03/08/2008 - 17:29h Anarquista, libertário, surrealista… e genial

Retrato de Luis Buñuel feito por Salvador Dali

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Há 25 anos morria um dos artistas mais provocativos do século: Luis Buñuel

Luiz Zanin Oricchio - O Estado de São Paulo

Dia 29 completaram-se 25 anos da morte de Luis Buñuel (1900-1983). Espanhol de Calanda, cidade de Aragão, Buñuel escolheu o México para viver sua aposentadoria. Realizou boa parte de sua obra nessa país e nele morreu. Em seu livro de memórias, Meu Último Suspiro (Nova Fronteira, 1982), ditado ao seu roteirista Jean-Claude Carrière, Buñuel muito fala do México. Agradava-lhe o tom de suave absurdo que encontrava no país, o culto da violência e dos mortos, a alegria, os contrastes. Lá, dom Luis estava em casa.

Foi, no entanto, na França, que teve início sua carreira de cineasta. E ela começou em parceria com outro exilado ilustre, espanhol como ele, o pintor Salvador Dalí. Juntos, fizeram o filme-manifesto do surrealismo, Un Chien Andalou - Um Cão Andaluz, em 1928. Já nos primeiros planos, uma imagem forte, e tão contundente que quase intolerável: uma nuvem esconde a lua por alguns momentos; a câmera registra um rosto de mulher. Por trás dela, surge um homem com uma navalha na mão. Com a outra mão, ele abre o olho da mulher e o decepa. Um crítico como Ado Kyrou via nessa seqüência a proposta de um método radical, que iria acompanhar Buñuel por toda a vida - a dissecação.

Não deixa de ter razão. A obra de Buñuel é diversificada, inclusive pelas condições materiais de produção de que dispôs ao longo da carreira. Mas centra-se em torno de alguns motivos centrais - a crítica da religião e da hipocrisia burguesa, os paradoxos da sexualidade, a força do desejo, os automatismos mentais, que obedecem, ao mesmo tempo em que escapam, as determinações sociais e históricas. O “como” tratar esses temas era um caso à parte e Buñuel sempre pareceu incisivo como um cirurgião munido do seu bisturi. Ia na contracorrente da relação de fascínio acrítico do espectador em relação ao filme.

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O uso freqüente do absurdo era uma dessas maneiras de tirar o público do seu centro de passividade acomodada. Esta é uma lição que levou do surrealismo mais estrito de André Breton, aliás já prefigurado na obra poética de Isidore Ducasse, o Conde de Lautréamont (1846-1870). O autor de Cantos de Maldoror, leitura de cabeceira do grupo surrealista, morto aos 23 anos, falava sobre o efeito poético da justaposição de itens heterogêneos - o impacto do inesperado como o guarda-chuva e da máquina de costura sobre a mesa de cirurgia, era o exemplo. Buñuel usou com freqüência esse artifício de surpresa e distanciamento.

Assim, já nos dois primeiros filmes, ao escrever o roteiro, os (então) amigos Buñuel e Dalí descartavam tudo aquilo que pudesse fazer sentido imediato. Nessa recusa do significado linear e fixo, pululam imagens inéditas e inesquecíveis - o olho cortado pela navalha, as formigas que saem das mãos, os burro morto sobre um piano de cauda, os esqueletos vestidos com trajes papais.E, claro, como era da própria intenção dos criadores, desse aparente nonsense brotavam significados aos borbotões - dependentes da imaginação de quem assistia aos filmes.

Buñuel não ignorava o quanto de provocativo havia nessas imagens insólitas. Tanto assim que, na estréia de Un Chien Andalou, em Paris, forrou os bolsos de pedras para defender-se, se fosse necessário. Dois anos depois, nova dose de remédio da mesma natureza: A Idade de Ouro. O grupo de direita Action Française veio à porta do cinema protestar e o filme, um média-metragem, acabou proibido pela censura.

As tesouras do censor perseguiram Buñuel durante muito tempo e ele não parecia se importar muito com o fato. Há uma passagem interessante sobre esse “relacionamento”entre artista e censor, esse diálogo entre a corda e o pescoço. Buñuel, havia muitos anos fora da Espanha, obtém autorização para filmar em seu país e lá rodou o que muitos consideram sua obra-prima, Viridiana (1961). Como conseguiu produzir obra tão anticlerical na carola Espanha de Franco, só Deus é capaz de saber. Viridiana é uma jovem piedosa, que decide abrigar em sua casa um grupo de mendigos. Eles se embebedam, um deles tenta violentá-la e, em cena famosa, parodiam a Santa Ceia. Mas não foi com essa imagem que a censura franquista implicou e sim com o desfecho. Buñuel havia filmado a heroína, interpretada por Silvia Pinal, entrando no quarto com um homem, numa clara indicação de que iriam fazer sexo. A cena foi vetada. Buñuel inventou outra: a moça joga cartas com o rapaz, os dois sentados em volta de uma mesa. “Ficou muito mais alusivo e portanto melhor; agradeço de coração à censura franquista”, ria-se Buñuel. Mesmo assim, o filme foi interditado na Espanha quando os censores se deram conta do que Luis havia feito, e sob as suas barbas conservadoras.

Esse exercício de filmar segundo as circunstâncias havia sido desde cedo assimilado por Buñuel. Se em Un Chien Andalou e L?Âge d?Or (1930) fizera exatamente o que lhe viera à cabeça, com a mudança primeiro para os Estados Unidos e depois para o México teve de se conformar a certas regras do cinema comercial. Nos EUA, escreveu roteiros. Mudando-se para o México, teve de se haver com as normas do melodrama. Mesmo assim, Buñuel se comportava como se, no fundo, filmasse exatamente o que tinha em mente. “Jamais me envergonhei de um único plano de minha obra”, dizia.

E com razão. Porque, mesmo fazendo melodramas, neles infiltrava, de contrabando, suas idéias, sua estética, sua visão de mundo. Instilava nos dramalhões o veneno surrealista e fazia insólitos filmes que na origem poderiam ser banais, como Subida ao Céu (1951)e Escravos do Rancor (1953). A Ilusão Viaja de Trem (1954) é uma pequena jóia surrealista.

Mas é com o drama social Los Olvidados (Os Esquecidos, 1950) que Buñuel alcança notoriedade mundial. Depois desse estranho filme social, que lhe deu o prêmio de direção em Cannes, Buñuel ainda realiza no México obras do porte de O Alucinado (1953), Nazarin (1958) e O Anjo Exterminador (1962).

Na fase final de Buñuel, destaca-se a sua longa colaboração com o roteirista francês Jean-Claude Carrière, a quem caberia, como vimos, ajudá-lo a escrever suas memórias. Esse trabalho a dois vai de Diário de uma Camareira (1964) até o último, Esse Obscuro Objeto do Desejo (1977). Filmes como A Bela da Tarde (1967), A Via Láctea (1969), O Discreto Charme da Burguesia (1972) e O Fantasma da Liberdade (1974) passaram a fazer parte do imaginário cinematográfico mundial.

É um grande cinema, anarquista e libertário, que continua atual e pulsante, mesmo em tempo tão conformista como o nosso. Talvez , por isso mesmo esteja vivo como nunca - porque nos obriga a reler um presente medíocre a contrapelo, a partir do seu contrário.

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ALGUNS TÍTULOS DISPONÍVEIS EM DVD

UM CÃO ANDALUZ E A IDADE DE OURO: os dois primeiros filmes, manifestos do surrealismo no cinema. Trazem algumas das imagens mais marcantes da obra do cineasta, como a do olho sendo decepado pela navalha.

O ANJO EXTERMINADOR: filmado no México, traz uma situação clássica da poética de Buñuel: um grupo de ricaços não consegue sair de uma sala, sem que haja motivo aparente para isso.

OS ESQUECIDOS: Talvez o maior exemplo do drama social tratado à maneira do autor. Não existem santos nem vilões; todos podem se aviltar, ou se santificar, na luta pela sobrevivência.

VIRIDIANA: Para muitos, a obra-prima de Buñuel, filmada na Espanha. Seu tema seria a inutilidade da caridade, na história da personagem que acolhe em sua casa um grupo de mendigos.

A BELA DA TARDE: Um dos principais papéis de Catherine Deneuve. Ela vive Séverine, a mulher rica que se prostitui em um bordel no período da tarde.

O DISCRETO CHARME DA BURGUESIA: Buñuel aposta no cômico para ridicularizar um grupo de burgueses condenado a nunca conseguir terminar uma refeição.

ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO: Última obra do diretor, história do homem que não pode consumar o sexo com a mulher que deseja, interpretada por duas atrizes, Angela Molina e Carole Bouquet.

19/06/2008 - 15:51h Mais Buñuel: Belle de jour

Belle de Jour de Luis Buñuel, com Catherine Deneuve

19/06/2008 - 14:12h Aos 25 anos da sua morte, um Ciclo Buñuel e também um livro sobre seu filme Los Olvidados

El ciclo Buñuel

La Expo Zaragoza 2008 inicia su Ciclo Buñuel (desde hoy y hasta el día 21) en el que se analizará y profundizará en la obra y vida del universal cineasta desde diversos ángulos. Emma Cohen, Àlex Rigola y otros directores imaginan cómo montar la única obra de teatro del cineasta, su Hamlet, al que la Expo de Zaragoza dedica un amplio ciclo estos días.

El ciclo Buñuel que se desarrollará hasta el 22 de junio dentro de lo que se ha venido a denominar Balcón de las Artes Escénicas (y en tres franjas horarias distintas). Las miradas sobre Hamlet de estos cuatro directores se harán cada día a las cinco de la tarde (el 19 Emma Cohen, el 20 Àlex Rigola, el 21 Alberto Castrillo y el 22 Mercedes Lezcano). Hoy también se presentará el proyecto teatral que el director Joan Ollé estrenara el 19 de agosto con El Ángel Exterminador. También por las tardes (a las 19,15) habrá debates, coordinados por Gaizka Urresti, estudioso de la obra de Buñuel y cineasta. En el primero de estos debates intervendrá Joan Ollé, director de escena que prepara para la Expo la versión teatral de El Ángel Exterminador (se estrena el 19 de agosto) y otros profesionales como Jean Claude Carriére, guionista de 6 películas de Buñuel; la actriz Silvia Pinal, que trabajó con Buñuel en Viridiana y su hijo Juan Luis.

También estos cuatro días (a las 21.00) se realizan proyecciones en torno a la figura y el universo de Buñuel y donde se presentarán cortos del propio Buñuel, su hijo, Mercedes Gaspar, Luis Eduardo Aute, Emilio Casanova, Clemente Calvo, Yago de Mateo, Javier Estella, Daniel Cubillo. Además, el día 22 se presentará el espectáculo multidisciplinar Ahora sí que muero, bailado y coreografiado por Ingrid Magrinyá y con el actor Pedro Rebollo.

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De izquierda a derecha, Salvador Dalí, José Moreno Villa, Luis Buñuel, Federico García Lorca y José Antonio Rubio Sacristán, en Madrid, en 1926.

Buñuel vestido de harapos

GREGORIO BELINCHÓN - EL PAÍS

Carmen Peña y Víctor M. Lahuerta reúnen cientos de documentos y fotos, además del guión original de Los olvidados en edición facsímil

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“Ayer se estrenó en México la película Los olvidados. Ya se consumó la ignominia. Buñuel [sic] se salió con la suya, con su injusta actitud para con México, para con el cine mexicano, para con la sociedad y para con los pobres olvidados”. Así arrancaba en Ovaciones una crítica titulada Sadismo cinematográfico. No fue la única. Un artículo en el diario Novedades: “El argumentista trabaja con el dinero del público que ha de ir a ver lo que él escribió. El pintor puede echar a perder una tela o su propio prestigio sin gastar un centavo de nadie. Toda la gente del cine trabaja con el precio de la entrada de miles de personas que irán mañana seguro a ver la obra. Por eso los experimentos en el cine son criminales”. En noviembre de 1950 el estreno de Los olvidados, la primera película propia de la etapa mexicana de Luis Buñuel, tras dos encargos alimenticios y taquilleros, Gran casino y El gran calavera, no sentó nada bien en la prensa oficial e incluso a las autoridades. El tiempo, sin embargo, puso a cada uno en su sitio. En el siguiente Festival de Cannes, Los olvidados obtuvo la Palma al mejor director y el Premio de la Crítica Internacional. Se llevó 11 arieles -los goyas charros- de 18 posibles. Medio siglo más tarde, en 2002, la Unesco incluyó el negativo original del filme en su Programa Internacional Memoria del Mundo. Y hoy Los olvidados, con su desgarradora visión de los problemas de la infancia, del hacinamiento de los campesinos en los suburbios más pobres de las grandes metrópolis, barrios denominados en los tiempos de Buñuel ciudades perdidas, con su huida de un tipo de melodrama que sí marcó el neorrealismo italiano, se ha reivindicado como uno de los títulos más incisivos, acertados y, al mismo tiempo, artísticos del cineasta.

Y por estas razones y otras más apasionadas cinematográficamente, Carmen Peña Ardid, profesora de la Universidad de Zaragoza, y el diseñador gráfico Víctor M. Lahuerta Guillén estuvieron dos años investigando y preparando el libro Los olvidados, editado por el Instituto de Estudios Turolenses. Un volumen que rezuma datos, fotografías y amor fílmico. Más de setecientas páginas que reúnen el guión original de Buñuel, editado ahora en facsímil para poder ver sus anotaciones, la foto fija, y diversos estudios que sirven para que el lector se sumerja en la época y el lugar del estreno, y para recorrer la vida de la película: tras su éxito en Cannes y su proyección por Europa, Los olvidados no se vio en España hasta 1964 (y no llegó a Madrid ¡hasta 1967!). “No queríamos hacer un libro bonito”, asegura Carmen Peña Ardid, “ni caer, por su temática, en lo meramente estético”. Sin embargo, el libro deslumbra: por su profusión gráfica, por su cuidado diseño, porque en 700 páginas la historia de Los olvidados deviene en ejemplo de una época y, por qué no, de thriller.

“Hemos dedicado, obviamente, muchísimo tiempo a la búsqueda, a la datación de los artículos periodísticos que aparecen. En el éxito de este volumen tiene mucho que ver el Archivo Buñuel, actualmente depositado en la Filmoteca Nacional”. Peña desgrana sus fuentes en esta investigación policial: la misma familia Buñuel, archivos desperdigados por todo el mundo… “Nos sorprendió, como investigadores, el cuidado con que Buñuel recopilaba las reseñas referidas a su trabajo. Conservaba críticas de distintos lugares del planeta, su correspondencia [muy útil para comprobar, por ejemplo, el apoyo que recibió en Cannes de un miembro del jurado, y rendido admirador suyo, el escritor Octavio Paz], incluso fotos”. En el volumen, incluso, aparece la transcripción de una entrevista radiofónica que dio a Cadena de Radio del Aire. “¡Y la había guardado él! Otro de nuestros descubrimientos -que nos obligó a que el libro creciera según avanzábamos en la investigación- fue la trascendencia de este filme en la política y la sociedad de los años cincuenta”.

Más documentos. Luis Buñuel, durante seis meses y hasta días antes del inicio del rodaje el 6 de febrero de 1950, visitó disfrazado con harapos los arrabales de Ciudad de México: rumbo de Nonoalco, Tlalpan, Tacubaya, plaza de Romita, la calle de Atrampa…, y fotografió mercados, avenidas y gente que le sirvieran a él y al coguionista Luis Alcoriza como inspiración. El libro compara esas tomas con fotogramas del filme para revelarnos que el cineasta rodó en muchos escenarios naturales. “El capítulo dedicado a la foto fija también sirve para vindicar la labor profesional de Luis Márquez, un retratista excepcional al que no dejaron prosperar en su carrera”.

La trama de Los olvidados, como producto, arranca quejumbrosa. Tras un estreno timorato en México, sólo el éxito de Cannes obliga al grueso de los intelectuales mexicanos y al público de aquel país a replantearse el filme. Su reestreno, apoyado por amigos y creadores de todo el mundo, se convierte en lo que ahora se denomina taquillazo. “Nos tomamos como un reto apasionado todo el trabajo. Y nos crecimos en los momentos más difíciles”. Como, por ejemplo, encontrar el comentario del cineasta Vsevolod Pudovkin, que saludaba con alborozo “el reflejo sincero de la vida de los pueblos”. Peña Ardid comenta: “Nos dijeron que había salido en Pravda, y resultó que en realidad se publicó en Gaceta Literaria”. Al final, la crítica se pudo reproducir con su respectiva traducción. Como también el de André Bazin, una carta de Julio Cortázar… Incluso, el artículo de Ínsula que sirvió para apoyar en España a Buñuel. “Víctor y yo pensamos: ¿qué pasaría si sacamos en el libro todo el desarrollo de la recepción del filme?”, dice Carmen Peña. De ahí la exhaustividad de documentos del después, muy poco habitual en este tipo de libros.

Como remate a esta labor, la profesora señala dos hechos que le han confirmado su pasión por Buñuel: “A pesar de su estatura moral y artística, era un antidivo”. El productor de Los olvidados, Óscar Dancigers, le pidió rodar un final alternativo, optimista, completamente opuesto a la filosofía del filme. “Y Buñuel lo hizo. Sin quejas. Pero nunca se supo más de él hasta que en 1996 ese metraje apareció en la Universidad Nacional Autónoma de México. Hemos sido incapaces de responder a una cuestión: ¿cuándo descartaron esa conclusión y Dancigers decidió estrenar el final original?”. El segundo hecho: la confirmación que detrás de Los olvidados, en el equipo técnico, estaban bastantes exiliados republicanos. Escondido en una obra eminentemente mexicana, residía el talento humanista de los expulsados por Franco. Y, por suerte, detrás de esos críos sedientos de amor materno, de esos delincuentes adolescentes devenidos en hermosas figuras del mal, hay un libro a la altura, que ha recibido el Premio Muñoz Suay de la Academia del Cine por su calidad. -

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Los olvidados. Guión y documentos. Carmen Peña Ardid y Víctor M. Lahuerta Guillén. Instituto de Estudios Turolenses. 720 páginas. 25 euros