14/07/2009 - 14:39h Violentos enfrentamentos de jovens e policia em Montreuil (França)

Montreuil : nouveaux heurts entre manifestants et policiers

Par Zineb Dryef | Rue89

Après les incidents qui ont suivi l’évacuation du squat de Montreuil mercredi, 700 personnes ont manifesté ce lundi soir.

Ce lundi soir, environ 700 personnes se sont réunies à Montreuil pour protester contre les violences policières de la semaine dernière. Joachim Gatti, réalisateur, a perdu un oeil après avoir été touché par un tir de flashball lors d’un rassemblement de soutien aux membres du collectif d’extrême-gauche La Clinique.

A 19 heures, une lettre de Joachim Gatti a été lue devant une assemblée hétérogène : jeunes cagoulés, membres de la Clinique, voisins solidaires, familles…

Dans ce texte, le réalisateur de 34 ans rappelle les raisons de son combat auprès du collectif :

« Nous essayons d’être présents au monde, à la ville, au quartier où nous vivons, à ceux qui nous entourent, à nous même. Présence quand partout on voudrait notre absence. Absence à la politique, au social, aux soins, à la culture, bref, à la société.

Présence quand il devient toujours plus difficile de se loger, de se nourrir, de se soigner, de se déplacer. Présence quand une partie d’entre nous est traquée au quotidien. Dans le métro, à la sortie du boulot, dans leur maison (…)

Ce soir là, c’est bien nos gueules qu’ils visaient, c’est bien nos gueules qu’ils voulaient casser. Cinq d’entre nous ont été blessés et moi j’ai perdu mon oeil. Mais il m’en reste un. Et avec lui, une haine sourde et méchante. Et avec lui, une détermination à continuer. »

Plusieurs manifestants étaient casqués et masqués pour l’occasion. Une façon pour eux de se « protéger » contre la police. Une façon aussi de rappeler que ce soir, la rue leur appartient et que pour y rester, ils n’hésiteront pas à « résister » aux forces de l’ordre.

« Œil pour œil » avec la « milice du capital »

Car l’heure n’est pas à la manifestation festive. Le slogan peint sur la banderole à l’avant du cortège est sans équivoque : « Les condés, hors de nos quartiers ». Les clameurs dénoncent une police « milice du capital » et un état « assassin ». Un des participants, cagoulé, est aperçu avec deux pieds-de-biche. Certains parlent d’une soirée « œil pour œil ».

Lorsque les manifestants arrivent aux abords de l’ex squatt, les rangs se sont déjà considérablement vidés ; le dispositif policier, important, en a dissuadé quelques-uns.

Aux pétards envoyés sur les forces de l’ordre répondent très rapidement des gaz lacrymogènes et une charge massive. Après un court affrontement (deux chaises de café volent) le cortège se disperse et quelques vingt personnes sont immobilisées.

Parmi ces personnes interpellées, un journaliste stagiaire au Monde. Il raconte :

« J’ai été interpellé vers 21 h 15. La manifestation était en train de se disperser, j’ai soudain été plaqué au sol et j’ai entendu un policier dire : “Toi aussi, tu viens avec nous”. Ils m’ont attaché les mains dans le dos.

J’ai répété à plusieurs reprises que j’étais journaliste, mais ils n’écoutaient pas. Dans le fourgon, il y avait trois policiers qui traitaient les deux manifestants interpellés avec moi de « sales gauchos ». »

Les riverains prennent la police à partie :

« Vous n’avez pas honte ? Pourquoi vous frappez des gamines ? Pourquoi vous les arrêtez comme ça ? Je serais à votre place, je ne dormirais pas de la nuit. »

Pour disperser la foule qui les interpelle, la police a utilisé à plusieurs reprises des gaz lacrymogènes. Les cafetiers et voisins proches ont eux ouvert leurs portes pour permettre au plus grand nombre de se protéger.

A 22 heures, les stations de métro menant au centre-ville de Montreuil étaient bouclées et les rues vidées. La police, après une vingtaine d’interpellations, patrouillait encore et les derniers manifestants taguaient sur les murs des « Police = porcs et assassins ».

Dominique Voynet, maire Verts de la ville, a réclamé sur France Info une« enquête indépendante » pour « permettre de dire exactement s’il y eu des violences, quelles étaient ces violences ».

Elle a également dénoncé les abus policiers :

« Je ne pense pas pour ma part qu’elles (les violences) venaient des manifestants, elles venaient surtout des policiers ».

N.B : Plusieurs images ont été volontairement supprimées de la vidéo. De nombreux participants à la manifestation nous ont formellement demandé de ne pas diffuser leur image. Les organisateurs n’aiment pas les médias, c’est de bonne guerre. En revanche, vouloir contrôler les médias (« restez à l’avant », « éteignez-votre caméra ») est pour le moins curieux lors d’une manifestation publique.

Mise à jour le 14/07/09 à 11h34 : Dominique Voynet a dénoncé les violences policières sur France Info.

Mise à jour le 14/07/09 à 11h41 : Un journaliste stagiaire du Monde raconte sa garde à vue.

14/06/2009 - 13:29h Parada Gay na Paulista


01/04/2009 - 09:27h Maionese, cocoricós e o G20

Manif anti sarko

http://www.ladepeche.fr/content/photo/biz/afp/une/photo_1195578234090-10-0_zoom.jpghttp://www.france24.com/files_fr/story/sommet-berlin_m.jpg

VINICIUS TORRES FREIRE – FOLHA SP


Reunião “histórica” começa sob ameaça de fiasco prático e risco de maior desacordo internacional sobre a crise


“LA MAYONNAISE va prendre” é uma expressão francesa tanto para dizer “a coisa vai engrenar” como, em contexto de maior exaltação, “o caldo vai engrossar”. Nicolas Sarkozy, marido de Carla Bruni, aliás presidente da França, ameaça bater a maionese na reunião do G20, que começa amanhã, em Londres. Não é o mais importante dos tiros no concerto do G20, mas é sintomático.
Sarkozy vazou para imprensa que “deixará uma cadeira vazia” no G20 caso os EUA não aceitem uma reforma que endureça os controles sobre a finança mundial. “Cadeira vazia” é um clássico gaullista, de quando Charles de Gaulle deixou seus pares da Comunidade Econômica Europeia falando sozinhos, em 1965.
A maionese caseira de Sarkozy desanda. Há o risco de a crise levar franceses em massa às ruas, o que não tem tido consequências maiores desde os anos 1960, embora tenha levado à breca um governo liberal, nas grandes greves de 1995. Enfim, nunca se sabe o que pode dar quando há franceses irados na rua. Sarkozy canta, pois, um cocoricó para a galera, tirando casquinha dos EUA. Além do mais, se sair do G20, faz o quê? O que importa? O PIB francês equivale a 6% das 19 economias do G20 (19 países mais um representante da União Europeia). Os EUA têm 30% do PIB do G20.
A chanceler alemã, Angela Merkel, deve reafirmar sua oposição ao apelo de Barack Obama, que pede mais gasto público no mundo a fim de conter o colapso global. Os alemães são conservadores em juros e dívida, mas temem mesmo é ter de bancar a conta do colapso da Europa, que não tem governo unificado para fazer pacote fiscal. A Alemanha é 8% do G20 e, na previsão da OCDE, seu PIB deve encolher uns 5% em 2009.
O premiê japonês, Taro Aso, apoia os americanos e critica Merkel. Aso vai a Londres com aprovação de apenas 25% dos japoneses e sob o risco de governar a pior recessão no mundo rico (queda de 6,6% do PIB, diz a OCDE). O Japão, 10% do PIB do G20, tem, porém, a experiência de quase 15 anos de estagnação, fruto do estouro de uma bolha imobiliária, de uma outra na Bolsa e da reação oficial tardia à crise. Aso apoia a ideia americana de triplicar os fundos do FMI, está soltando um pacote fiscal de US$ 100 bilhões a US$ 200 bilhões, uns 2% a 4% do PIB, e anunciou ajuda para a Ásia.
O anfitrião Reino Unido é sempre pró-EUA, mas não que ver o caldo entornar em casa e está meio sobre o muro. Os chineses, que têm 8% do PIB do G20, vão aproveitar para tirar um cascão dos EUA, como o têm feito, acusando-os de irresponsáveis e sugerindo, por ora retoricamente, dar cabo do dólar como moeda mundial. Os russos estão falidos, mas são mais um problema político.
O resto é mais ou menos o resto.
Aliás, do que vai tratar mesmo o G20? De estímulo à demanda mundial, de reforma financeira, de evitar protecionismo. Numa reunião de um dia, cheia de ruídos, na qual o “Ocidente” tentará tanto lançar mão do “ouro de Pequim” como evitar que a China atraia mais emergentes para seu lado. Em que os líderes terão de falar “urbi et orbi”, por algum acordo internacional, para as ruas que querem protecionismo, para Wall Street que não quer saber de restrições etc. Vai dar certo, isso?

vinit@uol.com.br

19/03/2009 - 16:29h França enfrenta greve geral hoje

Des responsables de la CFDT, de la CGT, de FO et de la FSU défilent à Paris le 19 mars.

Ben Hall, Financial Times, de Compiègne, França – VALOR

AP

Empregados da Continental em Grenoble, França, colocam fogo em pneus durante protesto:

trabalhadores franceses já dão sinais de radicalismo

Após serem atingidos por ovos jogados por trabalhadores que bloqueavam a entrada da fábrica de pneus da Continental às margens do rio Oise, diretores da fábrica foram vistos entrando sorrateiramente por uma entrada lateral cujo acesso se dá por barco.

“As pessoas estão perturbadas”, afirma Christian Lahargue, um funcionário da Continental que corre o risco de ser demitido. “Vamos fazer de tudo para manter esta fábrica aberta.”

Este impasse agressivo no norte da França às vésperas de uma greve nacional sugere que a tensão social está aumentando e contribuindo para a impressão de que o outrora confiante Nicolas Sarkozy, o presidente da França, está perdendo o passo.

A segunda maior economia da zona do Euro deverá enfrentar distúrbios hoje, por causa de uma greve nacional convocada por sindicatos, que deverá contar com centenas de manifestações em protesto contra a política econômica e o programa de reformas de Sarkozy.

Sindicalistas prometeram superar a última greve, feita em janeiro, quando entre 1 milhão e 2,5 milhões de pessoas foram às ruas.

A escala dos protestos de sete semanas atrás pegou o governo de surpresa, forçando-o a oferecer ? 2,6 bilhões (US$ 3,38 bilhões) em pagamentos extras de auxílio-desemprego e corte de impostos para famílias de baixa renda. Mas as concessões não satisfizeram os sindicatos, nem impressionaram a população.

Segundo uma pesquisa de opinião feita pelo instituto Ifop para a revista “Paris Match” , 78% dos franceses consideram a greve de hoje justificada. Os franceses “deram autorização ao movimento sindical para articular sua oposição a Nicolas Sarkozy”, afirma Stéphane Rozès, presidente-executiva do instituto de pesquisas CSA.

De acordo com outra pesquisa, os franceses acreditam que Olivier Besancenot, o líder trotskista da extrema esquerda, tem tanta “credibilidade” quanto o presidente.

Sarkozy está na defensiva desde o começo do ano, com o agravamento da situação da economia. O governo foi lento em reagir a uma greve geral de seis semanas e a tumultos em Guadalupe, um território francês no Caribe.

O presidente vem encontrando oposição dentro de seu partido de centro-direita em uma série de questões, do retorno da França ao comando militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) à redução da carga tributária para os ricos.

Sarkozy foi forçado a recuar na reforma universitária, uma de suas principais medidas de modernização, em meio a temores de que um movimento de protesto estudantil liderado pela extrema esquerda pudesse se tornar violento. A concessão preocupou alguns empresários. “Os mais radicais estão conseguindo resultados”, diz Maurice Lévy, presidente-executivo do grupo de propaganda Publicis.

Sarkozy tem motivo para se sentir ressentido. A economia francesa deverá se sair bem melhor que as de seus vizinhos depois que Sarkozy implementou rapidamente um plano de socorro bancário, garantias de empréstimos para pequenas empresas, seguro de crédito comercial bancado pelo governo e outra medidas para manter o crédito fluindo para a economia.

Ele mobilizou o outrora intervencionista e desdenhoso Estado francês e entendeu a mensagem que estava sendo passada pela população com sua crítica ao capitalismo financeiro.

Mas, ao mesmo tempo em que celebra o retorno do Estado, Sarkozy está se agarrando às suas metas de cortar os impostos, diminuir a burocracia do governo e conter os gastos.

É por isso que os franceses acreditam que as políticas de Sarkozy “não são coerentes, eficientes ou justas”, diz Rozès. Os franceses sentem que os bancos estão sendo ajudados com poucos limites, enquanto o governo vem dando pouca ajuda às famílias comuns.

A oposição a Sarkozy deverá se concentrar na redução dos impostos para os ricos, o chamado escudo que limita o imposto de renda devido de um indivíduo a 50% da renda. Sindicatos e alguns membros do partido do presidente não querem isso. Sarkozy reage, reforçando sua imagem de amigo dos ricos.

Não está nem um pouco claro se a tensão social vai acabar resultando em um movimento político coerente capaz de paralisar o governo Sarkozy. “Ele não está numa espiral de queda”, afirma Zaki Laidi, da Sciences Po, que aponta para a confusão entre os socialistas da oposição e diz que as críticas da população e dos sindicatos ao presidente são bastante difusas. “Não estamos na iminência de uma greve geral.”

Mas outros observadores temem a possibilidade de tumultos. “O verdadeiro problema para qualquer um é saber como a opinião pública vai evoluir”, diz Lévy. “Será que as pessoas vão acreditar que com a economia mundial em tamanha dificuldade elas precisam ficar calmas e razoáveis, além de trabalhar juntas para superar tudo isso? Ou será que vai levar as pessoas a atos desesperados? Minha sensação é de que não chegamos lá ainda, mas poderemos nos encontrar em uma situação com as sementes de um descontentamento muito profundo e uma espiral negativa que poderão levar a repetidas greves. Isso iria forçar o governo a desistir.”

18/03/2009 - 12:23h Franceses fazem greve geral contra Sarkozy

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Agências internacionais – VALOR

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, enfrenta amanhã uma greve geral contra suas políticas econômicas. E os grevistas contam com o apoio da maioria da população francesa.

Oito federações sindicais prometem para amanhã uma greve geral de um dia para exigir do governo e das empresas medidas que protejam os empregos e os salários em meio à crise financeira.

A manifestação deverá envolver escolas, hospitais e o sistema de transporte pelo país. Até mesmo os trabalhadores da Eletricite de France, a empresa de energia francesa, disseram que vão diminuir a produção das usinas nucleares.

A greve conta com o apoio maciço dos franceses, segundo pesquisas divulgadas ontem. Numa delas, da Ifop, 78% dizem apoiar o movimento; noutra, da BVA, 74%.

Ontem, em visita a uma fábrica da Alstom, em Ornans, leste da França, Sarkozy rejeitou a ideia defendida por setores de seu partido de elevar impostos. “Eu não fui eleito para elevar impostos. Eu não vou fazer isso”, disse.

Muitos analistas preveem que a França terá uma retração de até 2% este ano. A Comissão Europeia diz que a taxa de desemprego saltará 25%, chegando a 9,8%.

Segundo o semanário “Le Canard Enchaine”, Sarkozy comparou a mobilização de amanhã com as manifestações de maio de 1968. “Questões sociais geralmente se aquecem em maio”, disse ele, segundo a publicação. O governo já aprovou um pacote de estímulo da economia de 26 bilhões de euros. Em 29 de janeiro, no entanto, sindicatos levaram 2,5 milhões para as ruas cobrando mais medidas. Sarkozy anunciou 2,65 bilhões de euros adicionais principalmente para famílias de baixa renda. As medidas foram classificadas como insuficientes pelas entidades de trabalhadores.

Desde o início do ano, protestos por medidas contra os efeitos da crise vêm se repetindo pela Europa, do Reino Unido a Grécia, da Alemanha a Portugal.

01/02/2009 - 15:26h Governo britânico adverte contra greves ‘protecionistas’

Miles de trabajadores británicos se manifiestan contra los trabajadores extranjeros

AE-AP – Agencia Estado

LONDRES – Diante de uma onda de greves e protestos, o governo da Grã-Bretanha afirmou hoje que entende a frustração dos trabalhadores do setor de energia com a contratação de estrangeiros, mas advertiu contra o protecionismo. O secretário (ministro) dos Negócios, Peter Mandelson, disse que compreende a preocupação dos trabalhadores quanto a seus empregos num momento de recessão, mas ressalvou que o protecionismo “seria uma maneira certa de transformar uma recessão numa depressão”. “Seria um grave erro recuar de uma política na qual, pelas normas, as companhias britânicas podem operar na Europa e empresas europeias podem operar aqui.”

Dezenas de milhares de trabalhadores britânicos do setor de energia fizeram greves-relâmpago e manifestações em vários lugares da Grã-Bretanha nos últimos dias, em protesto contra a contratação de trabalhadores portugueses e italianos para a construção de uma refinaria de US$ 280 milhões, da empresa petrolífera francesa Total, no nordeste da Inglaterra.

Os protestos começaram quando foi anunciado que a construtora Irem, da Itália, estava contratando apenas trabalhadores italianos e portugueses, num momento em que a taxa de desemprego no Reino Unido alcançou 6,1%. “Não se deveria permitir que nenhuma empresa discriminasse contra qualquer um com base em onde as pessoas nasceram. Não se pode simplesmente dizer que somente italianos e portugueses podem se inscrever para empregos, como aconteceu neste caso”, disse Paul Kenny, secretário-geral do sindicato GMB, dos petroleiros britânicos.

Ontem, cerca de 700 funcionários da refinaria de Grangemouth, na Escócia, fizeram uma paralisação de protesto. Cerca de 400 trabalhadores e simpatizantes fizeram uma manifestação do lado de fora da refinaria da empresa suíça Petroplus em Wilton, no norte da Inglaterra. Na usina de energia elétrica de Aberthaw, em Gales, cerca de 50 pessoas fizeram um ato de protesto. Também houve manifestação na usina de energia de Kilroot, em Carrickfergus, na Irlanda do Norte.

Em Londres, um porta-voz do primeiro-ministro Gordon Brown disse que o contrato com a construtora Irem foi feito “há algum tempo, quando havia falta de trabalhadores especializados no setor de construção no Reino Unido”. “Obviamente esse não é o caso agora e nós vamos falar com a indústria nos próximos dias para assegurar que ela está fazendo tudo o que pode para apoiar a economia britânica”, disse.

30/01/2009 - 09:15h Greve geral leva ao menos 1 milhão à rua na França

Des milliers de manifestants rassemblés place de la Bastille à Paris, le 29 janvier 2009.

Corte de postos e insatisfação com reformas trabalhistas são maiores razões de paralisação

Protestos pelo país atraíram funcionários públicos e privados; na educação, adesão foi de pelo menos 50%, segundo o governo

CÍNTIA CARDOSO COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE PARIS

Uma quinta-feira negra foi a promessa dos sindicatos que organizaram ontem uma greve geral na França. Cerca de 2,5 milhões de pessoas, segundo os organizadores, e 1 milhão, segundo a polícia, participaram de protestos pelo país.
A lista de reivindicações e queixas dos setores público e privado é heterogênea (veja quadro ao lado). Em comunicado, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, disse que a inquietação popular era “legítima” e prometeu um encontro com sindicalistas em fevereiro para discutir as reformas e a situação econômica do país.
“A manifestação de ontem mostrou a angústia em relação ao desemprego, à crise mundial e, sobretudo, uma vontade de impedir o desmoronamento da sociedade francesa. Há uma forte crítica da sociedade ao ritmo e ao conteúdo das reformas propostas por Sarkozy”, avaliou Stéphane Montclaire, professor de Ciências Políticas da Universidade Sorbonne.
O professor afirma que “faltou didatismo ao governo para explicar a necessidade das mudanças” trabalhistas implementadas pelo presidente desde que assumiu, em 2007. “A população fica com a impressão de que os benefícios dos pacotes econômicos são apenas para as elites.”
Para muitos grevistas, cruzar os braços teve ainda sabor de revanche. No ano passado, durante discurso, Sarkozy gracejou que, no seu governo, “nem dá mais para perceber quando há greve”. Uma nova lei estabeleceu a obrigatoriedade de um “serviço mínimo” nos transportes e nas escolas públicas.

Melhor que o previsto
Na passeata de ontem que saiu da praça da Bastilha, na capital francesa, cerca de 300 mil pessoas participaram. Outras 200 manifestações foram realizadas pelo interior. Em Toulouse, empregados da Airbus e do setor automotivo, um dos mais afetados pela crise, estavam na linha de frente.
Segundo sondagem publicada pelo jornal “Le Figaro”, de centro-direita, 69% dos franceses eram favoráveis à greve.
Na greve dos transportes em novembro de 2007, a circulação de trens, metrôs e ônibus na capital tornou praticamente inviável a rotina dos parisienses. Ontem, porém, o movimento foi mais tranquilo.
No início da manhã, a reportagem da Folha percorreu algumas das estações de maior movimento, e poucas pessoas esperavam nas plataformas. Segundo a RATP (companhia de metrô e trem urbano), a circulação média foi de 80%. Na linha de trem que liga os aeroportos de Orly e Charles de Gaulle, a paralisação foi total. Já nos trens intermunicipais da região da capital, a taxa de circulação foi de 35%, e, no interior, os transportes foram mais penalizados.
Em Orly, 30% dos voos foram cancelados, e no Charles de Gaulle, 10%.
Já a educação pública foi fortemente atingida. O governo citou 50% de adesão, e os sindicatos, 67,5% -em qualquer caso, a taxa supera a de 2007.
Embora alguns analistas atrelem a circulação relativamente normal nos transportes públicos ao fato de muitos trabalhadores terem tirado folga ontem, o professor Montclaire lembra que, com a exigência do “serviço mínimo”, o setor deixou de ser um termômetro do sucesso da greve.
“O indicador mais importante são as manifestações. Vimos ontem que o movimento atingiu não só as metrópoles, mas também os municípios pequenos e médios. Isso mostra que o grau de insatisfação popular é bastante elevado.”
A insatisfação da população, porém, não encontra porta-voz na oposição. O Partido Socialista, o principal, enfrenta dificuldades internas. Já o Partido Comunista tem um papel marginal na vida política do país, e a extrema esquerda ainda forma um novo projeto.
“É um período estranho. Não há um partido capaz de canalizar essa angústia. As pessoas vão começar a se expressar por elas mesmas”, diz Montclaire, lembrando que a saída vai ter que ser negociada -o que não é tradição francesa. “A França é um país de confronto.”

21/01/2009 - 10:23h No ABC, 12 mil fazem ato em defesa do emprego

Jornal Nacional (JN) – TV Globo

Joaquim Alessi, São Bernardo – O Estado SP

Sob a liderança do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, cerca de 12 mil trabalhadores, segundo a entidade, e 8 mil pelas contas da Polícia Militar, manifestaram-se na manhã de ontem “em defesa do emprego e pela superação da crise econômica sem demissões nem corte de salários”. Os atos concentraram-se no bairro Pauliceia, em São Bernardo, próximo à Mercedes-Benz, palco das manifestações lideradas nos anos 70 e 80 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

No caminhão de som revezaram-se o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Arthur Henrique, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Sérgio Nobre, e outros sindicalistas. O prefeito Luiz Marinho (PT), que já presidiu a entidade e a CUT, foi anunciado várias vezes, mas por causa de vistorias agendadas anteriormente não apareceu. A concentração começou às 5h45 no estacionamento da Mercedes.

Arthur Henrique fez questão de destacar as reivindicações levadas na véspera ao presidente Lula, entre elas a de redução de juros para a compra de veículos usados.

Outros protestos menores foram realizados no pátio da Volkswagen e na portaria da Scania, como parte do Dia de Luta lançado pela categoria.

17/01/2009 - 11:56h Greve para Magneti, que demitiu no ABC

Greve foi aprovada pelos 670 funcionários da empresa. Foto: Antonio Ledes

Corte de 400 causa paralisação de 2,6 mil metalúrgicos por 24 horas

Joaquim Alessi – O Estado SP

Os cerca de 1,6 mil funcionários das unidades de Santo André e Mauá da fabricante de autopeças Magneti Marelli Cofap iniciaram às 6h da manhã de ontem uma greve de advertência de 24 horas contra a demissão de aproximadamente 400 companheiros. “Todas as demissões vamos responder com greve”, discursou em frente ao portão principal da unidade o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e Mauá, Cícero Firmino da Silva, o Martinha, que cobrou intervenção direta do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. “Ele tem de usar o peso político do seu cargo para promover um grande pacto nacional contra a crise”, disse o sindicalista.

Também em São Bernardo, onde as demissões na Magneti Marelli Cofap atingiram cerca de 150 operários, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC promoveu manifestação. Os sindicalistas não têm o número exato de demissões na empresa, até porque grande parte deles foi contratada há menos de um ano, período em que não há necessidade de a homologação ser feita no sindicato. A empresa foi procurada, mas não retornou as ligações para comentar as demissões.

Martinha afirmou que o quadro em Santo André e Mauá é preocupante porque entre oito a dez empresas de médio porte já manifestaram ao sindicato o desejo de cortar pessoal. Essas indústrias empregam cerca de 3 mil trabalhadores e as demissões atingiriam entre 250 e 300 funcionários. Já foram demitidos 34 na Borlem Alumínio e outros 31 na GT do Brasil (do Grupo Italiano Gammastamp), fabricante de peças automotivas.

O sindicalista afirmou que, se as paralisações de advertência não surtirem efeito, serão adotadas novas ações. “Vamos chamar todos os desempregados e fazer atividades populares em frente às Prefeituras, Câmaras Municipais, Palácio dos Bandeirantes, se preciso vamos a Brasília e vamos cobrar ação das autoridades”, disse Martinha.

Ao cobrar uma posição mais firme de Lula, Martinha defendeu uma “agenda positiva” para o País. “O presidente Lula tem de ligar para o Serra, para o Aécio e dizer: vamos esquecer as eleições de 2010, deixar a disputa política de lado e pensar na população.”

A CUT deflagra na próxima segunda-feira o movimento “Os trabalhadores e trabalhadoras não pagarão pela crise”. A campanha vai reivindicar garantia de emprego, manutenção dos direitos dos trabalhadores, queda imediata dos juros e a contrapartida das empresas que receberem incentivos do governo.

Serão feitas manifestações de rua, passeatas, protestos diante de empresas e todas as formas possíveis de luta, segundo os sindicalistas. CUTs estaduais, confederações e federações cutistas por ramo de atividade econômica e sindicatos já estão envolvidos no movimento, que também distribuirá para a população panfletos explicativos com as propostas dos trabalhadores e as declarações que, segundo eles, o empresariado e parte da mídia usam para confundir a opinião pública.

APELO AO BISPO

As 744 demissões na GM no início da semana levaram o Sindicato dos Metalúrgicos de São Jose dos Campos a pedir ajuda para a Igreja Católica. Na manhã de ontem, diretores sindicais se reuniram com o representante da diocese de São José dos Campos, padre Paulo Renato, para discutir a situação dos temporários dispensados. A entidade quer o apoio e a participação dos padres e da comunidade católica na campanha contra as demissões.

De acordo com o presidente do sindicato, Adilson dos Santos, eles entregaram ao padre uma carta endereçada ao bispo dom Moacir Silva. “Existe a necessidade de unificar a cidade e a região na luta pelo emprego e contra a ameaça aos poucos direitos trabalhistas que dispomos. Precisamos da igreja e da comunidade católica.”

Ontem foi um dia pacífico na frente da fábrica da GM de São José dos Campos, sem protestos ou paralisações na produção. Entretanto, ficou definido que no dia 24 de janeiro haverá um grande ato na praça central da cidade, na tentativa de reverter os cortes.

13/01/2009 - 17:35h Atos antissemitas aumentam na França

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CÍNTIA CARDOSO COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE PARIS

A tensão do conflito entre Israel e o Hamas em Gaza parece ter sido exportada para a França. Em uma semana, vários atos antissemitas foram registrados no país, e, por precaução, sinagogas e outros centros judaicos tiveram a segurança reforçada.
Domingo, dois coquetéis molotov foram lançados contra a sinagoga Ohr Menahem, em Saint-Denis, periferia de Paris. Os explosivos provocaram um pequeno incêndio na lanchonete vizinha.
O presidente Nicolas Sarkozy disse ontem que esse tipo de violência é “inaceitável” e expressou “solidariedade às vitimas diretas e indiretas desses comportamentos indignos do nosso país e do século 21″.
Ontem, dezenas de pichações antissemitas apareceram no muro de um centro social perto de uma mesquita. As inscrições traziam palavras como: “É preciso matar os judeus” e frases de apoio à causa palestina. Na madrugada de ontem, em Schiltigheim, na Alsácia, coquetéis Molotov foram lançados contra um templo judaico. Na semana passada, uma sinagoga em Toulouse, sul do país, fora atacada e quatro jovens foram detidos por agressão a uma adolescente judia.
Apesar da escalada, o sociólogo Michel Wieviorka contemporiza os conflitos entre as comunidades judaica e muçulmana na França. Em primeiro lugar, avalia Wieviorka, um movimento antissemita é difuso. Há quem se identifique com o problema dos palestinos, quem se diga defensor do islã e ainda grupos vagamente antissionistas -conjunto heterogêneo com pouca chance de se unir e radicalizar as manifestações.
No campo judeu, destaca o sociólogo, alguns se sentem constrangidos em relação à proporção dos ataques. Mesmo entre aqueles que sustentam que Israel tem direito de se defender, não há consenso em relação à ofensiva de Israel.
De acordo com sondagem publicada ontem pelo jornal “Le Parisien”, para 18%, o governo israelense é o principal responsável pelo conflito, para 23% é o Hamas e, para 28%, os dois lados são culpados.

Apelos a paz
Em comunicado, Dalil Boubakeur, do Instituto Árabe da Grande Mesquita de Paris, pede que a “comunidade muçulmana mantenha a calma diante da grande comoção gerada pela situação em Gaza” e evite “todos os tipos de provocação”. Ele condenou “o ato de violência cometido contra a sinagoga da cidade de Saint-Denis”.
O prefeito de Saint-Denis, Didier Paillard, organizou um ato pacifista diante da sinagoga atacada. Na quinta, Paillard havia coordenado uma manifestação a favor dos palestinos. Algumas associações judaicas o acusaram de ter inflamado os ânimos da cidade, onde parte da população é de origem muçulmana e magrebina.
Em Israel, a chanceler Tzipi Livni afirmou que seu governo tem pedido aos líderes mundiais que condenem qualquer forma de violência contra judeus. “Recebemos com grande preocupação relatos de agressões física, moral, verbal e outras manifestações de antissemitismo pelo mundo.”

18/12/2008 - 15:17h A esquerda está nas ruas

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Guy Sorman – VALOR

A onda de manifestações de protesto nas ruas de toda a Grécia podem ter muitas causas, porém uma delas, raramente mencionada , é a cisão da esquerda grega em duas vertentes: o tradicional partido socialista de George Papandreou (PASOK) e uma facção cada vez mais radicalizada que recusa qualquer acomodação, seja com a União Européia ou com a economia moderna. Em graus variados, essa cisão está paralisando os partidos socialistas em toda a Europa.

O fato de a esquerda tradicional estar tão inerte em meio à crise econômica atual é mais do que estranho. Em vez de crescer na onda de renovadas dúvidas sobre o capitalismo, os partidos socialistas europeus não conseguiram quaisquer avanços políticos substanciais. Em países onde detêm o poder, como na Espanha, são atualmente bastante impopulares.

Onde estão na oposição, como na França e na Itália, estão desarticulados, assim como os social-democratas na Alemanha, apesar de fazer parte da Grande Coalizão atualmente no poder. Até mesmo os socialistas suecos, fora do governo, e reunidos em um partido dominante no país por um século, não se beneficiaram da crise. O Reino Unido pode ser a exceção, embora o Partido Trabalhista pró-mercado moldado por Tony Blair não possa mais ser contado como partido de esquerda.

Os socialistas europeus não abordaram a crise convincentemente devido a suas divisões internas. Nascidos anticapitalistas, todos esses partidos (em maior ou menor grau) terminaram por aceitar o livre mercado como fundamento da economia. Além disso, desde 1991, com o colapso do sistema soviético, a esquerda ficou desprovida de um modelo claro com o qual possa se contrapor ao capitalismo.

Mas, apesar de ostensivamente defender o mercado, a esquerda européia continua cindida pela contradição interna entre suas origens anticapitalistas e sua recente conversão à economia de livre mercado. Será a crise atual uma crise do capitalismo ou apenas uma de suas fases? Essa controvérsia mantém intelectuais de esquerda, especialistas e políticos ocupados em programas de entrevistas na TV e em debates nos cafés em toda a Europa.

Em conseqüência, irrompeu uma luta por poder. Na França e na Alemanha, uma nova extrema esquerda – composta de trotskistas, comunistas e anarquistas – está erguendo-se das cinzas e tornando-se novamente uma força política. Esses fantasmas rejuvenescidos assumem a forma do partido de esquerda de Oskar Lafontaine na Alemanha, bem como vários movimentos revolucionários na França; um deles recém-denominou-se Partido Anticapitalista. E seu líder, um ex-carteiro, diz que nas atuais circunstâncias, faz parte de uma “resistência”, uma palavra alusiva ao embate antifascista na era Hitler. Ninguém sabe qual a efetiva alternativa ao capitalismo que essa extrema-esquerda busca.

Em face desse novo radicalismo, que está atraindo alguns socialistas tradicionais, o que devem fazer os líderes socialistas mais respeitados? Quando inclinam-se para os trotskistas, perdem apoio dos “burgueses”; quando buscam o centro, como o SDP na Alemanha, o partido de esquerda cresce. Em conseqüência desse dilema, os partidos socialistas em toda a Europa parecem paralisados.

E estão. De fato, é difícil encontrar alguma análise convincente da esquerda sobre a atual crise, além de slogans anticapitalistas. Os socialistas culpam financistas gananciosos, mas quem não os culpa? Em termos de corretivos, os socialistas oferecem nada mais do que as soluções keynesianas hoje propostas pela direita.

Desde quando George W. Bush apontou o caminho para estatização de bancos, enormes gastos públicos, operações de salvamento a setores da economia e déficits orçamentários, os socialistas ficaram sem espaço para se mexer. O presidente francês Nicolas Sarkozy tenta reaquecer o crescimento mediante a defesa protecionista de “indústrias nacionais” e enormes investimentos em obras de infra-estrutura pública; assim, o que mais podem os socialistas pedir? Além disso, muitos socialistas temem que gastos públicos excessivos possam provocar uma disparada na inflação, e que suas bases de apoio principais venham a ser suas primeiras vítimas.

Num momento em que a direita passou a ser estatizante e keynesiana, quando os verdadeiros crentes no livre mercado estão marginalizados, e quando o anticapitalismo ao velho estilo parece arcaico, deveríamos nos perguntar: qual o possível significado de socialismo na Europa?

O futuro do socialismo europeu também é tolhido, estranhamente, pela União Européia. É impossível, hoje, construir o socialismo num só país porque todas as economias européias são hoje interdependentes. Último líder a tentar implantar o socialismo isoladamente, o presidente francês François Mitterrand, em 1981, rendeu-se às instituições européias em 1983.

Essas instituições, baseadas em livre-comércio, competição, déficits orçamentários limitados e moeda sólida, são fundamentalmente pró-mercado; há menos margem de liberdade em seu âmbito para um socialismo doutrinário. É por isso que a extrema esquerda é anti-européia.

Os socialistas europeus também estão encontrando dificuldades para se distinguir no terreno das relações exteriores. Eles costumavam ser automaticamente pró-direitos humanos, bem mais do que os partidos conservadores. Mas desde que George W. Bush incluiu essas idéias como parte de suas campanhas de fomento à democracia, os socialistas europeus assumiram maior cautela em relação a essas posições.

Além disso, sem a União Soviética (URSS), os socialistas europeus têm poucas causas internacionalistas que possam abraçar: poucos compreendem a Rússia de Putin, e a atual China totalitária-capitalista é muito distante e demasiado estranha. E desde a eleição de Barack Obama o antiamericanismo deixou de ser maneira viável de reunir apoio. Os velhos dias em que trotskistas e socialistas encontravam terreno comum para atacar os EUA acabaram.

A fragilidade e cisão ideológicas da esquerda, evidentemente, não a excluirá do poder. A esquerda pode manter-se no poder, com estão fazendo José Zapatero na Espanha e Gordon Brown no Reino Unido. A esquerda poderá até mesmo vencer eleições gerais em outros países se a nova direita keynesiana revelar-se incapaz de pôr fim à crise. Mas, seja na oposição ou no poder, os socialistas não têm uma agenda diferenciada.

A lição da Grécia, porém, é que o que os socialistas europeus mais deveriam temer é o gosto e talento da extrema-esquerda para agitação. Pois o esvaziamento do socialismo tem uma conseqüência. Para parafrasear Marx, um espectro ronda a Europa – o espectro do caos.

Guy Sorman, filósofo e economista francês, é o autor de “Empire of Lies”(Império de mentiras). © Project Syndicate/Europe´s World, 2008. www.project-syndicate.org

18/12/2008 - 08:44h Primeiro dia do pedágio do Rodoanel tem lentidão e protesto de moradores

BRUNA SANIELE COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

No primeiro dia de pedágio no Rodoanel, a via apresentou entre 1 km e 1,5 km de lentidão das 8h às 10h principalmente na praça 8 (Castello Branco).
No restante do dia o funcionamento foi tranqüilo, apesar de terem ocorrido duas manifestações contra a cobrança de pedágio.
Segundo a concessionária, os problemas, que eram esperados e devem durar uma semana, foram causados porque os motoristas se confundiram com o guichê do Sem Parar -serviço de pagamento eletrônico, com cobrança mensal. Os guichês nessa praça estão do lado direito da rodovia e, segundo a concessionária, os motoristas se aproximavam em alta velocidade pelo lado esquerdo. A tarifa de R$ 1,20 para os carros de passeio (mesmo valor por eixo para os comerciais) será paga nas saídas do trecho oeste, de 32 km.
Cerca de 196 mil veículos passaram pelo local, segundo estimativa da concessionária. A média diária é de 145 mil veículos. Questionada a respeito da diferença, a assessoria de imprensa afirmou que é só uma estimativa- o balanço real só poderia ser apurado após 24 horas de funcionamento.
Um levantamento informal mostrou que parte dos caminhoneiros já evita o Rodoanel devido ao pedágio. De sete motoristas entrevistados na tarde de ontem, quatro optaram por caminhos alternativos.
“Passei por fora, por Perus, desci para Cachoeirinha. Antes eu passava no Rodoanel três vezes ao dia. A partir de agora não passo nem um dia”, afirmou Ednaldo dos Santos, 48.
Adilson Soares, 50, mudou a rota ao ser informado pela reportagem que o pedágio estava em vigor. “Vou para Taboão da Serra pela avenida Francisco Morato. Pagar R$ 7,20 [caminhão de seis eixos] é muito.”
Colaborou ALENCAR IZIDORO , da Reportagem Local

16/12/2008 - 10:27h FMI vê risco de crise global prolongada e distúrbios sociais em vários países

http://media.economist.com/images/na/2008w50/Greece_Top.jpg

Jamil Chade – O Estado SP

A economia global pode cair em uma crise prolongada, espalhando tensões sociais, se os governos não expandirem e implementarem os pacotes de estímulo prometidos, afirmou o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn ontem. O crescimento está desacelerando na China, à medida que a economia global sofre uma queda sem precedentes de produção e ruma para uma recessão, elevando os riscos de mais distúrbios civis como os vistos na Grécia, acrescentou.

Sem urgência por parte dos governos, o início da recuperação econômica global no fim de 2009 e início de 2010 pode ser adiada. “Muito ainda precisa ser feito e, se esse trabalho não funcionar, será difícil evitar uma longa crise.”

Ele prevê protestos violentos se espalhando se o sistema financeiro não for reorganizado para beneficiar a todos e não apenas a elite. Strauss-Kahn pede que 2% do PIB mundial sejam usados em pacotes para relançar a economia do planeta, cerca de US$ 1,2 trilhão. “2009 será um ano muito difícil e os dados que iremos divulgar em janeiro serão provavelmente piores que os atuais”, disse. “A possibilidade de uma recessão global está mesmo diante de nós.”

No dia 6 de novembro, o FMI previu que os países ricos sofreriam uma queda de 0,3% em seu PIB em 2009, a primeira contração simultânea de todas as economias desenvolvidas desde 1945. Já o mundial cresceria apenas 2,2%. Para o Brasil, a taxa de crescimento de 3% prevista para 2009 deve ser revista.

Ele antecipou projeções globais que devem ser anunciadas em janeiro sobre a China, país deve crescer apenas 5% em 2009. Pelos cálculos do Banco Mundial, só para gerar postos de trabalho para o número crescente de pessoas que deixam o campo para trabalhar nas cidades, a China precisa crescer 5%.

No relatório atual do FMI, a China teria uma alta de 8,5% de seu PIB em 2009, já abaixo da média da última década. Em 2008, o país irá crescer 9,7%.

ESTÍMULO

Para o FMI, embora incertezas limitem a eficácia de algumas medidas de política fiscal, os pacotes que governos em todo o mundo estão adotando podem ter impacto positivo, mas precisam ser mantidos por alguns meses. “Precisamos de apoio e mecanismos de estímulo que sejam grandes e diversificados e que possam ser utilizados por um ou dois trimestres”, pediu Strauss-Kahn.

25/10/2008 - 16:15h La rue et la gauche se mobilisent contre Silvio Berlusconi

LE MONDE

Manifestation d'étudiants de l'université de La Sapienza à Rome, le 23 octobre 2008.
AFP/ANDREAS SOLARO Manifestation d’étudiants de l’université de La Sapienza à Rome, le 23 octobre 2008.

ROME CORRESPONDANT

Jusqu’à présent, il a fait ce qu’il voulait ou presque. Depuis son élection à la présidence du conseil italien, Silvio Berlusconi a imposé le rythme et les thèmes de la vie politique italienne sans avoir à craindre que quiconque ne le fasse choir du piédestal où il trône, fort d’une cote de popularité à 60 %. La rue ? Muette au point que le cinéaste Nanni Moretti a parlé de “disparition de l’opinion publique”. La crise ? Traversée sans dommages pour son image, donnant des conseils boursiers aux petits actionnaires (”Ne vendez pas”) et des assurances aux banques (”L’Etat garantira l’épargne”). La gauche ? Trop faible, trop divisée pour compter.

Aujourd’hui, la rue se réveille. Depuis plusieurs jours, des dizaines de milliers de professeurs, d’étudiants, de lycéens battent quotidiennement les pavés des grandes villes contre la réforme conduite par la ministre de l’instruction, Mariastella Gelmini. Elle prévoit des coupes budgétaires de plusieurs milliards d’euros et la suppression d’environ 140 000 postes dans les prochaines années. Les manifestations ont pris un tour plus violent, illustré par des heurts avec la police, notamment à Milan.

Le “Cavaliere” a menacé de faire intervenir la police pour évacuer les contestataires qui bloquent les lycées et universités. Mais ces déclarations martiales n’ont pas convaincu les étudiants de renoncer à leur action. Au contraire : “Non seulement la mobilisation continue, mais elle augmente. C’est désormais la société dans son ensemble qui se rend compte que le gouvernement met en danger le développement économique du pays”, affirme un communiqué de l’Union des étudiants italiens (UDU). Deux grèves sont annoncées : le 30 octobre dans les écoles et les lycées ; le 14 novembre dans les universités. Jeudi 23 octobre, M. Berlusconi a démenti tout projet de recours à la force, et Mme Gelmini s’est dite prête à recevoir les syndicats et les parents d’élèves. Une première tentative de dialogue ?

A cours d’argument et craignant que cette contestation ne finisse par agir comme un acide sur ses bons sondages, M. Berlusconi s’en est pris à ses cibles habituelles : médias et centre-gauche. Aux premiers, il reproche de “diffuser l’angoisse” et des fausses nouvelles ; au second, de chercher dans la rue une revanche à son échec dans les urnes lors des élections générales d’avril.

C’est une première. Après avoir moqué son principal adversaire, le président du conseil semble lui reconnaître un rôle d’opposant qu’il refusait jusqu’alors de lui accorder. Rendu inaudible et humilié par sa défaite au scrutin d’avril, le centre paraît retrouver une visibilité et une crédibilité que les sondages ne traduisent pas encore. Walter Veltroni, secrétaire général du Parti démocrate, après nombre tâtonnements, semble avoir trouvé la voie d’une opposition résolue qui n’hypothèque pas la possibilité d’un dialogue. Ayant retrouvé son rang de premier opposant au président du conseil, M. Veltroni doit en apporter la preuve chiffrée, en rassemblant un million de personnes – objectif ambitieux qu’il s’est lui même fixé -, samedi 25 octobre, à Rome, contre la politique de M. Berlusconi. Un chiffre que les capacités de mobilisation de l’appareil et un comptage généreux devraient lui permettre d’atteindre.

UNE PREMIÈRE

Pour en arriver là, M. Veltroni a dû faire violence à sa réputation d’homme indécis. Après avoir supporté sans trop broncher les critiques de son principal allié, Antonio Di Pietro, leader du parti de l’Italie des valeurs (IDV), qui lui contestait le leadership de l’opposition au nom d’une vision plus intransigeante de l’antiberlusconisme, l’ancien maire de Rome a rompu son alliance. Une manière de clarifier la ligne du parti et de l’ancrer résolument au centre gauche. “Collaborateur”, lui a lancé M. Di Pietro.

Le succès de ce rassemblement ne signifie pas forcément la fin des contestations pour M. Veltroni. Décrit dans les médias proches du pouvoir comme un homme hésitant et peu charismatique, le secrétaire général du PD doit compter sur une opposition interne active. Certains dans le parti, dont l’autre poids lourd Massimo D’Alema, n’hésitent pas à parier sur une cuisante défaite du PD aux élections européennes, entraînant du même coup le départ de son actuel secrétaire général.

M. Berlusconi, qui connaît les ressorts humains et les arcanes de la politique italienne, le sait mieux que quiconque. La coalition des contestations – une première depuis son élection – peut encore se rompre sous la pression des divisions internes de ses opposants.
Philippe Ridet

24/10/2008 - 12:07h Berlusconi quer isolar alunos estrangeiros

http://www.lauracima.it/wp-content/uploads/2008/10/preparazione%20al%20corteo%20no%20Gelmini.jpgEstudantes tomam ruas de Roma em protesto contra plano do governo


Flavia Guerra, ROMA – O Estado de São Pauloberlusconi_tapa.jpg

As ruas da capital italiana foram tomadas ontem por mais de 20 mil estudantes inconformados com a reforma educacional proposta pelo presidente Silvio Berlusconi para “mudar a história da educação no país”. Uma das medidas mais polêmicas do plano é a separação dos estudantes italianos e estrangeiros nas escolas. A reforma também prevê a demissão de 80 mil professores e a diminuição da carga horária.

“É praticamente um apartheid”, afirmou Simone, de 14 anos, filha de brasileira. “O governo diz que os estrangeiros não entendem italiano, mas como vão aprender se estiverem separados?” Para grêmios estudantis, a reforma representa um retrocesso sem precedentes na educação do país.

O Decreto de Lei Gelmini, de autoria da ministra da Educação, Maristella Gelmini, foi promulgado em setembro e aguarda a aprovação no Senado para passar a valer.

Após uma semana de manifestações estudantis em todo país, Berlusconi e a ministra convocaram uma entrevista coletiva para “responder a todas as mentiras da esquerda”. Segundo Gelmini, as medidas servem para cortar gastos exorbitantes do setor. O presidente também decretou a ocupação das escolas pela polícia.

Outros pontos polêmicos da reforma são o aumento do número de alunos por sala – para 33 – e a adoção de um professor único em todos os níveis do ensino básico. “Um mesmo professor não vai saber ensinar matemática, artes, italiano, física e química”, afirmou um aluno do Liceu Clássico de Roma.

17/10/2008 - 09:23h “Governador agiu de maneira inábil”


”O governo teve cerca de 3 horas para receber a comissão”

ENTREVISTA 

Hermes Bittencourt Cruz: presidente da Associação dos Oficiais da Reserva

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Bruno Paes Manso – O Estado SP

Ex-comandante das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) entre 1989 e 1990 e acostumado a conter manifestações, o coronel da PM Hermes Bittencourt Cruz viveu ontem o outro lado. Junto a cerca de 50 PMs da reserva e mulheres de militares da ativa, engrossou o protesto dos policiais civis.

Como começou a confusão?

Os policiais civis começaram a reunir-se por volta das 13 horas na frente do Estádio do Morumbi. Os ânimos estavam calmos e havia sido formada uma comissão, da qual eu participava, para discutir o problema com o governador. Eram cerca de 3 mil pessoas, que começaram a caminhar até o Palácio.

Os policiais civis estavam dispostos a fazer confusão?

Não. A idéia era negociar. O governo teve cerca de três horas para receber a comissão, desde que a caminhada se iniciou. O que não fez. Era isso o que bastava para acirrar os ânimos. A marcha continuou. A primeira barreira de policiais para conter o movimento ocorreu em uma via estreita. As tropas cercaram os policiais e passaram a lançar bombas de gás e efeito moral. Isso deu início à confusão. O confronto tornou-se inevitável.

A rixa histórica entre policiais civis e militares não contribuiu com a confusão?

De jeito nenhum. Policiais civis e militares hoje vivem o mesmo problema, ganhando salários de miséria. O que aconteceu foi uma grande barbeiragem do governador. Se ele recebesse a comissão, os ânimos teriam se acalmado. Essa insensibilidade política só não causou uma tragédia porque havia áreas de escape que permitiram que a multidão corresse.

A exigência de ser recebido pelo governador não pode soar como uma chantagem?

Depende de como se encara a questão do ponto de vista político. Em 2001, policiais da reserva e policiais civis fizeram movimento semelhante. Fomos recebidos pelo governador Claudio Lembo, que ofereceu reajuste de 6%. O diálogo e o respeito do governador foram fundamentais para que a oferta fosse aceita. Este ano, o governo oferece 6,3%, mas o desrespeito com a categoria mantém o movimento.

A PM pode engrossá-lo?

Os oficiais da ativa estão proibidos de realizar movimentos grevistas. Mas, em situações como essa, tudo acaba saindo do controle.

Depois da confusão, o que tende a acontecer com o movimento?

Nos anos em que eu trabalhei junto com o Choque, cansei de ouvir de sindicalistas que tudo que um movimento grevista precisa para se fortalecer é confronto com a polícia. Certamente foi isso o que o governador conseguiu ao agir de maneira tão inábil.

17/10/2008 - 09:04h A greve dos policiais

PM fez barreira para impedir chegada ao Bandeirantes – Foto João Clara, Diário de S.Paulo

O GLOBO

A greve dos policiais civis de São Paulo começou há um mês. No movimento por aumento salarial, a categoria reivindica 15% de reajuste retroativo a março (mês da data-base), 12% em 2009 e 12% em 2010, além de incorporação dos adicionais ao salário, para que estes sejam somados às aposentadorias. Os policiais ainda estão pedindo a reestruturação da categoria.

O movimento atinge delegados, investigadores, escrivães e peritos, que pedem aumento de salário e melhores condições de trabalho.
A Polícia Civil tem 35 mil policiais no Estado de São Paulo.

Há uma semana, policiais começaram as manifestações, inclusive fechando a maioria das delegacias de São Paulo e cidades da região metropolitana.

O sindicato diz que a categoria está sem reajuste há doze anos e que as perdas nos rendimentos chegam a 60%.

O governo estadual propôs aumento linear de 6,2% para os policiais civis da ativa, aposentados e pensionistas, além de aposentadoria especial, reestruturação das carreiras com eliminação da 5 aclasse e a transformação da 4aclasse em estágio probatório. Por fim, o governo também ofereceu a fixação de inter valos salariais de 10,5% entre as classes.

A polícia civil chegou a suspender a greve por 48 horas na semana passada. A categoria já havia paralisado o trabalho no dia 13 de agosto, reivindicando aumento salarial de 60%. O movimento foi suspenso depois de reunião conciliatória entre representantes de sindicatos, associações de categoria e do governo estadual no Tribunal Regional do Trabalho (TRT). Três dias depois, no entanto, a paralisação foi retomada.

Segundo a orientação da cartilha da greve, devem ser registrados apenas casos de flagrantes, captura de procurados e homicídios.

As diligências referentes a investigações devem ser feitas apenas se forem inadiáveis.

A cartilha, entretanto, ressalta o uso do bom senso na triagem dos casos.

Segundo o diretor do Sindicato dos Investigadores de Polícia de São Paulo (Sipesp), Paulo Kotzent, “o governo se mantém intransigente nas negociações”.

De acordo com ele, a proposta do governo apresentada na semana passada, de reajuste de 6,2%, foi considerada “absurda” pelo movimento grevista, e, por isso, decidiu-se pela realização do protesto. Uma comissão de greve não havia conseguido, até o início da noite, uma audiência com o governador José Serra para discutir o assunto.

03/07/2008 - 09:06h Injustiça e desordem

http://www.overmundo.com.br/_overblog/multiplas/1175392489_membros_do_mst.jpg
foto Sebastian Salgado

VERISSIMO – O Globo

Quando Goethe disse que preferia a injustiça à desordem, a Europa recém fora sacudida pela revolução francesa e enfrentava outro terremoto, o bonapartismo em marcha. Sua opção não era teórica, era pela específica velha ordem que os novos tempos ameaçavam. Por mais injusta que fosse, a velha ordem era melhor do que as paixões incontroláveis libertadas pela revolução.

Mas a frase de Goethe atravessou 200 anos, foi usada ou repudiada por muitos, na teoria ou na prática e em vários contextos, e chega aos nossos dias mais atual do que nunca. Você não pode pensar na questão agrária brasileira, por exemplo, sem cedo ou tarde ter que se perguntar se prefere a justiça ou a ordem.

A injustiça no caso é flagrante e escandalosa. Mesmo que se aceite todas as teses sobre o desvirtuamento do movimento dos sem-terra e se acate a demonização dos seus líderes, militantes e simpatizantes, a dimensão do movimento é uma evidência literalmente gritante do tamanho da iniqüidade fundiária no Brasil, que ou é uma ficção que milhares de pessoas resolveram adotar só para fazer barulho ou é uma vergonha nacional. A iniqüidade que criou essa multidão de deserdados no país com a maior extensão de terras aráveis do mundo é a mesma que expulsou outra multidão para as ruas e favelas das grandes cidades, deixando o campo despovoado para o latifúndio e o agronegócio predatório.

A demora de uma reforma agrária para valer, tão prometida e tão adiada, só agrava a exclusão e aumenta a revolta.

Quem acha que desordem é pior do que injustiça tem do que se queixar, e a que recorrer. As invasões e manifestações dos sem-terra se sucedem e assustam. Proprietários rurais se mobilizam e se armam, a violência e o medo aumentam, a reação se organiza. Agora mesmo no Rio Grande do Sul, enquanto endurece a repressão policial às ações do MST, um documento do Ministério Público estadual prega a criminalização de vez do movimento, caracterizando-o como uma guerrilha que ameaça a segurança nacional, com ajuda de fora. É improvável que uma maioria de promotores de justiça do estado, transformados em promotores de ordem acima de tudo, tivesse abonado o documento como estava redigido, com seu vocabulário evocativo de outra era. Mas ele dá uma idéia da força crescente do outro lado da opção definidora, dos que escolheram como Goethe.

11/05/2008 - 13:58h Maio 68: A revolução que não houve… e mudou tudo

Talvez a geração de 1968 não tenha chegado aonde queria, mas mesmo assim deixou suas marcas na História, o que é uma outra maneira de vencer

 

Le 13 mai 1968
A manifestação do 13 maio 1968. A greve geral começou

Luiz Zanin Oricchio – O Estado de São Paulo

O número de adjetivos opostos que se podem aplicar a 1968 é praticamente inesgotável. Diz-se que foi o último suspiro do espírito coletivo, mas preparou o caminho para o individualismo contemporâneo. 68 falou em paz e amor mas teria praticado a guerra e levado à aventura da luta armada. Foi em essência anticapitalista e de esquerda, mas teria preparado terreno para o capitalismo global e consumista do mundo de hoje. Esse ano mítico, que teve seu epicentro em Paris durante o mês de maio, desperta até hoje reações e opiniões contraditórias, com pouco acordo possível entre elas. Tanto assim que, a cada dez anos, nos sentimos convocados a fazer reavaliações sobre tudo aquilo que aconteceu durante os 12 meses especiais de uma década toda particular. Foi um avanço? Um recuo? Uma aceleração da História? Símbolo da luta contra os autoritarismos, ou, pelo contrário, o mais radical e intolerante dos anos? Tudo cabe em 68. Ou quase tudo.

Revendications salariales

E por quê? Porque, provavelmente, cada um projeta sobre 1968 o que bem entende, segundo suas inclinações pessoais (políticas, ideológicas, e mesmo psicológicas). Por exemplo, quem apoiava o general De Gaulle na França, ou o governo militar no Brasil, tem poucos motivos para lembrar com carinho de 1968. Já quem, mesmo após a queda do Muro de Berlim, conserva o coração à esquerda, pode evocar 68 como uma espécie de idade de ouro da contestação. Quem ama a ordem acima de todas as coisas vê poucos motivos para admirar uma época em que tudo era questionado e posto de pernas para o ar. Quem prefere a instabilidade à injustiça lança outro olhar sobre o mesmo período. Espíritos clássicos tendem a evitar sobressaltos. Românticos os toleram melhor. E assim por diante. Nossa atitude em relação a 68 diz muito a respeito de quem somos.

Les salariés ne sont pas à vendre

No entanto, apesar desse subjetivismo de julgamento (o passado muda segundo os olhos que o enxergam), 1968 pode ser visto como um conjunto de fatos bem definido e que envolve uma efervescência fora do comum da juventude, sobretudo universitária. Fala-se muito em Paris e nas barricadas do Quartier Latin, mas as revoltas pipocaram em toda parte. No arco de alguns meses, os distúrbios passaram por Paris, Praga, Cidade do México, San Francisco, Varsóvia, Rio, São Paulo e outras cidades. O mundo parecia revirado pelo avesso e nenhuma das venerandas instituições ficou ao abrigo de petardos, morais ou físicos – Estado, Família, Igreja, Exército, Polícia, Educação, Partido. Tudo podia e devia ser contestado – e essa era a palavra de ordem comum.

http://cache.eb.com/eb/image?id=61239&rendTypeId=4

Contestado em nome de quê? De um bem tão concreto quanto abstrato chamado liberdade. Se em Paris exigia-se o fim de um governo de velhos, em Varsóvia e Praga o alvo era o stalinismo. Praga vivia a sua primavera particular, sob o governo de Alexander Dubcek e sua proposta de socialismo com rosto humano. No Brasil, o alvo era bem visível – o governo militar, instalado quatro anos antes. Aqui, a tensão teve seu ponto alto após o assassinato do estudante Edson Luiz, e na posterior Passeata dos Cem Mil, que reuniu universitários, intelectuais, artistas e padres no centro do Rio. As manifestações se sucederam e o enfrentamento atingiu o clímax em São Paulo na luta entre os estudantes da USP e os do Mackenzie, que ocupavam lados opostos na ideologia e nas calçadas da Rua Maria Antônia. O conflito deixou um morto, um rastro de destruição e posições cada vez mais radicais de lado a lado. Dez dias depois, ‘caía’ o clandestino 30º Congresso da UNE em Ibiúna e as principais lideranças estudantis eram presas. O desfecho do ano rebelde brasileiro veio na forma de um radical fechamento do governo militar com o AI-5, decretado a 13 de dezembro, data que marca o fim de 1968 no País.

A vaga de 68 (porque, de fato, foi uma onda) mostra contornos particulares em cada país onde se quebrou. Nem poderia ter sido diferente, dada a diversidade de condições entre Praga e São Paulo, Paris e Cidade do México, por exemplo. Mas havia um aspecto comum. As lutas de 68 foram sempre antiautoritárias. Quer fosse um governo democrático mas sentido como ‘antiquado’, quer fosse uma ditadura militar ou a opressão de um império comunista – e lá estavam os jovens para se opor e, nas ruas, mostrar seu inconformismo.

Foi também uma época de invenções, que se multiplicavam sob a forma de frases, grafites, músicas, filmes, teatro, performances. A idéia era que tudo deveria ser jovem e ‘novo’, uma ideologia, na verdade, dos anos 60 mas que, como todas, em 68 se intensifica. Experimentou-se, em arte e na vida, como poucas vezes antes. Aliás, arte e vida passaram a ser tratadas como se fossem uma só. Viver artisticamente – essa era uma das utopias. Criar na rua, enquanto se vive. Abolir limites entre agir e pensar. Precisava-se mudar a sociedade, como queria Marx, e mudar a vida, como desejava Rimbaud.

Se isso não era possível na prática, parecia bem tangível no desejo. Por isso, 68 foi uma época de entrega generosa, pois sentia-se que todas as possibilidades estavam abertas. E, também por isso, viveu-se um voluntarismo que às vezes beirava a insanidade.

Como para mostrar que existe um abismo entre o desejo e sua realização, todas essas lutas terminaram, do ponto de vista prático, em derrotas inquestionáveis. No Brasil, o AI-5; na França, a volta de De Gaulle; em Praga, os tanques soviéticos; no México, o massacre da praça Tlatelolco; nos EUA, a eleição de Nixon, etc..

No entanto, do aparente fracasso, muita coisa ficou. Talvez mais no campo comportamental que no político. Apesar de a grande maioria das lideranças estudantis serem masculinas, deu-se um impulso vital ao feminismo e à igualdade entre os sexos. O autoritarismo foi questionado e cedeu em diversos níveis, nas famílias e nas escolas. Mesmo em instituições fechadas, como hospitais psiquiátricos, passou-se a questionar o ‘lugar do poder’ com os movimentos antimanicomiais. A ordem era duvidar de tudo e o argumento de autoridade perdeu a razão de ser.

Quando se relembra a cronologia de 1968, pode-se perguntar como tanta coisa pôde acontecer em tão pouco tempo. Vivia-se como numa febre, em estado de exaltação permanente. Uma espécie de embriaguez política e cultural, que não deixou de fabricar a sua própria ressaca. O day after de 68 foi menos ameno em algumas praças do que em outras. Se o voluntarismo se associa à crença de que os métodos violentos devem ser empregados em algumas circunstâncias históricas, então 68 pode estar na origem das lutas armadas que ocorreram na América do Sul e na Europa. No Brasil, o AI-5 fechou as válvulas de escape da política e abriu caminho para as tentações da ação direta, que já existiam de forma embrionária (a guerrilha do Caparaó é de 1966). A Itália e a Alemanha tiveram de enfrentar grupos armados como as Brigadas Vermelhas e a Baader-Meinhoff. E o fizeram sem abdicar das liberdades democráticas, é bom que se diga.

Outro ’subproduto’ de 68, a apologia das drogas como forma de expansão da consciência, deve ser relativizado. Quem viveu aquele tempo sabe que as esquerdas brasileiras eram em geral muito ‘caretas’ a esse respeito. As drogas circulavam mais na cultura 68 americana que nas outras. Depois sim, espalhou-se para outros países e generalizou-se nos anos 70. A droga foi mitificada como a chave para as portas da percepção (lembrando que o livro de Aldous Huxley, com esse título, é de 1954) e o seu potencial destrutivo e as implicações sociais quando ligadas ao crime organizado não eram percebidos ainda.

Talvez por tudo isso, mas também por propor uma sociedade menos hierarquizada em todos os níveis, 1968 seja permanente má referência para conservadores. Não por acaso, o atual presidente francês Nicolas Sarkozy, durante a campanha eleitoral, afirmou que havia chegado a hora de enterrar de vez o legado de 68. Responsabilizou o maio parisiense por um sem número de males como a confusão entre o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, o belo e o feio. Disse até mesmo que 68 havia promovido o culto ao dinheiro, à especulação e ao lucro fácil. Só faltou culpar 68 pela cabeçada de Zidane em Materazzi. No entanto, em pesquisa da revista Le Nouvel Observateur, a maior parte dos seus compatriotas sustenta o contrário. A imensa maioria (77%) afirma que em 68 teria ficado com os estudantes e apenas 14% ao lado das forças da ordem. Os franceses entendem que 68 teve efeitos positivos sobre vários aspectos da vida social como a repartição de tarefas entre homens e mulheres, os direitos sindicais, a sexualidade, relações entre pais e filhos, costumes, a vida política, a relação entre professores e alunos.

Seja como for, parece que durante 1968 a História pisou fundo e acelerou. Em ritmo febril, muitas lutas foram perdidas e outras ganhas, num balanço ainda por fazer. Por isso, voltamos a 68 a cada data redonda. Dez anos atrás, a mesma revista Le Nouvel Observateur revisitava a primavera parisiense com um título que talvez a defina muito bem: ‘La fausse révolution qui a tout changé.’ A falsa revolução que tudo mudou.

Em 1968, nos jogos no Mexico, dois atletas norte-americanos Tommie Smith et John Carlos levantam o punho fechado durante a entrega das medalhas

03/04/2008 - 05:35h Jornal flagra Kassab: Viagem exige triplo do tempo anunciado

Ônibus leva mais de uma hora em corredor da zona sul

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Marcela Spinosa – O Estado de São Paulo

A viagem demora mais de uma hora, dependendo do horário. É quanto os usuários do transporte coletivo gastam para atravessar o corredor de ônibus da Estrada do M’Boi Mirim, na zona sul. A média de tempo para percorrer os 8 quilômetros é quase o triplo dos 19 minutos que, segundo o prefeito Kassab (DEM), os ônibus levam. Dos 6,5 milhões de embarques diários no sistema da SPTrans, 2,34 milhões acontecem nas 44 linhas que abastecem essa região. A demora foi alvo de duas manifestações no mês passado. A Prefeitura adotou medidas – colocou obstáculos para impedir que carros invadissem a faixa exclusiva, aumentou o número de fiscais e mudou pontos de lugar – que teriam reduzido a viagem “de 72 para 19 minutos”.

A reportagem testou os ônibus da região no trecho do Terminal Jardim Ângela, na altura do 5.200, até a Avenida Guido Calói – são 5,5 quilômetros onde o congestionamento é crítico. O pior horário é por volta das 6h30. Na segunda, o ônibus demorou uma hora e 45 minutos até o Terminal Santo Amaro (9 quilômetros). Cruzar os 5,5 quilômetros levou uma hora e 20 minutos.

Os primeiros 20 minutos tiveram trânsito livre, enquanto as faixas para carros estavam congestionadas. Na altura do 2.500, o trânsito parou no corredor. “Acho que o negócio é descer”, disse o gesseiro João Teodoro, de 50 anos. Pagar R$ 2,30 e andar é rotina. O motorista abre as portas sem solicitação. Metade desembarca e anda cerca de 1 quilômetro para pegar os coletivos nas paradas próximas ao entroncamento com a Avenida Guarapiranga. Nesse ponto, os ônibus ficam até 4 minutos parados para embarque. Os veículos lotados podem passar direto pela parada. “Não existe faixa extra para que os ônibus ultrapassem os que estão no ponto”, diz o assistente financeiro Valdir Alexandre dos Santos, de 39 anos.

Anteontem, a reportagem embarcou mais tarde: às 7h40, o ônibus saiu com destino Santa Cruz. O corredor foi percorrido em 40 minutos. Ontem, para ir ao Largo da Batata, em Pinheiros, o ônibus partiu do Terminal Jardim Ângela às 6h30, atravessou os 5,5 quilômetros em uma hora e 50 minutos e chegou às 9 horas. Em entrevista, o secretário dos Transportes, Alexandre de Moraes, disse que, quando não há protestos, o trânsito flui “normalmente”.

31/03/2008 - 13:54h Ainda sobre os panelaços na Argentina

Oleo do Diabo
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Vamos esclarecer algumas coisas. O problema não está em pessoas da classe média argentina saírem às ruas batendo panela, embora eu ache isso um tanto ridículo. Os próprios blogueiros de buenos aires estão refletindo sobre os panelaços dos anos 90, que derrubaram ministros das fazenda. Adiantou alguma coisa? Na verdade, não. Derrubaram ministros, inclusive alguns bons ministros, que pegaram o abacaxi incomensurável cultivado pelo governo Menen, o otário que mais levou à sério as reformas neoliberais sugeridas pelos americanos. Aliás, por falar em americanos, nada como um dia após o outro. A cobra está sendo intoxicada pelo próprio veneno. Enquanto o mundo inteiro cresce, só os EUA têm crise, devido à estupidez neoliberal. O neoliberalismo é uma ofensa ao liberalismo. Não tem nada de liberal no neoliberalismo. Até mesmo a teoria do Estado mínimo é uma balela. O neoliberalismo tenta se vender como verdadeiro capitalismo quando não passa de uma tática semi-mafiosa na qual grupos financeiros ligados ao poder ganham milhões às custas de transferir par si a renda de milhões de trabalhadores e empresários.

Voltando à Argentina, o problema não está na panela. Está em quem bota fogo na panela. Em Buenos Aires, há manifestações quase diárias sobre tudo e todos. A maioria são sérias, com faixas explicativas, demandas específicas. Naturalmente, a maioria são de sem-terras pedindo terras, desempregados pedindo empregos, e assim vai. A diferença deste novo panelaço é justamente… a falta de demandas. As pessoas simplesmente saem batendo panelas pelas ruas, à noite, depois de ouvir pelo rádio e pela televisão que outras pessoas estariam indo às ruas “espontaneamente”. O conceito de “espontâneo”, naturalmente, possui um sentido muito especial. Esqueçamos o fato de ser falso, já que manifestações convocadas por locutores de rádio e televisão a cada 10 minutos não podem ser, tecnicamente, classificadas de espontâneas. Esqueçamos isso. O que os blogueiros argentinos, além da falsidade do caso, notaram é que, para a mídia argentina, a espontaneidade diferenciaria o panelaço das passeadas “organizadas” por sindicatos, movimentos sociais, associações e qualquer tipo de organização civil. São espontâneas. Tão espontâneas que as pessoas nem sabem o que estão fazendo lá. A causa da revolta, teoricamente, seria o discurso de Cristina atacando a greve dos agricultores. Bem, não quero entrar no mérito da política agrícola do governo argentino. Certamente, há quem defenda e quem ataque, com argumentos válidos para todos os lados. O caso, como sempre, virou guerrinha ideológica. Muitos lembraram, inclusive a Cristina, que estes agricultores que estão despejando leite na estrada e deixando estragar milhares de quilos de carne, sob o olhar complacente da mídia e dos ricos argentinos, foram os mesmos que defenderam e sustentaram a ditadura militar.

Os blogueiros portenhos estranharam outras coisas. A mídia repete que são pessoas comuns saindo às ruas, novamente distinguindo-os dos “animais” de sindicatos, movimentos sociais e associações. O que eles não notaram, mas eu notei, é a repetição da ladainha na mídia brasileira.

Já disse: em Buenos Aires, que tem características não reunidas em nenhuma cidade brasileira, que é ser capital política, administrativa, financeira, cultural e sindical do país, há manifestações, e grandes, quase todos os dias. Mas a mídia brasileira só quer saber do panelaço dos riquinhos.

31/03/2008 - 04:00h ‘Tibete é estratégico para a China’

photo of Dr Andrew Martin Fischer

Andrew Martin Fischer: professor da London School of Economics;

Plano de governo é de assimilação: tibetanos são forçados a se ‘achinesar’ para se integrar ao sistema econômico

Cláudia Trevisan, PEQUIM – O Estado de São Paulo

O forte crescimento econômico do Tibete na última década – média de 12% ao ano – beneficiou principalmente os chineses da etnia han e marginalizou os tibetanos. Isso, aliado à forte repressão política, foi a origem dos protestos dos dias 14 e 15 de março em Lhasa, na opinião de Andrew Martin Fischer, da London School of Economics. Segundo ele, a estratégia de Pequim para a região é de assimilação – os tibetanos são forçados a se “achinesar” se quiserem se integrar ao sistema econômico. O Tibete é estratégico para Pequim por abrigar o platô Qinghai-Tibete, uma fonte crucial de abastecimento para o país – cujas outras reservas são escassas e mal distribuídas. Além disso, o território abriga o maior depósito de cobre da China e também é rico em minas de ferro, chumbo, zinco e cádmio – necessários para alimentar o voraz crescimento econômico da indústria chinesa.

Qual é o problema da estratégia chinesa no Tibete?

É uma região ocupada, essencialmente por chineses han e o Partido Comunista. A Região Autônoma do Tibete é governada a partir de uma mentalidade de segurança pública. É uma região estratégica, as decisões são tomadas em Pequim e a questão militar é muito importante. No fim dos anos 80, houve grandes manifestações, que foram reprimidas. Desde então, o governo segue a estratégia de impulsionar o rápido crescimento econômico e, ao mesmo tempo, impor uma política autoritária de forte controle da população.

A China usa o crescimento para tentar legitimar sua presença no Tibete, dizendo que a vida dos tibetanos agora é melhor do que antes.

O Tibete teve um crescimento econômico espetacular e superior à média da China nos últimos dez anos. Mas isso foi produzido basicamente por subsídios concedidos por Pequim e canalizados por meio de empresas chinesas ou do próprio governo, o que cria uma situação muito desigual e polarizada. Os que têm fluência em chinês, relações com chineses, com corporações chinesas ou fortes conexões políticas e econômicas na China se dão muito bem. Mas a maioria dos tibetanos não tem nada disso. Só 15% têm educação formal secundária e só esses podem ter algum grau de fluência em chinês. Mesmo os tibetanos mais educados têm dificuldade em competir com os migrantes chineses, porque estes tendem a ter um grau de educação superior ao dos mais educados tibetanos. É uma situação muito desigual, e as desigualdades são muito determinadas pela questão étnica.

As manifestações recentes refletem essa polarização?

Sim. Os protestos ocorreram principalmente em áreas urbanas, e provavelmente representam o descontentamento da população excluída do rápido crescimento. Quanto mais as áreas urbanas crescem, mais migrantes são atraídos. O problema é que os tibetanos têm um enorme atraso educacional em relação ao resto da China, porque a infra-estrutura educacional é muito pior. Mas mesmo que o governo promova a educação, a estratégia é de assimilação, de colocar cada vez mais a língua chinesa no sistema educacional, com o argumento de que, se os tibetanos forem competir com os migrantes, têm de aprender chinês. A educação tibetana vem sendo enfraquecida, o que tem um impacto cultural e provoca a sensação de que a única maneira de sobreviver nesse sistema é ser assimilado e perder sua cultura.

O que exatamente é essa estratégia de assimilação?

É reduzir gradualmente a educação média tibetana e introduzir cada vez mais a chinesa, minando as maneiras pelas quais a educação tibetana poderia se desenvolver. Mesmo se você decidir estudar tibetano muito bem, não conseguirá um emprego público, porque os concursos para os cargos são feitos em chinês. Se quiser competir nesse sistema, o melhor é ir para uma escola chinesa. Há uma enorme força nesse sistema para as pessoas se tornarem han, o que provoca frustração. Se você é um funcionário público em um local onde a maioria da população é tibetana e nem mesmo fala chinês, seria lógico que um dos requisitos para ocupar o cargo deveria ser falar tibetano. Mas isso não ocorre. Em 2006, houve uma manifestação de universitários em Lhasa, porque o governo ofereceu cem empregos públicos e apenas dois tibetanos foram selecionados, já que os chineses se saem bem melhor em exames feitos em chinês. Isso em um contexto em que 90% da população é tibetana. Os que saem das universidades têm dificuldade em competir no mercado. O governo não dá nenhuma proteção aos trabalhadores locais. Eles têm essa mentalidade de livre mercado, pela qual os tibetanos têm de competir com os migrantes, ainda que em condições bastante desiguais, o que cria uma situação muito discriminatória em todas as indústrias. As pessoas que estão no poder agora são muito mais linha-dura e querem assimilação em larga escala. Querem que os tibetanos sejam cada vez mais como os chineses. Ao mesmo tempo, estão adotando políticas repressivas muito fortes. Desde 1996, implantaram a educação patriótica nos mosteiros, que força os monges a denunciar o dalai-lama e também a receber educação política.

O que pode acontecer?

Pode ficar pior. A maneira como o governo está reagindo ao que ocorreu é quase como tentar transformar um fracasso em uma oportunidade, para desacreditar reivindicações de mais autonomia e promover políticas mais repressivas. É possível que o governo use o que ocorreu em uma política de relações públicas. No Ocidente, ninguém vai acreditar no governo, mas eu não creio que eles estejam falando com o Ocidente. O governo está falando com seus próprios membros. O Partido Comunista não é um organismo uniforme e é integrado por várias facções. Há uma facção mais linha-dura que deseja assimilar o Tibete e outra que é mais tolerante. O que estão fazendo é usar esses eventos para tentar desacreditar a outra facção e reforçar suas políticas. Não creio que o Tibete se torne independente porque os chineses jamais aceitarão isso. O que nós podemos esperar é que a facção linha-dura seja desacreditada e haja um movimento na direção de políticas preferenciais em relação aos tibetanos. Isso é o que podemos realisticamente esperar.

Quem é:
Andrew M. Fischer

Professor do Instituto de Estudos do Desenvolvimento (DESTIN) da London School of Economics (LSE)

É autor do livro “State Growth and Social Exclusion in Tibet: Challenges of Recent Growth”, publicado em 2005

Presta assessoria a vários governos sobre a situação e o desenvolvimento do território autônomo do Tibete

29/03/2008 - 03:27h Paranoia desmentida

Estado não vê sabotagem para piorar trânsito

FOLHA DE SÃO PAULO

A Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, órgão do governo José Serra (PSDB), informou ontem que as investigações sobre manifestações na zona sul não demonstram indícios de ações orquestradas para piora do trânsito, como afirma a gestão Kassab.
Segundo a pasta, as investigações continuam, mas até o momento as evidências apontam para manifestações populares espontâneas -já que as pessoas identificadas pela polícia seriam da região e sem ligações com grupos.
Anteontem, o secretário dos Transportes, Alexandre Moraes, levantou a tese de que existem ações orquestradas para atrapalhar o trânsito. Isso explicaria parte dos consecutivos recordes de congestionamento. Moraes foi procurado ontem, mas não atendeu a reportagem.

20/03/2008 - 22:47h Para população transporte público é prioridade… para DEM-PSDB é caso de policia

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Clique na imagem para ampliar e ler o artigo do Jornal da Tarde