11/04/2008 - 13:27h Na surdina, Folha esfria ombudsman

Ricardo Kauffman
De São Paulo (SP)

A Folha de S.Paulo deu com a porta na cara dos seus leitores. Semana passada bloqueou o acesso à crítica diária do ombudsman, após 8 anos de disponibilidade no sítio do jornal.

Ao que tudo indica, de maneira definitiva. Digo isto sem certeza porque a publicação não se deu ao trabalho até agora de dar uma digna satisfação ao seu público a respeito da mudança.

mario_magalhaes1.jpgQuem o fez foi Mário Magalhães (na foto a esquerda), no domingo passado, em seu artigo de despedida na versão impressa, já na condição de ex-ombudsman da casa.

Ele recusou o convite para renovar o mandato por mais um ano exatamente porque o jornal impôs a obstrução da crítica diária aos leitores. Atividade que corresponde a 80% do produto do trabalho do ouvidor, segundo o próprio.

Quem hoje acessa a página do ombudsman da Folha não encontra nenhuma informação sobre estas alterações. Pelo contrário, se depara com texto segundo o qual “a atualização (da crítica diária) é feita no meio da tarde”. No entanto, não há novos itens na lista desde o último dia 3 de abril. Descuido inexplicável.

A Folha de S.Paulo é um jornal que se caracteriza pela defesa da transparência. Este é um valor que a publicação expressa com ênfase e de várias maneiras.

Seja na sua apresentação institucional: “A Folha procura manter uma atitude de permanente transparência diante dos seus leitores”, diz o Manual de Redação. Seja na sua comunicação publicitária: “Folha, um jornal com o rabo preso com o leitor”, diz um famoso slogan.

E seja na forma rigorosa com que exige, na sua cobertura, esta qualidade – a transparência – de órgãos públicos e empresas na relação com cidadãos e consumidores, respectivamente.

A repentina restrição à crítica diária do ombudsman é forte contradição do jornal e representa importante retrocesso em termos de clareza de procedimentos, como bem registra Mário Magalhães em seu derradeiro texto:

“(…) A restrição imposta configura regressão na transparência. O projeto editorial da Folha diagnostica um jornalismo cada vez mais crítico e mais criticado”, diz.

Ainda mais opaco e contraditório é o fato de a Folha não vir a público justificar a medida. Segundo o ex-ouvidor, o motivo alegado pelo jornal para o bloqueio seria o crescente uso estratégico da crítica diária pela concorrência.

Trata-se de um ponto de vista compreensível, aceitável como argumentação. Desde que seja publicamente assumido pelo jornal. Com ônus e bônus implicantes. Se a Folha admiti-lo, poderá continuar a dizer que tem “o rabo preso com o leitor”?

Cortar um produto fornecido ao leitor em detrimento de interesses comerciais e industriais mostra que o público ficou para segundo plano. Será este o motivo da demora da Folha em explicar a novidade? O silêncio dá margem a ruídos.

Nestas circunstâncias é legítimo considerar – a Folha e seus colunistas o fariam – que o corte do acesso à crítica diária ocorreu numa semana especialmente conturbada.

Aconteceu dias depois de o ministro Franklin Martins citar o ombudsman da Folha ao afirmar que o senador Álvaro Dias e o jornal paulista deveriam informar publicamente quem vazou o dossiê sobre os dados do governo FHC.

É possível que muito em breve o jornal se pronuncie sobre o esfriamento do papel do seu ombudsman. Afinal, um novo titular deve assumir a coluna de domingo. Mesmo se a explicação aparecer, virá com atraso.

Não há princípio de comunicação que justifique o silêncio dos últimos dias. A Folha é um dos poucos – foi o pioneiro – veículos brasileiros a manter um ombudsman.

O acesso livre à crítica diária foi um forte instrumento de reflexão e acompanhamento da cobertura jornalística para o público em geral.

Algo de extrema validade para todo brasileiro interessado em fazer uma leitura crítica sobre fatos e factóides, e do trato deles. Ainda mais em meio ao aumento brutal de canais de informação e do conseqüente crescimento de possibilidades de manipulação do noticiário, com que lidamos atualmente.

O fato de um veículo do tamanho da Folha escalar um jornalista com independência para fazer este tipo de análise aberta foi um marco do respeito da imprensa com seu público.

De coragem de quem não tem o que esconder. E de compromisso com a busca de equilíbrio e interpretação justa dos fatos, mesmo que com limitações naturais. Boa parte de tudo isso agora a Folha joga por terra. De forma desavisada e, portanto, até aqui desrespeitosa com o leitor.

Tal atitude sinaliza o quanto a guerra política, midiática e de poder está quente no meio em que circula informação no universo virtual dos computadores.

Esta se acelera na mesma velocidade com que a revolução digital avança. Deixando para trás e só para o discurso o zelo pela liberdade e transparência.

Até que a Folha demonstre o contrário, Mário Magalhães caiu por exagerar na sua competência de ombudsman.

Ricardo Kauffman é jornalista e roteirista.

Fale com Ricardo Kauffman: rikauffman@terra.com.br

06/04/2008 - 10:01h Senzala na imprensa

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Escrava Anastáciaartur_escrava-anastacia.jpg

Vamos chamar a coisa pelo seu nome: mordaça.

O ombudsman da Folha foi calado por mostrar do dedo a parcialidade do jornal e faze-lo com a autoridade que confere ser ombudsman do próprio jornal.

Dia sim, outro também, Mário Magalhães mostrava o “lado” da Folha e isto servia para por a nu a vergonhosa campanha da grande mídia contra o governo e o PT, em coluio com a oposição.

Memorável foi a critica sobre a “tendência” pro-Serra do jornal.

Todos os dias, com transparência, a crítica do ombudsman na internet, reproduzida pela blogosfera, minava a parcialidade da cobertura que o jornal faz. Intolerável para os arautos do ‘escândalo permanente”, decidiram calar a voz discordante. Com dignidade Mário Magalhães recusou a auto-censura proposta pelos patrões irritados.

Ontem, em referencia ao livro lançado por Eugênio Bucci, alertei contra a pratica de limpeza ideológica que imperava em certas redações. Não sabia que a Folha iria corroborar tão rápido o que eu denunciará: a existência de um violento partidarismo da imprensa brasileira e o uso da censura, a mordaça e as demissões para impor na mídia uma linha autoritária de porta-estandartes da oposição partidária.

Luis Favre

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06/04/2008 - 08:50h Despedida

A Folha condicionou minha permanência ao fim da circulação das críticas diárias na internet; não concordei; diante do impasse, deixo o posto


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NO ANO QUE passou, quando as noites de domingo se insinuavam, e tantas famílias saíam para o último passeio do fim de semana, a minha sabia que ficaríamos em casa -ou pelo menos não iríamos todos. Era hora de eu começar a longa e solitária jornada madrugada adentro para terminar de esquadrinhar jornais e revistas.De manhã, com as olheiras a denunciar o sono roubado, leria as edições do dia e escreveria a mais encorpada crítica semanal, a da segunda-feira. Hoje à noite, se alguém me chamar, terá companhia.Esta é a 51ª e derradeira coluna dominical que escrevo como ombudsman da Folha. Assumi em 5 de abril de 2007, e o meu mandato se encerrou anteontem. Embora o estatuto autorize a renovação por mais dois períodos, não houve acordo com a direção do jornal para a continuidade.

A Folha condicionou minha permanência ao fim da circulação na internet das críticas diárias do ombudsman. A reivindicação me foi apresentada há meses. Não concordei. Diante do impasse, deixo o posto. Oitavo jornalista a ocupar a função, torno-me o segundo a não prosseguir por mais um ano. Todos foram convidados a ficar. Sou o primeiro a ter como exigência, para renovar, o retrocesso na transparência do seu trabalho.

A crítica da quinta foi a última que circulou na Folha Online, com acesso a não-assinantes da Folha e do UOL.

A partir de agora, os comentários produzidos pelo ombudsman durante a semana só poderão ser conhecidos por audiência restrita, de funcionários do jornal e da empresa, que os recebe por correio eletrônico. Os leitores perdem o direito. Era assim nos primórdios do cargo, criado em 1989. A internet engatinhava.

Como se constata no site www.folha.com.br/ombudsman, desde 2000 as críticas vão ao ar. Por oito anos, os leitores puderam monitorar a atividade cotidiana de quem tem a atribuição de representá-los.
Não poderão mais.

Regras
O comando da Folha esgrimiu um argumento para a decisão: no ambiente de concorrência exacerbada do mercado jornalístico, idéias e sugestões do ombudsman são implementadas por outros diários.
De fato, isso ocorre.

E continuará a ocorrer.

Quase 20 anos atrás, as críticas ainda denominadas internas eram distribuídas em papel à Redação.

Acabavam nas bancadas de outros jornais. Um deles veiculou publicidade alardeando elogio do ombudsman.

Com a difusão por e-mail, será ainda mais difícil conter a distribuição irregular das anotações do ouvidor. Eventuais interessados, se bem articulados, terão como lê-las. Que segredo sobrevive a centenas de destinatários?

Já os leitores ditos comuns, os que fazem a fortuna de toda empreitada jornalística de sucesso, serão barrados. A medida não resolve o problema a cuja solução se propõe, mas prejudica quem é alheio a ele.
A não-renovação do mandato é legítima, respeita a Constituição do jornal. Sua direção tem a prerrogativa de convidar ou não o ombudsman a permanecer. E de estabelecer as normas. Não há quebra de contrato, e sim respeito.

No meu caso, haveria mudança de regra no meio da gestão, composta de um a três mandatos. Regras, como a Folha recomenda, devem ser estabelecidas antes do jogo.

Autópsia
Não é praxe dos jornais impressos do mundo inteiro compartilhar na rede o que muitos deles chamam de memorando interno do ouvidor.

Assim como, na conferência da Organização dos Ombudsmans de Notícias, com participantes de 13 países, não encontrei quem digitasse todo santo dia, como fazemos aqui, uma crítica ou memorando.
A Folha deu um passo ousado na imprensa brasileira ao nomear um ombudsman. Radicalizou e tornou públicas as críticas antes limitadas à Redação. Mais do que as colunas dominicais, essa espécie de parecer se destina a uma autópsia das edições. Em minúcias, identifica suas fraquezas, sem desprezar as virtudes. Expõe as vísceras do jornal.

O desafio do ombudsman é ser a melhor síntese possível dos interesses dos leitores. A eles interessa que o jornal seja bom. Nas críticas, o ombudsman busca contribuir para que o jornal do dia seguinte seja melhor que o da véspera.

Essa confluência faz do ombudsman um benefício potencial ao leitor e ao jornal.

Mesmo com as críticas vetadas aos leitores, a Folha não perderá a primazia em transparência no jornalismo nacional. As colunas de domingo persistirão, e a publicação de um artigo como este expressa tolerância com o pensamento divergente. Quantos jornais o imprimiriam, se o objeto de análise fossem eles?

Regressão

A despeito desse cenário, a restrição imposta configura regressão na transparência. O projeto editorial da Folha diagnostica “um jornalismo cada vez mais crítico e mais criticado”. Reconhece que “o leitor fiscaliza a pauta de compromissos” do jornal.

O ombudsman deve ser um instrumento dos leitores. Se 80% dos pronunciamentos semanais ficam inacessíveis (as críticas de segunda a quinta; não escrevo às sextas), reduz-se a fiscalização dos leitores sobre aquele cuja atribuição é batalhar em nome deles.

Essa peleja não implica, em um exemplo, advogar o alinhamento do jornal com partidários ou opositores das pesquisas com células-tronco embrionárias, mas incentivar o equilíbrio no noticiário e nos espaços de controvérsia.

O ombudsman incapaz de zelar pela manutenção da transparência do seu ofício carece de autoridade para combater pela transparência do jornal. Como cobrar o que se topou diminuir?
A tendência mundial é de expansão da transparência das organizações jornalísticas. A novidade da Folha aparece na contramão.

Agradecimentos

A crítica diária é valiosa como instrumento de diálogo entre os leitores e o ombudsman. O que ele pensa disso e daquilo? Por vezes, a resposta se encontra nos apontamentos do dia. Na semana passada, foi possível conferir se eu perguntei à Folha quem lhe forneceu o dossiê do momento. A resposta significaria romper o compromisso de sigilo com a fonte. Um ministro disse que eu perguntei. Não é verdade.
Se fosse responder aos leitores sem a chance de lhes remeter à crítica on-line, não sei se daria conta do atendimento. Em 1991, primeiro ano do qual sobreviveu estatística, houve 3.748 contatos com o ombudsman. Em 2007, o recorde de 13.374.

Em janeiro, fevereiro e março de 2008, registraram-se marcas inéditas. O salto de 24% na comparação com idêntico trimestre do ano anterior projeta resultado anual superior a 16.500, sem considerar o impacto de eventos como eleição e Olimpíada.

O vigor do Departamento de Ombudsman é manifestação da mudança de comportamento de cidadãos e consumidores de notícias: a fé nos relatos jornalísticos dá lugar ao ceticismo; troca-se a submissão a versões pela leitura crítica; a passividade, por cobrança. Essa é a principal característica do jornalismo do século 21. Merece ser saudada pela sociedade e pelos jornalistas.

Na chegada, eu pensava ter muito a dizer. Ao partir, sei que tenho muito a ouvir.

Gostaria de ter falado de outros assuntos, dos anúncios de prostituição aos interesses cruzados do jornal. Fica para outra vez.

Pelo ano em que fui feliz, agradeço à confiança que a direção da Folha depositou em mim. Tive liberdade para escrever o que quis. Uma executiva me disse que o jornal precisava de um “ombudsman crítico”. Tentei desempenhar escrupulosamente a missão.

Sou muito grato à minha supersecretária, Rosângela Pimentel, e ao meu assistente, o futuro jornalista Carlos Murga. Na Secretaria de Redação, devo a Suzana Singer e Alba Bruna Campanerut.
Na editoria de Arte, a Fábio Marra e Julia Monteiro. Ao colocar a coluna no papel e me salvar de vexames maiores, Vanessa Alves coordenou um time talentoso e generoso.

Minha gratidão maior é para quem me deu lições inestimáveis -hoje à noite, em casa ou na rua, não esquecerei o brinde aos leitores da Folha.

Mário Magalhães é o ombudsman da Folha desde 5 de abril de 2007. O ombudsman tem mandato de um ano, renovável por mais dois. Não pode ser demitido durante o exercício da função e tem estabilidade por seis meses após deixá-la. Suas atribuições são criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores, recebendo e verificando suas reclamações, e comentar, aos domingos, o noticiário dos meios de comunicação.

26/02/2008 - 09:58h A Folha é guarda-chuva de Kassab?

Depois do temporal

MÁRIO MAGALHÃES – OMBUDSMAN
ombudsman@uol.com.br

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Na sexta-feira (22), a primeira página da Folha ignorou o dilúvio da véspera.

No sábado (23), o jornal cumpriu o roteiro obrigatório e burocrático desse tipo de cobertura: resumiu os danos e descreveu os apuros de algumas pessoas.

Não fez, contudo, o que a sua própria tradição recomenda: investigar os gastos/investimentos da Prefeitura de São Paulo com o combate a enchentes. A Folha cansou de produzir reportagem assim, inspirada pelo jornalismo crítico que o seu projeto editorial preconiza.

Saiu uma declaração protocolar do prefeito Kassab, mas nenhum questionamento sobre a prioridade (ou falta dela) em seu governo para a prevenção a estragos da chuva.

O “Estado” titulou na capa do caderno Metrópole de sábado: “SP retém R$ 49 mi da verba anticheias”.

No mesmo dia, o Jornal da Tarde manchetou: “R$ 49 mi deixaram de ser usados contra enchentes”.

Ontem uma garota de 14 anos morreu durante o temporal.

O leitor da Folha segue sem saber como o prefeito age.

Além disso, seria interessante conhecer como os antecessores de Kassab, como Marta e Serra, agiram. De acordo com o “Estado”, “nos últimos cinco anos, os volumes mais baixos de investimento ocorreram” no último ano da gestão da petista e no primeiro da do tucano.

Mário Magalhães é ombudsman do jornal Folha de São Paulo

Ver aqui no blog Kassab deixa de aplicar 22% do dinheiro contra enchente

25/02/2008 - 13:31h Em respeito ao ombudsman da Folha

mario_magalhaes.jpgMário Magalhães, ombudsman da Folha, desabafou ontem na sua coluna no jornal. Disse ele que às vezes se sente inútil, na sua pregação em favor do jornalismo e do equilíbrio no tratamento da informação e das notícias publicadas. Desanimado, comenta “E há jornadas em que, como ombudsman, sucumbo à síndrome do peito de homem, o sentimento de inutilidade.”

Permita-me discordar, Mário, sobre a “inutilidade do peito de homem”. A literatura abunda de exaltação por ele. É de peito aberto que os homens enfrentam a injustiça e é também assim que demonstram não se amedrontar perante as ameaças.

É também o peito do homem que aconchega o ser amado e que abriga o coração, pequeno ou grande, dependendo de cada um. Mas é verdade que muitas vezes, esse peito se enche de arrogância e pretensão, para ocultar a insignificância dos prepotentes.

Mas é esse peito que abriga a alma, esse mistério insondável que contém, dizem alguns, o inconsciente da cada individuo.

Você sabe, o inconsciente… aquele pequeno argentino que todos levamos dentro, e que Freud denominou ego.

Por ele ao menos, se não por causas mais nobres que são seguramente as que o animam, não desista. Você está fazendo um excelente trabalho.

Você tem peito e impõe respeito pela força dos seus argumentos equilibrados é isso é bom para a democracia e para os cidadãos do Brasil.

E respeito (do latim respectu) é exatamente isso: questão de peito e, em uma de suas variáveis, segundo o Aurélio: consideração pela opinião pública. LF

08/02/2008 - 00:30h Ombudsman da Folha insinua parcialidade

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MÁRIO MAGALHÃES
ombudsman@uol.com.br

Pensamento único

O Painel do Leitor tem quatro cartas sobre cartões. Todas no mesmo tom.

Seria muito mais interessante se contemplasse opiniões diversas, mantendo-se como espaço plural de idéias.

Cartões paulistas?

Leitores indagam se a Folha não publicará reportagem sobre o uso de cartões corporativos no governo de SP.

Esses cartões existem? Se existem, evidentemente que há interesse público, portanto jornalístico, em saber sobre eles.

Folha: é de São Paulo

A propósito, há dias, como hoje, que a Folha simplesmente ignora o Executivo paulista.

É um desserviço aos leitores.

27/01/2008 - 10:05h Jornalismo febril ou politicamente orientado?




Na edição de hoje, domingo, o ombudsman da Folha faz um balanço do tratamento dado pelo jornal Folha de São Paulo a questão da febre amarela.

Eu mesmo tenho tratado aqui no blog várias vezes deste tema, mostrando a maneira pouco responsável e extremamente “política” com a qual a mídia operou sobre esta questão nos primeiros dias de janeiro 2008. O ombudsman da Folha pesquisou a maneira como o jornal tratou deste tema nos diversos anos em que a febre amarela provocou vítimas no Brasil e descobriu o que muitos já imaginávamos: em 2001, ano em que a febre amarela matou 22 pessoas só no primeiro trimestre, o tema ocupou escassas linhas numa nota perdida no interior do jornal, nunca foi para a primeira página e nenhum pedido de explicação, nem entrevista, do ministro da saúde da época. Em tempo, o ministro era José Serra e o presidente não era Lula. A seguir o artigo do ombudsman publicado na Folha de hoje.
(mais…)

18/12/2007 - 16:57h Procura-se José Serra e a velha Folha de São Paulo

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Folha, Serra, tendência e método

Mário Magalhães

Na semana passada, lamentei que a Folha não tivesse procurado o governador José Serra para ele se pronunciar sobre a reintegração de posse na favela Real Parque. O terreno pertence a uma empresa ligada ao Estado; a Polícia Militar, que executou a ordem judicial, é subordinada ao governador e a autoridades que ele nomeia diretamente ou não.

Ontem, lamentei que o jornal não tivesse procurado o governador José Serra para ele se pronunciar sobre a morte de um lutador de artes marciais em dependências do Estado.

Hoje, lamento que o jornal não tenha procurado o governador José Serra para ele se pronunciar sobre a morte por tortura –de acordo com laudo de IML– de um adolescente de 15 anos, preso por policiais militares.

Três exemplos não asseguram que se esteja diante de um método. Indicam, no entanto, uma tendência.

O jornal, cujo dever é fiscalizar o poder, todos os poderes, deveria refletir sobre isso.

Ana Carolina Fernandes/Folha Imagem
O ombudsman Mário Magalhães

Mário Magalhães é ombudsman da Folha de São Paulo

10/10/2007 - 19:09h Ombudsman da Folha once again

MÁRIO MAGALHÃES é ombudsman da Folha de São Paulo
ombudsman@uol.com.br

Uma gravação mal explicada

A Folha, no mínimo, deve aos leitores uma explicação transparente sobre como a gravação de uma entrevista feita pelo jornal com um advogado foi parar nas mãos do senador Demóstenes Torres, que a divulgou ontem na tribuna do Senado.

A reportagem “Gravação na tribuna constrange Renan” (pág. A6) conta: “[...] Demóstenes reproduziu a gravação de entrevista concedida à Folha pelo advogado Heli Dourado, na qual ele citava a intenção do assessor”. O assessor, que trabalhava para Renan Calheiros, teria tentado espionar adversários do presidente do Congresso.

Segue a reportagem: “Na segunda-feira, Dourado contestou que havia dado a declaração. No mesmo dia, Demóstenes solicitou à Folha a gravação. Depois de apontar contradições nas versões dos envolvidos no episódio, ontem ele reproduziu o áudio aos demais senadores no plenário do Senado”.

É grave a falta de transparência do relato.

Quer dizer que a Folha entregou a gravação ao senador? Por quê? É costume do jornal fazer isso? Não contradiz as normas de apartidarismo da Folha presentear um parlamentar com o que pode se transformar em instrumento de luta política? Que outras vezes o jornal usou de tal expediente e por quê?

Ora, um milhão de vezes entrevistados já negaram declarações gravadas. Nesses casos, o jornal pode reafirmar a transcrição, oferecendo mais detalhes, como o tempo de conversa; apresentar a prova (o áudio) à Justiça ou a uma das partes em contenda judicial; veicular na Folha Online, como faz hoje com a entrevista do advogado.

Mas passar a um senador a gravação…

A partir de agora, todos os leitores têm o direito de receber as gravações das entrevistas feitas pela Folha? Inclusive Renan Calheiros?

Se vale para um, vale para todos.

A legislação assegura aos jornalistas preservar não só fontes, como, em certos casos, fitas com entrevistas.

O compromisso da Folha é com os leitores. Se existe a gravação relatada, cabe ao jornal comprovar sua existência aos leitores, não a um senador.

Pode haver problemas de ética e procedimentos jornalísticos mais graves. Só posso me pronunciar, contudo, depois que o jornal esclarecer aos leitores o que aconteceu.

Direito à privacidade versus direito à informação

A Folha tem hoje bons momentos, em decisões jornalísticas nas quais se confrontaram dois valores: o direito à privacidade e o direito à informação.

Na primeira página, a fotografia de Lula Marques mostrando Ideli Salvatti vendo pela internet imagens de Mônica Veloso na Playboy, aparentemente pirateadas, é de longe o melhor registro feito ontem pelos repórteres-fotográficos no plenário do Senado.

A senadora, detentora de mandato conferido pelos cidadãos, estava em local público, em sessão pública, com seus vencimentos pagos pelos contribuintes, usando equipamento adquirido com verba pública. Logo, é legítima a divulgação do que ela via no seu laptop. Há interesse público em saber o que os parlamentares fazem durante as sessões, ainda mais que a jornalista desnuda foi o pivô do primeiro processo de cassação de Renan Calheiros.

Trata-se da mesma interpretação que legitimou a publicação de fotos das telas dos computadores de ministros no julgamento do STF que instaurou o processo do mensalão.

Outra decisão correta da Folha foi a de expor a consulta que o deputado Paulo Renato fez ao presidente do Bradesco sobre artigo escrito para a Folha. O artigo ataca interesses do Banco do Brasil e, pelo menos implicitamente (ainda não foi publicado), favorece o Bradesco e outros bancos privados.

O ex-ministro da Educação afirmou em entrevista que empregou o mesmo expediente com a Vale do Rio Doce, consultando-a sobre artigo.

O compromisso do jornal, reafirmo, é com os leitores, não com deputados. Há interesse público na informação. Por isso, é digna de aplausos a divulgação da mensagem que acompanhou, por engano, o artigo enviado por e-mail à Folha: Paulo Renato, economista, indagava ao banqueiro se o texto estava OK.

Cabe agora investigar as ações e os discursos de Paulo Renato relativos ao sistema bancário. Um esclarecimento elementar é sobre contribuição oficial do Bradesco à sua campanha e à do PSDB.

Pode haver aí uma grande pauta sobre lobby.

O furo merecia alto de página e chamada na primeira página. Não ganhou nem um nem outro.


Pedágios paulistas

Na extensa cobertura da Folha sobre a concessão-privatização de trechos de rodovias federais, houve espaço até para uma reportagem sobre a queda-de-braço entre seis concessionárias e o governo do Paraná.

Mas não li a comparação dos valores dos novos pedágios com os cobrados em rodovias estaduais paulistas. A diferença é abissal. Por que a Folha não tratou do tema?

O Estado publicou a reportagem “Custo do pedágio põe rodovias paulistas em xeque”.

Pluralismo e resposta

O jornal fez bem em publicar na seção Tendências/Debates artigo do secretário da Saúde de São Paulo.

Espera-se, agora, pela resposta, no mesmo espaço, da autora da reportagem atacada.

É um direito dos leitores conhecer os argumentos da jornalista.