06/11/2009 - 12:33h Um pen drive imperdível

ColunistaMaria Cristina Fernandes – VALOR

A plateia era formada por alguns dos luminares do governo Fernando Henrique Cardoso – André Lara Resende, Andrea Calabi, Henri Philippe Reichstul e Rubens Barbosa. Todos, inclusive o ex-presidente que dá nome ao instituto onde o evento se realizava, aguardavam um dos palestrantes, Luiz Carlos Mendonça de Barros, preso no trânsito, como descobriria Gilda Portugal ao celular, no meio da audiência – “Ele vem com certeza e traz um pen drive imperdível”.

Papearam sobre a repercussão do polêmico artigo de Fernando Henrique de domingo (”O Estado de S. Paulo” e “O Globo”) e a ausência de um dos convidados, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, justificada, como relatou o coordenador do instituto, Sérgio Fausto, pela premência de uma reunião sobre a Olimpíada de 2016.

O ex-presidente não alimentaria animosidades – “Eu o conheci como secretário do Zeca do PT (MS). Quando esteve comigo no Planalto disse que se o tivesse conhecido antes o teria chamado para o lugar do (Pedro) Malan. É aberto ao diálogo”.

Mendonça de Barros chega, sem gravata como o dono da casa, e é aplaudido pelo auditório cheio que o aguardava há 20 minutos. Não demora e o pen drive começa a rodar. “Economia Brasileira: como chegamos aqui/ FHC + Lula: uma combinação que deu certo”.

Antes de começar a falar, faz a Fernando Henrique a ressalva de que tinha gostado muito do artigo de domingo, em que o ex-presidente criticara os inebriados pelo Brasil de Lula.

A exposição trazia os números daquilo que o artigo chamara ironicamente de “o maior espetáculo da terra”. A tela exibia as curvas desencontradas dos oito anos do PSDB versus os sete do PT para balança comercial, salário mínimo, câmbio, juros, dívida externa, massa real de salários e faturamento do comércio.

Diz que a situação atual do Brasil é muito difícil para sua geração – “e a do Fernando Henrique” – entender. É o país que, no último relatório da Goldman Sachs, é citado como o detentor da moeda mais valorizada do mundo. Nesse momento chega Joseph Safra, com o crachá “visitante” na lapela, e senta-se entre Fernando Henrique e Rubens Barbosa.

Mendonça de Barros cita as conversas que tem tido com investidores estrangeiros e empresários brasileiros para dizer que seu otimismo com o país é compartilhado. “Um empresário que está vendendo três mil carros por dia, (e dirige-se a Safra, sentado bem à sua frente ) cliente de vocês lá, me disse – ‘Lula é o máximo’”.

Antes de passar a palavra ao palestrante seguinte, Fábio Giambiagi, Fernando Henrique dirige-se a Mendonça de Barros – “Entusiasmado você é. Cego, não”.

A exposição de duas únicas telas resume a fala de Giambiagi: O Brasil de 2050 terá uma população acima de 60 anos três vezes maior que a atual. Ele retoma o tema abordado ao final da exposição de Mendonça de Barros sobre as dificuldades de se empreenderem as reformas necessárias – “Se a oposição for vitoriosa terá que conviver com um PT mais forte e Lula à sombra e não conseguirá fazer mudanças sem um entendimento político”.

Vai buscar na ditadura de 1976, quando voltou ao Brasil adolescente, o exemplo de um país que tinha “uma capacidade de diálogo hoje perdida”. Cita uma batida de carro que presenciara, resolvida amigavelmente – “Foi um choque pra mim, vindo de uma Argentina onde a inflexibilidade era cultivada como virtude”.

Fernando Henrique inicia seus comentários contestando as previsões futuras de crescimento econômico apresentadas por Mendonça de Barros – “Quem previu 2002?”, questiona, numa referência à deterioração dos indicadores daquele ano. Recorre à prevalência da política e cita Maquiavel sobre a dificuldade das reformas – quem é afetado se rebela e quem será beneficiado ainda não o sabe.

Reconhece que a transferência de voto é possível – “Já está ocorrendo, Dilma tinha zero agora tem 15%” – mas não é automática – “Tanto que Serra tinha o apoio de três, o meu o de Montoro e o de Covas quando se candidatou pela primeira vez a prefeito e perdeu”.

Diz que a população não é dividida em partidos ou blocos de oposição e governo – “Cabe à liderança política mostrar que os 65% (de Lula) podem ser próximos dos 40% (de Serra)”.

Trata o Bolsa Família como “imexível” e diz que sua importância para remediar os miseráveis é superior à da valorização do salário mínimo, ressaltada por Mendonça de Barros.

Vê nos gargalos na infraestrutura, em que inclui o pré-sal, o reflexo da “confusão reinante neste governo entre público e privado”. Conclui os trabalhos da mesa num clima ameno, que só volta a esquentar nos debates.

Raul Vellozo questiona como se justifica o otimismo com o futuro do Brasil face à “incapacidade de a União se planejar para gastar bem”.

Mendonça de Barros acabara de classificar os artifícios contábeis para se produzir o superávit de “5ª categoria” – “Os nossos eram mais sofisticados”. Ao ouvir Vellozo, chuta a lata – “São um bando de ignorantes que não sabem o que estão fazendo. Há uma série de problemas novos que não conseguem resolver porque estão no software pirata que usam”. Foi o único momento do seminário em que André Lara Resende soltou uma risada.

No café, ao final do seminário, Mendonça de Barros é questionado se as razões da indecisão de Serra sobre a candidatura presidencial estavam relacionadas ao seu pen drive. “Não tenho a menor dúvida”.

Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras

E-mail mcristina.fernandes@valor.com.br

24/09/2009 - 09:45h ”Brasil vai crescer 6% no ano que vem”

Leo Pinheiro / Valor
Foto Destaque
Luiz Carlos Mendonça de Barros: crescimento do PIB em 2010 pode chegar a 6% no ano que vem

Luiz Carlos Mendonça de Barros: sócio da Quest Investimentos e ex-ministro. Para Mendonça de Barros, economia deve retomar o dinamismo de antes da crise, mas é preciso cuidado com a inflação

Luciana Xavier, AGÊNCIA ESTADO

O Brasil deve ter forte recuperação e crescer 6% no ano que vem, acredita o sócio da Quest Investimentos, Luiz Carlos Mendonça de Barros, que foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações no governo de Fernando Henrique Cardoso. “Vejo a economia retomando rapidamente o dinamismo de antes da crise”, disse, em entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo, da Agência Estado. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Esta semana o Brasil virou grau de investimento pela Moody”s. Qual a importância desse upgrade?

Houve uma convergência das agências, com uma novidade no caso da Moody”s, pois ela, além de melhorar nossa nota no nível de investment grade, colocou também em observação positiva. Isto é, deu um sinal de um movimento próximo de melhora ainda na nota. Mas é uma coisa engraçada porque o mercado já vinha antecipando esse movimento. Acho que essa questão do investment grade está superada. Vamos olhar para frente.

Ao olhar à frente, o que o sr. vê?

Vejo uma economia retomando rapidamente o dinamismo que tinha antes da crise, com impacto ainda negativo do comércio exterior – as exportações brasileiras não se recuperaram. Certamente, o investimento, afetado na crise, vai voltar naturalmente. Alguns analistas parecem não entender que uma dinâmica de economia de mercado tem um timing natural. Muita gente está criticando que o investimento não voltou ainda. Isso é absurdamente natural. Estamos saindo de uma crise. Então acho que a cadência da economia brasileira vai ser a manutenção do estímulo vindo do setor privado, do consumo – o emprego voltou a crescer, os salários voltaram a ter ganho positivo, em real. Os bancos também voltaram à normalidade. Com um estímulo adicional, pois perderam espaço para os bancos públicos nesses quatro a cinco meses em que se trancaram. Acho que vão querer recuperar o tempo perdido, o que dá um impulso maior à retomada do crédito.

O sr. enxerga uma enxurrada de recursos vindo para o Brasil?

Isso já está ocorrendo. Se olharmos a previsão de abertura de capital de empresas brasileiras nos próximos meses, estamos perto dos US$ 14 bilhões. E isso vai acontecer porque o mundo tem hoje um desequilíbrio entre oportunidade e liquidez para investimentos. Porque tem um pedaço grande do mundo, principalmente dos desenvolvidos, em que a retomada da atividade vai ser muito lenta. E esse pedaço tem ainda uma capacidade ociosa para ser ocupada, que vai fazer com que os investimentos nos próximos dois anos sejam muito pequenos. Por outro lado, há alguns países – o Brasil é um deles – onde se retomou mais rapidamente a dinâmica do consumo e as oportunidades se apresentam de forma mais clara. Além disso, é importante entender que nessa saída de crise há um problema com o dólar americano, que tem levado investidores a buscar ativos em regiões do mundo cuja moeda tenha dinâmica diferente do dólar. O real é uma dessas moedas.

O dólar chegou ontem (dia 23) a R$ 1,782. Pode cair mais?

Não sei. Há seis meses fiz uma projeção que naquele momento parecia absurda, de dólar a R$ 1,80. Até R$ 1,80 eu vou. A partir daí, prefiro observar (risos). Mas é importante entender que o real não tem movimento autônomo, isolado. Ele está se valorizando numa cesta de moedas – principalmente ligadas a economias exportadoras de commodities – e tem de acompanhar um pouco essa dinâmica. Ele não está sozinho.

O que impede o dólar de voltar ao patamar pré-crise?

Ele volta ao patamar pré-crise se as outras moedas também voltarem. E tem o Banco Central. Acho que o BC teria de acompanhar a cotação do real nessa cesta de moedas. Isto é, ele não deve interferir no processo de valorização dessa cesta. Mas se nessa cesta de moedas, o real, por alguma condição de movimento de capitais, tiver uma valorização maior, acho que é dever dele intervir.

O sr. não vê então nenhum grande problema na economia?

Por incrível que pareça, na metade do ano que vem vamos começar a nos preocupar com a inflação. E aí entra a questão fiscal. No período em que a economia privada deu esse vácuo, ele (governo) entrou, corretamente. Só que está na hora de sair. Porque, se acumularmos crescimento do consumo interno – que vai ocorrer -, volta dos investimentos e nível de gasto do governo tão elevado, vamos começar a criar tensão inflacionária, que vai desembocar na alta dos juros.

De qualquer modo, a partir do segundo semestre de 2010 pode haver um problema para o BC?

Acho que sim. Nós podemos começar a ver uma inflação mais próxima de 5% do que de 4,5% já no ano que vem.

Como o sr. vê o crescimento do Brasil em 2010?

Nós revisamos nossa projeção para crescimento do PIB em 2010 de 5% para 6%.

Qual sua expectativa para o relatório trimestral de inflação?

Acho que todas as projeções para este ano e para o ano que vem apontam ainda para um número por volta de 4,5% (IPCA). O que estou colocando como preocupação é uma projeção um pouco mais adiante, que não é bem o objetivo do relatório de inflação do BC.

12/09/2009 - 12:05h ”Na minha opinião, o Brasil nem entrou em recessão”

Ex-ministro está muito otimista, mas se preocupa com impulso dado pela queda da importação, que não vai se sustentar

 

Fernando Dantas – O Estado SP

 


Para o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, sócio da Quest Investimentos e ex-ministro das Comunicações, “o Brasil nem entrou em recessão”. Otimista com o resultado do PIB no segundo trimestre, ele faz uma única ressalva: o resultado foi fortemente impulsionado pelo setor externo, com contribuição significativa da queda das importações (o que aumenta o espaço para a produção nacional). Ele acha que esse fator vai se enfraquecer daqui para a frente, com a recuperação das importações.

O que o sr. acho do resultado do PIB do segundo trimestre?

É um PIB esquisito. A parte boa é que o consumo das famílias surpreendeu para melhor. E o lado que não é tão bom é que a queda das importações, muito maior do que das exportações, acabou fazendo com que o setor externo adicionasse, segundo as minhas contas, 1,3 ponto porcentual do crescimento de 1,9% (no trimestre, comparado com igual período de 2008). O restante 0,6 ponto porcentual foi a contribuição do consumo das famílias.

Qual o problema disso?

Essa queda das importações, na dimensão que ocorreu, não vai se manter. Com o consumo das famílias crescendo mais de 2%, as importações vão começa a subir de novo. O nível de consumo agora está sendo sustentado muito mais com a produção interna do que com as importações, mas, se elas voltam a subir, isso come um pouco da produção doméstica. Isso é que faz com que alguns economistas, inclusive aqui da Quest, achem que o crescimento no terceiro trimestre pode ser até um pouco menor do que o do segundo.

O sr. se preocupa com o fraco nível dos investimentos?

É o último que vai se recuperar. A boa notícia é que, pelos cálculos da Marina Santos, economista da Quest que acompanha a questão, a capacidade ociosa vai se reduzir antes do que a gente pensava. É preciso que isso aconteça para que se tenha investimento. Agora achamos que, talvez entre o primeiro e o segundo trimestre de 2010, a capacidade de produção da economia já tenha sido ocupada, o que é condição necessária para voltar o investimento.

No atual trimestre, não volta?

Acho difícil ainda, porque está todo mundo ainda com fábrica ociosa. Não há dificuldade de entender o que está acontecendo com o investimento – a razão é que se gerou uma capacidade ociosa na economia, e a boa notícia é que vai se fechar mais cedo do que o esperado. Aí o investimento vem.

O Brasil saiu da recessão?

Acho que o Brasil nem entrou na recessão. OK, tecnicamente, saímos, mas, para mim, recessão é um negócio mais longo. O que tivemos foi uma queda no vazio, por causa da crise, mas já voltamos, Tem aquela discussão de mesa de bar de economista, que leva a noite toda, se recessão é ou não dois trimestres de queda, o que é recessão. Em economia, essa caracterização muito linear das coisas não existe. Temos de olhar o que está acontecendo. Se você olhar salário, o crédito – em que a ação dos bancos públicos foi muito importante, compensando o vazio dos privados -, nota-se que houve mecanismos de autocorreção que funcionaram mesmo. Tanto que a massa salarial continua crescendo. Nunca vi recessão em que a massa salarial continua crescendo.

E daqui para a frente?

Vamos retomando, progressivamente, o PIB do ano deve ser ligeiramente positivo, e acho que crescemos 5% no ano que vem. Estou muito otimista com o Brasil. Muito.

02/09/2009 - 10:27h Opinião de especialista: O “modelo brasileiro” do pré-sal deve ter a “saúde norueguesa” como uma refêrencia, para evitar a “doença holandesa”

Evitar valorização excessiva do câmbio é grande desafio

Sergio Lamucci, de São Paulo – VALOR

Os recursos da exploração do petróleo da camada pré-sal devem afastar por muito tempo o fantasma da restrição externa ao crescimento brasileiro, mas a destinação do dinheiro precisa ser bem administrada para evitar uma valorização exagerada do câmbio ou até mesmo um problema fiscal e inflacionário. Deixar uma grande parte dos dólares obtidos com o pré-sal no exterior é uma recomendação de vários analistas, para impedir a “doença holandesa” (fenômeno pelo qual as receitas das exportações de algumas commodities apreciam demasiadamente o câmbio, prejudicando os setores industriais). Isso implica um uso moderado dos recursos do Fundo Social em atividades dentro do país, como o combate à pobreza e o desenvolvimento da educação. O fundo, pelo projeto de lei do governo, pode aplicar tanto no Brasil como no exterior.

Para o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros, a destinação dos recursos do pré-sal é um “bom problema” a ser resolvido nos próximos anos. Com o dinheiro da exploração desse petróleo, ficará mais distante o risco de que crises externas abortem o crescimento da economia, diz ele. Mendonça de Barros destaca, porém, que a definição do que fazer com os recursos não é simples. Se os rendimentos do pré-sal forem elevados como se imagina, trazê-los integralmente para o Brasil pelo mercado de câmbio pode provocar uma apreciação excessiva do real, prejudicando amplos setores da indústria.

Uma alternativa, segundo ele, é fazer os recursos passarem diretamente pelo Banco Central (BC). Nesse cenário, a autoridade monetária ficaria com os dólares, entregando reais ao Tesouro, que poderia gastá-los no combate à pobreza, na educação ou em ciência e tecnologia, por exemplo. Essa operação evitaria a “doença holandesa”, mas poderia causar um problema fiscal e inflacionário, adverte Mendonça de Barros. Segundo ele, se injetar um volume muito grande de reais na economia, o Tesouro terá de emitir muitos títulos para recolher o dinheiro em excesso em circulação na economia, o que pode causar ainda um aumento indesejado da inflação.

Para o ex-ministro, a melhor opção é deixar uma parte razoável dos recursos no exterior e trazer uma parcela menor para o país pelo BC, sem passar pelo mercado de câmbio. Para minimizar o problema fiscal ou inflacionário, a alternativa é reduzir outros gastos, diz Mendonça de Barros.

O professor Ricardo Carneiro, da Unicamp, diz que a solução mais adequada é manter a maior parte do dinheiro do pré-sal no exterior, aplicando no país os rendimentos do fundo, e não o seu principal. É basicamente o que faz a Noruega. Carneiro nota que o país nórdico tem uma renda per capita muito superior à brasileira, o que pode tornar difícil resistir à tentação de se destinar uma parcela maior para gastos sociais, por exemplo. A questão é que, se isso for feito, o câmbio poderá se valorizar demais, causando de fato a “doença holandesa”, diz ele.

Para Carneiro, uma alternativa é usar parte dos recursos para ajudar na expansão de empresas brasileiras fora do país. Uma opção é financiar um governo estrangeiro que tenha contratado uma companhia brasileira para construir uma hidrelétrica, explica ele.

O economista José Márcio Camargo, da Opus Gestão de Recursos, também acha que o ideal é manter fora do país a maior parte do dinheiro, aplicando os recursos no Brasil aos poucos e ao longo do tempo, de modo a beneficiar várias gerações. Como Mendonça de Barros e Carneiro, ele diz que o governo deve tomar cuidado para evitar uma valorização exagerada do câmbio. Para Camargo, usar o dinheiro para educação -um dos usos previstos no projeto do Fundo Social -, é um fim bastante nobre, já que o país tem carências importantes na área. Já a ideia de utilizar os recursos para financiar empresas brasileiras no exterior não lhe agrada. “O dinheiro não deve ser usado para beneficiar uma empresa específica, mas a população como um todo, como no caso das despesas com educação.”

Outro ponto importante é como a exploração do pré-sal vai influenciar a estrutura da indústria no país. Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), David Kupfer vê a questão como uma grande oportunidade para a economia brasileira. Para Kupfer ela traz o “grande desafio” de fazer o país pensar no longo prazo, algo que não ocorre há 30 anos. Especialista em economia industrial, ele diz que a exploração do petróleo do pré-sal pode ajudar a dinamizar a indústria metal-mecânica, que já tem um nível de desenvolvimento considerável no Brasil. “Outro ponto fundamental é que o pré-sal pode dar um foco para o sistema de inovação brasileiro”, diz ele, para quem o país precisa ficar atento para evitar a “doença holandesa”, ter a “saúde norueguesa” como uma referência, mas descobrir um “modelo brasileiro” de exploração desse petróleo.

O analista Armando Castelar, da Gávea Investimentos, vê como um desafio evitar que haja uma concentração excessiva de esforços da economia nos segmentos ligados à indústria do petróleo. É preciso tomar cuidado para que os investimentos na infraestrutura voltada ao setor sejam sustentáveis, diz ele. Uma alocação exagerada de dinheiro para esse segmento pode provocar distorções na economia, como a formação de um número exagerado de engenheiros de petróleo, que depois tenham problemas no mercado de trabalho.

Carneiro também considera que o país tem de evitar uma especialização demasiada na indústria do petróleo e em sua cadeia de fornecedores. Um país como o Brasil necessita de uma indústria mais diversificada, que não pode se concentrar num segmento que não é grande gerador de emprego.

22/02/2008 - 15:09h “Um Brasil diferente…” caiu do céu, arrogância tucana não tem limite

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS

Folha de São Paulo

Um Brasil diferente…

O ajuste das contas externas pode ser comparado ao 1º estágio de foguete que pode nos levar ao desenvolvimento

O BANCO Central nos informou nesta semana que um evento extraordinário ocorreu no ultimo mês de janeiro. Pela primeira vez, o Brasil tem reservas cambiais superiores à sua divida externa total. Em outras palavras, nossos compromissos em dólares, privados e públicos, são menores -o BC estima em US$ 4 bilhões- do que os ativos brasileiros no exterior. Embora essa situação estivesse prevista por quem acompanha as estatísticas quase dia a dia, a sua confirmação me causa um sentimento estranho. Como nossa economia mudou nesta última década!

Antes de fazer um juízo de valores sobre essa nova situação, quero deixar bem clara uma posição que defendo há algum tempo: a fragilidade externa de nossa economia foi a causa principal de nossos problemas econômicos que ocorreram a partir da segunda metade dos anos 70 do século passado. Por isso a informação divulgada pelo Banco Central, apesar de já esperada havia tempos, tem uma importância tão grande.

Ela marca o fim de uma época de crises constantes, crescimento medíocre e altamente instável, estagnação da renda da população e piora da distribuição de renda por conta da inflação elevada. Embora um grande número de economistas justifique o martírio dos últimos 30 anos a partir de várias outras distorções em nosso sistema econômico -pequena abertura para o exterior, riscos de natureza jurídica, sistema tributário irracional entre outros-, fica claro hoje que a fraqueza de nossa moeda era a mãe de todos os problemas que enfrentamos.

Não digo que, resolvida essa questão -e ela está hoje resolvida dentro de um horizonte de tempo longo-, os outros problemas que herdamos do passado desaparecerão. Mas afirmo, com convicção, que, sem resolver a questão externa, não havia mecanismos para enfrentar -e vencer- esses outros desafios.

Muitos vão certamente contra-argumentar -e tentar jogar água fria no meu entusiasmo- com afirmações como a de ser um absurdo um país como o Brasil ter uma posição credora externa. Nós precisaríamos de poupança vinda de fora para financiar nosso desenvolvimento. Essa afirmação poderia estar correta em um mundo econômico diferente do atual. Mas a experiência das últimas décadas mostra que os países em desenvolvimento que obtiveram maior sucesso em termos de crescimento foram, na maior parte dos casos, os que mantiveram a conta corrente em equilíbrio ou até superavitária.

O ajuste das contas externas é um presente, um efeito colateral do crescimento asiático, que elevou nossos termos de troca. Pode ser comparado ao primeiro estágio de um foguete que pode nos levar ao desenvolvimento. Mas esse primeiro estágio é apenas condição necessária, não suficiente, para que o Brasil consolide um novo patamar de desenvolvimento. Os próximos estágios não cairão do céu. O país precisará construí-los com firme ação do setor privado e do Estado, este como indutor do desenvolvimento.

Isso demanda investimento colossal em educação, saúde e infra-estrutura, áreas com escasso progresso no que depende da ação estatal. Implica que o governo deixe de ser um peso morto e busque aumentar sua produtividade. Implica reformas estruturais em diversas áreas.

A boa notícia é que temos algum tempo para construir essas condições. A má notícia é que não será o governo Lula, por absoluta inépcia, a fazer o que é preciso.


LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS, 64, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo FHC).lcmb2@terra.com.br