio Bonito, livro que evita olhar a realidade brasileira de maneira mecânica, buscando entender as relações de uma sociedade caipira em confronto com os valores da civilização urbana que a levam ao isolamento. Quem quiser estudar a história social do Brasil, terá necessariamente de passar por essa literatura. Antonio Candido é incontornável.

10/07/2008 - 18:50h Volta de Paraty

http://lunettesrouges.blog.lemonde.fr/files/librarian_arcimboldo.jpg

CONTARDO CALLIGARIS - FOLHA SP


Um romance interior, diferente para cada um, responde às perguntas que surgem na infância


DE QUARTA a domingo passados, participei da Festa Literária Internacional de Paraty -a Flip.
De alguns escritores presentes, eu já tinha lido um livro ou mais. Quanto aos outros autores, nas últimas semanas, encurtei minhas noites para conhecer ao menos o sabor de sua ficção. A bancada de meu escritório se cobriu de volumes inchados pelas orelhas das capas, com as quais eu marcava o progresso da leitura, e, ao redor de minha cama, espalharam-se em permanência dez livros abertos.
A essas leituras fragmentárias, acrescentaram-se, ao longo da Flip, os trechos lidos por cada autor.
Não sei quantas dessas histórias acabarei lendo por inteiro. A vida continua, e novos livros me levarão consigo. Mas, até das obras que não terminarei de ler, algo permanecerá -sem que eu saiba necessariamente o quê.
Os livros folheados, sondados, lidos às pressas e apenas em parte, os trechos ouvidos e mesmo os relatos de quem me contou de suas leituras -tudo isso alimentará (já alimenta), de uma maneira ou de outra, meu “livro interior”. O que é meu “livro interior”? Um pouco de paciência.
Essa bonita expressão é de Pierre Bayard, cujo recente “Como Falar dos Livros que Não Lemos?” (Objetiva) foi o objeto de uma mesa da Flip, na qual, aliás, servi de mediador entre o próprio Bayard e Marcelo Coelho, colunista da Folha. O livro de Bayard é, à primeira vista, uma sátira (muito divertida) dos costumes (universitários e mundanos) pelos quais todos falamos de livros que não lemos como se os tivéssemos lido. Digo “à primeira vista”, porque, de fato, o livro de Bayard é muito mais do que isso: é uma investigação sobre os caminhos misteriosos pelos quais os livros passam a fazer parte da gente, mesmo que os tenhamos apenas folheado ou nem isso.
Há os livros dos quais só ouvimos falar; há os muitos que compramos e ficam para sempre virgens em cima do criado-mudo; há os que apenas iniciamos e os que lemos aos trancos. Sem contar aqueles dos quais não sabemos mais se os lemos ou apenas acreditamos conhecê-los à força de falar como se os conhecêssemos. Fragmentos, re- latos, resumos de ficções, de uma maneira ou de outra, passam a fazer parte de nós, tanto quanto nossas leituras exaustivas. Como assim?
Num capítulo de seu livro, Bayard faz uma distinção entre o livro interior de quem pertence a uma sociedade tradicional (que seria um livro coletivo, repleto de representações, lendas e histórias que são fundamentalmente as mesmas para todos) e o livro interior dos modernos, único e diferente para cada um. É o romance que vamos aprimorando a partir das primeiras ficções que inventamos para responder às perguntas que se colocam desde nossa infância.
Para nós modernos, por exemplo, o parentesco sem amor não é garantia de nada, e o berço não dita o destino; só podemos, portanto, tentar imaginar: “Somos amados ou não?”, “Será que nossos pais se amam?”, “Eles amam mais a gente ou o irmão e a irmã?”, “Qual será nosso futuro?”, e por aí vai nossa tarefa de romancistas.
Aos poucos, as histórias que lemos, que ouvimos ou às quais assistimos (no cinema ou na televisão) enriquecem nossa ficção originária. E, como escreve Bayard: “Os livros interiores individuais formam um sistema de recepção de outros textos (…) constituem uma grade de leitura do mundo e particularmente dos livros, dos quais organizam a descoberta”.
Ou seja, talvez nossa apreciação crítica seja isto: as exigências de nosso livro interior nos fazem gostar (ou não) de uma história porque ela pode (ou não) se enquadrar na ficção de nossa vida.
E as histórias que integramos à nossa ficção podem ser trechos, fragmentos, resumos, relatos de segunda mão.
Anos atrás, na Suíça, ensinando literatura a imigrantes italianos que preparavam o exame final do ensino básico, eu gostava de resumir os clássicos para eles. Eles escutavam, comentavam e liam pequenos trechos que eu tinha, quase sempre, simplificado. Os maiores sucessos eram a “Odisséia” e “Moby Dick” - o que não é surpreendente, tratando-se de homens que eram separados de suas famílias e corriam atrás de um sonho impossível.
Hoje, se alguém perguntasse a meus ex-alunos se eles leram esses dois livros, talvez eles dissessem que sim. Mentira? Pode ser. Mas aposto que Homero e Melville os reconheceriam como bons leitores de suas obras.

ccalligari@uol.com.br

06/07/2008 - 15:11h Um Escritor na Periferia: a Argentina em Borges

http://www.portogente.com.br/arquivos/id_8393_sarlo.jpgborges.jpg
Beatriz Sarlo e Jorge Luis Borges

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de São Paulo


Os críticos, de forma geral, quase sempre ignoraram que a questão da literatura argentina é central na obra de Jorge Luis Borges, mas não a ensaísta Beatriz Sarlo, uma das vozes mais lúcidas de seu país. Segundo a professora de Literatura, que lança no Brasil seu livro Jorge Luis Borges: Um Escritor na Periferia (Editora Iluminuras, tradução de Samuel Titan Jr., 160 págs., R$ 35), não existe escritor mais argentino que Borges. Cosmopolita e universal, sua obra, segundo Beatriz Sarlo, é perturbada pela tensão entre a mistura e a nostalgia por uma literatura européia que ele não poderia viver integralmente. Como ler Borges sem remetê-lo a Martín Fierro, a Sarmiento ou a Lugones?, pergunta Beatriz Sarlo, que concedeu ao Estado a entrevista abaixo e faz amanhã, às 19h30, uma palestra no encontro Fronteiras do Pensamento Copesul Braskem, em Porto Alegre.

Mais forte que a literatura argentina, Borges quase perdeu a nacionalidade. Não ocorreria a nenhum crítico dissociar Balzac e Baudelaire da literatura francesa. Borges, ao contrário, navegou, segundo Beatriz Sarlo, na corrente universalista da ”literatura ocidental”. Qualquer citação biográfica de Borges passa necessariamente pelo fascínio por Chesterton ou Kipling ou pela influência da literatura de Kafka, mas quase nunca por nomes como os de José Hernández, Evaristo Carriego, Macedonio Fernández ou Sarmiento, como se Borges tivesse ignorado sua dívida com a tradição literária argentina. O livro da professora argentina lembra que Borges não apenas escreveu ensaios sobre o Martín Fierro, obra maior da literatura argentina, como foi obcecado pelo poema de José Hernández. E, sobretudo, foi um autor que construiu sua originalidade por via da citação, da cópia.

Borges considerava infundada a opinião de que os escritores argentinos estavam desconectados do passado, ou seja, que houvesse uma ruptura entre eles e a Europa, porque, justamente por ser um país novo, haveria um grande sentido de tempo na Argentina. Por que a crítica insiste em tratar Borges como um escritor que nada deve à tradição literária argentina?

Não é essa a posição da crítica nas últimas décadas. Ricardo Piglia, anteriormente, sublinhou a conexão borgiana com a tradição nacional, num ensaio publicado na revista Punto de Vista. Por essa época também escrevi um artigo cujo título era Borges no Sul, um Episódio do Formalismo Criollo, acentuando a localização argentina de alguns temas de teoria literária suscitados por textos de Borges e publicados nos primeiros anos da revista que dirigia com Victoria Ocampo. Mas, mesmo antes, a professora María Teresa Gramuglio tratou da questão na leitura do livro de Borges sobre Evaristo Carriego, poeta menor que o primeiro usa quase como pretexto para expor uma teoria do bairro de Palermo. De modo que o Borges ocupado com labirintos e espelhos, ou seja, o Borges da primeira leitura crítica e das leituras européias, desde o fim dos anos 1970, adquire um novo rosto, como leitor e reescritor de alguns textos fundamentais da tradição argentina.

A senhora define Borges como escritor da periferia, um cosmopolita à margem, mas, nos capítulos finais de seu livro, apresenta o lado político-filosófico do escritor em termos universais. Há algum projeto de desenvolver esse aspecto particular num próximo livro sobre ele?

Creio, com efeito, que meu propósito de reinscrever criticamente Borges na literatura argentina, como matriz formal e ideológica dessa mesma literatura, como o escritor que inventa ou descobre a centralidade do marginal, só quase no final do livro que está sendo lançado no Brasil considera as figurações borgianas com respeito à ordem, em especial no capítulo sobre O Informe de Brodie. Nesse momento, já acertadas as contas com o Borges fundador das margens ”criollas” de Buenos Aires, parece-me que poderia voltar a contos como O Imortal para ver de que modo outras imagens da cidade, mais abstratas e universais, podem ser representadas na literatura. Precisamente é esse o conto que estou relendo neste momento, ao lado de Abenjacán, el Bojari Muerto en Su Laberinto.

Um dos temas mais interessantes de seu livro é a construção da originalidade de Borges, paradoxalmente por meio da cópia, da reescrita de textos alheios. Essa seria uma insinuação de que a veracidade literária representaria uma ficção para Borges, considerando seu pouco apreço pela literatura realista?

A idéia de veracidade é, em si mesma, uma idéia a que estamos acostumados a encontrar nas poéticas realistas, vale dizer, nos textos que se propõem uma representação cujas origens seriam exteriores à literatura: ou seja, uma representação heterônoma. Borges, ao contrário, está profundamente convencido da autonomia do literário, de sua independência a respeito dos referentes sociais diretos. O literário, em Borges, entra em relação com o social por meio da própria literatura, numa cadeia que vai de texto a texto. A dimensão social da literatura não provém de sua relação direta com uma exterioridade social, mas de uma trama social de discursos, geralmente literários, mas não apenas literários. Ou seja, para ele, a relação é sempre entre discursos, ficções. A verdade dessas ficções não responde nem a uma lógica da verossimilhança realista nem à lógica da acumulação de referências ”verdadeiras”, mas a uma lógica mais abstrata, por um lado de grandes categorias e, por outro lado, de argumentos cuja estrutura seja perfeita e fechada. Nesse sentido, a literatura fantástica de Borges é sempre racionalista, diferentemente, por exemplo, da literatura de Cortázar.

A representação de Buenos Aires por Borges, a partir de sua invenção da periferia, é um aspecto pouco analisado pela crítica internacional. Por que a descrição de Borges tende a retratar Buenos Aires com ares do passado, uma cidade impermeável à modernidade, ao contrário da Buenos Aires de Arlt?Borges pretendia fazer uma nova leitura da tradição ou simplesmente tinha nostalgia do século 19?

Borges lembra da cidade de sua infância e, quando volta a Buenos Aires no começo dos anos 1920, frente a uma cidade real em processo de modernização, coloca em seu lugar uma cidade lembrada e imaginária sem vestígios dessa modernidade. Sabe, contudo, que essa cidade está desaparecendo e que, portanto, há que buscá-la nas figuras do bairro e da periferia urbana. Como muitos modernos, Borges não tem vocação futurista, diferentemente de Roberto Arlt. A tecnologia, que para Arlt define a época, não desperta o menor interesse em Borges. Ele, ao contrário de Bioy Casares em A Invenção de Morel, jamais escreveu algo que pudesse evocar as tramas da ficção científica. São sensibilidades diferentes. É mais provável que um escritor da elite tivesse uma perspectiva nostálgica; e que um escritor filho de imigrantes como Arlt seguramente pudesse se ligar melhor ao radicalmente novo. É admissível essa hipótese sociológica, mas, de todas as maneiras, não explicaria o gosto de Borges por ficções cujo motor narrativo fossem as invenções técnicas.

06/07/2008 - 15:06h Um Escritor na Periferia

Martín Fierro, regional e universal

Escritor sustentava que no poema épico argentino, assim como na Odisséia, estavam resumidas todas as histórias possíveis

A imagem “http://www.frasesyrefranes.com.ar/martinfierro/ahtiempos_molinacampos.jpg” contém erros e não pode ser exibida.caricatura_borges.JPG
Martín Fierro e Borges

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de São Paulo


Na continuação da entrevista, a ensaísta Beatriz Sarlo, autora de Jorge Luis Borges - Um Escritor na Periferia , fala da relação de Jorge Luis Borges com a modernidade européia dos anos 20 e com a cidade de Buenos Aires.

Borges transforma Martín Fierro e subverte o clássico da literatura argentina ao parafrasear e recontar sua história. Isso significa que Borges não concebia Martín Fierro como obra autônoma da tradição ”criolla”, tendo de misturar essa tradição com a herança literária européia?

Borges disse certa vez que no Martín Fierro e na Odisséia estavam todas as histórias. A frase, um pouco hiperbólica, dá a Martín Fierro uma centralidade na tradição ocidental reconhecível apenas por Borges. Contudo, a frase não é hiperbólica na tradição argentina, cujos dois grandes textos do século 19 são Martín Fierro e Facundo, bastante próximos da época de Borges e separados apenas por quatro ou seis décadas. Sobretudo, estavam muito próximos das tradições culturais da família de Borges, que desaprovava Martín Fierro, em especial pelas idéias políticas de seu autor, José Hernández, e também pelo caráter briguento e valentão de seu personagem, indigno de representar o ideal ”criollo” para muitas pessoas do fim do século 19. Ao optar por Martín Fierro sem renunciar à simpatia por outros poemas gauchescos, Borges faz uma escolha determinada pela qualidade do texto, que obriga um escritor argentino das primeiras décadas do século 20 a adotar uma posição frente à alcançada por Hernández. Como diria Harold Bloom, para Borges, é o ”poeta forte” que se precisa corrigir ou completar para conjurar o perigo da influência.

Borges escreveu que Buenos Aires precisava de fantasmas, o que explicaria sua preocupação com a pobreza mítica da cidade e a ameaça da perda de sua identidade por conta do avanço da modernidade. Essa busca por mitos ancestrais seria resposta a uma certa desilusão com a modernidade européia que acabara de testemunhar na Europa dos anos 1920?

Com efeito, como muitos modernos, Borges é um antimoderno: está contra as democracias de massas, qualquer que seja sua linha, e contra a vulgaridade de um capitalismo que já havia arrasado com todos os valores tradicionais. A reação contra a modernidade é um capítulo importante da própria modernidade e Borges, sem dúvida, ocupa um lugar nesse capítulo. O mundo desencantou-se - não há fantasmas nem mitos, acredita Borges, sem observar a emergência de novos mitos e fantasmas; a ordem foi aniquilada; a sociedade tornou-se plebéia e desordenada. Frente a esse diagnóstico, o liberalismo conservador é, finalmente, o continente ideológico dentro do qual Borges se inscreve, ainda que sempre pareça impossível inscrevê-lo em alguma parte.

Seu livro termina com uma análise de O Informe de Brodie, mas, a despeito da comparação entre Swift e Borges, o último teria sido irônico com a expedição do missionário escocês. Borges pretendia mostrar que a saída para a nossa civilização da desordem estava na razão?

Borges acreditava que havia uma saída na razão e que essa saída poderia tornar-se um pesadelo. Borges é sempre agnóstico e pessimista. Talvez por isso, pela ausência do otimismo histórico, seja sempre inteligente, como muitos pessimistas. Se há algo distante do ethos de Borges é a idéia da consolação e reconciliação.

O que é

Publicado no fim do século 19, Martín Fierro é um poema épico em que o autor José Hernández protesta contra as tendência europeizantes do presidente Domingo Faustino Sarmiento. Em duas partes, a obra evoca a colaboração dos gaúchos (argentinos da região dos Pampas) na luta pela independência do país.

Os primeiro versos do Martín Fierro

1

Aquí me pongo a cantar
Al compás de la vigüela,
Que el hombre que lo desvela
Una pena extraordinaria
Como la ave solitaria
Con el cantar se consuela.

2

Pido a los Santos del Cielo
Que ayuden mi pensamiento;
Les pido en este momento
Que voy a cantar mi historia
Me refresquen la memoria
Y aclaren mi entendimiento.

3

Vengan Santos milagrosos,
Vengan todos en mi ayuda,
Que la lengua se me añuda
Y se me turba la vista;
Pido a Dios que me asista
En una ocasión tan ruda.

4

Yo he visto muchos cantores,
Con famas bien obtenidas,
Y que después de adquiridas
No las quieren sustentar:
Parece que sin largar
Se cansaron en partidas.

5

Mas ande otro criollo pasa
Martín fierro ha de pasar,
Nada la hace recular
Ni las fantasmas lo espantan;
Y dende que todos cantan
Yo también quiero cantar.

02/07/2008 - 14:40h Os anos de chumbo

argentina_estadao_literatura.jpg

Martín Kohan e Nathan Englander falam na Flip, que começa hoje, sobre a ditadura argentina

Ubiratan Brasil - O Estado de São Paulo


Os anos de chumbo sofridos pela sociedade argentina nos anos 1970 e 80 inspiraram dois autores de origem distinta, que estarão juntos na Festa Literária Internacional de Paraty, que começa hoje - de um lado, o argentino Martín Kohan, autor de Duas Vezes Junho (Amauta, tradução de Marcelo Barbão, 148 páginas, R$ 25) e Ciências Morais (Companhia das Letras, tradução de Eduardo Brandão, 192 páginas, R$ 38), obras que retratam a pesada atmosfera que imperava no país; e, de outro, o americano Nathan Englander, cujo Ministério de Casos Especiais (Rocco, tradução de Paulo Reis) conta a história de uma família de judeus nada ortodoxos às voltas com os desaparecimentos ocorridos na “Guerra Suja” na Argentina, em 1976.

Adolescente durante a ditadura, Kohan observa aquele momento sempre a partir de um ponto de vista aberto. Em Duas Vezes Junho, ele se prende à única derrota sofrida pela Argentina na Copa do Mundo de 1978 para mostrar que também o país perdia com a própria situação. E, em Ciências Morais, o trabalho de inspeção de alunos do Colégio Nacional é o ponto de partida para reproduzir os momentos em que o regime totalitário agonizava. Sobre isso, ele conversou com o Estado.

A ditadura militar argentina tem um peso fundamental em suas obras Duas Vezes Junho e Ciências Morais. Que importância a política tem na literatura e, mais especificamente, nos seus escritos?

Tenho minhas reservas a respeito de certa convenção do romance político que, em geral, tende ao realismo ou à explicitação de sentidos. Busco afastar-me dessas formas. No entanto, encontro em alguns aspectos da história política recente alguns elementos que me interessam questionar. Não faço para dar conta de uma realidade, tampouco para fixar um sentido como “mensagem”. Utilizo a política como um campo de significação do que me interessa questionar a partir de outro campo de significação, o da literatura.

Em Duas Vezes Junho, a Copa do Mundo de 1978 é lembrada a partir da única derrota da Argentina no torneio, contra a Itália. No momento em que são lembrados os 30 anos daquele Mundial, você acredita que a Copa foi o primeiro símbolo de aprovação popular da ditadura?

Não, não foi. A ditadura utilizou evidentemente o Mundial para se prestigiar, sobretudo diante dos olhos estrangeiros. Os festejos populares não implicaram necessariamente uma adesão política ao regime. Em todo caso, expressaram, segundo meu ponto de vista, a eficácia do fervor nacionalista, do triunfalismo pátrio, todas essas mitologias. Daí minha decisão de narrar, não uma vitória, mas uma derrota argentina.

A história de Ciências Morais se passa no Colégio Nacional, onde você estudou. Mas você aprofunda o mundo das autoridades e não dos estudantes. Por quê?

Nada poderia me interessar menos que uma obra autobiográfica, do tipo “memórias de estudante”. Minha motivação foi justamente contrária: imaginar a vida das autoridades, pessoas que pareciam não ter uma vida íntima. Conceber essas vidas, inventá-las, construí-las e narrá-las, justamente porque em minha passagem pelo colégio era o detalhe mais opaco e mais insondável - isso me interessou. Como já conhecia o mundo dos estudantes, não tive nenhum desejo de descrevê-lo.

Sua intenção foi criar, no colégio, um microcosmo do ambiente então vivido na época pela Argentina? Os preceptores e sua função de delatar erros dos alunos representam o poder que era tão enigmático e violento naquela época?

O Colégio Nacional sempre foi visto como uma versão concentrada do que havia de melhor na Argentina. Não digo que fosse assim, mas era o que se dizia a respeito. Ou seja, faz parte de uma mitologia da argentinidade, que me interessa interrogar pela literatura. Como funciona esse mito, como se fortalece e também como se enfraquece. Durante os anos de repressão, o colégio, o mais tradicional do país, funcionou igualmente a partir dessa relação de correspondência ou de metáfora.

A ditadura e a questão com as Malvinas aparecem, em geral, separadas nos livros de história. Você, ao contrário, preferiu mostrar a relação entre elas. A derrota de uma implicaria também a derrota da outra?

Parece evidente que o final da ditadura militar está diretamente ligado à derrota na guerra das Malvinas. Não vejo como se poderia separar um fato do outro. Por isso que a tal derrota nos deva parecer positiva e proveitosa: uma sorte ter perdido. O que implica uma verdadeira rachadura nos fundamentos do fervor do nacionalismo. Mas para ninguém esse conflito é tão terrível como para os ex-combatentes: eles arriscaram suas vidas em uma guerra que nem sequer convinha ganhar. Não era um conflito perdido, resultado que poderia ser suportável, mas uma guerra que era melhor perder e não ganhar.

Os detalhes com que mostra os mecanismos de controle disciplinar da escola são impressionantes. Por que eles lhe interessam tanto?

Minha escrita tende à lentidão, obrigando uma leitura com minuciosidade. Por isso, os detalhes me atraem: são objeto privilegiado da minha maneira de escrever, que tende mais à cadência e à pausa que à ligeireza. No caso particular desse romance, creio que tal característica sustenta um traço concreto: a obsessão maníaca de quem quer exercer o controle total, aquele que não deixa nada escapar.

Há, também, o falso moralismo do “cumprimento do dever” dos preceptores, em que os fins justificam os meios. Qual sua opinião sobre isso?

Eu me interesso mais pelos fatos comuns do que por aqueles aberrantes, cometidos não em nome do mal mas em nome do bem. Os valores aparentemente mais sólidos e rígidos, o moralismo proclamado a toda voz, estão sempre à frente de coisas abomináveis. Eu me questionei sobre isso e alguns de meus romances se devem a isso: como funciona a obediência, como se forma um obediente e como os dispositivos que ativam as piores causas necessitam dessa classe de mecanismos.

Os preceptores mostravam-se como sinistros mas eram, na verdade, pobres tipos. O mesmo poderia ser dito do general Jorge Videla?

Essa superposição me parece reveladora: ele é, ao mesmo tempo, um criminoso e um infeliz. Sem que o segundo isente o primeiro, nem o debilite em absoluto. Parece-me um aspecto da criminalidade política a considerar: o substrato do miserável. Não digo que funcione sempre, mas sim em alguns casos. Videla pareceria ser um. Às vezes, penso como seria uma tarde na vida de Videla, na prisão domiciliar de sua triste região. Buscar a maneira em que essa imagem completamente patética não amorne a do criminoso, mas o inverso: que o revele em sua verdade mais profunda.

A crise familiar durante o horror da ditadura

Em Ministério dos Casos Especiais, Nathan Englander mostra os efeitos de um momento de exceção

Ubiratan Brasil - O Estado de São Paulo


Foram dez anos de preparação, cuidados, reescrita. Nesse período, o escritor americano Nathan Englander montou um paralelo entre a Buenos Aires martirizada pela ditadura militar (1976-1983)e Jerusalém, cidade onde esse jovem nova-iorquino nascido em 1970 viveu durante alguns anos. O resultado é O Ministério de Casos Especiais, seu primeiro romance (o anterior, Para Alívio dos Impulsos Insuportáveis, reúne contos de admirável firmeza) que acompanha a trajetória de Kaddish Poznan, judeu de temperamento difícil, que ganha a vida apagando lápides de prostitutas e cafetões de um cemitério, a pedido das famílias. A ditadura militar o afeta diretamente com o ”desaparecimento” de seu filho Pato.

”Minha idéia foi criar uma história sobre uma família que é forçada a se unir por conta da dor comum”, conta Englander, que conversou com o Estado por telefone. ”Também me interessei em falar de uma comunidade na qual certos membros encaram os demais como párias.” Foi com o passar do tempo, aliás, que o escritor notou que O Ministério de Casos Especiais era, na verdade, uma metáfora sobre o período em que viveu em Jerusalém. ”Quando me mudei para lá, buscava a paz, mas logo conheci momentos de grande tensão. O mesmo se parece com os cidadãos de Buenos Aires - eles gostam de sua cidade, se dedicam a ela, mas decisões do governo nem sempre colaboram para seu bem-estar.”

Englander passou uma pequena temporada, em 1991, na capital argentina, período em que começou a fermentar tal semelhança. Época também em que descobriu alguns meandros do período de ditadura militar, que aparece no livro sob seu aspecto mais terrível - em uma passagem, por exemplo, Poznan conversa com o piloto de avião que confessa ter jogado jovens prisioneiros no Rio da Prata.

Tal detalhe explica o longo tempo de gestação do romance - Englander cuidou de cada frase, encadeando-as de forma a compor um relato seco mas eletrizante. ”Não posso negar que gosto de relatos sobre paranóia”, conta ele, lembrando-se do mistério envolvendo Pato que, de resto, ainda deixa obscura uma série de assassinatos cometidos a mando dos militares. ”Seria ele realmente um revolucionário ou apenas teria aprendido algumas idéias subversivas na escola? Eis uma questão sem uma resposta definitiva.”

Englander, no entanto, faz questão de frisar que não pretendeu escrever um livro político - tampouco uma história sobre a relação entre pai e filho. ”Trata-se de um relato que acontece durante uma fase obscura da Argentina e que, por acaso, trata de dificuldades familiares.”

A passagem pela Argentina, aliás, contribuiu para a veracidade da história narrada por Englander. Lá, ele conheceu o desespero sem-fim das Mães da Praça de Maio, que ainda clamam por notícias de seus filhos desaparecidos. ”Ainda fico chocado com a persistência dessas mulheres, que visitam repartições do governo, que fazem testes de DNA, em busca de seus entes. É quando se observa a que caos uma sociedade pode chegar.”

21/06/2008 - 19:51h O resgate de Pagu

Texto: Eugênio Martins Júnior / Fotos: Leandro Amaral e Reprodução

Jornal da Orla

Escritora, jornalista, ativista política, apaixonada pelas artes e pela vida, Patrícia Galvão foi, sem dúvida, uma das personalidades mais importantes da história santista e —por que não dizer?— brasileira do século passado.
Após um período de esquecimento, sua vida e obra vêm sendo resgatadas pelas mãos de duas mulheres: a jornalista Márcia Costa e a professora Lúcia Maria Teixeira Furlani.

A dissertação de mestrado Jornalismo Cultural: A Produção de Patrícia Galvão no Jornal A Tribuna, da jornalista Márcia Costa, analisa a produção de Pagu entre 1954 e 1962, aprofundando-se na coluna Literatura, do suplemento A Tribuna, publicado sempre aos domingos, entre 1957 e 1961. Já a professora Lúcia, cujo interesse por Pagu em 20 anos de pesquisa rendeu duas obras e a criação do Centro de Estudos Pagu, na Unisanta, está prestes a lançar No Angu de Pagu - Uma Fotobiografia, pelas editoras Santa Cecília/Cosacnaify. A previsão de lançamento é para agosto.

São duas visões distintas com a sensibilidade que somente as mulheres poderiam imprimir ao pesquisar a vida agitada de Pagu. Porém, sem esquecer o rigor histórico que os temas exigem.

Em dois anos de pesquisa, a jornalista Márcia Costa compilou, em mais de 200 páginas, informações preciosas sobre a produção jornalística de Patrícia Galvão, como quando Pagu chegou a criar quatro colunas sobre cultura, entre elas a primeira do Brasil a falar sobre televisão. “A maior produção de Pagu foi mesmo como jornalista. Ela escreveu em jornais por mais de 30 anos e em todo o país sua palavra era respeitada nos meios culturais. Sua casa era freqüentada por Jorge Amado e Érico Veríssimo. Além deles, Sabato Magaldi, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e Antunes Filho também faziam parte de seu círculo de amizade”, diz a autora da dissertação.

Outra faceta revelada no trabalho de Márcia Costa é a generosidade de Patrícia Galvão com os novos talentos. Na verdade, como lembra a autora, não era bem generosidade, “Pagu sabia reconhecer o talento dos novos escritores, foi a primeira a elogiar o trabalho de Clarice Lispector, e a bancar com seu prestigio o jovem Plínio Marcos”.

Além dessas informações, a dissertação mostra ainda que na época em que Pagu passou por A Tribuna (na foto, a jornalista é a segunda da direita para a esquerda), o jornal possuía um time de colunistas de peso, o que valoriza ainda mais seus textos como ativista cultural. Escreviam Otto Maria Carpeaux, Carlos Drummond de Andrade e Narciso de Andrade.

Para realizar seu trabalho, Márcia entrevistou 17 pessoas, entre elas o jornalista Geraldo Galvão Ferraz, filho de Pagu com o também jornalista Geraldo Ferraz; Augusto de Campos, Narciso de Andrade, Júlio Bittencourt, Gilberto Mendes, Willy Correia de Oliveira, Flavio Viegas Amoreira, Cid Marcos Vasquez e o brasilianista David K. Jackson, além de consultar o precioso acervo da professora Lúcia Maria Teixeira Furlani.

Guardiã do legado

Depositária da confiança da família de Pagu, Lúcia (na foto, Márcia à esquerda e Lúcia à direita) guarda com carinho e cuidado manuscritos produzidos há décadas pela ativista cultural modernista, além de fotos e documentos usados em No Angu de Pagu.

Em um primoroso trabalho de resgate, todas as imagens estão dispostas em ordem cronológica e são, uma a uma, seguidas por explicações rápidas, mas esclarecedoras. Estão ali, por exemplo, sua primeira foto com Oswald de Andrade, na Bahia; seu passaporte da época em que, perseguida por ser comunista, se viu obrigada ao auto-exílio; e até uma radiografia da face com um projétil alojado, fruto de uma tentativa de suicídio mal-sucedida.

“Nossa principal preocupação foi contextualizar todos os documentos, para melhor entendimento do leitor”, explica a autora que, na obra, reuniu mais de 253 imagens, muitas vindo à luz pela primeira vez. Segundo Lucia, cerca de 80% do que há nesse “angu” nunca foi publicado.

Há também o prefácio do sobrinho de Patrícia, o jornalista Clóvis Galvão, hoje em A Tribuna, e ainda um poema inédito de Rudá de Andrade, filho do primeiro casamento, com Oswald de Andrade. O poema se chama “Homenagem às loucuras de minha mãe”, e prova que o filho deixado aos cuidados do pai, Oswald, não guardou os mesmos ressentimentos que os detratores de Patrícia Galvão.

O trabalho da professora não se limita a guardar os documentos doados pela família de Pagu. No momento, o centro de pesquisas está empenhado em recuperar e digitalizar mais de 2.300 documentos recolhidos pela pesquisadora ao longo dos 20 anos de busca em todo o Brasil.

Ela afirma que ainda há muita coisa a ser dita sobre a obra de Pagu. Outro trabalho em andamento é o que está sendo realizado em conjunto com o norte-americano David K. Jackson, estudioso sobre a obra de Patrícia Galvão. “Dessa vez, será uma obra de peso, cinco volumes com muito material inédito”, avisa.

Exposição - A história mais uma vez se vinga e a cadeia que um dia aprisionou a comunista Patrícia Galvão e que agora foi transformada em um centro cultural que leva o seu nome, recebe, a partir do dia 24, a exposição Croquis de Pagu. A mostra reúne letras de poemas, músicas e 55 gravuras já publicadas em um livro homônimo de Lucia Maria Teixeira Furlani. Na abertura, dia 24, às 19h30, a professora fará a leitura dramática de um texto inédito de Patrícia Galvão.

16/06/2008 - 19:11h Cecília Meireles no Releituras

Já reproduzi algo aqui do excelente trabalho realizado por Arnaldo Nogueira Jr. e seu Projeto Releituras. O site é acolhedor e reproduz e produz literatura da melhor.
Aproveitando seu apoio par com os que divulgam seu site, aqui vai uma página tirada dele, com um texto de Cecília Meireles, ilustrado por Gemmal. Boa leitura e aproveitem o link. LF

Arnaldo Nogueira Jr - Por Dino Alves

ARNALDO NOGUEIRA JR
Caricatura: Dino Alves


A todos os sítios que incentivam e divulgam o Releituras, e aos escritores e revistas que o indicam…

MUITO OBRIGADO.

[ Principal ][ Biografias ][ Releituras ][ Novos escritores ][ Ilustrados ]

© Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr
16/06/2008 - 11:00:23


Tarde de sábado

Por Cecília Meireles

 

gemmal_cmeireles.jpg (77067 bytes)


A tardezinha de sábado, um pouco cinzenta, um pouco fria, parece não possuir nada de muito particular para ninguém. Os automóveis deslizam; as pessoas entram e saem dos cinemas; os namorados conversam por aqui e por ali; os bares funcionam ativamente, numa fabulosa produção de sanduíches e cachorros-quentes. Apesar da fresquidão, as mocinhas trazem nos pés sandálias douradas, enquanto agasalham a cabeça em echarpes de muitas voltas.

Tudo isso é rotina. Há um certo ar de monotonia por toda parte. O bondinho do Pão de Açúcar lá vai cumprindo o seu destino turístico, e moços bem falantes explicam, de lápis na mão, em seus escritórios coloridos e envidraçados, apartamentos que vão ser construídos em poucos meses, com tantos andares, vista para todos os lados, vestíbulos de mármore, tanto de entrada, mais tantas prestações, sem reajustamento — o melhor emprego de capital jamais oferecido!

Em alguma ruazinha simpática, com árvores e sossego, ainda há crianças deslumbradas a comerem aquele algodão de açúcar que de repente coloca na paisagem carioca uma pincelada oriental. E há os avós de olhos filosóficos, a conduzirem pela mão a netinha que ensaia os primeiros passeios, como uma bailarina principiante a equilibrar-se nas pontas dos sapatinhos brancos.

Andam barquinhos pela baía, com um raio de sol a brilhar nas velas; há uns pescadores carregados de linhas, samburás, caniços, muito compenetrados da sua perícia; há famílias inteiras que não se sabe de onde vêm nem se pode imaginar para onde vão, e que ocupam muito lugar na calçada, com a boca cheia de coisas que devem ser balas, caramelos, pipocas, que passam de uma bochecha para a outra e lhes devem causar uma delícia infinita.

Depois aparecem muitas pessoas bem vestidas, cavalheiros com sapatos reluzentes, senhoras com roupas de renda e chapéus imensos que a brisa da tarde procura docemente arrebatar. Há risos, pulseiras que brilham, anéis que faíscam, muita alegria: pois não há mesmo nada mais divertido que uma pessoa toda coberta de sedas, plumas e flores, a lutar com o vento maroto, irreverente e pagão.

E depois são as belas igrejas acesas, todas ornamentadas, atapetadas, como jardins brancos de grandes ramos floridos

Por uma rua transversal, está chegando um carro. E dentro dele vem a noiva, que não se pode ver, pois está coberta de cascatas de véus, como se viajasse dentro da Via-láctea. Todos param e olham, inutilmente. Ela é a misteriosa dona dessa tardezinha de sábado, que parecia simples, apenas um pouco cinzenta, um pouco fria. E a moça que vem, com a alma cheia de interrogações, para transformar seus dias de menina e adolescente, despreocupados e livres, em dias compactos de deveres e responsabilidades. É uma transição de tempos, de mundos. Mas os convidados a esperam felizes, e ela não terá que pensar nisso. Ela mal se lembra que é sábado, que é o dia de seu casamento, que há padrinhos e convidados. E quando a cerimônia chegar ao apogeu, talvez nem se lembre de quem é: separada dos acontecimentos da terra, subitamente incorporada ao giro do Universo.

Texto extraído do livro “Escolha o seu sonho”, Editora Record – Rio de Janeiro, 2002, pág. 100.

Conheça a vida e a obra de Cecília Meireles em Biografias.

Ilustração: Gemmal

Marcelo Cardoso Gemmal, graduado em 1996 em Artes & Design pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em 2000 foi premiado no Salão Carioca de Humor (categoria charge). Realizou a exposição de seus trabalhos em diversas galerias, sempre com sucesso, como a ocorrida na Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio de Janeiro, e no 4º Festival de Cinema Brasileiro em Paris, ambas no ano de 2002. Mantém, com Dória, desde 2000, parceria na Dobradinha - Estúdio de Artes Visuais.

15/06/2008 - 10:40h Abc da pátria

+ Livros - FOLHA DE SÃO PAULO

L'image “http://content.answers.com/main/content/wp/en-commons/thumb/3/3f/250px-Isaac_Bashevis_Singer_mural_FLG_AZ_USA_6921.jpg” ne peut être affichée car elle contient des erreurs.
ENTRE O IÍDICHE E O INGLÊS, O NOBEL DE LITERATURA ISAAC SINGER REAVALIA SEU PASSADO NAS CRÔNICAS DE “NO TRIBUNAL DE MEU PAI”

CRISTOVÃO TEZZA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Um traço marcante da obra de Isaac Bashevis Singer (1904-1991), escritor judeu nascido na Polônia, e que em 1935 emigraria para os EUA, é o fato de escrever em iídiche -uma língua da família germânica grafada com caracteres hebraicos que, durante séculos, foi o idioma das comunidades judaicas ashkenazis da Europa Central.
Com o Holocausto, o iídiche praticamente desapareceu. Isaac Singer, entretanto, jamais abandonou a língua materna nos mais de 50 anos em que viveu nos EUA, o que cria a singularidade de um autor com “dois originais” -as traduções de Singer, Prêmio Nobel de Literatura de 1978, são feitas a partir do inglês, que por sua vez estabelece o texto “oficial” de sua literatura.
Esse detalhe ilustra um dos aspectos centrais da história do romance -sua linguagem é a confluência e tradução de muitas línguas que são a um tempo códigos e concepções específicas de mundo.

Consciência plurilíngue
E, do ponto de vista biográfico, a vida de Singer, com a infância mergulhada no tenso encontro de línguas, culturas e religiões, pode ser lida como ilustração cristalina do que o teórico russo Mikhail Bakhtin (1895-1975) chamava de “consciência plurilíngue do mundo”. Os textos de “No Tribunal de Meu Pai” são exemplares nesse sentido. Trata-se de um conjunto de crônicas autobiográficas em que a formação do autor é retomada em episódios apresentados mais ou menos em ordem cronológica e que se encerra nos seus 12 anos (quando conhece “uma garota morena com olhos escuros como carvão e um sorriso indescritível”).
O tribunal a que o título faz referência é a instituição judaica do “Bet Din”, o tribunal rabínico. Filho de um rabino de Varsóvia, o futuro escritor passou a infância impregnado de um senso de justiça religiosa em que se atravessam a pobreza, a onipresença da palavra escrita como fonte de referência da “verdade”, a disputa das várias correntes conflitantes que marcam o judaísmo, a consciência de quem está, do ponto de vista político, em lugar nenhum -e, sobretudo, o peso da idéia de lar se confundindo com a idéia de tribunal.
Se nas mãos de Kafka esse último ingrediente daria a síntese aterrorizante que conhecemos em obras como “O Processo” e “O Castelo”, em Isaac Singer -um escritor de raiz substancialmente popular, imerso na oralidade e no humor vivaz, comunitário, do mundo da aldeia- o resultado é outro.
A diferença central talvez seja esta: no mundo das memórias infantis de Isaac Singer, as coisas ainda não estão estratificadas na forma de Estado, não são regulamentos inalterados por mãos humanas.

Sinais escritos
O juiz é um homem de substância simples que tem de resolver questões miúdas do cotidiano, casos de divórcio ou dúvidas sobre a pureza de gansos abatidos. O senso de justiça é uma insegura escolha humana, a partir de alguns poucos sinais escritos, aos quais devemos dar um sentido.
O sentimento de mudança permanente, muito forte -mudança física e mental, política, social e econômica, ao deus-dará entre poloneses, russos, alemães, austríacos naquele sombrio limiar da Primeira Grande Guerra-, vai marcando cada passo da criança atenta, que pouco a pouco percebe o anacronismo da ortodoxia paterna e absorve a perspectiva transformadora de seu irmão mais velho, depois o poder da literatura, num tempo de utopias.
A força documental das crônicas, ao descreverem o mundo desaparecido, é temperada pela perspectiva literária -a história de Isaac Singer é a percepção de um escritor, não o documento frio de um historiador.
Em nenhum momento se perde a perspectiva da criança e a sensação de um mundo a descobrir e inventar; e, em cada crônica, está presente a afirmação absoluta do valor do indivíduo, princípio e fim de todas as dúvidas: “Como era vasto o mundo, e como abundavam nele todo tipo de pessoas e acontecimentos estranhos! (…) E onde estava Deus, de quem tanto se falava em nossa casa? Eu estava maravilhado, encantado, extasiado. Sentia que precisava solucionar esse enigma, sozinho, com meu próprio discernimento”.


CRISTOVÃO TEZZA é autor do romance “O Filho Eterno” (Record) e de “Entre a Prosa e a Poesia - Bakhtin e o Formalismo Russo” (Rocco).NO TRIBUNAL DE MEU PAI
Autor: Isaac Bashevis Singer
Tradução: Alexandre Hubner
Editora: Companhia das Letras (tel. 0/ xx/11/ 3707-3500)
Quanto: R$ 49 (360 págs.)

13/06/2008 - 18:41h Arte e beijos

 Final do jornal da Globo no Dia dos Namorados

13/06/2008 - 17:09h Man Ray e Boris Vian

logo_arte_foto1.jpg

entre aspas

manray.jpg
Man Ray, Solarized Nude with Flowers in Her Hair, c. 1933

Colin olhava para Alise. Por estranho acaso ela trazia um swet-shirt branco e saia amarela. Calçava sapatos brancos e amarelos, e patins de hóquei. Usava meias de seda cor de fuligem e soquetes brancos, enrolados acima de sapatos que mal cobriam os pés e tinham fitilhas de algodão branco a dar três voltas ao tornozelo. Além disso exibia ainda um lenço de seda vede-vivo e cabelos louros extraordinariamente fartos, que lhe emolduravam o rosto com espessa e encaracolada massa. Olhava através de olhos azuis, muito abertos, e o seu volume era limitado por uma pele fresca e dourada. Possuía braços e barrigas das pernas roliços, cintura fina, o busto tão bem modelado que parecia uma fotografia.

13/06/2008 - 16:22h Aniversário

L'image “http://alandroal.weblog.com.pt/arquivo/almada%20negreiros%20fernando%20%20pessoa.JPG” ne peut être affichée car elle contient des erreurs.

© Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr

Aniversário

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

[473]

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…

15/10/1929

Uma visão breve sobre a vida e a obra do maior poeta da língua portuguesa:

- 1888: 11 de junho Nasce Fernando Antônio Nogueira Pessoa, em Lisboa.

- 1893: Perde o pai.

- 1895: A mãe casa-se com o comandante João Miguel Rosa. Partem para Durban, África do Sul.

- 1904: Recebe o Prêmio Queen Memorial Victoria, pelo ensaio apresentado no exame de admissão à Universidade do Cabo da Boa Esperança.

- 1905: Regressa sozinho a Lisboa.

- 1912: Estréia na Revista Águia.

- 1915: Funda, com alguns amigos, a revista Orpheu.

- 1918/1921: Publicação dos English Poems.

- 1925: Morre a mãe do poeta.

- 1934: Publica Mensagem.

- 1935: Morre de complicações hepáticas em Lisboa.

Os versos acima, escritos com o heterônimo de Álvaro de Campos, foram extraídos do livro “Fernando Pessoa - Obra Poética”, Cia. José Aguilar Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 379.

© Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr

11/06/2008 - 21:43h Poesia


Charles Baudelaire


Amigo, amiga,

Você abre um livro de poesia e, logo no início, num poema chamado “Ao Leitor”, o autor avisa: “Na almofada do mal é Satã Trismegisto/ Quem docemente nosso espírito consola”. Para não deixar dúvida, mais adiante ele reafirma: “É o Diabo que nos move e até nos manuseia!”

Não, não adianta fingir que não é com você. O poeta assegura que você sabe do que ele está falando, e termina mandando mordazes e cordiais saudações: “Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!”

Claro, você já adivinhou: o livro é Les Fleurs du Mal (As Flores do Mal) e o poeta, o francês Charles Baudelaire. Continue a folhear. O tom é sombrio. São textos cheios de tédio, morte, sepultura, melancolia, volúpia, luxúria, demônios, vermes, serpentes, maldições e até uma ladainha invocando o Demônio: “Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria”.

Não se assuste. Religioso a seu modo, pagão e satanista, Charles-Pierre Baudelaire (1821-1867) é considerado o pai do simbolismo francês, movimento cuja origem os críticos localizam exatamente no livro As Flores do Mal, de 1857. Na França, a obra de Baudelaire reverbera na poesia de outros poetas “malditos”, como Arthur Rimbaud, Paul Verlaine e Stéphane Mallarmé.

Celebrado como o primeiro poeta moderno e um dos escritores de mais forte influência nas gerações posteriores mundo afora, Baudelaire contrabandeou para a poesia de sua época, marcada pelo idealismo romântico, o mal-estar das cidades e o choque do feio, dos temas sujos e doentios.

Ao publicar As Flores do Mal, ele foi condenado por ofensa à moral pública. Além de pagar uma multa em dinheiro, a justiça obrigou-o a retirar seis poemas do volume. Os seis voltaram a integrar a obra onze anos depois, na primeira edição póstuma do livro, em 1868.

O primeiro texto ao lado é um desses poemas condenados, “A celle qui est trop gaie” (”A que está sempre alegre”). Ao comentar especificamente a censura a esse poema, Baudelaire diz: “Os juízes julgaram descobrir um sentido a um tempo sanguinário e obsceno nas duas últimas estrofes. A gravidade da coletânea excluía semelhantes gracejos. Mas veneno equivalendo a spleen ou a melancolia era uma idéia muito simples para criminalistas. Que sua interpretação sifilítica lhes fique na consciência!”

Segundo nota do editor francês, “a que está sempre alegre” é Apollonia Sabatier, animadora cultural pariense, cuja casa era freqüentada por f