02/11/2009 - 11:45h Copo meio cheio

LÚCIA GUIMARÃES – NOVA YORK – O Estado SP

A última semana começou com um número que preocupou muitos jornalistas americanos. A rede CNN despencou para o quarto lugar de audiência do jornalismo na TV a cabo. E a Fox, comemorando sua condição de “perseguida” pelo governo Obama, disparou para um folgado primeiro lugar.

A CNN inventou o jornalismo de 24 horas e o fundador da Fox, Roger Aisles, inventou o comício eletrônico travestido de jornalismo.

Desde que uma assessora de Barack Obama fez o calculado primeiro disparo, no dia 12 de outubro, afirmando que a Fox não passa de uma ala do Partido Republicano, comentaristas de variada coloração ideológica discutem a sensatez da tática.

A venerada Primeira Emenda da constituição americana, que garante a liberdade de expressão, imprensa e religião, é invocada frequentemente pelos que não acreditam nela.

No ciclo viral de notícias, a estupidez se propaga com a velocidade da luz. Exemplo: Barack Obama foi comparado a Richard Nixon, o garoto-pôster da perseguição à imprensa. Desde quando um presidente que se indispõe com a imprensa ou setores dela é uma anomalia? E qual é a semelhança entre Nixon, notoriamente paranoico e conspirador, que grampeava e ameaçava jornalistas, e o atual presidente americano?

Um excelente artigo editorial no Wall Street Journal assinado por Thomas Frank, cujo espaço é um oásis de sensatez entre as tropas de choque de Rupert Murdoch, lembrou que a perseguição nas mãos das “elites” é um dos motes da rede Fox.

O levante conservador americano a partir da década de 90 alimentou-se desta falácia narrativa – entre Nova York e Los Angeles, a middle-America é explorada e desprezada pelas hordas de privilegiados que comem rúcula e dirigem carros híbridos.

Frank oxigenou o debate com dois argumentos: Obama está certo, a Fox News é um contínuo talk-show conservador. Ela foi criada pelo homem que salvou a carreira de Nixon na década de 60, reinventando o futuro presidente para a TV. Roger Ailes perde seu sono com a Primeira Emenda tanto quanto eu perco o meu com golfe.

Obama está errado na forma desajeitada como colocou a rede na berlinda. Frank diz que a Casa Branca “jogou gasolina numa fogueira” ao alimentar as teorias conspiratórias da rede adversária quando podia ter apelado para o humor, a ironia e o sarcasmo.

Um bom cursinho preparatório para enfrentar jornalista crasso é assistir a gravações não editadas das coletivas de John Kennedy, que reagia com um humor relaxado de quem está diante de um Martini e não de um microfone.

E assim voltamos a uma fundação que tem aparecido com frequência na imprensa americana. O Pew Research Center for the People & the Press toma o pulso do público americano em sua reação à mídia. O centro se tornou uma fonte preciosa de informação neste momento de confluência de duas angústias coletivas: a crise econômica na mídia tradicional e a epidemia de jornalismo ideológico.

A última pesquisa do Pew Center confirma o que sabemos: o papel da ideologia no consumo de notícias é cada vez maior. E a Fox é vista como a mais ideológica das redes de cabo. Explica-se o quarto e último lugar da CNN, atrás até de sua parente, o canal HLN, um híbrido de notícias curtas e talk-shows. A rede, apesar de vista pela maioria como “liberal” (à esquerda do espectro político americano) e de abrigar figuras como Lou Dobbs, o profeta do apocalipse causado por imigrantes, não se posiciona como pró ou contra Obama. A ópera-bufa da esquerda e da direita no cabo é protagonizada pela MSNBC e a Fox.

Enquanto o musculoso e peripatético Anderson Cooper enxuga as lágrimas com a queda de mais de 70% da audiência de seu programa em horário nobre na CNN, vale a pena notar um número mais interessante para quem acredita que o jornalismo tem um papel em qualquer democracia.

O site cnn.com de notícias está muito à frente das rivais. O publisher do New York Times, Arthur “Pinch” Sulzberger, fez analogias com o Titanic, ao ser consultado, num evento público, sobre o futuro dos jornais mas não destacou outro dado: o seu notável site teve sólidos 21 milhões e 500 mil visitantes únicos em setembro.

Vou argumentar que o declínio do jornal impresso convive com o apetite por noticiário objetivo. Já a falta de apetite pelas aventuras de Anderson Cooper pode mostrar o que acontece quando o jornalismo fica com o ouvido no chão, tentando detectar o tropel dos cavalos.

A revista Time perguntou aos leitores, logo após a morte do lendário Walter Cronkite, em julho, qual o âncora em que os americanos mais confiam. Jon Stewart, o comediante com vasta audiência jovem e apresentador do falso telejornal The Daily Show, ganhou disparado, com 44% de votos. Um sinal de triunfo da ironia como embalagem da notícia?

Em 2008, metade dos espectadores da Fox tinha mais de 63 anos e a maioria dos espectadores dos programas mais agressivamente ideológicos da rede era formada por homens. Os números foram citados por Louis Menand, na New Yorker, que comparou a cólera da Fox a um Viagra político.

Estou enganada ou há uma luz demográfica no fim deste túnel?

19/10/2009 - 16:34h Maçã verde

LÚCIA GUIMARÃES – NOVA YORK – O ESTADO SP

A moça do caixa me fez a pergunta antes de dar o troco e, em segundos, quase regredi à menina insegura do Colégio Santa Úrsula. Você precisa de sacola? “Não, Madre Superiora, quer dizer, não, é claro, cabe tudo na minha bolsa.”

Espera aí, não estava eu na maior rede de farmácias do país? A que mantém as lojas iluminadas à noite, o ar condicionado ou o aquecimento a toda? A corporação gigantesca estava patrulhando minhas pegadas de carbono?

No meu bairro, tradicionalmente democrata e politicamente correto, a mudança cultural é evidente.

Nos últimos anos, quando via um grupo de policiais na esquina, concluía, aos bocejos, que o banco havia sofrido mais um assalto relâmpago – geralmente um drogado solitário, fingindo ter uma arma sob a camiseta, levava o conteúdo de um caixa.

Na semana passada, dobrei a esquina e notei que a presença policial tinha atraído muita gente. Era horário de saída de um jardim de infância e as mães fotografavam a cena com seus celulares. Um caminhão de lixo havia estacionado e seu motorista muito nervoso confabulava com os policiais, que evitavam o olhar do público. E com razão. O inspetor municipal tinha surpreendido o dono da barraca de frutas e legumes ocupando mais espaço na calçada do que o permitido pela licença. E começou a despejar caixas e caixas de alimentos que foram devorados pelo caminhão de lixo. Um grupo de mulheres começou a gritar e chamou a polícia. Algumas discavam para as redações dos canais de TV locais. Saí fotografando, é claro, como alguém que imita os modos dos outros convidados num jantar de cerimônia. Uma desconhecida se aproximou de mim e disse: “Eu tenho um blog sobre comida orgânica, você me manda suas fotos? Nós vamos criar o maior caso.” Cada novo pedestre que perguntava o motivo da comoção ouvia um discurso ainda mais exaltado sobre o desperdício imperdoável.

Os Estados Unidos com menos de 5% da população mundial, consomem um quarto dos recursos de energia do planeta. Mas a cidade para onde me mudei, na década de 80, agora parece querer se penitenciar.

E como estamos num país fundado por puritanos, o ambientalismo vem com fortes doses de censura e culpa.

Numa festa de aniversário recente, notei um par de olhos fixos em mim enquanto lavava a louça. Em anos anteriores, a dona da casa me agradecia e dizia aos convidados ela ajuda sempre. Desta vez, a minha anfitriã não queria a minha ajuda. Explicou que era preciso enxaguar a louça no bacia colocada na pia e só abrir a torneira na hora de tirar o sabão. A crise de abastecimento é na Costa Oeste, pensei comigo mesma, enquanto aderia ao novos tempos.

Um comediante popular do canal HBO lidera uma campanha contra o golfe. Não porque seja um esporte cujo tédio desafia a minha compreensão. Mas porque os gramados consomem uma quantidade pornográfica de água em regiões secas.

Como ninguém há de se declarar contra o meio ambiente, a etiqueta ecologicamente correta, às vezes, desafia o bom senso. O prefeito Bloomberg prometeu designar 80 quilômetros de ciclovias por ano. Aplausos.

Mas já me juntei às estatísticas crescentes de atropelados por bicicletas. Enquanto esperava o roxo da perna desaparecer, comecei a ler sobre os acidentes em blogs e, só quando um executivo em sua bicicleta luxuosa matou um homeless no Central Park, pedalando a 60 km por hora, o desatino começou a ser mais bem documentado pela imprensa. Como trocar o carro pelo pedal é “do bem”, demoraram a entender que ignorar regras do tráfego urbano não é.

O virtuosismo ambientalista oferece um desafio especial neste país, em que o consumo é responsável por 70% da economia. Aqui se inventou a noção de shopping, comprar, como um fim e não um meio, uma atividade semelhante a jogar futebol ou ir ao cinema.

Na calçada da minha rua, em dias de coleta, dezenas de sacos de lixo selecionado por material para reciclagem convivem com mobília em perfeitas condições, já que o custo da mão de obra de transporte para vender ou doar equivale a comprar uma peça nova.

Nesta capital americana do consumismo, a experiência de assistir ao documentário No Impact Man é especial. O escritor Colin Beavan, autor do livro homônimo, recém-lançado com o filme, decidiu submeter sua família, mulher e filha de 2 anos a um ano de redução radical de suas pegadas de carbono. Passou os primeiros 6 meses sem eletricidade, subia e descia os nove andares de seu prédio no Village com a pequena Isabella nos ombros. Eles não andavam de carro, não faziam compras, só consumiam comida local e produtos de limpeza sem substâncias tóxicas. A experiência quase acabou com o casamento e Beavan foi acusado de atrair o ridículo para a causa ambientalista. Mas, ao servir de cobaia para um estilo de vida sustentável para o planeta a insustentável para a saúde mental da maioria, a família protagonizou uma narrativa fascinante. Ao contrário do zelo ecológico que frequentemente não se distingue de outros extremismos, Colin Beavan deixou pegadas de humanidade no caminho cheio de obstáculos de onde não podemos voltar.

10/08/2009 - 15:24h A Terra é redonda, por enquanto

http://manhattanconnection.files.wordpress.com/2007/05/g99c2fcf6ca6846a7b31a10d599fc41f0.jpg

Lúcia Guimarães, NOVA YORK – O Estado SP

Barack Obama propõe a eutanásia de idosos para economizar gastos com saúde.

A equipe econômica do governo americano abriga socialistas convictos.

Barack Obama nasceu no Quênia.

Os ricos são eleitos por Deus.

A Terra é redonda.

Na múltipla escolha acima, além de apenas uma afirmação verdadeira, o leitor pode encontrar um elo comum entre as outras quatro. São enunciadas por políticos eleitos, cujo partido foi rejeitado nas urnas em novembro passado.

O nível de desinformação disparou neste verão americano, graças à alta pressão do debate sobre o seguro saúde. Com mais de US$ 2 trilhões (sim, “tri”) em jogo, corporações pegam pesado no país que gasta o dobro do que outras nações desenvolvidas em saúde e tem 50 milhões fora do sistema.

Nos Estados Unidos, ignorar lunáticos e apostar no bom senso pode ser uma estratégia duvidosa. O senador democrata John Kerry, derrotado por George Bush na eleição de 2004, ignorou, com seu enfado patrício, a bem financiada organização extremista de direita que o representou em filmes na TV como um traidor e não como o militar condecorado que demonstrou bravura no Vietnã e voltou para denunciar a guerra.

O mesmo país que concentra o maior número de cérebros da ciência em atividade, abriga, em sua capital, uma seita fundamentalista – A Família -, um grupo de lobistas travestido de organização religiosa e, portanto, isenta de impostos. O grupo reúne deputados e senadores, alguns envolvidos em escândalos financeiros e sexuais recentes.

Ao sair do apartamento de uma entrevistada, acadêmica e historiadora, ela suspirou quando mencionei A Família, com o ar compungido de quem sente embaraço em nome do país inteiro. “Somos meio complicados, não?”, disse a anfitriã, ao se despedir.

Uma das complicações a que ela se referia é a reverência nacional à simplificação. O debate da saúde envolve um labirinto de ideias e nós vivemos sob a brevidade dos 140 caracteres do Twitter. O interesse escuso, que decide convencer os idosos vulneráveis de que eles estão atrapalhando a assistência médica aos mais jovens e deviam optar por uma partida mais rápida, encontra audiência.

Como nos lembrou Mark Twain, uma mentira viaja meio mundo enquanto a verdade ainda calça os sapatos. Enquanto a cidadania americana inconteste de Barack Obama bocejava, sua falsa cidadania queniana já tinha ido a Nairóbi forjar uma certidão de nascimento local. A constituição americana determina que um presidente deve ter nascido no país. O movimento dos Birthers difunde a teoria conspiratória de que Obama não veio ao mundo no Havaí, declarado o 50º Estado americano em 1959, dois anos antes do seu nascimento.

Entra em cena a mídia venal. O âncora xenófobo Lou Dobbs comanda um programa diário na CNN. Ele decidiu dar credibilidade aos Birthers. A mesma rede fundada por Ted Turner abriu seu horário nobre para um policial de Boston suspenso pela carta que escreveu sobre a prisão de Henry Louis Gates, o acadêmico de Harvard algemado por um policial branco ao tentar forçar a entrada da casa onde mora. O policial Justin Barrett achou por bem enviar um e-mail coletivo dizendo que, se tivesse enfrentado a situação do colega, teria sapecado um aerosol paralisante na cara de Gates, descrito por ele como “um macaco comedor de banana na floresta”. Menos do que o ufanismo racista da missiva, a ideia de que um idiota de seu calibre tem porte de arma me faria pedir proteção à máfia irlandesa de Boston. Pois a CNN trouxe o policial, com advogado a tiracolo, para justificar sua decisão de mover um processo multimilionário contra o governo da Boston, como vítima de retaliação profissional.

Quando a mídia abdica do seu papel de distinguir entre diversidade democrática e ignorância militante, acabamos com o elenco inesgotável de mentecaptos, que, como diz o jornalista Charles Pierce, acredita que uma tolice se torna fato se for espalhada aos berros.

No primeiro ano da mudança que os eleitores aprovaram nas urnas, duas palavras, “camisas marrons”, que evocam a Alemanha nazista, voltaram a circular associadas a agitadores bem financiados por interesses corporativos e religiosos. É um exagero retórico, sim, mas não deve ser recebido na complacência.

Em seu novo livro, Idiot America, Charles Pierce afirma que os Estados Unidos são o melhor país para se difundir absurdos e essa é uma qualidade adorável da democracia. Ele argumenta com as palavras do ex-presidente James Madison, o principal redator da Constituição americana. Em 1830, Madison escreveu: “Um governo como o nosso tem tantas válvulas de escape que traz consigo um alívio para as enfermidades das quais não estão isentas as melhores instituições humanas.” A versão Twitter: O direito de mentir para o público fortalece a verdade.

Com a velocidade da desinformação na era digital, o que Madison chamou de válvula de escape é um conceito em evolução. A cacofonia da truculência obscurantista tem abafado, com algum sucesso, as vozes do país fundado sob o impacto do Iluminismo.

02/03/2008 - 12:23h A ansiedade de exposição

Na internet, você entra no YouTube, vira a câmera para si mesmo e perde a individualidade. Passa a se apresentar como um pacote público

O Estado de São Paulo -Lúcia Guimarães*

 leesiegel.jpg

Primeiro, uma confissão: venho me servindo do ensaísta e crítico cultural Lee Siegel há anos. Não, ele não vai me processar por assédio sexual. As idéias de Lee Siegel me socorreram quando algum fenômeno da cultura popular americana me colocava na contramão do gosto coletivo e me batia uma solidão danada em festas ou papos de bar. Em parte por causa dele me mantive assinante da revista The New Republic. E desconfiei que havia algo malcheiroso no incidente que levou-o a uma suspensão temporária desta publicação por ter assumido um pseudônimo para se defender de ataques de leitores sociopatas. Volto à celeuma já, já. Mas, no espírito da transparência editorial, foi na condição de tiete que, ao ver o novo livro de Siegel exposto na livraria, decidi procurá-lo ao terminar a primeira página do prefácio.

Afinal, se você aprecia o piano de Bill Evans como eu, já não é um primeiro estímulo para tomarmos um café juntos? Como não podia convidar um estranho para tomar café, recorri ao velho truque, um dos poucos privilégios que sobraram na nossa escorraçada profissão. O jeito era lançar a isca da entrevista. Marquei uma gravação lá em casa. A assessora de imprensa da nova editora Spiegel and Grau não questionou o endereço do compromisso, em meio a tantos que estava marcando para seu autor. “Vinte minutos, hein”, ela confirmou. Concordei, é claro. Os 20 minutos duraram quase 3 horas, interrompidas por um telefonema convocando o entrevistado a ir correndo render a babá do filho de 18 meses.

No prefácio de Against the Machine, Being Human in the Age of the Electronic Mob, Siegel resume o que faz dele um personagem démodé do jornalismo contemporâneo: “As coisas não têm que ser como são”.

No auge do baba-ovo geral com a série Sex & the City, em 2002, um ensaio solitário de Siegel, Relationshipism, na New Republic, chamou atenção para o fato de que as quatro mulheres usavam a própria independência para, entre outros comportamentos destrutivos, confundir sexo com afeto e submeter-se a humilhações sistemáticas. Siegel estava defendendo as mulheres delas mesmas.

(mais…)