02/07/2009 - 11:33h O método é o homem

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Kassab é um bom inaugurador de ideias, as quais ocupam generoso espaço na mídia. Algumas das ideias, Kassab as inaugura várias vezes, ao ponto que alguns já chegaram a noticiar realidades inexistentes, basados exclusivamente na força das ideias inauguradas por Kassab.

O exemplo da Cracolândia ilustra bem o método, pois mesmo que cinco anos após a inauguração da ideia da Nova Luz a escuridão continuar a mesma, Kassab passa a ideia de estar executando um projeto urbanístico renovador, e a coisa não andou quase nada.

Enquanto isto, no mundo real da moradia, transporte, saúde, educação e trânsito, a prefeitura de Kassab é de uma mediocridade surpreendente.

Voltemos ao exemplo da questão das vagas em creches, já abordado ontem, e que voltou ao noticiário do jornal AGORA (o único a tratar hoje do assunto).

O ponto de partida é o conflito entre as necessidades das mães de deixar as crianças na creches e a falta de vagas na cidade. A resposta de Kassab foi o da promessa demagógica de acabar com a falta de vagas. Sendo completamente fantasiosa e perante a incredulidade da mídia, Kassab insistiu na sua promessa.

Poderia se esperar que todo o esforço do prefeito estaria voltado para construir mais e mais creches, ampliar a rede das conveniadas e mesmo sem poder atingir a sua promessa irrealista, dar grandes passos na via de melhorar a situação.

Mas é o contrário o que acontece. Enquanto as obras e os investimentos estão parados, os esforços de Kassab são os de encontrar o jeito de manipular os dados para vender a ideia de resultados.

Fez uma nova lista recadastrando as solicitudes de vagas e eliminando uma boa parte da demanda. Depois retirou mais de 40 mil crianças de 3 anos das creches e as passou para as Emeis (leia o editorial do jornal AGORA, reproduzido embaixo).

Mesmo assim, a demanda aumentou (ver artigo após o editorial do AGORA). A situação piora e o Ministério Público intervém para que Kassab não provoque, com suas manipulações grosseiras, danos irreparáveis na formação das crianças e para que amplie realmente as vagas ofertas em creches.

O método de Kassab não é novidade, a direita populista usou e abusou desse estilo, aproveitando o conservadorismo do eleitorado de São Paulo.

Dos mesmos que engoliram Maluf e Pitta, os que elegeram o caçador de marajás em 89, que votaram a contra-mão do Brasil em 2006 e que estão entre os que recebem o maior volume de informações da mídia.

“Me engana, que eu gosto” parece ser o lema e pouco importa a realidade dos que mais precisam do poder público. Enquanto esse conservadorismo continuar a influenciar a ampla maioria dos eleitores de São Paulo, o “método” de Kassab continuará a reinar entre nós.

Sem as creches. LF

02/07/2009 - 10:54h Apesar da manipulação de Kassab, cresce a demanda por creche na cidade

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EDITORIAL DO JORNAL AGORA

Todo mundo na pré-escola

A matrícula de crianças de três anos na pré-escola fez a Promotoria da capital mandar a prefeitura preparar um estudo sobre a situação. Dentro de um mês, o material tem que estar pronto. Outro estudo, da USP, foi levado em maio à Promotoria e defende a matrícula das crianças de três anos em creches. Há 48 mil dessas crianças na pré-escola –elas farão quatro anos, segundo a prefeitura, ainda neste ano. Normalmente, está no pré quem tem entre quatro e cinco anos de idade.

A principal diferença entre as duas etapas é o limite de crianças por sala. Enquanto no pré pode haver até 35 alunos, nas creches, o máximo são 18. Quem é contra o ingresso das crianças de três diz que essa é uma manobra para reduzir a demanda por educação infantil. A fila para vaga em creche hoje tem 84 mil crianças.

Até 2007, o município determinava que crianças de três anos tinham de ser matriculadas em creches. No ano passado, reduziu para dois, e hoje não há definição.

A barbeiragem, que pega uma brecha da principal lei da educação, prejudica também as mães, já que nas creches as crianças podem ficar por até dez horas, enquanto a carga horária da pré-escola é de quatro a seis horas/dia.

Ainda que a prefeitura mude as regras para tentar se manter dentro delas, deve saber que está mexendo no problema errado. Seria melhor se concentrar em melhorar e ampliar as creches municipais. É um dos problemas mais graves da gestão de Gilberto Kassab (DEM) e não pode ser resolvido só na base da canetada.

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Cresce em 17 mil a demanda por creche

Gilberto Yoshinaga do Agora

A fila de espera por uma vaga nas creches de São Paulo ganhou 17.188 novos nomes em apenas três meses, segundo balanço divulgado ontem pela Secretaria Municipal da Educação. No último levantamento, em março, havia 67.619 pessoas na fila de espera. Hoje, segundo a prefeitura, são 84.807 crianças fora das creches. O aumento, de mais de 25%, segue em direção contrária à promessa de campanha do prefeito Gilberto Kassab (DEM), que pretende zerar esse número até 2012.

Dos 96 distritos da cidade, conforme divisão feita pelo relatório da prefeitura, a fila de espera só diminuiu em cinco: Água Rasa, Limão, Pinheiros, República e Vila Leopoldina. Em todas as outras localidades da cidade, a procura por vagas em creches municipais aumentou.

A maior demanda está no Grajaú (zona sul de SP), onde 4.945 crianças estão na fila. No ranking das regiões mais preocupantes, também estão outros dois bairros na zona sul. No Jardim Ângela, há 3.678 bebês na fila de espera e, no Jardim São Luís, 3.622.

Mas o verdadeiro número de mães que aguardam uma vaga para colocarem seus filhos em creches é ainda maior. Segundo a prefeitura, outras 3.883 crianças que estão na lista de demanda preferencial –pessoas que conseguiram a vaga em uma creche, mas solicitaram a transferência para outra unidade e estão sem atendimento.

A prefeitura não explicou por que a fila de espera aumentou. Em nota, a Educação compara o número atual ao registrado em junho do ano passado, quando a demanda era de 110 mil. A pasta fala apenas em “permanente redução da demanda”, sem citar os dados atuais.

16/03/2009 - 17:39h Uma mulher na presidência

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Rose Marie Muraro (Escritora) – Correio Braziliense

Um estudo publicado pelo Banco Mundial (Engendering Development, Oxford University Press) mostra que, nos países em que a mulher alcança perto de 50% do poder, a corrupção tende a cair drasticamente. Entre eles, o estudo analisa mais detalhadamente cinco casos: Suécia, Noruega, Dinamarca, Islândia e Finlândia.

Se consultarmos as listas das Nações Unidas sobre os índices de Desenvolvimento Humano (IDH) e de Desenvolvimento de Gênero (IDG), além dos índices da Transparência Internacional, veremos que todos se encontram entre os primeiros lugares, mostrando assim que transparência, empoderamento das mulheres e desenvolvimento humano estão intimamente ligados.

Esses países — e mais alguns outros — apresentam menor desigualdade de renda, maior grau de instrução da juventude, suporte governamental a mães e pais para cuidar das crianças pequenas sem a perda dos respectivos empregos, treinamento dos homens para as suas funções parentais antes e depois do nascimento da criança, cuidado com os mais velhos bancado pelo governo, vigiados pela sociedade civil, e assim por diante. Além disso, eles possuem economias mais integradas, pouca ou nenhuma dívida governamental, inclusive com o FMI etc.

Por outro lado, os países mais ricos do mundo — EUA, Japão e Alemanha — estão em posições bem inferiores nesses índices citados.

Por exemplo, quando, em 1977, dei um curso na Universidade de Massachusetts, EUA, as mulheres me disseram que, caso engravidassem, perderiam imediatamente os empregos, fato baseado no princípio de que as empresas têm direito de não prejudicar a sua produção. Foi somente em 1978 que as americanas conseguiram uma lei que lhes permitiu ficar três meses em casa e, depois, retornar aos empregos, mas sem receberem salário durante esse período de licença. E isso até hoje, sendo que a riqueza americana mais que duplicou.

Observe-se que mais de 80% das mulheres daquele país pertencem à categoria de empregadas mal remuneradas, que tiveram pouco ou nenhum ganho com as benesses da globalização. Assinale-se também que em nenhum desses países mais ricos do mundo as mulheres atingiram 20% da participação nos vários níveis de poder.

Comparemos esses exemplos com o resultado de outro estudo importantíssimo, do Unicef, o Relatório da Integração da Infância e da Adolescência Brasileiras (2004), que mostra que as crianças filhas de mãe com baixa ou nenhuma escolaridade têm sete vezes mais possibilidades de serem pobres, 11 vezes mais possibilidades de não frequentarem a escola (de 7 a 11 anos) e, principalmente, 23 vezes mais possibilidades de serem analfabetas, se a mãe for analfabeta.

E quais são as inferências que esses três tipos de países poderiam nos suscitar? No meu primeiro livro, A mulher na construção do mundo futuro (ed. Vozes, 1966), afirmava não ser possível um país se desenvolver se não se desenvolvesse a sua metade feminina. Isso porque, quando se educavam os homens, estes tendiam a aplicar os seus conhecimentos construindo pontes e cidades, sistemas políticos e econômicos, enquanto as mulheres passavam os seus conhecimentos para os filhos, modificando, assim, a estrutura humana da cadeia de gerações. Educar um homem era educar um indivíduo, ao passo que educar a mulher era educar a sociedade.

Hoje penso de modo um pouco diferente. Não são as sociedades que mudam; é a própria espécie que evolui quando, além de se educarem, as mulheres partilham o poder com os homens. Por exemplo: em países mais ricos em que a mulher tem pouca influência nas estruturas, a competição desenfreada do livre mercado desequilibra as economias. Segundo Paul Krugman, os 20% mais pobres aumentaram os seus rendimentos apenas em 58% durante a década de 1990; o 1% mais rico aumentou-a em 282%; e, para 0,01% do topo da pirâmide, os ganhos cresceram 599%. Excluindo os ganhos de capital, isso torna os EUA não mais uma sociedade de classes, e sim uma sociedade de castas! (The Nation, 5/1/2004.)

Se no Brasil o governo e a sociedade se empenharem numa educação para homens e mulheres, enfocando a importância da educação das meninas, com ênfase em gênero, e se os poderes decisórios abrirem mais oportunidades para as mulheres nos primeiros escalões, certamente o processo de desenvolvimento humano (logo também o econômico) se agilizará e, consequentemente, expurgará décadas de estagnação — tudo isso praticamente sem custo. É por isso que apoiamos uma mulher para a presidência: Dilma.

15/03/2009 - 15:16h de sonho, medo e felicidade

Maioridade

Marisa Cauduro/Folha Imagem

O músico Jurandir Bueno, 62, com sua namorada, Sônia Arakaki, 62, bailarina

O velho-novo

Em um de seus poemas, Paulo Leminski fazia uma pergunta reveladora: “Que podia um velho fazer / nos idos de 1916,/ a não ser pegar pneumonia, / deixar tudo para os filhos / e virar fotografia?”.
No Brasil do ínicio do século passado, os tais velhos eram muito mais moços; a expectativa de vida ao nascer era de 34 anos. Em 2007, último dado disponível no IBGE, havia saltado para 72,6 anos. Longevidade, anticoncepcional, liberação sexual, divórcio e avanços da medicina tornaram obsoleto aquele velho precoce. Mudou tudo, inclusive os termos. Em vez do sexagenário aposentado (alguém recolhido a seu aposento), expressões mais fiéis, como terceira e quarta idades, que indicam uma sequência natural e mais vida pela frente.
Há um velho-novo nas ruas, e a Folha foi a campo, em pesquisa nacional inédita, para responder quem ele é, como vive e o que pensa.

Sensibilidade


Saúde e casa própria são as aspirações mais citadas; violência é o grande medo; maioria se diz feliz, mas acha que os outros não são (nem os jovens)

Rafael Andrade/Folha Imagem

Pescador desde 1955, Fernando Barros, o Maricá, completa 80 anos em abril, mas quer continuar pescando até os cem, “se Deus permitir”

MÁRIO MAGALHÃES – FOLHA SP

EM SÃO PAULO E NO RIO

Até onde mergulha a memória de Fernando Barros, o mar já engolfou dois companheiros seus, da colônia de pescadores do posto 6, no cantinho direito da praia de Copacabana.
Por pouco ele não fez companhia a bagres e badejos embaixo d’água. “Durante um temporal, com muito vento, eu fui parar lá em Niterói”, recorda. “A canoa virou duas vezes, desvirou e veio embora.”
De susto em susto, ele não se assusta mais. Nem no mar, nem na terra. “Não tenho medo de morrer, de ficar doente, de nada. Se ali é um perigo, eu digo: vou passar é ali.”
Com uma dupla de colegas, ele embarca antes das 6h em uma canoa movida a motor e volta cinco horas depois. De domingo a domingo. Está nessa lida desde 1959. Sua função é puxar, no braço, as redes e linhas que outrora capturavam 150 kg, 200 kg de pescado e que hoje só emergem com pouco mais de uma dúzia de exemplares.
Numa quinta-feira ensolarada de fevereiro, ele pescou a sorte grande: atracou na areia com seis peixes-enxada, seis tamboris, quatro linguados, três pargos brancos e uma arraia. No mês que vem, Barros, conhecido na praia como Maricá, completa 80 anos.
De cada três brasileiros com 60 anos ou mais, dois (67%) se comportam como Maricá e dizem não temer a própria morte. Em contraste com os jovens, somente 11% identificam sua morte como o maior medo –são 23% entre os que têm de 16 a 25 anos, segundo outra pesquisa, entre jovens, realizada no ano passado.
“Na hora em que a morte chega não há opção”, diz a dona-de-casa Maria Dulce dos Santos Silva, 62, moradora do bairro de Ermelino Matarazzo, na zona leste de São Paulo. “Da morte Eu tenho medo é da vida”, emenda o metalúrgico aposentado Paulo Pecoraro, 64, colega de Maria Dulce em aulas de violão oferecidas pelo governo do Estado.
“Tenho medo de violência e de ficar doente, na dependência de outras pessoas, a coisa mais triste que existe”, conta Paulo. Temores associados à violência constituem o maior medo (25%) declarado pelos idosos do país. Seguem os medos com problemas de saúde (18%) e a morte -17%, incluindo a de parentes. Declaram não ter medo 22%.
O comerciante aposentado Szaja Frank, 89, polonês radicado no Brasil desde 1948, foi vítima de assalto em sua loja poucos anos atrás. Seu medo maior “Ser assaltado.” Sua mulher, a dona-de-casa brasileira Brana Rubinsky Frank, 81, teme as enfermidades: “A gente vai dormir bem e tem medo de acordar com dor”.
Em uma manifestação de longevidade do amor, são quase 60 anos de casamento, Brana passou a despertar de madrugada para confirmar que o coração do marido batia -como pais costumam fazer com bebês. “Eu ficava tocando nele para ver se ele se mexia.”
Brana diz que a mania já passou, mas Frank revela que nem tanto. “Hoje eu fico deitado, e ela vem ver se eu estou dormindo.” Encontrando-os no passeio diário na praça Buenos Aires, em Higienópolis, reduto de classe média para cima, a preocupação soa exagerada. Soldado do exército soviético na guerra (1939-45), Frank ostenta boa forma.
Em outra praça, a “do Forró”, no bairro proletário São Miguel Paulista (zona leste de São Paulo), o segurança aposentado João Raimundo da Silva, 69, constata: “Quando eu era jovem não tinha nada. Hoje também não tenho nada”.
O tom de conformidade não lhe roubou os sonhos. Nenhum supera o de “ter uma casa”. Ele mora de favor com uma família, ganha o mínimo, poupa R$ 200 por mês e ignora quanto custa uma casa.
Sonhos associados à moradia são os principais dos brasileiros mais velhos (19%), ao lado de ter saúde ou recuperá-la (18%) e à frente dos anseios ligados à família (12%) -11% não cultivam sonhos. Conforme o Datafolha, a aspiração de possuir uma casa própria é a número um para 10% dos idosos e 10% dos jovens.
Em outro banco da “praça do Forró”, o vaqueiro aposentado Jaime Benigno Ribeiro, 69, amaldiçoa o infarto que o apeou da vida mais saudável. Ainda assim, como 2% das pessoas da sua faixa etária, seu sonho supremo é arrumar trabalho. “O negócio era uma fazenda para eu tirar leite.”
Sem saúde, com dinheiro escasso e viúvo duas vezes, Ribeiro desencantou-se: “Não tenho felicidade, não”. Ele forma a minoria: meros 2% dos velhos se dizem infelizes -20% afirmam-se mais ou menos felizes, e 78%, felizes.
Indagados sobre a felicidade alheia, contudo, sustentam que apenas 32% dos idosos brasileiros são felizes. Isso é, infelizes são os outros.
De volta da pescaria, Maricá relaciona sua felicidade à saúde. “Comigo é o contrário: se ficar parado uma semana, sinto o corpo todo dolorido.” Descarta pendurar os anzóis: “Se Deus permitir, sigo até os cem anos pescando. É tempo brabo, é temporal, é mar brabo, e a gente vai embora”.

o sonho da casa própria é bem maior entre elas 12%

entre os homens, não passa de 7%

quando a pergunta é sobre bens materiais, a situação se inverte: 12% eles x 5% elas

28% é o índice dos que sonham com saúde na faixa acima dos 75

34% das mulheres têm medo da morte, contra 30% dos homens

67% dos separados se dizem felizes, abaixo da média geral, de 78%

Intimidade

sexygenários

47% fazem sexo regularmente e, destes, 91% dizem nunca ter usado remédio para disfunção erétil

PAULO SAMPAIO
DA REPORTAGEM LOCAL

Do bolso do microempresário Nélson Oliveira, 66, não sai um tostão para comprar Viagra. E ele garante que, desde que se casou, há 48 anos, transa diariamente com a mulher. Ao lado, Néia, 65, só confirma. “É sim, é sim.”
Quando o assunto é desempenho sexual, com frequência se apela a uma testemunha –ainda mais quando quem fala é alguém do sexo masculino e de terceira idade.
Feitas as contas, Oliveira teve com a mulher 17.540 relações nesses quase 50 anos, pontual como um relógio cuco e sem ajuda química.
Esse índice de “abstenção zero” pode gerar polêmica, mas, a julgar pelo Datafolha, a vida sexual após os 60 é mais movimentada do que prega a maledicência popular, que costuma enxergar na terceira idade o fim do erotismo.
Quase metade dos idosos ouvidos na pesquisa declara ter relações sexuais –um quarto deles, uma vez ou mais por semana. Mesmo na faixa dos maiores de 75, 24% se revelaram sexualmente ativos.
Os mais afoitos podem dizer que, com o advento das drogas para disfunção erétil, agora é fácil. Só que 88% dos homens entrevistados dizem nunca ter usado remédio, embora até admitam alguma mudança no desempenho.
Exemplo: o músico Jurandir Bueno, 62, retratado na capa deste caderno com a namorada, a bailarina Sônia Arakaki, 62, jura que nunca tomou nada e que vai transar até o fim da vida; confia no próprio corpo, diz. Só faz uma ressalva: “O processo é demorado”. “Gosto de conhecer bem a pessoa, preciso estar envolvido. Não sou uma máquina!”
Jurandir “pesquisou” a bailarina durante quatro meses, até irem para a cama. “Eu também não estava com pressa. Com a idade, as coisas ficam mais tranquilas”, conta Sônia, que foi casada durante 20 anos e tem três filhos.

Reféns do machismo
Em qualquer faixa etária, é previsível uma dose de exagero ou, digamos, de inverdades sobre o desempenho sexual, afirma o geriatra Wilson Jacob Filho, colunista da Folha. Ainda mais quando mexe com alguns tabus da masculinidade. “O que se espera deles é que se mantenham viris, e os que não são suficientemente esclarecidos associam a dificuldade sexual à incompetência, e não a doenças como diabetes, hipertensão, depressão ou problemas na próstata.”
Jacob dá um exemplo de como a imagem é fundamental. “Quando o HC tinha o Laboratório da Impotência, atendia dez pessoas. Mudaram o nome para Laboratório da Disfunção Erétil, e o número de pacientes foi para uns 10 mil”, conta, rindo.
Na pesquisa Datafolha, a diferença de visão do sexo entre homens e mulheres revela um dado paradoxal: 74% dos homens afirmam ter vida sexual ativa, enquanto 76% das mulheres dizem exatamente o contrário. Considerando que o índice de casados de terceira idade é 47%, com quem eles transam?
Existem várias possibilidades, dizem os especialistas: sozinho (masturbação), com companhias eventuais ou usando outras formas de atingir o orgasmo, sem penetração peniana.
E as esposas “Muitas mulheres consideram sua missão sexual cumprida depois da procriação e acabam consentindo tacitamente que o marido se mantenha ativo”, diz Dorli Kamkhagi, da USP.
Embora faça questão de sexo, a cabeleireira Sônia Maria Gonçalves, 63, casada três vezes, três filhos, conta que, com a menopausa, dispensou temporariamente os “serviços” do segundo marido.
“Acabou a euforia. Ele foi o homem que mais me ensinou coisas, mas mesmo assim eu não queria saber de sexo. Até disse: ‘Pode procurar outra, que comigo não rola’.”
Há seis meses, Sônia descobriu um câncer de mama e retirou o seio direito, mas diz que isso não atrapalhou em nada o relacionamento entre ela e o atual marido, que tem 54 anos. “No começo fiquei constrangida, mas ele disse que isso era bobagem e pediu para ver o curativo.”
A palavra-chave é compreensão, define o empresário Wanderlei Marques, 62, casado há 32 anos. “Quando você é recém-casado, toda hora é hora. É aquela loucura. Mas, como a gente faz muitas vezes, a qualidade fica pra depois.”
Ele conta que, em todos esses anos, o período sexual mais difícil foi quando nasceu o primeiro filho. “A mãe, ali, é só da criança. Se você estiver com vontade, vai continuar.”
Wanderlei não se incomoda em dizer que usa remédio. “Não adianta dizer que a disposição sexual não cai com a idade. Por sorte, a medicina está a nosso favor.”
E manda seu último recado: “Não existe Viagra pra mulher. Então, se você toma o comprimido, mas ela está fria, não adianta nada”.

Leia a integra da pesquisa no caderno especial da Folha de São Paulo

12/03/2009 - 16:58h Um arcebispo mais ou menos

CONTARDO  CALLIGARIS

FOLHA SP



Lula se expressou numa ordem perfeita: ele é (primeiro) cristão e (segundo) católico


NA SEMANA passada, no Recife, descobriu-se que uma menina de nove anos estava grávida de gêmeos. A mãe imaginava que a barriga crescente fosse o efeito de um parasito. Mas não era um parasito; era o padrasto, que abusava regularmente a menina e a irmã (de 14 anos, portadora de uma deficiência mental). O abuso começou quando as crianças tinham, respectivamente, seis e 11 anos.
O padrasto foi preso, e uma equipe médica, autorizada pela mãe, interrompeu a gravidez da menina, seguindo a lei brasileira, que permite a interrupção de gravidez em caso de risco de vida para a mãe e também em caso de estupro. Quem conhece alguma menina de nove anos pode facilmente imaginar o que significaria submeter aquele corpo a uma gravidez completa e a um parto duplo.
Além disso, qualquer um pode intuir que carregar na barriga, parir e “maternar” o fruto de um estupro é devastador para a mãe assim como para os eventuais rebentos dessa catástrofe. Alguém dirá: “Mas a mulher acabará esquecendo o estuprador (que foi gentil, nem a matou, não é?), e o sentimento materno prevalecerá”. Esse conto de fada (machista) não se aplica no caso da menina de Recife.
Pede-se o quê? Que ela esqueça que, durante três anos, quem devia ser para ela o equivalente a um pai se serviu de seu corpo de uma maneira que ela não tinha condição de entender e num quadro em que ela não tinha a quem recorrer, é isso? No meio da semana, o arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, declarou que os que estivessem envolvidos na interrupção da gravidez da menina (a mãe, os médicos, os enfermeiros) fossem excomungados. Agora, o padrasto não; pois o crime dele seria mais leve. Isso, segundo o bispo, é a “lei de Deus”. O bispo se confundiu: essa não é a lei de Deus, é a lei da Igreja Católica.
E faz alguns séculos que essa igreja não tem mais (se é que um dia teve) a autoridade moral para ela mesma acreditar que seus decretos sejam expressão da vontade divina. Portanto, sua persistência em tentar convencer os fiéis de que a voz da igreja coincide com a voz de Deus se parece estranhamente com a conduta do padrasto da história (e de qualquer pedófilo): trata-se, em ambos os casos, de tirar proveito da “simplicidade” de crianças e ingênuos. Mas voltemos aos fatos. O presidente Lula, “como cristão e como católico”, achou lamentável a declaração do arcebispo. Dom José não gostou e afirmou que o presidente Lula é “um católico mais ou menos”.
O presidente Lula se expressou numa ordem perfeita: ele é (primeiro) cristão e (segundo) católico. Ou seja, se a igreja diz algo que contraria seu entendimento da mensagem de Cristo, tanto pior para ela. A mensagem cristã da qual se trata não tem a ver com a interrupção de gravidez. Ela é mais fundamental: trata-se da liberdade do indivíduo e da consciência em sua relação com Deus. Explico.
É trivial constatar que, na modernidade, a decisão moral é um questionamento constante e, às vezes, atormentado: cada um, levando em conta as ideias de seu grupo, seus valores mais singulares, seus sentimentos, sua fé (se ele tem uma) e os fatos (caso a caso), chega a uma decisão ou a uma opinião que acredita justa. Um pouco menos trivial é lembrar que esse aspecto da modernidade é o melhor fruto da tradição judaico-cristã e, mais especificamente, da novidade cristã, pela qual Deus pode ser o mesmo para todos porque ele não se relaciona com grupos ou pelo intermédio de grupos, mas com cada indivíduo, um a um.
Ser moderno não significa topar qualquer parada e perder-se no relativismo. Ao contrário, ser moderno (e ser cristão) significa tomar a responsabilidade de decidir no nosso foro íntimo o que nos parece certo ou errado. Claro, é mais difícil do que procurar respostas feitas e abstratas no direito canônico. Mas, contrariamente ao que deve achar dom José, ninguém nunca disse que ser cristão (e moderno) seja fácil.
Felicito o presidente Lula, que falou como cristão, ao risco de parecer “católico mais ou menos”. Quanto a dom José, ele falou como católico e se revelou como um “cristão mais ou menos”. O dia em que ele quiser ser cristão, ele nos dirá, com suas palavras, por que e como, em seu foro íntimo, acha o gesto de quem interrompeu a dupla gravidez de uma criança de 30 quilos muito mais grave do que a abjeção de um padrasto que, por três anos, estuprou suas enteadas.

ccalligari@uol.com.br

11/03/2009 - 16:33h Estupra, mas não aborta

MARCELO COELHO

FOLHA SP



A atitude desse arcebispo é tão estreita e sem caridade, que fica até vulgar criticá-la


BOMBAS DE fragmentação, também chamadas de “cluster” ou bombas-cacho, funcionam assim. Você lança uma bomba sobre uma área mais ou menos indefinida, uns quatro campos de futebol, digamos. Pontaria não é o importante.
O objetivo não é destruir um alvo muito específico, como um centro de atividades terroristas, uma ponte, ou uma fábrica de armamentos no país inimigo.
A bomba que você lançou -pode ser chamada de “bomba-mãe”- dá à luz centenas de bombas menores, que se espalham pela região, como se fossem uma chuva de granadas.
Como ninguém é perfeito, muitas dessas “granadas” ou submunições não explodem na hora certa e ficam no solo, à espera de que uma criança invente de tocar nelas. De modo que a região se transforma num verdadeiro campo minado.
Leio que, segundo a Cruz Vermelha, há 400 milhões de pessoas vivendo em terrenos semeados com essas bombas.
O Brasil é um dos países que produzem, estocam e exportam esse artefato bélico.
Por isso mesmo, o Brasil participou apenas como observador de uma convenção internacional no ano passado, na Noruega, em que 94 países assinaram um tratado para banir essas bombas.
Não creio que qualquer nação do mundo possa reivindicar foros de santidade em questões de defesa militar. Mas o Brasil até que tem um currículo razoável, se comparado a muitos outros países.
Acontece que as tais bomba “lança-granadas” são produzidas aqui. E exportadas, pelo que se sabe, a países como Irã e Arábia Saudita. O Brasil ficou, portanto, sem assinar nada. Isso foi em dezembro.
Mais informações no site da ONU www.mineaction.org e também em www.clusterconvention.org. Este último site afirma, aliás, que na próxima quarta-feira, 18, há mais uma chance para assinar o tal tratado. Um evento com esse objetivo será realizado na sede da ONU, em Nova York.
Bem que o arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, poderia aproveitar o embalo dos últimos dias e excomungar os produtores brasileiros dessas tais bombas de fragmentação.
Na pessoa do presidente da Comissão Pontifícia para a América Latina, o cardeal Giovanni Re, o Vaticano manifesta seu apoio ao arcebispo de Olinda e Recife, que excomungou a mãe de uma menina de nove anos, grávida de gêmeos após ter sido estuprada pelo padrasto. A mãe da menina autorizou o aborto. Os médicos que o fizeram foram excomungados também.
A atitude desse arcebispo é tão estreita e sem caridade, que fica até vulgar criticá-la como merece. Mas quando leio que o padrasto, o homem acusado de estuprar a menina, não foi excomungado, não resisto à tentação.
Assim como se martelou muito a frase de Maluf sobre o “estupra, mas não mata”, bem que dom José mereceria ser celebrizado pelo “estupra, mas não aborta”.
Não vou discutir a questão do aborto neste espaço. Uns serão contra com motivos importantes, outros, como eu, são a favor de sua legalização.
Mas veio de um padre, evidentemente contrário ao aborto, uma atitude mais bonita nesse episódio. Márcio Fabri dos Anjos, que é também professor de bioética, declarou na TV outro dia que “a primeira palavra que eu esperava ouvir da Igreja é a de que Deus está do lado de quem sofre”. A própria nota oficial da CNBB mostra atitude mais hábil e reflexiva que a do arcebispo.
Afinal, por que não ouvir, dialogar e consolar, antes de condenar?
Fora da discussão do aborto, o que mais me incomoda é a “pauta”, como se diz em linguagem jornalística, que a hierarquia católica segue na maior parte do tempo.
Parece que tudo se resume a condenar a camisinha, no lado conservador, ou discutir a privatização da Vale do Rio Doce e a Alca, no campo da esquerda.
Lideranças católicas no Brasil teriam muitos outros assuntos a tratar. Por que não reclamam, por exemplo, de coisas como a propaganda de cerveja na televisão ou da exposição das crianças ao consumismo desenfreado?
Em casos como esses, fugiriam de uma teimosia doutrinária quase talebânica e poderiam construir algum consenso, para variar um pouco. E, já que se trata de defesa da vida, podiam pensar nas bombas que o país produz, em vez de condenar a mãe de uma menina de nove anos estuprada pelo padrasto.

coelhofsp@uol.com.br

09/03/2009 - 16:31h Os excomungados

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Cláudio Gonçalves Couto – VALOR

O noticiário da semana que passou ficou marcado pela polêmica travada em torno do aborto legal dos fetos gêmeos de uma menina de apenas nove anos de idade, sistematicamente violentada pelo padrasto, que acabou por engravidá-la. O evento, por si só, já seria suficiente para suscitar a atenção da opinião pública e do público em geral, tendo em vista o horror que justamente provocam na sociedade violências física e moral do tipo a que foi submetida essa criança. Ademais, a solução do aborto, embora legal, aparece como também socialmente controversa em virtude das convicções e dúvidas que muitos alimentam em torno dela em decorrência de suas crenças religiosas, científicas ou simplesmente humanitárias.

O ápice da polêmica, contudo, deveu-se às declarações do arcebispo de Olinda e Recife, D. José Cardoso Sobrinho. O religioso veio a público dar conta de que seriam excomungados não só todos os membros da equipe médica envolvida com o procedimento abortivo, mas também a mãe da criança – que se recusou a ouvi-lo, apesar das tentativas que fez de contatá-la para convencê-la de que sua filha deveria levar a gravidez até o fim, a despeito dos riscos que tal opção comportava. No entendimento da Igreja, os riscos da sobrevivência da menina não justificariam o aborto.

Mas que significado tem a excomunhão? Ao excomungar os profissionais de saúde e a mãe da criança, a Igreja Católica colocou-os para fora de sua coletividade. A razão para isto foi o desrespeito por parte dessas pessoas, supostamente católicas, a algumas de suas normas fundamentais. Da mesma forma que partidos expulsam de suas fileiras correligionários infiéis que tomam posicionamentos públicos inconsistentes com as diretrizes da legenda, igrejas defenestram seguidores que não se mostraram suficientemente fiéis. Cada organização procura assegurar a disciplina de seus componentes lançando mão dos recursos que tem à mão. E uma vez que as normas da Igreja são claras a este respeito, estipulando a sanção terrena do expurgo para determinadas transgressões, dentre as quais figura todo e qualquer aborto, não teríamos por que nos surpreender com a medida anunciada pelo arcebispo. Ela é consistente com posições que a Igreja Católica vem enfaticamente defendendo nos últimos anos.

O estupor social diante da excomunhão, contudo, é causado por dois fatores. Em primeiro lugar, porque o posicionamento de boa parte da sociedade sobre um caso como este dista bastante daquele da Igreja. Para parte considerável da opinião pública e do público em geral (assim como para a lei brasileira), justifica-se o aborto em alguns casos, dentre eles o da gravidez provocada por violência sexual. O fato de se tratar de uma criança de menos de 10 anos apenas reforça esta percepção. Por isto, a posição inflexível da Igreja é notada por muitos como uma insensatez obscurantista, um sinal de draconiana insensibilidade diante do sofrimento da criança e das consequências que não somente a violência sofrida até aqui lhe causou, mas que poderia ainda lhe provocar a continuidade da gestação. Noutros termos, o primeiro problema é a distância entre o que pensa a Igreja e o que pensa considerável contingente da sociedade contemporânea.

O segundo fator é a percepção que tem a sociedade do estigma de quem carrega a pecha de “excomungado”. Em entrevista à “Folha de S. Paulo” de sábado, o arcebispo indicou que o delito cometido pela equipe médica e pela mãe da criança é, segundo as normas da Igreja, pior do que aquilo que fez o padrasto da vítima: estuprá-la. Ou seja, se merece se tornar um excomungado quem pratica – aos olhos da Igreja – um crime maior do que matar e estuprar crianças, entende-se que os excomungados devem ser gente realmente detestável, pior do que os pedófilos e assassinos. Não é à toa que o termo “excomungado” tornou-se um xingamento comum na linguagem popular, disparado contra aqueles que nada valem. Assim, quando um representante da Igreja anuncia a excomunhão de pessoas que – aos olhos de grande parte da sociedade – fizeram o certo, e ainda defende que o “crime” do aborto é pior do que o estupro de uma criança por um familiar, pode-se imaginar a indignação que causa. Vale dizer que a própria CNBB procurou depois esclarecer que a excomunhão foi automática, tendo D. José Cardoso apenas comunicado o ocorrido.

O irônico desta história é que a excomunhão num caso como este pode simplesmente ser inócua. A razão é que alguns dos excomungados talvez sequer sejam mais membros da comunhão da qual se procura exclui-los. Segundo o Censo de 2000, 73,5% dos brasileiros eram católicos. Hoje este número deve ser ainda menor, tendo em vista o crescimento das igrejas evangélicas e dos brasileiros sem religião, sempre em sacrifício do número de católicos – segundo o Censo, estes eram 83,5% em 1991, indicando declínio de seguidores da ordem de 10% em menos de 10 anos.

Além disto, muitos dos autoproclamados católicos brasileiros são na realidade fiéis ao estilo do presidente Lula, amargamente criticado pelo arcebispo pernambucano. Como Lula, eles não consideram que a Igreja esteja sempre certa, optam por seguir um modo de vida pouco afeito ao que preconizam as normas católicas (sem que se sintam culpados por isto) e não são praticantes. Em suas vidas a religião é muito mais um espaço de eventual refúgio emocional e lócus para o cumprimento de convenções sociais (como o batismo e o casamento), do que uma rígida referência para a ação e o julgamento moral. Não é à toa que nos jornais desta semana podiam-se ler cartas de indignados leitores que se declaravam católicos e, ao mesmo tempo, condenavam veementemente a posição da Igreja. Esta deve seguir sendo a tônica reinante. Outros eram ainda mais assertivos: afirmavam que, em virtude do posicionamento oficial da Igreja, optavam por abandoná-la. Noutras palavras, promoviam a voluntária auto-excomunhão.

Em resumo, a excomunhão não deve ser motivo de estranhamento por parte daqueles que divergem das posições da Igreja. O problema, na realidade, não está aí. Está, isto sim, na distância entre o que prega a Igreja e o que acredita boa parte da sociedade – em particular, muitos de seus presumidos seguidores. Portanto, o número de excomungados deve continuar aumentando – em muitos casos, por conta própria.

Cláudio Gonçalves Couto é cientista político, professor da PUC-SP e da FGV-SP. O titular da coluna, Fábio Wanderley Reis, está em férias

E-mail claudio.couto@pucsp.br

09/03/2009 - 13:30h Seja feliz, menina!, por Miriam Leitão

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Miriam Leitão – Blog do Globo

Anoitece no dia da Mulher e este silêncio do blog não é falta do que dizer. É tristeza. O caso da menina de Recife foi devastador. Não, ninguém ignora quantas meninas são vitimas da violência em suas próprias casas. Os algozes são os pais, padrastos, pessoas que deveriam estar ensinando e protegendo. Os números são muitos, os casos que aparecem na imprensa são frequentes. Mas a menina de Pernambuco doeu mais.

Talvez por ter apenas nove anos, por estar sendo estuprada desde os seis, ou porque a chantagem do padrasto era que mataria a mãe. Ou talvez porque ela é bem pequena, menor do que deveria ser para a sua idade. A menina passou anos vendo a irmã também abusada. Só a mãe das duas nada via. O que acontece que cega as mães?

A menina de Recife lembra o quanto a luta da mulher será longa. Recentemente a Sharia, um código tribal brutalmente contra a mulher, foi restabelecida em todo o Paquistão. Acaba qualquer chance de que não aconteçam casos como a da escritora do livro Desonrada, Mukhtar Mai, que foi condenada a ser estuprada publicamente porque seu irmão de 12 anos teria olhado para uma mulher de casta “superior”. O suplicio de Mukhtar, com estupro público e múltiplo, só não foi mais intenso que sua força de superação. A história dessa paquistanesa choca e emociona, mas a notícia de que a Sharia, que tinha começado a ser suprimida no Paquistão, volta a ser usada em todo o país é um choque. Penso em Mukhtar naquela pequena aldeia onde ela decidiu morar e resistir com uma escola para meninas e meninos.

Normalmente eu gosto de escrever nos dias oito de março, de quanto avançamos, mostrando estatísticas de conquistas, e de quanto falta avançar, mostrando as diferenças salariais, o pequeno percentual de mulheres no poder em qualquer país, as discriminações, mas aí… veio a menina de Recife.

Ela simplesmente me enfraquece. Que números de avanços levantar para compensar essa violência?

Eu penso nela diariamente desde o dia da notícia. Não pela polêmica da Igreja Católica, porque a Igreja não me espanta. Que ela excomungue o médico, as enfermeiras, a mãe pela decisão de interrupção da gravidez e que nada diga sobre o estuprador, não me surpreende. É apenas bizarro! Medieval.

Eu penso na menina de Recife e nos debates que tenho participado nos últimos anos, sempre em março. Nesses debates sempre discordo das mulheres bem sucedidas que dizem que a luta está ganha, que o feminismo é um movimento ultrapassado, ou outros equívocos assim. Eu, feminista, confesso, minha luta e meu espanto diante da incapacidade de ver o óbvio: que cinco mil anos de opressão não se acabam em poucas décadas, que há muito a fazer, a construir, a vigiar, para que haja algum dia respeito igual. Falta tanto para o dia em que poderemos dizer que o feministro está superado!

Mas hoje, na verdade, eu penso apenas no futuro dela: a menina curará suas feridas? Conseguirá entender e processar a violência de que foi vítima? Vai estudar, ter carreira, filhos? Vai conseguir amar um dia? Escapará das teias da reprodução da pobreza? Vai simplesmente reaprender a brincar, como deve fazer uma menina de nove anos?.

Eu podia dizer que ela desperta em mim uma fúria feminista. E é verdade, mas é uma verdade incompleta. Ela desperta em mim o o sonho de protegê-la de algum modo. De embalá-la docemente e contar uma história cheia de aventuras e graça. De cantar para ela uma cantiga de roda, de brincar de pique esconde em volta da casa. De ir com ela ao cinema e comer pipoca sentada no degrau de uma escadaria. Que tal um sorvete para resfrescar o calorão?

Não sei o que é. Mas por alguma razão eu penso insistemente na menina de Recife neste dia da mulher. Penso com o coração. Eu apenas sonho que suas feridas se cicatrizem um dia.

O discurso feminista, com estatísticas e fatos eloquentes, eu o farei outro dia. Hoje eu apenas quero sonhar que a menina de Recife um dia, apesar de tudo, após tanta violência, será feliz.

09/03/2009 - 12:38h Infância violentada: Em hospital, meninas grávidas por estupro correspondem a 43% dos atendimentos

O Globo

RIO – Pesquisa realizada no Hospital Pérola Byington, em São Paulo, referência no tratamento de mulheres vítimas de violência sexual, mostra que 43% dos atendimentos diários se referem a meninas com menos de 12 anos que engravidaram depois de estupro. É o que mostra reportagem de Maiá Menezes e Tatiana Farah, publicada na edição desta segunda do jornal O GLOBO. No ano passado, cerca de 3.050 abortos previstos em lei, em mulheres de todas as idades, foram realizados no país, segundo dados do Datasus. ( Miriam Leitão: menina de Recife lembra o quanto a luta da mulher será longa )

De acordo com a reportagem, a maioria das mulheres ouvidas pela pesquisa se diz contrária ao aborto. Mas as vítimas mudam de posição quando a gestação é fruto de estupro. Nenhuma delas afirma ter se arrependido da opção pelo aborto legal.

No Dia Internacional da Mulher, a história da menina pernambucana de 9 anos que se submeteu a um aborto de gêmeos depois de estuprada pelo padrasto foi relembrada. Em São Paulo, manifestantes defenderam o direito ao aborto e cobraram o fim da violência , em passeata que reuniu cerca de duas mil pessoas.

Militantes de movimentos sociais, sindicatos e partidos políticos carregaram cartazes em protesto contra o arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, que excomungou a mãe e os médicos que interromperam a gravidez da menina estuprada pelo padrasto. “Se o Papa fosse mulher, o aborto seria legal” era uma das frases do ato.

“Em vários estados, mulheres têm sofrido perseguições, humilhações e condenações criminais por terem realizado aborto. No Congresso Nacional, está para ser instaurada uma CPI do aborto, cujo resultado trará mais perseguição às mulheres”, diz manifesto distribuído na passeata.

No Rio, o projeto “Mulheres da Paz”, que integra o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania do Estado do Rio (Pronasci-Rio), organizou caminhada com duas mil moradoras de comunidades carentes. À tarde, representantes das nove Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deam) distribuíram, no trem de acesso ao Cristo Redentor, panfletos sobre como denunciar um agressor.

(Leia a íntegra da reportagem na edição digital – só para assinantes)

Passeata pelo Dia Internacional da Mulher na Avenida Paulista – Joca Duarte / Diário de S.Paulo

08/03/2009 - 13:22h Violência contra mulher explode na classe média

“Só procurei o posto de saúde uma vez. Foi quando precisei tomar seis pontos na cabeça. O restante nunca contei para ninguém”


Clarice, 34 anos

apanhou durante 13 anos calada

Levantamento feito pelo JT mostra que, na capital, os índices cresceram mais nos bairros de classe média, como Pinheiros, Vila Mariana, Lapa e Ipiranga


Mulheres que sofrem agressões na capital também moram em áreas nobres, 63% delas vítimas dos maridos

Fernanda Aranda, JT

fernanda.aranda@grupoestado.com.br

A violência contra a mulher rompeu o muro de silêncio que cercava as casas de classe média e alta em São Paulo. Levantamento feito pelo Jornal da Tarde, com base nas estatísticas de pacientes do sexo feminino atendidos em unidades de saúde paulistanas e tabulados pelo movimento Nossa São Paulo, mostra que bairros como Pinheiros, Vila Mariana, Lapa e Ipiranga aparecem como locais onde os índices de agressão mais cresceram na capital paulista no ano passado.

Ferida que ainda não cicatrizou na luta das mulheres, a rotina de tapas, socos, chutes e xingamentos enfrentada por muitas em pleno século 21 ainda reforça que nem todas as diferenças entre os sexos foram equilibradas, apesar da invasão delas no mercado de trabalho, universidades e cargos de chefia. “O fundamento da violência é o exercício de poder. Ainda está enraizado na cultura, de qualquer classe social, que os homens são superiores. Uma das formas de exercer a superioridade é pela violência”, afirma Sônia Coelho, integrante da SempreViva Organização Feminista.

Além de estar mais visível nos números dos distritos de situação econômica favorecida, as mulheres que apanham também moram em regiões onde a pobreza e a vulnerabilidade social reinam. Das 31 subprefeituras que formam a cidade, em 25 delas a incidência de maus-tratos foi ampliada (veja abaixo). A agressão democrática deixa aos poucos de ser secreta, ganha ferramentas para chegar a público (como a Lei Maria da Penha) e por isso está espalhada por todos os cantos, define Katia Guimarães, diretora da subsecretaria de enfrentamento da violência do governo federal. No entanto, na classe média, lembra ela, o fenômeno era ainda mais velado e só agora começa a ultrapassar as barreiras.

Jefferson Drezet, médico do hospital da mulher Pérola Byington, costuma dizer que as paredes das mansões são bem mais espessas do que as dos barracos. É preciso um trator de denúncia para que o problema seja visto, já que dentro das residências é onde acontecem 90% dos casos.

Ainda que o inimigo seja íntimo, as denúncias têm aumentado. A Central de Atendimento à Mulher (número180, serviço 24h vinculado à Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres) registrou 269.977 atendimentos de janeiro a dezembro de 2008, um aumento de 32% em relação ao ano de 2007 (204.978).

Quem estuda a violência ou quem sofre a agressão não fala em crescimento da quantidade de violentadores e violentadas na classe média. A expressão “estava debaixo do tapete e agora aparece” é a mais emblemática para explicar a ascensão numérica. Orkut, televisão e sites passaram a ser ferramentas de ecoar o problema, o que também repercute no índice.

Um câncer na alma

Para se ter uma ideia, por ano o câncer de mama tem incidência de 90 novos casos em cada 100 mil mulheres paulistanas, estimados pelo Inca. A violência, no mesmo universo de pessoas, faz 123 vítimas na capital. Os dados, ainda que pareçam elevados, podem estar subestimados. Nos números usados pela reportagem, apenas são computadas as mulheres que chegam ao hospital com sinais de agressão e admitem o espancamento aos funcionários de saúde.

Clarice, 34 anos, apanhou durante 13 anos calada. Se entrou na estatística, representou uma única agressão, apesar de ter perdido as contas dos hematomas e sangramentos que teve. “Só procurei o posto de saúde uma vez. Foi quando precisei tomar seis pontos na cabeça. O restante nunca contei para ninguém”, diz. Ela só rompeu o ciclo de violência quando o filho de apenas 4 anos aprendeu a falar grosso. Espectador da luta travada pelo pai, ele passou a mandar a mãe calar a boca igualzinho como o seu parâmetro de homem fazia. “Resolvi que era hora de colocar um breque.” Ela esconde a identidade por vergonha. Vergonha de ter se acostumado a apanhar desde que, quando ainda na fase do namoro, aceitava os puxões de cabelo que expressavam “só ciúme”.

Mandar o marido embora é expulsar o provedor da casa. Assim como para ela, a dependência financeira do agressor é comum para 47% das mulheres que sofrem violência, mostra pesquisa da Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres. E a autoria dos maus-tratos por parte dos companheiros é recorrente em 63,2% das notificações que acionaram o disque 180 em 2008. São Paulo foi o segundo Estado que mais acionou o serviço telefônico e para 37,1% das vítimas o maior risco de agressão era a ameaça de morte.

Muitos rostos

A violência contra a mulher pode ter muitas caras. Pode ser linda, loira, jovem, com diploma superior de enfermagem, português correto e roupas finas como Marina, 32 anos. Seu primeiro namorado, aos 12 anos, tornou-se o homem que acabou com seu rosto e seios de tanta pancada. Ou então, a violência pode ser representada pelas rugas, mãos calejadas de trabalhar na roça e cabelos grisalhos por causa dos 60 anos de Maria, que teve todas as unhas das mãos arrancadas por um canivete porque as coloriu de vermelho, o que não era permitido nas regras do pai do seu filho. Outra face do mesmo fenômeno pode ter madeixas tingidas de acaju, quatro filhos, ser coordenadora de um hospital, em plena forma para os 50 anos. Nair também é vítima. Do primeiro e do segundo marido, o que só aumenta a sua culpa por apanhar.

Ivone Dias, uma das assistentes do Núcleo de Defesa da Mulher Cidinha Kopcak, um dos mais importantes da capital, que é mantido em parceria com a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads), acredita que a violência ainda exista porque não faz muito tempo que deixou de ser olhada com naturalidade.

A própria Lei Maria da Penha foi criada só em 2006. “Alguns juízes e delegados de polícia são omissos e resistentes em aplicar a legislação. A violência vai continuar existindo enquanto a sensação de impunidade prevalecer.”


47%
Das vítimas de agressão e maus-tratos são dependentes economicamente dos agressores, o que dificulta a denúncia. A estatística é do 180, serviço telefônico do governo federal que recebe queixas

Bairros de São Paulo onde a violência contra a mulher cresceu entre 2006 e 2007. Clique na imagem para ampliar o quadro publicado pelo JT

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07/03/2009 - 18:38h É justo questionar dogmas católicos

A Igreja Católica é composta por homens e mulheres de carne e osso. Como toda instituição viva, seus dogmas merecem contestação de quem pertence aos seus quadros, de quem já pertenceu e de que não pertence. Os de fora têm o direito de opinar sobre as decisões de uma instituição poderosa e que influencia o debate público no mundo inteiro.

No Brasil, há separação entre Estado e igreja. Apesar disso, os religiosos se julgam no direito de criticar decisões legais, como o aborto de uma criança de 9 anos que foi estuprada. Ora, se podem meter o bedelho nas regras do Estado laico e democrático, podem também ouvir críticas a seus dogmas.

Nesse contexto, é absurda a excomunhão dos médicos e da mãe da menina estuprada pelo padrasto. Pior, o arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, disse que aborto é pior do que estupro. Os idiotas da subjetividade vão dizer que é assunto da Igreja Católica e ponto final. No direito canônico, o aborto é mais grave que o estupro. Quem é católico que se acomode, e os incomodados que se retirem.

Esse discurso serve a um conservadorismo anacrônico que afasta cada vez mais a Igreja Católica do cotidiano de seus seguidores. É um erro considerar um meio católico ou um mau católico quem apoia a decisão de abortar na circunstâncias em que se encontrava a menina de 9 anos. Ela pesa 30 quilos. Sua gravidez poderia matá-la. A lei brasileira permite aborto em caso de estupro e quando se coloca em risco a vida da gestante.

Há outro agravante: a menina é de um região pobre do Nordeste, na qual o peso dos valores religiosos é maior do que em outras partes do Brasil. Uma condenação da Igreja Católica soa a uma espécie de sentença de morte religiosa.

É uma pena que a Igreja Católica tenha abandonado a opção preferencial pelos pobres. O homem que deu início à caminhada dessa instituição milenar teria reparos a fazer à turma de Bento 16.

Mais debate

A briga é meio perdida, mas é preciso discutir a ampliação do direito ao aborto num país em que isso é questão de saúde pública. A mulher deve ter o direito de decisão. Legalizar mais amplamente o aborto, com limite até determinado tempo de gestação, não vai obrigar ninguém a tirar filho da barriga.

E-mail: kennedy.alencar@grupofolha.com.br


Kennedy Alencar, 41, colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre bastidores do poder, aos domingos. É comentarista do telejornal “RedeTVNews”, de segunda a sábado às 21h10, e apresentador do programa de entrevistas “É Notícia“, aos domingos à meia-noite.

03/03/2009 - 12:50h “Gestão” Kassab: Obras atrasam e deixam mil estudantes sem aula. ‘Queremos estudar’, gritam os alunos durante protesto

Robson Ventura/Folha Imagem
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sem aulas

Marcela Fonseca do Agora

Os 1.019 alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Recanto dos Humildes, em Perus (zona norte de SP), estão há quase um mês sem aula. A unidade de ensino, que deveria estar pronta e em atividade desde o dia 10 de fevereiro, está sem energia nem água. O colégio deverá atender crianças e jovens da 1ª a 8ª série.

De acordo com os pais de alunos, o início das aulas estava previsto para o último dia 11, quando foi adiado para o dia 16 de fevereiro. Sem a finalização da obra, a data foi mais uma vez alterada. “Eles afirmaram que as aulas começariam hoje [ontem]“, disse a doméstica Berenice Gonzaga de Jesus, 30 anos, mãe de um menino de seis anos, matriculado na 1ª série do ensino fundamental. “Nem fui trabalhar, queria conhecer a professora do meu filho.”

Ontem, para a surpresa de pais e alunos, no portão do colégio havia um cartaz dizendo que o início das aulas foi adiado por tempo indeterminado por falta de instalação de energia elétrica, que deverá ser feita pela Eletropaulo.

A escola também está sem água, já que a bomba da caixa-d’água precisa de energia elétrica para funcionar. E não há asfalto na rua onde está a entrada principal do prédio.

Na porta da escola, os pais reclamavam por terem transferido seus filhos de outras duas escolas –Antonio Alves Veríssimo, localizada na Vila Aurora, e Professor Jairo de Almeida, em Perus, ambas na zona norte paulistana.

Durante uma reunião entre os pais e a diretora da escola –procurada pela reportagem, ela preferiu não dar entrevista e não se identificar–, os responsáveis pelas crianças cobravam providências.

Uma placa, afixada do lado de fora do terreno, ao lado da escola, exibe a data com o prazo em que o prédio deveria ter sido entregue: 24 de setembro do ano passado.

Com as salas de aula vazias, cinco professoras conversavam de braços cruzados em uma escadaria da escola.

A dona-de-casa Ana Lúcia Cardoso Nascimento, 34 anos, mãe de duas meninas, uma de 11 e outra de nove anos, reclamava da falta de aula e lamentava.

“Cheguei aqui e vi esse cartaz dizendo que não haverá aula e que não sabem até quando isso vai acontecer. Até os funcionários da escola estão sofrendo com isso”, reclamou a dona-de-casa.

Sem escola para suas filhas, a vigilante Lidia Silva, 30 anos, se mostrou preocupada com a situação e lamentou. “Tenho três filhas e nenhuma delas está estudando. Isso é uma injustiça”, afirmou.

Mãe de duas crianças, uma de 12 e outra de dez anos, a dona-de-casa Elisangela Neci dos Santos, 29 anos, também se queixou e desabafou. “Queremos escola para nossos filhos independente de qualquer coisa.”

‘Queremos estudar’, gritam os alunos durante protesto

Indignados com a falta de aula dos filhos, os pais de alunos matriculados na escola Recanto dos Humildes (zona norte de SP) protestaram no início da tarde de ontem em frente à unidade. Eles queriam saber quando o colégio dará início às atividades.

Frustados, acabaram voltando para suas casas levando seus filhos e sem uma resposta que os convencesse.

A executiva Izabel Cristina Soares, 32 anos, mãe de Mateus Soares Medeiros, 11, ficou surpresa ao chegar à escola. “A sorte foi que hoje pude trazê-lo. É uma caminhada longa”, afirmou ela.

As crianças –algumas delas sem saber que o início das aulas havia sido mais uma vez adiado –chegaram prontas à porta da unidade. Em coro, elas gritavam na entrada: “Queremos estudar! Queremos estudar!”, tentando chamar a atenção dos operários que trabalhavam no local.

Gleiciane Amaral de Aquino, oito anos, sonha com as aulas. “Estou ansiosa para começar. É muito chato ficar em casa. Aqui [na escola] tenho muita coisa pra aprender.”

A aluna da 4ª série Eduarda Souza de Oliveira, nove anos, reclama da demora. “Eu quero estudar”, disse a menina.

“Ela [Eduarda] estudava na escola [de ensino fundamental] Professor Jairo de Almeida antes de ser transferida pra cá”, disse a babá Eliene Brandão de Souza, mãe de Eduarda. Para Eliene, a mudança encurtou a distância entre sua casa e o colégio, mas reclama. “Tiraram as crianças da sala de aula e agora elas estão sem escola.”

16/02/2009 - 18:23h Cientistas tentam decifrar o complexo caminho das lágrimas

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Por BENEDICT CAREY

Elas são consideradas um alívio, um tônico psicológico e, para muitos, a visão de algo mais profundo: a linguagem gestual do coração, a transpiração emocional vinda do poço de uma humanidade comum.
As lágrimas lubrificam o amor e as canções de amor, os casamentos e os funerais, os rituais públicos e a dor privada, e talvez nenhum estudo científico possa algum dia capturar todos os seus muitos significados.
“Choro quando estou feliz, choro quando estou triste e talvez chore quando estou compartilhando algo que é de grande significado para mim”, disse Nancy Reiley, 62, que trabalha em um albergue feminino na Flórida. “E por alguma razão às vezes eu choro quando estou numa situação de falar em público. Não tem nada a ver com me sentir triste ou vulnerável. Não há motivo que eu possa imaginar pelo qual isso aconteça, mas acontece.”
Agora, alguns pesquisadores dizem que a sabedoria popular sobre o choro -que o associa a uma saudável catarse- é incompleta e enganadora. Um “bom choro” habitualmente permite que a pessoa recupere parte do equilíbrio mental após uma perda. Mas nem sempre, e não para todos, argumenta um artigo na atual edição da revista “Current Directions in Psychological Science”. Depositar tamanha expectativa sobre um ataque de pranto possivelmente predisporá algumas pessoas a uma confusão emocional posterior.
Esse apelo por uma visão mais nuançada do choro deriva em parte de uma crítica a estudos prévios. Ao longo dos anos, os psicólogos confirmaram muitas observações corriqueiras a respeito do choro. Ele é contagioso. As mulheres o liberam mais facilmente que os homens, por razões muito provavelmente bioquímicas e também culturais. E a experiência física reflete a psicológica: a frequência cardíaca e a respiração disparam durante a tempestade e se amenizam quando o céu se abre.
Questionadas sobre episódios de choro, a maioria das pessoas, previsivelmente, insiste que chorar é permitido para absorver um golpe, para se sentir melhor ou mesmo para pensar mais claramente sobre algo ou alguém que se perdeu.
Pelo menos é assim que as pessoas lembram -e aí está o problema, segundo Jonathan Rottenberg, psicólogo da Universidade do Sul da Flórida e coautor do estudo. “Muitos dados apoiando o saber convencional se baseiam na rememoração e se contaminam da crença das pessoas sobre o que o choro deveria fazer”, disse.
Em um estudo publicado na edição de dezembro da revista “The Journal of Social and Clinical Psychology”, Rottenberg e dois colegas, Lauren Bylsma (Universidade do Sul da Flórida) e Ad Vingerhoets (Universidade de Tilburg, Holanda), pediram a 5.096 pessoas de 35 países que detalhassem as circunstâncias do seu choro mais recente. Cerca de 70% disseram que as reações dos demais à crise foram positivas e reconfortantes. Mas cerca de 16% citaram reações ruins, que obviamente em geral lhes fizeram se sentir piores.
Como a função social mais óbvia do choro é atrair apoio e empatia, o impacto emocional das lágrimas depende parcialmente de quem está ao redor e do que essas pessoas fazem. O estudo descobriu que chorar com uma só outra pessoa presente tem mais chance de produzir um efeito catártico do que fazê-lo diante de um grupo. “Quase todas as emoções são, em algum nível, dirigidas para os outros, então a resposta deles será muito importante”, disse o psicólogo James Gross, da Universidade Stanford, na Califórnia.
A experiência de chorar também varia de pessoa para pessoa, e algumas são mais propensas à catarse. Em estudos de laboratório, psicólogos induziam ao choro mostrando aos participantes clipes com cenas de filmes muito tristes. Cerca 40% das mulheres choravam; pouquíssimos homens o faziam. Esse tipo de estudo, embora não passe de uma simulação, sugere que as pessoas com sintomas de depressão e ansiedade não se comovem tanto nem se recuperam tão rápido quanto a maioria. Nas pesquisas, elas se mostram menos propensas a relatar benefícios psicológicos do choro.
Em seu livro “Seeing Through Tears: Crying and Attachment” (”Vendo através das lágrimas: choro e ligação”), a terapeuta e professora Judith Kay Nelson argumenta que a experiência de chorar está arraigada na primeira infância e na relação da pessoa com seu cuidador, em geral mãe ou pai. Filhos de pais atentos, que apaziguavam o choro quando necessário, tendiam quando adultos a encontrarem mais consolo no choro.
“Chorar, para uma criança, é uma forma de chamar o cuidador, manter a proximidade e usar o cuidador para regular o humor ou a agitação negativa”, disse Nelson.
Quem cresce inseguro sobre se e quando esse consolo virá pode, quando adulto, ficar preso àquilo que ela chama de choro de protesto -o berro impotente da criança para que alguém conserte o problema ou desfaça a perda.
“Você não pode elaborar a dor se está preso ao choro de protesto, que diz respeito apenas a consertar, consertar a perda”, afirmou Nelson. “E na terapia -assim como nas relações íntimas- o choro de protesto é muito difícil de consolar, porque você não consegue fazer nada direito, não consegue desfazer a perda. Por outro lado, o choro triste, que é um apelo por um conforto de alguém que se ama, é um caminho para a proximidade e a cura.”

12/02/2009 - 13:31h Almoço, nas escolas, só no turno intermediário

Nos outros horários, só há lanche

Mônica Cardoso – O Estado SP

As aulas nas escolas municipais de São Paulo começaram ontem e, pelo segundo ano, o pequeno Igor Iuri de Moura, de 5 anos, frequenta a Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Guia Lopes, no bairro do Limão, na zona norte. Durante o horário da aula, das 15h20 às 19h05, ele come a merenda. O lanche de ontem era bolo de laranja, iogurte de morango e banana. “Ele nunca passou mal por causa da merenda”, diz a mãe, Ana Paula Cláudia da Silva, de 26 anos.

O filho mais velho estudou no mesmo turno e na mesma escola há três anos. A diferença é que, antes da terceirização, a escola oferecia jantar aos alunos, geralmente arroz, feijão, carne e verdura. Agora, o almoço é servido apenas no turno intermediário, das 11 às 15 horas. “As mães foram convidadas a conhecer a cozinha. Eu achei tudo limpo e os alimentos bem armazenados”, diz. Marilu da Silva Pedro, de 36 anos, mãe de Bárbara, de 4, diz que a filha também gosta da merenda. “Ela só não come fruta porque não gosta.”

Antes da terceirização, os agentes escolares preparavam as refeições. Agora, elas são feitas pelos funcionários das empresas que venceram a licitação. Na Emei Guia Lopes, a J. Coan é responsável pela merenda. A quantidade é medida em porções iguais por aluno. Segundo a diretora da escola, Cibele Racy, chega a sobrar alimentos, principalmente no almoço. “Quando temos sobras de frutas ou cascas de ovos, as crianças fazem uma pequena compostagem de adubo natural.”

Na Emei Maria Montessori, em Itaquera, na zona leste, as mães também aprovam a merenda escolar oferecida pela empresa Nutriplus Alimentação e Tecnologia. A dona de casa Karen Millage, de 32 anos, mãe de Leonardo, de 4, diz que o filho gosta do almoço. O cardápio de ontem foi arroz, feijão e salsicha. “Costumo frequentar as reuniões da Associação de Pais e Mestres e não sei de nenhum aluno que ficou doente por causa da merenda”, diz.

A pequena Ana Vitória, de 3 anos, também estuda na escola e ontem foi seu primeiro dia de aula. A mãe, Ana Paula Marques de Souza, de 34, conta que a filha teve diarreia e vômito em novembro, mas não sabe se foi por causa da merenda preparada na creche municipal onde a menina ficava. Os alimentos servidos na creche eram repassados pela própria Prefeitura.

02/02/2009 - 15:59h Antídoto ao amor pode prevenir paixão cega

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John Tierney – The New York Times – FOLHA SP

Ensaio

Numa edição recente da revista “Nature”, o neurocientista Larry Young propõe uma grande teoria unificada do amor. Depois de analisar a química cerebral da formação de vínculos entre casais de mamíferos, Young prevê que em breve um pretendente inescrupuloso poderá colocar uma poção de amor farmacêutica no drinque da pessoa cortejada.

Mas também pode ser que surja um antídoto ao amor —uma vacina que impeça você de ficar cego de paixão e agir como idiota.

É o que os humanos procuram desde que Ulisses mandou os tripulantes de seu navio amarrarem-no ao mastro quando o barco passou pelas sereias da mitologia grega. Estava claro que o amor era uma doença perigosa.

Larry Young fez pesquisas com ratos-calunga na Universidade Emory, em Atlanta. Esses bichinhos semelhantes a camundongos fazem parte de uma pequena minoria dos mamíferos —menos de 5%— que compartilham a propensão humana pela monogamia. Quando o cérebro de uma rata-calunga recebe uma infusão artificial de oxitocina (hormônio que produz algumas das mesmas recompensas neurais que a nicotina e a cocaína), ela rapidamente forma vínculos com o primeiro macho que estiver por perto. Um hormônio relacionado, a vasopressina, quando injetado em ratos-calunga machos (ou quando ativado naturalmente pela atividade sexual), cria desejos de formação de vínculos e ninhos.

Depois de Young ter descoberto que os ratos-calunga machos com reação geneticamente limitada à vasopressina tinham menos probabilidade de encontrar parceiras, pesquisadores suecos relataram que homens dotados de tendência genética semelhante têm menos tendência a se casar. Young especula que o amor humano pode ser desencadeado por uma “cadeia de eventos bioquímicos” que evoluiu de vínculos entre mãe e filho, formação essa estimulada nos mamíferos pela liberação de oxitocina durante o trabalho de parto e a amamentação.

Young observou que as preliminares e as relações sexuais estimulam as mesmas regiões do corpo das mulheres que as envolvidas no dar à luz e na amamentação. Essa hipótese hormonal ajudaria a explicar algumas diferenças entre os humanos e os mamíferos menos monógamos: o desejo feminino de fazer sexo mesmo quando fora de seu período fértil e o fascínio erótico masculino com os seios. Sexo mais frequente e mais atenção aos seios, disse Young, ajudariam a construir vínculos de longo prazo.

Pesquisadores obtiveram resultados semelhantes borrifando oxitocina nas narinas de pessoas, que parece intensificar sentimentos de confiança e empatia. Young disse que pode haver drogas que aumentem o desejo das pessoas de se apaixonarem.

Mas uma vacina que possa impedir as pessoas de ficarem cegas de paixão parece mais simples. “Um bloqueador de oxitocina faz com que as ratas-calunga passem a agir como 95% dos mamíferos: não formam vínculos. Elas acasalam e, se outro macho aparece, a fila anda. Se o amor tem base bioquímica semelhante, então, teoricamente, devemos ser capazes de suprimi-lo de modo semelhante”, disse Young.

12/01/2009 - 17:46h Absolutismo infantil

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Lúcia Guimarães – O Estado SP

A cena correu mundo. O rosto da adorável Sasha Obama estava colado na janela do carro blindado que a levou para o primeiro dia de aula na exclusiva escola Sidwell Friends. Em poucas horas, os noticiários de TV perderam qualquer senso de ridículo e exibiram imagens do menu do refeitório da escola, uma dieta de alimentos orgânicos. A atenção devotada ao começo do ano letivo das duas primeiras filhas, Sasha e Malia, não é resultado de exibicionismo de seus pais. É um sintoma da infância como espetáculo.

Desde que o índice de natalidade entre americanas de mais de 35 anos disparou, na década de 80, assistimos a esta exacerbação do papel da criança no mundo adulto. A maternidade adiada aumentou de maneira expressiva entre baby boomers e continuou na geração seguinte.

O governo americano acaba de divulgar as últimas estatísticas de nascimentos, de 2006. Em destaque, o novo aumento da gravidez adolescente, depois de anos de queda, e o aumento da gravidez entre mulheres de 40 a 44 anos, o maior índice de natalidade nesse grupo desde 1968.

Meu bairro, em Manhattan, é anedoticamente apontado como o epicentro desse fenômeno. Meu olhômetro confirma a estatística informal. É comum esbarrar em nova-iorquinas grisalhas empurrando carrinhos com bebês asiáticos; ou em apressadas executivas quarentonas empurrando carrinhos com gêmeos e trigêmeos, cortesia dos tratamentos de fertilidade.

O efeito da nova dinâmica familiar já foi tema de vários livros. Pais mais velhos têm maior estabilidade financeira e maturidade psicológica. Mas as crianças têm menos chance de crescer com avós e podem ter de cuidar de pais idosos doentes num momento da vida em que ainda estão se estabelecendo profissionalmente. Era inevitável que o aumento da expectativa de vida fosse estender a idade da primeira gravidez ou da paternidade. Mas, como me lembrou a escritora Camille Paglia numa entrevista, a natureza nos pregou uma peça cruel. O custo da maternidade adiada é muito mais alto para as mulheres.

Por ter sido mãe ainda bem jovem, já enfrentei o choque inicial de observar o quarto vazio, o voo do ninho para a independência. Mas logo as mulheres de meia-idade começaram a ter filhos à minha volta. E a infância que reapareceu é bastante diferente da minha ou da infância que, aos trancos e sem consultar manuais, proporcionei à minha filha.

Nova York, capital cultural americana da neurose e da competitividade, tornou-se uma vitrine dessa hiperinfância. Ela é resultado em parte do narcisismo materno e paterno – uma pessoa de 40 anos tende a ser mais bem-sucedida do que a de menos de 25 e, portanto, mais zelosa de sua identidade social. E é fruto também da insegurança com a erosão da estabilidade no emprego e do acesso à educação. Meu pai, a certa altura, tinha três empregos, mas nunca lhe passou pela cabeça que seus cinco filhos seriam privados de boa educação e de boas chances profissionais.

Vamos concordar com o argumento de que a maternidade adiada ou a adoção na meia-idade são um fator potencial para crianças desfrutarem mães e pais mais amorosos, articulados, tolerantes e seguros.

Agora vamos, por um momento, discordar. O exército de ditadores mirins, que passei a observar, me convenceu de que esses pais iluminados estão transferindo um ônus aos filhos. O fardo de serem tão importantes.

Quem já não se viu numa festa de adultos, interrompido pelo clamor de pais de primeira viagem sobre os atributos “únicos” de uma criança? Por que a criança está acordada, ouvindo conversas maduras que não consegue entender? E, pior, solitária na responsabilidade pelo orgulho adulto – “canta aquela música que você aprendeu na escola”, “dança pra nós”, enquanto os presentes esperam voltar a discutir economia ou política, como gente grande. É melancólico.

Imagine observar o assustador e vasto mundo adulto, aos 3 anos, e ser investido de autoridade pelo que vai ser servido no jantar, pelo programa de domingo, por tantas decisões que os pais deviam tomar sem o populismo democrático que contaminou as relações de família.

Lembro de ter comentado com escárnio a insensibilidade britânica de ditados como “as crianças devem ser vistas e não ouvidas”. Pois os excessos contemporâneos me fazem clamar por crianças mais vistas do que ouvidas, protegidas desta precocidade politicamente correta estimulada pelos pais.

A imaginação infantil não é apenas refúgio, é um estágio fundamental do desenvolvimento psicológico, cultural e social. Ela se desenvolve na privacidade da criança livre de um papel tão proeminente na vida dos adultos.

Durante uma festa no fim de ano, uma amiga de 85 anos, com quatro filhos e seis netos, balançou a cabeça ao ver duas mães de meia-idade incapazes de impedir que suas duas crianças interrompessem a refeição e a conversa dos adultos. Elas confundiram o amor que sentem com a importância social dos filhos.

É exaustivo. A curto prazo, para os adultos. A longo prazo, é doloroso para os filhos que vão enfrentar sozinhos a transição de monarcas para plebeus.

12/01/2009 - 09:17h Programa de aids começa a estagnar

Na opinião de especialistas, epidemia tem novas características que exigem mudança, principalmente na prevenção

Lígia Formenti, BRASÍLIA – O Estado SP

Após sucessivos elogios recebidos no cenário internacional, o Programa Nacional de DST-Aids começa a dar sinais de estagnação. Indicadores importantes, como número de casos novos e taxa de mortalidade, praticamente não mudaram nos últimos cinco anos. Os índices de transmissão da mãe para o bebê durante a gravidez caíram, mas não como era esperado pelo próprio governo.

Além disso, com o aumento de casos no Norte e Nordeste entre homossexuais jovens e pessoas com mais de 50 anos, a epidemia adquiriu novas características, o que exige mudança na forma de atuação, principalmente na área de prevenção.

“O quadro é bastante preocupante, mas o que vemos é apenas comemoração”, afirma Mário Scheffer, da organização não-governamental Pela Vidda. Todos os dias , 97 pessoas se contaminam com o HIV, vírus da aids, e outras 30 morrem por causa da doença. “É como se um ônibus caísse do despenhadeiro diariamente e ninguém se importasse.”

Para Scheffer, os números estampam a necessidade de o programa fazer uma autocrítica, perceber o que não está dando certo e, nessas áreas, mudar a estratégia. “Mas o que vemos é o oposto. Há uma percepção coletiva de que tudo está maravilhoso, que temos o maior programa do mundo. Estamos vivendo de sofismas, não da realidade.”

O pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) Alexandre Grangeiro diz que os dados divulgados no último boletim, em novembro, estampam uma lista de desafios que precisam ser enfrentados. Grangeiro, que já foi coordenador do programa nacional, observa que o País hoje apresenta não uma, mas várias epidemias de aids. Nas Regiões Sudeste, Sul e na faixa litorânea, há uma epidemia mais antiga e estabilizada, com queda do número de soropositivos usuários de drogas e um aumento dos casos entre gays jovens. No Norte e Nordeste, existe uma epidemia bem mais recente, formada principalmente por transmissão heterossexual. “Isso exige a adoção de estratégias diferenciadas na prevenção e na melhoria da qualidade do atendimento.”

O que preocupa nos Estados do Norte é a combinação de alguns fatores – menor tendência ao uso de preservativos, iniciação sexual precoce, menos interesse pelo teste para detectar o HIV. Todas características que dificultam a prevenção e o acesso mais rápido ao tratamento. Talvez por isso a Região Norte apresente uma tendência de aumento nos índices de mortalidade. “Com a interiorização da aids, o País enfrenta outro problema, que é a desigualdade na qualidade dos serviços, a dificuldade no acesso ao tratamento. Isso precisa ser solucionado”, avalia a coordenadora da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), Cristina Pimenta.

Grangeiro aponta ainda outros dois pontos que precisam ser melhorados: quantidade de pessoas testadas para o HIV e o acesso a tratamento para gestantes contaminadas. “Muito se fala que a aids somente será controlada com a vacina. No caso das gestantes, o tratamento existente é uma forma de vacina, algo que previne a infecção do feto em quase 98% dos casos. Mesmo assim, o País continua registrando, todos os anos, uma triste marca de contaminações em bebês.”

O pesquisador da USP acredita que os maiores desafios estão em áreas que dependem de ações governamentais gerais. “Sem infraestrutura adequada nos serviços, não há como garantir diagnóstico precoce. Sem pré-natal de qualidade, não há como se certificar de que a gestante não é portadora do vírus, não há como ofertar tratamento adequado antiaids para o bebê. A qualidade das ações acaba esbarrando nos problemas gerais.”

PREVENÇÃO

A estimativa é de que 46% dos pacientes cheguem aos serviços em estágio adiantado da doença. Com isso, o efeito dos remédios antiaids será limitado. “Há muito o que melhorar nesta área”, diz Grangeiro. O infectologista Caio Rosenthal tem avaliação semelhante. “O programa melhorou muito, há avanços inegáveis. Mas em alguns pontos é possível avançar mais, como no diagnóstico precoce.” O infectologista Celso Ramos concorda: “É preciso mudar a cultura, tornar o teste mais disponível em toda a rede. “

01/01/2009 - 15:15h Cinismo ou arrobo de sinceridade?

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“Trânsito não é prioridade”, afirma Kassab em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo

A afirmação de Kassab é uma confissão da sua incompetência e um insulto lançado na cara dos paulistanos, de todos os eleitores.

“Trânsito não é prioridade”, afirma sem pudor o prefeito, corroborando o que tenho mostrado aqui durante estes anos e que para alguns parecia excessivo.

Pois bem, fora este insólito reconhecimento, as declarações de Kassab aos jornais de hoje mostram um método: repetir uma inverdade muitas vezes até virar o seu contrário. O pior é que temos que reconhecer que o método funciona em São Paulo com razoável êxito.

Os usuários do transporte público sabem que o setor não foi prioridade do governo demo-tucano pois o vivenciam diariamente. Nenhum corredor novo, trajetos cada vez mais longos, nenhuma fiscalização, CET sucateada, nenhum investimento em semáforos inteligentes etc. Mas a cidade comporta um número grande de pessoas que não utilizam o transporte público e para eles Kassab pretendeu que o setor era uma prioridade, repetindo, como repete agora, realizações inexistentes. Quem usa sabe, quem não usa acreditou em Kassab. Os problemas do trânsito são decorrentes diretos das fraquezas do transporte público. E trânsito e transporte público nunca foram prioridade para os demo-tucanos.

Para que o método funcione plenamente são necessários dois requisitos a mais, estreitamente ligados entre si. Uma mídia favorável e uma oposição sem voz. Os jornais cumprem sua parte sonegando aos vereadores da oposição qualquer espaço nas suas páginas e enviesando ou reduzindo permanentemente a cobertura sobre os fatos (sem falar em matérias abertamente favoráveis e campanhas interesseiras).

Vou dar um exemplo do método de Kassab. Na entrevista ao Estadão o prefeito declara: “É fundamental o investimento em corredores, como deve ser feito, não como as administrações anteriores falavam. Corredor mesmo é você não ter interferência, não ter cruzamento. Nos pontos de parada, ter áreas para ultrapassagem, como é o Expresso Tiradentes, como é o Celso Garcia, como é o projeto para a zona sul.”

O que vemos? Kassab fala de corredores e diz que é fundamental; depois ataca as “administrações anteriores” e acrescenta um descritivo citando dois corredores. O primeiro é o Fura-Fila planejado na gestão anterior, de Celso Pitta, e do qual só existem 8 Km já tendo engolido somas fabulosas (projeto tipicamente marqueteiro e condenado por todos os especialistas de transporte por faraônico, caro e não prioritário) e um corredor que é só um projeto, o Celso Garcia, que em 4 anos nem saiu do papel. O total é completado com o mantra inverídico de aporte de R$1 bilhão no metrô (a cifra é bem menor, como já foi noticiado pelos jornais).O leitor desinformado pensa que Kassab construiu dois bons corredores. A verdade é que prometeu 5, não fez nenhum e só completou uma pequena parte do fura-fila, isto em 4 anos!

Kassab diz que é inadmissível as gestões anteriores não terem investido no metrô. Inadmissível é ter participado da administração Pitta e destruído as finanças da prefeitura, escamotear a responsabilidade dos 14 anos de poder demo-tucano no pouco metrô existente e confessar que o transporte público -do qual Kassab é responsavel- os ônibus e corredores, não são prioridade.

Inverdade também quando fala do número de vagas em creche criadas nos últimos 4 anos, inverdade registrada na própria entrevista ao afirmar na mesma frase “Fizemos 60 mil vagas. A gente recebe na cidade inteira os cumprimentos. São mães beijando, cumprimentando. Quase dobramos o número de vagas. Ninguém questiona se a gente vai zerar. Fizemos 48 mil vagas em creche.” 48 mil ou 60 mil?

Nenhuma das cifras é verdadeira. Quem tem criança e não tem vaga em creche sabe do que estamos falando. Os que se interessam no assunto e conhecem os dados de 110 mil crianças aguardando vaga e a realidade do trabalho realizado por Kassab, também. Mais e os outros?

Outro exemplo na mesma entrevista, as especialidades medicas. Segundo Kassab este problema não existe. Textual!

O entrevistador disse que “o Conselho Regional de Medicina mostrou que muitos pacientes voltam às AMAs com o mesmo problema, sinal de que eles não têm acesso a especialistas”, o que é de conhecimento de todos e só durante a campanha eleitoral Kassab criou algumas AMAs especialidades, muito poucas e abaixo do prometido. Pois bem, vejam sua resposta:

“Temos as AMAs voltadas para especialistas, o Estado tem as AMEs (Ambulatório Médico de Especialidades) e trabalhamos em conjunto. Não existe esse problema. O que existe na saúde e na educação é a necessidade permanente de melhorar e aperfeiçoar.”

Cinismo? Sim, mas um método: repetir uma inverdade até virar realidade. Para todos aqueles que utilizam o sistema privado de saúde e que não passam perto do sistema público, não aguardam meses para marcar uma consulta, o método funciona. Novamente, graças ao fato que a voz da oposição é afastada dos jornais (quase nunca os jornais entrevistam vereador da oposição para fazer o contraponto as propostas ou afirmações do governo demo-tucano).

Em janeiro de 2004 Marta Suplicy formulou um desejo, no discurso de transmissão do cargo para os demo-tucanos, para que tivessem o dobro dos seus acertos e a metade dos seus próprios erros. Nos primeiros 4 anos demo-tucanos foi o contrário o que aconteceu. Hoje iniciam um novo mandato de mais 4 anos que espero permita que realizem pelo menos o que prometeram para os 4 que passaram.

Luis Favre

Leiam embaixo o artigo do Estadão e a entrevista de Gilberto Kassab

01/01/2009 - 15:06h Trânsito não é prioridade para Kassab

Viviane Kulczynski e Bruno Tavares – O Estado SP

O engenheiro Gilberto Kassab (DEM), de 48 anos, toma posse hoje, em cerimônia a partir das 15 horas, como o primeiro prefeito reeleito de São Paulo. Após 33 meses no cargo – em abril de 2006, como vice de José Serra (PSDB), assumiu o posto com a saída do titular, que disputou e assumiu o governo do Estado -, Kassab agora tem a bênção de 3.790.558 milhões de votos (60,7% dos válidos) recebidos no 2ª turno.Eleito pela coligação São Paulo no Rumo Certo (com PR, PMDB, PRP, PV e PSC), bateu a candidata do PT, Marta Suplicy (39,3% dos votos) e segue no comando da cidade de maior orçamento do País (R$ 27,5 bilhões). Com o desafio de apresentar à sociedade um político além da Lei Cidade Limpa, terá de correr contra o tempo para realizar as novas promessas e concluir as antigas.

Como o Estado revelou na edição de ontem, a gestão deixa um passivo equivalente a R$ 5 bilhões. A maioria dos projetos e obras inacabados se concentra nas áreas de transportes, habitação e revitalização do centro. Mas os desafios atingem todas as áreas.

CARROS-CHEFE

Diante do quadro, Kassab promete empenhar forças em duas frentes que ele aponta como as grandes marcas do mandato anterior: saúde e educação. “Temos 5 milhões de pessoas que dependem do ensino público em São Paulo e 7 milhões de pessoas que dependem da saúde pública”, afirmou em entrevista ao Estado, na sexta-feira passada (leia na página C3). “Nunca se fez tanto em saúde e educação, que é o carro-chefe da nossa administração, a nossa marca.”

Mas e o trânsito, prefeito? “Você não quer que eu repita os erros de administrações anteriores, pensar no curto prazo, me preocupar em colocar nome em placa e não fazer a lição de casa, não é?” Os paulistanos, que viram em 2008 índices de congestionamentos serem batidos sucessivamente (o caos: 266 km de lentidão, às 19h30 do dia 9 de maio), terão de esperar. O tema não é prioridade.

Kassab prefere apostar em planos de longo prazo e cita sempre os investimentos em parceria com o Estado na ampliação do Metrô. “Na nossa gestão, (o investimento foi de) R$ 1 bilhão.” E deposita esperanças no Rodoanel, outra obra tocada pelo Estado, para desafogar as Marginais e liberar os caminhos pela cidade. “A grande transformação é daqui a um ano, quando tivermos a conclusão do trecho sul. Aí vamos ter uma reanálise do trânsito na cidade.”

Alguma grande mudança no horizonte? Definitivamente, não. “São oito anos de uma mesma gestão. É o mesmo governo, a mesma filosofia. A cidade renovou o mandato (assumido em 2005 por Serra). Não tem por que mudar”, diz Kassab, que promete ficar no cargo até o fim do mandato. “Chance zero”, falou, sobre uma possível candidatura ao governo do Estado, em 2010. Ano, aliás, em que ele gostaria de ver Serra eleito presidente. “Ele é a pessoa mais bem preparada hoje na vida pública para se tornar presidente”, enfatizou.

Após seis anos sem férias, o prefeito deve descansar em fevereiro. Mas não revela onde.

”Se receita cair, social não sofrerá cortes”
Gilberto Kassab: prefeito de São Paulo

Bruno Tavares e Viviane Kulczynski O Estado SP

O senhor termina o primeiro mandato com alguma frustração que esses próximos quatro anos vão lhe permitir resolver?

Quem tem o cargo de prefeito de São Paulo sempre tem a frustração de não ter solucionado todos os problemas na dimensão que gostaria. Essa é a frustração de qualquer um que esteja na vida pública. Você quer resolver todos os problemas na área de ensino, na saúde. Mas, por outro lado, é muito gratificante observar que nós avançamos mais do que qualquer gestão anterior. Nunca se fez tanto em saúde e educação, que é o carro-chefe da nossa administração, a nossa marca. Eu diria que a frustração foi não ter avançado mais. E a frustração é que nos motiva a continuar realizando. Fizemos bastante, foi uma gestão muito qualificada e nos dá muita motivação para continuar.

No primeiro mandato, o sr. sempre fez questão de se colocar como o vice do Serra…

Isso vai continuar, é a mesma administração, não muda nada. Acho que hoje ninguém tem dúvida. São oito anos de uma gestão.

Mas agora o eleito é o senhor.

Num primeiro momento, o Serra foi eleito. Ao assumir, meu papel era dar sequência a todos os compromissos, à gestão e mostrar para a cidade que o Serra acertou ao deixar na Prefeitura alguém com os mesmos compromissos. Agora, o que mudou? A cidade conheceu (meu trabalho), o vice-prefeito se tornou prefeito e achou que ele era o melhor para dar sequência. É o mesmo governo, a mesma filosofia. A cidade renovou o mandato. Não tem por que mudar, tanto é que eu não mudei a equipe. Não vão mudar as prioridades, os objetivos.

Na educação, ainda há o déficit de vagas em creches. Como resolver?

Fizemos 60 mil vagas. A gente recebe na cidade inteira os cumprimentos. São mães beijando, cumprimentando. Quase dobramos o número de vagas. Ninguém questiona se a gente vai zerar. Fizemos 48 mil vagas em creche. Isso nos permite afirmar que vamos zerar e as pessoas acreditarem. Já fizemos tanto sem ser a prioridade absoluta. A prioridade era escola de lata, salários. Agora é creche.

Na saúde, a prioridade são as AMAs, que o sr. faz sempre questão de enaltecer…

115 AMAs (Assistência Médica Ambulatorial), é um número extraordinário.

Mas elas ainda têm pendências, uma delas jurídica.

Esse questionamento jurídico não é só em relação à cidade de São Paulo. Acontece no governo do Estado, em outros Estados. O Supremo tem sido muito cuidadoso. Você vai fechar as AMAs, que estão atendendo 1 milhão de pessoas por mês? Fechar os hospitais de parceria, que funcionam com menos recursos e melhor? Demos um exemplo com a valorização do funcionalismo. As parcerias não vieram substituir, vieram complementar. Na medida em que elas complementaram, valorizamos o servidor para trabalhar em condições de igualdade. Então, não tem aquela disputa, aquele ciúmes, aquele medo.

E a questão de especialidade, o Conselho Regional de Medicina mostrou que muitos pacientes voltam às AMAs com o mesmo problema, sinal de que eles não têm acesso a especialistas.

Temos as AMAs voltadas para especialistas, o Estado tem as AMEs (Ambulatório Médico de Especialidades) e trabalhamos em conjunto. Não existe esse problema. O que existe na saúde e na educação é a necessidade permanente de melhorar e aperfeiçoar.

O sr. diz que a marca do governo é saúde e educação. Mas e o transporte, o trânsito? Não são prioridade?

Não. As prioridades são saúde e educação. Em transporte público, procuramos fazer a tarifa mais baixa possível porque são 4 milhões de pessoas que utilizam e é a mais baixa do Brasil. Vamos ficar três anos sem aumentá-la. Apesar disso, não deixamos de fazer o que deve ser feito, que é investimento em transporte público de qualidade.

Mas quais os planos para trânsito e transporte público?

Todos nós pagamos pela omissão de administrações anteriores. A falta de investimento em transporte público. É impressionante e inadmissível aceitar que nunca na cidade houve investimento da Prefeitura no Metrô. Na nossa gestão, (o investimento foi de) R$ 1 bilhão. Isso é uma demonstração da nossa falta de preocupação em colocar nome em placa. Não sou governador e nem secretário de Estado e nem serei mais prefeito quando as obras ficarem prontas. Mas, infelizmente, isso não foi feito nas últimas décadas. É fundamental o investimento em corredores, como deve ser feito, não como as administrações anteriores falavam. Corredor mesmo é você não ter interferência, não ter cruzamento. Nos pontos de parada, ter áreas para ultrapassagem, como é o Expresso Tiradentes, como é o Celso Garcia, como é o projeto para a zona sul. E investimento em Metrô e trem. Isso é transporte de qualidade. Você não pode é dizer que vai estimular com pedágio, com taxas, o uso de transporte público, se você não cria o transporte público de qualidade. É um direito da pessoa ter carro. Você tem de criar o transporte público de qualidade para que ela deixe o carro em casa, porque o tempo de viagem do transporte público vai ser 10 vezes menor. Eu sempre fui de metrô para o centro. Essa é a política que tem de ser implantada e nós implantamos na nossa gestão, só que ela é de longo prazo. O prefeito não pode ter a preocupação de colocar nome em placa. Com R$ 1 bilhão eu poderia ter feito dez pontes. É o que meus antecessores faziam. Eu não fiz.

Como o sr. mesmo diz, são medidas de longo prazo. Até lá, o que vai ser feito para o trânsito?

Você não quer que eu repita os erros de administrações anteriores, pensar no curto prazo, me preocupar em colocar nome em placa e não fazer a lição de casa.

Não existe nada que possa ser feito, como a restrições a caminhões?

Não, porque a grande transformação é daqui a um ano, quando tivermos a conclusão do trecho sul do Rodoanel. Aí vamos ter uma reanálise do trânsito na cidade, porque vamos ter toda a circulação de caminhões com direção principalmente à Baixada Santista, o Porto de Santos, sem entrar na cidade de São Paulo. O trecho sul é o mais importante, porque chega à Anchieta/Imigrantes. Ele ficará pronto já em 2010.

O sr. não pensa em nenhuma medida de engenharia de trânsito?

Medida de engenharia é manter as transformações, continuar as pequenas obras, naqueles pontos críticos e fazer a gestão do trânsito. Investir em tecnologia. Estamos recuperando nossa rede de semáforos que estava totalmente velha. Ela era mecânica, agora será totalmente eletrônica. Os nossos semáforos inteligentes… Nenhum deles era inteligente, eram todos burros.

A promessa de não reajustar a tarifa de ônibus, hoje em R$ 2,30, foi feita antes da crise econômica. Os subsídios não podem impactar os cofres da Prefeitura?

Como a Prefeitura está numa boa saúde financeira, fizemos uma opção pelo social. E o que é o social? Transporte público, saúde e educação. Hoje São Paulo tem a tarifa mais barata do Brasil. É muito positivo fazer com que 4 milhões de usuários tenham a tarifa mais barata do Brasil. Aqui está R$ 2,30 por três horas. Vamos poder, mesmo com a crise, manter a tarifa. Ela ficará três anos sem reajuste e só será reajustada em 2010.

Mesmo com os R$ 2 bilhões a menos no orçamento não haverá prejuízo ao tesouro?

Isso já está definido no orçamento. Não vamos cortar no social. Se tiver redução, vai ser em outras áreas. Qual é o desafio? Você não pode errar nas receitas. Quanto vamos arrecadar em 2008? Cerca de R$ 24 bilhões. Se você partir disso, já se define 31% para educação. Para saúde, mais uma vez não vou gastar só 15%. Na educação, a lei obriga 31%. Na saúde, 15%. Neste ano, fechei com 19%. Então, saúde, educação e transportes são três áreas em que não vou mexer. Qual o maior desafio? Tentar não mexer em nada do resto. Se cair a receita, temos de ir atrás de novas receitas. Operações urbanas, por exemplo…

Impostos?

Impostos não. Não vamos aumentar a carga tributária. Operações urbanas podem ser a saída.

Quando veremos aquela região da Luz revitalizada?

Estamos numa fase final. Estamos encaminhando para a Câmara o projeto de concessão urbanística para agilizar a primeira fase. Já temos 27 grandes empresas habilitadas ao incentivo.

Será possível entregar aquela área nesta gestão?

Tenho essa meta. É uma meta.

Na gestão passada, a Câmara foi muito favorável aos projetos do Executivo. A renovação foi pequena, mas de que forma o sr. pretende trazer os vereadores para o lado do governo?

Acho que não vai mudar. Vai continuar uma relação o mais transparente possível, em cima de políticas públicas. A maioria dos vereadores foi reeleita. A Câmara tem sua independência. Como no orçamento, eles não precisavam ter reduzido. Eles não questionaram o mérito, fizeram um corte linear porque acharam que não vai ter receita. Podiam ter contingenciado, mas não muda nada.

O sr. tem um favorito para a presidência da mesa diretora?

Mais uma vez não vamos interferir. A ideia é não ter nenhuma interferência, deixar a condução entre eles, seja o partido da base aliada, seja o líder do governo. Não tem da nossa parte nenhuma orientação, como não teve nas outras vezes.

Quais investimentos estão sujeitos a corte se a arrecadação de fato diminuir no próximo ano?

Não serão no campo social. E, se não serão no campo social, se você elencar tudo aquilo que não é social, vai definir daí qual é o volume de receita que deixará de entrar para cortar o equivalente.

A manutenção da cidade não será prejudicada?

Não, aí são serviços.

Quais pastas ainda estão sujeitas a mudanças?

Não teve alteração. Quando ganhei a eleição, disse que não haveria. O que tem são alterações rotineiras. A Prefeitura, com essa dimensão, muda muito mesmo, são muitos secretários, muitos colaboradores. O que aconteceu desde o segundo turno até agora, e durante o ano, são mudanças naturais, rotineiras.

E as novas secretarias ou as que ganharam status de secretaria?

O secretário ganhou status, não foi criada nenhuma estrutura. Secretaria de Segurança: nós crescemos, integramos com as ações do Estado, do governo federal. Tanto que o governo federal usa a cidade como exemplo de integração de ações do poder público municipal com o governo federal. Apenas mudamos o nome. Em vez de coordenador é secretário. A Secretaria de Desenvolvimento Urbano: só retiramos parte da estrutura de política urbana da Secretaria de Planejamento para uma outra estrutura. E o Miguel, que já está lá, que é diretor de Planejamento Urbano, passou a ter o status de secretário. O Controle Urbano é só o Contru que vai ficar especificamente isolado, porque o Contru não tem vinculação com Habitação, tem relação com a cidade inteira. Criamos cargos em Habitação e Meio Ambiente porque há 40 novos parques.

Vários dos seus desafios são temas metropolitanos. O sr. pensa em ajudar a criar uma autoridade metropolitana?

Isso é papel do governador. Acho que o prefeito de São Paulo sendo a favor ajuda. Mas isso tem de ser coordenado pelo governo do Estado.

E em que moldes?

Criando agências metropolitanas de serviços, específicas. O transporte público, por exemplo, tem de ser pensado sob a ótica metropolitana. Não tem sentido o Metrô e os trens da CPTM não integrarem todas as cidades. Até porque, com isso, as pessoas não vêm de carro para São Paulo.

E sob o aspecto tarifário?

As tarifas são mais caras em outras cidades. Precisaria ver a planilha de custos delas.

Quais são, por parte do Executivo, as linhas mestras da revisão do Plano Diretor?

Aproximar o emprego da moradia. Não tem nenhum sentido você ter 4,5 milhões de moradias na zona leste e o investimento em empregos não ter se concentrado nessa região. E por isso essas duas áreas de incentivos que foram criadas, na zona leste e na Nova Luz, que é vizinha da zona leste. São regiões fundamentais e dotadas de infraestrutura de transportes. Por isso as pessoas podem chegar à Nova Luz de Metrô, de trem. Planejar uma cidade com 11,5 milhões de habitantes é antes de mais nada levar emprego para as regiões próximas de onde as pessoas moram.

E de que forma o sr. pretende viabilizar isso?

Induzindo o estabelecimento de polos e indústrias em regiões específicas próximo dessas áreas.

Na primeira gestão, o sr. teve como marca pessoal e mais forte o Projeto Cidade Limpa…

Não é mais forte. Mais forte é saúde e educação. Onde eu ando, 90% das pessoas agradecem pela saúde e educação. Essa é a marca do governo.

E qual será o Cidade Limpa dessa gestão, com mesma envergadura?

O Cidade Limpa é um modelo. É mais do que o combate à poluição visual, é um combate à poluição em seus múltiplos aspectos. Como começamos pelo combate à poluição visual, que é o mais fácil, ficou com essa marca mais forte. Mas o Cidade Limpa também é a construção de moradias para transferir as pessoas das áreas de mananciais e despoluir as represas; é a atuação do Psiu no combate à poluição sonora; é a inspeção veicular. O Cidade Limpa é uma força de expressão. E não é a marca. Nossa marca, nossa prioridade, continua sendo saúde e educação. Temos 5 milhões de pessoas que dependem do ensino público em São Paulo e 7 milhões de pessoas que dependem da saúde pública. Se prioridade de um governo não é estar ao lado dessas pessoas, então não sei o que é prioridade

Quais suas pretensões políticas ao final deste mandato, já que não pode ser reeleito?

Tenho um único objetivo: sair ao fim deste mandato…

Cumprindo-o inteiro?

Cumprindo inteiro. Sair da mesma maneira que estou saindo neste primeiro, o que está sendo muito gratificante. As pessoas contentes com a administração, 63% na última pesquisa entendendo que a administração é ótima ou boa, 80% aprovando.

E se o seu nome aparecesse para o governo do Estado?

Não vou ser candidato. Vou cumprir o mandato até o fim. Chance zero.

CIDADE LIMPA: “Não é a marca. Nossa marca, nossa prioridade, continua sendo saúde e educação”

OITO ANOS: “É o mesmo governo, a mesma filosofia. A cidade renovou o mandato. Não tem por que mudar”

PLANO DIRETOR: “Meta é aproximar emprego da moradia, estabelecendo polos e indústrias em regiões específicas”

15/12/2008 - 15:49h “Se eu me calasse, seria omissa”

Mãe de vítima ajudou a prender militar, 1.º indiciado por nova lei

 

Pedro Dantas, RIO – O Estado SP

 


Há menos de um mês, a perita civil Fátima Freire, de 45 anos, foi a primeira mãe a romper o silêncio e denunciar à polícia do Rio o assédio de um pedófilo pela internet. A vítima era sua filha V. , de 12 anos, chantageada durante cinco meses por um terceiro-sargento da reserva da Marinha, que acabou preso. Agora, Fátima conta o drama que ela e V. viveram e defende que a luta contra a pedofilia não deve ser uma “guerra envergonhada”. Ela planeja fazer um site para ajudar vítimas e pais que sofrem em silêncio. “Os pais devem sair detrás da cortina. Imagina o número de meninas passando o mesmo que a minha filha e não contam às mães”, afirma.

A filha de Fátima começou a ser assediada em julho, quando passava férias no Recife. No site de relacionamentos Orkut, o militar Francisco Luís Dias, de 49 anos, morador de São Pedro da Aldeia, na Região dos Lagos, clonou o perfil de uma colega de escola da menina e a adicionou como amiga. A vítima aceitou e logo o criminoso teve acesso a dezenas de fotos de V. e informações sobre a sua vida.

Sempre se passando pela colega, o militar passou a falar com a menina em um programa de conversa instantânea. V. ligou a webcam sem saber que era gravada. A imagem foi editada em um filme como se a menina aparecesse nua. A falsa amiga virtual começou a chantageá-la. Mostraria o filme aos colegas, caso ela não aceitasse um encontro com um “amigo”.

O tormento durou cinco meses. Em troca da não divulgação do vídeo, a falsa colega pedia que V. mostrasse o corpo. Como recusou o encontro com o militar, o pedófilo divulgou o vídeo para os colegas de V.

Em seguida, diante de novas recusas da vítima, o militar clonou o perfil de V. e se passou por ela para enviar filmes amadores pornográficos em que ele fazia sexo com outras crianças para os amigos da escola da garota. Sob a falsa identidade, ele dizia que os vídeos eram protagonizados por V. A menina começou a ser hostilizada no colégio e entrou em depressão.

Sem saída, no dia 1º de novembro, ela contou tudo para a mãe. “Eu percebia que tinha algo errado. Ela passou a faltar às aulas, tinha febre sem estar doente, mas não falava o que era. Resolvi não pressionar e ela contou tudo, até que mesmo que não agüentava mais e queria se matar”, conta Fátima.

A mãe entrou em ação rapidamente. Procurou a Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI) e os policiais a orientaram a manter conversas com o pedófilo até marcar um encontro. “O constrangimento de ficar ao lado da minha filha por até três horas, durante quase um mês, vendo obscenidades, foi o sacrifício para livrá-la dessa situação. A pedofilia matou o sonho de ver o sexo entrar na vida da minha filha de forma natural e orientá-la sobre o tema. Hoje, aos 12 anos, ela faz tratamento psicológico e mudou de escola. Não sei por quanto tempo essa sombra estará sobre ela”, lamenta a mãe.

O conteúdo das conversas é impublicável. “Ele se excitava toda vez que ameaçava minha filha. Usava gírias de adolescentes e assumia várias identidades. No fim, se revelou como homem, ligava a câmera, mas só mostrava o sexo e se masturbava. No entanto, notei que o relógio era o mesmo usado pelo homem nos vídeos com outras crianças”, conta a mãe. O militar da reserva Francisco Luis Dias, de 49 anos, foi preso no dia 28 de novembro ao ir ao encontro da menina no estacionamento de um supermercado em Nova Iguaçu, armado com uma pistola PT 380, munição e um laptop com vários vídeos pornográficos amadores.

O militar foi o primeiro brasileiro indiciado na nova lei contra a pedofilia na internet, que pune o armazenamento de imagens pornográficas, criminaliza as fotomontagens com crianças e o assédio ou a incitação de adolescentes à auto-exibição. As punições variam de um a oito anos de prisão, além de multa. No caso de Dias, se condenado, a pena será aumentada em um terço, pois ele é pai de um menino de 6 anos e de uma adolescente de 16.

O drama da filha fez Fátima encarar novamente o pesadelo que enfrentou na infância. Ela diz que foi abusada aos 5 anos por um parente que passou as férias na casa de seus pais. Mais tarde, o abusador foi preso após engravidar a própria filha. “A primeira vez eu era uma criança e não tinha discernimento. Agora, com a minha filha, se me calasse, seria omissa”, avalia.

O delegado-titular da DRCI, Fernando Vila Pouca de Sousa, diz que o medo do julgamento alheio ou de estigmatizar socialmente a criança inibe a denúncia. Há cinco meses no comando do distrito, ele afirma que Fátima foi a primeira a denunciar o assédio. “Ela é uma exceção. As vítimas, pais de classe média e esclarecidos, deveriam buscar Justiça, mas não o fazem com medo de submeterem a filha a um prejulgamento”, afirma o delegado.

Fátima confirma que após denunciar sentiu como é ser julgada mesmo sendo vítima. “Algumas pessoas me perguntaram se a minha filha mostrou ou não o corpo. Não entendo a diferença, pois V. estava sendo chantageada por um adulto em uma luta desigual”, conta.

O mercado da pornografia infantil, de acordo com dados da CPI da Pedofilia, movimenta cerca de R$ 3 milhões por ano no País. Esse montante é gerado pela compra e venda de fotos de material pornográfico com crianças para Estados Unidos e Europa. O crime na internet desconhece fronteiras. Ao tentar identificar as outras vítimas do militar pedófilo, a polícia descobriu entre elas uma adolescente do interior paulista. “A pedofilia é um crime que entra em nossa casa, mesmo com as portas fechadas”, alerta Fátima.

ATENÇÃO, PAIS

Proibir não educa e não previne nada. As tecnologias mais
avançadas para proteger crianças e adolescentes continuam sendo diálogo e orientação

Coloque-se sempre à disposição para que as crianças peçam ajuda quando se sentirem ameaçadas ou receberem conteúdos impróprios online

Alerte os filhos para não divulgarem dados pessoais na internet, não aceitarem convites para encontros com amigos virtuais nem receberem arquivos de estranhos

Espionar e gravar o que os filhos fazem não são boas saídas. Você fere a privacidade e pode fragilizar a confiança

Ensine que não podemos acreditar em tudo nem em todos. A internet é território fértil para pessoas mal-intencionadas e mentirosas

Estabeleça regras e limites para o uso da internet, adequadas à idade da criança. Fixe um horário ou tempo limite de acesso, converse sobre os sites e serviços que ela pode ou não usar e
explique o motivo. Monitore o uso de salas de bate-papo e de comunicadores instantâneos

Mostre às crianças que a internet é apenas mais uma
opção de lazer e educação entre várias. A web não deve substituir opções de interação social realizadas fora do computador

Use os recursos que seu provedor de acesso puser ao seu dispor para bloquear o acesso a sites com conteúdo impróprio para seu filho. Você também pode utilizar programas de filtragem de conteúdo, disponíveis na internet

Fonte: SaferNet Brasil (prevencao@safernet.org.br)

COMBATE AO ABUSO

20/12/2007: Operação Carrossel

A Polícia Federal cumpriu 102 mandados de busca e apreensão de material pornográfico em residências e empresas de suspeitos de crimes sexuais contra crianças, em 14 Estados e no Distrito Federal. Foram detectados cerca de 3,8 mil acessos à material pornográfico infantil na internet. Três pessoas foram presas em flagrante, duas em São Paulo e uma em Fortaleza

25/3/2008: CPI

Senado instala a CPI da Pedofilia para propor projetos de lei para combater os crimes sexuais contra crianças e adolescentes no País

23/3/2008: Orkut

CPI da Pedofilia consegue quebra de sigilo de 3.261 usuários do Orkut, suspeitos de estimularem a pedofilia, com divulgação de material pornográfico com menores

2/7/2008: PF e Google

Polícia Federal e Google assinam o Termo de Ajustamento de Conduta para combater a pedofilia no site de relacionamentos Orkut

9/7/2008: Projeto

Em desdobramento dos trabalhos da CPI da Pedofilia, o Senado aprova projeto de lei que pune com mais rigor os crimes de pornografia infantil e pedofilia na internet. O projeto é encaminhado para votação na Câmara

3/9/2008: Carrossel 2

A Polícia Federal fez buscas e apreensões de material de pornografia infantil em 113 endereços de 17 Estados e do Distrito Federal, de onde o material era distribuído pela internet. O Estado campeão de mandados foi São Paulo, seguido pelo Rio Grande do Sul

11/11/2008: Câmara

Câmara aprova o projeto de lei, que foi, então, para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva

25/11/2008: Lei

O presidente Lula sanciona o projeto de lei que aumenta a punição e a abrangência de crimes de pedofilia na internet, durante o 3.º Congresso Mundial de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, no Rio

27/11/2008: Quebra de sigilo na internet

PF assina acordo com ONG SaferNet para ter acesso às denúncias de pedofilia na internet no www.denunciar.org.br; ação da PF faz varredura em 3.261 perfis no Orkut e identifica 117 pedófilos no País

29/11/2009: O 1.º indiciado pela nova lei

O militar da reserva da Marinha, Francisco Luís Dias, de 49 anos, foi o primeiro indiciado pela nova lei. Ele foi flagrado em encontro com uma menina de 12 anos que estava sendo chantageada para posar em fotos pornográficas

13/12/2008 - 11:01h Servidora federal já pode ter licença-maternidade maior

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JULIANNA SOFIA – FOLHA SP

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Servidoras públicas federais já podem usufruir da licença-maternidade de seis meses. Ontem, foi publicado o decreto que regulamenta o benefício ampliado para servidoras em órgãos da administração pública federal direta, autarquias e fundações. A estimativa do Ministério do Planejamento é que 101,2 mil servidoras possam ser beneficiadas com a medida.
A lei que ampliou a licença-maternidade em dois meses entrou em vigor no início de setembro, mas o benefício para as trabalhadores da iniciativa privada só vale a partir de 2010 por conta da falta de tempo para incluir o impacto fiscal da medida no Orçamento de 2009.
Já no caso do funcionalismo federal, a aplicação da lei dependia apenas de decreto para fixar os procedimentos a serem adotados pelos órgãos públicos. Na regulamentação, foi estabelecido que o benefício ampliado vale desde que a lei foi sancionada. Ou seja, mulheres que estavam em licença em setembro têm direito a mais dois meses do benefício.
Se a licença tiver sido concluída entre 10 de setembro e 12 de dezembro, a servidora poderá requerer junto a seu órgão a extensão de dois meses. Os custos da ampliação serão bancados pelo Tesouro Nacional, mas o Planejamento não divulgou o valor estimado do gasto.
O Ministério do Planejamento destacou que as mães adotivas também podem gozar do licença de seis meses. Para as servidoras que adotarem ou obtiverem guarda judicial de crianças, o decreto prevê a prorrogação da licença em 60 dias para a adoção de crianças com até um ano de idade. O prazo fica limitado a 30 dias para crianças com mais de um e menos de quatro anos. Para crianças de quatro a oito anos de idade, são apenas mais 15 dias.
No período da licença ampliada, a funcionária pública não pode exercer atividade remunerada ou manter a criança em creche. Caso isso ocorra, há perda do direito à prorrogação.

Setor privado
Para que as trabalhadoras do setor privado passem a ter direito à licença de seis meses, as empresas precisam aderir ao programa Empresa Cidadã. Em contrapartida, podem descontar do imposto de renda o valor gasto com os dois meses adicionais do benefício pago à funcionária.

01/12/2008 - 08:09h Transporte gratuito para gestante fica disponível só depois do parto

http://www.kassab25.com.br/files/imagecache/tratamento-noticia/page/mae_paulistana.jpgMatéria do jornal Diário de S. Paulo de sexta-feira (28) revela que o transporte gratuito prometido para gestantes da capital que participam do Programa Mãe Paulistana durante a gravidez só tem chegado depois do parto. O benefício deveria estar disponível no início da gestação, para que as mulheres pudessem ir até as Unidades Básicas de Saúde (UBS) para realizar as consultas e exames durante toda a gravidez. Mas, na prática, não é o que vem ocorrendo para muitas mulheres.

O Mãe Paulistana nada mais é do que o programa Nascer Bem, implantado na gestão Marta Suplicy e que teve o nome mudado na atual administração. Trata-se de uma rede de atenção às gestantes, que prevê transporte gratuito e atenção no pré-natal e puerpério.

O programa foi usado na campanha eleitoral como sendo uma das marcas do prefeito Gilberto Kassab. Mas no final do segundo turno, um jornal revelou que figurantes teriam sido usadas para falar sobre o Mãe Paulistana nos programas de rádio e TV do candidato do DEM.

O Diário entrevistou mães e gestantes que relatam problemas que enfrentam para usarem o benefício. “Entrei com o pedido do Bilhete Único do programa quando estava grávida de um mês e quinze dias, mas até agora não recebi nem o cartão”, contou ao jornal a recepcionista Ângela Maria de Araújo, de 27 anos, mãe de Agatha, de dois meses. Para chegar até a UBS Paulo VI, na Zona Oeste, onde fez todo o acompanhamento durante a gravidez, Ângela precisava tomar dois ônibus.

“Vim aqui os nove meses da minha gravidez. E tenho vindo agora, que minha filha nasceu, para fazer o acompanhamento com o pediatra”, diz. Na última quinta, quando levou a filha ao médico na UBS, Ângela consultou mais uma vez se o benefício estava disponível. “Só disseram que ainda não estava”, conforma-se. (Fonte Boletim bancada PT).

15/09/2008 - 16:23h Festival abre espaço para filmes raros de Bergman

Seleção da Mostra apresentará obras indisponíveis no país, em cópias novasRetrospectiva terá longas como “Crise”, o primeiro do cineasta sueco, e uma exposição fotográfica; autobiografia é relançada

O sueco Ingmar Bergman, em 1967; ele faria 90 anos em 2008

LEONARDO CRUZ – FOLHA SP  EDITOR-ASSISTENTE DA ILUSTRADA

Bergman morreu. Viva Bergman. Um ano após a morte do cineasta sueco, quando ele completaria 90 anos, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo prepara um tributo à altura do mestre europeu: uma retrospectiva de filmes raros, uma exposição fotográfica e, em parceria com a editora Cosac Naify, o relançamento de uma autobiografia do diretor.
“Os 90 anos são uma boa desculpa para homenagear Ingmar Bergman. Ele é um autor eterno. Sempre que o revemos, descobrimos novos elementos, novas nuances em sua obra”, afirma  Leon Cakoff, diretor da Mostra, que fará sua 32ª edição de 16 a 30 de outubro.
A retrospectiva trará ao Brasil filmes atualmente indisponíveis em DVD no país. “Nosso critério de seleção privilegiou obras pouco vistas por aqui, difíceis de encontrar”, diz Renata de Almeida, co-diretora do festival. Ou seja, ficam de fora clássicos como “O Sétimo Selo” (1956), “Morangos Silvestres” (1957) e “Gritos e Sussurros” (1973), títulos sempre presentes em ciclos dedicados ao cineasta. E entram longas como “Crise” e “Chove em Nosso Amor”, ambos de 1946, os primeiros dirigidos por Bergman.
“No começo, Bergman tentou vários estilos, mas a linguagem que predomina nos anos 40 e 50 é mais expressionista, inspirada por Michael Curtiz ["Casablanca", 1942], entre outros. É um cinema de sombras e fortes contrastes entre branco e preto, especialmente em interiores”, analisa Fredrik Gustafsson, coordenador da obra de Bergman no Instituto Sueco, órgão público de difusão da cultura sueca no mundo.
Em 2007, Gustafsson supervisionou a produção de cópias novas, em 35 mm, de todos os filmes do cineasta. “Só não fizemos de um, “Isto Não Aconteceria Aqui”, thriller de espionagem de 1950 que Bergman sempre detestou e que ele dizia que nunca deveria ser mostrado.”
São essas cópias que virão ao Brasil. Até o momento, dez títulos estão confirmados (veja quadro ao lado), mas outros devem entrar, inclusive uma divertida série de comerciais que o diretor fez para a marca de sabonete Bris em 1951.
Além dos longas, a Mostra apresentará a exposição “Meus Encontros com Bergman”, seleção de registros que o fotógrafo sueco Ove Wallin fez do cineasta entre as décadas de 50 e 80 -sempre durante filmagens. A série foi exibida pela primeira vez em junho, em Estocolmo, e ficou em cartaz em Tóquio no mês seguinte.

“Lanterna Mágica”
Ainda durante a Mostra de SP, voltará às livrarias “Lanterna Mágica”, obra de memórias de 1987 em que Bergman escreve sobre episódios como a infância conturbada, o contato com a Alemanha nazista na adolescência, as crises amorosas, o trabalho no teatro. Focada na vida pessoal, é peça obrigatória para entender os temas centrais da obra do cineasta.
A primeira edição brasileira, lançada em 1988 pela Guanabara, está esgotada há mais de uma década. A nova terá tradução a partir dos originais suecos por Marion Xavier, imagens do cineasta em locações e, provavelmente, artigos de Woody Allen e Mikael Timm, autor de uma biografia de Bergman. Com capa dura e 320 páginas, editado pela Cosac Naify em sua coleção da Mostra, o livro custará R$ 59.

Solicitam corrigir o nome da tradutora do livro Lanterna Mágica, traduzido por  Marion Xavier

Sétimo Selo


por Sylvia Manzano


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A Morte joga xadrez com o cavaleiro Antonius em cena antológica.

O Sétimo Selo

Direção: Ingmar Bergman

Sinopse: Antonius Block retorna das cruzadas e encontra sua vila destruída pela peste negra. Depois disso passa a refletir sobre o sentido da vida, mas a Morte (Bengt Ekerot) aparece para levá-lo. Porém, Block se recusa a morrer sem ter entendido o sentido da vida e propõe um jogo de Xadrez, onde se ele ganhar continua a viver. Apesar de perder o jogo, a Morte continua a perseguí-lo enquanto viaja pela Suécia medieval.

“O Sétimo Selo revela uma alegoria em preto e branco sobre a busca infinita pelo sentido em um mundo caótico: o mundo do século XIII, devastado pela Peste Negra.
Antonius Block (Max Von Sydow) retorna das Cruzadas e encontra sua vila destruída pela doença. A Morte aparece para levá-lo, mas Block se recusa a morrer sem ter entendido o sentido da vida. Propõe então um jogo de xadrez, em uma tentativa de burlar a única certeza que o habita.
Apesar de perder o jogo de xadrez, a Morte continua a perseguí-lo enquanto viaja pela Suécia medieval. Block descobre os aspectos mais repugnantes do fervor religioso: a tortura, a caça às bruxas, o espectro da Morte alimentando-se da fraqueza humana. “
Se a busca infinita pelo sentido em um mundo caótico, existiu no século XIII, hoje isso parece completamente fora de moda.
O que existe hoje é a busca infinita pelo interior de nosso corpo e haja raio-x, tomografia, exames de laboratório e sei lá mais o quê.
Hoje é como se fôssemos apenas corpo e a alma, essa que se dane.
O psiquismo? Oras, o que é isso?
As memórias, as lembranças? A falta de um pai, o excesso de mães?
Oras, o que é isso?
Somos corpo e se o corpo adoece é só o corpo que adoeceu.
Sinto saudades desse momento do século XIII, saudades de um tempo em que havia a busca infinita pelo sentido da vida e posso ser uma pessoa completamente fora de moda hoje em dia, mas minha vida ainda se resume nisso: pela busca infinita pelo sentido da vida, corpo, alma, mente e psiquismo.
Dia e noite percorro labirintos dentro de mim, que vão ficando cada vez mais claros e luminosos, à medida que os encaro e não fujo deles.
Cachoeiras me habitam, posso me sentar à sombra de frondosas árvores, saborear os frutos sazonados da maturidade e depois arrotar de felicidade, porque como já disse em texto anterior, na sofreguidão de viver, como sem mastigar e depois fico “empachada”.
Sempre, porém, vou atrás de meus recursos.
Era o que eu tinha a dizer por este mês.
No próximo mês tem mais.
escrito por Sylvia Manzano

20/08/2008 - 12:40h Governo federal vai aprovar licença-maternidade de 6 meses, diz Mantega

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da Agência Brasil e da Folha Online

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu aprovar a extensão da licença-maternidade para seis meses, segundo informou hoje o ministro da Fazenda, Guido Mantega, em entrevista a emissoras de rádio do estúdio da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), no programa “Bom Dia, Ministro”.

“O presidente já decidiu que vai aprovar, não vai vetar esse projeto de modo que esse benefício seja estendido a todas as mulheres brasileiras.”

Mantega disse que teve de mostrar ao presidente “quanto custa o negócio”. Ele disse que é fácil aprovar uma lei que traz um benefício, mas a Fazenda tem de dizer quanto vai custar isso para a União.

“O custo disso é de R$ 800 milhões por ano. E eu sou obrigado, como ministro da Fazenda, a dizer ao presidente: ‘Olha vai custar isso e portanto temos que ter verba no nosso orçamento para viabilizar’”.

O projeto aprovado pelo Congresso prevê licença de 180 dias, mas os últimos 60 serão opcionais –a empresa pode, ou não, incluí-los nos período de afastamento da gestante. O pagamento também é feito pelas empresas, mas elas poderão abater do Imposto de Renda o salário bruto dos dois meses extras da licença.

Pela proposta, as empresas que aderirem à ampliação da licença-maternidade vão receber incentivos fiscais e o título de “Empresa Cidadã”. A medida vale tanto para a iniciativa privada como também para o setor público federal, estadual e municipal. A medida deverá entrar em vigor apenas em 2010.

As mudanças demorarão a ser efetivadas porque não haverá tempo para incluir as alterações, que informam sobre isenção e incentivos, na previsão de renúncia fiscal de 2009.

Atualmente, 93 municípios e 11 Estados, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, já permitem que as mães desfrutem de seis meses de licença.

10/08/2008 - 12:27h Tal pai, tal filho? depende de você

Se precisar das dicas é que você já perdeu o pé, mas dá para consertar. Reproduzir estereótipos é repetir besteiras. Ninguém deveria calcar imagens e cargar, além da conta , o peso de sua própria infância. Quebrar a rigidez de papeis e manter a essência do lugar distinto do pai e da mãe, pode virar um instrumento de superação. Gostei das “dicas” publicadas no Correio Braziliense. LF

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PASSOS PARA SE TORNAR UM ENCANTADOR

Você se considera um bom pai? Acha que tem uma relação próxima e saudável com seu filho? Então responda rápido: qual a cor preferida dele? Qual é o super-herói com quem ele mais se identifica? Quem são seus melhores amigos? Qual é o seu maior sonho? E seu maior medo? E seu filme predileto? Se depois dessas perguntas você sentiu que é hora de se envolver mais com a família e, quem sabe, entrar para o ilustre hall de pais encantadores, veja abaixo um pequeno guia elaborado com a ajuda dos pais entrevistados e com o respaldo dos psicanalistas Wadson Damascena e Roberto Menezes, com idéias que podem mudar a história do relacionamento entre pai e filho:

1 Assuma tarefas diárias da babá ou da mãe, como preparar o café da manhã, dar o banho, levar para a escola, colocar para dormir ou ajudar na lição de casa. “O pai tem que criar junto. Falta de tempo é a pior desculpa que alguém pode arrumar para justificar a distância com o filho. Tempo a gente sempre arruma quando há um real interesse”, opina Wadson.

2 Muitos subestimam a capacidade e a inteligência das crianças e dos jovens. Crianças são boas de papo e têm pensamentos e histórias fascinantes para dividir. “Criar o hábito de conversar é uma excelente forma de aproximação”, afirma Wadson.

3 Na hora do almoço não há nada mais desagradável do que um pai que pede silêncio aos familiares que querem conversar para poder assistir ao telejornal ou ao programa de esportes. As refeições são boas oportunidades de socialização, aproximação e divertimento.

4 Crie um hobby em comum com seu filho. Descubra algo que ambos gostem e ponha em prática esse gosto, pelo menos uma vez por semana. Pode ser andar de bicicleta, praticar algum esporte, ir ao cinema, exposição ou aprender a desenhar, por exemplo.

5 Saia da rotina. Surpreenda a família com um passeio, uma viagem ou um programa diferente.

6 Conte histórias sobre sua infância. As crianças adoram imaginar os pais quando jovens. Deixe-o contar suas histórias também.

7 Preste atenção no que ele fala. Valorize-o. Se um dia ele contar que aprendeu sobre os animais mamíferos na escola, por exemplo, leve-o ao jardim zoológico.

8 Brinque com ele. Brincar é o que as crianças fazem melhor. Na companhia dos pais, acham esse prazer ainda mais divertido.