17/11/2009 - 20:50h SEXTYNAMANTE E SEXTYNARREGANHADA

A página a seguir pode apresentar conteúdo erótico impróprio para menores de 18 anos e outras determinadas audiências.

Caso você seja maior de idade, prossiga. Se for pudibundo, melhor não…

(mais…)

16/11/2009 - 20:23h Luxúria

Lira pornoerótica inova a velha sextina

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Sendo a literatura investigação do humano, é apenas natural que a erotografia (sob qualquer forma) seja antiga como a civilização. Aliás, em seu Eros e Civilização, o filósofo Marcuse postulava que Eros, como princípio vital, rechaça a repressão e o controle.

Para deixar jorrar essa pulsão eruptiva, o poeta português Joaquim Estevez da Guarda retoma a sextina do século 12 em seu livro Llama de amor viva: Sextynas (Cadernos do Subsolo, Porto, Portugal, 2007). A sextina é uma complicada composição poética criada pelo trovador provençal Arnaut Daniel, que dela se serviu para bem cantar folguedos amorosos. Dante e Petrarca também praticaram a forma. Tecnicamente, a sextina consiste em seis sextilhas mais um terceto final, sendo que as rimas se repetem, de cabo a rabo, segundo uma ordem estrita, impondo uma circularidade ao discurso poético.

Neste Llama de amor viva — um verso tomado de empréstimo ao místico Juan de la Cruz —, Estevez da Guarda engaja-se na militância amatória de um Bocage clássico para louvar a “glória das feminis carnes” e o “lúbrico tormento” da cópula, chamando as partes ditas pudendas por seus nomes impróprios.

Numa era em que a pornografia eletrônica é um business bilionário, esta celebração do gozo carnal constitui, na verdade, uma transgressão às normas vigentes — a farta oferta de sexo virtual, a “neocaretice” pós-advento da Aids, as múltiplas formas de obscenidade em cartaz no mundo-mercado, no circo da mídia, na chamada sociedade do espetáculo e do controle. A surrada questão “arte ou pornografia” sequer se coloca aqui, pois o sextinário sexy de Estevez da Guarda — erudito e popular a um só tempo —, se filia a uma robusta tradição latina de letras lascivas, onde nada do que é humano é estranho à poesia. Em dez elaboradas “sextynas em medida velha e medida nova”, este liber libertinário exalta o gozo demasiado humano — o coito sem protocolo, sem repressão e sem preço.

O poeta põe as musas em pêlo, com pleno domínio da forma, do repertório clássico e da tradição portuguesa. Como assinala, no prefácio, o poeta galego Xosé Lois García, ao exaltar a liberdade instintiva, “doada pela própria natureza”, o sextinário compõe uma “liturgia laica” para espíritos livres. A língua franca de Eros reafirma, ainda e sempre, sua primazia.

O livro: Joaquim Estevez da Guarda. Llama de amor viva: Sextynas

(Porto, Portugal: Cadernos do Subsolo, 2007).

De feitura artesanal, é distribuído no Brasil pela Editora e Livraria Crisálida de Belo Horizonte.

Tel.: (31) 3222-4956 |  livraria@crisalida.com.br | Pode ser adquirido junto ao próprio autor, clicando aqui.


Luiz Roberto Guedes. Poeta, escritor e tradutor, nasceu e sobrevive em São Paulo. Publicou, entre outros, Calendário lunático — erotografia de Ana K (Ciência do Acidente, 2000), a novela O mamaluco voador (Travessa dos Editores, 2006), o infantil O Livro das Mákinas Malukas (Dubolsinho, 2007), Minima Immoralia/Dirty Limerix (Demônio Negro, 2007) e colaborou com Claudio Daniel nas antologias Íbis amarelo sobre fundo negro, poemas de José Kozer (Travessa dos Editores, 2005) e Jardim de Camaleões, poetas neobarrocos (Iluminuras, 2005). É letrista sob a identidade secreta de Paulo Flexa.

15/11/2009 - 20:33h Uma queda por ele(a)

Le meilleur moment

C’est quand elle monte l’escalier
Qu’on devine ce qui va bientôt se passer
C’est à ce moment-là
Quand je la voyais majestueuse
Comme une arche
Que j’ai trouvé le moyen de louper une marche

JEAN-LUC FORNELLI

L’amour, ça fait mal… quand ça tombe

Il y a une expression: “tomber amoureux(se)”  que l’on retrouve en Anglais (fall in love) et en Japonais (koi ni ochiru) mais qui n’a rien à voir avec l’idée de chute morale ou spirituelle. A ceux et celles qui se demandent vers où on tombe, et de quelle hauteur, voici une réponse…

Myope-comme-une-taupe-1

Depuis le XVIe siècle le verbe tomber peut signifier “devenir”. Il est utilisé pour indiquer que l’on passe très vite d’un état à un autre. L’image de la chute souligne que l’événement est rapide. Tomber malade. Tomber en disgrâce. Tomber dans l’erreur. Tomber dans l’excès. Tomber dans le désespoir. Tomber en pâmoison. Tomber en enfance… Rien à voir avec la chute des anges maudits, ni avec l’image péjorative d’une déchéance. L’expression “tomber en” ou “tomber dans” montre que l’on entre dans un état d’une manière accélérée. Le verbe “tomber” peut aussi signifier “rencontrer quelqu’un par surprise, rapidement” : “tomber sur quelqu’un”.  Le coup de cœur n’est pas loin: quand l’amour s’empare brutalement de vous, c’est comme si la foudre vous tombait dessus. Le comique n’est pas très loin non plus: la chute fait partie des gags les plus faciles du répertoire burlesque.

Myope-comme-une-taupe-2

Brodant sur l’idée du trébuchement, l’artiste Jean-Luc Fornelli s’amuse à dépeindre l’amour comme une succession de faux-pas. Il réalise des collages à partir de photos érotiques des années 20 ou 30, accompagnées de titre loufoques. Son collage intitulé “Accident de tournage sur le film X La Cousine du forgeron” montre un homme et une femme nus qui s’embrassent délicatement… tandis qu’une enclume bascule au-dessus d’eux. Jean-Luc Fornelli accompagne ces images ironiques de petits poèmes (récemment publiés sous le titre Voluptés à la mante) qui parlent des mille et un ratages dont notre vie intime semble être faite. Rappelez-vous la fois où vous avez oublié de tirer la chasse d’eau. Et cette fois où vous avez troublé le silence harmonieux de vos cœurs en laissant échapper une bévue… Tenez, moi, rien qu’hier soir, j’ai envoyé un plug dans l’œil de mon amant. “Regarde, chouchou, tu vois comme mon anus est musclé?“. Contractant le sphincter, j’ai malencontreusement expulsé le plug. Comme une fusée.

Heureusement, alleluia, il y a des gens comme Jean-Luc Fornelli pour vous faire sentir moins seul(e). Les accidents honteux, il en a commis tout plein: “pépins d’amour, couacs du désir, hics de l’éros…”. Bévues, gaffes et prolapsus en tous genres, bienvenue. Jean-Luc Fornelli épingle le vécu amoureux avec un sens de la piqure acéré. Ça sent la vérité. Dans des poèmes courts aux allures de petites pierres philosophales, il montre que les amants n’arrêtent pas de rater leurs coups et de glisser sur des peaux de banane. Et que c’est peut-être ça qui rend l’amour si fort. Parce que, survivre à une honte pareille, si ça ne vous tue pas… ça vous rend plus fort, non, chouchou?

Fonte les 400 culs

Exposition de collages de Jean-Luc Fornelli, du 15 novembre au 24 décembre 2009 à la Galerie Humus : 18 bis rue des terreaux, Lausanne, Suisse. Tél. : 00 41 21 323 2170.
Publication des collages et des poèmes de Jean-Luc Fornelli : Voluptés à la mante, éditions Humus

15/11/2009 - 17:01h Mulheres marcadas


Obra esmiúça a história de campo de concentração nazista onde 117 mil prisioneiras foram mortas

EVA BLAY ESPECIAL PARA A FOLHA

Desvendar o Holocausto, negado pelos ignorantes, punir os nazistas assassinos foi um processo que só se aprofundou na Alemanha depois do julgamento de Eichmann [em 1961], disse Hannah Arendt. E quanto falta conhecer!
Sabia-se da presença de mulheres em todos os campos, mas não que houvesse um campo especialmente destinado a elas e a meninas forçadas ao trabalho escravo.
É o que nos revela Rochelle G. Saidel, em seu magnifico “As Judias do Campo de Concentração de Ravensbrück”. Ravensbrück era um campo só para mulheres. Rochelle Saidel, ao visitá-lo em 1980, constatou que se falava de todas as prisioneiras, especialmente das comunistas, e nada se dizia sobre as judias, mesmo as judias comunistas.
Por que essa omissão? Esclarecer esta questão se tornou seu objetivo. Durante 25 anos, coletou documentos, ouviu sobreviventes, judias ou não, pesquisou bibliotecas em vários países e voltou ao campo diversas vezes por ocasião das comemorações de sua libertação. Rochelle descobriu que, de cada 100 mulheres, pelo menos 20 eram judias. Os responsáveis pelo memorial do campo tentavam se desculpar pela omissão afirmando que faziam uma classificação pelas nacionalidades, e não religião. Paradoxo, pois as deportadas de cada uma das “nacionalidades” o eram em decorrência da condição judaica, mesmo as que tivessem aderido a outras religiões, e não devido à nacionalidade.
No campo havia comunistas, antinazistas, social-democratas, homossexuais, criminosas, prostitutas, ciganas, testemunhas de Jeová e judias. Construído por prisioneiros de campos de concentração próximos, Ravensbrück recebeu a primeira leva de mulheres em 18 de maio de 1939. A cada ano chegavam centenas de deportadas. Vieram de Polônia, Áustria, França, Bélgica, Holanda, Noruega, Iugoslávia e outros países ocupados. Um campo previsto para 3.000 mulheres chegou a ter 132 mil prisioneiras durante seus seis anos de existência.

Tifo e inanição
Mas a crueldade da morte por tifo, tuberculose, inanição ou monóxido de carbono dos escapamentos de caminhões não bastava e, em novembro de 1944, [o chefe da polícia nazista Heinrich] Himmler ordenou que se construíssem câmaras de gás em Ravensbrück.
Das 132 mil mulheres que passaram pelo campo, 117 mil foram mortas. A Cruz Vermelha resgatou 7.500 prisioneiras, enviando-as para a Suíça e a Suécia no último momento da dominação nazista. Quando o Exército russo libertou o campo, em abril de 1945, restavam 3.000 mulheres moribundas.
O livro descreve detalhadamente como as prisioneiras realizavam um trabalho escravo. Construíam estradas, formavam uma fileira como animais para carregar pedras do lago das circunvizinhanças e depois as esmagavam com um cilindro que exigia dez mulheres para ser movido; alinhavam as pedrinhas à mão pelos caminhos do campo. As mulheres trabalhavam também fora do campo: foram escravas da fábrica Siemens na produção de armamentos.
Fome, frio, total ausência de roupas adequadas ao rigoroso inverno, falta de sapatos se somavam a chibatadas e ataques de cães. Mulheres e meninas eram também enviadas para terríveis “experiências” médicas que ultrapassam o limite da razão.
Várias prisioneiras de Ravensbrück tiveram ligações temporárias ou permanentes com o Brasil e suas histórias são relatadas no livro. Elisabeth Saborovski Ewert, conhecida como Sabo, veio ao Brasil enviada pelo Comintern [a Internacional Comunista] para, junto com Prestes, atuar no Partido Comunista.
Presa, teve destino semelhante a Olga Benário Prestes; ambas foram enviadas num navio nazista, em 1936, para a Alemanha. Sabo passou no Brasil por prisões, tortura, foi estuprada diante do marido, acabou em Ravensbrück, onde teve de trabalhar terrivelmente, embora fosse tuberculosa, e seu corpo, apenas pele e ossos.
Quando desmaiou, carregando pedras, foi chutada e mordida pelos cães atiçados pelas guardas do campo. Apesar dos esforços das companheiras, não resistiu.

Vida no campo
A condição de gênero teve várias consequências distintas para homens e mulheres. O perigo dos estupros estava sempre presente. Mulheres grávidas eram mortas ou tinham seus bebês mortos, às vezes por elas mesmas para que não sofressem a vida torturante do campo.
Socializadas para o pudor, sofriam quando tinham de ficar nuas diante de homens e mesmo de mulheres do campo. Mas essa mesma socialização para o “cuidar” ajudou a preservar a dignidade e até a sobrevivência de algumas.
Mulheres preparadas para as tarefas domésticas enganavam a fome trocando receitas, fazendo pequenos presentes como um simples desenho, esculpindo uma escova de dentes, bordando um pequeno pano, lembrando um aniversário. Simples gestos ganhavam enorme significado.
Após o fim da guerra, Ravensbrück ficou sob a supervisão dos comunistas russos e depois da República Democrática Alemã. De início, o Memorial de Ravensbrück ressaltava o heroísmo das mulheres comunistas russas ou alemãs, ignorando inteiramente as judias -mesmo as que também eram comunistas. Só depois de 1995 se abriu um espaço para essas mulheres esquecidas, certamente obra da competente e persistente pesquisadora Rochelle Saidel.

EVA BLAY é professora titular de sociologia na Universidade de São Paulo e autora de “Assassinato de Mulheres e Direitos Humanos” (ed. 34).


AS JUDIAS DO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DE RAVENSBRÜCK

Autor: Rochelle G. Saidel
Tradução: Antonio de Pádua Danesi
Editora: Edusp (tel. 0/xx/11/ 3091-4008)
Quanto: R$ 59 (344 págs.)

14/11/2009 - 12:54h A volta de Salgari, o rei dos oceanos e da selva

Três livros do escritor italiano, entre eles Os Piratas da Malásia, estão nas livrarias à espera de leitores que sigam o exemplo de Fellini e Umberto Eco, seus fãs

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Antonio Gonçalves Filho – O Estado SP

Edward Said não gostava nada da ideia que o Ocidente fazia do Oriente. Aliás, achava mesmo que o Oriente era uma invenção do Ocidente para manter os orientais submissos, mas jamais culpou o italiano Emilio Salgari (1862-1911) por isso. O mais amado escritor de aventuras da Itália, lido por Fellini e Umberto Eco, mais conhecido que Dante na Itália, não recuou ao reduzir o oriental a estereótipo, transformando Sandokan, um príncipe oriental, num vingativo pirata temido por comandantes ocidentais, o que explica, talvez, a omissão de Said. Os heróis de Salgari, afinal, eram bárbaros donos do mundo. O resto era a civilização, aborrecida e invariavelmente representada por imperialistas ingleses. E são esses bárbaros que estão de volta com o lançamento de Os Piratas da Malásia (tradução de Maiza Rocha, Editora Iluminuras, 256 páginas, R$ 38).

http://www.iluminuras.com.br/v1/admin/imagens_capas/ospiratas.jpghttp://www.iluminuras.com.br/v1/admin/imagens_capas/misterios.jpghttp://www.iluminuras.com.br/v1/admin/imagens_capas/tigres.jpg

Nesse livro, cheio de sangue, suor e fúria, Sandokan, o nobre cuja família foi exterminada, vira um pirata conhecido pela alcunha de o Tigre da Malásia, perseguindo mais uma vez os ingleses, claro. Salgari publicou essa sequência de Os Tigres de Mompracem (também lançado pela Iluminuras ao lado de Os Mistérios da Selva Negra) em 1896. No mundo real, a Inglaterra estava em guerra com Zanzibar, a mais curta de toda a história. Zanzibar se rendeu depois de 38 minutos. É mais o menos o tempo que Sandokan precisa para ajudar seu amigo Tremak-Naik, o caçador de serpentes, a fugir da prisão de Norfolk e juntar-se a ele no combate ao arqui-inimigo James Brooke, o caçador de piratas. Simples assim.

E foi justamente essa simplicidade que conquistou milhões de jovens em todo o mundo, formando gerações e gerações de italianos como o cineasta Sérgio Leone, o inventor do western spaghetti, que cansou de ler as aventuras ambientadas por Salgari no Velho Oeste americano. O escritor italiano jurava ter conhecido Buffalo Bill em Nebraska. Como era marinheiro, é preciso dar um desconto para sua ilimitada imaginação – que, de resto, fez nascer personagens como Kammamuri, fiel companheiro de Tremal-Naik, o exótico caçador de serpentes que, em Os Mistérios da Selva Negra, se apaixona por uma virgem prometida à deusa Kali.

Já em Os Tigres de Mompracem, o herói Sandokan surge acompanhado de seu fiel amigo, o português Yanez. Há, claro, também uma linda garota, Marianna, que o faz esquecer a luta contra os antípodas e todos os sentimentos de vingança contra esses malditos caucasianos. O guerrilheiro argentino Che Guevara leu 62 livros do escritor italiano para concluir que foi, desde criança, um “salgariano” radical, um anti-imperialista destinado a lutar contra poderosos. E, acima de tudo, um corsário um pouco ao estilo de Steeve Reeves, o saradão que massacra sem piedade os marujos de navios que cruzavam seu caminho em Os Piratas da Malásia.

Esse perfil de proscrito, exilado e injustiçado talvez explique o grande sucesso dos anti-heróis de Salgari – e um pouco o carisma de Che Guevara. Sandokan, não se deve esquecer, testemunhou o extermínio de sua família. Persegue o colonizador europeu com justa razão. Antes de ser romancista, Salgari foi jornalista. Sabia, portanto, de que mundo estava falando ao criar 80 romances que deram muito lucro aos editores e nenhum a ele, que se matou em cerimonial suicida inspirado nos samurais japoneses. Antes, porém, quebrou a pena que criou Sandokan, pedindo a seus editores inescrupulosos que pelo menos pagassem pelo enterro. Heróis não morrem. Seus criadores, sim.

O escritor

http://elcobre.es/Fotos%20Autores/Emilio_Salgari.jpgSALGARI: É difícil imaginar Gabriele D”Annunzio como roteirista de um filme baseado em Salgari, mas foi o que aconteceu há 101 anos, quando Cabiria foi realizado por Giovanni Pastrone. Trata-se de pirataria, no sentido moderno do termo. A história original era de Salgari, roubado por editores a vida toda, morrendo na penúria. Nascido em Verona em 1862, o autor viveu até 1911 e criou vários heróis, dos quais o mais célebre é Sandokan, que tem um fiel companheiro, o tenente Yanez de Gomera.

Tramas moldaram o imaginário de várias gerações

Há muito fora de catálogo, exemplares não eram encontrados nem em sebos

Luiz Carlos Merten – O Estado SP

Talvez seja preciso desistir da isenção jornalística e escrever na primeira pessoa, apaixonadamente. Há anos perseguia em sebos velhos exemplares das aventuras de Tarzan e Sandokan. Os próprios donos me desestimulavam. Nada mais raro do que encontrar colecionadores dispostos a abrir mão dos exemplares da lendária Coleção Terramarear, da Editora Melhoramentos. Aqueles livros moldaram meu imaginário, com os westerns no cinema.

Não só o meu. Lêdo Ivo escreveu seu volume A Ética da Aventura pegando carona nas leituras de seus verdes anos. E me lembro de ter lido certa vez o que ele disse e me marcou – muita gente pensa que escritor é só Marcel Proust ou James Joyce, mas ele acreditava, como eu acredito, que o valor do escritor é dado pelo leitor. Emilio Salgari sempre foi importante para mim. Confesso que tomei um susto ao descobrir, nas chamadas de novos livros que o Cultura, do Estado, publica aos domingos, que os volumes que buscava em sebos estavam saindo novos em folha. Salgari! Sandokan! Para quando o Tarzan?

Lembro-me de ter 9 ou 10 anos quando comprei meu primeiro livro. Era um volume da Terramarear, A Volta de Tarzan, de Edgar Rice Burroughs. Somente depois li o primeiro da série com o homem-macaco e, em seguida, devorei toda a coleção. Hollywood nunca fez justiça à imaginação de Burroughs. Em seus livros, Tarzan viajou ao centro da Terra, descobriu Camelot e o Império Romano no coração da África, decifrou o mistério de Opar, onde reinava a sacerdotisa La, e se envolveu com a sedutora Nemone, com seu leão de ouro. Nada disso passou para o cinema. Indago-me com frequência: como seria hoje (re)ler aquelas aventuras?

Embora seja uma animação, Ratatouille, de Brad Bird, é um dos grandes filmes dos últimos anos e a cena em que o crítico gastronômico reencontra o tempo perdido realiza o que gênios como Visconti e Losey gostariam de ter feito, se tivessem conseguido adaptar Proust. Salgari teve mais sorte que Burroughs no cinema. Na verdade, eu o vi, antes de ler. Era ávido consumidor das aventuras de Sandokan, com Ray Danton, e mais tarde consegui ver o herói interpretado por Kabir Bedi na TV italiana. Também li Salgari primeiro em espanhol, antes que em português, porque sempre tive dificuldade para encontrar seus livros no Brasil. Reli agora Os Mistérios da Selva Negra e Os Piratas da Malásia e não me decepcionei. Spielberg e seus roteiristas também devem tê-lo (re)lido. Muita coisa de Indiana Jones e o Templo da Perdição, as câmaras subterrâneas, os sacrifícios humanos, os adoradores da deusa da morte, tudo parece saído de Salgari.

Faltam menos de dois anos para se completar (em abril de 2011) o centenário de sua morte, por suicídio. Não sei por que ele terminou relegado ao segundo time dos escritores de aventuras, distante de Walter Scott, Alexandre Dumas e Júlio Verne. Me encanta nele a existência desses personagens nobres, capazes de qualquer sacrifício em nome da honra e da amizade e sempre a postos para defender fracos e oprimidos das garras de opressores variados, sejam califas, fanáticos hindus ou representantes da Coroa espanhola no Caribe. O mundo – e o cinema – não teriam tido o mesmo fascínio para mim, sem Emilio Salgari (e Sandokan).

09/11/2009 - 18:03h “CALUMNIA”

guardian.co.uk
No “Guardian”, Eliza no Paraguai


Ecoa pelos jornais paraguaios e também pelo “Irish Times”, da Irlanda, e pelo inglês “Guardian” o lançamento do livro “Calumnia”, dos irlandeses Michael Lillis e Ronan Fanning. Retrata a vida de Eliza Lynch, irlandesa companheira do ditador paraguaio Solano López.
O livro questiona “crônicas brasileiras” da época, como a de que se tratava de uma prostituta -e propõe que Lula, como fez o inglês Tony Blair sobre um episódio da Irlanda, peça desculpas pela ação brasileira nos últimos dois anos da Guerra do Paraguai, dados como “genocidas”. É o que mais ecoa, no Paraguai.

Fonte Toda Mídia, coluna de Nelson de Sá na Folha SP


http://www.filmesraros.com/loja/images/icons/paraguaii4.jpg
Francisco Solano López


‘Villain’ of Brazil-Paraguay war was misunderstood hero, says new book

Eliza Lynch was depicted by Brazil as a warmongering manipulator after South America’s bloodiest war. Irish authors present a more sympathetic account

Eliza Lynch in her ‘Queen of Paraguay’ years. Photograph from the book The Lives of Eliza Lynch: Scandal and Courage

Eliza Lynch in her Queen of Paraguay years

When Brazil won the bloodiest war in South America’s history it cast itself as the victim and Eliza Lynch as one of the chief villains.

The unofficial “Queen of Paraguay“, said the victors, was a gold-digging Irish prostitute who encouraged her adopted country to invade neighbours.

The war ended in 1870 with Brazil battered and Paraguay destroyed: up to 90% of the adult male population were dead, including Francisco Solano López, the demented dictator who had fallen under Lynch’s spell and built her a palace.

She escaped execution but not infamy. Brazilian chronicles depicted her as a warmongering manipulator, and the reputation stuck. She featured alongside Lucrezia Borgia in a 1995 book called The World’s Wickedest Women.

Now, however, a revisionist history by Irish authors has turned the tables by portraying Lynch as a misunderstood hero and Brazil as a near-genocidal aggressor.

The Lives of Eliza Lynch: Scandal and Courage, by Michael Lillis, a former diplomat, and Ronan Fanning, a historian, has brought indignation in Brazil and anger and acclaim in Paraguay. It depicts Lynch as a humane woman who stayed loyal to Paraguay and to her man, even after his reckless policies provoked savage revenge from Brazil.

The book, published in English, Spanish and Portuguese, has prompted calls for Brazilian penitence. “There was no pity shown to Paraguay,” Federico Franco, Paraguay’s vice-president, said at its launch in Asuncíon last week. “Those women, children and elderly people who were raped and murdered deserve a demand for an apology.” Paraguayan academics have called on Brazil’s military to open its war archives.

Lynch was an unlikely interloper into South American history. Born into modest means in Cork in 1833, aged 16, she married a French army surgeon, Xavier Quatrefages. The marriage failed and four years later in Paris she caught the eye of López, who was buying arms for his father, the dictator of Paraguay. He took her back to Asuncíon where she bore him seven children, though they never married. Local elites mimicked the arrival’s Parisian style, but snubbed her as a courtesan.

López inherited power in 1862 and two years later launched the so-called war of the triple alliance against Argentina, Brazil and Uruguay. As the tide turned against him López, paranoid and possibly insane, purged followers in death tribunals known as altars of blood.

Lynch remained steadfast and buried her lover with her bare hands in 1870 after Brazilian troops speared him to death. The country was annihilated. “Paraguay was blasted back to the stone age,” said Fanning, emeritus professor of modern Irish history at University College Dublin. Lynch lapsed into obscurity and died in Paris in 1886, aged 52, her name besmirched.

After years of research in five countries, Fanning and Lillis, an Irish diplomat-turned businessman, pieced together a more sympathetic portrait.

French police files and Paris brothel records showed no evidence Lynch was a prostitute. Nor were there literary or journalistic references to her being a courtesan. The exculpation moved some of her descendants to tears at the Asuncíon book launch.

However the book’s harsh assessment of López prompted anonymous threats ‑ thought to be from Paraguayan extreme nationalists ‑ to the local publisher. “Our lives were threatened,” said Fanning. “The messages said we shouldn’t come or our lives would be in peril.”

The book has also upset Brazil by accusing Emperor Dom Pedro II of needlessly prolonging the war in a bloodsoaked hunt for López and his army’s ragged remnants. “The last two years were close to genocidal,” said Fanning.

The authors have suggested Brazil apologise to its relatively tiny neighbour, just as Tony Blair said sorry to Ireland for the 1840s famine. Brazilian academics have bristled and pointed out that Paraguay started the war.

However, Hugh O’Shaughnessy, a Latin America commentator and author of The Priest of Paraguay, said deep down the continent’s superpower did recognise a historic debt: “The Brazilians do have a bad conscience about it. They pulled the insides out of Paraguay.”

***

Michael Lillis: “Calumnia” echa luz sobre la figura de Elisa Alicia Lynch

La investigación revela datos precisos sobre la vida de uno de los personajes más controversiales de la historia paraguaya.

Por Osvaldo Zayas – La Nación (Paraguay)

Según  Michael Lillis, uno de los autores del libro  “Calumnia”, la investigación echa luz sobre la vida de Elisa Alicia Lynch. Una de las principales leyendas que derrumba el libro es la que cuenta que la compañera del mariscal López era una prostituta. Esa falsa historia fue divulgada por una basta bibliografía, tanto en lengua inglesa como castellana.

Lillis, el irlandés que junto a Ronan Fanning redactaron “Calumnia”.

Según el autor, lo que le dio sustento a las barbaridades escritas sobre Lynch fue una biografía escrita por el argentino Héctor Varela en 1970. Supuestamente se había entrevistado durante horas con la compañera de López. “Él pone en su boca declaraciones sobre su filosofía del amor”.

En esos tiempos, vivió una mujer, esposa de un dramaturgo español de apellido Bermúdez. Ella había escrito un catecismo para esposas y jóvenes mujeres. “Típico del puritanismo católico castellano de la época”. El libro fue dedicado a Juana Pabla Carrillo. Varela toma supuestas declaraciones de la autora para decir que Lynch había sido prostituta y que después se casó con un oficial francés.

“Pudimos probar que ese lado negro que se le atribuían no tenía fundamento. En esos tiempos, el control de la Policía de Francia con las prostitutas era muy estricto. Todas estaban registradas e iban una vez cada tres meses para someterse a exámenes médicos. Elisa no estaba dentro de esos registros”, refirió el investigador.

Para Lillis, más allá de eliminar la visión maniquea sobre Elisa Alicia Lynch, lo que busca la obra es mostrar a un ser humano, con fortalezas y debilidades. Para Lillis y su obra: “Ella se identificó con el Paraguay”.

APORTE CULTURAL DE ELISA

Elisa tenía la mayor biblioteca de Paraguay. Muchos ilustres visitantes dejaron notas y conversaron sobre literatura en el lugar. Poseía y leyó todo lo mejor de la literatura inglesa y francesa de esos años. “No sé si se pueda afirmar que era una intelectual, pero sí que era consumidora de literatura de alta calidad”, expresó Lillis y agregó que Lynch solicitaba constantemente que le trajeran lo último de las letras.

Su estilo franco-italiano en la arquitectura perdura hasta nuestros días, sobre todo, según el irlandés, en los interiores de las construcciones. “Cuando los brasileños invadieron Asunción, en 1969, hablaron sobre lo suntuoso de los interiores de las casas. Existen documentos que dan cuenta de los pedidos que hacía López a Europa, que evidentemente eran realizados a solicitud de Elisa”.

En cuanto a la moda, ella estableció un nuevo estilo. Muchas damas dejaron los typoi para utilizar ropa más moderna. Los peinados se fueron diversificando. En la música, se le atribuye haber popularizado la polca europea, antecesora de la paraguaya. Uno de los más claros ejemplos de composiciones de la época es “London karape” “Además, no es una coincidencia menor que el arpa sea el instrumento musical de Irlanda. Es probable que ella la haya introducido”, comentó Lilis.

Existen miles de documentos que fueron recolectados a lo largo de 18 años de investigación para la publicación de “Calumnia”. Estos llenan el sótano de una casa en Francia. Informó Lillis que donarán los materiales a una Academia, dentro de dos meses. Aún no se sabe quiénes recibirán la donación, pero es seguro que los documentos se quedarán en Paraguay.

“Sería muy difícil cuantificar el dinero que se hubiera gastado en una investigación de este tipo”, refirió al explicar que para obtener todos los datos fue necesario conformar un equipo de investigación y recurrir a documentos de Paraguay, Brasil, Francia, Irlanda, Inglaterra, Argentina y hasta Estados Unidos.

08/11/2009 - 15:23h Resistência francesa


Criados há meio século por René Goscinny e Albert Uderzo, os quadrinhos de Asterix e Obelix ganham exposição no Museu Cluny e se consolidam como um símbolo do vigor da França

http://lesmargotiennes.l.e.pic.centerblog.net/olmxtl9q.jpg

Andrei Netto, CORRESPONDENTE, PARIS – O Estado SP

Pense por um instante no símbolo da França. Você deve ter tido em mente cidades como Paris, monumentos como a torre Eiffel, palácios como o Louvre, intelectuais como Rousseau, Descartes, Durkheim, escritores, pintores, heróis nacionais como De Gaulle e Vercingentorix. Pois acrescente outro gaulês em sua seleção: Asterix. Sim, Asterix, o gaulês das ficções em HQ, tornou-se um patrimônio nacional. A prova é que, ao completar 50 anos de idade, o anti-herói baixinho e bigodudo que teme a queda dos céus sobre sua cabeça é centro de atenções da mídia e da opinião pública, merecedor de exibições recordistas de audiência na TV, de um novo livro e de uma exposição inédita no Museu Nacional da Idade Média, no sítio histórico de Cluny, no coração do país.

A febre em torno de Asterix e Obelix, que se irradia também pela Europa, é, na realidade, uma homenagem aos personagens criados por René Goscinny e Albert Uderzo há meio século. Em outubro de 1959, vinha a público a revista Pilote, que trouxe a primeira história da dupla, dois anos antes de Asterix, o Gaulês, livro que inaugurou a série.

Desde então, as aventuras dos dois gauleses ao lado de mais de 400 antagonistas já renderam desenhos animados, filmes, discos, jogos de videogame e um parque temático, além de 34 livros, traduzidos em 107 línguas – inclusive o latim. O último é L”Aniversaire d”Astérix et Obélix – Le Livre d”Or, que chega às livrarias brasileiras na próxima quarta-feira (O Aniversário de Asterix e Obelix – O Livro de Ouro; Record; tradução de Cláudio Varga; 56 páginas; R$ 25,90). Compêndio de histórias curtas, lançado originalmente em 15 países, com tiragem recorde de 3 milhões de exemplares, dos quais 1,1 milhão só na França, o álbum é fruto de um tributo planejado por Uderzo, 82 anos. “Queria fazer com que todos os personagens que apareceram nos livros pudessem ter voz no aniversário”, afirmou, em uma das raras entrevistas que concedeu nos últimos anos.

Além de livros de sucesso, Asterix e Obelix rendem também filas de uma hora de espera, que denunciam o local onde está sendo realizada a mostra Asterix no Museu Cluny. A exposição, confluência inesperada de ficção e realidade, é uma reverência a Asterix, um pavilhão da cultura nacional que invadiu um patrimônio da humanidade.

Protagonista de histórias em quadrinhos, o gaulês ganhou espaço digno da importância que conquistou no imaginário dos franceses: está entre as paredes de pedras milenares do recém-restaurado frigidarium de Cluny, um monumento da história galo-romana situado no marco zero da cidade de Lutétia, como Paris era chamada pelos césares. Nada mais apropriado, já que seus autores sempre buscaram inspiração em relíquias históricas para alimentar suas narrativas. A mostra reúne 30 pranchas originais desenhadas por Uderzo, scripts de Goscinny, além de objetos – como uma Keystone Royal, a máquina usada pelo escritor – que ajudam a esclarecer o processo de criação de dois mestres das histórias em quadrinhos.

A homenagem vem acompanhada de outra exposição, esta realizada nas grades que cercam o sítio de Cluny, nas quais desenhos de Uderzo são comparados a obras-primas da pintura ocidental. Assim, postas lado a lado, estão poses de Asterix, Obelix & companhia, e reproduções de telas como Olympia, de Manet, A Liberdade Guiando o Povo, de Delacroix, A Última Ceia, de Leonardo da Vinci, e de esculturas como O Pensador, de Rodin, de forma a escancarar a influência da arte erudita na obra do desenhista – ainda que perdure a dúvida sobre a natureza da inspiração, que pode ser tanto compreendida como uma reverência à arte ou uma paródia escrachada dos dois humoristas.

O certo é que a efervescência pública em torno dos 50 anos do personagem e a reflexão intelectual feita em torno da obra de Goscinny e Uderzo abriu os olhos da imprensa, do meio acadêmico e até do político para um fenômeno: na avaliação dos franceses, Asterix é muito mais do que uma HQ que deu certo e vendeu milhões de cópias; é também fruto e origem de fragmentos da história da França _ uma constatação que reforça os laços entre os personagens fictícios e seu público fiel.

“Decidimos reunir Asterix e o Museu de Cluny porque são dois monumentos nacionais”, disse ao Estado Emmanuelle Héran, curadora e encarregada da política científica da Reunião de Museus Nacionais (RMN), o órgão que controla os maiores acervos de arte da França. A decisão, afirma, foi tomada pelo reconhecimento de que Asterix se confunde em parte com a história do país.

Até os anos 1950 e 1960, aprendia-se nas escolas da França que Vercingentorix, filho de Celtillos, o líder gaulês, povo celta, na luta contra o invasor romano Júlio César, na Guerra das Gálias, entre 58 e 51 a.C., era o herói fundador da nação francesa. Esse mito, criado no século 19 por autores como Amédée Thierry e por Henri Martin, adotado por Napoleão III e instrumentalizado a partir de então pelo Estado Republicano, é um dos elementos do patriotismo francês. Ele ajuda a explicar, por exemplo, o desejo de revanche após a derrota para a Alemanha unificada na Guerra Franco-Prussiana (1870) – e também a beligerância entre os dois países líderes da Europa Continental, que se confrontariam nas guerras mundiais.

Asterix, por sua vez, é a paródia de Vercingentorix, mas ainda com matizes nacionalistas. “Desde sua primeira página, Asterix traz referências à ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial”, explica Emmanuelle Héran, lembrando da Resistence Française. “Em uma época na qual não se falava no colaboracionismo francês, Asterix reforçava a ideia de um povo que luta, que resiste, que é idealista e decente”. E esse povo é branco, loiro, tem olhos azuis, é forte e peleador. Asterix reforça o estereótipo que a França tinha – ou tem? – de si mesma: a de um país cujo arquétipo é puro, sem miscigenações. “Nos anos 50 e 60, aprendia-se que os franceses eram os descendentes diretos dos gauleses”, lembra a curadora. “Essa visão não era completa e não favorecia a inclusão das ondas de imigrantes que já transformavam os franceses em um povo mestiço.”

Reprimendas históricas à parte, o fato é que Asterix conta com a empatia dos franceses e com a simpatia dos estrangeiros. Em todo o mundo, as histórias de Goscinny e Uderzo são sucesso. Dentre os cerca de 400 milhões de exemplares já vendidos, 125 milhões foram parar nas mãos de fãs alemães – os alvos iniciais da ironia dos dois humoristas. As razões do sucesso são diversas, e passam pelo detalhismo de Uderzo, pelas manias perfeccionistas de Goscinny e por um enredo clássico, como a luta entre Davi e Golias, marcado por valores universais (como a oposição entre cosmopolitas, os romanos, e autóctones, os gauleses). Não bastasse, suas histórias fazem alusões à vida corrente, grande parte delas tipicamente francesas: Asterix e sua turma mantêm vivas suas tradições, brigam entre si permanentemente, mas se unem e lutam por seus ideais, reagem aos estrangeiros que ousam desafiá-los, prezam a solidariedade. E, claro, amam um banquete regado a vinho no fim da história.

Charme é antídoto contra Era Brucewillix

Para um de seus criadores, o espírito anárquico de Asterix tornou-se universal

Jotabê Medeiros – O Estado SP

É um operário ordinário, esse Asterix. Não é particularmente esperto (Obelix é bem obtuso, por sinal) e não aspira a nada além de tranquilidade e de um bom jantar. Não tem ambições de acumulação de capital, nem de conquistar territórios, nem de grandes butins e nem sequer de sequestrar uma Helena sinuosa.

Criado por René Goscinny e Albert Uderzo em 1959, o personagem Asterix dispensa apresentações: contra sua própria personalidade, é definido como um inquebrável guerreiro gaulês que, num mundo totalmente dominado pelos romanos, no ano 50 a.C., resiste bravamente numa pequena e anárquica aldeia encravada no calcanhar do imperialismo. Foi publicado em 105 línguas e dialetos nos últimos 50 anos.

Em 2005, quando foi publicada, após grande hiato, uma “nova” história do personagem, a França mostrou como era fanática por ele: imprimiu uma edição de colecionador, 3.178.000 álbuns numerados, únicos. No resto do mundo, foram colocados à venda 8 milhões de gibis em 27 países. Para se ter uma ideia da popularidade desse baixinho, já são cerca de 400 milhões de exemplares vendidos em 50 anos.

Asterix, segundo a descrição padrão dos gibis de Uderzo e Goscinny, é o “pequeno guerreiro de espírito sagaz e inteligência viva” que aceita sem vacilar as missões perigosas que lhe são confiadas. Obelix é o amigo inseparável de Asterix, um entregador de menires que adora javalis e boas brigas. Anda acompanhado do cachorro Ideiafix.

Há dois anos, por ocasião do aniversário de um dos criadores dos personagens, Albert Uderzo, 34 autores de quadrinhos de culturas diferentes receberam a proposta de desenharem histórias curtas que simbolizassem sua visão daqueles heróis – François Boucq, Loustal, Zep e Milo Manara, entre outros. O resultado foi publicado pelas edições Albert René com o título Asterix e Ses Amis (Asterix e Seus Amigos).

François Boucq criou um interessante conto em Cours D”Anatomix (algo como Cursix de Anatomiovix), no qual promove o encontro entre Leonardo da Vinci e Asterix, no qual o mestre italiano mostra como se desenha com rigor e ele e o personagem acabam tomando uma taça de vinho num boteco. Nem Da Vinci buscava a perfeição nem Asterix buscava ser levado a sério. Já o genial italiano Milo Manara mostra como uma de suas pin-ups se vinga dos gauleses por eles estarem sempre colocando a nocaute seus namorados italianos.

Qual é a razão da popularidade desse anão raquítico e mal-humorado que combate os romanos com a ajuda de um carregador desinteligente e desajeitado? “É como tentar explicar o segredo da poção mágica”, brinca Albert Uderzo. Muitas tentativas de explicação vêm aparecendo desde a criação da dupla num modesto apartamento na periferia de Paris pelos então estudantes Uderzo e Goscinny. A primeira, mais política, é que Asterix reafirma o orgulho nacionalista dos franceses mundo afora, como poucos ícones o fazem. Encarna o espírito da resistência cultural. Mas a explicação mais simples é que Asterix tem um senso de humor debochado, ranzinza e calcado em ideias até obsoletas de tão românticas.

Há alguns dias, o Jornal des Plages propôs a Albert Uderzo a seguinte questão: “Finalmente, 50 anos depois, quem é Asterix ?” A resposta: “É você, sou eu e é o mundo todo. Nós acreditamos em um instante que ele era o pequeno francês, mas ultrapassou largamente os limites da França. Porque, se você observa os alemães, verá que Asterix é alemão. Esse é o fenômeno, que Asterix tenha se tornado universal mesmo que isso não tenha sido previsto para ele”, ponderou o autor.

Autêntico herói desajustado e anarquista, Asterix desarma espíritos seja em bancos de espera de ferroviárias ou nos grandes gabinetes decisórios. Uderzo confirmou recentemente uma lenda que corria sobre o herói, que o ligava ao famoso general Charles de Gaulle. “Fomos convidados, eu e René, para uma estreia no Olympia de Paris. François Missoffe, um ministro do general De Gaulle, descia as escadas para se juntar no foyer aos colegas. Ele viu René, o abordou e disse a ele: “Escute, aconteceu algo extraordinário no último encontro do Conselho de Ministros. De Gaulle começou a nos chamar um por um pelo nome dos personagens da sua vila gaulesa. E todo mundo se reconhecia! Abraracourcix ? Presente ! Assurancetourix ? Presente…”"

Asterix e Obelix celebram uma era de opulência do trivial e de despreocupação com a autoridade constituída. São guerreiros da desobediência civil. Afinal, gauleses bárbaros que são, vivem num paraíso original, numa revolucionária (porque “primitiva”) existência comunitária. Brigam muito, mas tudo sempre termina em banquete, javalis e vinho em quantidade dinossáurica – o banquete de aldeões é centrado num prato ritual, o javali assado.

Comer é o objetivo final de toda a pequena odisseia particular desses heróis, embora sua saga consista em resistir ao inimigo expansionista – daí Asterix ser uma metáfora da resistência da produção artesanal europeia contra a invasão massiva americana. É no seu charme de desajustados que consiste sua força. Para combater a pancadaria da era “brucewillix” e “osamabinladix”, só mesmo uma dose cavalar daquela velha poção na qual Obelix caiu, mesmo que forjada em laboratórios da Light & Magic.


Novidadix

O 34.º álbum de Asterix chega às livrarias brasileiras nesta quarta-feira, lançamento da Editora Record. É O Aniversário de Asterix e Obelix – O Livro de Ouro, primeira aventura dos heróis em quatro anos. A obra parte de um texto inédito de René Goscinny, coautor de Asterix, morto em 1977, e resgata cenas de volumes antigos, como O Escudo de Averno e Uma Volta pela Gália com Asterix, além de fazer citações de obras de Delacroix, Munch e Rodin, inserindo a dupla gaulesa no contexto dos trabalhos. O Aniversário de Asterix e Obelix foi lançado originalmente em 15 países. Até hoje, os álbuns de aventuras da dupla de gauleses já venderam no Brasil cerca de 3 milhões de exemplares. No dia 15, Albert Uderzo recebeu um doutorado de honra da Universidade Paris-8 à Bobigny (Seine-Saint-Denis). No dia 22, estreou no Théâtre des Champs-Elysées um musical, Le Tour de Gaule Musical d”Astérix, dirigido por Frédéric Chaslin.

07/11/2009 - 15:26h O discreto charme de Buñuel

Jean-Claude Carrière relembra “Meu Último Suspiro”, livro de memórias de Luis Buñuel que elaborou e é reeditado

Divulgação

Catherine Deneuve e Luis Buñuel (1900-1983) nas filmagens de “Bela da Tarde” (67), longa coescrito por Jean-Claude Carrière


MARCOS STRECKER – FOLHA SP


DA REPORTAGEM LOCAL

Octavio Paz dizia que o livro “Meu Último Suspiro”, escrito em 1980, era o melhor “filme” de Luis Buñuel. E era mesmo. Mas não é só. Esse livro de difícil definição sobre o grande mestre do surrealismo, figura iconoclasta e iluminada que se confunde com a formação do cinema desde os anos 20 (”Um Cão Andaluz”, 1929) até a década de 70 (”Esse Obscuro Objeto do Desejo”, 1977), é também uma das melhores publicações sobre a sétima arte.
Só é comparável a “Hitchcock/ Truffaut – Entrevistas” (Cia. das Letras), de 1967, em que o “enfant terrible” da nouvelle vague faz uma minuciosa revisão da obra do diretor de “Psicose”. Os dois livros marcaram época e viraram clássicos.
No caso de “Meu Último Suspiro”, que agora ganha reedição (Cosac Naify/Mostra de Cinema de SP, 376 págs., R$ 55, trad. André Telles), o coautor é também um mestre do cinema, o roteirista francês Jean-Claude Carrière, 78, que coassinou várias obras essenciais de Buñuel (incluindo “Bela da Tarde” e “O Discreto Charme da Burguesia”), já trabalhou com Jean-Luc Godard e é parceiro do diretor Peter Brook.
Em entrevista, Carrière lembra que Buñuel não queria escrever um livro de memórias, então na moda. Para convencê-lo, escreveu um capítulo supostamente narrado pelo cineasta intitulado “Os Prazeres deste Mundo”, sobre bebidas, tabaco e bares. Buñuel gostou e o resultado é um livro de cinema que não analisa nenhum filme e mostra a personalidade fascinante de um dos grandes artistas do século 20.

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Luis Buñuel e imagem de seu filme A idade do ouro

“Luis Buñuel é maior do que sua obra”

Jean-Claude Carrière afirma que “Meu Último Suspiro” é “livro-retrato” e diz que Buñuel é “mais importante que Picasso”

“Não fiz um livro sobre os filmes, mas sobre Buñuel. Truffaut queria saber por que eu tinha mais interesse no homem do que na obra”

DA REPORTAGEM LOCAL

Leia entrevista com Jean-Claude Carrière, que comenta a edição de “Meu Último Suspiro”, que narra episódios na vida do cineasta Luis Buñuel, como a estreia de “Um Cão Andaluz”, a passagem por Hollywood e o exílio no México.
O francês está escrevendo um roteiro com o escritor Atiq Rahimi e acaba de lançar “N’Espérez pas Vous Débarrasser des Livres” (não ache que os livros serão descartados, ed. Grasset), entrevistas conjuntas com Umberto Eco. (MARCOS STRECKER)

FOLHA – “Meu Último Suspiro” é uma obra de Luis Buñuel ou de Jean-Claude Carrière?
JEAN-CLAUDE CARRIÈRE
– Nós escrevemos juntos, como se fosse um roteiro. Na época, tínhamos escrito um roteiro que não pôde ser filmado ["Agon"], pois ele já estava com 80 anos, muito cansado. Como convivi 20 anos com ele, tinha tomado notas sobre sua vida. Ele me contava muitas coisas durante as refeições e os aperitivos. Fiz os cálculos, almoçamos juntos mais de 2.000 vezes. Muitos casais não podem dizer isso… Como conhecia sua vida, propus fazer o livro. Ele disse que não queria, e que todos estavam escrevendo memórias… Para convencê-lo, escrevi eu mesmo o capítulo “Os Prazeres desse Mundo”. Narrei em primeira pessoa dizendo “eu, Buñuel….”. Ele disse: tenho a impressão que eu mesmo escrevi. O livro foi escrito em 1980, ele morreu em 1983. Teve a oportunidade de ver a edição espanhola e gostou.

FOLHA – O livro não é uma biografia no sentido comum. Como vocês chegaram a esse formato?
CARRIÈRE
– Eu o convenci a fazer não um livro de memórias, mas um livro-retrato, que se pareceria com ele. Comecei com “Os Prazeres desse Mundo” pois seria um capítulo curto, não teria a cara de um livro de memórias. Os que conheceram Buñuel dizem que o livro se parece muito com ele. Trabalhamos no México. De manhã ficávamos juntos, à tarde eu escrevia. Foi assim durante várias semanas, até chegarmos a uma versão que agradava aos dois.

FOLHA – Quem escolheu os temas?
CARRIÈRE
– Sugeri alguns capítulos e alguns temas. É o nosso livro, mas é a vida dele. Ele não teria feito o livro sem mim, porque não gostava de escrever, mas sem ele não teria conseguido redigir, porque é a vida dele. Ele não mudou quase nada. Há coisas que eu conhecia muito bem, como a parte surrealista. Mas havia passagens que não conhecia muito, como a Guerra Civil Espanhola. Aí o interroguei de maneira precisa.

FOLHA – É um livro sobre um cineasta que mal discute sua obra. Como foi recebido no seu lançamento?
CARRIÈRE
– Há um charme, que não consigo explicar. Às vezes pego o livro para reler. Ele foi rapidamente traduzido na Espanha, onde fez um enorme sucesso e se tornou um clássico. As pessoas falam muito desse livro, é reeditado com frequência. François Truffaut uma vez me convidou para jantar só para que conversássemos sobre o livro. Ele fez uma edição sobre Hitchcock ["Hitchcock/ Truffaut - Entrevistas"], eu sobre Buñuel. Discutimos como fizemos nossos livros. Ele escreveu sobre os filmes de Hitchcock. Não fiz um livro sobre os filmes, mas sobre Buñuel. Truffaut leu duas vezes o livro. Queria saber porque eu tinha mais interesse no homem do que na obra. Disse que Buñuel é que tinha feito essa escolha. Buñuel não gostava de falar de cinema. Estávamos de acordo que não falássemos de mim. É como se ele estivesse diante de um espelho, e eu estivesse segurando o espelho.

FOLHA – Havia assuntos que ele não queria abordar? Buñuel tinha zonas obscuras em sua vida?
CARRIÈRE
– Ele não gostava de falar de tragédias na sua vida. Não gostava de falar da morte de [Federico García] Lorca, que o marcou muito. Preferia falar dos bons momentos. Por exemplo: não gostava de falar do momento em que precisou pedir demissão do Museu de Arte Moderna de Nova York, episódio em que Salvador Dalí teve responsabilidade. Gostava de guardar os bons momentos com seus velhos amigos. Posso testemunhar que era um homem de grande bondade. É raro encontrar alguém tão generoso que ao mesmo tempo tenha um olhar impiedoso sobre as coisas e as pessoas.

FOLHA – Qual é a importância de Buñuel atualmente?
CARRIÈRE
– Hoje há duas visões. Uma é dizer que era um cineasta surrealista. Outra é a visão hispânica, de que Buñuel é o maior artista espanhol desde Goya. Para qualquer romancista, cineasta, pintor ou filósofo, há um momento em que é inevitável se defrontar Buñuel.
Ele é muito mais importante do que Picasso. Picasso é pintor, mas apenas pintor. Buñuel é um personagem maior do que sua obra, não se reduz a ela. Isso era claro para mim na época, como ainda é hoje.
Por isso o livro se tornou um clássico. Releio com frequência o último parágrafo, em que ele diz que “gostaria de poder se levantar dos mortos a cada dez anos, ir até uma banca e comprar alguns jornais; voltaria ao cemitério e leria sobre os desastres do mundo, antes de voltar a adormecer, sereno”.
Se eu escrevesse um livro sobre Buñuel hoje, o mostraria sobre a tumba. Diria como está o mundo atualmente, para saber o que ele acharia disso. Eu levaria os jornais para ele.

04/11/2009 - 16:59h Ovos e galinhas

MARCELO COELHO – FOLHA SP

“O Naturalista da Economia” é um tesouro de surpresas, mas há algumas decepções


NUNCA REPAREI muito nos preços dos ovos de granja, mas fiquei sabendo por um livro recente (”O Naturalista da Economia”, de Robert Frank), que os de cor avermelhada custam mais caro do que os brancos, embora tenham o mesmo gosto e idêntico valor nutricional.
Pelo menos é assim nos Estados Unidos, onde há consumidores intrigados com o fenômeno. Qual seria a razão dessa diferença de preços?
A pergunta pareceu expressiva aos editores do livro, que se inspiraram nela para a ilustração da capa. Mas é só uma entre as dezenas de dúvidas para as quais o pensamento econômico, pelo menos na interpretação do autor, está pronto a dar resposta.
Alguns exemplos. Por que as baleias estão ameaçadas de extinção e isso não acontece com as galinhas?
Por que as roupas masculinas têm botões do lado direito, e as femininas, do esquerdo? Por que os bares cobram a água, mas oferecem amendoins de graça?
Esta última me pareceu bem fácil.
Afinal, amendoins aumentam a sede dos frequentadores. Mas Robert Frank acrescenta outro fator ao raciocínio. Quanto mais água o infeliz tomar, menor será o seu consumo de bebida alcoólica. Logo, é necessário cobrar pela água também.
A pergunta sobre os botões femininos não traz uma resposta tão economicista. A razão de ficarem do lado esquerdo é histórica. Antigamente, as grandes damas não se vestiam sozinhas. Ficavam de pé diante das mucamas, que, sendo na maioria destras, tiveram assim facilitado o seu trabalho, podendo abotoar as roupas com a mão direita.
Sobre os destinos diversos de baleias e galinhas, não sei se o que mais surpreende é a resposta ou a pergunta. Por que se imaginaria que as galinhas pudessem ser extintas?
Mas um bom economista tem a obrigação de nos surpreender sempre, argumentando a partir de poucas e invariáveis premissas. As baleias estão ameaçadas de extinção, diz Robert Frank, pelo simples motivo de que não têm proprietários… Fosse possível, sei lá, organizar uma fazenda de cetáceos ou pelo menos marcá-las a ferro como os bois das pradarias americanas, estaríamos logo tão fartos de baleias quanto de hamsters e chinchilas.
Não se pense que o autor seja um neoliberal de quatro costados. A alarmante elevação nos preços do caviar beluga se deve primordialmente, diz o livro, ao colapso da União Soviética.
É que o mar Cáspio passou a ser explorado por repúblicas rivais, mais propensas a burlar os concorrentes na obtenção de caviar do que a conformar-se com uma regulamentação comum.
A exemplo de seus predecessores no gênero, como “Freakonomics”, este livro é um tesouro de surpresas, entre as quais se escondem algumas decepções.
Uma pergunta que fica sem resposta, de todo modo, é a de por que, afinal, tantos livros desse tipo surgiram agora no mercado. Acho que fazem parte do mesmo veio da literatura neodarwinista. Por que os seres humanos riem?
Por que há pessoas que sacrificam a própria vida numa guerra, enquanto outras colecionam tampinhas de garrafa?
Uma resposta seria dizer apenas: porque são humanos, porque são pessoas. De alguma maneira, entretanto, isso não parece satisfatório hoje em dia.
Logo alguém invoca a existência de um gene qualquer, o do colecionismo, o do autossacrifício, o do riso. Ou, para não cair em tamanha vulgaridade científica, tenta-se apontar a vantagem evolutiva do comportamento A, que não exclui, por certo, a vantagem evolutiva do comportamento Z, seu oposto absoluto.
Rudyard Kipling escreveu um livro para crianças intitulado “Just So Stories” (algo como histórias que aconteceram assim mesmo ou histórias bem verdadeiras), em que dava explicações imaginosas e míticas para o pescoço das girafas ou a tromba dos elefantes.
Não discuto, é claro, a base científica das explicações econômicas ou biológicas. Mas, atrás de toda pergunta a respeito dos “porquês”, sempre existe, acho, uma psicologia próxima do pensamento mítico. A ciência, provavelmente, está mais interessada nas perguntas que começam com a expressão “em que medida…” do que nas perguntas que começam com “por que…?” Estas, aliás, começam, mas nunca acabam. Quer a prova?
Volto ao ovo, ao ovo vermelho, que custa mais que o branco. Robert Frank dá algumas explicações, mas no final registra, candidamente, um simples fato: as pessoas preferem que ele seja vermelho. Vai ver que é genético.

coelhofsp@uol.com.br

04/11/2009 - 09:38h Claude Lévi-Strauss: Ideias em constante transformação

Em trecho de livro inédito sobre o antropólogo, Eduardo Viveiros de Castro analisa o autor de Mitológicas

http://www.lesquotidiennes.com/files/imagecache/480x240/articles/claudelevistrauss.jpghttp://www.estadao.com.br/fotos/eduardoviveiros_fabio_motta292.jpg
Claude Lévi-Strauss analisado por Eduardo Viveiros de Castro, ce n’est pas tout

O título do livro que começo a escrever aqui diante de vocês é Isso Não é Tudo: Lévi-Strauss e a Mitologia Ameríndia. “Isso não é tudo”, “ce n’est pas tout” é uma fórmula frequentemente empregada por Lévi-Strauss, a ponto de poder ser considerada um pequeno maneirismo do autor, para introduzir um desdobramento ou uma guinada na análise, ou encerrar uma demonstração com uma sequência inesperada de acordes. Ela aparece, eventualmente nas variantes “não é só isso” e “há mais”, um pouco em toda parte na obra lévi-straussiana, mas (provavelmente) aumentando sua frequência nas Mitológicas.

A “petite phrase de Lévi-Strauss” marca um passo estilístico típico: o surgimento quase prestidigitatório (se a palavra existe) de sempre mais um eixo, sempre “um outro eixo” de transformação, disposto de través, em diagonal aos vários eixos que vinham até ali guiando a comparação; a produção em finta ou pirueta de uma torção suplementar completamente imprevista, que abre subitamente uma progressão que tudo encaminhava para o fechamento; a revelação de vínculo extra, implicado, obscuro, compactado no texto sob análise que subitamente se explica e esclarece, e ao mesmo tempo se multiplica e difrata em perspectivas que, literalmente, perdem-se de vista no horizonte. Teremos ocasião de registrar vários momentos da demonstração ao mesmo tempo sinuosa e reticular, barroca e rizomática abertos pelo “Isso não é tudo” nas Mitológicas. Na verdade, o movimento assinalado pela pequena frase ocorre muito mais frequentemente que ela; ela é opcional, mas o movimento, ao contrário, parece-nos necessário, intrínseco ao procedimento lévi-straussiano. A petite phrase, eis a nossa tese, cumpre na verdade uma função conceitual fundamental dentro da economia teórica do estruturalismo.

Descobri recentemente que F. Keck fala em um “méthode du “Ce n”est pas tout” – não fui, assim, o único a notar o maneirismo metódico. Mas Keck não tira deste método grandes lições, quando ao contrário penso que ele é muito importante. Ele aponta para o inacabamento da análise estrutural, e sugere as razões desse inacabamento: a fractalidade e rizomaticidade de todo objeto determinado pelo método estrutural, na medida em que esse objeto em geral é concebido sempre como um estado particular de um sistema de transformações cujos limites são contingentes. A ”interminabilidade”, no duplo sentido (sem fim ou término, e sem possibilidade de determinação unívoca do que é um termo e uma relação, do que é literal e figurativo) da análise mítica é um princípio absolutamente fundamental das Mitológicas. Veremos que Lévi-Strauss insiste no caráter aberto, intensivo, iterativo, em nebulosa, poroso, “conexionista” dos sistemas míticos que reconstrói. “Isso não é tudo”, então, porque nada é tudo, em nenhum momento se alcança uma totalização. “Isto não é tudo” supõe um conceito de estrutura e de análise que não privilegia uma vontade de fechamento, compacidade, a determinação de uma combinatória exaustivamente definida a priori. Com o “isso não é tudo”, começamos a divisar a possibilidade de pensar Lévi-Strauss como um pós-estruturalista. (…)

Naturalmente, isso não é tudo? Lévi-Strauss irá insistir repetidas vezes nas Mitológicas sobre o fechamento do sistema que analisa, a redondez da terra da mitologia (mas também sua porosidade?), a completude do círculo que o leva das savanas do Brasil Central às costas brumosas do estado de Washington e da Columbia Britânica,e, localmente, sobre os vários fechamentos de grupos míticos menores. Será preciso então insistirmos sobre uma tensão interna ao pensamento do autor relativo à mitologia americana, a saber, sobre uma dialética da abertura e do fechamento analítico (e mítico) que caberá explorar, em suas aparentes contradições inclusive? Isso realmente não é tudo. A pequena frase pode ser usada para fechar a análise por um lado que parecia aberto. A ênfase no fechamento dos grupos, na coerência e homogeneidade do conjunto é sublinhada repetidas vezes no correr do texto, e atinge uma espécie de apoteose enfática no capítulo O Mito Único, do Homem Nu. Por isso, eu preciso sublinhar, já que estou fazendo uma leitura parcial, apostando na tensão que ora enfatiza a ”vasta máquina combinatória que é todo sistema mítico” e o caráter grupal, fechado e coerente do seu ”mito único”, ora fala em dinamismo, desequilíbrio, devir perpétuo, assimetria que sempre abre o mito por um outro lado – essa tensão deve estruturar minha exposição.

Lévi-Strauss, fundador do pós-estruturalismo… Ele certamente não é o último pré-estruturalista, mas é o primeiro pós-estruturalista. Ao dizer isso, em certo sentido, estaríamos antecipando a conclusão deste livro, que tem como uma de suas principais intenções a de mostrar a atualidade do pensamento lévi-straussiano: pensamento da assimetria, da complementaridade, da torção e da abertura. Poderíamos ir para casa agora e dedicar o tempo a ocupações mais amenas. Mas felizmente, ou infelizmente, isto não é tudo? Além de que será preciso demonstrar minimamente o bem-fundado de minha tese, o livro tem uma outra intenção maior, que não se comprime tão facilmente em um ou dois parágrafos, a saber, a intenção de expor a originalidade radical do pensamento indígena, tal como transparece nos discursos míticos analisados nas Mitológicas.


INÉDITO

Estes são trechos da versão preliminar da Introdução Generalíssima do manuscrito inédito do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, Isso Não é Tudo: Lévi-Strauss e a Mitologia Ameríndia, a ser lançado pela Cosac Naify em agosto de 2010, junto à primeira edição brasileira de O Homem Nu, quarto volume das Mitológicas de Claude Lévi-Strauss. Trata-se da primeira grande análise das Mitológicas, e uma visão contemporânea da obra lévistraussiana e do estruturalismo de modo geral. Viveiros de Castro trabalhou com Lévi-Strauss e foi, segundo ele, responsável pela criação de uma “nova escola na antropologia”

Fonte O Estado SP

04/11/2009 - 09:29h Obras fundamentais de Claude Lévi-Strauss

http://clec.uaicf.asso.fr/recherches_patrimoniales/images/Claude_Levi_Strauss.gif

Tristes Trópicos – Clássico da
etnologia, reúne informações
recolhidas na viagem pelo Brasil (Companhia das Letras)

Antropologia Estrutural – De 1958, traz os elementos para a renovação do método antropológico
(Cosac Naify)

O Suplício do Papai Noel -
Discute o significado de festas de fim de ano e a comercialização
dessas datas (Cosac Naify)

Mitológicas – Série de quatro livros em que analisa mais de oitocentos mitos indígenas americanos
(Cosac Naify)

De Perto e de Longe - Longa
entrevista concedida por
Lévi-Strauss em 1988 ao filósofo Didier Eribon (Cosac Naify)

História de Lince – Última
incursão do antropólogo pela
mitologia americana
(Companhia das Letras, esgotado)

Saudades do Brasil – Coletânea
de fotos feitas por ele do País,
seguida de Saudades de São
Paulo (Companhia das Letras)

Olhar, Escutar, Ler – Reunião de ensaios sobre arte, em tom de
conversa com o autor
(Companhia das Letras, esgotado)

O Pensamento Selvagem – Análise do que Lévi-Strauss chama de
“traço universal do espírito
humano” (Editora Papirus)

As Estruturas Elementares do
Parentesco
– O primeiro livro
do autor, fruto de sua tese de
mestrado (Editora Vozes)

28/10/2009 - 15:54h O incêndio é no vizinho

Marcelo_CoelhoMARCELO COELHO – FOLHA SP

Elias Canetti gosta de descobrir nos outros os impulsos brutais que ele próprio controla mal

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Elias Canetti

CONTINUO SEM vontade de escrever sobre a euforia olímpica e a guerra dos traficantes no Rio de Janeiro. Os fatos, por vezes, comentam-se a si mesmos.
Mas, a começar pelo título (”Festa Sob as Bombas”), um livro recém-lançado pela editora Estação Liberdade merece comentário aqui.
Foi escrito por Elias Canetti (1905-1994), já bem no fim da vida. O Prêmio Nobel, que Canetti ganhou em 1981, não diminuiu o azedume dessas páginas.
“Festa Sob as Bombas” não é um livro acabado: compõe-se das anotações, às vezes repetitivas, para o que seria o quarto volume das memórias do escritor. Canetti passou, na Inglaterra, os anos da Segunda Guerra Mundial e viu o início dos bombardeios alemães sobre Londres.
É durante um desses bombardeios que se dá a festa do título, realizada na casa de um colecionador de arte. A casa tinha três andares.
“Ninguém se importava com o fato de ouvir detonações de bombas, era uma reunião festiva destemida e muito viva. Eu tinha começado no último andar e mal dera crédito a meus olhos, desci até o segundo e acreditei ainda menos no que vi. Cada ambiente parecia mais fogoso do que aquele em que estivera antes.”
Já no subsolo da casa, “aconteceu o mais assombroso”.
“A porta que dava para fora foi aberta bruscamente, homens com capacetes de bombeiros agarraram baldes com areia e, banhados em suor, levaram-nos com velocidade máxima à rua. Não prestaram atenção em nada do que viam no cômodo, em sua pressa de proteger as casas que ardiam em chamas na vizinhança.”
Enquanto isso, os pares que estavam agarrados continuaram do mesmo jeito; “ninguém se levantou bruscamente, ninguém largou o parceiro, era como se a atividade ofegante e suada não lhes dissesse respeito, duas espécies distintas de animais que se evitavam…”.
“Very british”, poderia alguém dizer. Está sempre em curso uma verdadeira ciência da discrição, da privacidade, da indiferença. Mais do que tudo, a percepção milimétrica das diferenças de classe, das hierarquias intelectuais, das gradações aristocráticas.
Nas festas que Canetti frequenta, ocorre uma coisa curiosa, uma espécie de ultraesnobismo.
As pessoas mais célebres não se dão a conhecer; as pessoas que conhecem pessoas famosas fazem questão de não se vangloriar do fato diretamente. Assim, você podia ficar 20 minutos ouvindo alguém contar banalidades a respeito de “Bertie” sem saber que se estava falando de Bertrand Russell.
Canetti acabou conhecendo o famoso filósofo. Admira sua velocidade intelectual e a perfeição de suas frases, mas não resiste a fazer uma observação desagradável.
Para ele, Russell “terminava sua fala com a risada de um bode, tão selvagem e perigosa que chegava a ser assustadora (…) todo o animalesco de sua natureza estava contido nessa risada, um sátiro, embora pequenino, extremamente impetuoso e incansável”.
Isso não é nada perto do que Canetti diz de T.S. Eliot, um sujeito “abissalmente mau”.
Sobre a escritora Iris Murdoch, que foi sua namorada, Canetti escreve: “Creio que não há nada que me deixe mais indiferente do que a mente dessa pessoa”.
Uma galeria de nobres malucos, avarentos, ornitólogos, caçadores de fantasmas, vai criando uma Inglaterra tão estranha quanto a mente do próprio Canetti, que gosta de descobrir, sob as convenções educadíssimas dos seus anfitriões, os impulsos brutais que ele próprio controla mal. O pior, lamenta Canetti, é que esse país foi destruído por Margaret Thatcher: “A Inglaterra decidiu saquear-se a si mesma”.
Voltando à festa durante o bombardeio. Qualquer pessoa poderia se espantar com a indiferença daqueles intelectuais e aristocratas, enquanto bombeiros tentavam apagar o fogo nas casas vizinhas. Mas essa impressão estaria errada, continua Canetti, “porque o corpo de bombeiros daquela noite era composto por voluntários da própria rua, entre eles um ou outro jovem poeta que eu jamais teria reconhecido em tais esforços físicos”.
De modo que indiferença e solidariedade, diversão e dever, não eram tão incompatíveis assim. Na velha discrição britânica, o bom e o ruim se ocultavam do mesmo jeito, o que não deixa de revelar uma espécie de espírito esportivo. É bem o contrário do Brasil, onde nada se oculta por muito tempo. E dizer que a Olimpíada vai ser só em 2016.

coelhofsp@uol.com.br

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25/10/2009 - 19:06h Amor+muerte=?

Civilización & Barbarie

El punto de partida es el último ensayo publicado por Georges Bataille antes de morir.

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Rachel Weisz en una foto de James White

Se trata de Lágrimas de Eros (1961) y a partir de esta obra, el Museo Thyssen de Madrid presenta una exposición que toma el nombre del libro de Bataille y que bucea en las relaciones a veces fieles, a veces traicioneras entre Eros y Tánatos, o lo que es lo mismo: entre entre amor y muerte, el deseo y el fin de la vida.

El deseo sexual desde una mirada tanto masculina como femenina, el voyeurismo y el exhibicionismo, el fetichismo, lo homosexual y lo heterosexual, lo religioso y lo prohibido se despliegan a lo largo de la muestra que analiza la resistencia de los mitos grecorromanos ligados a Eros y la simbología ligada a algunas bíblicas en la creación artística, desde el Renacimiento hasta la contemporaneidad.

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Venus de Amaury-Duvel, 1862

Lágrimas de Eros se organiza temáticamente y resalta la irrupción en la obra de artistas de épocas y tendencias distintas a través de motivos comunes, esos que hablan, a cómo de lugar, de la vida y de la muete: enfrentadas, juntas, aliadas o superpuestas.

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grimas de Man Ray

Obras de Rodin y Gustave Courbet, se contraponen con imágenes más actuales de artistas como Man Ray o Andy Warhol en un intento de “diálogo” entre los grandes maestros del pasado y artistas del siglo XX. Y en un intento de aunar modernidad y erotismo, el Thyseen venderá una caja con tres preservativos con la imagen de Adán y Eva procedente del cuadro Eva y la serpiente de Jan Gossaert al precio de 3,5 euros, según indicaron a Europa Press fuentes del Thyssen.

La muestra se abre con la musa erótica por excelencia, Venus recién nacida, diosa de la belleza, que esconde la más horrible trasgresión, segun cuenta Hesíodo, la diosa surgió del semen de Urano, castrado por su hijo Cronos.

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San Sebastián de Bronzino

La siguiente sala, titulada ‘Eva y la serpiente’, está protagonizada por las serpientes que cubren los cuerpos de Nastassja Kinski y Rachel Weisz, fotografiadas por Richard Avedon y James White, respectivamente.

La segunda parte de la muestra, que se desarrolla en la sede de Caja Madrid, explora los peligros mortales de Eros, en donde es la muerte misma la que se ve erotizada.

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Un imagen del video de Taylor Wood

En esa sección es donde se incluye un vídeo de David Beckham durmiendo, realizado por Sam Taylor-Wood.
El vídeo se enmarca dentro de la sección dedicada al mito de ‘Endimión’, un joven cazador que dormía una noche en el monte Latmos, cuando la diosa de la Selene miró hacia la tierra y se enamoró de él. Ella le pidió a Zeus que sumiera a Endimión en un sueño eterno, para poder contemplarle eternamente.

Paseá por la exposición en este especial propuesto por El País.

Publicado por Cristina Civale

19/10/2009 - 19:00h “entre aspas”

Arte Photographica


© Time Inc.

Devo dizer-te que pressenti o que estava para acontecer; ou melhor, percebi que estava para acontecer qualquer coisa, que não ia exactamente favorecer os intentos da Eve e, por isso, não fiquei tão espantado como a minha filha. A Lorraine irrompeu em lágrimas, a Doris disse ‘Saia desta casa’, e o Ira e eu levantámos a Eve do chão, levámo-la para o patamar e depois pela escada abaixo, e conduzimo-la à estação de Penn. O Ira ia sentado à frente, ao meu lado, e ela ia sentada atrás como se esquecida de tudo o que se tinha passado. Durante o trajecto para a estação conservou sempre o mesmo sorriso, o que fazia para as câmaras, e por baixo daquele sorriso não existia absolutamente nada, nem a sua personalidade, nem a sua história, nem sequer a sua infelicidade. Ela era apenas o que tinha estampado no rosto. Não estava sequer sozinha. Não havia ninguém para estar sozinha. Fossem quais fossem as origens vergonhosas de que tinha passado a vida a fugir, o resultado tinha sido este: alguém de quem a própria vida tinha fugido.

Casei com um Comunista, Philip Roth

19/10/2009 - 17:00h Desenhado no Brasil

Designers, críticos, curadores e professores selecionam o melhor do design gráfico no Brasil, dos miolos até as capas

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MARIO GIOIA – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

Dois livros referenciais do design gráfico mundial que acabam de chegar ao Brasil foram o ponto de partida para que profissionais ouvidos pela Folha comentassem quais, para eles, são os melhores projetos gráficos feitos no país.
“BiblioGráfico – 100 Livros sobre Design Gráfico” e “História do Design Gráfico” inspiraram André Stolarski, Chico Homem de Melo, Daniel Trench, Guto Lacaz, Rafael Cardoso e Ricardo Ohtake a analisar também capas que se tornaram marcos da área.
Melo e Stolarski escolheram o “Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa”, da editora Objetiva, de 2000, como um projeto gráfico “total”.
“Foram 15 anos de pesquisa rigorosa, incluindo o projeto de uma fonte especial para o livro [criada por Rodolfo Capeto]. Houve uma detalhada escolha de papel, impressão e acabamento”, diz Melo, professor de design na FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo).
“O projeto gráfico é impecável e uma verdadeira engenharia visual. O papel permite a edição de um volume de 3.000 páginas com uma relativa leveza e facilidade de consulta”, avalia Stolarski, ex-diretor de design do MAM-Rio (Museu de Arte Moderna do Rio).
Ohtake, diretor do Instituto Tomie Ohtake e curador de várias mostras da área, destaca Victor Burton, autor do projeto gráfico do dicionário.
“Há excepcionais projetos dele além do “Houaiss”, como “Missão Francesa” e “O Negro na Fotografia Brasileira do Século 19′”, comenta ele.
Cardoso, historiador e professor de design na PUC-Rio, frisa a importância de nomes mais antigos -Fernando Correia Dias, em “Nós”, de Guilherme de Almeida, em 1917; e Tomás Santa Rosa, em “O Anjo”, de Jorge de Lima, em 1934.
“Correia Dias é o primeiro grande nome do design de livros no Brasil. O livro tem uma elegante diagramação. Já “O Anjo” é um prenúncio de uma grande transformação gráfica que viria nas décadas seguintes”, afirma ele.
Cardoso ainda lembra das capas produzidas por Eugênio Hirsch e Bea Feitler, nos anos 60. “Hirsch revolucionou as capas de livro antes de qualquer um falar em pós-modernismo.”
Trench, professor de design na ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) e autor de projetos como a revista “Serrote”, também lembra das capas de Feitler.
“A coleção “Antologia Poética” se pauta pela tipografia. O excerto do conteúdo do livro na capa revela o que é particular em cada volume.”
Trench enumera projetos recentes que tiveram papel importante no desenvolvimento da área no país, como o de “Bartleby, o Escrivão”, de Hermann Melville, criado pela designer Elaine Ramos. “É um livro-objeto. Há uma íntima relação entre forma e conteúdo. O leitor deve se esforçar, rasgar as páginas e desamarrar o livro para conhecer o personagem que “acha melhor não”.”
Lacaz, artista plástico e designer, cita “O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo”, de Oswald de Andrade, projeto fac-similar de Frederico Nasser, em 1987.
“O miolo é impresso em cores especiais e está repleto de colagens artesanalmente aplicadas”, conta ele, que também destaca os livros de Monteiro Lobato desenhados por André Le Blanc, no fim dos anos 40.

OBRAS TRAZEM HISTÓRIA DO DESIGN

“BiblioGráfico – 100 Livros sobre Design Gráfico”, de Jason Godfrey, custa R$ 99 (224 págs.). Já “História do Design Gráfico”, de Philip Meggs, é vendido por R$ 198 (720 págs.). Ambos são da Cosac Naify.

Comentário

Projetos gráficos não são autônomos

GUSTAVO PIQUEIRA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Quem foi melhor, Pelé ou Maradona? Garrincha? E o melhor time? Brasil de 70? De 58?
Holanda de Cruyff? Para ficar no universo do caderno: Beatles ou Stones? Caetano ou Chico? E o melhor filme de todos os tempos?
Você deve ter suas respostas, assim como eu. Mesmo não sendo músico nem cineasta, além de zagueirão medíocre, as trago na ponta da língua (São Marcos, Palmeiras de 96, empate, Caetano antes da Paula Lavigne, “Gritos e Sussurros”).
Todas opiniões pessoais, claro.
Perfeitas para uma mesa de bar. Bem sei que não valem nada, a não ser como ilustração de meus valores e preferências, a quem interessar possa.
Ora, por que então não deixo de frescura e simplesmente respondo à pergunta sobre os melhores projetos gráficos feitos no Brasil? Primeiro, porque sou designer gráfico. Exerço a profissão todo santo dia, das 8h às 22h. Rotina que não me deixa esquecer o quanto um projeto gráfico não é autônomo. Impossível, portanto, ser avaliado como tal.
Segundo, porque a escalação desta vez é para o famigerado time dos “formadores de opinião” e não acho saudável se formar a opinião de ninguém de acordo com as minhas -mesmo que venham disfarçadas sob o (também famigerado) traje do especialista isento. Por último, porque acredito que o mundo já tem seus “1000 Lugares para Viajar Antes de Morrer”, “200 Dicas do Vendedor Pitbull” e similares em quantidade mais do que suficiente.
Sim, era possível elaborar uma análise técnica. Relevância histórica, ruptura de antigos paradigmas, influência no que veio a seguir. Reverenciar algum clássico, elogiar algum amigo. Sim, era possível. Porém, no fim das contas, não anularia nenhum dos três motivos listados acima.
Mas, vá lá, para não tornar isso aqui totalmente inútil: análises de design gráfico tendem a confundir projeto gráfico com o assunto do livro, julgando o valor do primeiro em função da relevância da obra. E uma coisa não tem nada a ver com a outra.
A não ser que se considere como o grande critério para avaliação de um designer estar no lugar certo e na hora certa.


GUSTAVO PIQUEIRA é designer e autor de “Manual do Paulistano Moderno e Descolado” (WMF/Martins Fontes) e “São Paulo, Cidade Limpa” (Rex), entre outros livros

18/10/2009 - 15:04h Um povo muito fofo

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BRASIL TRAIU O FUTURO CALMO E MESTIÇO DE ZWEIG PARA SURPREENDER O MUNDO COM PRÉ-SAL, COTAS E TV DE PLASMA PARA A CLASSE C

Austríaco fez esforço enorme para superar seus preconceitos, querendo gostar do que via

HERMANO VIANNA ESPECIAL PARA A FOLHA

Muitos livros antigos de ficção científica nos transmitem a sensação, acompanhada por tristeza leve e deslocada, de um futuro que poderia ter sido, mas que acabou escondido em alguma linha temporal paralela, situada a anos-luz de nosso tempo real.
Fiquei assim melancólico ao ler “Brasil – Um País do Futuro”, em pleno 2009, quando tanta gente insinua que nosso futuro chegará até antes da Olimpíada de 2016 -ou talvez já tenha chegado.
Lembrei de editorial recente da revista “Wallpaper” com decreto de quem está acostumado a ditar a moda: “É óbvio, eles [os Brics: Brasil, Rússia, Índia e China] não estão mais emergindo -eles já emergiram muito bem e de verdade, e em muitos aspectos podem agora ser chamados de “o novo establishment’”.
Establishment, nós? E agora, José Bonifácio de Andrada e Silva? Sim, o futuro anunciado por Stefan Zweig não se parece com nossa “pós-emergência” atual. Chegamos ao futuro por outro caminho, outra quebrada. Mesmo assim, de forma engraçada, a melancolia desencadeada pela leitura até me aproxima do brasileiro retratado por Zweig.
Naquela época, a visão do país como tristonho e pacífico (na verdade, preguiçoso) era lugar-comum. Mas então tivemos que passar pela alegria estridente e pela violência urbana para virar potência mundial? Traímos o futuro calmo, sentimental e mestiço anunciado em “Brasil -Um País do Futuro” e agora surpreendemos o planeta com novos tempos de pré-sal, cotas para afrodescendentes e consumo de TV de plasma pela classe C?
As voltas que o futuro nos dá… A “agenda” de Zweig era bem diferente da nossa. Seu livro era um manifesto pacifista, contra uma Europa destroçada por guerra e racismo. Esses males teriam sido causados também por um excesso de “dinamismo” e “veemência”.
Zweig precisava de um contraponto frugal para um mundo doente. Sua receita de cura era um desenvolvimento pacífico. E, fascinado primeiro pelo Rio -”não há cidade mais encantadora na Terra”-, quis encontrar no Brasil um “contentamento sereno”, longe da agitação do capitalismo guerreiro central.
Fico pensando se não foi Zweig um dos principais responsáveis pelo tal mito da democracia racial. Muitas de suas observações são ingênuas: “Tudo que é brutal repugna os brasileiros” ou “ao brasileiro é alheio tudo o que é violência”, “sem visível ódio e inveja entre raças e classes”.

Multidão obscura
Gilberto Freyre, que muitas vezes é acusado de ter uma visão doce das relações raciais no Brasil, nunca escreveu nada semelhante. “Casa-Grande e Senzala” é povoado por descrições horripilantes de violência de senhores contra escravos. Do seu lado, Zweig enxergava um país sem crueldade, onde vigorava a “expansão da cordialidade”. O brasileiro cordial do país do futuro era visto como apenas cordial, fofo, como se a crítica de Sérgio Buarque não tivesse existido.
Precisamos dar um desconto: para alguém que fugia do Holocausto e do ódio engendrados pelo mito da pureza/superioridade racial ariana, aportar onde “a palavra mestiço aqui não é um insulto” -”quem anda pelas ruas do Rio, vê numa hora mais tipos mesclados e, com efeito, já indeterminados, do que noutra cidade num ano”- deve ter parecido uma viagem para outro planeta, ou para um futuro desejado.
Por isso, Zweig precisava fazer um esforço gigantesco para superar seus próprios preconceitos, querendo gostar daquilo que via. Tanto que, em vários momentos, seu texto apresenta os tiques do etnocentrismo e do evolucionismo cultural, pré-”Tristes Trópicos” [1955]. Por exemplo: “Os elementos de sua civilização são em sua totalidade importados da Europa”. Tudo de africano era incivilizado. E Zweig nem identificava palavras de origem indígena em nossa fala.
Tem horas em que parece que o calor tropical o deixou surdo. Ele não ouviu algazarra nem na Festa da Penha. Ou teve a visão alucinada: encontrou gente lendo por toda parte, ou declarou: “Quase não existem mendigos”. Que futuro/passado estranho, alienígena! Outras previsões foram bem originais. Ao ter contato com pobres, identificou uma “multidão mais baixa”, “obscura”, sem “trabalho regulado”, como “uma das enormes reservas para o futuro”.
E não é que ele estava com a razão? Hoje essa gente deixou de ter sua vida “pouco influenciada pelo progresso da técnica” e virou mercado de consumo apontado até na “The Economist” como chave para a recuperação da economia mundial pós-crise. Uma gente dinâmica e barulhenta, acostumada tanto com o metralhar de AR-15 quanto com o subgrave do forró no som automotivo, vira garantia de futuro, muito além do fim da história e de qualquer choque de civilizações.

HERMANO VIANNA é antropólogo e pesquisador musical, autor de “O Mistério do Samba” (ed. Jorge Zahar), entre outros livros.

18/10/2009 - 14:14h “Brasil – Um país do futuro”: o mito estaria virando realidade?

Nem mito nem realidade

PUBLICADO EM SEIS LÍNGUAS EM 1941, “BRASIL – UM PAÍS DO FUTURO”, DE STEFAN ZWEIG, CRIOU UMA DAS MAIS PODEROSAS E DURADOURAS MITOLOGIAS SOBRE A NAÇÃO

Há um grande inimigo da vitória sobre o vira-latismo, a invasão do oba-obismo; nada está garantido

Bruno Domingos – 2.out.09/Reuters

Banhista toma sol na praia de Copacabana em 2 de outubro,
dia em que o Rio foi eleito sede da Olimpíada de 2016


JOSÉ MURILO DE CARVALHO – Caderno mais+ – FOLHA SP

ESPECIAL PARA A FOLHA

Nos dias que correm, não há como não nos lembrarmos de Stefan Zweig e de seu “Brasil – Um País do Futuro”, publicado em 1941. Como se sabe, Zweig, um judeu austríaco, conheceu o Rio de Janeiro em 1936 e voltou com a mulher quatro anos depois, fugindo dos nazistas e abandonando uma Europa envolvida em sangrenta guerra motivada em parte por ódios raciais.
O país o fascinara desde o primeiro encontro. Sobretudo, causou-lhe forte impressão a imensa salada étnica que viu nas ruas do Rio de Janeiro. Esse impacto inicial não esmoreceu até sua morte e a da mulher, em Petrópolis (RJ), em 1942. Ele refletiu-se com nitidez no apanhado que fez da história brasileira no primeiro capítulo do livro.
Os fatos são tirados dos manuais conhecidos. Mas o viés da narrativa é o mesmo do livro do conde Affonso Celso, “Por Que Me Ufano do Meu País”, publicado em 1900.
O povo brasileiro seria dotado de um caráter congênito em que sobressairiam a tolerância, sobretudo a racial, o espírito de conciliação, a tendência à solução pacífica dos conflitos internos e externos. A essas qualidades se acrescentava o dom de uma natureza rica e generosa. Com tais atributos, o Brasil estava, segundo ele, destinado a apresentar ao mundo, sobre os escombros da Europa, um novo modelo de civilização. O Brasil era o país do futuro.
O livro de Zweig inscreve-se em longa tradição nacional que vem alternando, em termos extremados, visões negativas e positivas de nosso povo. Os que só veem nele qualidades foram chamados de ufanistas, como Affonso Celso, ou, em linguagem popular, de “turma do oba-oba”. Os que nele só enxergam mazelas foram estigmatizados por Nelson Rodrigues como vítimas do complexo de vira-lata.
De fato, e para ficarmos apenas no período republicano, para cada Affonso Celso houve um Manuel Bomfim; para cada Oliveira Vianna ou Paulo Prado houve um Gilberto Freyre; para cada Raymundo Faoro houve um Darcy Ribeiro.
Em contraste, sobre a terra houve unanimidade desde Américo Vespúcio: é grande, rica e bonita por natureza. Nosso motivo de orgulho nacional, pesquisas o demonstraram, passou a ser a natureza.

Futebol e euforia
Criou-se um paradoxo e uma frustração: como é possível que, com uma terra dessas, não consigamos construir um grande país, uma grande potência, como fizeram os Estados Unidos? Numa terra radiosa, vive um povo triste, sentenciou Paulo Prado em “Retrato do Brasil”. O título do livro de Zweig transformou-se em ironia: somos, e seremos sempre, o país do futuro.
Houve de vez em quando em nossa história surtos de euforia. Para não ir longe, o mais óbvio, ainda vivo na memória de muitos, foi o dos “anos dourados” de Juscelino Kubitschek [1956-61]. Combinaram-se vários fatores positivos: a inspiração de um presidente democrático, altas taxas de crescimento, uma explosão de criatividade na literatura, no cinema, nas artes e, principalmente, uma taça Jules Rimet.
O que poderia ter sido o surto seguinte, nos anos 1970, com o alto crescimento, sonhos de Brasil grande potência e mais uma Copa do Mundo, foi abortado pela falta de liberdade. A seguir vieram longos anos de pessimismo, de vira-latismo.

Sem milagres
Desde o Plano Real vêm sendo construídas as condições para um novo surto. Trabalho e sorte acabaram por fazer ressurgirem os ingredientes clássicos: uma liderança presidencial inspiradora, uma economia em ordem, embora não tão dinâmica, um presente da natureza no pré-sal, uma Copa do Mundo em 2014, Jogos Olímpicos em 2016. Novos sonhos de Brasil grande, já adormecidos, renasceram na política externa. As condições internas e externas parecem mais favoráveis do que nunca para a decolagem.
Há, no entanto, um grande inimigo da vitória sobre o vira-latismo: a invasão do oba-obismo. Nada está garantido. O crescimento econômico pode não deslanchar, a Copa e a Olimpíada podem fracassar, a abundância de petróleo pode transformar-se em maldição. Apesar de todas as grandes melhoras recentes, o país continua sendo campeão de desigualdades, apresenta níveis vergonhosos de escolaridade, instituições pouco confiáveis, cidades dominadas pela violência, depredação da fantástica natureza.
Êxito mais duradouro desta vez dependerá de trabalho duro em todas as frentes reconhecidamente indispensáveis para a decolagem. Dependerá da ausência de oba-oba. Não haverá milagres. Nem pessimismo nem euforia levam a lugar nenhum. Melhor dito, levam apenas ao país do futuro. Não era certamente isso que Stefan Zweig pressagiava para nós.


JOSÉ MURILO DE CARVALHO é historiador, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor de “A Construção da Ordem/Teatro de Sombras” (Civilização Brasileira).

Livro de Zweig inspira dossiê do jornal espanhol “El País”

DA REDAÇÃO

No domingo passado, o jornal “El País”, sediado em Madri e diário mais influente em língua espanhola, trouxe amplo dossiê sobre a crescente pujança econômica e geopolítica do Brasil -consolidada, segundo ele, com a eleição do país como sede da Copa de 2014 e do Rio como sede da Olimpíada de 2016.
Lembrando a obra de Stefan Zweig, o matutino diz que foi necessário esperar quase 70 anos para que a visão que teve o autor austríaco sobre o grande potencial brasileiro começasse a se tornar realidade.

16/10/2009 - 20:41h O erotismo antropomórfico

L’érotisme anthropomorphe

Agnès Giard – Les 400 culs

Voici enfin rééditée Omaha, danseuse féline, une bande dessinée peuplée uniquement de chattes strip-teaseuses et de matous bien membrés, qui tombent amoureux, posent dans des magazines pornos et parfois se mettent à déprimer. C’est dur d’être une bête de sexe.

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En 1896, H.G. Wells publie L’Ile du docteur Moreau, l’histoire d’un savant fou qui modifie des animaux sauvages et les transforme en créatures presqu’humaines, capables de penser, de marcher, de parler… et d’aimer. Avec sa zoophilie latente, le roman fait scandale. D’autres auteurs s’engagent alors dans la brèche. Dans La Femme changée en renard David Garnett, jeune Anglais bisexuel et provocateur, raconte l’histoire d’une femme-renarde qui fait découvrir à son mari les mystères de la sauvagerie. Quelques années plus tard, Abraham Merrit écrit La Femme-Renard, un roman de science fiction sulfureux qui ouvre la voie à toutes sortes de récits fantastiques peuplés de catwomen et d’hommes-panthères à la sexualité débridée… Omaha danseuse féline s’inscrit en droite ligne de ces récits qui accordent aux animaux un statut comparable à celui d’êtres humains: comme nous, ils sont capables d’avoir des sentiments. Et des envies.

On appelle ces animaux des furries : animaux anthropomorphes, c’est-à-dire dotés de caractéristiques humaines. Exemple historique: en 1928, Walt Disney invente une souris qui marche sur ses pattes arrières, qui porte des chaussures et fait la cour à sa dulcinée, une dénommée “Minnie”. Mickey lance la mode des furries. Très vite, ça dérape. Élevés en compagnie de peluches duveteuses, des générations d’adolescents font sur leurs jouets d’enfance une véritable fixation. En grandissant, loin d’abandonner leurs nounours, ils les déguisent: bas résille et cockrings. Les nostalgiques auto-batisés “furverts” (pervers de la fourrure) ou encore “furryphiles” (amis de furries) entretiennent avec les animaux de leurs rêves un rapport quasi-sexuel. Ce sont des fou(rrure)-furieux, qui forment à travers le monde une vaste communauté communiant dans l’amour des “plushies”, les peluches, et des “kitties”, les minous de dessins animés. Leur communauté se nomme elle-même “furry fandom”.

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Première caractéristique: leurs fantasmes s’inspirent directement des gentils héros niais, des lapins gnangnans, des écureuils affectueux ou des adooorables poneys aux grands yeux miroitants… Sur Internet, c’est la folie. Allant toujours plus loin dans la perversité, les furverts rivalisent de dessins cochons: leurs femmes-fennec et leur hommes-chevaux s’exhibent en bas résille et porte-jarretelles, le sexe moulé dans des tenues cuir et les fesses bien offertes à de violentes pénétrations anales ou vaginales… Gay ou straight, toujours hardcore, SM-fetish ou “vanille”, mais toujours sans tabous, leurs images détournent les icônes enfantines et dynamitent le côté mièvre des dessins animés. Un vrai jeu de massacre. Les furverts sont des terroristes. Ils fantasment sur d’innocentes créatures, métamorphosées en “bêtes de sexe”. Ils reprennent Pikachu à la sauce porno. Ils kidnappent Mickey pour le violer en gang bang. Ils s’amusent même à se masturber dans des peluches (sur le site Real Hamster, qui parodie le célèbre Real Doll) ou à copuler dans des poupées gonflables en forme de Bambi! D’autres encore s’achètent des déguisements en fourrure: sous le nom de “fursuiters”, ces fétichistes du nounours s’habillent en étalons déviant ou en lapins scabreux pour faire l’amour…

Omaha-cat-dancer-2

“Je suis votre ourson” (I am your teddy bear), chantait Elvis Presley dans les années 50. C’était mignon. Dans les années 90, les Furverts reprennent en choeur “I want to be your dog”. C’est nettement plus sexuel. En bande dessinée, la plus célèbre des séries furries s’appelle Fritz the cat. Contestataire et sexuellement incorrect, Fritz le chat baise des “poules” (au propre comme au figuré) dans des baignoires de coke. Reprenant la tradition égyptienne des dieux zoomorphes, Bilal dessine dans la trilogie Nicopol d’étranges accouplements. Au Japon, Masamune Shirow invente dans Appleseed des mutantes en fourrure programmées pour le sexe… Tank Girl, icône des punkettes, s’éclate dans des décors à la Mad Max: son mec est un kangourou. C’est dire s’il a une grosse queue. Dans Omaha danseuse féline, on retrouve la même explosive énergie défoulatoire à l’oeuvre: c’est une histoire d’amour post-libération sexuelle, écrite et dessinée par un couple (le dessinateur Reed Waller et sa compagne scénariste Kate Worley). Une saga de 1000 pages interrompue tragiquement par la mort de Kate, et qui raconte – sur 20 ans – la vie inachevée d’une… chatte gourmande et tendre.

A ne pas rater : le graphiste japonais TwoTom dessine des hommes-lapins sado-masos qui échangent des gode-carottes dans des décors de conte de fée. Ses oeuvres sont exposées du mardi 13 au dimanche 18 octobre à la librairie OFR : 20 rue Du petit Thouars, 75003 Paris. Tél. : 01 42 45 72 88. Vernissage demain, mardi 13 oct, à partir de 18h30. L’exposition s’appelle : “Cinq illustratrices japonaises et un garçon nippon”.

Omaha, danseuse féline, de Reed Waller et Kate Worley, éd. Tabou.

15/10/2009 - 20:18h O fantasma do bairro judeu

Paul Lepinn -  Blog Carmensabes

Mary Jane Ansell
  • Queridos amigos, hoy os mostraré un cuento del autor checo: Paul Leppin.
  • Un escritor fructífero y brillante que cultivó no solo el arte de escribir cuentos, también fue un extraordinario autor teatral, poeta y novelista excelente.
  • Nació en la ciudad de Praga el 27 de noviembre de 1878 y murió el 10 de abril del año 1945.
  • Nos logra sumergir en el ambiente de su ciudad a través de las sensaciones de una mujer llamada Johanna.
  • La descripción del ambiente es exquisita y la forma de escribir del autor nos introduce rápidamente en el justo instante que nos quiere mostrar.
  • Espero que os guste.
Jared Joslin
  • “En el centro de Praga, donde ahora forman anchas calles las altas y aireadas casas de alquiler, existía aún hace diez años el barrio judío.
  • Un retorcido y lóbrego laberinto del que ninguna tormenta lograba barrer el olor a moho y paredes húmedas, y donde en verano las abiertas puertas despedían un aliento venenoso.
Prague Sunrise: Scott Burdick
  • La suciedad y la pobreza apestaban a cual más, y en los ojos de los niños que allí crecían titilaba una indolente y cruel perversidad.
  • A veces, el camino conducía a través de la panza de una casa, en forma de bajo y abovedado pasadizo, o daba una brusca vuelta para terminar de repente ante un muro.
  • Los vendedores, que apilaban sus baratijas en el desigual adoquinado, delante de las tiendas, llamaban a los transeúntes con cara de astucia.
  • En las entradas de las casas permanecían apoyadas las rameras de pintados labios, que reían con ordinariez, susurraban cosas a los oídos de los hombres y se levantaban la falda para enseñar las medias amarillas o verdosas.
  • Viejas alcahuetas de blancas greñas y temblequeante mandíbula saludaban desde las ventanas, golpeaban el alféizar, llamaban con las manos y producían guturales sonidos de afán y satisfacción cuando algún individuo caía en la red y se aproximaba.
George Bellows
  • Reinaba allí la lascivia y, una vez anochecido, invitaba a una visita con sus farolillos rojos.
  • En algunos callejones había en cada casa un prostíbulo, cuchitriles donde el vicio se acostaba en un mismo lecho que el hambre, donde mujeres tuberculosas de marchitos encantos tenían establecido su mísero negocio; secretos tugurios en los que, entre murmullos y guiños, más de una chica en edad escolar era desflorada y su indefensa virtud terriblemente malvendida.
Fabián Pérez
  • También había mancebías de postín, amuebladas con lujo, donde el pie sólo pisaba alfombras y las rollizas meretrices aparecían luciendo sedeños vestidos de cola.
  • El salón Aaron se hallaba en un edificio de dos pisos, no lejos de la sinagoga y tocando a las destartaladas chozas del callejón de los gitanos.
  • Dado el pobre aspecto de los alrededores, aquella casa casi producía un aspecto pulcro, pese a que el revoque de las paredes se había desprendido en parte y el polvo y la lluvia embadurnaban los vidrios de las encortinadas ventanas.
  • De día dominaba el silencio.
Jeremy Lipking
  • Sólo raras veces subía un cliente los gastados peldaños que conducían a la oscura entrada y, al cabo de una hora, volvía a salir rápidamente, vergonzoso y con el cuello subido. Pero de noche brotaba allí, como de pozos escondidos, una vida vibrante, ruidosa y llena de luz.
  • Encendíanse las ventanas, y las risas aleteaban dentro como un pájaro encerrado en una jaula.
  • Entre ellas sonaba la de Johanna; una especie de cálido arrullo, insinuante y sensual, que se distinguía claramente de las voces de las demás, y que en ocasiones ya se oía en medio del silencio matutino, como el canto de una alegre alondra enamorada.
  • A Johanna le complacía que los hombres acudiesen a ella.
Fabián Pérez
  • Estaba más solicitada que sus compañeras, porque a cada cliente le daba algo de esa dulzura apocada, torturadora e inquieta que llenaba su ser, y que los perezosos cuerpos de las otras mujeres no poseían. La propia Johanna se asombraba de ello.
  • La profesión que para tantas rameras resultaba una aburrida y desagradable carga, despertaba en su persona un estático anhelo de amor, un acicate que sentía en su carne y que confería a sus ojos un brillo juvenil.
Gustav Klimt
  • Con unos labios agrietados y heridos de tanto besar, bebía de la boca de los hombres, siempre invadida por la virginal voluptuosidad que acompañara su primer abrazo.
  • En los descansos que le dejaba su pecaminoso trabajo, que le parecían insoportablemente largos y desiertos, escuchaba los pasos de los transeúntes, y si sonaba la campanilla, se le iluminaba el rostro y suspiraba.
Fabián Pérez
  • Había muchos días en que saboreaba el amor hasta la saciedad, pero cuando por fin yacía en su cama con la cabeza atontada y los miembros doloridos, su memoria recorría aún todos los hombres conocidos, abandonándose al goce del recuerdo, y Johanna sonreía en la oscuridad.
Fabián Pérez
Zhaoming Wu
  • A veces, sobre todo en verano, cuando se acostaba próxima ya la madrugada, su excitación aumentaba ya hasta el tormento.
  • Entonces se asomaba en camisón a la ventana para observar el gueto. Extendía los desnudos brazos y sentía en su piel cual gotas de sangre la templada lluvia.
  • Lo que tenía a sus pies, era su mundo.
Anna Bocek
  • La ciudad donde parpadeaban las soñolientas luces de las casas de citas, donde en las callejuelas de mala reputación se acurrucaban pesadas sombras y, a lo lejos, un gimoteante violín o el duro tecleteo de un artefacto musical invitaba todavía a la diversión…
  • Entonces una soñadora melancolía bañaba de lágrimas su cara.
  • La brisa nocturna acariciaba suavemente sus senos, Johanna echaba la cabeza hacia atrás, y sus labios besaban el aire.”

  • Paul Leppin
  • El fantasma del barrio judío, fragmento
Oskar Kokoschka, Praga

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Fotos e textos escolhidos e publicados por carmensabes, um blog indispensavel

14/10/2009 - 18:24h “entre aspas”

Blog Arte Photographica


Scarlett Johansson & Dita von Teese, editorial para a revista Flaunt

- Sendo como é, a Eve aceita todas as extravagâncias do tipo, alinha em todas as suas loucuras, chega mesmo a ser apanhada por elas. Às vezes, quando a Eve desatava a chorar sem mais nem menos e o Ira lhe perguntava porquê, ela dizia-lhe: ‘As coisas que ele me obrigou a fazer… o que eu tive de fazer…’ Depois de ela ter escrito aquele livro, e o casamento dela com o Ira sair escarrapachado em todos os jornais, o Ira recebeu uma carta de uma mulher de Cincinnati. Dizia que, caso ele estivesse interessado em escrever também um livrinho, talvez lhe interessasse vir conversar com ela ao Ohio. Tinha trabalhado num clube nocturno nos anos 30 como cantora e tinha sido uma das namoradas de Jumbo. Dizia que o Ira era capaz de gostar de ver umas fotografias que o Jumbo tinha tirado. Talvez ela e o Ira pudessem colaborar numas memórias conjuntas – ele providenciava as palavras, e ela, por uma quantia a combinar, seleccionava as fotografias. Na altura o Ira estava tão obcecado pela vingança que respondeu à mulher e mandou-lhe um cheque de cem dólares. Ela garantia ter duas dúzias de fotos e ele mandou-lhe os cem dólares que ela pedia só para lhe mostrar uma delas.
- E chegou a recebê-la?
- Ela falava verdade. Mandou-lhe de facto uma na volta do correio. Mas como eu não ia deixar que o meu irmão distorcesse ainda mais a ideia que as pessoas tinham do significado da sua vida, tirei-lha da mão e destruí-a. Uma estupidez. Um assomo sentimental, presumido, idiota e nada inteligente. Pôr a fotografia a circular teria sido coisa pouca em comparação com o que depois aconteceu.

Casei com um Comunista, Philip Roth

14/10/2009 - 15:59h Jornal militante de Oswald e Pagu ganha reedição

“O Homem do Povo” foi pasquim político e gaiato dirigido pelo poeta modernista e a mulher, nos anos 30, em SP

Lançamento será no sábado, no museu Lasar Segall, com exibição de documentos e obras ligados à fase mais politizada do antropófago


http://3.bp.blogspot.com/_Mmy749wfY0g/R60cUyC488I/AAAAAAAAAIw/nzZ9QUfZxhU/s1600/pagu%2Boswald%2Be%2Brud%C3%83%C2%A1%2B1930%2Barq%2Bdo%2Bmis%2Bsp.jpg

Pagu segurando o filho Rudá de Andrade


MARCOS AUGUSTO GONÇALVES – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

O dia 9 de abril de 1931 amanheceu agitado na cidade de São Paulo. Naquela quinta-feira, um grupo de estudantes da Faculdade de Direito reuniu-se na praça da Sé para protestar e atacar a sede de um periódico anarco-comunista intitulado “O Homem do Povo”, que havia publicado violenta crítica à vetusta instituição de ensino.
A afronta saíra da pena do modernista Oswald de Andrade, ele mesmo um homem proveniente da elite, formado pela escola do Largo São Francisco, que qualificava de um “cancro” a minar a sociedade paulista. Ao lado de Patrícia Galvão, a Pagu, então sua mulher, Oswald era o diretor daquele pasquim político e gaiato -que ganha agora edição fac-similar, lançada pela editora Globo em parceria com a Imprensa do Estado e o Museu Lasar Segall.
Em 1984, o “insolente papelucho” já havia sido objeto de iniciativa semelhante, com apresentação do poeta e ensaísta Augusto de Campos. A nova coleção, baseada nos oito números deixados pelo militante comunista Astrojildo Pereira, amigo do casal, republica o texto de Campos e traz artigo de Geraldo Galvão Ferraz, filho de Patrícia. É publicada também uma carta inédita enviada “à camarada Pagu” por uma assídua leitora do jornal.

Lançamento
O lançamento vai acontecer no sábado, com a abertura de uma exposição no museu Lasar Segall -com curadoria da pesquisadora Gênese Andrade.
O ataque dos estudantes à sede de “O Homem do Povo”, que ficava no Palacete Rolim, no número 9 da praça da Sé, repetiu-se na segunda dia 13 de abril. Os incidentes foram acompanhados pela imprensa.
“Um justo revide dos estudantes de direito contra os ataques de um antropófago” -foi a manchete da “Folha da Noite” do dia 9, que fazia referência à antropofagia, a “filosofia do primitivo tecnizado”, desenvolvida alguns anos antes pelo poeta que lançou, em 1928, o “Manifesto Antropófago”.
Os jornais narraram “a depredação nos escritórios da redação” e a providencial intervenção da polícia, que impediu o iminente linchamento dos diretores. No dia 13, Oswald voltara ao ataque em novo artigo, com seu humor ferino: “A grande manifestação de pensamento que produziu até hoje a Faculdade de Direito foi o trote”.
Segundo a “Folha da Noite”, no segundo dia de manifestação, Pagu surgiu inesperadamente à porta do prédio -e, para espanto geral, “vinha armada com revólver, com o qual fez dois disparos em direção aos estudantes”. Ela teria, ainda, atacado manifestantes a unhadas enquanto era conduzida com Oswald para a central de polícia -e o jornal tinha sua breve carreira encerrada.

Romance
O lançamento de “O Homem do Povo” é um marco na fase politizada de Oswald. Numa época de rompimentos, inclusive com velhos amigos, filiou-se ao Partido Comunista, puxado pela nova e sedutora companheira, que posteriormente veio a ser presa e sofrer violências no cárcere.
Quando “O Homem do Povo” foi lançado, Oswald tinha 41 anos de idade e Pagu, 21. O romance teve início quando ele ainda era casado com a pintora Tarsila do Amaral. Foi o poeta Raul Bopp quem apresentou a então jovem normalista ao casal “Tarsiwald” -como foi apelidado por Mário de Andrade. Pagu tornou-se amiga de ambos e acabou nos braços do antropófago.

Pagu

Segundo a curadora Gênese Andrade, que assina o catálogo da mostra, quando Tarsila faz sua primeira exposição individual brasileira, no Rio, em julho de 1929, “o antropófago e a normalista já haviam iniciado uma relação amorosa”.
O fato está registrado em uma espécie de diário do novo casal, intitulado “O Romance da Época Anarquista. Livro das Horas de Pagu que São Minhas”. O caderno de anotações estará exibido numa vitrine, no Lasar Segall -e 13 de suas páginas serão projetadas num monitor de vídeo.

Pinturas e documentos inéditos do casal ganham mostra no Lasar Segall

DA REPORTAGEM LOCAL

A mostra que será inaugurada sábado no museu Lasar Segall concentra-se na fase mais politizada do modernista Oswald de Andrade e em suas relações com Patrícia Galvão e o próprio pintor Lasar Segall, de quem o poeta se reaproxima depois de deixar o Partido Comunista, em 1945.
São 60 peças, das quais 19 pinturas e 11 fotografias, além de documentos, cartas e primeiras edições -entre elas a da peça “O Rei da Vela”, de 1933.
Gênese Andrade, pesquisadora e curadora da mostra, é responsável pelo estabelecimento dos textos publicados na reedição das obras do poeta, que vem sendo realizada pela editora Globo.
Nas pesquisas que fez, Gênese encontrou material inédito.
Será exibido, por exemplo, um passaporte de Pagu, datado de setembro de 1929, com o nome Patrícia Galvão de Andrade. É uma evidência de que a relação com Oswald, que era casado com Tarsila do Amaral, já estava adiantada, e uma sugestão de que ambos poderiam ter planos de deixar o país. O casamento, na realidade, só ocorreu em janeiro de 1930.
Entre as pinturas que integram a exposição, há três retratos de Oswald assinados por Lasar Segall, jamais expostos.
Serão mostrados, ainda, pela primeira vez, alguns desenhos de Pagu. São quatro deles, três dos quais estavam na coleção de artes visuais de Mário de Andrade -embora não se saiba exatamente como o poeta veio a possuí-los, uma vez que sua relação com Oswald fora interrompida.
O período mais politizado do antropófago, a partir da virada dos anos 20 para os 30, coincide com a crise mundial e é marcado por desentendimentos com ex-amigos. O poeta ironiza Mário, que chama de “Miss Macunaíma”, briga com Paulo Prado, mecenas da Semana de 22, e, diante da recusa de dona Olívia Guedes Penteado de recebê-lo com Pagu, passa a tratá-la como dona Azeitona.


PAGU/OSWALD/SEGALL

Onde: museu Lasar Segall (rua Berta, 111, Vila Mariana, tel. 0/xx/ 11/5574-7322)
Quando : abertura no sábado, às 17h; de terça a sábado, das 14h às 19h
Quanto : grátis
Classificação indicativa : livre

09/10/2009 - 17:08h Inimigas íntimas

Romance que recebeu o prêmio APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte – de melhor ficção de 1993. Desde 1998 iniciou uma bem sucedida carreira internacional com traduções na Suécia e nos Estados Unidos. Nele a autora experimenta um novo cenário. Aproveitando-se de informações armazenadas desde sua infância, pela primeira vez escreve sobre o nordeste. Um nordeste sensual e moderno, mas carregando ainda os mesmos problemas do começo do século, e ainda outros como a corrupção praticada através dos incentivos fiscais e órgãos de combate à seca. A trama aborda a violência cometidas pelos mais fortes contra os mais fracos dentro da história da vida de um homem que vive com quatro mulheres debaixo do mesmo teto. Com uma linguagem deliciosa e irreverente, essa obra vem também carregada de bom humor, pois, na verdade, da mistura de todas essas características aquela região é feita. Trata-se, com certeza, de um trabalho envolvente que propõe multileituras. Fonte Site de Joyce Cavalccante. ENCOMENDAR

por Joyce Cavalccante

Acreditem. Tinha apenas dezessete anos Evangelina quando casou com Eduardo, o Dr. Duda, como era chamado por todo mundo. Ele já ultrapassara os quarenta e embora fosse um dos mais moços fazendeiros da região, estava casando um pouco tarde para os costumes. Por todo tempo que andou solteiro, ele não deixou nem um minuto de plantar sonhos no coração das moças que o conheciam ou dele tinham ouvido falar. Era um homem bonito, de rosto moço e cabelos já ficando brancos. Pele tostada pela constante exposição ao sol por força de cuidar de suas terras. Herdara uma grande extensão delas. Na sua fazenda, uma cerca não avistava a outra.

Nunca se apressara em encontrar uma mulher para casar pois considerava que sua mulher mesmo era a Jibóia. Tinha abuso pelas rodinhas sociais, ou fosse da cidadezinha de interior mais próxima à fazenda, ou fosse da marinha capital do estado que ficava há uns duzentos e trinta quilômetros de distância. Preferia ficar lendo ou ouvindo rádio no casarão que há duzentos anos estava encravado no coração da propriedade. Não era de falar demais e raramente encontrava os parentes e amigos, se não fosse para resolver assuntos ligados aos interesses da terra. Apesar desse gênio esquisito, era visto como um homem culto e agradável. Formado em direito, daí o título de doutor antes do apelido.

Já Evangelina, ao casar com dezessete anos, não fazia mais do que cumprir a praxe daquele tempo e daquelas bandas. Mais velha do que isso já começaria a ser vista como moça encalhada. Que agradecesse a Deus ter tido a sorte de conseguir tão bom partido e tão cobiçado homem, dizia-lhe a mãe. E que a ele fosse obediente, aceitando o encargo que Deus lhe tinha reservado. Uma tia, irmã de seu pai, completava tais conselhos dizendo que mulher casada feliz é a mulher conformada. Evangelina a tudo tudo sem dizer palavra. Deixava passivamente que lhe tirassem o vestido de noiva e vestissem um outro de musselina branca, mais leve, apropriado para o almoço de arromba que Eduardo estava dando na fazenda para comemorar o casamento.

Ao pisar nos tijolões de sua nova casa seu coração assustou. Esforçou-se e pisou duro e firme, pondo o pé direito adiante do esquerdo que era para dar sorte e vencer.

Encontrou um casarão de dar gosto com tudo do bom e do melhor. Os próprios convidados, amigos do noivo ou do pai dela que nunca tinham estado por lá, ficaram impressionados com o luxo e conforto havido na casa, fazendo contraste com o temperamento austero do dono.

Encontrou, também, uma criadagem apropriada para atender aos desejos de uma rainha, e encontrou Rita.

Homem não pode viver sem mulher, lhe diziam, senão poderia ficar doido. E era essa a serventia de Rita.

Todo mundo sabia e comentava. Aconselhavam à jovem noiva maneiras e maneiras de como contornar o problema com sabedoria. Tratavam o assunto como um detalhe menor diante de sua boa sorte. Ela, porém, não engolia aquela negra na vida do marido. Não teve vez para dizer a ele que se livrasse daquilo e que aquilo não era direito, enquanto ainda era noiva. Fez de conta que não tinha conhecimento do caso. Esperou que o período de noivado passasse porque tinha fé que a negra ia desaparecer assim que ela botasse os pés dentro da casa. Contava em nem encontrar com ela na vida, mas foi justamente Rita, a primeira pessoa que avistou quando entrou na sua nova casa.

Diziam que a primeira pessoa que a noiva vê quando entra em casa é quem determina o sexo do primeiro filho. Se isso fosse verdade seu primeiro filho ia ser uma menina. Ficou duplamente com raiva pois queria que o primogênito fosse homem. Aquela negra alí, apresentada, metida, só podia ser para dar urucubaca. Trazer desgraça.

Rita tinha um menino escurinho de olhos verdes que andava solto dentro de casa com as pernas bambas e o nariz escorrendo. Devia ter uns dois anos. Na cara, escrito que era filho de Eduardo. Evangelina estava decidida a não tolerar nada daquilo pois embora encabulada, era filha de um homem que quebra mais não verga. Seu pai era um temido chefe político e dele deveria herdar a coragem. Ia esperar que o próprio Duda inventasse o sumiço dos dois. Se isso não acontecesse por bem, ela ia fazer com que acontecesse por mal.

O coração um fel porque na hora de ser servido o almoço viu a preta toda vestida de estampados comandando a criadada, mandando uma delas trazer a travessa cheia de sarapatel e colocá-la numa das pontas da mesa. Daí o sarapatel, o pirão, o arroz, a paçoca, o cozido, o baião de dois, a galinha, o perú, o camurupim pescado ali mesmo no açude da fazenda e o capote guisado, perderam o gosto. Os doces também. Tanto doce bom e ela não conseguia nem provar. Tudo por causa daquela negra enxerida.

Já eram bem duas horas da tarde quando se despediram dos últimos convidados. Ela e o marido ficaram de pé no alpendre, cumprimentando e agradecendo a presença de todos. Rita sempre ali à distância de um grito. Evangelina não perdia a negra de vista nem que fosse com o rabo dos olhos. Quando o último dos convidados se foi, Eduardo passou o braço pelos ombros da mulher e a conduziu até a saleta onde se lia e ouvia rádio. Lá sentou na sua cadeira predileta, pôs os pés em cima de um banquinho estofado, acendendo seu cachimbo. Estava corado e tinha um ar feliz. Evangelina sentou na rede de tucum e começou a balançar-se fazendo os armadores ranger. Pensava ela: essa é a hora de conversar com ele sobre a safada. Dava pra ouvir o barulho dos talheres e das louças sendo lavadas e guardadas. A conversa alegre das negrinhas na cozinha e Rita dando ordens, liderando a operação. Evangelina contava até três e dizia a si mesma, assim que der três vou começar a falar. Mas engasgava e perdia a voz. Olhava para o relógio e decidia: daqui a quinze minutos começo a falar e dane-se. Se ele não gostar, que não goste. Mas passados os quinze minutos nada aconteceu pois Duda ressonava com o cachimbo entre os dentes. Ela, sem poder mais nada fazer, perdia seu olhar no desenho de brilhante e platina que emoldurava o minúsculo mostrador de seu reloginho de ouro, presente do pai quando ela passou no exame de admissão ao ginásio.

Não conseguiu tirar a negra da cabeça. E tão perdida estava em pensar nela que nem susto tomou quando a viu entrar pela porta e deslizar até onde estava o Duda. Silenciosamente, também viu a negra tirar o cachimbo da boca de seu homem e depositá-lo no cinzeirão de prata que havia no chão, ao lado da cadeira.

Ao fazer esse gesto a negra olhou para Evangelina significativamente, como quem diz essa é a última vez que faço isso, de agora em diante é tarefa sua. Evangelina desviou o olhar com ar de indiferença e continuou a balançar-se, atitude que fez a negra entender que não precisava de ensinamentos. Quando a negra deu as costas, a moça branca aproveitou para fazer-lhe um muchocho infantil. Era de certa forma, uma vingança.

Por não ter nada o quê fazer, nem saber o quê devia fazer, levantou-se da rede e foi até a estante olhar os livros do marido. Ele tinha muitos. Só naquela saleta tinham três estantes enormes forradas deles. Ela distraiu-se lendo as lombadas de uma por uma. Deparou-se, então, com um título muito interessante e que sempre lhe aguçara a curiosidade. Encadernado em vermelho com letras douradas, estava lá, “O Crime do Padre Amaro”, e em letras também douradas porém menores, o nome do autor, Eça de Queiroz. Suspirou. Sempre tivera vontade de ler aquele livro mas a mãe nunca tinha permitido. Na casa de seus pais havia uma prateleira onde todos os volumes lá expostos tinham sido carimbados com os seguintes dizeres: “Impróprio para senhoritas”. Assim, nem ela nem suas duas outras irmãs tinham o direito de tocá-los. Celina, que era a mais espevitada de todas, ousara uma vez roubar um deles e ler escondido. Foi um Deus nos acuda quando o pai descobriu que, por trás da capa que ostentava o inocente título de “A Vida de Santa Terezinha”, estava toda malícia e permissividade do “Vermelho e o Negro”, de Stendhal. Não era tão fácil enganar os pais.

Quando o marido acordou de seu breve cochilo, coincidentemente, Evangelina estava folheando o próprio “Crime do Padre Amaro”. E, enquanto ele bocejava e sorria, ela se virava de costas para esconder o livro que tinha nas mãos, detalhe que o marido não demonstrou notar. Em vez disso, convidou-a para dar um passeio pela propriedade dizendo, venha conhecer o que agora é seu. Com os braços rodeando seus ombros, conduziu-a carinhosamente até o jipe estacionado embaixo do pé de joá.

Rodaram por toda tarde. Andaram de extremo a extremo da fazenda. A propriedade parecia não ter fim. Nem sempre as estradinhas mal paradas, abertas no mato a facão para dar passagem ao jipe do patrão, estavam em boas condições. O carro sacolejava e estremecia. Num desses solavancos Evangelina foi parar quase no colo de Duda. Ele, então, diminuiu a marcha e puxando-a falou malicioso:

- Fique por aqui que é menos perigoso.

Nessa hora as orelhas de Evangelina esquentaram como chapa de fogão. Sentiu vergonha e uma coisa gostosa. Um caldo quente escorrendo por dentro. Mesmo assim falou:

- Pára Duda. – E voltou para seu lugar.

Pelo caminho iam parando para cumprimentar um ou outro morador, ou algum empregado que, por ser aquele dia um domingo, estava no mínimo, voltando da farra. Eram bem umas seis da noite quando chegaram de volta.

Evangelina entrou na sua nova casa pela segunda vez. Estava feliz e foi direto lavar as mãos pois ouviu a negra dizer desse jeito:

- Dr. Duda, o jantar tá na mesa.

Chegou e sentou-se em frente ao marido. Como por encanto viu uma mesa toda posta com apetrechos para um lanche gostoso. Coalhada, milho cozido, canjica, carne assada, arroz e ovos estralados.

Após o café com bolachas, Duda disse para a mulher:

- Vá logo se arrumando para dormir que eu vou ouvir o noticiário no rádio. Vou ouvir a Hora do Brasil. Depois eu vou.

Nesse momento Rita começou a tirar os pratos da mesa. Duda grunhiu para ela:

- Rita, pede a Gracinda pra fazer esse serviço e vá ajudar D. Evangelina a se trocar.

Ouvindo isso Evangelina levantou os olhos claros, que ficaram mais claros ainda. Preferia que a mulatinha Gracinda, outra empregada, viesse ajudá-la. Ia dizer qualquer coisa desaforada mas não disse ali, disse mais tarde quando estava no quarto acompanhada só de Rita:

- Não preciso da ajuda de ninguém. Pode ir embora.

Rita não respondeu mas também não arredou o pé dali. Olhava com humildade e doçura para a nova patroa, talvez procurando a chave de seu código. Talvez refletindo como conseguiria se fazer querida por aquela mulher tão bonita, de pele clara e cabelos cinzentos, com a cara de um anjinho. Uma santinha. Mas, parecia que a moça branca não queria muita amizade com ela. Deu para saber logo que não era de muita conversa. Deveria obedecer as ordens do Dr. Duda e ao mesmo tempo queria agradá-la.

Quando viu que a negra não ia sair mesmo de seu quarto, Evangelina enxugou os olhinhos lacrimejantes e tentou desabotoar-se. Não conseguiu. A carreira de botões imitando pequenas pérolas que fechavam seu vestido por trás, eram inatingíveis para quem o vestisse. Tinha de pedir a ajuda da negra fedorenta. Disse então de maneira bem estúpida:

- Vem cá e me desabotoa aqui. Depois pode ir.

Rita ensaiou dar um sorriso. No entanto, manteve a discrição e aproximou-se das costas da outra. Não só a desabotoou como tirou carinhosamente seu vestido pela cabeça, esperou que ela sentasse na cama e tirou-lhe os sapatos. Deixou que ela mesma tirasse suas ligas, mas ajudou-a a puxar as meias.

Enquanto a moça estava no banheiro, ela dobrou e alisou tudo. Girou os olhos ao redor daquele quarto. Sentiu saudades das muitas noites que tinha dormido ali. Fitou a cama na qual, até a noite passada, tinha dormido, e dela se despediu. Pensou em não pensar. Acendeu um candeeiro porque o gerador da fazenda era desligado toda noite às dez. Esperou que ela voltasse, e quando ela voltou, esperou que ela deitasse, e quando ela deitou, cobriu com um lençol seu corpo. Evangelina chutou os lençóis dizendo que não tolerava dormir coberta. Disse isso mais para espezinhar a negra, que foi saindo calada do quarto do casal.

Não teve mais tempo para se preocupar com aquilo porque o pânico bateu com força na expectativa do que iria se passar ali. Ia, dali a alguns minutos, se transformar de moça em mulher. Suava. Encolhia-se todinha em posição fetal e esperava que aquela noite passasse depressa. Queria saber como se sentiria na manhã seguinte.

Eduardo veio depois de ter dado ordens e boa noite à Rita. Veio fazendo barulho, um barulho que acelerou o coração de Evangelina. Entrou no banheiro e quando saiu de lá, caminhou direto para o quarto fechando a porta atrás de si.

Rita correu para escutar tudo. Sabia que o patrão ia ser bom com a moça pois coração grande ele tinha. Mas mesmo, assim tinha pena dela, tão novinha. Tinha pena de todas as mulheres que passavam pelo que ela já tinha passado. Ainda bem que é só uma vez na vida.

Lembrou-se de tudo que tinha acontecido, há uns cinco anos, com ela mesma. Tinha treze anos. Era mais nova que a moça. Sua mãe tinha morrido fazia uns dois anos e ela tinha sido sua substituta nos serviços da Casa Grande, pois só ela sabia das coisas que o patrão possuía. E só também ela sabia do que ele precisava. Quando sua mãe ainda era viva, mas já começava a ficar doente e velha, foi lhe ensinando a lida. Lhe ensinando como se curava os queijos, como se lavava, contava e guardava os pratos e os talheres, como se fazia a comida. A medida que a doença foi tomando conta dela, ela foi entregando os pontos e deixando os afazeres cada vez mais nas mãos de Rita, que era pequena ainda mas muito espertinha.

Era uma negrinha com corpo formado de mulher desde cedo. Baixinha da bunda grande, olhar matreiro e sorridente. Nem bem a mãe morreu deixando-a sozinha no mundo aos cuidados de Deus e do Dr. Duda, pois homem bom estava ali, ela já tinha assumido todo controle da casa e a autoridade entre as outras negrinhas inclusive mais velhas do que ela. Tudo porque sabia se dedicar, sabedoria que lhe foi transmitida por herança materna, coisa vinda de gerações em gerações de pretos servindo aos brancos como o destino mandava.

Mesmo tocando toda essa responsabilidade, a menina não esquecia de que era criança ainda, e nas folguinhas que conseguia corria para o açude e se refrescava, principalmente nos finais da tarde quando o calor é maior. Brincava também ainda com suas bonecas de pano, conversava com elas e até hoje as conservava. Brincava só à noite quando se trancava no quartinho que tinha sido dela e de sua mãe. Dormia só, privilégio conquistado por herança e por merecimento. As outras empregadas dormiam todas juntas num quarto maior e afastado da casa, depois da latada de maracujá do quintal. Durante o dia inteirinho ela trabalhava. Acordava às cinco.

Um dia, vindo do banho de açude, era num domingo, encontrou com o patrão mexendo no roseiral que ficava ao lado do quarto dele. Era por esse caminho que ela passava toda tarde depois do banho. Passava com discrição arrodeando a casa e entrando pelos fundos, pois sabia que seu vestido molhado colava no corpo e a deixava descomposta.

Corriam boatos pela cozinha que o doutor dormia com a Isaura, uma morena alta e mais velha, que cuidava das cabras lá por perto das plantações de canarana onde morava. Era viúva. O marido tinha sido esfaqueado numa briga besta de fim de festa. Isaura, com a licença do doutor, continuou morando na casa que ocupara com o falecido. Ele tinha sido um dos vaqueiros sob as ordens de Duda. Ver mesmo ela com o doutor, até aquele dia, ninguém nunca tinha visto. Eram só falatórios. Também um homem daquele não podia viver sem mulher. Ele trabalhava o dia inteiro e claro que precisava espairecer.

Pois bem. Naquele dia, quando ela vinha passando pelo roseiral e deparou com o doutor podando as plantinhas que tinham sido plantadas pela mãe dele, vinha justamente pensando nisso. Nele e na Isaura.

Ele, vendo a menina se aproximar, lambeu o corpo dela com os olhos e pediu que o ajudasse. Que segurasse um galho enquanto ele cortava o galho vizinho. Ela olhou para seu próprio corpo exposto por causa do vestido molhado. Olhou-se como quem diz, mas eu estou com essa roupa. Não disse nada contudo. Obedeceu. Segurou o galho. Nessa segurada ficou bem pertinho dele, não por querer, mas por precisão. Podia ouvir sua respiração bem forte, como se estivesse cansado. Terminando a tarefa ele virou para ela e disse:

- Mas você está toda molhada. Você pode se gripar.

Ela respondeu sem levantar os olhos e bem depressa:

- Espere aí que eu vou trocar de roupa. Volto logo pra ajudar o senhor.

Ele respondeu: – Não precisa. Tem toalha no meu quarto.

E nisso foi passando a mão pelos seus ombros, amolecendo o olhar, e empurrando seus passos para o quarto dele. Lá tudo aconteceu. Ela chorou baixinho por causa da dor, uma dor aguda que era como se estivesse sendo partida em duas. O sangueiro escorreu e ela ficou com muita vergonha. Ia lavar aqueles lençóis sem ninguém ver. Ele estava pesado e arfando em cima dela. Ela mal agüentava tanto peso. Depois que ele rolou para o lado, ela fez o gesto de quem ia se levantar pra continuar suas tarefas. Ele não permitiu. Puxou-a mais para perto de si e a abraçou com jeito, assim como se ela fosse um neném.

Seus pensamentos foram interrompidos pelo gemido dele, um ai bem grande puxado lá do fundo do coração, grunhido que só ele sabia fazer nessas horas. Concluiu: Pronto. Ele já desonrou a mocinha. Agora vou me deitar. E saiu na ponta dos pés.

06/10/2009 - 18:23h Vem!

Rita Barém de Melo

Vem! Que t’ importa que maldiga o mundo
O amor profundo que nos liga? vem;
Vem, que nos vales de cheirosas flores,
Nossos amores viçarão também.

Vem! de joelhos nos tapiz de nardo
Há de te o brado suspirar idílios,
Cantar-te a face rosejada em pranto,
O orvalho santo do frouxel dos cílios.

Pensa na sombra da floresta virgem…
Nesta vertigem … nest’amor ali!…
Aves felizes no sendal dos ramos
Seremos: vamos, que o serei por ti!

Vamos unidos como a luz ao astro
O amor da Castro na soidão lembrá-lo,
Nas longas plumas que a palmeira agita
A alma palpita de Virgínia e Paulo.

Que mais tu queres, anjo e flor? Escuta:
Quem ama luta? Não lutemos, vem!
Vamos aos vales de cheirosas flores,
Que é flor d’amores meu amor também.

Olha, de tarde quando o sol se esconde
Diz-me tu onde mais poesia viste?
Calam-se os ventos – só a brisa arrula -
O céu se azula – mas o céu é triste.

Pois bem, o bardo na soidão exprime
Na voz sublime dum arcanjo a voz:
Hei de dos seios arrancar os lírios
Dos meus delírios, pra t’os dar – a sós. -

Perdidos ambos no deserto infinito
Que sonho lindo, que visões também!
E o éter puro como véu d’estrelas…
E a chama delas a tremer além!…

“Mas quando um dia desbotar-se o prado?
Quando o valado se cobrir de gelos?
Ai! tu só vives – beija-flor – de orvalhos
Em verdes galhos de sonhares belos!

Qu’ importa o prado de cheirosas flores
Se teus amores morrerão também!”
Quando morrerem, morrerão comigo
E ao céu contigo voarei – Oh! vem!

“Oh! não! Minh’alma se coroa em flores;
Nos esplendores de celeste aurora;
Deus abençoa só amores santos
Cala teus cantos: morrerás agora?”

(Rio Grande, julho de 1867)

Sorrisos & Prantos, Editoras Movimento e Mulheres, 1998 – Brasil.

29/09/2009 - 14:18h Veja quem são os vencedores do Prêmio Jabuti 2009

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da Folha Online

A Câmara Brasileira do Livro divulgou hoje a lista com os três primeiros colocados de cada uma das 21 categorias do 51º Prêmio Jabuti. Os vencedores das categorias Livro do Ano Ficção e Livro do Ano Não-Ficção serão revelados durante a cerimônia de premiação, no dia 4 de novembro, na Sala São Paulo.

Tradução

1º lugar -”A Morte de Empédocles / Friedrich Hölderlin”, Marise Moassaba Curioni (Iluminuras).
2º lugar -”Satíricon”, Cláudio Aquati (Cosac Naify).
3º lugar -”Os Irmãos Karamázov – 2 Volumes”, Paulo Bezerra (Editora 34).

Arquitetura e Urbanismo, Fotografia, Comunicação e Artes

1º lugar – “Coleção Princesa Isabel – Fotografia do Século XIX”, Bia e Pedro Corrêa Lago (Capivara Editora)
2º lugar – “Árvores Notáveis – 200 Anos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro” (livro e guia de bolsa), Andréa Jakobsson Estúdio Editorial (Andréa Jakobsson Estúdio Editorial)
3º lugar – “Tarsila do Amaral”, Lygia Eluf (Imprensa Oficial do Estado)

Teoria/Crítica Literária

1º lugar -”Monteiro Lobato: Livro a Livro”, Marisa Lajolo e João Luís Ceccantini (Editora Unesp / Imprensa Oficial)
2º lugar -”Pensamento e ‘Lirismo Puro’ na Poesia de Cecília Meireles”, Leila V. B. Gouvêa (Editora Universidade de São Paulo)
3º lugar -”Literatura da Urgência Lima Barreto no Domínio da Loucura”, Luciana Hidalgo (Annablume Editora)

Projeto Gráfico

1º lugar -”Fazendas Mineiras”, Marcelo Drummond & Marconi Drummond (Cemig)
2º lugar -”A História do Brazil de Frei Vicente de Salvador”, Maria Lêda Oliveira (Versal Editores)
3º lugar -”Isay Weinfeld”, Roberto Cipolla (Bei Editora)

Ilustração de Livro Infantil ou Juvenil

1º lugar -”O Matador”, Odilon Moraes (Editora Leitura) – BH
2º lugar -”De Passagem”, Marcelo Cipis (Schwarcz)
3º lugar – “Alfabeto de Histórias”, Gilles Eduar (Editora Ática)

Ciências Exatas, Tecnologia e Informática

1º lugar – “Introdução à Quimica da Atmosfera – Ciência, Vida e Sobrevivência”, Ervim Lenzi e Luzia Otilia Bortotti Favero (LTC – Livros Técnicos e Científicos Editora)
2º lugar – “Fundamentos de Metrologia Científica e Industrial”, Armando Albertazzi G. Jr. e André R. de Souza (Editora Manole)

3º lugar – “Mapa do Jogo”, Lucia Santaella e Mirna Feitoza (Cengage Learning Edições)

Educação, Psicologia e Psicanálise

1º lugar -”A Voz e o Tempo”, Roberto Gambini (Ateliê Editorial)
2º lugar -”Religiosidade e Psicoterapia”, Claudia Bruscagin, Adriana Sávio, Fátima Fontes e Denise Mendes Gomes (Editora Roca)
3º lugar – “Educação à distância: o Estado da Arte”, Fredric Michael Litto (Pearson Education do Brasil)

Reportagem

1º lugar -”O Livro Amarelo do Terminal”, Vanessa Bárbara (Cosac Naify)
2º lugar -”O Sequestro dos Uruguaios – uma Reportagem dos Tempos da Ditadura”, Luiz Cláudio Cunha (L&P Editores)
3º lugar -”1968 – o que Fizemos de Nós”, Zuenir Ventura (Editora Planeta do Brasil)

Didático e Paradidático

1º lugar – “História e Cultura Africana e Afro-Brasileira”, Nei Lopes (Barsa Planeta Internacional)
2º lugar – “Meu primeiro álbum de piano solo”, Dulce Auriemo (D.A. Produções Artísticas)
2º lugar – “Coleção cidade educadora – Diário de bordo do aluno 1 – Volume Amarelo”, Áureo Gomes Monteiro Júnior, Célia Cris Silva e Júlia Scandiuci Figueiredo (Aymará Edições e Tecnologia)
3º lugar – “Literatura Infantil Brasileira: um Guia para Professores e Promotores de Leitura”, Vera Maria Tietzmann Silva (Cânone Editorial)

Economia, Administração e Negócios

1º lugar – “Valores Humanos & Gestão. Novas Perspectivas”, Maria Luisa Mendes Teixeira (organizadora) (Editora Senac São Paulo)
2º lugar -”Estratégia e Competitividade Empresarial – Inovação e Criação de Valor”, Luiz Carlos Di Serio e Marcos Augusto de Vasconcelos (Saraiva)
3º lugar – “Meio Ambiente e Crescimento Econômico: Tensões Estruturais”, Gilberto Dupas (Editora Unesp)

Direito

1º lugar – “Introdução ao Pensamento Jurídico e à Teoria Geral do Direito Privado”, Rosa Maria de Andrade Nery (Editora Revista dos Tribunais)
2º lugar -”Execução”, José Miguel Garcia Medina (Editora Revista dos Tribunais)
3º lugar -”Código de Processo Civil – Comentado Artigo por Artigo”, Daniel Mitidiero e Luiz Guilherme Marinoni (Editora Revista dos Tribunais)
3ºlugar – “Atual Panorama da Constituição Federal”, Carlos Marcelo Gouveia (Saraiva)

Biografia

1º lugar – “O Sol do Brasil”, Lilia Moritz Schwarcz (Schwarcz)
2º lugar -”José Olympio, o Editor e sua Casa”, José Mario Pereira (GMT Editores)
3º lugar -”O Santo Sujo: a Vida de Jayme Ovalle”, Humberto Werneck (Cosac Naify)

Capa

1º lugar – Moby Dick”, Luciana Facchini (Cosac Naify)
2º lugar -”Jovem Stálin”, João Baptista da Costa Aguiar (Schwarcz)
3º lugar -”Introdução à filosofia”, Rex Design (Editora WMF Martins Fontes)

Poesia

1º lugar -”Dois em um”, Alice Ruiz S. (Editora Iluminuras)
2º lugar -”Antigos e soltos: poemas e prosas da pasta rosa”, Instituto Moreira Salles (Instituto Moreira Salles)
3º lugar -”Cinemateca”, Eucanaã Ferraz (Schwarcz)
3ºlugar – “Outros barulhos”, Reynaldo Bessa (edição do autor)

Ciências Humanas

1º lugar – “História do Brasil – Uma Interpretação”, Adriana Lopez e Carlos Guilherme Mota (Editora Senac São Paulo)
2º lugar – “Veneno Remédio”, José Miguel Wisnik (Schwarcz)
3º lugar – “A Aparição do Demônio na Fábrica”, José de Souza Martins (Editora 34)

Ciências Naturais e Ciências da Saúde

1º lugar – “Fundamentos de Dermatologia”, Marcia Ramos-e-Silva e Maria Cristina Ribeiro de Castro (Editora Atheneu)
2º lugar -”Oftalmogeriatria”, Marcela Cypel e Rubens Belfort Jr. (Editora Roca)
3º lugar – “Guia de Propágulos & Plântulas da Amazônia”, José Luís Campana Camargo et al (Inpa)

Contos e Crônicas

1º lugar -”Canalha! – crônicas”, Fabricio Carpinejar (Editora Bertrand Brasil)
2º lugar -”Ostra feliz não faz pérola”, Rubem Alves (Editora Planeta do Brasil)
3º lugar -”Os comes e bebes nos velórios das gerais e outras histórias”, Déa Rodrigues da Cunha Rocha (Auana Editora)

Infantil

1º lugar – “A Invenção do Mundo Pelo Deus-Curumim”, Braulio Tavares (Editora 34)
2º lugar -”No Risco do Caracol”, Maria Valéria Rezende e Marlette Menezes (Autêntica Editora)
3º lugar – “Era Outra Vez um Gato Xadrez”, Leticia Wierzchowski (Editora Record)

Juvenil

1º lugar -”O fazedor de velhos”, Rodrigo Lacerda (Cosac Naify)
2º lugar -”Cidade dos deitados”, Heloisa Prieto (Cosac Naify)
3º lugar -”A distância das coisas”, Flávio Carneiro (Edições SM)

Romance

1º lugar -”Manual da Paixão Solitária”, Moacyr Scliar (Schwarcz)
2º lugar -”Orfãos do Eldorado”, Milton Hatoum (Schwarcz)
3º lugar -”Cordilheira”, Daniel Galera (Schwarcz)

Tradução de obra literária Francês-Português

1º lugar -”O Conde de Monte Cristo”, André Telles e Rodrigo Lacerda (Jorge Zahar Editor)
2º lugar – “Topografia Ideal para uma Agressão Caracterizada”, Flávia Nascimento (Editora Estação Liberdade)
3º lugar – “A Elegância do Ouriço”, Rosa Freire D’aguiar (Schwarcz)

25/09/2009 - 17:42h O baú do Leminski

Jotabê Medeiros – O Estado SP

http://www.omelhordobairro.com.br/curitiba-centro/userfiles/image/Historia%20de%20Curitiba/Paulo_Leminski%20copy.jpgEm Curitiba, a islandesa Björk cantou seus mantras pop na Pedreira Paulo Leminski. O britpop desgarrado dos Arctic Monkeys também deu as caras por lá. Mas será que a bela plateia imberbe dos grandes shows de pop e rock lembra quem foi o tal Leminski que deu nome à gélida pedreira curitibana?

A próxima semana será uma boa ocasião para desvendar-se o poeta-samurai que também amava o rock, mas não só. Morto há 20 anos, Leminski era ainda tradutor de japonês, inglês, francês, latim, espanhol, judoca faixa-preta, monge iniciante, compositor popular, biógrafo, professor de história e de redação, publicitário, contista e trotskista que sonhou dar o nome de Leon ao filho (o neto ganhou o nome).

A obra múltipla de Paulo Leminski (1944-1989) é o foco da mostra Ocupação Paulo Leminski: Vinte Anos em Outras Esferas, no Itaú Cultural, de 1º de outubro a 8 de novembro – com leitura de poemas por Alice Ruiz, viúva do autor, e o dramaturgo Mário Bortolotto, para convidados, na próxima quarta-feira, dia 30 de setembro. Outras atrações são Moraes Moreira e uma brigada de escritores “em processo, criando poemas ao vivo. Ocupações é uma série do Itaú Cultural que já teve como “hóspedes” o diretor José Celso Martinez Correa e do artista plástico Nelson Leirner.

Leminski, que transou Oriente e Ocidente, zona norte e zona sul, música falada e música cantada, teatro nô e políticas utópicas, ressurge em todas suas facetas, com mil e um aperitivos extras na jornada – poemas inéditos, preciosos manuscritos que revelam a gênese do antirromance Catatau, depoimentos pessoais gravados em vídeo e shows musicais

É uma mostra fundamental para entender o processo de Leminski, que escrevia enquanto vivia, e vivia em alta velocidade – acharam poemas até em maços de cigarro e guardanapos de papel de restaurantes. Fragmentos de uma obra antitotêmica, furiosamente inimiga dos cânones, se transformam em painéis cenográficos, a obra reassumindo uma visualidade nova. Os curadores descobriram também fragmentos manuscritos do mais cultuado livro do artista, que ele escreveu aos 30 anos, O Catatau, uma espécie de Finnegan”s Wake (obra-chave de Joyce) para uma geração.

http://4.bp.blogspot.com/_tW83KoQCqyE/SLFlu5-Fe8I/AAAAAAAAuuE/s6nVcx0AeNs/s400/PAULO(84)4.jpg

Filho de pai polonês e mãe negra, amou a linguagem

Jotabê Medeiros
Paulo Leminski consumiu-se velozmente em sua trajetória, confundindo às vezes sua vida e sua obra. “De colchão em colchão/descubro – minha casa é no chão”, escreveu, num haicai melancólico sobre sua derradeira condição, a de alcoólatra em queda vertiginosa.

Nascido em 24 de agosto de 1944, em Curitiba (PR), filho de pai polonês e mãe negra, foi um erudito com alma de boêmio. Começou cedo: em 1964, teve poemas publicados na revista de poesia concreta Invenção. De 1970 a 1989, trabalhou como publicitário, professor de cursinho, jornalista, tradutor.

Compositor, teve canções gravadas por Caetano Veloso e pela banda A Cor do Som, além de uma dezena de parceiros. Em 1975 publicou o romance experimental Catatau e foi tradutor de obras de James Joyce, John Lennon, Samuel Beckett, Alfred Jarry, além de haicais de Bashô. Colaborou com o jornal Folha de S. Paulo e com a revista Veja.

Leminski passou a vida dedicado à poesia e à escrita. Aprendeu diversas línguas, segundo dizia, para se tornar um poeta cada vez melhor. Morreu no dia 7 de junho de 1989, em sua terra natal. Até hoje, a sua obra influencia jovens poetas e todos os movimentos poéticos dos últimos 20 anos. Seu livro Metaformose ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia, em 1995. Em 2001, o poema Sintonia para Pressa e Presságio foi selecionado por Ítalo Moriconi e incluído no livro Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século.

Leminski teve um fim melancólico. Morreu aos 44 anos de cirrose. Cheio de energia e vitalidade no seu auge, era evitado até por antigos amigos no final. “Pariso/ Novayorquiso, Moscoviteio/ Sem sair do bar./ Só não levanto e vou embora/ Porque tem países/ Que eu nem chego a madagascar.” Num bilhete deixado para os posteriores, falou de seu sentimento em relação a esse desapego ao mundo. “Nunca estive muito interessado em envelhecer, eu que sempre amei a juventude.”

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”Twitcais”’e saraus celebram autor

Público de mostra sobre Paulo Leminski no Itaú Cultural será convidado a criar poemas no celular

Jotabê Medeiros

Em julho, o curador da mostra Ocupações Paulo Leminski, o jornalista, poeta e cantor Ademir Assunção, esteve em Curitiba, acompanhado do cenógrafo da exibição, o fotógrafo Miguel Paladino. Foi pesquisar nos “baús” do autor, 18 caixas mantidas no centro da capital paranaense por uma das filhas do artista, Áurea Leminski, com cadernos, folhas soltas, recortes de jornal, livros, fotografias e até carteirinha de clube.

“Se perguntarem a alguém o nome de um escritor curitibano, certamente os mais citados serão Dalton Trevisan e Paulo Leminski. Mas não há na cidade uma única instituição, um único centro cultural destinado à divulgação da obra de Leminski”, admira-se Assunção.

A tarefa de fazer circular o legado leminskiano fica por conta dos esforços da família. A filha Áurea Leminski, de 38 anos, é mãe de Lorena, 5 anos (o poeta tem outro neto, Leon, filho de Estrela, de 28 anos). Ela acha que o pai “aos poucos se torna mais um mito ou um personagem, e não se renova o interesse pela obra dele, o que é fundamental”. Ela tenta organizar e disponibilizar virtualmente o acervo do poeta em Curitiba, mas ainda não encontrou interessados em financiar ou participar de tal projeto. “Eu estou muito preocupada agora com a formatação disso, o jeito como tudo será disponibilizado. Não há ainda um custo, um orçamento”, explicou Áurea.

“É claro que a poesia nunca atingiu a grande massa. A fama do meu pai se deu muito mais por meio da música, da inclusão de uma canção numa novela da Globo. O interesse, no entanto, persiste, tem muito estudante que procura a gente para obter informações. Não seria correto dizer que ele está esquecido.”

Cantora, baterista e compositora, Estrela Ruiz Leminski vai cantar na quarta-feira, na abertura da exposição no Itaú Cultural – ela integra as bandas Dona Zica, Casca de Nós e Trash pour 4. Os shows musicais terão as participações especiais de Moraes Moreira e Vitor Ramil. Durante a “ocupação”, escritores como Elson Fróes, Nelson de Oliveira, Marcelino Freire, Ricardo Aleixo, Maria Esther Maciel, Frederico Barbosa, Paulo Scott, Izabela Leal, entre outros, vão interagir com o público criando em tempo real uma série de “twitcais” (haicais em forma de mensagem do twitter), e o público será convidado a fazer o mesmo.

Leminski teria 65 anos. Experimentar era seu credo. “A velocidade da lógica ultrapassa o limite da linguagem, atrás da linguagem, na frente de quê? Tem tudo que ser igual ao eco… só falta equar! Posso ser útil se me vendo claro mas entendo e entendendo me fazendo de meu entendedor de meias colcheias e colmeias cheias. Quem dá o que falar, não dá para fazer o mesmo?”, diz trecho do seu livro Catatau.

A poeta Alice Ruiz (que foi casada com o escritor durante 20 anos, deu-lhe três filhos e foi parceira em boa parte da sua obra) divertiu-se ao imaginar como seria se o poeta fosse confrontando com as novas mídias sociais e tecnologia. Ela e Leminski chegaram a trabalhar com o artista visual Julio Plaza, mas considera o experimento apenas um trabalho “à parte” na obra de Plaza, e não uma experiência particular sua.

“É muito difícil pensar nisso (Leminski no Twitter). Ele nem chegou perto do computador, fazia em máquina de escrever. O Paulo era louco pela palavra, por escrever. Mas, ao mesmo tempo que era de vanguarda, cultivava grande apreço pelos velhos sistemas. Não sei se faria poemas na internet, não sei responder a essa questão, mas desconfio que não. Acho que ele preferiria criar do jeito tradicional e passar para alguém processá-los.”

A “pilhagem” que os curadores fizeram nas caixas de Leminski, minuciosa e respeitosa, revelou preciosidades que deixaram até os pesquisadores boquiabertos. “Em uma dessas pastas encontrei um caderno espiral, daqueles de estudante, com nada menos que os manuscritos do Catatau. Quando abri esse caderno e vi a letra de Paulo Leminski e comecei a ler e saquei a gênese desse que é um dos livros mais geniais da literatura brasileira, fiquei emocionado pra caramba. Mais de 30 anos depois, eu tinha a oportunidade de ler a gênese do Catatau!”, admira-se Assunção.

“Mas não tinha nada perdido lá. Tava tudo muito bem guardadinho”, ressalta Alice Ruiz, responsável pelo armazenamento dos documentos após a morte do artista. Nada do que foi garimpado será publicado, o seu uso será apenas visual, para dar uma ideia do processo de criação do autor. Alice pensa da seguinte forma: se Leminski não publicou, é porque tinha plena certeza de que não queria aquilo publicado.

Ter acesso aos inéditos garimpados, de qualquer forma, é um saboroso exercício: “feliz/ macaco do passeio público/ nas tardes de domingo/ os guris / jogam pipocas/ a mão dos pais/ pinga esmolas/ na pata dos mendigos.”

“Leminski é a síntese de um poeta e intelectual que sofreu o impacto das rebeliões, de linguagem e comportamentais, da contracultura, do rock”n”roll, da Segunda Guerra Mundial, da comunicação de massas, de um lado, mas também com uma forte erudição, o domínio de várias línguas, o conhecimento profundo do zen-budismo, a prática de artes marciais. Na minha visão, ele não é somente o resultado disso tudo, mas a síntese e ao mesmo tempo a atuação crítica no cenário contemporâneo”, diz Ademir Assunção.


Obras Fundamentais

POESIA

Polonaises. Ed. do Autor, 1980

Não Fosse Isso e Era Menos/ Não Fosse Tanto e Era Quase. Zap, 1980

Tripas. Ed. do Autor, 1980

Caprichos e Relaxos. Brasiliense, 1983

Hai Tropikais. Fundo Cultural de Ouro Preto, 1985

Um Milhão de Coisas. São Paulo, Brasiliense, 1985

Caprichos e Relaxos. São Paulo, Círculo do Livro, 1987

Distraídos Venceremos. São Paulo, Brasiliense, 1987

La Vie en Close. Brasiliense, 1991 (reimpresso em 1999)

Winterverno. Fundação Cultural de Curitiba, Curitiba, 1994. (2.ª edição Editora Iluminuras, 2001)

O Ex-Estranho. Iluminuras, São Paulo, 1996

PROSA

Catatau. Curitiba, Ed. do Autor, 1975

Agora É Que São Elas. São Paulo, Brasiliense, 1984

Gozo Fabuloso. São Paulo, Editora DBA, 2004

http://www.muraldeimagens.blogger.com.br/paulo_leminski.gif