28/08/2012 - 17:00h Um debate sobre os limites morais do mercado

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Sandel: os mercados deixam sua marca nas normas sociais, aponta no livro “O Que o Dinheiro Não Compra”


Por Oscar Pilagallo | Para o Valor, de São Paulo

Um dos intelectuais públicos mais populares da atualidade, o americano Michael Sandel, autor do best-seller internacional “Justiça: O Que É Fazer a Coisa Certa”, está de volta sob os holofotes midiáticos ao propor o debate sobre os limites morais do mercado em “O Que o Dinheiro Não Compra”.

Sandel concede que há pouquíssimas coisas que o dinheiro não compra. Não compra, por exemplo, um prêmio honorífico, como o Nobel, uma vez que a própria venda dissolveria o bem que dá lhe valor. “Comprá-lo significa comprometer o bem que se busca”, raciocina o autor.

Com poucas exceções como essa, a maioria das coisas pode ser comprada. Sandel escreveu o livro para argumentar que muitas dessas coisas não deveriam ser objeto de negociação envolvendo dinheiro, e talvez “O Que o Dinheiro Não Deveria Comprar” fosse um título mais próximo da tese central do autor.

Professor de política de um concorrido curso da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, Sandel introduz um elemento estranho no debate econômico: a dimensão moral do mercado. Não que ele tenha qualquer viés socialista. Ao contrário, trata-se de um admirador convicto da economia de mercado, que descreve como “valiosa e eficaz”. O que ele critica é a sociedade de mercado. A diferença é que, enquanto a economia de mercado é apenas uma ferramenta, a sociedade de mercado “é um modo de vida em que os valores de mercado permeiam cada aspecto da atividade humana”, afirma. “É um lugar em que as relações sociais são reformatadas à imagem do mercado.”

Sandel não está preocupado com a ganância, denunciada depois da crise de 2008 como a “falha moral” no cerne do triunfalismo do mercado, que o levou a assumir riscos de maneira irresponsável. Para ele, esse diagnóstico é apenas parcial. “A mudança mais decisiva ocorrida nas últimas três décadas não foi o aumento da ganância, mas a extensão dos mercados, e de valores do mercado, a esferas da vida com as quais nada têm a ver.”

O livro é construído sobre uma sequência infindável de exemplos que, com mais ou menos eficiência, ilustram a mesma conclusão: “Os mercados deixam sua marca nas normas sociais”.

Mesmo os exemplos mais prosaicos, como o desrespeito às filas, ajudam a compreender aonde o autor quer chegar. Ele detalha o mecanismo de fura-fila diante das salas de audiência do Congresso americano. É simples: os lobistas chegam a pagar mais de mil dólares para que outras pessoas fiquem horas guardando um lugar para eles. Não há nada de ilegal nisso, mas a prática foi considerada desmoralizante para o Congresso e insultuosa para o público, opinião que Sandel endossa. Afinal, a fila remunerada priva o cidadão comum da possibilidade de comparecer às audiências.

O autor conhece bem o argumento dos entusiastas da presença do mercado em todas as esferas da vida. Eles falam em liberdade individual e no caráter utilitário da ação. Se compradores e vendedores estão de acordo em relação ao preço, se não são coagidos a fazer o que fazem, se ambas as partes ganham com a transação, então por que não realizá-la? Simplesmente porque extrapolam os limites morais, responde Sandel.

O autor está ciente de que não é tarefa simples introduzir a perspectiva moral na lógica do mercado. Ele cita o caso da permissão de caçar rinocerontes negros, uma espécie em risco de extinção. Onde a caçada limitada é permitida, como na África do Sul, a população de rinocerontes vem crescendo, pois é do interesse econômico dos fazendeiros proteger os animais para que possam no futuro ser caçados. Já no Quênia, onde a caça é proibida, o número de rinocerontes continua caindo em decorrência da transformação de florestas em pastagens.

Nesse caso, o que é moralmente errado leva ao resultado desejável e vice-versa. O que é melhor? Sandel não tem uma resposta. Já no início do livro havia advertido que seu objetivo é menos encaminhar soluções do que estimular o debate. No caso do mercado de rinocerontes, ele apenas constata que estamos diante de algo “moralmente complexo” e segue adiante.

Outro exemplo gerador de ambiguidade é o mercado de créditos de carbono. Por um lado, é uma espécie de “licença moral para poluir” (Sandel lembra que os críticos do sistema o comparam às indulgências papais, aqueles pagamentos à Igreja Católica que compensavam transgressões nos tempos medievais). Por outro lado, os créditos têm tido algum impacto na redução da emissão de gás carbônico.

Na maior parte dos exemplos, no entanto, é fácil concordar com o autor. Filhos, amizades, vistos de refugiados políticos, rins, há quase um consenso de que tais coisas não deveriam ser tratadas como mercadoria. O “quase” fica por conta de Gary Becker, economista americano que defende que tudo pode ser reduzido a uma transação comercial. Becker surge no livro como antípoda de Sandel, que chega a citá-lo nos agradecimentos por ter lhe dado a oportunidade de, num seminário de que ambos participaram, testar em público seus argumentos contra a supremacia das escolhas racionais, “ponto de partida da abordagem econômica em qualquer questão”.

“O Que o Dinheiro Não Compra” vai além da questão ética. Sandel está preocupado com as consequências, para a sociedade, da “marquetização de tudo”. Ele acredita que, em tempos de desigualdade crescente, tal atitude amplia o abismo entre as pessoas abastadas e as de poucos recursos. “Vivemos, trabalhamos, compramos e nos distraímos em lugares diferentes. Nossos filhos vão a escolas diferentes. Estamos falando de uma espécie de ‘camarotização’ da vida.” O autor se refere aos Estados Unidos, mas a noção pode ser aplicada também ao Brasil, onde o camarote da elite econômica é ainda mais exclusivo.

O professor de política não deixa de apontar a interseção entre esse vácuo cívico e uma ameaça aos princípios democráticos. “Democracia”, lembra ele, “não quer dizer igualdade perfeita, mas de fato exige que os cidadãos compartilhem uma vida comum.” Embora Sandel não liste a democracia como algo que não possa ser comprado, não há dúvida de que aí está um valor que não tem preço.
“O Que o Dinheiro Não Compra”

Michael Sandel. Tradução: Clovis Marques. Civilização Brasileira. 240 págs., R$ 24,90

Oscar Pilagallo é jornalista e autor de “História da Imprensa Paulista” (Três Estrelas) e “A Aventura do Dinheiro” (Publifolha)

26/08/2012 - 17:59h Julio Cortázar a 98 años de su nacimiento: Genialidad totalizante

El espíritu libre de Julio Cortázar derivó su obra en las diferentes direcciones de los géneros narrativos. El reconocido crítico Ricardo González Vigil nos da un panorama de su legado

Literatura argentina, Julio Cortázar
Julio Cortázar hubiera cumplido 98 años hoy. Amante del jazz, en la foto aparece tocando una trompeta. La imagen fue captada en París, en 1967. (La Nación/GDA)

Ricardo González Vigil – Miembro de la Academia Peruana de la Lengua – El Comercio

Julio Cortázar (1914-1984) pertenece a la generación de escritores argentinos que se dieron a conocer a fines de los años 30 y durante los 40. Una hornada con grandes narradores: Ernesto Sábato (1911-2011), Manuel Mujica Láinez (1910-1984), Adolfo Bioy Casares (1914-1999) y Silvina Ocampo (1906-1993), señaladamente.

LEGADO ARGENTINO
Sábato se nutrió de la problematización existencial de Roberto Arlt y Eduardo Mallea, así como de la crítica histórico-social enarbolada por el grupo Boedo; y Bioy Casares y Ocampo adoptaron el refinamiento imaginativo y el horizonte cosmopolita del grupo Florida, bajo la órbita de Jorge Luis Borges y la revista “Sur”. En cambio, Cortázar, con mayor complejidad y apertura que Mujica Láinez (se inclina más por Borges-Florisa que por Arlt-Boedo), acogió todo el legado narrativo argentino: el esmero estilístico y el ingenio fantástico de Borges, la angustia existencial y la valoración de la locura y el lumpen-“clochard” de Arlt, junto con la orientación marxista de Boedo, sin desdeñar el radicalismo experimental y el juego metaliterario (la literatura que habla de literatura) de dos autores marginales: Macedonio Fernández y Leopoldo Marechal en su magistral novela “Adán Buenosayres” (1948).

MODERNIDAD PLURAL
Agréguese que, con más decisión que todos ellos, asumió el aliento innovador de la modernidad literaria, desde sus fuentes románticas (recordemos que tradujo a Poe y estudió a John Keats) y simbolistas, hasta las propuestas vanguardistas, en particular el surrealismo. De otro lado, coincidiendo con la modernidad plural del mexicano Octavio Paz, bebió de la espiritualidad oriental: el budismo zen, el hinduismo y el taoísmo.

TODOS LOS GÉNEROS
Su espíritu abierto lo impulsó a cultivar todos los géneros literarios: el cuento, se coronó como uno de los dos más grandes cuentistas del idioma español, en compañía de Borges; la novela, plasmó uno de los climas de la novelística latinoamericana: “Rayuela”); la poesía, digna de relieve; el ensayo, brillante y esclarecedor; y el texto dramático. Más aún, se complació en dinamitar los límites entre los géneros establecidos: las misceláneas “La vuelta al día en ochenta mundos” y “Último round”; los textos brevísimos, inclasificables, de “Historias de cronopios y de famas”; la antinovela sin texto fijo: “Rayuela”; los efectos letristas y concretistas de sus poemas emancipados del verso; etc.

PROTAGONISTA DEL ‘BOOM’
Ese espíritu abierto, sumado a su rostro perpetuamente juvenil y su entusiasmo por la Revolución Cubana (que no sedujo a Sábato, Mujica Láinez, Bioy Casares ni Ocampo) le permitieron conformar el póquer de ases del ‘boom’ de la novela hispanoamericana (1960-1972) con escritores de la generación siguiente: Mario Vargas Llosa (22 años menor que él), Carlos Fuentes (1928-2012) y Gabriel García Márquez (1927).

Con una fórmula condensó la postura del ‘boom’ que apoyaba la Revolución Cubana sin tornar a la literatura un instrumento proselitista: la meta era ser el ‘Che Guevara de la literatura’. Es decir: si el guerrillero se propuso modificar la infraestructura económica y política (el ‘ser social’, en términos marxistas); le correspondía a los creadores literarios revolucionar el lenguaje y la imaginación (la ‘conciencia social’), escribiendo en total libertad y seguir las necesidades expresivas en gran parte inconscientes (lecciones del surrealismo y el compromiso según Sartre).

“RAYUELA”: NOVELA TOTAL
El designio del ‘boom’ de abarcar todos los niveles de la realidad y explorar todos los recursos del lenguaje tejiendo una “novela total” (así la llama Vargas Llosa) alcanzó una de sus realizaciones supremas en “Rayuela” en 1963.

Posee una dimensión realista: el lado de allá (París) y el lado de acá (Buenos Aires) plantean la tensión entre lo europeo-occidental y lo criollo-indoamericano. Alcanzar el centro del mandala o conquistar la casilla superior (cielo) del juego de la rayuela (en el Perú se lo denomina mundo) equivale al tao que sintetiza el yin y el yang, el norte y el sur, lo europeo-occidental y lo americano.

Sin embargo, evita el realismo consabido, propicia lo insólito, lo mágico y lo fantástico. En el terreno verbal, la Maga inventa un lenguaje lúdico de sonoridad mágica e infantil: el glíglico. Otro componente es lo que, en la novela “Los premios” (1960), Cortázar denominó “figuras”: nexos entre los personajes que los revela como desdoblamientos o seres complementarios; así, Horacio es a Traveler, como la Maga a Talita. Nótese la ambigüedad fantástica: Horacio se vuelve un “clochard” en París, pero también se suicida en Buenos Aires, aunque en otro capítulo logra Talita impedir el suicidio, haciéndonos recordar a Borges con sus secuencias que se bifurcan.

Hay un nivel más: el metaliterario, desplegado en varios capítulos, sobre todo los “Capítulos Prescindibles”. Las ideas sobre la antinovela, la novela-mandala, el lector-macho, etc., concuerdan con el deseo de ser el ‘Che Guevara de la literatura’, a tal punto que no hay un texto único, sino que recomienda leer el libro saltando (como en el juego de la rayuela) de un capítulo a otro, invitando a explorar todas las combinaciones posibles.

12/08/2012 - 18:56h Por uma literatura suja

10/08/2012

Por Tatiana Salem Levy | Para o Valor, do Rio

O último romance de Paulo Scott, “Habitante Irreal”, me despertou inúmeras questões que mereceriam um estudo minucioso. Eu poderia discorrer longamente sobre o livro, tamanha a sua força. Poderia falar de Maína, a personagem índia que continuou habitando o meu imaginário dias depois de concluída a leitura. Ou do envolvimento político de Paulo, jovem gaúcho envolvido com o movimento estudantil nos anos 80 e, mais tarde, com os “squats” em Londres. Ou de Donato, filho desse casal improvável, e a primeira vez em que vê o mar. Poderia ainda falar da segurança narrativa do autor, do seu domínio da trama e da estrutura. No entanto, prefiro falar daquilo que, aparentemente, constitui o defeito do romance e termina por se revelar a sua maior potência: a sujeira.

“Habitante Irreal” é um livro sujo, tanto na temática quanto na linguagem. Fala de assuntos pouco explorados na nossa literatura, dos índios, de seus descendentes, da situação calamitosa em que se encontram, à margem na sociedade. Aliás, literalmente à margem, vivem, como Maína, em acampamentos na beira da estrada. Buscam, como Donato, uma identidade esfacelada.

O romance aborda esse universo com uma voz de dentro. Embora o narrador seja em terceira pessoa, sua visão é muito íntima dos personagens, muito próxima da realidade em que ocorre a história. Ao lado da temática surge uma narrativa suja, em que abundam excessos, descrições exageradas, parênteses insistentes, diálogos barrocos e, ao mesmo tempo, muito realistas. É justamente dessa linguagem excessiva que emerge o fulgor do livro de Scott.

O excesso é o movimento de transbordamento pelo qual o autor tende a sair de si, extravasar-se. Uma obra de arte limpa demais, concisa demais, redonda demais, termina, na maioria dos casos, por sufocar a vida. É nos pontos de sujeira que emerge o “efeito de real”, conceito criado por Roland Barthes para explicar aquilo que numa obra salta para fora, capaz de nos tocar, de nos levar perto do tão almejado real. Em outros termos, a sujeira é aquilo que escapa do controle do autor, aquilo que se impõe à mercê da sua vontade e, num certo sentido, o extrapola. Aquilo que num trabalho de edição até poderia ficar de fora, mas, de tão insistente, permanece. Porque sem a sujeira muitos livros seriam apenas histórias bem contadas. E o leitor precisa de mais do que isso, precisa do sangue que só “aquele” autor pode dar.

Na mesma altura em que li “Habitante Irreal”, fui ao cinema ver “Na Estrada”, de Walter Salles, impecável na direção, na atuação e na fotografia. Belo em sua melancolia. Mas limpo demais para ser “on the road”. Faltou lama no filme, a terra das estradas gaúchas do romance de Scott. Então, lembrei-me da obra de outro escritor, Samuel Rawet, sujo dos pés à cabeça. Sua obra é bastante irregular, mas tem momentos primorosos que se destacam por uma falta de compromisso com a estética limpa e acadêmica. “Não temo a linguagem exaltada”, diz ele em “Eu-Tu-Ele”. E de fato não teme: em seus contos e novelas, abundam palavrões, obscenidade, escatologia.

No ensaio intitulado “Corpus”, Jean-Luc Nancy desenvolve o conceito de “excrita”, “excrição”. Em realidade, ele liga a ideia de escrita ao sufixo “ex” (fora), aproximando-a de palavras como exteriorização, exposição e excesso. Trata-se de pensar a literatura como um movimento para o exterior. Afirma o filósofo: “A ‘excrição’ (’excription’) de nosso corpo, eis por onde é preciso passar primeiro. Sua inscrição para fora, sua colocação ‘fora do texto’ como o movimento mais ‘próprio’ do texto: o texto ‘mesmo’ abandonado, deixado no seu limite.” Na literatura de Rawet, observamos constantemente um corpo que se expõe, que se revela excessivamente. O excesso seria a forma de se deixar levar, pois nele não há boicote possível: fica-se a nu.

Na novela “Viagens de Ahasverus à Terra Alheia em Busca de um Passado Que não Existe Porque É Futuro e de um Futuro Que já Passou Porque Sonhado”, essa ideia mostra-se evidente. Ahasverus perambula por todos os cantos do planeta, vai de Haifa ao Rio e a Paris; por todos os tempos, passando da Inquisição na Península Ibérica a hoje, e sob as formas humanas mais variadas. Condenado à errância eterna por ter zombado de Cristo, não consegue se lembrar exatamente de onde vem, quem é e “nem mesmo se havia nascido”. Está sempre se metamorfoseando, tomando as formas mais diversas. Tudo é muito difuso e impreciso para Ahasverus, pois ele não consegue se fixar numa terra, num tempo.

O corpo do personagem se expõe em todas as suas facetas: o movimento, a dor, a paralisia e o sexo. Nessa novela de um único parágrafo, a sexualidade é explorada com vigor. Ahasverus se masturba e tem relações com homens e mulheres. A certa altura, diz o narrador:

“E subitamente precipitou-se numa avalanche de metamorfoses incompletas até assumir a forma de íncubo e depois súcubo, e nas duas formas de súcubo e íncubo exalar um cheiro de esperma e enxofre, produto de uma sexualidade desbragada, insatisfeita, permanente, ávidas sempre as duas formas de gozo, e no auge do gozo desejando mais gozo, tanto gozo que as duas formas eram insuficientes, e se multiplicaram em quatro, oito, dezesseis, trinta e duas, sessenta e quatro, fazendo sentir em toda a terra o cheiro de gozo, esperma e enxofre”.

Uma exaltação constante anima Ahasverus, como se ele pudesse explodir a qualquer instante. A sexualidade aparece aqui como uma maneira de fazer expelir o próprio corpo, expô-lo. Da mesma forma, as cenas de vômito são frequentes em sua obra, como se os personagens, na impossibilidade de falar do incômodo, precisassem vomitar o que sentem. No conto “Trio”, diz o narrador: “Paulo, sentado no meio, equilibrou a garrafa de cachaça no chão e abriu os braços como se crescesse de repente. O corpo maior do que o corpo. A pele, uma jaula para o tamanho que ia tomando. Nem o vômito perturbou a amplidão das mãos estendidas. Escorreu pelo peito, ramificou-se pelas coxas, e foi se empoçar entre as pernas”.

Se o padrão é um corpo limpo e quase inorgânico, ele traz para seus textos um corpo sujo e orgânico. Para tratar desse tema, é preciso uma linguagem igualmente suja. Por isso, em seus textos há tantas exclamações, frases de inconformidade e xingamentos. Para exteriorizar o corpo que não cabe em si, Rawet faz uso de uma linguagem que se coloca para fora, vomita, libertando-se de um pensamento sistemático e fechado.

É claro que uma prosa, para ser convincente, precisa de uma estrutura bem amarrada, personagens vivos, domínio linguístico. Qualidades essas que Paulo Scott e Samuel Rawet têm de sobra. Não estou aqui para fazer uma apologia do caos. Queria apenas dizer que um pouco de sujeira é fundamental, aquele ponto de desequilíbrio que coloca o leitor diante das feridas do mundo.

Tatiana Salem Levy é escritora e doutora em letras. Publicou os romances “A Chave de Casa” e “Dois Rios” (Record).

10/08/2012 - 09:21h Desigualdade é raiz da crise, diz Stiglitz

Por Matthew Craft | Associated Press | VALOR

Richard Drew/AP / Richard Drew/AP
Para Joseph Stiglitz, os EUA poderiam ter uma economia mais eficiente e estável se sua sociedade fosse mais igual


O que há de errado com a economia americana? O crescimento segue aos trancos e barrancos. O desemprego está acima de 8% há três anos e meio. Cortes nos impostos e nas taxas de juro não têm funcionado, pelo menos não o suficiente. Para Joseph Stiglitz, vencedor de um prêmio Nobel de Economia, o estranho comportamento da economia pode ser atribuído ao crescente fosso entre americanos ricos e todos os demais.

Em seu novo livro, “O Preço da Desigualdade”, ele estabelece um nexo entre o crescente endividamento dos que tomam empréstimos educacionais, a bolha imobiliária e muitos outros problemas do país e maior desigualdade.

Quando os ricos continuam ficando mais ricos, diz ele, os custos se acumulam. Por exemplo, é mais fácil escapar da pobreza no Reino Unido e no Canadá do que nos EUA. “As pessoas na base da pirâmide têm menor probabilidade de realizar seu potencial”, afirma.

Leia trechos da entrevista:

Valor: Os protestos do movimento “Ocupar Wall Street” já não são mais notícia, mas o senhor argumenta que a desigualdade de renda é mais importante do que nunca. Como assim?

Joseph Stiglitz: Porque ela está piorando. Veja os mais recentes números do Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA). A riqueza mediana caiu 40% entre 2007 e 2010, levando-a de volta a onde estava no início dos anos 90. Durante duas décadas, todo o crescimento da riqueza no país, que foi enorme, foi para as pessoas bem no topo (da pirâmide). Podem ter sido duas décadas prósperas. Mas não compartilhamos, todos nós, dessa prosperidade. A crise financeira tornou isso realmente bem fácil de entender. A desigualdade sempre foi justificada com o argumento de que aqueles no topo – “os criadores de emprego” – contribuíram mais para a economia.

Depois vieram 2008 e 2009, e vimos esses sujeitos que colocaram a economia à beira da ruína levar centenas de milhões de dólares para casa. E não era possível justificar isso em termos de contribuição para a sociedade. O mito tinha sido vendido para as pessoas, e, de repente, ficou evidente para todos que não passava de uma mentira.

Mitt Romney qualificou as preocupações com a desigualdade de “política de invejosos”. Bem, isso está errado. Inveja seria dizer: “Ele está ganhando bem mais do que eu. Eu tenho inveja disso’. O que dizemos é: “Por que ele está ganhando tanto dinheiro, se ele nos trouxe para a beira da ruína?” E os que trabalharam duro são aqueles que foram arruinados. É uma questão de igualitarismo.

Valor: O objetivo dos mercados não é ser justo. Enquanto houver mercados, haverá vencedores e perdedores. O que há de errado nisso?

Stiglitz: Não estou defendendo a eliminação da desigualdade. Mas o extremo a que chegamos é muito ruim. Em particular, a forma como ela é produzida. Poderíamos ter uma sociedade mais igual e uma economia mais eficiente, mais estável, com maior crescimento. É essa, realmente, a questão. Mesmo se você não tiver quaisquer valores morais e quiser apenas maximizar o crescimento do PIB, esse nível de desigualdade será danoso. Não se trata apenas de injustiça. A questão é que estamos pagando um preço alto. A história que nos contaram é que a desigualdade era boa para nossa economia. Eu estou contando uma história diferente, que esse nível de desigualdade é ruim para nossa economia.

Valor: O senhor argumenta que isso está fazendo nossa economia crescer mais lentamente e vincula isso aos que querem viver de renda. Esse é um conceito de economista. Poderia explicar em termos leigos?

Stiglitz: Algumas pessoas obtêm renda de seu trabalho e algumas pessoas têm renda apenas porque são donas de um recurso. A renda delas não é resultado de esforço. Elas estão recebendo uma fatia maior do bolo, em vez de fazer o bolo crescer. Na verdade, eles estão fazendo o bolo ficar menor.

Valor: É como, por exemplo, eu instalar uma cobrança de pedágio num cruzamento movimentado e recolher todo o dinheiro para mim.

Stiglitz: Isso mesmo. Você apenas recolhe o dinheiro. Você não está agregando nada.

Valor: Onde o senhor vê isso nos EUA? Poderia apontar para alguns exemplos?

Stiglitz: Nós vemos isso no caso das companhias nos setores de petróleo e de recursos naturais e suas licenças para exploração mineral e madeireira. Os bancos se envolveram na concessão de empréstimos predatórios. Recentemente, as empresas Visa e MasterCard firmaram acordos aceitando pagar US$ 7 bilhões por comportamento anticoncorrencial. Elas cobravam dos comerciantes mais dinheiro, porque detêm poder monopolista.

Valor: O crescimento econômico está esfriando novamente. O desemprego parece emperrado acima de 8%. Isso é consequência de dívidas elevadas ou de gastos mais lentos?

Stiglitz: O problema fundamental não é a dívida pública. Ao longo dos últimos anos, o déficit orçamentário foi resultado de crescimento baixo. Se nos concentrarmos em crescer, teremos crescimento, e nosso déficit cairá. Se nos concentrarmos apenas no déficit, não iremos a lugar nenhum.

Essa fetichização do déficit está matando nossa economia. E isso está ligado à desigualdade. Se assumirmos medidas de austeridade, isso produzirá maior desemprego e alargará a desigualdade. Os salários caem, a demanda agregada cai, a riqueza diminui.

Todos os donos de imóveis endividados em nível superior ao próprio valor de suas casas não conseguem consumir. Nós demos dinheiro para socorrer o sistema bancário, mas não demos dinheiro para essas pessoas superendividadas. Elas não têm como gastar. É isso que nos está fazendo afundar. São os gastos domésticos.

Valor: E as pessoas que têm dinheiro para gastar, diz o senhor, gastam menos de cada dólar de sua renda. As pessoas no topo da escala de renda poupam quase um quarto de sua renda. As pessoas nos estratos mais baixos gastam cada centavo. É por isso que as reduções tributárias parecem ter pouco efeito sobre os gastos?

Stiglitz: Exatamente. Quando você redistribui dinheiro de baixo para cima, isso enfraquece a economia. E toda essa conversa sobre os investimentos dos mais ricos no país é besteira. Não, eles não investem aqui. Eles estão em busca de onde podem obter retornos mais elevados, e estão procurando no mundo inteiro. Por isso, estão investindo na China e no Brasil e na América Latina, nos mercados emergentes; não nos EUA. (Tradução de Sergio Blum)

09/08/2012 - 17:00h Estopim

Estopim é um romance de Carla Dias, e trata sobre como a vida pode mudar a partir de escolhas simples, até mesmo rotineiras. É um vislumbre sobre a transformação de quem se desiludiu profundamente com o mundo e consigo mesmo, e muito cedo, escolhendo a solidão como companhia, e então despertou novamente para a vida por conta de escolhas alheias, porém não da maneira mais agradável, e sim buscando o por detrás das máscaras, a crueza do sentimento e a verdade das ações.

As histórias paralelas a de Olavo, personagem central da trama, abordam o abandono em diversas nuances.

Olavo e Alexandre eram mais que irmãos, também eram amigos, cúmplices, inseparáveis, faziam grandes planos para quando fossem adultos. Olavo seria historiador e Alexandre astrônomo. Quando a mãe deles, uma professora de Biologia, descobre que tem pouco tempo de vida, ela decide trazer à tona um segredo que jamais pensou que teria de revelar. Dois anos mais velho que Olavo, Alexandre era filho de um matemático espanhol que sua mãe conheceu quando ele esteve na escola onde ela dava aulas. Apesar das regulares visitas do espanhol, principalmente depois do divórcio dela, nem mesmo ele sabia da verdade. Em busca de quem cuidasse dos seus filhos, quando não estivesse mais presente, ela revela o segredo e pede ao espanhol que cuide deles. O matemático se apaixona de imediato por Alexandre, pela paternidade, mas se recusa a levar Olavo com ele para Madri.

Para Olavo, separar-se do irmão foi um golpe, e lhe rendeu um desamparo sem fim, abonado pela dor de ver sua mãe definhando, a cada dia. Durante meses, os irmãos mantiveram contato, através de cartas, mas isso logo se tornou raro. No dia do enterro da mãe, Olavo recebeu de Alexandre um telegrama, lamentando a perda. Depois disso, eles se distanciaram ainda mais.

Uma prima de sua mãe cuidou de Olavo, até que ele chegou à maioridade e foi se virar sozinho. Durante os anos sob a batuta dessa mulher, ele compreendeu que não havia uma única pessoa em sua vida que tivesse tanta importância quanto as que ele perdera.

Aos poucos, Olavo se tornou um homem distante, sem ambição. Seguiu o plano da infância e se formou em História, mas o diploma ficou na gaveta. Acostumado aos empregos temporários, sem o desejo de ser profissional de carreira, durante os anos que se seguiram ele apenas aconteceu com a vida, sem qualquer esforço para vivenciar as experiências que ela oferecia.

O que Olavo não esperava era que sua vida se transformasse completamente com uma série de acontecimentos que chegaram praticamente juntos. O irmão vem de Madri, astrônomo famoso, e mesmo diante das declarações nada gentis de Olavo, através das quais deixava claro a visita ser completamente desnecessária, Alexandre faz questão de reencontrá-lo. Pressionado pela diretora da empresa onde trabalha como operador de telemarketing, ele tenta angariar o máximo de clientes, até que conhece Julia, uma mulher que, nos quase dez anos que se seguem, e sem nunca se encontrarem pessoalmente, apenas se falarem por telefone, torna-se sua conselheira, sua consciência, assim como lhe abre as portas para o imaginário, porque ao se dizer acrobata, Julia passa a viver nos pensamentos de Olavo também como tudo de belo e leve.

No mesmo momento da chegada do irmão e de conhecer Julia, Olavo se envolve com Gilda, atendente de locadora de filmes, com quem tem um breve romance. Gilda tem os seus mistérios e suas histórias, como a do professor de filosofia da faculdade por quem se apaixonou. Ele era um falsário, vivendo um papel que não lhe cabia, sedutor no dizer ideologia, então conquistava a todos facilmente. Porém, olhando além do fascínio proporcionado pela paixão, ela enxergou a verdade sobre ele. Tratava-se de um manipulador, um psicopata que provocou a morte de um dos estudantes que o contradisse. Ela foge dele, mas o reencontra mais tarde, quando está com Olavo. Sem dar muitos detalhes, Gilda conta a Olavo que, depois de deixar a faculdade, antes que descobrissem que o professor jamais fora sequer formado, ele se mudou para outro estado, e já desprovido da elegância do filósofo, tornou-se o mais competente traficante internacional de bebês, fazendo fortuna e comprando prestígio.

Assustada com esse encontro, crente de que será punida pelo ex-amante, Gilda se afasta de Olavo, sumindo completamente. É esse sumiço, a sensação sufocante de não tê-la ajudado, que fará com que Olavo não apenas mude o rumo da sua biografia, mas também se dedique intensamente a procurar por Gilda, enquanto alimenta a fantasia de que ela seria mulher de sua vida.

Os anos que Olavo gasta imaginando o que poderia ter acontecido a Gilda, também são anos em que ele se aproxima dos assuntos aos quais jamais dera importância antes, pois não eram seus. É o período, longo e repleto de inseguranças, em que ele aprende a importância daqueles que permanecem o seu lado.

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Premiação

O livro Estopim foi premiado pelo ProAc – Programa de Ação Cultural, da Secretaria de Estado da Cultura.


Carla Dias, autora do livro, já publicou outros dois romances contando com a premiação do ProAc:


Os estranhos: http://osestranhoslivro.blogspot.com
Jardim de Agnes: http://jardimdeagnes.blogspot.com

08/08/2012 - 19:59h La noche

Eduardo Galeano – El Libro de los Abrazos

1

No consigo dormir. Tengo una mujer atravesada entre los párpados. Si pudiera, le diría que se vaya; pero tengo una mujer atravesada en la garganta.

2

Arránqueme, señora, las ropas y las dudas. Desnúdeme, desdúdeme.

3

Yo me duermo a la orilla de una mujer: yo me duermo a la orilla de un abismo.

4

Me desprendo del abrazo, salgo a la calle.
En el cielo, ya clareando, se dibuja, finita, la luna.
La luna tiene dos noches de edad.
Yo, una.

05/08/2012 - 17:00h Sexo, conflito e tensão

05 de agosto de 2012

LEE SIEGEL – O Estado de S.Paulo

NOVA JERSEY – Cinquenta Tons de Cinza é um livro a respeito do relacionamento sadomasoquista entre uma universitária inocente e um jovem e lindo bilionário, que a convida para partilhar os prazeres do sexo na sua “sala vermelha da dor”. A obra causou sensação nos Estados Unidos, vendendo centenas de milhares de exemplares no formato eletrônico e no impresso. Praticamente todos aqueles que ganham a vida escrevendo já apresentaram sua opinião do livro – na verdade, todas as escritoras o fizeram. Os escritores parecem querer distância dele.

Tentei ler o livro e tive de abandoná-lo quando cheguei à parte em que o protagonista, Christian Grey, faz sexo violento com a jovem e virginal Anastasia. Como em toda a pornografia, o trecho mais parecia uma lista de instruções para a correta organização de uma mesa de cartas. Quanto mais explícitos são os textos sobre o sexo, mais constrangedora é a sua leitura. O trecho mais erótico de toda a literatura é do grande romance de Gustave Flaubert, Madame Bovary, escrito no século 19, quando Emma Bovary viaja de carruagem com seu amante, Rodolphe. Flaubert jamais descreve o encontro sexual, o que o torna muito mais tórrido.

A esta altura, dúzias de comentaristas destacaram as semelhanças entre Cinquenta Tons de Cinza – escrito por uma ex-executiva da televisão britânica chamada E.L. James – e romances góticos como Jane Eyre, bem como a popular série de romances vampirescos Crepúsculo. Mas ninguém explorou a dinâmica entre o bilionário e sua presa. Ninguém indagou se Anastasia permitiria que o caixa de uma livraria ou um mecânico de carros a espancasse, machucasse e torturasse sexualmente. Em vez de fugir de um homem claramente perturbado e insano, ela fica ao lado dele, tentando transformá-lo num amante terno e cheio de consideração.

Assim, nestes EUA que têm mais bilionários do que qualquer outro país do mundo, nestes EUA onde a distância entre ricos e pobres aumenta a um ritmo alarmante, nestes EUA onde uma oligarquia é cada vez mais a dona do país – neste lugar que se torna cada vez mais estranho para aqueles que, como nós, o amam, a obra de ficção mais popular no mercado é, literalmente, sobre uma mulher que submete sua dignidade e a própria alma ao fato bruto da riqueza e do poder.

Os rituais do sadomasoquismo me parecem se encaixar perfeitamente numa cultura que está se tornando dominada quase que exclusivamente pelos valores de mercado. Não estou julgando ninguém – aquilo que é de consentimento mútuo entre duas pessoas no reino do prazer não deve ser da conta de nenhuma outra pessoa, e Deus sabe que todos precisamos do prazer para sobreviver. Quero apenas destacar, com aquilo que espero ser uma neutralidade antropológica, que o sexo sadomasoquista é o sexo mais quantificável que se pode ter. Assim como ocorre numa permuta altamente estruturada, não há surpresas. Todos os componentes são apresentados previamente. A fórmula subjacente é clara: Dor = Prazer. Prazer é divisível pela dor. Dor multiplicada por duas chicotadas, uma torção e um pisão = prazer.

Se o sexo é, entre outras coisas, uma incalculável sublimação do estresse, do conflito e da tensão na forma do prazer, então – na minha concepção – o sexo sadomasoquista é uma dessublimação do prazer sexual diretamente de volta ao reino do estresse, do conflito e da tensão. Se o sexo é, ao lado da arte e do brincar, o grande domínio da liberdade humana no qual podemos nos refugiar do estresse, do conflito e da tensão do mercado, então o sexo sadomasoquista é um retorno ao mercado. Somente os muito ricos, que talvez anseiem pelo conflito diário como apenas outra diversão, podem vivenciar o ritual sadomasoquista como uma fuga. Para todos os demais, este sexo traz apenas aquilo que temos no nosso dia a dia.

E por baixo das permutas sadomasoquistas entre Christian Grey e Anastasia está, é claro, a permuta mais antiga de todas. Anastasia oferece sexo a Grey, e ele concede a ela os benefícios do seu poder. Nos velhos tempos, isso significaria joias, roupas e, quem sabe, um apartamento, e as pessoas teriam lido isso e enrolado a língua em sinal de reprovação, compartilhando entre si também uma piscadela, já que, num certo nível, é assim que o mundo funciona, e isso consiste num elemento essencial da tríade amor, casamento e filhos. Mas, além de comprar para a jovem um bracelete de platina e diamantes para cobrir as marcas no pulso dela, Grey não dá a Anastasia nada que tenha valor material. Em vez disso, ele a espanca e machuca e simula com ela violações anais. E os leitores estão comprando o livro aos montes.

15/07/2012 - 17:27h La Ciudad y los Perros, o filme

Luiz Zanin – O Estado SP

O romance de formação de Mario Vargas Llosa, La Ciudad y los Perros, que completa 50 anos, ganhou uma bela adaptação para cinema, em 1985, dirigida pelo cineasta peruano Francisco Lombardi.

Francisco “Paco” Lombardi é o principal diretor de cinema do Peru, e já verteu para a tela grande outra obra de seu conterrâneo Vargas Llosa, o satírico Pantaleão e as Visitadoras (1999), que chegou a concorrer no Festival de Gramado, aqui no Brasil.

Em La Ciudad y los Perros (conservamos o nome original porque o filme não teve lançamento comercial no País), Lombardi consegue captar o clima opressivo descrito no romance.

Temos lá, em 144 minutos de ação tensa e realista, a descrição fiel do ambiente da Academia Militar de Lima, na qual os cadetes são tratados sob rígida disciplina pelos superiores, em especial por um tenente durão, Gamboa (Gustavo Bueno, artista frequente em filmes de Lombardi, como Boca do Lobo, sobre o Sendero Luminoso).

Mas o que fica também clara é a hierarquia que se estabelece entre os próprios alunos, com a dominância do mais forte (o “Jaguar”) sobre os mais fracos. Um deles é apelidado de “o escravo” pelos outros e vive espezinhado porque não consegue se defender e só sobrevive pela submissão total. Ele será o pivô de uma tragédia que envolve todos os outros e arrasta a Academia a uma crise. O próprio Llosa se retrata através de um alter ego, “o Poeta” (Pablo Serra), cadete com veleidades literárias, que escreve histórias eróticas a troco de cigarro e bebidas. Mas, além disso, o Poeta será também uma espécie de consciência crítica, antecipando o papel do intelectual que Llosa se reserva diante da sociedade peruana. Será ele não o causador da crise, mas o catalisador de uma situação difícil de ser controlada pela hierarquia. Por essa ação, verá seu poder, mas também as limitações próprias de todo intelectual. O livro e o filme são premonitórios, de certa forma.

Por meio de uma mise-en-scène vigorosa, Lombardi retrata essa rigidez de superfície que esconde uma dupla moral vigente na Academia. Por trás do ambiente de extrema legalidade, instaura-se um tráfico de produtos proibidos comandada pelos alunos e que só pode sobreviver pela conivência de alguns militares de patentes superiores. É uma rede hipocrisias que só pode ser desvendada por que algo fora do controle, como a morte de um aluno, acabou acontecendo sob as barbas dos superiores. Mesmo assim, quem ocupa os postos mais altos da hierarquia tentará acobertar o crime e os possíveis criminosos sob o pretexto de que uma investigação seria prejudicial para a Academia. O desfecho é brilhante. E desalentador para quem acredita na pureza das instituições. Militares ou não porque salta à vista que a crítica de Llosa é mais geral e se estende à sociedade opressiva em seu todo.

De certa forma, a mesma crítica à rigidez e à dupla moral será feita, em outro registro, em Pantaleão e as Visitadoras, o outro romance de Llosa adaptado por Lombardi. Em La Ciudad y los Perros era a violência sob o verniz da ordem; em Pantaleão, é a questão da sexualidade. A história é hilária. Num posto avançado nas selvas peruanas, os soldados sofrem com a falta de sexo. Há notícias de estupros praticados contra mulheres das localidades remotas. Para resolver o problema é instituído um serviço de prostitutas para aplacar a libido da soldadesca. Pantaleão é o oficial destacado para organizar – com minúcia militar – esse serviço de importância estratégica.

Pelo riso, Llosa chega a resultado semelhante ao que consegue pelo drama em La Ciudad y los Perros.

13/07/2012 - 17:24h Mais um retrato do artista

Lipnitzki/Roger Viollet/Getty Images / Lipnitzki/Roger Viollet/Getty Images
Joyce: Bowker teve de manter em segredo suas intenções por medo de que o neto do escritor, Stephen, que “declarou guerra” aos biógrafos, quisesse interferir no livro


Por Francisco Quinteiro Pires | Para o Valor, de Nova York

James Joyce (1882-1941) foi inepto na vida, sagaz no trabalho. Escritor reconhecidamente autobiográfico, ele extraiu dos acidentes da existência a matéria da sua criação. “Distinguir fato e ficção em Joyce é difícil, apesar da confirmação por amigos de infância de que experiências vividas pelo escritor irlandês foram transpostas para os livros”, observa Gordon Bowker. “Ele impôs à realidade um verniz ficcional.”

Autor de “James Joyce: A New Biography” (Farrar, Straus & Giroux), que acaba de ser lançado nos Estados Unidos, Bowker considera um erro usar o conteúdo de enredos literários para escrever a biografia de um romancista. Ao mesmo tempo, reconhece os limites do gênero biográfico. Sem medo de abrir o flanco aos críticos, Bowker cita Bernard Malamud (1914-86), autor de “Dublin’s Lives” (1979), para quem “toda biografia é em última análise uma ficção”. Trajetórias são reconstruídas com o auxílio da imaginação. “Ninguém pode fazer argila pura do barro do passado”, escreveu Malamud.

Antes de Bowker, outros biógrafos assumiram a tarefa de narrar a história do autor de “Ulisses” (1922). Herbert Gorman foi o primeiro. Publicou o seu livro em 1939, enquanto o ficcionista irlandês estava vivo.

Joyce era consciente da sua imagem. Ao psicanalista Carl Jung (1875-1961), responsável pelo tratamento de Lucia, a sua filha esquizofrênica, ele se confessou “um homem de virtudes modestas, propenso à extravagância e ao alcoolismo”. Para a frustração de Gorman, Joyce seguiu de perto a edição da primeira biografia, sendo capaz de suprimir passagens desabonadoras. O contato estreito com o biografado despertou um senso de obrigação. Gorman comprometeu sua independência autoral.

Em vida, o status de Joyce como escritor não pôde ser determinado. De uns conquistou grande admiração: “Ele assassinou o século XIX” (T.S. Eliot) e se transformou no “maior poeta de uma nova fase da consciência humana” (Edmund Wilson). Foi por outros desprezado: “Ulisses” é “mais nojento que Casanova” (D.H. Lawrence) e destila “o desejo de chocar” (Virginia Woolf).

Especialista em literatura irlandesa, Richard Ellmann iniciou em 1947 a pesquisa de “James Joyce” (tradução de Lya Luft), publicado em 1959 e considerado pelo escritor Anthony Burgess “a melhor biografia literária do século” XX.

Ellmann (1918-87) conversou com pessoas que conheceram Joyce, definido por ele como uma “criatura bizarra e maravilhosa”, com capacidade acima da média de “reconstituir de memória grande parte do que vira e ouvira”. De acordo com Bowker, o segundo biógrafo adotou com entusiasmo os relatos de Stanislaus, irmão mais novo de Joyce, e Maria Jolas, mecenas do romancista em Paris. Em 1982, ano do centenário de nascimento do escritor, Ellmann publicou uma edição revista com cem páginas adicionais e 80 novas ilustrações. Desde aquele ano, foram lançadas biografias sobre o pai, a mulher e a filha de Joyce.

Joyce era consciente da sua imagem. Disse a Jung ser “um homem de virtudes modestas, propenso à extravagância e ao alcoolismo”

Bowker se beneficiou desses livros para escrever o seu, “um exemplo magistral de retrato da vida de um ficcionista, sobretudo uma tão complicada como a de Joyce”, segundo “The Economist”. “De fato, o grande desafio nunca foi falta de material”, diz Bowker, que escarafunchou arquivos espalhados pelos Estados Unidos e Europa.

“A sombra sobre o meu projeto foi Stephen James Joyce”, diz. Temido por biógrafos e pesquisadores, contra os quais “declarou guerra”, Stephen é o neto e administrador do espólio do romancista irlandês. Após ameaças de processo judicial, ele impediu a leitura de “Ulisses” durante o Bloomsday de 2004 na Irlanda. “Tive de manter em segredo as minhas intenções, pois temi que ele tentasse ditar o que eu escrevia.”

Biógrafo de George Orwell e Malcolm Lowry, Bowker vê com bons olhos o uso de tecnologia, como a criação de aplicativos e “podcasts”, para decifrar o hermetismo dos livros joycianos. “É bem-vinda qualquer coisa que eleve a compreensão e o desfrute de trabalhos de gênio.” Segundo ele, a obra de Joyce, em domínio público desde o início deste ano, desperta entre acadêmicos e leigos tanto interesse quanto a de Shakespeare e a “Bíblia”. Certa vez, em resposta jocosa a um comentário sobre “Ulisses”, o escritor declarou: “Eu coloquei tantos enigmas e quebra-cabeças nesse livro que ele manterá por séculos professores ocupados na discussão sobre o que eu quis dizer.”

As ironias e trocadilhos de Joyce desaconselham uma interpretação literal dos seus escritos. Com a sua obra experimental, ele se uniu à tradição irlandesa de satiristas como Jonathan Swift, George Bernard Shaw e Oscar Wilde. E registrou as lembranças da Dublin da sua juventude. A capital da Irlanda era “um centro de paralisia”, onde expectativa se convertia em inércia. Uma frase de “Retrato do Artista Quando Jovem” (1916) revelou o sufocamento sentido pelo criador jovem e talentoso: “Quando a alma de um homem nasce neste país arremessam redes sobre ela para impedi-la de voar”. O peso da tradição fez o passado ser mais imediato para o escritor. “O tempo pretérito tornou-se o parque de diversões da sua ficção”, afirma Bowker. Ou nas palavras do próprio Joyce: “O passado não é passado. É o presente aqui e agora”.

O literato saiu da Irlanda em 1904 e morou em diferentes cidades: Trieste, Paris e Zurique. O exílio imposto a si mesmo refletiu, de acordo com Bowker, “a busca de uma visão mais abrangente”. Esse nomadismo era também movido por uma certeza e um medo. “Ele achava que uma Irlanda independente dominada por clérigos e nacionalistas de mente estreita não era lugar para um livre-pensador.” Após começar a escrever “Ulisses”, Joyce nunca regressou à terra natal. “Receava ser ferido à bala ou processado por calúnia”, conta Bowker. “Ele fizera muitos inimigos entre as pessoas que conheceu e transformou sem disfarce em personagens.”

Aquela nação, fonte da sua criatividade, desaparecera. Bowker se confessa surpreso com o antagonismo de Joyce à Irlanda que se tornou independente da Grã-Bretanha. “Ele nasceu em um país que vivia à sombra de outro e cuja linguagem e cultura originais foram suplantadas.” Em pesquisa no Arquivo Nacional de Londres, o biógrafo descobriu que o cônsul britânico em Zurique tentou por duas vezes cassar a cidadania inglesa de Joyce. Em visita a Londres para legalizar a relação de 27 anos com Nora Barnacle, sua companheira e musa, o escritor recebeu ataques da imprensa local. A vida de Joyce, consumida pela pobreza e saúde frágil, se tornou a sua maior ironia, segundo Bowker. “Ao subverter a língua inglesa, uma intrusa, ele ajudou a colocar a Irlanda, de uma vez por todas, no mapa literário.”

12/07/2012 - 18:35h O que ficou ou se perdeu da era beat

Por Amarílis Lage | VALOR

De São Paulo

Em 1978, um jovem gaúcho de 20 e poucos anos embarcou para os Estados Unidos disposto a refazer a viagem que Jack Kerouac (1922-1969) havia feito cerca de 30 anos antes, da Costa Leste à Oeste do país. Eduardo Bueno havia descoberto “On the Road” numa versão em espanhol (”En el Camino”), em Buenos Aires. Correu atrás do texto original, em inglês. Por fim, pegou a estrada também. E sentiu que estava no lugar certo, mas, aparentemente, no tempo errado.

“Havia um abismo entre o que eu vivia internamente, embebido daquele espírito beat, e o ambiente circundante”, lembra Bueno. “Vi que eu estava fora de tempo. Era o começo da América yuppie, o que me perturbou muito. Encontrei [o poeta beatnik] Lawrence Ferlinghetti e disse: ‘Vim em busca da rebelião’. E ele: ‘Que rebelião, cara?’ ‘Mas onde eu posso encontrar aquele espírito?’. E Ferlinghetti, com ironia e generosidade, respondeu: ‘Try the mountains’ [tente as montanhas].”

Bueno, que foi responsável pela primeira tradução brasileira de “On the Road”, publicada em 1984, conta que ficou chocado. “Era impressionante como Kerouac havia ‘morrido’ nos Estados Unidos naquela época.”

Estará vivo e influente hoje? Para o cineasta Walter Salles, a resposta é sim. E ele se apoia em outro autor beat, o poeta Mike McClure, que o diretor entrevistou para um documentário sobre “On the Road”, ainda inédito.

Certa vez, conta Salles, um jovem perguntou a McClure por que a geração beat havia morrido. “Só que esse cara estava vestido como queria, tinha o cabelo comprido, era budista e se preocupava com a ecologia. Onde está a geração beat? Está nele”, diz o diretor. “Os movimentos não duram para sempre. Em cinema, por exemplo, há o neorrealismo italiano, que aparentemente se extinguiu. No entanto, há diretores, como o turco Nuri Bilge Ceylan, que carregam muito daquilo com eles. Algo do movimento beat está vivo, mas dentro de nós, nem sabemos onde.”

Para Bueno, que também foi responsável pela coleção Alma Beat, da L&PM, que publicou obras de William Burroughs, Gary Snyder e Neal Cassady no Brasil, entre os principais legados da geração beatnik estão a preocupação com a preservação ambiental, a relação com religiões orientais e a atitude libertária. “Eles colocaram esses temas na roda.”

Além de introduzir uma série de questões culturais, os beats também deram sequência a aspectos da tradição literária americana que permanecem atuais.

Como conta Bueno no prefácio de “On the Road”, a busca por uma escrita que capturasse uma voz genuinamente americana já estava presente em autores como Walt Whitman (1819-1892) e Mark Twain (1835-1910).

Tematicamente, a ideia do andarilho, desadaptado da sociedade, também já estava presente. “A base disso está nas obras de Thoreau [1817-1862], como ‘A Desobediência Civil’ e ‘Walden – ou a Vida nos Bosques’”, afirma Bueno.

Salles identifica, porém, um aspecto dos beats que talvez tenha se perdido: a importância de viver a experiência na pele. “Eles viajavam quilômetros por uma boa conversa. Hoje, a gente manda um SMS. Espero que as pessoas sintam que existe alguma coisa a ser aprendida nesse tipo de vivência direta.”

10/07/2012 - 17:34h Desmascarando o poder enganador dos números

AP
A nave espacial “Challenger” explode, pouco depois do lançamento: cálculos falsificados e sete astronautas mortos


Por Oscar Pilagallo | Para o Valor, de São Paulo

Numa época em que se despeja diariamente sobre o cidadão uma quantidade industrial de números, produzidos por governos, empresas, entidades e institutos de pesquisas, entre outras fontes, é oportuno o alerta de Charles Seife sobre as falácias matemáticas.

Em “Os Números (Não) Mentem”, o autor, mestre em matemática pela Universidade de Yale, define o conceito: trata-se da “arte de empregar argumentos matemáticos enganosos para provar algo que nosso coração diz ser verdade – ainda que não seja”. A manipulação só é possível porque os números, “por trajarem o alvo manto do fato irrefutável, são dotados de um incrível poder”.

O livro de Seife, que é também professor de jornalismo da Universidade de Nova York, é uma tentativa de relativizar tal poder. Com uma série de exemplos, tirados sobretudo da história americana, ele mostra como “um punhado de técnicas poderosas” pode forjar a realidade e fazer a sociedade “engolir inverdades”.

Seife argumenta que é preciso estar atento para o fato de que torcer os números pode ser um bom negócio. Em 1983, por exemplo, a Nasa encomendou um estudo para avaliar os riscos dos ônibus espaciais. O resultado: havia uma possibilidade, em 35, de a nave explodir no lançamento. Como essa proporção era inaceitável, a Nasa ignorou o estudo e seus engenheiros produziram nova estatística: uma em 100 mil. Era um número inventado, como denunciou o prestigiado físico Richard Faynman, mas a subestimação do risco, que provocaria o acidente fatal três anos mais tarde, proporcionou à agência a verba pretendida.

Na década passada, a crise das hipotecas nos Estados Unidos teve natureza semelhante. Os operadores do mercado financeiro sabiam do grande risco de emprestar a clientes que teriam dificuldade em honrar o compromisso, mas isso não os impediu de manter a prática. Quando a crise estourou, em 2008, a economia mundial sentiu seus efeitos, mas os responsáveis não perderam dinheiro, pessoalmente, e muitos até ganharam ainda mais quando o governo foi obrigado a intervir, injetando recursos públicos em suas empresas para evitar o risco sistêmico de uma quebradeira geral.

Para Seife, os riscos das falácias numéricas vão muito além do campo econômico. Na política, ele acredita, a manipulação de dados ameaça a própria democracia, “uma instituição fundada sobre uma operação matemática — a contagem de votos”. Sobre a relação entre estatística e política, embora o Brasil não seja citado, dois tópicos interessam especialmente ao leitor brasileiro neste período pré-eleitoral: as distorções potenciais das pesquisas de opinião e do sistema de voto distrital.

No primeiro caso, o autor argumenta que as pesquisas são pseudoeventos que permitem aos jornalistas manter o assunto em pauta quando não há notícia, o que os liberta da “cronologia nada ideal dos eventos autênticos”. Afirma que, enquanto narram a disputa como “uma corrida de cavalos”, ajudam a distorcer a realidade. Hoje em dia não se fazem mais erros primários, como usar amostragens inadequadas, que levaram a equívocos históricos (como o anúncio da vitória fácil do candidato republicano no pleito de 1936, que acabou consagrando o democrata Franklin Roosevelt), e quem é do ramo dá o devido peso à margem de erro. O problema é o uso de pesquisas tecnicamente frágeis ou, o que é pior, com viés intencional.

Quanto ao voto distrital, proposta recorrente no Brasil, defendida em geral pelos mais conservadores, Seife o associa a uma história de dois séculos de manipulação do sistema eleitoral dos Estados Unidos. O autor traça a gênese da falácia matemática que solapa os mecanismos da democracia. Conta que, no início da década de 1880, Elbridge Gerry, um dos signatários da Declaração de Independência e governador de Massachusetts, reorganizou os distritos eleitorais do Estado para favorecer seu partido. A ideia era agrupar os votos da oposição num mesmo distrito (de forma que muitos fossem redundantes) ou desintegrar os distritos oposicionistas (para que o adversário não alcançasse maioria em nenhum deles). Um distrito ficou geograficamente tão disforme que parecia uma salamandra, daí a expressão “gerrymandra”, até hoje empregada pelos críticos do voto distrital.

O livro dedica espaço generoso à eleição americana de 2000, quando o republicano George Bush venceu o democrata Al Gore depois da confusão sobre a contagem de votos na Flórida. O autor, porém, não toma partido. Ninguém ganhou, diz, e “isso é o máximo que qualquer um poderia afirmar com segurança”. Assim, ele chega à conclusão de que, dadas a apuração cheia de falhas e uma diferença ínfima, o correto seria declarar a eleição empatada, e decidir no cara ou coroa, como manda a legislação estadual, quem seria o vencedor.

Torturar os números, para que confessem o que quer que seja, não tem nada a ver com ideologia. Falácias numéricas surgem à esquerda e à direita, como mostra Seife. O próprio Al Gore, vítima dos números em 2000, teria mais tarde usado estatísticas capengas no documentário “Uma Verdade Inconveniente”, com o fito de tornar mais impressionantes as consequências do aquecimento global. Nas animações que simulam o desaparecimento de cidades litorâneas, o político supôs que o derretimento das geleiras faria o nível do mar subir seis metros, a previsão mais catastrófica e em desacordo com a maioria dos climatologistas, que estimam elevação não superior a um metro no próximo século.

À direita, Seife pinça o exemplo da campanha contra a legalização do aborto, que usa pesquisas segundo as quais mulheres que interrompem a gravidez são mais propensas ao suicídio. É verdade, mas é verdade também que elas têm maior probabilidade de morrer em acidentes ou ser assassinadas. Em todos os casos, os riscos maiores não decorrem do aborto, claro, mas do fato de que as mulheres com quem são comparadas – aquelas com filhos – costumam ter uma vida doméstica menos exposta a perigos.

Embora o autor caia na armadilha que denuncia, ao estimar que as falsificações numéricas são responsáveis pelo desaparecimento de US$ 1 trilhão do Tesouro americano (ele nem se dá ao trabalho de explicar a conta), seu alerta vem em boa hora.

Oscar Pilagallo é jornalista e autor de “História da Imprensa Paulista” e “A Aventura do Dinheiro”.


“Os Números (Não) Mentem”

Charles Seife. Tradução de Ivan Weisz Kuck. Zahar. 264 páginas, R$ 44,90

04/07/2012 - 19:24h Biografia gera polêmica ao revelar cartas de amor de Gandhi a arquiteto alemão


Joseph Lelyveld, jornalista e escritor, teoriza que não teríamos o líder pacifista sem a sua passagem pela África

04 de julho de 2012

Lúcia Guimarães – O Estado de S. Paulo

NOVA YORK – Se o compositor Philip Glass decidisse montar uma versão alternativa de sua ópera Satyagraha, o jornalista e escritor Joseph Lelyveld, autor do recém-lançado Mahatma Gandhi e Sua Luta com a Índia (Companhia das Letras, 480 págs., R$ 48) já teria pronta a sugestão da cena para o primeiro ato. O biógrafo começaria, não na África do Sul, onde o fundador da Índia independente elaborou a tática de resistência não violenta que dá nome à opera. “Eu começaria em Noakhali, na Índia”, diz ele, numa referência à região por onde Gandhi perambulou descalço pouco antes de ser assassinado em 1948, sem conseguir aproximar muçulmanos e hindus.

“Este homem que tinha fama e poder, vagando por uma região rural remota, tentando, pelo próprio exemplo moral, trazer a paz, na esperança de que poderia espalhar a boa vontade pelo resto do país, aquilo era uma utopia fadada ao fracasso. Ele fez jejum, conseguiu acalmar as revoltas étnicas em Calcutá e, em seguida, Nova Délhi, arriscando a própria vida.” Lelyveld acha que os últimos meses da vida de Gandhi já contêm fartura operática suficiente.

A tese desta nova biografia é que não teríamos o mais influente líder pacifista do século 20, o pai da segunda república mais populosa do planeta, sem a sua passagem de 21 anos pela África do Sul, entre a minoria indiana. Foi neste período que Gandhi enfrentou o racismo, o colonialismo e ensaiou os primeiros protestos que iriam definir sua liderança no retorno à Índia, onde ele, em menos de 5 anos, transformou o nacionalismo elitista num movimento de massas.

O Gandhi que emerge dessas páginas é mais humano e contraditório e, portanto, mais fascinante do que o cristalizado ícone nacional indiano. As convicções de um homem conhecido por rejeitar o sistema de castas ou promover a virtude na economia evoluíram ao longo de cinco décadas de vida pública e nem sempre estiveram afinadas com as noções contemporâneas de igualdade, social e racial.

O livro foi inspirado em parte pelas passagens de Lelyveld como correspondente do New York Times na África do Sul e na Índia. Gandhi morreu odiado por muitos de seus compatriotas, que se consideravam traídos por sua luta contra a divisão que resultou na criação do muçulmano Paquistão. Lelyveld compara Gandhi, no fim da vida, a um Rei Lear, “obrigado a reduzir sua ambição de mudar o mundo”. Uma ambição visionária que continua a informar causas díspares, da Primavera Árabe ao movimento ecológico.

O autor que abriu a porta do apartamento com vista para o West Side de Manhattan é cordial, um pouco distante e franzino. O papel de pacificador, numa escala infinitamente menor, também faz parte da biografia de Joseph Lelyveld. Ele foi arrancado da aposentadoria, em 2003, para acalmar a redação do New York Times durante uma de suas piores crises existenciais: o escândalo do fabricador de reportagens Jayson Blair, que resultou na demissão do bombástico editor-chefe Howell Raines.

Lelyveld, ganhador de um Prêmio Pulitzer pelo excelente Move Your Shadow: South África, Black and White (Mova a Sua Sombra: África do Sul, Preto e Branco, 1985), uma história do apartheid, havia se oposto à indicação de Raines para seu sucessor na chefia do jornal. Raines fez tudo para desmoralizar a gestão de Lelyveld, mas conseguiu mesmo foi baixar o moral da redação e, com o escândalo armado pelo protegido Jayson Blair, foi deposto. Arthur Sulzberger, o publisher do Times, tirou Lelyveld de casa com a missão de administrar a transição para o comando de Bill Keller, o seu preferido original, que deixou o cargo no ano passado. Esta trama não está descrita, é claro, na elogiada nova biografia de Gandhi. Mas ela acrescenta uma coda interessante à narrativa da publicação do livro.

Logo após o lançamento americano de Mahatma Gandhi e Sua Luta com a Índia, em março de 2011, uma das primeiras resenhas foi publicada pelo Wall Street Journal e assinada pelo historiador de direita Andrew Roberts. O estudioso, que tem profunda antipatia pelo biografado, destacou uma pequena passagem do livro, em que Lelyveld transcreve cartas amorosas de Gandhi ao arquiteto e halterofilista alemão Hermann Kallenbach (leia trecho ao lado). Gandhi morou com Kallenbach em Johannesburgo e os dois fundaram uma comunidade utópica rural, a Fazenda Tolstoy. Foi armado o barraco internacional. Um tabloide sensacionalista inglês estampou a manchete Gandhi Largou a Mulher Para Viver Com Um Amante e a notícia caiu na “tamasha”, a sensacionalista mídia indiana. Gujarat, o Estado natal de Gandhi, baniu o livro, que ainda não estava em circulação. Políticos indianos denunciaram o que imaginaram ser um ataque a seu herói nacional.

Recostado na confortável biblioteca do apartamento, Lelyveld esboça um sorriso maroto. Em meio aos protestos, seu editor indiano antecipou a publicação da biografia e triplicou a circulação, prevendo que o livro se tornaria best-seller. Ele vai à estante buscar um volume da extensa coleção de escritos de Gandhi, em que as cartas a Kallenbach repousavam há décadas mas nunca haviam sido incluídas numa biografia.

Pergunto a ele se, depois de ser bem-sucedido no esforço civilizatório, quando o mais importante jornal de língua inglesa era sacudido pela incerteza e o imediatismo da era digital, ele não acha irônico ter sido atropelado pela dita era: as buscas online pela biografia destacam invariavelmente o suposto bissexualismo de Gandhi. “Sim”, ele concorda, resignado. “Tive que aturar isto durante meses.” Mas, em janeiro deste ano, o autor cumpriu uma turnê de palestras na Índia e foi bem recebido. “Não me tornei notório”, ele conclui, com o alívio de quem, aos 75 anos, conseguiu reescrever a conclusão de parte da própria biografia, à frente do Times.

Mohandas Karamchand Gandhi recebeu seu título honorífico de Mahatma, “grande alma” em sânscrito, do poeta Rabindranath Tagore. O livro de Lelyveld comeca quando o jovem advogado desembarca na África do Sul em 1893 e, em poucos dias, enfrenta com firmeza um juiz que lhe pede para remover o turbante num tribunal. O tema da representação sartorial e do corpo como instrumento de afirmação é bem explorado pelo autor. Lelyveld nota que o homem emaciado e descalço tornou impossível para a futura geração de líderes indianos aparecer em público com trajes ocidentais.

A biografia termina quando Gandhi, tendo recusado qualquer proteção policial, numa Índia recém-independente e dilacerada pela violência genocida entre hindus e muçulmanos, é morto pelos disparos à queima-roupa de um ultranacionalista hindu. No tribunal, o réu justifica o crime, lembra Lelyveld: “Ele tinha um caráter tão nobre, que o governo indiano, para atender Gandhi, ia acabar favorecendo os muçulmanos. Um homem tão moral tinha que desaparecer da cena política”, concluiu o assassino.

22/05/2012 - 11:26h Austeridade pode não ser a melhor escolha nesta hora

Regis Filho/Valor / Regis Filho/Valor
Krugman: sua proposta faz sentido, mas a cautela com que fala é sinal de que sabe dos possíveis problemas implícitos


Por Robin Harding | Do Financial Times – VALOR

Enquanto a crise financeira arrefecia, no fim de 2009 e início de 2010, uma guerra santa era travada entre duas confrarias econômicas. Os “austerianos”, como Paul Krugman os chama, estavam horrorizados com os gigantescos déficits orçamentários deixados pela crise e com o relaxamento das baixas taxas de juros. Esse, diziam, não era o caminho para a retidão e a recuperação.

Os “estimulati” – ordem rival, na qual Krugman é reverenciado – argumentavam que, com desemprego tão elevado, a única forma sensata de agir seria gastar mais e cortar as taxas de juros em direção às fronteiras do zero e mais além. Austerianos e estimulati disseram horrores uns dos outros. Com a crise perdendo força, os sermões dos defensores de estímulos econômicos, no entanto, não atraíram muita atenção, enquanto, em lugares como o Reino Unido, os partidários da austeridade encontravam sua audiência.

Poucos anos depois, a população grega se revolta contra o feroz aperto orçamentário, a França elege seu primeiro presidente socialista desde 1995 e os Estados Unidos se preparam para uma eleição sob a sombra de um índice de desemprego de 8,1%. Krugman escolheu um bom momento para lançar uma discussão bastante convincente contra a adoção prematura de medidas de austeridade fiscal na sequência de recessões profundas.

Krugman o faz com um estilo extraordinariamente fluido para um ganhador do prêmio Nobel de economia, apresentando seus argumentos com a ajuda de referências à cultura pop, como John Ford e Calvin, e de comparações como o “Fed Borg” (mistura do Banco Central americano, o Federal Reserve, com a raça alienígena de “Jornada nas Estrelas”), a “fadinha da confiança” e os vigilantes do “bônus”. “End This Depression Now!” (algo como, Acabem com esta Depressão, Agora!) é um livro curto que mostra sinais de ter sido preparado às pressas, tendo como fonte de matéria-prima o blog de Krugman no “The New York Times” – os mesmos economistas são apresentados repetidamente em diferentes capítulos, por exemplo -, mas é vigoroso e de fácil leitura.

Os argumentos básicos de Krugman seguem mais ou menos a seguinte linha: milhões de desempregados vêm sofrendo e gerando um custo social terrível nos Estados Unidos, porque a economia carece de demanda. O governo pode criar demanda com seus gastos; o Fed pode criar demanda reduzindo as taxas de juros. Há poucos motivos para temer que os gastos provoquem uma crise de endividamento. As autoridades, portanto, deveriam lidar logo com isso e acabar com esta depressão agora.

É possível argumentar de outra forma, e alguns economistas o fazem, mas a maior parte das evidências dos últimos anos sugere que Krugman, basicamente, está certo. Se o alto desemprego fosse estrutural, a inflação já teria começado a subir. O rendimento dos bônus do Tesouro foi para baixo, embora o volume de endividamento tenha aumentado. Há um predomínio de estudos asseverando que, quando as taxas de juros estão em zero, os gastos do governo exercem grande influência sobre a economia.

Krugman usa 11 capítulos para explicar rapidamente o que há de errado com as economias dos Estados Unidos e da região do euro. Critica as políticas de reação à crise adotadas até agora, que considera equivocadas, e ataca adversários acadêmicos. Quando chega o momento em que ele apresenta sua solução, o leitor já está preparado para aceitar algo realmente drástico – talvez até algo como uma ressurreição da Agência de Obras Públicas (PWA, na sigla em inglês) dos anos 1930, criada por Franklin Roosevelt.

O que ele realmente quer, no entanto, é um trinca de soluções, bastante modestas e não inteiramente convincentes como programa para acabar com a depressão agora. Em primeiro lugar, Krugman sugere que se aplique um estímulo fiscal de US$ 300 bilhões por ano, para ajudar governos locais e estaduais que vêm demitindo professores e outros funcionários para equilibrar seus orçamentos. Faz sentido. A ideia poderia ser adotada rapidamente, com a garantia de que se evitassem desperdícios, e poderia propiciar a criação de vários milhões de empregos a um custo orçamentário líquido modesto. Exigiria, entretanto, uma mudança drástica no debate político, que os republicanos vêm orientando, com muito sucesso, contra “a dívida”.

Krugman também argumenta que o presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, deixou-se absorver por uma mentalidade de consciência coletiva, típica de banco central. Deveria, então, liberar-se e promover uma reviravolta geral, tendo como meta atingir uma inflação de 4%, em vez de 2%. Em teoria, isso encorajaria todos a gastar e investir mais agora, enquanto minaria o valor real das dívidas.

Há vários problemas práticos, no entanto. Um é a credibilidade do banco central. Eleve sua meta de inflação uma vez e ninguém vai acreditar quando você prometer que não vai voltar a fazê-lo. Os mercados provavelmente agregariam um prêmio de risco extra pela inflação nas dívidas de longo prazo – um custo imediato e real.

Outra questão é com que rapidez o Fed conseguiria chegar ao maior nível de inflação. A simples notícia de uma meta mais alta poderia até ser suficiente para levar os trabalhadores a exigir salários maiores, elevando, assim, os preços. Haveria, no entanto, a mesma probabilidade de o Fed ter que tentar versões ainda mais extremas de flexibilização quantitativa [injeções de recursos no sistema bancário] que apenas funcionariam bem à medida que a economia se recuperasse e a inflação elevada se tornasse menos desejável.

Em terceiro lugar, Krugman defende mais ações no setor imobiliário residencial, para ajudar as famílias que precisam pagar juros muito altos a refinanciar-se pelas taxas atuais. O governo Obama teve certo progresso nessa área, mas, sem a injeção de mais dinheiro público ou leis mais agressivas, difíceis de aprovar, é difícil ver alguma mudança que possa provocar uma diferença econômica significativa.

O livro de Krugman pode persuadir governos a limitar novas medidas de austeridade, e isso seria positivo. A cautela de suas propostas, contudo, sugere que ele sabe como seria difícil convencê-los a voltar a empenhar-se em esforços para acabar com a depressão. (Tradução de Sabino Ahumada)

“End This Depression Now!”

Paul Krugman. Norton. 272 págs. US$ 24,95

18/05/2012 - 21:29h Linhas de força de um gênio


A chegada às livrarias da Ficção Completa de Bruno Schulz (1892-1942), em tradução direta do polonês, renova o interesse por sua obra, que discute a preservação da ordem do mundo

18 de maio de 2012

Ilustração do livro 'Drawings of Bruno Schulz' - Reprodução

Ilustração do livro ‘Drawings of Bruno Schulz’


UBIRATAN BRASIL – O Estado de S.Paulo

Mago que sabia transformar tudo em poesia, o polonês Bruno Schulz deixou uma obra curta mas intensa o suficiente para provocar a sensação de deslocamento e de falta de chão. As observações são de Henryk Siewierski, professor do Departamento de Teoria Literária da Universidade de Brasília, mestre em filologia polonesa e doutor pela Universidade de Cracóvia, responsável pela tradução de Ficção Completa, volume lançado pela Cosac Naify no qual estão reunidos Lojas de Canela e Sanatório Sob o Signo da Clepsidra, livros de contos editados pela Imago nos anos 1980, além de quatro textos curtos inéditos no Brasil.

Escritor absolutamente original, além de inspirado desenhista, Schulz consegue vencer, na visão de Siewierski, a comparação com Kafka, autor de quem se distancia pela exuberante prosa poética, que contrasta com o estilo menos ousado do ficcionista checo. Fiel à investigação da palavra, Schulz construiu uma obra nutrida por um triângulo de culturas, a polonesa, a judaica e a alemã, com as quais conviveu intimamente até ser morto por um oficial nazista, em 1942. Sobre a difícil, mas fascinante, tarefa de traduzir direto do polonês o conjunto de escrito, Siewierski conversou com o Sabático.

A ficção de Schulz é muito comparada à de Kafka, como se observa em muitos ensaios. Você considera justa essa comparação? Como distingui-los?

Essas comparações resultam mais da vontade de situar Bruno Schulz num determinado contexto histórico e geográfico do que de uma análise da sua ficção. Porque apesar de certas convergências temáticas, são os universos e estilos artísticos bem diferentes. A exuberância poética da ficção de Schulz e seu riquíssimo imaginário divergem do estilo protocolar da prosa kafkiana. Se procurarmos as convergências, elas podem ser encontradas sim, mas no plano que aproxima os escritores cujas obras têm caráter universal, pela intensidade com que enfrentam o mistério da vida humana e sua inserção no drama da história. No seu posfácio à primeira tradução do Processo em polonês, o próprio Schulz sinaliza em que poderia consistir o parentesco entre os dois, quando fala que as obras de Kafka são uma realidade autônoma que, além das alusões místicas e religiosas, tem a sua própria vida poética, polissêmica, impenetrável, que nenhuma interpretação pode esgotar.

Existe algum aspecto da ficção de Schulz que você acredita não ser suficientemente enfatizado?

A obra de Schulz é muito estudada, principalmente na Polônia, mas não só. Por exemplo, um dos mais significativos livros sobre ela foi publicado na Suécia, On the Margins of Reality – The Paradoxes of Representation in Bruno Schulz’s Fiction, de Krzysztof Stala. Seria difícil apontar um aspecto da sua prosa que até agora não tivesse despertado o interesse da crítica. A cada dois anos é organizado em Drohobycz, cidade de Schulz, hoje na Ucrânia, um festival e um congresso que reúne os tradutores e estudiosos da sua obra do mundo inteiro. Tive a oportunidade de participar dos dois últimos e observar como é amplo o leque temático e problemático dos estudos schulzianos. Para o congresso deste ano, que ocorrerá em setembro, os organizadores propuseram como tema o pensamento crítico e teórico de Schulz, sua “filosofia da literatura”, considerando este aspecto da sua obra ainda pouco estudado. A “teoria” ou “filosofia” da literatura, embora por ele mesmo nunca sistematizada, pode ser reconstruída, principalmente a partir da sua obra ficcional. Existem também outras fontes como seus ensaios críticos e cartas, sem esquecer dos desenhos que se correspondem com a prosa. Já foi apontada a familiaridade da sua concepção da literatura com a tradição do realismo mágico e/ou maravilhoso. Mas ela talvez merecesse ainda um olhar mais preciso.

O que o senhor diria do senso de humor de Schulz que não é imediatamente evidente, mas que está presente em sua prosa?

Sim, o senso de humor é sem dúvida um dos traços característicos da prosa de Schulz. O humor faz com que a prosa ganhe uma boa dose de poesia. Não foi Edmond Jabès que disse “o humor é poesia, o cômico é prosa”? Vejamos, por exemplo, o conto O Segundo Outono, em que é apresentada uma teoria climatológica do Pai, segundo a qual, o outono tardio, que se prolonga até ao inverno, é o resultado da contaminação do clima pela arte barroca, acumulada nos museus da região. Não deixa de ser uma tentativa de aproximação entre a ciência e a poesia, mas ao mesmo tempo sentimos aqui um piscar de olho do narrador a dizer que este casamento não pode ser tomado muito a sério. Schulz foi um observador atento da ciência contemporânea, e percebia como os físicos e os filósofos do novo século iam aos poucos desmanchar a visão coesa e familiar do universo, situando o homem numa realidade fragmentada e caótica. Mesmo sabendo que não há retorno ao passado, ele procurava, assim como os neognósticos do século 20, reconstruir, unir o que foi desintegrado pela ciência, unir de novo numa estrutura mítica, universal, homens, coisas e signos. Porém, seria difícil considerar Schulz mais um representante da gnose contemporânea, justamente pelo seu distanciamento da seriedade dessas ambições holísticas e pelo caráter não confessional de suas ideias. A sua opção pelo sentido e contra o absurdo parece ter a ver com a convicção de que para salvar o sentido da sua vida, o homem tem que se desprender da seriedade paralisante e mortífera das teorias, e com um senso de humor – que é a poesia -, com uma boa dose de ternura, tentar religar as partes separadas do seu universo. O humor de Schulz tem várias faces, coexiste com o patético e o burlesco, leva ao limite da paródia, é lírico, mas também interage com a ironia tão presente na sua obra. Numa carta ao colega Stanislaw Witkiewicz, ele diz que nos seus livros reina “um clima próprio dos bastidores, atrás da cena, onde os atores, tirando os seus trajes, morrem de rir ao pensarem no patético dos seus papéis”.

Quais são os perigos e as armadilhas da tradução de sua obra em português? Qual o risco de perda de um tradutor?

Mais do que as armadilhas semânticas que aparecem, porque elas sempre aparecem na tradução literária devido às diferenças culturais e linguísticas, neste caso específico foi preciso ficar especialmente atento ao ritmo. Os períodos sintáticos longos compostos de orações subordinadas, ramificadas, emaranhadas mantêm-se unidos não só pelos recursos da sintaxe, mas também pelo ritmo, pela musicalidade, e perdê-los seria perder a alma dessa prosa. Outro perigo pode vir da ousadia e da originalidade das construções metafóricas. Elas podem parecer muito estranhas para o leitor da tradução, parecer até um tropeço do tradutor e, ele, pode sucumbir à tentação de domesticar o que é estranho. Mas a graça da tradução não seria justamente levar o leitor a outras regiões do imaginário, mesmo as que cheirassem heresia, fazer com que ele esteja surpreendido assim como é surpreendido o leitor do original? Porém, quando a questão não é só surpreender, mas também encantar, como o faz o original, não há como recorrer aos métodos ou roteiros preestabelecidos, tem que entrar em jogo a intuição e aquilo que é chamado a arte de tradução. Os perigos não faltam, por isso também a dívida que o tradutor tem com os revisores, os verdadeiros parceiros de tradução.

O que seria mais duradouro e convincente da ficção de Schulz?

O mundo desta ficção, bem ancorado na tradição da mitologia e da cultura, se apresenta ao leitor como uma variante própria e inconfundível desta herança. Ela resulta da uma transfiguração dos modelos e poéticas existentes num processo de criação de uma mitologia pessoal, bastante divertida, poeticamente exuberante, repleta de humor e de ironia, mas em que está em jogo a preservação do sentido do mundo diante dos processos de sua desintegração. É o que talvez torne esta ficção duradoura e se não convincente, pelo menos sedutora.

É possível explicar o motivo de Schulz escrever em polonês e não em iídiche?

Sim, é possível, mas se ele escrevesse em iídiche, também não seria difícil explicar o motivo. Na cidade de Lvov, próxima a Drohobycz, havia um meio literário judaico muito dinâmico que antes da 2.ª Guerra produziu muitas obras em iídiche. Por exemplo, a escritora Debora Vogel, amiga de Schulz, escrevia em polonês e em iídiche, e até em hebraico. Havia também escritores judeus que escreviam só em polonês. Schulz participava desse meio, identificava-se com ele, publicava alguns dos seus textos nas revistas judaicas. Ele nasceu e até os 16 anos viveu no império austro-húngaro, numa cidade pequena, mas cosmopolita. A irradiação de Viena fazia com que ele fosse bem familiarizado com a literatura da língua alemã. Falava tão bem alemão como polonês. Mas a identificação com a língua polonesa deve ter sido mais forte, não só porque em sua casa paterna se falava essa língua, mas contavam também a iniciação na sua literatura e cultura e, depois, as intensas relações com o meio literário polonês. Escrever em polonês não o impedia de lembrar e parafrasear o que na tradição judaica era mais significativo e mais universal, como o culto do Livro, como a autoridade do Pai. O trabalho do artista era uma tarefa messiânica que dava continuidade ao Livro. A última obra de Schulz, que se perdeu na guerra e até hoje não foi encontrada, tinha o título de O Messias.

18/05/2012 - 21:18h Retorno ao sentido mítico

A gramática particular de Schulz é uma montagem de fragmentos de histórias eternas
18 de maio de 2012

LUIS S. KRAUSZ – O Estado SP

A publicação da obra completa de ficção de Bruno Schulz, que consiste das coletâneas de contos (que também podem ser lidas como romances) Sanatório sob o Signo da Clepsidra e Lojas de Canela, além de quatro contos avulsos, é um acontecimento da maior importância no cenário literário brasileiro. Venerado por escritores como Philip Roth, J.M. Coetzee, Cynthia Ozick e David Grossmann, que a ele dedicaram ensaios e reflexões, Schulz é um dos poucos nomes incontornáveis da literatura do século 20, ao lado de Franz Kafka, James Joyce e Marcel Proust. Mas sua estatura só foi reconhecida fora da Polônia postumamente. Para o pesar de todos que gostam de literatura, seu maior romance, intitulado O Messias, no qual trabalhava quando foi confinado pelos nazistas no gueto de sua cidade natal, Drohobycz (então Polônia, hoje Ucrânia), perdeu-se sob os escombros da 2.ª Guerra Mundial.

Sobreviveram, ainda, uns poucos ensaios, cartas e resenhas – que continuam inéditos em português.
No gueto de Drohobycz, Schulz foi protegido por um oficial alemão, para quem pintava afrescos – pintou, inclusive, um grande painel que decorava o clube da SS. E um rival desse oficial o matou, na rua, como ato de vingança. Seu prematuro desaparecimento representa, portanto, uma dupla tragédia: para além da vida humana que se perdeu da forma mais estúpida, o tiro disparado por este oficial também cravou uma lacuna profunda na literatura universal.

A prosa luminosa de Schulz partilha do poder inefável das antigas fórmulas encantatórias: as palavras, em sua obra de um lirismo absoluto, tornam-se signos de realidades esquecidas, numa poética de alta voltagem, concebida por alguém que partilhava de crenças cuja origem está nas antigas cosmogonias do Oriente Médio – como as cosmogonias bíblica e do antigo Egito – segundo as quais o mundo surgiu a partir da pronúncia de palavras.

Num breve ensaio intitulado A Mitificação da Realidade, Schulz postula que o ofício do escritor é reconduzir as palavras de volta ao seu sentido original, mítico. “A vida da palavra consiste no fato de que ela se espicha, em busca de milhares de associações, assim como o corpo esquartejado de uma serpente lendária cujos pedaços buscam um pelo outro, no escuro”, escreveu este autor de narrativas construídas a partir de pontas e de pedaços de mitos díspares, que criou uma bizarra mitologia do bricabraque, de um grande mercado de pulgas em que elementos das tradições bíblica, clássica, cristã e cabalística se confundem com episódios da vida cotidiana para desvelar realidades surpreendentes.

A mitologia particular de Schulz, então, é uma assemblage de fragmentos de histórias eternas – ou de pedaços de estátuas de deuses. Sua estética barroca, de demolição e de reagrupamento, lhe assegura o caráter sempre moderno, calcado na efemeridade dos significados, na desconstrução de todas as certezas e no movimento constante do princípio poético, representado entre uma forma e outra. O dinamismo inerente a cada palavra, que Schulz liberta, restituindo seu fulgor e vitalidade originais, transforma a leitura de suas obras num retorno ao intangível e ao misterioso, banidos do mundo numa época de amesquinhamento da consciência – que ele denomina nossa “era da pequenez” e à qual contrapõe a perdida “época da genialidade”.

Schulz nasceu há 120 anos, a 12 de julho de 1892, e sua Drohobycz natal era então uma cidade da Galícia, província do Império Austro-húngaro. Foi estudante universitário em Viena e filho de uma geração que acreditava na integração dos judeus no ecúmeno da monarquia habsburga – e que por isso mesmo rompera os laços com a tradição judaica. Forçado a abandonar os estudos de arquitetura por causa da 1.ª Guerra Mundial, tornou-se professor de desenho num colégio da cidade natal. Sua obra pictórica, hoje também bastante divulgada, retrata um universo sinistro cuja origem remonta ao imaginário de Goya.

Mesmo depois do desmembramento do império, em 1918, e da incorporação de Drohobycz à recém-criada república da Polônia, a cidade e boa parte de sua comunidade judaica continuaram como lugares cercados pela efígie do imperador Francisco José I. O império permaneceria na memória de sua família como signo de uma ordem inflexível, portadora de segurança, que foi rapidamente destruída no período entreguerras, tanto pelo desaparecimento das instituições monárquicas quanto pela descoberta de petróleo naquela região, que resultou num boom e colocou em xeque formas consagradas de vida e de sociabilidade. O crepúsculo da velha ordem coincidiu com a falência do comércio de seu pai, incapaz em adaptar-se às novas regras do jogo, precipitou a família na pobreza e levou o pai à loucura. Entrava em cena uma nova classe social, cegada por um projeto econômico tacanho e as consequências disso foram a vulgarização, a reificação e a banalização das relações sociais, bem como a transformação dos rituais solenes da velha classe mercantil num sistema de mero trânsito de mercadorias.

O desaparecimento do caráter na ordem social e sua substituição pelos simulacros vazios delineiam a perturbadora realidade subjacente às narrativas de Schulz onde, não por acaso, os manequins, as aves empalhadas e as figuras de cera são presenças constantes enquanto o pai que definha constela a impossibilidade do retorno das coisas à origem de suas existências. Os expedientes manipulativos que substituíram a dignidade das antigas instituições são por ele contrapostos aos restos de um universo desaparecido, onde cada atividade humana tinha um significado cósmico, isto é, em que cada trabalho era também um “estado”, uma atividade misteriosa, reservada a iniciados e, como tal, um ritual de comunhão com o invisível.

Na estética expressionista de Schulz, a dilatação do tempo e a dissecação dos mínimos gestos são recursos narrativos frequentes. Em suas mãos, um instante transforma-se em metáfora de uma estação inteira. É o que ocorre, por exemplo, no conto Outono, uma meditação sobre os presságios que pairam no ar quando a falência do verão já se torna irreversível, uma memória da era em que a vida transcorria em harmonia com as épocas do ano, e uma constatação da impossibilidade de se capturar o tempo. Em República dos Sonhos, outro dos contos inéditos no Brasil, Schulz contempla o território metafísico que é a fonte de sua poética – um universo cravado às margens do mundo, que é também uma terra prometida e uma cidade celestial, a partir da qual se relativizam todos os termos da realidade. O Cometa, que recorda a passagem do cometa de Halley, em 1910, se volta com ironia mordaz (como Lojas de Canela) sobre o universo da casa paterna, perpassado pelos encantos de uma civilização que não parece ter contradições com a natureza rebelde, mas que está prestes a sucumbir à era dos milagres da tecnologia e ao barateamento dos valores, quando “o condutor elétrico passa a abrir caminho ao coração das mulheres”. A Pátria, de estrutura bem mais tradicional do que as outras narrativas conhecidas de Schulz, tematiza o exílio dos egressos de mundos em extinção e antevê a náusea do assim chamado “mundo desenvolvido”: o protagonista, que subitamente ascende dos porões da nave social para as altas esferas, respira, até enjoar-se, a atmosfera sobrecarregada da prosperidade.

Assim, as diferenças entre a vida sob o signo do mito e a vida profana, sob o signo da moeda, estão no cerne das narrativas de Schulz. É sobre essas disparidades que ele constrói um dos episódios mais queridos de Lojas de Canela, ao comparar a mal-afamada Rua dos Crocodilos, com seus gestos vazios, seu caráter ambíguo e suas fachadas que são caricaturas de si mesmas, aos remanescentes do comércio secreto de um outro tempo. Já as províncias distantes, presas ao imobilismo da sociedade de raiz medieval, descritas em tom nostálgico em O Sanatório sob o Signo da Clepsidra, são signos de uma existência que espelha uma ordem superior, determinada pela experiência do sagrado e por hierarquias imutáveis.

A criação poética de Schulz, assim, é também um ritual de recolha dos escombros gerados pela marcha da história, e um retorno ao mito como forma de reparar aquilo que a humanidade arruinou com o sonho do progresso e a obsessão pelo futuro. Ao preservar o legado de um cosmo intocado pelas forças que acirraram a condição de alienação da humanidade, ele criou antídotos para a malaise de seu tempo – talvez também a do nosso tempo.

LUIS S. KRAUSZ É PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA E JUDAICA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO E AUTOR DE RITUAIS CREPUSCULARES: JOSEPH ROTH E A NOSTALGIA AUSTRO-JUDIACA (EDUSP) E DESTERRO: MEMÓRIAS EM RUÍNAS (TORDESILHAS), ENTRE OUTROS TÍTULOS

08/05/2012 - 11:04h Desigualdade como fator de flutuações econômicas

Por Roger Lowenstein | Bloomberg Businessweek | VALOR

Deveríamos ficar preocupados com o fato de nos EUA 1% da população responder por 21% da renda nacional? Deveríamos ficar mais preocupados com o fato de a faixa intermediária da pirâmide social estar ficando para trás, ou o topo da pirâmide estar em disparada? Até recentemente, a maioria dos economistas ignorava essas questões. As exceções eram geralmente de tendência esquerdista – isto é, defendiam uma distribuição mais igualitária da renda.

James K. Galbraith, economista da Universidade do Texas em Austin e filho de John Kenneth Galbraith, se encaixa nesse padrão. “Inequality and Instability”, seu livro mais recente, é produto de anos de estudo de um campo que, diz, estava “esquecido”. Ele rejeita a visão convencional de que a desigualdade é o preço justificável que a sociedade precisa pagar para ter mercados flexíveis.

Em vez disso, Galbraith culpa o setor financeiro pela disparidade de renda, o que desestabilizaria a economia. (Ele posou para a foto do autor no Zucotti Park durante o acampamento promovido na praça pelo movimento Ocupe Wall Street, no ano passado.)

Com o presidente Barack Obama propondo taxar os milionários e até mesmo os republicanos condenando Mitt Romney pelo pecado de ter ficado rico, o momento escolhido por Galbraith certamente é oportuno: a desigualdade caminha para se tornar um tema que vai definir o ano eleitoral.

Neste livro, Galbraith se propõe uma tarefa simples: determinar se a desigualdade leva a níveis maiores ou menores de crescimento para a sociedade como um todo. A resposta não é nada simples. Por exemplo, os países que são “desiguais” em termos de renda não se parecem, assim como aqueles que são desiguais em termos de gastos do consumidor. E dois trabalhadores podem ter salários equivalentes e mesmo assim ter carteiras de ações desiguais. Um tipo de desigualdade tem mais importância que o outro?

Baseando-se em uma rica variedade de dados, Galbraith imagina se as instituições democráticas promovem a igualdade e constata que, no geral, isso não acontece. Ele não rebate diretamente o argumento de que mercados flexíveis podem beneficiar a sociedade, mas apenas os declara insignificantes, vazios. Parece-lhe bastante alegar que todo aumento da desigualdade deve ser lamentado – até mesmo em Cuba, no momento em que o país sai lentamente do torpor stalinista.

Segundo Galbraith, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês) “aumentou muito a desigualdade entre o norte do México e o resto do país”. Ele parece dizer que o norte ficou mais rico. Isso é ruim? Certamente não. Uma disparidade de renda maior pode apenas refletir uma economia em transição – para melhor ou para pior. Galbraith reconhece isso quando diz que a desigualdade nos Estados Unidos caiu junto com o colapso da indústria automobilística, porque passou a haver menos empregos com salários relativamente altos. “É claro que isso não é uma boa notícia, e soa como um alerta contra a consideração de qualquer estatística de desigualdade, por si, como um indicador de bem-estar social.”

Galbraith afirma que, ao contrário do que geralmente se pensa, prosperidade e igualdade andam de mãos dadas. Entre as evidências há o fato de que o nível de emprego tende a aumentar quando as diferenças salariais são comprimidas. (Não fica claro o que é causa e o que é efeito, o que é o problema desses estudos.) A Escandinávia, igualitária e próspera, é o melhor exemplo citado por Galbraith. Os EUA, onde “a prosperidade está associada ao aumento da desigualdade de renda”, seriam uma exceção. Mas Galbraith desconsidera essa exceção, uma vez que a desigualdade, no caso, não está amplamente presente na sociedade: foi provocada pelos poucos que faturam em Wall Street.

“Um morador de Ohio ou da Geórgia”, diz Galbraith, “apercebeu-se pouco disso diretamente.” As escalas de remuneração mantinham-se relativamente estáveis. A desigualdade, diz, foi fruto da posse de ações; literalmente, acompanhou a Nasdaq. Poucos perceberam que os dois fenômenos eram, na verdade, espelhados. Ao atribuir toda a culpa ao mercado de ações, Galbraith descarta a noção, bastante comum, de que a renda vem subindo porque, em uma economia globalizada, a capacitação comanda salários melhores. Ele não vê motivo para estender-se sobre essa noção. Nem se ocupa dos advogados, professores universitários e atletas cujas rendas dispararam, independentemente do mercado.

Há poucas soluções neste livro, além do que é sugerido pela afeição de Galbraith pelo envolvimento do Estado. Ele acredita que a desigualdade varia de acordo com o nível de desenvolvimento. Assim, “todas as sociedades agrárias feudais, todas as economias tecnológicas (…) vão se parecer mais umas com as outras do que se parecem com outros países.”

Isso o leva a criticar as instituições financeiras multinacionais, que ele culpa por alimentar a desigualdade no mundo. Galbraith se volta contra o projeto de unificação da Europa, que, segundo ele, coincidiu com o aumento do desemprego. Critica a “monomania antiinflacionária do Banco Central Europeu”. Critica o thatcherismo, o reaganismo e o encolhimento do estado do bem-estar social que todos esses “ismos” produziram. Critica as “políticas agressivas de juros altos (…) que começaram no início da década de 1980″.

A crítica aos juros é enganosa; depois de inicialmente subirem bastante, as taxas, nos EUA e outros países, começaram a cair no início da década de 1980, e continuaram caindo no transcorrer dos excessos financeiros das últimas décadas. Mesmo assim, Galbraith dificilmente está errado ao afirmar que, com o encorajamento dos bancos centrais e outros órgãos oficiais, o setor financeiro hoje abocanha uma parcela muito maior da renda total do que antes. E essa maior financeirização das economias mundiais é, acredito eu, o “x” do problema da queixa de Galbraith.

“A desigualdade crescente”, escreve, “é um sinal de alerta de que algo está errado.” O que pode ser isso? Sua tese é de que a desigualdade das últimas três décadas – motivada pelo mercado de ações e o papel crescente das finanças – leva inexoravelmente à instabilidade. E o caos e a instabilidade, ou as bolhas e os “crashes”, estiveram claramente em alta durante esse período. Isso Galbraith não pode tolerar. Ele compara os ciclos de negócios recentes a “ondas, em que certos setores e áreas percorrem a crista, antes de espatifar na praia”, deixado vítimas inocentes em sua esteira. A destruição criativa da qual os capitalistas se orgulham é, segundo Galbraith, destruição total.

“Inequality and Instability – A Study of the World Economy Just Before the Great Crisis”

James K. Galbraith. Oxford University Press. 336 págs., US$ 29,95

23/04/2012 - 11:57h Cuatro párrafos de Alexis Jenni

Lunes, 23 de abril de 2012

Mirko Lauer – La República

A estas alturas es probable que el candidato social-demócrata François Hollande haya ganado la primera vuelta electoral en Francia, derrotando al tercio de derecha y al tercio ubicado en los dos extremos del espectro político. De ganar la segunda vuelta, a Hollande le va a tocar sufrir y resolver los problemas que deja un gobierno muy a la derecha, como le sucedió a Barack Obama con George Bush.

Como comentario a los tiempos franceses (y algo los peruanos) hemos traducido un puñado de párrafos de L’Art Français de la Guerre, de Alexis Jenni, ganadora del Premio Goncourt 2011 (Gallimard, 634 pp).

El telón de fondo de la novela es la participación de Francia en las guerras que van desde la invasión nazi hasta la batalla de Argel. Aquí van:

“Desde siempre nuestro Estado no discute. Ordena, dirige y se ocupa de todo. Jamás discute. Y el pueblo jamás quiere discutir. El Estado es violento; el Estado es generoso; cada uno puede beneficiarse de sus generosidades, pero él no discute. El pueblo tampoco. La barricada defiende los intereses del pueblo, y la policía militarizada se entrena para tomar la barricada. Nadie quiere escuchar; nosotros queremos batallar. Ponerse de acuerdo sería ceder. Comprender al otro terminaría significando aceptar sus palabras en nuestra boca, sería tener nuestra boca llena del poder del otro, y callarse mientras él habla. Es humillante, es algo que repugna. Es preciso que el otro se calle; que ceda; es preciso derribarlo, reducirlo a la indiferencia, cercenar su garganta parlante, relegarlo al confinamiento el bosque sofocante, a las islas donde nadie escuchará los gritos, salvo los pájaros y las ratas fruteras. Solo la confrontación es noble, y el derribamiento del adversario; y su silencio, vamos.
“El Estado no discute jamás. El cuerpo social se calla, y cuando no le va bien se agita. El cuerpo social desprovisto de lenguaje es minado por el silencio, masculla y gime pero jamás habla, sufre, se desgarra, va a manifestar su dolor mediante la violencia, estalla, rompe vidrios y vajilla, y luego vuelve a un silencio agitado.

“Quien fue elegido expresa su satisfacción de haber obtenido todos los poderes. Iba a poder gobernar, dijo, finalmente gobernar, sin perder tiempo en discusiones. De inmediato se le respondió que eso sería la huelga general, el país paralizado, la gente en la calle. En fin. El pueblo, que está harto del tedio, de los tedios del trabajo, se moviliza. Entonces vamos al teatro.

“(…) Bajamos a la calle. La gente en la calle, es la realidad de todos los días; la gente en la calle es el sueño que nos une, el sueño francés de las emociones populares”.

10/04/2012 - 10:58h Perú es el líder en lectura de periódicos en América Latina

Más por necesidad que por placer. Aun así, el Perú ha llegado a liderar la lectoría de diarios en la región.

GESTIÓN

Los peruanos son quienes más leen periódicos en la región latinoamericana. Asimismo, los chilenos lideran la lectoría de revistas. En cualquier caso se lee poco y más por necesidad que por gusto.

Así lo dio a conocer el Centro Regional para el Fomento del Libro en América Latina y el Caribe (CERLALC) en su estudio comparativo sobre el comportamiento del lector y los hábitos de lectura, que abarca a Argentina, Brasil, Colombia, Chile, México y Perú, además de España, que sirve como referente de un país desarrollado.

Así, el Perú con un índice del 71 , en lectura de periódico está cerca a España (78), pero muy separado de los otros países, pues su seguidor inmediato es Chile con el 36%, mientras que en México solo el 15% de la población dice leer periódicos.

Los motivos más aducidos para la lectura en América Latina son la actualización cultural y los conocimientos generales, así como las exigencias académicas, escolares o laborales. Mientras que en España, se dedican más a la lectura por placer.

Libros
El estudio de CERLALC también reveló que en los índices de lectura de libros, Argentina está a la cabeza con el 55%, seguido de Chile (51%), Brasil (46%), Colombia (45%), Perú (35%) y México (20%). En España el índice es del 61 %.

Eso significa que, en promedio, el 41% de la población de todos esos países lee libros, con una frecuencia que va de al menos una vez al mes hasta una vez al año.

Chile y Argentina encabezan la lista de cantidad de libros leídos al año por habitante, con 5.4 y 4.6, respectivamente, frente a los 10.3 de España, mientras que México y Colombia, con 2.9 y 2.2, están en la parte más baja de la
escala.

Un brasileño lee en promedio cuatro libros al año, y de estos, solo 2.1 son leídos en su totalidad.

En lo que se refiere a revistas, es Chile el país con más lectores, 47% de la población dice leerlas con frecuencia, un punto porcentual más que en España (46%).

En el otro extremo de la escala está Colombia, con solo 26% de lectores de revistas.

CIFRAS Y DATOS
Brasil está compuesto por 50% de lectores y 50% de no lectores.

La razón más aducida para no leer es la falta de tiempo, con un porcentaje que va desde el 53% de Brasil hasta el 28% de Chile.

La forma mayoritaria de acceso a los libros en América Latina es comprándolos, igual que en España.

En el Perú solo el 23% de la población puede comprar un libro. En Colombia el 31% los pide prestados.

10/04/2012

03/04/2012 - 17:00h Brasil e Argentina, coluna vertebral sul-americana

Em 1985, os presidentes José Sarney e Raúl Alfonsín se encontraram na fronteira dos dois países para selar o pacto que criaria o Mercosul


Por Diego Viana | VALOR

De São Paulo.

Apesar de períodos de desconfiança mútua e disputas na política como no futebol, a relação bilateral entre Argentina e Brasil entra no século XXI como uma parceria fundamental para ambos. A história da parceria fundada sobre o antagonismo é o tema de “Argentina, Brasil: de Rivales a Aliados”, de Mario Rapoport e Eduardo Madrid, lançado no país vizinho pela editora Capital Intelectual.

Contando quase metade da população do subcontinente, Brasil e Argentina passaram por regimes autoritários, populistas e democráticos e realizaram uma industrialização liderada pelo Estado, mas entremeada por períodos livre-cambistas. Enfrentaram crises de dívida externa e de hiperinflação e mudaram o nome de suas moedas mais de uma vez.

Desde os anos 1990, os dois países formam a “coluna vertebral” da economia sul-americana, segundo o economista Mario Rapoport, que falou ao Valor por telefone de sua casa em Buenos Aires. Apesar das dificuldades, diz o professor da Universidade de Buenos Aires, o Mercosul é uma realidade incontornável e a proposta da Unasul (União das Nações Sul-Americanas) será o caminho de inserção do continente na economia mundial.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Valor: O livro indica que mesmo quando as relações entre Brasil e Argentina eram marcadas pela rivalidade, a aproximação bilateral já ia de vento em popa.

Mario Rapoport: É preciso frisar que há uma forte complementaridade econômica entre os dois países. Essa complementaridade explica por que o Mercosul conseguiu ser construído e encontrasse um certo êxito. Argentina e Brasil formam a coluna vertebral da economia sul-americana. São os maiores territórios, as maiores populações e as maiores economias, chegando da Terra do Fogo à Amazônia. A união dos dois países é estrategicamente imprescindível.

Valor: Historicamente, como se deu essa união?

Rapoport: As iniciativas de aproximação são antigas. Em 1961, houve o encontro de Uruguaiana, dos presidentes Arturo Frondizi e Jânio Quadros. Esse foi o germe do Mercosul, bem antes do encontro de Sarney e Alfonsín, em 1985. O que interrompeu a iniciativa foi o golpe de 1962, que destituiu Frondizi. Mas esse foi o primeiro de uma série de acordos, um processo de aproximação talvez difícil de perceber no plano da retórica, mas que foi inexorável. O Mercosul foi o cúmulo desse processo.

Valor: Até então, a julgar pelo livro, o desenvolvimento econômico era um motivo de desconfiança, em vez de colaboração, sobretudo depois da instalação da usina siderúrgica de Volta Redonda, em 1946.

Rapoport: A aproximação do Brasil com os EUA na guerra foi difícil de entender para os argentinos, porque as lideranças brasileiras eram mais próximas dos alemães. Sobretudo a cúpula militar, amplamente pró-Alemanha. Mas a posição geográfica do Brasil levou os americanos a cortejar o governo brasileiro, e Getúlio Vargas interveio na guerra ao lado dos aliados. A usina era necessidade da nova burguesia brasileira, que buscava consolidar o crescimento industrial. Os EUA queriam que isso se fizesse por uma empresa americana. Vargas conseguiu que fosse uma empresa brasileira, embora financiada por capitais americanos.

Valor: Se o tempo era de rivalidade, a instalação dessa indústria no vizinho deve ter acendido um alerta nas elites políticas argentinas.

Rapoport: Apesar da rivalidade, a aproximação se tornou mais forte a partir desse período. Aí começava o desenvolvimentismo. Perón tentou instalar uma siderúrgica na Argentina e finalmente isso se conseguiu no governo de Frondizi. As ideias do desenvolvimentismo levaram a um certo paralelismo do processo nos dois países.

Valor: O livro se refere de maneira esperançosa à criação da Unasul. Diante de instituições transcontinentais, como o G20 e os Brics, o que a Unasul terá a contribuir?

Rapoport: Para a América do Sul, é um desenvolvimento que se volta para dentro e conta com um mercado de 400 milhões de pessoas. Esse mercado passa a ser plenamente integrado: não serão só 200 milhões de brasileiros ou 45 milhões de argentinos. A Unasul poderá ser uma enorme plataforma de lançamento para a inserção do continente na economia mundial.

Valor: A evolução do Mercosul, com quatro países, é lenta e conflituosa. Com todo o continente, os conflitos não seriam mais intensos?

Rapoport: As controvérsias no Mercosul têm mais repercussão do que os avanços, mas eles existem e são fortes. As controvérsias são pontuais. Os setores econômicos querem avançar seus interesses e se manifestam. É normal. Mas isso não significa que a integração não esteja avançando. Está e a evolução do comércio bilateral Brasil-Argentina demonstra isso: passou de US$ 3 bilhões em 1991 para US$ 30 bilhões em 2008. O desafio, agora, é fazer com que essa integração se institucionalize, ou seja, pensar mecanismos para que as convergências aconteçam com fluidez.

Valor: O Banco do Sul, proposto pela Unasul, é um exemplo?

Rapoport: É possível, mas ainda falta muito para que ele se torne algo efetivo. Há um vão enorme entre a afirmação da existência e a existência de fato. Não podemos nos esquecer da época em que vivemos. O sistema financeiro no mundo está travado, o que dificulta iniciativas como essa. Há alguns anos, se falava até em fazer moeda única. Já não se fala mais assim. Com a crise do euro, ficou a impressão de que a moeda única é um estorvo.

Valor: A América do Sul passa por um momento de governos na centro-esquerda, inspirados por Lula. O governo mais à direita, o chileno, é o que menos se entusiasma pela iniciativa. O vínculo de natureza conjuntural da Unasul não a enfraquece a longo prazo?

Rapoport: A Unasul é uma realidade quase inevitável, como resultado de uma integração econômica, social e cultural que não tem como não crescer. O isolamento regional é impensável nos próximos anos.

Valor: Argentina e Brasil sendo a coluna cervical da economia do continente, o que cada um tem a ganhar do outro?

Rapoport: Convém muito à Argentina uma aliança com um país que tem mais envergadura e integra o grupo principal dos países emergentes. É a sexta maior potência mundial, tem outra posição no mundo. E o Brasil necessita de um país que o interprete no mundo hispânico. Esse país é necessariamente a Argentina. Uruguai e Paraguai são muito pequenos, o Chile sempre manteve posições muito diferentes do Brasil. Colômbia, Venezuela, nenhum desses países tem a envergadura necessária. A Argentina, sim. Essa parceria é importante para o futuro da região.


Argentina, Brasil: de Rivales a Aliados
Mario Rapoport e Eduardo Madrid. Capital Intelectual, 356 págs, 95 pesos argentinos

02/04/2012 - 17:32h A rebeldia pragmática de Clint Eastwood

Aos 81 anos, Clint Eastwood mantém a média de um filme por ano; em seu longa mais novo, volta a atuar para outro diretor


Por Sérgio Rizzo | Para o Valor, de São Paulo

Parece altamente provável que Hollywood venha a fazer, nas próximas décadas, uma cinebiografia de Clint Eastwood. Longa-metragem? Que nada. Uma minissérie talvez seja mais apropriada, pela duração, para dar conta de uma trajetória longa e insólita como a desse ex-salva-vidas que se transformou em um dos astros mais populares do cinema nos últimos 50 anos. Como se ainda não bastasse, virou um dos cineastas americanos de maior prestígio, dentro e fora dos EUA, na virada do milênio. Um “auteur”, distinção que a crítica francesa confere, desde os anos 1950, a poucos diretores com trânsito no cinema industrial.

Quando lançou “As Pontes de Madison” (1995), um drama romântico que surpreendeu quem o conhecia apenas por faroestes e policiais, Eastwood havia completado 65 anos. Desde então, ele dirigiu mais 15 filmes, incluindo o documentário “Piano Blues” (2003). “Trouble with the Curve”, seu mais recente longa, sobre o fim de carreira (e de vida) de um recrutador de talentos para o beisebol, tem lançamento previsto nos EUA para setembro. É a primeira vez em que ele atua como ator para outro diretor desde “Na Linha de Fogo” (1993), realizado pelo alemão Wolfgang Petersen. Não saiu de casa, entretanto: a produtora é a sua Malpaso, que fundou há mais de 40 anos, e o diretor estreante é o sócio e amigo Robert Lorenz, seu assistente em “Sobre Meninos e Lobos” (2003) e “Menina de Ouro” (2004), entre outros longas.

Muito trabalho, quase 82 anos de idade, incontáveis histórias. Uma delas fornece uma imagem de simbolismo extraordinário para uma hipotética cinebiografia. A sequência seria ambientada durante a Grande Depressão, nos anos 1930. Tempos bicudos em que a família Eastwood se deslocava de uma cidade para outra de acordo com os empregos que Clinton, o pai do ator e diretor, encontrava. Um deles, como frentista em um posto de gasolina da Standard Oil, levou os quatro – pai, mãe, Clinton Jr. e a irmã – a passar a maior parte do tempo em um trailer “com uma única roda” ou dentro de um carro. Moravam “em um lugar muito velho, bem no meio da roça”, segundo as lembranças de Eastwood.

O posto de gasolina se localizava na esquina de Sunset Boulevard com a Pacific Coast Highway, perto de um trecho da praia de Malibu, na Califórnia, que passava a ser ocupado por figurões de um dos poucos segmentos da economia a prosperar durante a crise – a indústria cinematográfica. Sunset Boulevard emprestaria seu nome ao título original de “Crepúsculo dos Deuses” (1951), de Billy Wilder, um filme devastador sobre Hollywood. E o menino cujo pai enchia o tanque dos chefões dos estúdio – e, quem sabe, de astros e estrelas daquele período – se tornaria, 40 anos depois, um dos nomes mais rentáveis do negócio, ator tratado com reverência pela gigante produtora para a qual daria muito dinheiro e que ajudaria a se reerguer, a Warner Brothers.

O episódio do posto de gasolina está em “Nada Censurado”, biografia de Eastwood escrita por Marc Eliot, que também publicou livros sobre Cary Grant, James Stewart, Ronald Reagan, Bruce Springsteen e a banda The Eagles, entre outros. Não se deve esperar uma abordagem analítica (tarefa desempenhada por outra biografia, “Clint Eastwood”, do crítico Richard Schickel, que esteve em 2011 na Mostra Internacional de São Paulo), muito menos uma exploração original do sentido da obra do diretor – que pode ser encontrada, por exemplo, no livro “Clint Eastwood and Issues of American Masculinity”, de Drucilla Cornell, sobre o diálogo entre seus filmes e a ideia contemporânea de “macho” na sociedade americana.

Praticante cuidadoso do jornalismo de celebridades, Eliot abastece o leitor com uma avalanche de informações sobre a vida e a obra de Eastwood, desde o nascimento, em 31 de maio de 1930, quando o bebê de 5,1 kg foi apelidado de Sansão pelas enfermeiras da maternidade, até os bastidores de “A Troca” e “Gran Torino”, que estrearam em um intervalo de apenas dois meses, em 2008 – o livro saiu nos EUA em 2009. Como Eastwood mantém a média de um filme por ano, apenas os três filmes que dirigiu desde que Eliot digitou o ponto final – “Invictus” (2009), “Além da Vida” (2010) e “J. Edgar” (2011) – já renderiam um pequeno volume adicional.

Para a estrutura de “Nada Censurado”, a desatualização não faz tanta diferença. Eliot investe nos anos de formação e na trilha inesperada que Eastwood percorreu até o estrelato, e do estrelato até o reconhecimento como autor, passando por glórias nos dois lados do Atlântico – diversas participações no Festival de Cannes, na França, onde é incensado, e quatro Oscar (melhor filme e direção por “Os Imperdoáveis” e por “Menina de Ouro”), além do prêmio honorário Irving G. Thalberg, exclusividade de monstros da indústria, como David Selznick, Walt Disney e Alfred Hitchcock, e concedido a ele, em 1995, pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

No original, o livro tem o título “American Rebel” (rebelde americano). Ao batizar assim seu personagem, sugere uma chave de leitura para a afirmação de Eastwood, que foi muito subestimado ao longo da carreira e lutou contra inúmeros prognósticos negativos. Lembra, também, um paralelo com outro rebelde, James Dean, que morreu em um acidente de carro, aos 24 anos, justamente em 1955, ano da comédia “Francis na Marinha”, o primeiro filme para cinema em que Eastwood atuou, ainda em um pequeno papel. A rebeldia projetada por Dean virou mito romântico, mas lhe custou a vida. Já a de Eastwood seria a pragmática, que deu certo: a de um sobrevivente que, inserido na indústria, foi capaz de reverter algumas de suas regras e criar um espaço confortável, em torno da Malpaso, para fazer do seu jeito o que bem entendesse, ou quase isso.

Um tanto rebelde, também, na vida pessoal, como o livro de Eliot sublinha. Na escola, por exemplo, era o “cabeça-dura”, interessado somente por esportes e música. Casou-se apenas duas vezes, mas teve sete filhos com quatro mulheres. No cinema, trombou com a sorte grande ao topar uma aventura europeia pelo universo até então duvidoso do faroeste-espaguete, nos anos 1960, trabalhando com um diretor italiano que não falava inglês, Sergio Leone. A trilogia que fizeram juntos, com destaque para o hoje clássico “Três Homens em Conflito” (1966), consagrou a figura do pistoleiro misterioso e impiedoso, mas ético. Nos anos 1970, veio o célebre policial Dirty Harry, lançado em “Perseguidor Implacável” (1971), e o aprendizado com o diretor Don Siegel. Depois, nas décadas de 1980 e 1990, a consagração como “auteur”. Resumido assim, parece que foi algo simples e linear. O livro de Eliot levanta a informação escondida entre os marcos, e que permite entendê-los um pouco melhor.


“Clint Eastwood: Nada Censurado”
Autor: Marc Eliot. Tradução: Vera Ribeiro (ed. Nova Fronteira, 372 págs., R$ 49,90)

05/03/2012 - 17:00h La conjura de los necios – Uma conspiração de estúpidos – Uma confraria de tolos

ALEJANDRO GAMERO – LA PIEDRA DE SÍSIFO

La conjura de los necios, de John Kennedy Toole

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En la consagración de una obra como clásico intervienen no pocos factores, y no siempre todos ellos tienen que ver exclusivamente con la obra. A veces la biografía particular del autor engrandece aún más la obra, si bien es cierto que únicamente cuando la obra tenga un valor intrínseco permanecerá. Uno de los ejemplos más evidentes en la literatura española es Federico García Lorca. No cabe duda de su grandeza y de la revolución literaria que supuso, pero tampoco hay que descartar una muerte en trágicas circunstancias en la construcción del mito, al menos a nivel mundial. Algo parecido ocurre con John Kennedy Toole, uno de esos escritores ha triunfado rotundamente a pesar de tener una producción nimia, concretamente dos novelas ―La biblia de neón y La conjura de los necios―. Y es que Toole es uno más de esos casos que demuestran la infinita ceguera que tienen a veces los editores. Al igual que le ocurrió a J. K. Rowling, que tuvo que peregrinar por varias editoriales antes de ver publicado su Harry Potter y la piedra filosofal, Toole tampoco encontró a ningún editor que viera especialmente rentable su libro. La diferencia está en que él, desesperado ante la indiferencia que provocaba lo que él consideraba una obra maestra, decidió acabar con su vida a los 31 años, en 1969. Tras su muerte, su madre, convencida como lo estaba el hijo de la calidad de su obra, paseó el manuscrito por distintas editoriales hasta que dio con el escritor Walker Percy, que finalmente fue quien consiguió su publicación. El éxito fue tan fulminante que se convirtió inmediatamente en un clásico e incluso ganó el premio Pulitzer.

Cualquiera que haya leído y que conozca la novela no dudará un momento en afirmar que La conjura de los necios es, en esencia, el personaje de Ignatius J. Reilly. Se trata de uno de los personajes mejor logrados de la historia de la literatura, a la altura de las grandes complejidades shakesperianas, y posiblemente un arquetipo al mismo nivel que otros ya consagrados como el Quijote ―con el que comparte más de lo que pudiera parecer en principio―, don Juan Tenorio o la Celestina. De hecho, la novela arranca con una hiperbólica y pantagruélica descripción de este personaje que es perfecta como presentación porque contiene todo lo que poco a poco se irá desarrollando. Ignatius es un inmenso tipo de estrafalaria vestimenta que ronda los treinta años y que todavía vive con su madre. No posee aspiraciones en la vida más allá de la satisfacción de un ego completa y absolutamente narcisista. Su permanente egoísmo le hace enfrentarse a un mundo que le es ajeno y al que no consigue adaptarse.

Una acérrima misantropía le hace incapaz de tratar con otros seres humanos, y ni tan siquiera es capaz de tocarlos. Para aislarse de ese mundo que detesta Ignatius realiza la construcción de un micromundo, un espacio propio formado principalmente por su dormitorio y por pequeños hábitos, como atiborrarse a dulces, beber Dr. Nut o ir casi diariamente al cine a ver películas que detesta. Tras los límites de ese pequeño cosmos se encuentra lo que Ignatius llamará en un giro conradiano «el corazón de las tinieblas, la auténtica selva». La experiencia más traumática de su vida es precisamente la única ocasión en que se vio obligado a abandonar ese mundo en un viaje iniciático en autobús, y la recuerda una y otra vez, según su exagerado punto de vista como un verdadero condicionante en su visión del mundo, como un descenso a los infiernos.

Ignatius, que ha tenido una formación sólida en historia, se ha convertido en un defensor a ultranza de la Edad Media y de todo lo que ello implica. Según sus palabras, «al desmoronarse el sistema medieval, se impusieron los dioses del Caos, la Demencia y el Mal Gusto». Como declaración de intenciones de cara al sistema Ignatius afirma: «Lo que yo quiero es una buena monarquía, firme, con un rey decente, de buen gusto, un rey con ciertos conocimientos de teología y de geometría, y que cultive una Rica Vida Interior». Y no duda en calificar el Renacimiento, el Siglo de las Luces o el Romanticismo como periodos oscuros, incapaces de ser comparados con el esplendor medieval. Y su visión del mundo es, por lo tanto, profundamente medieval, no sólo por su pesimismo enquistado, su concepción de la vida como valle de lágrimas, como miseria y dolor, o por su extremista postura religiosa ―abiertamente opuesta al «relativismo del catolicismo moderno»― sino sobre todo por su concepción de la Fortuna. Para Ignatius la vida se divide en ciclos en los que la Fortuna es propicia o adversa. Al atribuir todo lo que pasa a una entidad, casi deidad, superior e incontrolable, Ignatius se ve libre para actuar con la más descarada inmadurez, seguro de poder eludir la responsabilidad de todo lo bueno y de todo lo malo que pase.

Este universo personal, que como puede verse se sustenta sobre unos pilares ideológicos sólidos, es muy similar al que el Quijote construyó utilizando los libros de caballería. Si para don Quijote el pilar es Amadís de Gaula para Ignatius es Boecio con su obra La consolación de la filosofía. Ahí está precisamente la similitud entre ambos personajes. Ambos mundos son completamente imaginarios pero sus creadores se ven obligados a transitar por la realidad, y no pocas veces el mundo real entra en colisión directa con su fantasía. En el Quijote la evolución es tremendamente compleja, y acaso pasa del convencimiento al autoengaño. En Ignatius, sin embargo, la actitud es mucho más ambigua, ya que en pocas ocasiones deja ver una simple fisura. Si don Quijote iba transformando la realidad sobre la marcha, la transformación de Ignatius se produce sobre todo en sus cuadernos de notas. El efecto cómico es notable: primero el lector asiste a la realidad y a continuación Ignatius ofrece su propio punto de vista. Es lo que ocurre, por ejemplo, cuando Ignatius trata de amotinar a los empleados de Levy Pants, una cruzada que tiene desastrosos resultados pero que él reinterpreta de forma muy distinta. Por otra parte, la diferencia entre don Quijote e Ignatius es también clara: don Quijote luchaba por los demás, para conseguir un mundo mejor, por ensalzar la figura de Dulcinea; Ignatius lucha por sí mismo, sin más.

Precisamente la función de Dulcinea en el libro es desempeñada por Myrna Minkoff. Se trata de una caricatura más, es vez de la típica activista comprometida con todo, que tanto abundaba en la época. Pero Myrna, a diferencia de Dulcinea, no es el amor de Ignatius, sino más bien su odio. La obsesión es la misma, aunque invertida. Todo lo que hace Ignatius lo lleva a cabo pensando en Myrna, en vengarse de no se sabe bien qué. Su sentido de la competitividad le lleva a querer quedar siempre por encima de ella. Tampoco parece entenderse bien el interés de Myrna en Ignatius, que representa todo lo reaccionario que ella abomina. Más bien parece interesado en el gordo extravagante como un experimento sociológico, como si quisiera saber cuánto es capaz de degenerarse un ser humano. Lo cierto es que, sea como fuere, es finalmente Myrna la responsable de la redención de Ignatius y el resorte que activa un nuevo ciclo vital con el que se acaba cerrando la novela.

La novela podría dividirse en tres partes: una presentación previa a la emancipación laboral de Ignatius y su paso por los dos trabajos que consigue, el primero como oficinista y el segundo como repartidor de salchichas. A cada uno de estos trabajos le corresponde una cruzada, la primera a favor de los negros y la segunda en pro de los homosexuales. El racismo y la homofobia son dos elementos importantísimos en el libro que se enfocan sobre todo desde la caricatura, como no podía ser de otra forma ya que Toole eligió el título para la novela a partir de una cita de Johnathan Swift. No deja de ser curioso que Ignatius, que es manifiestamente racista y homófogo, decida emprender sus causas para ayudar a ambos colectivos, siempre tratando de rivalizar con Myrna. En realidad la intención de Ignatius es la de ensalzar su propia figura, aunque siempre acabe humillado o ignorado. Toole no pierde la oportunidad de satirizar a una sociedad, la norteamericana, que había convertido ciertos temas en tabú. Así, Jones, el personaje que critica ese racismo desde la ironía, no deja de afirmar: «creo que la gente de coló lleva en la sangre lo de barré y limpiá el polvo. Para la gente de coló es ya como comé y respirá».

Pero como en toda buena sátira, hay una mezcla agridulce de personajes. Los más trágicos son la madre de Ignatius y la señorita Trixie. La primera obligada a vivir a la sombra de su hijo, irremediablemente alcohólica, pues la bebida es la forma única de olvidar lo penoso de su existencia, incomprendida por un hijo que le hace continuos desprecios y menosprecios. La pobre señora Reilly es incapaz de dejar de hablar de su hijo, tiene también importantes dificultades para relacionarse, pero seguramente es por influencia de Ignatius, que se encarga de echar con celeridad a todos los que amenazan con entrar en su micromundo. Por otra parte la vieja señora Trixie, más aislada y desconectada del mundo de lo que Ignatius nunca lo estará, permanentemente sometida a los experimentos de la señora Levy, con el único deseo de conseguir un poco de paz.

Precisamente uno de los rasgos magistrales de la novela es cómo ese poso de amargura y de tristeza se da la mano en el libro con la carcajada continua, algo que también ocurre con la más insigne obra cervantina. Porque Ignatius, a fin de cuentas, no deja de ser un personaje trágico, más aún si se piensa que pudiera estar basado parcialmente en el propio Toole, que como se sabe vivió en Nueva Orleans, trabajó en una fábrica de ropa, repartió comida en el Barrio Francés o vivió con su madre mucho después de haber acabado la universidad. Caricatura del propio Toole, grotesca, deforme, falstaffiana.

Muchísimo más podría decirse sobre esta novela, que se ha magnificado hasta tal punto que algunos dicen que bien pudiera haber sido sobrevalorada casi como una estrategia de marketing. Quizá sea una visión muy personal, pero cuando dedico unas palabras a un libro creo poder medir su calidad más que por lo que digo, que no pasa de ser una burda repetición de lo que seguramente otros ya dijeron mejor que yo, por lo que dejo de decir. Si así fuera ―y es así como debe ser― La conjura de los necios es uno de los grandes libros del siglo XX y quizá de la Historia de la Literatura. Y Ignatius J. Reilly, ese obeso monomaníaco y egocéntrico, uno de los grandes personajes literarios que hayan salido jamás de una mente humana. En este caso, como decía Unamuno con respecto a la relación entre Cervantes y el Quijote, el personaje ha vuelto a superar a su autor, es más auténtico y más complejo que él.

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1ª Página do livro, Uma Conspiração de Estúpidos, de John Kennedy Toole, Terramar, 2ª edição Fevereiro de 1998.


O boné verde de caçador apertava-lhe o alto da cabeça, que era um balão carnudo. As abas verdes, preenchidas com orelhas enormes, cabelos compridos e a penugem rala dos ouvidos, elevavam-se de ambos os lados, quais sinais de trânsito que indicassem dois sentidos ao mesmo tempo. Os lábios cheios e franzidos salientavam-se sob o bigode negro e farfalhudo e, aos cantos, descaíam em pequenas rugas cheias de censuras e de restos de batatas fritas. À sombra da pala do boné verde, os olhos azuis e amarelos de Ignatius J. Reilly fitavam com sobranceria as outras pessoas que esperavam debaixo do relógio dos armazéns D. H. Holmes, examinando a multidão, em busca de sinais de mau gosto no vestir. Ignatius reparou que várias roupas eram suficientemente novas e caras para poderem considerar-se propriamente ofensas ao bom gosto e à decência. O facto de uma pessoa possuir uma peça de vestuário nova ou cara só reflectia a sua falta de teologia e de geometria; podia até suscitar dúvidas acerca da sua alma.
Ignatius estava vestido com conforto e sensatez. O boné de caçador protegia-lhe as orelhas do frio. As volumosas calças de tweed eram duráveis e permitiam-lhe mover-se com uma invulgar facilidade. As suas pregas e ângulos continham bolsas de ar quente e viciado que confortava Ignatius. A camisa de flanela aos quadrados dispensava o uso de um casaco e o sobretudo protegia a pele exposta de Reilly entre as abas e o colarinho. O conjunto era aceitável à luz de quaisquer padrões teológicos e geométricos, ainda que abstruso, e sugeria uma vida interior rica.
Balançando as ancas à sua maneira arrastada e elefantina, Ignatius projectava ondas de carne que se agitavam debaixo do tweed e da flanela e iam rebentar nos botões e nas costuras. Entretanto, pensava que já estava há muito tempo à espera da mãe. Acima de tudo, pensava no desconforto que começava a sentir. Parecia que todo o seu ser estava prestes a rebentar pelas botas inchadas de camurça e, para comprová-lo, voltou os olhos singulares para os pés. De facto, parecia que tinha os pés inchados. Estava pronto a apontar à mãe aquelas botas inchadas como prova da sua negligência. Levantando a cabeça, reparou que o sol começava a descer sobre o Mississipi, ao fundo de Canal Street. O relógio Holmes indicava que eram quase cinco horas. Ignatius dava os últimos retoques numa série de acusações cuidadosamente preparadas para conduzir a mãe ao arrependimento ou, pelo menos, à confusão. Muitas vezes era obrigado a pô-la no seu lugar.

Nota: Quando John Kennedy Toole, acabou de escrever este seu livro, submeteu o manuscrito à apreciação de uma das mais importantes editoras norte-americanas, que recusou editá-lo. Outras sete se seguiriam e todas se recusaram a fazer a edição do livro. Frustrado, por este insucesso, John Kennedy Toole, suicidou-se em 26 de Março de 1969, com a idade de 31 anos.
Em 1976, a mãe do autor, Thelma Toole, insistiu junto do escritor e académico, Walker Percy, para ter uma opinião do manuscrito que o filho tinha deixado completo. Contrariado, pela persistência da senhora, Percy não teve outra solução que ler o manuscrito, na esperança que ele fosse tão fraco, que ao fim de meia dúzia de páginas, em consciência, não fosse obrigado a ler mais. Era muito bom.
Com o patrocínio de Walker Percy, a Louisiana State University Press, fez em 1980 uma edição de 2500 exemplares. Esta edição, foi um acontecimento marcante no mundo literário norte-americano, o que levou Toole a receber postumamente, em 1981 o Prémio Pulitzer de Ficção. O livro já vendeu mais de um milhão e meio de cópias e está editado em dezoito línguas.

03/03/2012 - 17:55h Uma história do piano, com todas as teclas

De Mozart aos mestres do jazz, especialista faz um ambicioso retrato do instrumento

03 de março de 2012

João Marcos Coelho – O Estado de S.Paulo

Não há como negar. O reinado do piano, que já dura mais de três séculos, não dá o menor sinal de declínio. Ao contrário, continua dominando a vida musical. Um rápido olhar sobre o mundo erudito comprova que em 2012 os pianistas novamente serão maioria entre as atrações internacionais, incluindo raros brasileiros de circulação também internacional. Doze, em média uma superstar para cada mês do ano. Sociedade de Cultura Artística abre alas com os nomes mais reluzentes: o chinês Lang Lang e o russo Evgeny Kissin. O Mozarteum traz o alemão Rudolf Buchbinder. E a Osesp escalou um time inteiro de virtuoses como David Fray, Alexandre Tharaud, Andras Schiff, Maria João Pires e Nelson Freire. No domínio das músicas populares, suas várias versões digitais e o tradicional instrumento acústico também são dominantes em shows de todos os matizes.

Por isso, é ao mesmo tempo fácil e dificílimo explicar as razões de reinado tão longo. Stuart Isacoff é o mais recente pesquisador a tentar desvendar este mistério fascinante, no recém-lançado A Natural History of the Piano: The Instrument, the Music, the Musicians – from Mozart to Modern Jazz and Everything in Between. E o mais atrevido também, já que quer abraçá-lo inteiro, de Mozart e Liszt a Art Tatum, de Vladimir Horowitz a Bill Evans, de Sviatoslav Richter a Cecil Taylor. Deixa isso claro, como se vê, desde o título e, em seguida, já nas primeiras linhas: “Este livro explora a história do piano: seus intérpretes, compositores e inventores, professores e alunos, mecenas, críticos e empresários. Juntos, eles moldaram a fascinante história do mais importante instrumento jamais criado”.

São quase 400 páginas, mas mesmo assim, na medida em que amplia demais o seu tema, Isacoff acaba sendo necessariamente superficial em vários momentos. Um exemplo acachapante. Em 45 linhas, esgota a tríade vienense Schoenberg-Berg-Webern. Mas se esparrama em várias páginas lambuzando-se com as pesquisas sinestésicas de Scriabin, que chegou a mandar construir um piano de cores e outro de cheiros, imaginem. Por meio do acorde místico de Scriabin, construído em intervalos de quarta, pula para Bill Evans e Miles Davis no célebre Kind of Blue, de 1959, um verdadeiro “abre-te Sésamo”, segundo Herbie Hancock, do jazz moderno. “Evans foi o porta-bandeira desta revolução refinada”, escreve. “Levava músicas de Ravel e Debussy para Miles.”

Felizmente, porém, são poucas as generalidades e muitas as sacadas inteligentes. O livro exibe linguagem deliciosa, combina informações corretas com fatos e detalhes inusitados. É um reflexo do autor, ex-editor da revista Piano Today e ele mesmo pianista eclético. Isacoff é daqueles pesquisadores que ficam nas franjas do mundo acadêmico e portanto são mais informais.

Sua frasqueira recheada de sacadas começa com Franz Liszt, o inventor da fórmula do recital de piano, até hoje matadora nas salas de concerto do mundo inteiro. Ele lembra do poeta alemão Heinrich Heine. Ferino, diz Isacoff, “chama Liszt de ‘Átila, o flagelo de Deus’. As plateias, diz o poeta alemão que adotou Paris como sua cidade preferencial, deveriam ter piedade dos pianos, que tremem quando Liszt se aproxima deles. Eles sabem que vão se contorcer, sangrar e gritar debaixo das mãos dele. ‘A sociedade protetora dos animais deveria investigar isso’, conclui o poeta-crítico”.

Humor não é tudo, mas que ajuda a ampliar o público interessado pelo tema, isso ajuda. Vejam como ele descreve o parto do instrumento. “O piano nasceu pela conjunção entre um quase anônimo lutiê, Bartolomeo Cristofori, e um príncipe dissoluto, Ferdinando de Médici, da Toscana. Eles se encontraram por acaso no carnaval de Veneza em 1668, quando o príncipe acabara de perder seu lutiê e afinador de seus mais de 40 cravos, e Cristofori foi contratado para cuidar deles em Florença.”

Primeiro instrumento de teclado capaz de gradações dinâmicas no toque porque as teclas, em vez de serem pinçadas como no cravo, eram tocadas por um martelete, o piano destronou seus antecessores (cravo, clavicórdio e outras variações) em apenas um século. Não apenas destronou, mas construiu um prestígio inimaginável. No século 18, anota Isacoff, “os cravistas eram tão mal pagos que eram obrigados a faturar um extra vendendo bilhetes de loteria ou pintando retratos”. Cem anos depois, Liszt faturava o que queria com seus recitais, à média de mais de 100 por ano, sempre com casa cheia.

Já no fim do século 18, o piano conquistara rapidamente a nobreza de modo irreversível. Mais da metade dos instrumentos confiscados dos palácios dos nobres mortos ou exilados na Revolução Francesa era de pianos, e muitos dividiam espaço com os cravos. “Um balanço dos itens confiscados dá conta de que os cravos foram construídos antes de 1780; e os pianos a partir desta data.”

No século 19, o piano afirmou-se como instrumento rei. Era o único capaz de substituir uma orquestra e trazer a música sinfônica, em reduções, para as salas das famílias de classe média. Popularíssimo, provocou uma verdadeira revolução industrial: na Londres de 1850, havia 200 fabricantes de piano; 21 anos depois, contabilizavam-se no país 400 mil pianos (números de Isacoff). Ao mesmo tempo, pululavam versões exóticas, como o piano-estante, patenteado por William Stodart em 1795 (Haydn, que estava em Londres naquele ano, tocou nele e gostou do instrumento); o piano-girafa e o piano-cama (na linha do sofá-cama, de Charles Hess, EUA, 1866). Isacoff registra ainda os cômicos “pianogatos”, com animais de vários tamanhos que são golpeados com os marteletes, italiano, de 1892; e até o porcoforte, em que os gatos são substituídos por porcos.

Nessa altura, dá vontade de largar o livro, pela gratuidade das informações. Mas Isacoff muda rapidamente o registro, já que não faz uma linha cronológica linear. Anota que os concursos internacionais de piano explodiram nos últimos 70 anos: “Em 1945 havia só 5 internacionais; em 1990, eles eram 114. Hoje são 750″. Ou seja, ganhar concurso já não alavanca carreira de ninguém.

Um dos acertos do livro é o modo como o autor posiciona os pianistas na vida musical de hoje, a partir de episódio entre Igor Stravinski e Arthur Rubinstein. O primeiro dedicou sua Piano Rag Music ao segundo, mas Rubinstein recusou-se a tocá-la. “Estou orgulhoso pela dedicatória, mas sou um pianista das antigas. Sua peça é escrita para percussão e não para o meu tipo de piano.” Stravinski foi direto ao ponto: “Você pensa que ainda pode cantar no piano, mas isso é ilusão. O piano é só um instrumento utilitário e soa percussivo. Vocês ficam milionários tocando a música deixada por um Mozart e Schubert sem dinheiro, pobres, pelo tuberculoso Chopin e pelo doente Beethoven”. Em sua autobiografia, Rubinstein reconheceu: “Ele estava certo. Sempre me senti um vampiro sugando o sangue destes grandes gênios”.

Para Isacoff, existem quatro tipos básicos de pianistas. Ele toma de empréstimo dos filósofos pré-socráticos gregos a sacada dos quatro elementos (terra, água, ar e fogo), para assim distinguir as características de cada tipo. “O fogo está presente no piano tal como o tocam Beethoven, Jerry Lee Lewis e Cecil Taylor. É música turbulenta. A natureza flexível da água está presente nos melodistas românticos como Schubert, Johann Christian Bach e George Shearing, capazes de construir ‘ondas sinuosas de melodias’”. O ar é terreno dos alquimistas do piano como Bill Evans, Claude Debussy e Thelonious Monk, “mestres da atmosfera”. E a terra fica com os “ritmistas”, pianistas que privilegiam o ritmo e trazem “o lado percussivo” do piano para o centro da cena, como Fats Domino, Arturo O’Farrill e Sergei Prokofiev. A mistura de pianistas/compositores clássicos com os de jazz é, claro, proposital – e bem-vinda, muito bem-vinda.

Só um caçador de tiradas como Isacoff tiraria do fundo do baú o pianista de Hitler. “Putzi”, este era seu apelido, chamava-se Ernst Hanfstaengl. Nasceu em 1887 e sobreviveu ao patrão por mais 30 anos. “Ele está para Hitler assim como o harpista Davi, que tocava para o rei Saul, na Bíblia.”

Em compensação, são excelentes as páginas dedicadas aos russos, que em 150 anos de convívio com a música clássica europeia – se tomarmos como ponto de partida a sua institucionalização no país, em 1862, por meio da fundação do Conservatório de São Petersburgo -, assumiram um lugar decisivo na música do século 20. E também aos chineses, responsáveis pelo único episódio histórico em que o piano foi banido pela Revolução Cultural de Mao Tsé-tung na década de 70 do século passado. Ironicamente, são eles hoje os responsáveis pelo maior “boom” do piano no mundo via Lang Lang.

A conclusão nos leva a “Le Poisson Rouge”, local famoso de Manhattan nos anos 60, quando atendia pelo nome de Village Gate. “Foi lá”, escreve Isacoff, “que Bob Dylan encontrou pela primeira vez Allen Ginsberg; os fantasmas de Jack London, Henry Miller, James Baldwin e Jack Kerouac estão sempre presentes. Lá tocaram de modo memorável Miles Davis, John Coltrane, Duke Ellington e Bill Evans. Pois em outubro de 2010, o pianista Menahem Pressler tocou Bernstein, Brahms, Debussy, Gershwin e Reich com o clarinetista Richard Stoltzman.” Segundo o manifesto da “nova” casa, a intenção é “a simbiótica relação entre arte e festa”. Ali rola música sem adjetivo – da vanguarda (Philip Glass comemorou lá mês passado seus 75 anos) ao pop e à música clássica. Para Isacoff, a casa simboliza o futuro da música clássica: “Le Poisson Rouge representa simultaneamente o ‘look’ muito antigo e o muito novo da música clássica: oferece celebrações informais num espaço onde cabem garçons e o burburinho das conversas, onde os ouvintes podem pedir um drinque, um salgadinho e pôr os cotovelos na mesa sem medo de pitos. Esta cena representa o futuro da música clássica”, comemora Isacoff, “porque definitivamente dissolve a distância que cresceu historicamente cada vez mais entre intérprete e ouvinte”. Seu livro é mais um passo na dissolução deste perverso biombo.

JOÃO MARCOS COELHO É JORNALISTA, CRÍTICO MUSICAL, AUTOR DO LIVRO-CD, PIANO – UMA HISTÓRIA DE 300 ANOS (SELO SESC)

03/03/2012 - 17:00h PARATY POÉTICA ABERTURAS

Silviano Santiago fará a abertura da festa, que homenageia Drummond

03 de março de 2012

MARIA FERNANDA RODRIGUES – O Estado de S.Paulo

No ano em que Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) será homenageado na 10.ª Festa Literária Internacional de Paraty, de 4 a 8 de julho, Silviano Santiago fará a conferência de abertura. O escritor, crítico literário e colunista do Estado pretende tratar, na noite de 4 de julho, sobre a atualidade e o cosmopolitismo do poeta mineiro, que ele conheceu pessoalmente e com quem organizou Carlos e Mário, livro de correspondências trocadas com Mário de Andrade – que seria lançado em 2002.

“A atualidade de Drummond é inegável. Paralelamente aos outros grandes poetas modernistas, ele apresenta uma diversificação temática, estilística e de dicções poéticas muito grande e isso o torna uma figura bem mais complexa que os demais modernistas. É por essa diversificação que ele nunca cairá no lugar comum da poesia de gosto fácil”, diz Santiago, que lançou, em 1976, obra de ensaios sobre o poeta. Ao mesmo tempo, conta, ele tinha um “tino extraordinário para poemas que cairiam no gosto do público, como José”.

A questão do cosmopolitismo, uma das grandes características da poesia de Drummond segundo o crítico, deve ganhar destaque na apresentação. Drummond não conheceu a Europa e nem os Estados Unidos, e a Argentina foi o único país estrangeiro que ele visitou, relembra o crítico. “Mas desde o início ele mostra uma visão de mundo muito ampla que coincide com esse desejo do Brasil hoje de falar menos sobre o umbigo e mais sobre as relações internacionais.”

Santiago e Drummond se encontraram algumas vezes – a primeira delas foi em 1955. Depois, como eram vizinhos de rua, se cruzaram pelo Rio. Estiveram juntos duas ou três vezes nos famosos Sabadoyles, nome dado às reuniões de sábado realizadas por Plínio Doyle em sua casa, e em outros momentos. Para Santiago, Drummond era tímido, mas não era sério. Tanto que mudava a voz ao atender o telefone para evitar os chatos.

11/02/2012 - 17:00h Retrato das raízes de um país triste


Ensaio clássico de Paulo Prado, publicado em 1928, ganha nova edição

11 de fevereiro de 2012

Elias Thomé Saliba – O Estado de S.Paulo

“A visão mais pessimista de nossa história”, segundo Alceu de Amoroso Lima. “Triste no desfecho, mas de narrativa amena e pitoresca, empolgando o leitor, da primeira à ultima página”, no dizer de João Ribeiro. “Um livro que vale mais como obra de arte que de pensamento”, para Agripino Grieco. “Livro pré-freudiano, que repete todas as monstruosidades de julgamento do Ocidente sobre a América descoberta”, na definição de Oswald de Andrade. Estas são algumas das dezenas de opiniões que cercaram a fortuna crítica de Retrato do Brasil: Ensaio Sobre a Tristeza Brasileira, de Paulo Prado. Publicado pela primeira vez em 1928, a contrapelo da maré ufanista daqueles anos, ganhou um numero invulgar de leitores e provocou acirrada polêmica entre os críticos da época. Tudo isto o leitor pode conferir nesta oportuna reedição, primorosamente organizada por Carlos Augusto Calil e fartamente documentada, não apenas pelo acesso que o organizador teve aos arquivos pessoais do autor, mas com um sem-número de notas, depoimentos, resenhas e perfis produzidos nos últimos 80 anos.

Todos foram unânimes em discordar da tese central de que o povo brasileiro é um povo triste e, sobretudo, da equação psicológica através da qual Paulo Prado resumia toda a história brasileira: luxúria + cobiça + romantismo = tristeza. Muitos diziam que o autor confundira as coisas, tomando o sintoma de uma crise de identidade como sendo a própria identidade nacional. Talvez pela clareza do seu estilo ou pelo tom pitoresco da sua argumentação ele acabou por fazer a cabeça de muitos pensadores, então ainda jovens na época, como Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Caio Prado Jr. – inaugurando uma modalidade de ensaio sobre a identidade nacional que serviria de modelo para aquela tríade de clássicos da década seguinte. Combatendo tanto o ufanismo estéril quanto os determinismos biológicos e raciais que pesavam na compreensão do Brasil, o Retrato pode ser visto como uma espécie de catalisador daquela ansiedade dos modernistas de 1922 em compreender o País de forma intuitiva e rápida.

Mas também representou a síntese mais notável de um debate virtualmente já estabelecido entre a intelectualidade que se voltava para a busca de uma explicação das origens brasileiras. É o caso do pouco conhecido ensaio Melancolias, de Matheus de Albuquerque – publicado em 1915 – com tema e argumentação semelhantes ao ensaio de Prado, embora literariamente inferior a este. Também não havia nada de especificamente brasileiro naquela equação que apontava a tristeza como signo da nacionalidade, pois tal discurso sintético era parte de um conjunto de padrões de comportamento que há muito a cultura ocidental já vinha atribuindo ao universo selvagem e rural, os dois frequentemente assimilados.

Seja como for é sempre compensador ler, ou reler, o Retrato. Como seu grande mestre e inspirador – o historiador Capistrano de Abreu -, Paulo Prado lembrava, em alguns momentos, aqueles moralistas do século 18, ao estilo de Fontenelle – com apenas uma diferença essencial -, o pensador francês viveu numa época de euforia com o progresso, enquanto o ensaísta brasileiro já respirou o oxigênio mental de uma época de forte descrença com o progresso e com a razão iluminista. Há momentos nos quais ele parece mesmo um moralista demodée em pleno século 20, assistindo a uma profunda crise dos valores e de linguagem pública. Lembra ainda Capistrano também na capacidade de citar o documento na hora certa, encaixando – com mão pesadíssima diga-se – trechos de um viajante ou frases diretas retiradas de autos inquisitoriais, quebrando a amenidade da narrativa. Sua caracterização dos portugueses como “um povo já gafado do germe de decadência quando começou a colonizar o Brasil” faz eco daquela ferina definição de Capistrano que dizia que “O Brasil não passava de um Portugal rarefeito e ampliado”. O mais ilustre padrinho dos modernistas paulistas revela-se ainda implacável contra quaisquer regionalismos. Ao tratar da decadência paulista na época da mineração, arremata: “Foi quando os paulistas se barbarizaram de vez: dispersos, escondidos pelas roças, procurando a solidão no seu amuo característico, vivendo de canjica, pinhão e içá torrado”. Conclui que a cidade de Salvador não passava de “um extravagante caravançarai, pitoresco e tropical”, e ao caracterizar o Rio de Janeiro, não deixa por menos, subscrevendo a extravagante descrição de Luccock de que a cidade era uma “das mais imundas associações de homens debaixo dos céus”.

Quanto à discutível equação de Prado para explicar a psicologia nacional, é possível perceber quanto ela serviu de fonte e inspiração para Sérgio Buarque discorrer sobre o significado da cordialidade na história brasileira no seu Raízes do Brasil, publicado em 1936. Por trás da categoria tristeza estava uma sociedade sem grandes mediações, resultando em formas de convívio nas quais predominam a familiaridade, o personalismo e a afetividade, que acabam exportadas para a vida pública e para as estruturas políticas. Seria apenas pela mobilização de tais categorias sentimentais que não apenas o universo social como também o universo religioso ganhavam sentido: note-se que, no conhecido exemplo de Buarque, o Brasil é o único país no qual Santa Tereza de Lisieux vira “Santa Terezinha”. A diferença era que as categorias sentimentais enfeixadas por Buarque na metáfora do homem cordial não eram apenas negativas – como queria Paulo Prado – mas também positivas e, neste caso, tristeza e melancolia, assim como alegria e fuzarca eram faces da mesma moeda. Afinal, como dizia Millôr Fernandes, “a distância entre o riso e a lágrima é apenas o nariz”.

RETRATO DO BRASIL:

ENSAIO SOBRE A TRISTEZA BRASILEIRA

Autor: Paulo Prado

Editora: Companhia das Letras

(400 págs., R$ 49)

* ELIAS THOMÉ SALIBA É PROFESSOR DE TEORIA DA HISTÓRIA NA USP, AUTOR DE, ENTRE OUTROS, Raízes do Riso (COMPANHIA DAS LETRAS)

10/02/2012 - 17:00h AKHNILO

A escolha de Myriam Kazue

Akhnilo de James Salter

Salter

Era fim de agosto. No porto, os barcos estavam imóveis, nenhum mastro se mexia, nenhuma polia retinia. Os restaurantes tinham fechado havia tempo. Um carro ocasional, os faróis brilhantes, cruzava a ponte, vindo de North Haven, ou descia pela Main Street, passando pelas cabines de telefones arrebentados. Na estrada, as discotecas se esvaziavam. Passava das três da manhã.
Fenn acordou no meio da escuridão. Pensou que tinha ouvido alguma coisa, um som baixinho, o ranger de uma mola como a da tela da porta da cozinha. Ficou quieto no calor da cama. A mulher dormia tranquilamente. Esperou. A casa não estava fechada, apesar dos muitos casos de furto ou coisa pior perto da cidade. Ouviu um leve baque. Não se mexeu. Vários minutos passaram. Sem fazer barulho, levantou-se e foi até o vão estreito da porta, de onde alguns degraus levavam à cozinha. Parou ali. Silêncio. Mais um baque e um gemido. Era Birdman caindo de novo no chão.
Lá fora, as árvores pareciam reflexos negros. As estrelas estavam encobertas. As únicas galáxias eram os sons de insetos que preenchiam a noite. Olhou pela janela aberta. Ainda não estava seguro de ter ouvido alguma coisa. Quase podia tocar as folhas da faia imensa que pendia sobre a varanda dos fundos. Por um tempo que lhe pareceu longo, examinou a área de sombra junto ao tronco. Na imobilidade de tudo, sentia-se visível, mas também estranhamente receptivo. Seus olhos vagavam de uma coisa a outra nos fundos da casa, as pálidas colunas coríntias da pérgula do vizinho, a sebe misteriosa, a garagem de soleira carcomida. Nada.
Eddie Fenn era carpinteiro, apesar de ter estudado em Dartmouth e se formado em história. Quase sempre trabalhava sozinho. Tinha trinta e quatro anos. Tinha o cabelo ralo e o sorriso tímido. Nada de muito mais. Havia alguma coisa de apagado nele. Quando era mais jovem, dizia-se que era um talento, mas jamais se aventurara de verdade na vida, ficara perto da costa. A mulher, alta e míope, era de Connecticut. O pai dela tinha sido banqueiro. De Greenwich e Havana, dizia o anúncio fúnebre nos jornais. Ele cuidara da filial de um banco de Nova York por lá, quando ela era criança. Isso quando Havana era uma lenda e os milionários cometiam suicídio depois de fumar o último charuto.
Os anos tinham passado. Fenn olhou para a noite lá fora. Tinha a sensação de ser o único ouvinte de um mar de gritos sem fim. Deixava-se impressionar por aquela vastidão. Pensou em tudo que estava oculto por trás daquilo, os gestos desesperados, os desejos, as surpresas fatais. Naquela tarde, ele vira um tordo bicando alguma coisa perto do limite da grama, pegando, jogando no ar, pegando de novo: um sapo, as patinhas hirtas estiradas em leque. O passarinho voltou a jogá-lo para cima. Os musaranhos cegos caçavam sem descanso por túneis vorazes, as línguas pontudas dos répteis sondavam o ar, sentia-se um abdômen triturado, a passividade das vítimas, o suave estertor do acasalamento. As filhas de Fenn dormiam na sala. Nada está seguro por mais de uma hora.
Parado ali, teve a sensação de que o som se alterava, não sabia bem como. Parecia isolar-se, como se permitisse que algo se destacasse dele, algo de cintilante e remoto. Tentou aos poucos identificar o que estava ouvindo como um grilo, uma cigarra, mas não, era alguma outra coisa, algo de febril e estranho que ganhava mais nitidez. Quanto mais atenção punha em ouvir, mais esquivo parecia o som. Tinha medo de se mover e perdê-lo. Ouviu o pio suave de uma coruja. A escuridão absoluta das árvores pareceu iluminar- se, e com ela também aquela nota singular e estridente.
Sem alarde a noite se abrira. O céu se revelava, as estrelas brilhavam fracamente. A cidade dormia, calçadas desertas, jardins em silêncio. Ao longe, em meio aos pinheiros, via-se a cumeeira de um celeiro. O som vinha de lá. Ainda não conseguia identificá-lo. Precisava chegar mais perto, descer e sair pela porta, mas assim talvez o perdesse, o som podia se calar, em alerta. Teve uma ideia perturbadora, que não pôde deixar de lado: o som estava em alerta. Trêmulo, repetindo-se e repetindo-se por cima dos demais, o som parecia chegar só até ele. O ritmo não era constante. Acelerava, hesitava, continuava. Era menos um grito instintivo e mais uma espécie de sinal, de código, diferente de tudo que ele ouvira antes, não uma série de pulsos curtos e longos,
mas algo de mais intricado, de certo modo quase como uma fala.
A ideia o assustou. As palavras, se é que eram palavras, eram tênues e pungentes, mas ele tremeu como se fossem a senha de um cofre. Sob a janela ficava o telhado da varanda. A inclinação era suave. Parou ali, perfeitamente imóvel, como perdido em pensamentos.
O coração batia com força. O telhado parecia largo feito uma rua. Teria que ir atrás daquilo, esperando não ser visto, movendo-se em silêncio, sem gestos bruscos, parando para sentir se havia alguma mudança no som a que ele estava agora completamente atento. A escuridão não o protegeria. Ele entrava numa noite de incontáveis redes e olhos irrequietos. Não tinha certeza se devia fazer aquilo, se ousava. Uma gota de suor brotou e correu pelo torso nu. Incansável, o chamado persistia. As mãos de Fenn tremiam.
Soltando a tela da janela, ele a baixou com cuidado e a encostou na parede. Movia-se em silêncio, como uma serpente, por cima do telhado de um verde esmaecido. Olhou para baixo. O chão parecia distante. Teria que se pendurar no telhado e se soltar, leve como uma aranha. Ainda via a cumeeira do celeiro. Movia-se na direção da estrela polar, podia sentir. Era quase como se estivesse caindo. O gesto era atordoante, irreversível, e o levaria aonde nada do que possuía poderia protegê-lo, descalço, sozinho.
Ao cair no chão, Fenn sentiu um arrepio pelo corpo todo. Estava para ser redimido. Sua vida não tomara o rumo que ele esperava, mas ele ainda se achava um ser especial, que não pertencia a ninguém. Na verdade, tinha uma ideia romântica do fracasso. Quase fora a sua meta. Esculpia pássaros em madeira, ou tinha esculpido. As ferramentas e os blocos de madeira parcialmente moldados estavam sobre uma mesa no porão. A certa altura, quase se tornara um naturalista. Alguma coisa nele, o silêncio, a disposição a ficar de lado, vinha a calhar. Em vez disso, começou a produzir mobília com um amigo que tinha algum capital, mas o negócio deu errado. Começou a beber. Certa manhã, acordou ao lado do carro, deitado junto aos sulcos de pneu da vereda, a velha senhora que vivia do outro lado da rua afugentando o cachorro. Entrou em casa antes que as filhas o vissem. Estava a um passo, disse o médico, de se tornar um alcoólatra. As palavras o espantaram. Isso fora há muito tempo. A família o salvara, mas não sem custo.
Parou. O chão era firme e seco. Foi até a sebe e cruzou a vereda do vizinho. O som que o trespassava era mais claro agora. Seguindo-o, passou por casas que mal reconhecia pelos fundos, por quintais abandonados em que latas e detritos se escondiam na grama escura, por galpões que ele jamais vira. O terreno começava a descer suavemente, estava se aproximando do celeiro. Podia ouvir a voz, sua voz, ressoando mais para o alto. Vinha de algum lugar do espectral triângulo de madeira que se elevava como a face de uma montanha distante que se aproxima repentinamente de uma curva da estrada. Movia-se vagarosamente em sua direção, com o medo de um explorador. Mais acima, ouvia a corrente tênue que trinava. Aterrorizado com a proximidade, parou e ficou quieto.
De início, ele recordaria mais tarde, não significava nada, era brilhante demais, puro demais para isso. Continuava a ressoar, mais e mais insano. Fenn não conseguia identificar, não conseguia repetir, não conseguia sequer descrever o som. Ganhara volume, pusera todo o resto de lado. Parou de tentar entendê-lo e, em vez disso, deixou que o percorresse, que o invadisse como um canto. Devagar, como um padrão que muda de aparência quando é observado e começa a tomar outra dimensão, o som se alterou inexplicavelmente e expôs seu núcleo real. Começou a reconhecer. Afinal eram palavras. Não tinham sentido nem antecedentes, mas eram sem dúvida uma linguagem, a primeira a se deixar ouvir de uma ordem mais vasta e mais densa que a nossa. Logo acima, na superfície esbranquiçada, desesperado, suplicante, estava o pioneiro sem nome.
Numa espécie de êxtase, Fenn chegou mais perto. Imediatamente percebeu o erro. O som hesitou. Ele fechou os olhos, num espasmo, mas era tarde demais, o som vacilou e parou. A toda a sua volta, as vozes retiniram. A noite estava repleta delas. Virou-se para um lado e para o outro, na esperança de encontrá-la, mas a coisa que ele ouvira já se fora.
Era tarde. O céu começava a ganhar um tom pálido. Fenn estava junto ao celeiro com os fragmentos de um sonho que se tenta recordar a custo: quatro palavras, distintas e inimitáveis, que ele criara. Protegendo-as, concentrando-se nelas com toda a força que tinha, começou a levá-las de volta. O barulho dos insetos parecia mais alto. Tinha medo de que alguma coisa acontecesse, que um cão latisse, que uma luz se acendesse num quarto e o distraísse, que ele afrouxasse a mão. Tinha que voltar sem ver nada, sem ouvir nada, sem pensar. Repetia as palavras consigo enquanto caminhava, os lábios se moviam sem parar. Mal ousava respirar.
Podia ver a casa. Estava cinzenta agora. Não havia luz nas janelas. Tinha que chegar até lá. O som das criaturas noturnas parecia aumentar com raiva e tormento, mas ele estava além disso. Estava fugindo. Percorrera uma distância imensa, estava chegando à sebe. A varanda não estava longe. Subiu no parapeito, a beira do telhado a seu alcance. A calha era firme, ele se ergueu. Sentiu o calor do asfalto quebradiço e esverdeado sob os pés. Passou uma perna pelo peitoril, depois a outra. Estava seguro. Instintivamente, tomou distância da janela. Conseguira. Lá fora, a luz parecia débil e histórica. Uma aurora espectral começou a atravessar as árvores.
De repente, ele ouviu o chão estalar. Alguém estava ali, uma figura à luz suave e sem cor. Era sua mulher, ficou pasmo diante da imagem dela, apertando a camisola de algodão contra o corpo, o rosto simplificado pelo sono. Fez um gesto de alerta.
“O que foi? O que aconteceu?”, ela sussurrou.
Não, ele implorou, balançando a cabeça. Uma palavra se perdera. Não, não. Ela se agitava e desfazia como uma coisa qualquer lançada ao mar. Ele tentava agarrá-la às cegas. Ela o abraçou. Ele se afastou abruptamente. Fechou os olhos.
“Meu bem, o que foi?” Ele estava perturbado, ela sabia. Ele jamais se recuperara por inteiro das dificuldades. Muitas vezes ele acordava no meio da noite, ela o encontrava sentado na cozinha, o rosto velho e cansado.
“Venha para a cama”, ela convidava.
Ele fechava os olhos com firmeza e tapava os ouvidos com as mãos.
“Você está bem?”, ela perguntou.
A devoção dela dissolvia tudo, as palavras estavam caindo por terra. Ele começou a girar em desespero.
“O que foi, o que foi?”, ela exclamou.
A luz vinha de toda parte, avançando pelo gramado. O sussurro sagrado esvanecia. Não tinha um minuto a perder. As mãos coladas à cabeça, correu até a sala atrás de um lápis, com ela correndo atrás, pedindo que lhe dissesse o que havia. Estavam sumindo, só restava uma, inútil sem as outras, e contudo de valor infinito.Enquanto ele escrevia, a mesa se mexeu. Um quadro tremeu na parede. A mulher, segurando os cabelos de lado com uma das mãos, examinava de perto o que ele escrevera. Dena, de camisola, surgira no vão da porta, despertada pelo barulho.
“O que foi?”, ela perguntou.
“Me ajude”, a mãe exclamou.
“Papai, o que foi?”
As mãos das duas estendiam-se para ele. No vidro do quadro, um quadrado brilhante de azul e verde estremecia, a folhagem luminosa das árvores. As vozes incontáveis recuavam, voltando ao silêncio.
“O que foi, o que foi?”, a mulher implorava.
“Papai, por favor!”
Ele balançou a cabeça. Estava quase chorando quando tentou se livrar das duas. De repente, descambou para o chão e ficou sentado ali, e para Dena recomeçou uma época que ela lembrava dos primeiros anos de escola, quando a tristeza tomava conta da casa e as portas batiam com força e o pai, cheio de afeição desajeitada, entrava no quarto das filhas para contar histórias de ninar e acabava adormecendo ao pé da cama dela.

Tradução: Samuel Titan Jr.


AKHNILO

Um conto de: JAMES SALTER
Do livro: “ÚLTIMA NOITE e outros contos”
Editora: Cia. das Letras