04/11/2009 - 16:59h Ovos e galinhas

MARCELO COELHO – FOLHA SP

“O Naturalista da Economia” é um tesouro de surpresas, mas há algumas decepções


NUNCA REPAREI muito nos preços dos ovos de granja, mas fiquei sabendo por um livro recente (”O Naturalista da Economia”, de Robert Frank), que os de cor avermelhada custam mais caro do que os brancos, embora tenham o mesmo gosto e idêntico valor nutricional.
Pelo menos é assim nos Estados Unidos, onde há consumidores intrigados com o fenômeno. Qual seria a razão dessa diferença de preços?
A pergunta pareceu expressiva aos editores do livro, que se inspiraram nela para a ilustração da capa. Mas é só uma entre as dezenas de dúvidas para as quais o pensamento econômico, pelo menos na interpretação do autor, está pronto a dar resposta.
Alguns exemplos. Por que as baleias estão ameaçadas de extinção e isso não acontece com as galinhas?
Por que as roupas masculinas têm botões do lado direito, e as femininas, do esquerdo? Por que os bares cobram a água, mas oferecem amendoins de graça?
Esta última me pareceu bem fácil.
Afinal, amendoins aumentam a sede dos frequentadores. Mas Robert Frank acrescenta outro fator ao raciocínio. Quanto mais água o infeliz tomar, menor será o seu consumo de bebida alcoólica. Logo, é necessário cobrar pela água também.
A pergunta sobre os botões femininos não traz uma resposta tão economicista. A razão de ficarem do lado esquerdo é histórica. Antigamente, as grandes damas não se vestiam sozinhas. Ficavam de pé diante das mucamas, que, sendo na maioria destras, tiveram assim facilitado o seu trabalho, podendo abotoar as roupas com a mão direita.
Sobre os destinos diversos de baleias e galinhas, não sei se o que mais surpreende é a resposta ou a pergunta. Por que se imaginaria que as galinhas pudessem ser extintas?
Mas um bom economista tem a obrigação de nos surpreender sempre, argumentando a partir de poucas e invariáveis premissas. As baleias estão ameaçadas de extinção, diz Robert Frank, pelo simples motivo de que não têm proprietários… Fosse possível, sei lá, organizar uma fazenda de cetáceos ou pelo menos marcá-las a ferro como os bois das pradarias americanas, estaríamos logo tão fartos de baleias quanto de hamsters e chinchilas.
Não se pense que o autor seja um neoliberal de quatro costados. A alarmante elevação nos preços do caviar beluga se deve primordialmente, diz o livro, ao colapso da União Soviética.
É que o mar Cáspio passou a ser explorado por repúblicas rivais, mais propensas a burlar os concorrentes na obtenção de caviar do que a conformar-se com uma regulamentação comum.
A exemplo de seus predecessores no gênero, como “Freakonomics”, este livro é um tesouro de surpresas, entre as quais se escondem algumas decepções.
Uma pergunta que fica sem resposta, de todo modo, é a de por que, afinal, tantos livros desse tipo surgiram agora no mercado. Acho que fazem parte do mesmo veio da literatura neodarwinista. Por que os seres humanos riem?
Por que há pessoas que sacrificam a própria vida numa guerra, enquanto outras colecionam tampinhas de garrafa?
Uma resposta seria dizer apenas: porque são humanos, porque são pessoas. De alguma maneira, entretanto, isso não parece satisfatório hoje em dia.
Logo alguém invoca a existência de um gene qualquer, o do colecionismo, o do autossacrifício, o do riso. Ou, para não cair em tamanha vulgaridade científica, tenta-se apontar a vantagem evolutiva do comportamento A, que não exclui, por certo, a vantagem evolutiva do comportamento Z, seu oposto absoluto.
Rudyard Kipling escreveu um livro para crianças intitulado “Just So Stories” (algo como histórias que aconteceram assim mesmo ou histórias bem verdadeiras), em que dava explicações imaginosas e míticas para o pescoço das girafas ou a tromba dos elefantes.
Não discuto, é claro, a base científica das explicações econômicas ou biológicas. Mas, atrás de toda pergunta a respeito dos “porquês”, sempre existe, acho, uma psicologia próxima do pensamento mítico. A ciência, provavelmente, está mais interessada nas perguntas que começam com a expressão “em que medida…” do que nas perguntas que começam com “por que…?” Estas, aliás, começam, mas nunca acabam. Quer a prova?
Volto ao ovo, ao ovo vermelho, que custa mais que o branco. Robert Frank dá algumas explicações, mas no final registra, candidamente, um simples fato: as pessoas preferem que ele seja vermelho. Vai ver que é genético.

coelhofsp@uol.com.br

28/10/2009 - 15:54h O incêndio é no vizinho

Marcelo_CoelhoMARCELO COELHO – FOLHA SP

Elias Canetti gosta de descobrir nos outros os impulsos brutais que ele próprio controla mal

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Elias Canetti

CONTINUO SEM vontade de escrever sobre a euforia olímpica e a guerra dos traficantes no Rio de Janeiro. Os fatos, por vezes, comentam-se a si mesmos.
Mas, a começar pelo título (”Festa Sob as Bombas”), um livro recém-lançado pela editora Estação Liberdade merece comentário aqui.
Foi escrito por Elias Canetti (1905-1994), já bem no fim da vida. O Prêmio Nobel, que Canetti ganhou em 1981, não diminuiu o azedume dessas páginas.
“Festa Sob as Bombas” não é um livro acabado: compõe-se das anotações, às vezes repetitivas, para o que seria o quarto volume das memórias do escritor. Canetti passou, na Inglaterra, os anos da Segunda Guerra Mundial e viu o início dos bombardeios alemães sobre Londres.
É durante um desses bombardeios que se dá a festa do título, realizada na casa de um colecionador de arte. A casa tinha três andares.
“Ninguém se importava com o fato de ouvir detonações de bombas, era uma reunião festiva destemida e muito viva. Eu tinha começado no último andar e mal dera crédito a meus olhos, desci até o segundo e acreditei ainda menos no que vi. Cada ambiente parecia mais fogoso do que aquele em que estivera antes.”
Já no subsolo da casa, “aconteceu o mais assombroso”.
“A porta que dava para fora foi aberta bruscamente, homens com capacetes de bombeiros agarraram baldes com areia e, banhados em suor, levaram-nos com velocidade máxima à rua. Não prestaram atenção em nada do que viam no cômodo, em sua pressa de proteger as casas que ardiam em chamas na vizinhança.”
Enquanto isso, os pares que estavam agarrados continuaram do mesmo jeito; “ninguém se levantou bruscamente, ninguém largou o parceiro, era como se a atividade ofegante e suada não lhes dissesse respeito, duas espécies distintas de animais que se evitavam…”.
“Very british”, poderia alguém dizer. Está sempre em curso uma verdadeira ciência da discrição, da privacidade, da indiferença. Mais do que tudo, a percepção milimétrica das diferenças de classe, das hierarquias intelectuais, das gradações aristocráticas.
Nas festas que Canetti frequenta, ocorre uma coisa curiosa, uma espécie de ultraesnobismo.
As pessoas mais célebres não se dão a conhecer; as pessoas que conhecem pessoas famosas fazem questão de não se vangloriar do fato diretamente. Assim, você podia ficar 20 minutos ouvindo alguém contar banalidades a respeito de “Bertie” sem saber que se estava falando de Bertrand Russell.
Canetti acabou conhecendo o famoso filósofo. Admira sua velocidade intelectual e a perfeição de suas frases, mas não resiste a fazer uma observação desagradável.
Para ele, Russell “terminava sua fala com a risada de um bode, tão selvagem e perigosa que chegava a ser assustadora (…) todo o animalesco de sua natureza estava contido nessa risada, um sátiro, embora pequenino, extremamente impetuoso e incansável”.
Isso não é nada perto do que Canetti diz de T.S. Eliot, um sujeito “abissalmente mau”.
Sobre a escritora Iris Murdoch, que foi sua namorada, Canetti escreve: “Creio que não há nada que me deixe mais indiferente do que a mente dessa pessoa”.
Uma galeria de nobres malucos, avarentos, ornitólogos, caçadores de fantasmas, vai criando uma Inglaterra tão estranha quanto a mente do próprio Canetti, que gosta de descobrir, sob as convenções educadíssimas dos seus anfitriões, os impulsos brutais que ele próprio controla mal. O pior, lamenta Canetti, é que esse país foi destruído por Margaret Thatcher: “A Inglaterra decidiu saquear-se a si mesma”.
Voltando à festa durante o bombardeio. Qualquer pessoa poderia se espantar com a indiferença daqueles intelectuais e aristocratas, enquanto bombeiros tentavam apagar o fogo nas casas vizinhas. Mas essa impressão estaria errada, continua Canetti, “porque o corpo de bombeiros daquela noite era composto por voluntários da própria rua, entre eles um ou outro jovem poeta que eu jamais teria reconhecido em tais esforços físicos”.
De modo que indiferença e solidariedade, diversão e dever, não eram tão incompatíveis assim. Na velha discrição britânica, o bom e o ruim se ocultavam do mesmo jeito, o que não deixa de revelar uma espécie de espírito esportivo. É bem o contrário do Brasil, onde nada se oculta por muito tempo. E dizer que a Olimpíada vai ser só em 2016.

coelhofsp@uol.com.br

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20/08/2009 - 13:46h Coragem rara. Parabéns Marcelo Coelho!

bola fora

Pela quantidade de comentários negativos, acho que errei feio no meu post sobre Dilma Rousseff e Lina Vieira. Peço desculpas pelo machismo da ideia toda, em especial no último parágrafo. Uma boa coisa dos blogs é a possibilidade de receber críticas, e não pretendo estar certo o tempo todo. Acontece que encaro o blog mais como exercício de subjetividade do que como missão jornalística. Minha subjetividade, em todo caso, foi clara demais naquele post, e terminou ferindo a subjetividade alheia… Paciência.

Escrito por Marcelo Coelho

17/06/2009 - 11:55h Sombras sobre a USP

Marcelo Coelho faz uma artigo “imparcial” sobre o conflito na USP e a presencia da PM no campus. tenho grande concordância com o que ele escreve, porem…

Tem um porem sim. A pouca representatividade dos “atores” do conflito não me parece ser obstaculo ao dialogo e a negociação. Em outras latitudes, essa “contradição estrutural” também existe e nem por isso a intervenção policial é utilizada, as vezes até a lei proíbe a entrada da força pública nos recintos universitários. Mais ainda, Marcelo não dá valor a afirmação que o espaço universitário é de ideias e não de barbárie, porque lá também tem conflito. Repito, em outras latitudes esses conflitos existem e a polícia não é chamada a intervir, por considerar que o espaço universitário “comporta” ate certo ponto a possibilidade de “contestação” “superior” à do resto da sociedade. Onde também prevalecem disputas “ideólogicas” e filosóficas que não se resolvem a cacetadas.

tenho a impressão que Marcelo Coelho neste artigo, com o qual concordo bastante amplamente, deixa fora da sua analise a decisão política e suas motivações, por isso o nome do governador José Serra nem aparece. Qual é o denominador comum na maneira em que o conflito na USP é tratado e o da Polícia civil? Como reage o governador Serra a qualquer movimento ou reivindicação dos sindicatos ou das categorias dos servidores?

Penso que estamos perante uma política, uma orientação tipica da direita que criminaliza todos conflito social e que compara toda reivindicação, manifestação e greve a baderna e desordem. Não é o produto da desumanização e sim da orientação, não é um incidente e sim uma sistemática política. O artigo de Marcelo Coelho permite de esclarecer melhor os termos do debate. É uma ótima leitura LF

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MARCELO COELHO – FOLHA SP



Se as “minorias radicais” conduzem o processo, onde estão as maiorias moderadas?

UM GRUPO de provocadores ameaça a ordem e o Estado de Direito. Impossível negociar com extremistas desse tipo, dado o irrealismo de suas reivindicações. Para preservar a paz da comunidade e o império da Lei, a saída é a intervenção de uma força militar.
Esse raciocínio pode ser aplicado, sem grande irrealismo, à crise vivida na Universidade de São Paulo. De fato, há minorias radicais. Tudo indica que é impossível negociar com elas. De fato, a ordem deve ser preservada. Tudo indica que o patrimônio público precisava ser defendido de invasões e quebra-quebras.
Só que a fraseologia não difere muito da que justificou o golpe militar de 1964.
Aquela época tinha seus extremistas, dispostos, por exemplo, a fazer a reforma agrária “na lei ou na marra”. Eram, certamente, minoritários na população. Havia uma ordem a ser preservada, e uma legalidade para a qual os movimentos de massa não conferiam grande importância. Só uma intervenção militar daria conta da “baderna”.
É triste ver pessoas de belo currículo democrático, notoriamente perseguidas pelo regime militar, apoiando a ocupação da USP pela PM. Sem dúvida, a polícia age agora com autorização judicial e o golpe de 1964 foi, afinal, um golpe.
Do ponto de vista político, entretanto, as situações se assemelham. Como em 1964, muitos “democratas” agora acham que é preciso reprimir pela força as “minorias radicais”, contando com o aparato militar para defender a ordem, contra a “baderna”.
Este artigo -prometo- será imparcial. Não vejo valor em alguns argumentos do lado contrário. É muita abstração condenar a presença da PM porque a universidade é um local “de pensamento, não de violência”, “de ideias, não de barbárie”.
A USP é isso, mas não é um jardim peripatético: é também um lugar de trabalho, onde pessoas ganham salário, reclamam, fazem greves, piquetes e invasões.
Piquetes e invasões não são atos isentos de violência, e palavras de ordem não costumam ser obras-primas de reflexão e de pesquisa. De resto, há uma diferença óbvia entre intervenções armadas que se dedicam a sufocar o pensamento e a liberdade de cátedra, e as que se encarregam de reprimir militantes sindicais.
Convocar a PM foi um erro. Só serviu para acirrar, e não pacificar, os ânimos na USP. A retirada da PM é o primeiro passo para a superação da crise.
O problema é saber por que se chegou a esse ponto -em que pessoas respeitáveis acabam achando que “só a PM resolve essa baderna”. Quando acontece isso, um sistema de representação e de poder se revela disfuncional. A política deixa de funcionar e a força prevalece.
Se “minorias radicais” conduzem o processo, cabe perguntar onde estão as maiorias moderadas. Deveriam estar presentes nas assembleias (e piquetes) que decidem mobilizações em nome de todos.
Nada mais alienado do que condenar o fato de uma assembleia “de gatos pingados” ter decidido uma greve quando não se participa dela.
Estivesse presente nas assembleias, a “maioria ordeira” da USP negaria legitimidade aos movimentos de reivindicação. Em última análise, prefere delegar a defesa da ordem à PM.
Diante de dezenas de ativistas enraivecidos, quatro policiais (que não são “a repressão”, mas têm nome, estado civil e endereço) foram cercados e humilhados moralmente. Quando chegou o reforço, professores, funcionários e estudantes (que têm nome, estado civil e endereço) foram atacados com gás e balas de borracha.
Tudo se desumaniza, porque está em jogo uma contradição estrutural. Temos uma máquina burocrática -a da reitoria e seus órgãos ossificados de decisão- contra uma máquina sindical -que segue a lógica da mobilização de massas.
Acontece que as massas são imaginárias (reduzem-se a uma minoria) e que a estrutura de poder na USP, supostamente defensora da lei e da ordem, é tudo menos democrática. Quando ninguém representa ninguém, ou representa mal, não há negociação humana possível, e a violência prevalece.
O mesmo dilema levou a crises violentas no sistema político brasileiro, tempos atrás. Minorias “extremistas” se iludem com a omissão da maioria “ordeira”, que não se dá ao trabalho de mobilizar-se pela “ordem” e pela “moderação”. Afinal, tem as tropas a seu dispor.

coelhofsp@uol.com.br

11/04/2009 - 16:34h Flashes da vida

Jacqueline François

Marcelo Coelho

Tomei algum contato com a música popular francesa não por meio de Edith Piaf ou de Charles Aznavour, mas porque meus pais tinham, em meio a uns poucos LPs, dois discos de Jacqueline François, uma cantora de sucesso no tempo do onça, capaz de dar alguma fumaça de cigarro gutural a canções agradáveis e poéticas como “Demoiselle de Paris”, “La mer”, e outras daquelas coisas que, segundo me lembro, gravei numa fita cassete para ouvir no primeiro carro que tive, um Fusca branco, no ano de 1979. Fazia frio naquele mês. não sei se de junho ou de agosto, e foi ouvindo Jacqueline François que me dirigi, com máximo cuidado, ao Largo 13, em Santo Amaro, para assistir numa noite de inverno ao primeiro comício do PT.

Registro a morte de Jacqueline François, em março deste ano, não sem dar alguns links para suas interpretações.

Ela morreu no dia 7 de março, aos 87  anos.

Escrito por Marcelo Coelho

10/04/2009 - 14:39h A necessidade de achar um inimigo

ARTIGO

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MARCELO COELHO

COLUNISTA DA FOLHA

Entendo, até certo ponto, que proíbam o cigarro em bares e restaurantes. Mesmo com áreas divididas, os garçons terminam sofrendo as consequências do fumo passivo.

Mas impedir que alguém fume dentro de um quarto de hotel? Sem ninguém por perto?

Lembro ainda que em muitos hotéis existem andares exclusivos para quem não fuma. Nem mesmo o resquício de um cheiro de cigarro incomodaria os mais sensíveis.

Houve tempo em que os fanáticos de direita procuravam comunistas até debaixo da cama. Mas nem debaixo da cama o fumante poderá se esconder, pelo o que diz a lei recentemente aprovada pela Assembleia Legislativa de São Paulo.

Debaixo de marquises também não. Pode-se fumar em terraços, desde que não tenham cobertura. Assim, quem sabe, será mais fácil identificar o fumante de longe e fuzilá-lo com um rifle de alta precisão.

No fundo, acredito que esses exageros do antitabagismo correspondem a essa necessidade, tão comum nos EUA, e imitada aqui, de encontrar um inimigo com quem lutar.

Acabou-se a ameaça comunista, e os membros da Al Qaeda não são tantos a ponto de mobilizar uma caçada coletiva que valha a pena.

Os fumantes, entretanto, estão em todo lugar -com a vantagem de se esconderem cada vez mais. Deixam sinais de sua presença. São nocivos, malignos, suicidas. Quanto mais cercados, quanto mais restrita a sua área de atuação, mais fácil e divertido será persegui-los.

Não acho que exista sadismo da parte dos perseguidores. O mecanismo é mais complexo.

Terror

O Estado e a população impõem um regime de terror sobre alguma minoria. Identificam nessa minoria uma ameaça: são “eles” os terroristas, são “eles” que nos perseguem, são “eles” que querem nos destruir.

Dito isso, podemos perseguir, aterrorizar e destruir. “Eles” é que começaram.

O cigarro mata, claro. Quem não tem medo da morte? E eis que surge o grupo dos fumantes renitentes, que parece não ligar para isso. Os fumantes escarnecem de nosso medo da morte.

Fica fácil, dessa perspectiva, identificá-los com terroristas. A tentação para a caça às bruxas se torna muito grande. Instituir o Terror sempre foi o ato reativo de quem está aterrorizado. Tome-se cuidado, entretanto. O fogo que queima as feiticeiras também costuma exalar muita fumaça cancerígena.

12/09/2007 - 13:44h "Camaradas, o povo também se equivoca"

Marcelo Coelho sai em defesa do livro “A cabeça do brasileiro”, do sociólogo Alberto Carlos Almeida. Marcelo Coelho tem razão quando se insurge contra uma visão idílica do povo e defende a pesquisa feita sobre as opiniões do povo brasileiro.

Porem, não me parece conveniente ignorar que a polêmica sobre esse livro iniciou-se a partir de um artigo da revista Veja que sobre o pretexto de apresentar o livro, contrabandeou uma visão muito sui generis sobre o povo brasileiro. Segundo a Veja, “O que se tem ali é uma radiografia de nitidez impressionante, que afirma principalmente como o papel da elite na construção de um Brasil moderno é crucial.”

A “radiografia” é do autor do livro, a “afirmação” é da Veja.

A revista procura assim escamotear o papel da elite na construção deste Brasil real e seu reflexo na configuração das “opiniões do povo brasileiro”. Como se o nível de escolaridade e educação de uma parte dessa elite não guardasse nenhuma relação com sua extraordinária capacidade a preservar seus privilégios (de riqueza, educação, acessos culturais, alimentação, etc.).

O que a Veja escamoteia é como foi “crucial” sim, na construção do Brasil atrasado que o governo Lula se esforça em mudar, o papel ocupado pelos privilégios da elite, aqui mancomunados parte dos ricos, setores da igreja, parte dos intelectuais, uma certa mídia que tão bem encarna a Veja e o sabre quando braço secular dos privilégios e do arbítrio.

Outro aspecto é que a hipocrisia dificilmente aparece nas pesquisas. Alguém duvida sobre qual seria a resposta do juiz Lalao a pergunta do livro: “Se alguém é eleito para um cargo público, deve usá-lo em benefício próprio, como se fosse sua propriedade?”

Em outro registro, por exemplo, a “elite” não para de apresentar a corrupção como típica dos nossos países, a diferencia dos do primeiro mundo mais honestos neste quesito. Segundo pesquisa publicada neste blog (ver What a Wonderful World ) é o inverso que é verdadeiro, mesmo que nossa percepção seja diferente.

A representação que os indivíduos se fazem do mundo, não nos diz muito sobre o que eles efetivamente são e a dissociação entre o “faz o que eu digo e não o que eu faço” me parece constituir um traço de nossa sociedade moderna. Isto não significa aceitar um reducionismo infantil do tipo: o povo é sábio e a elite burra, mas o contrário tampouco é verdadeiro.

Quando o articulista da Veja disse: ” A corrupção, essa praga tão destruidora quanto a saúva o era nos tempos do ciclo do café, tem o beneplácito da maioria dos iletrados. Isso ficou claro quando se colocou a seguinte pergunta: “Como considerar a atitude do funcionário público que ajuda uma empresa a ganhar um contrato no governo e depois recebe dela um presente de Natal?”. Para 80% dos que não sabem ler ou escrever, isso é apenas um “favor” ou um “jeitinho”. Para 72% dos que concluíram a universidade, é corrupção e ponto final.”

O jornalista parece querer ignorar que a resposta provavelmente seria a mesma se a pergunta fosse: Como considerar uma empresa e seus donos que subornam um funcionário público para ganhar um contrato do governo? Se colheremos as respostas na FIESP não seriam 72%, mas provavelmente 100% os que responderiam corrupção. E daí?

Poderíamos concluir tal vez que os mais pobres são mais cínicos ou menos hipócritas e que perante o espetaculo das elites, um presente de natal é efetivamente… um favor.

Por último, a relação entre o “que pensam” e “como votam” os brasileiros, em sua relação com a educação. Como se sabe pelas estatísticas, está ultima tem progredido no Brasil. Mais escolaridade, diminuição do analfabetismo etc. Isto não se traduz automaticamente, nem necessariamente em consciência política.

A educação abre horizontes e constitui um elemento chave do progresso social, já a consciência política exige uma compreensão, não necessariamente intelectual, sobre os interesses sociais em jogo e as aspirações dos homens e mulheres que vivem neste vasto pais. A educação é um elemento que contribui a facilitar essa consciência, outro elemento é a experiência e a própria luta por essas aspirações e também a organização política e o confronto democrático de idéias e programas. Nesta questão, ela sim crucial para construir um Brasil moderno, os ‘analfabetos” se recrutam em todas as classes sociais, tal vez mais naquela que a Veja chama da elite do Cansei e paradoxalmente é um torneiro mecânico que esta dando aula.

Dito isto, concordo com Marcelo Coelho, o termômetro não é o responsável da doença e a pesquisa e seus resultados interpelam todo nosso corpo social. Uma certa elite deveria tomar vergonha na cara ao ver o resultado.

Luis Favre

Marcelo Coelho para Folha de São Paulo


“Esse sociólogo quer demonstrar que as elites são mais éticas do que a classe baixa!”

UMA ONDA de inconformidade e ranger de dentes parece ser o principal efeito do livro “A Cabeça do Brasileiro”, do sociólogo Alberto Carlos Almeida, recentemente publicado pela editora Record.
O autor, que é professor na Universidade Federal Fluminense e diretor de um instituto de pesquisas, resolveu medir as opiniões da população brasileira a respeito de assuntos cruciais, como racismo, intervenção do Estado, sexualidade, violência policial, “jeitinho” e corrupção. Os resultados são indiscutivelmente simpáticos para as “elites” e pouco abonadores no que se refere ao “povão”.
Em praticamente todas as questões propostas, os entrevistados com diploma de ensino superior se mostram menos fatalistas, menos conformistas, menos conservadores do que a população de baixa escolaridade. O abismo é total quando se compara o pensamento de uma mulher nordestina, analfabeta, idosa e moradora do interior com as opiniões de um jovem habitante de alguma capital do Sudeste.
Os resultados do livro caíram como uma péssima notícia nos ambientes em que é costume criticar “as elites” pelo atraso do país. Paralelamente, soam como música para os setores de classes média e alta urbanas que não engolem a popularidade do governo Lula.
O levantamento procurou utilizar questões bastante precisas para medir as diferenças de atitude da população. Pede-se, por exemplo, que o entrevistado diga se concorda ou não com esta frase: “Se alguém é eleito para um cargo público, deve usá-lo em benefício próprio, como se fosse sua propriedade”.
Só 3% dos que têm curso superior concordam com isso. Entre os analfabetos, 40% acham a frase correta.
Para avaliar a presença de uma “mentalidade hierárquica” na população, Almeida valeu-se de recursos interessantes. Eis um caso: se a patroa disser à empregada doméstica que ela pode assistir à televisão na sala junto com ela, qual deve ser a atitude da empregada? Sentar no sofá junto da patroa? Assistir à TV na sala, mas pegar uma cadeira na cozinha? Continuar assistindo à TV no quarto de empregada?
Na região Sul, 72% acham que a empregada deveria se sentar no sofá. No Nordeste, a proporção cai para 55%. Entre os analfabetos, 53% acham que a empregada deve pegar a cadeira na cozinha. Só (só?) 25% dos que têm curso superior têm essa opinião.
O homossexualismo masculino é rejeitado por ampla maioria: 78% dos brasileiros mostram-se “totalmente contra” essa prática. A opinião muda um pouco se o entrevistado é do Sudeste (85%) ou do Centro-Oeste (94%), e se tem menos de 24 anos (83%) ou mais de 60 (94%).
Novamente, o decisivo nesse ponto é a escolaridade: dos que têm curso superior, só (só?) 75% são totalmente contra, enquanto entre os analfabetos a rejeição sobe a 97%.
E por aí vai. Espancamento policial, censura aos meios de comunicação, socorro a empresas falimentares, desinteresse em cuidar do patrimônio público: praticamente não há coisa criticada pelo pensamento liberal-ilustrado que não tenha apoio dos setores menos escolarizados.
Pois bem, a pesquisa provocou reações violentas. Esse sociólogo quer demonstrar que as elites são mais éticas do que a classe baixa! Para ele, o Brasil seria perfeito se o povo não existisse…!
É possível que muitos leitores do livro achem mesmo que os pobres são um grande estorvo ao nosso progresso. Mas o levantamento feito por Alberto Carlos Almeida não tem por que suscitar interpretações desse tipo.
Primeiro, porque é uma pesquisa sobre opiniões, não sobre comportamentos. As “elites”, se quisermos, podem muito bem dizer coisas razoáveis e na prática agir sem ética nenhuma -e a pesquisa não se propunha a verificar esse tipo de coisa.
Segundo, porque está longe de levar a conclusões reacionárias. Ao contrário, não se atribui a nenhuma força imutável, como “o caráter nacional do brasileiro”, a “herança ibérica” e coisas do gênero, a quantidade de opiniões antidemocráticas que pulula nas tabelas. O que falta é educação. Terceiro, porque se verifica que é nas escolas, e não por meio da TV e das igrejas, por exemplo, que uma visão moderna do mundo pode ser socializada.
E seria muito estranho, finalmente, se num país extremamente dividido e desigual as opiniões da população fossem homogêneas e “certinhas”. Não há o que comemorar, nem do que se enraivecer, com o livro de Alberto Carlos Almeida. Constitui um retrato -o que importa é mudá-lo.


coelhofsp@uol.com.br