30/08/2012 - 09:57h Indústria pede socorro ao Brasil urbano

Luiz Ushirobira/Valor / Luiz Ushirobira/Valor Luiz Ushirobira/Valor – Para a CNI, mobilidade caótica afeta o desenvolvimento do país, ao restringir fluxo de pessoas, bens e ideias e reduzir a produtividade, inovação e qualidade de vida

Por Marli Olmos | VALOR

De São Paulo

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) acaba de concluir um extenso estudo sobre os efeitos provocados pelos problemas de mobilidade na produtividade do país. O setor está preocupado com o tempo que seus funcionários perdem para chegar nas fábricas e escritórios, os atrasos nas entregas nas mercadorias e o prejuízos à atividade intelectual, quase sempre concentrada nos centros urbanos. Trata-se, conclui a entidade, de uma perda na qualidade de vida para os 45% da população que vivem em 10 metrópoles brasileiras.

A direção da CNI acredita ter como fortes aliados dois importantes acontecimentos no país – a criação do PAC da Mobilidade, para o qual o governo federal reservou R$ 7 bilhões, e as eleições municipais. Seus dirigentes imaginam que essas duas forças ajudarão na mobilização que a entidade pretende comandar para suscitar um debate nacional.

O documento, que acaba de ser elaborado com a ajuda de dados da Associação Nacional dos Transporte Públicos (ANTP), arquitetos e urbanistas, será encaminhado à presidente Dilma Rousseff. Posteriormente, a ideia é envolver prefeitos, governadores, candidatos e outros agentes municipais, estaduais e federais no centro do debate público nacional.

O diretor de políticas e estratégia da CNI, José Augusto Coelho Fernandes, lembra que se por um lado as empresas se esmeram em desenvolver modernos sistemas de manufatura enxuta, como o chamado “just in time” (por meio do qual as peças de um determinado item chegam à fábrica no exato instante da sua produção), por outro ficam à mercê do que acontece nas ruas congestionadas, na tentativa de adivinhar o horário que sua mercadoria chegará ao destino final.

“Temos percebido que essa questão está fora dos centros de debates no país”, afirma. “As dificuldades de mobilidade deixaram de ser problemas que envolvem somente São Paulo e Rio de Janeiro. Em cidades como Salvador, Recife e Manaus, que vivem situações do mesmo tipo, ninguém consegue marcar compromissos”, completa.

Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Brasília, Belém, Curitiba, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre e Recife abrigam 45% da população urbana brasileira. Nas duas maiores, São Paulo e Rio de Janeiro, estão 20% dos que habitam o Brasil.

Segundo o estudo preparado pela CNI, cada morador dessas 12 metrópoles gasta, em média, uma hora e quatro minutos para fazer seus deslocamentos diários. Os problemas de locomoção têm se agravado, no entanto, nos municípios com mais de 500 mil habitantes. O trabalho da entidade que representa a indústria mostra que o tempo médio gasto em mobilidade nas regiões aumentou 20% entre 2003 e 2010, em função, principalmente, da expansão das cidades e do aumento das distâncias.

O documento sugere que ” sob o prisma do desenvolvimento sustentado”, é melhor crescer para dentro da metrópole e não mais expandi-la. “Reciclar o território é mais inteligente do que substituí-lo”, destaca o estudo.

A análise sobre a qual os dirigentes da indústria passam a se concentrar servirá também para reorientar os investimentos do setor no país. “Os dados servirão também como fonte de teoria da qualidade das cidades”, afirma Fernandes. Segundo ele, os atrativos de um município passarão a incluir o grau de desenvolvimento de um sistema de transporte, por exemplo.

Nessa linha, o trabalho que a CNI quer levar aos debates políticos enfatiza a necessidade de privilegiar projetos voltados ao transporte público, em redes de ligação de vários modais.

Para reforçar a defesa dos investimentos em transporte coletivo, o estudo da CNI cita que o morador de uma grande cidade gasta 2,93 minutos para percorrer 1 quilômetro em transporte coletivo. Um automóvel gasta 2,67 minutos para percorrer a mesma distância. Essa diferença, de segundos revela, segundo a entidade, que o ganho do transporte individual deixou de ser significativo em uma metrópole.

Desde a década de 1940, o Brasil urbano multiplicou sua população em 14 vezes, o que significa que 85% dos habitantes do país está nas cidades. Mas desde os anos 1960, a mobilidade nas grandes cidades brasileiras tem se baseado no modo rodoviário. A partir da década de 70, todos os sistemas de bondes começaram a ser desativados, o que deu lugar à hegemonia do transporte sobre rodas.

A proposta que a CNI destaca em sua pesquisa é a utilização do transporte coletivo de alto rendimento para os deslocamentos rotineiros. A integração de diversos modais, inclusive as viagens a pé é, segundo a entidade, uma forma de garantir a expansão econômica.

Dessa forma, a entidade que representa a indústria considera que o automóvel, que ganhou projeção “pela mágica do deslocamento imprevisível”, revela-se agora como inadequado como “meio hegemônico de transporte motorizado nas cidades”. “Na grande cidade contemporânea, os automóveis não podem mais ser protagonistas. Precisam ser coadjuvantes”, destaca o estudo.

A CNI reconhece, no entanto, que “não será simples implantar ou mesmo propor uma alternativa ao atual modelo”. Entre 2003 e 2010, o crescimento demográfico no Brasil alcançou de 13% enquanto o aumento da frota de veículos foi de 66%.

Fernandes lembra como cidades como Tóquio têm conseguido povoar o entorno de estações de trem e metrô com moradias, escritórios, shopping centers e demais estruturas necessárias para manter os habitantes próximos dos pontos de deslocamento. No Brasil do passado, por exemplo, a proximidade às estações de trem foi decisiva para a implantação de equipamentos comerciais e de serviços.

Para Fernandes, é urgente, por isso, que o país coloque na agenda de discussão política a necessidade de criar um sistema com multiplicidade de uso de modais e ampliação e facilidade de conexões. Este pode também ser um caminho, segundo a CNI, para cumprir os compromissos de sustentabilidade.

Fernandes lembra que muitas empresas têm enfrentado dificuldades na contratação de profissionais por conta da dificuldade na locomoção em determinada região. Isso acaba por prejudicar o desenvolvimento dos centros de pesquisa e a intelectualidade. “As megacidades serão o cenário concentrador da inovação nas próximas décadas”, prevê o estudo da CNI. Segundo a entidade, ao contrário do que se pregava no passado, “os ganhos econômicos da metropolização são maiores do que os da descentralização urbana”.

Com a concentração do uso do meio rodoviário, com foco no automóvel, os espaços urbanos para moradias se espalharam. A distância do local de trabalho que muitos passaram a enfrentar trouxe graves consequências a partir dos congestionamentos e falta de opções de transporte. Para o brasileiro das classes mais altas, que dirige o próprio automóvel, o tempo de deslocamento é cada vez maior e mais desconfortável. Quem pega ônibus enfrenta ainda mais problemas. Mas são as classes mais pobres que mais sofrem e que fizeram surgir o que a CNI chama de “cidade informal dos loteamentos e favelas”. São as pessoas que preferem morar mal perto do trabalho do que ter de enfrentar a angústia diária do deslocamento.


São Paulo exporta bilhete único, nova bandeira política

Por Raphael di Cunto e Sérgio Ruck Bueno | VALOR

De São Paulo e Porto Alegre

Se a distância acabou por se transformar num dos maiores impedimentos no deslocamento de quem mora distante das regiões centrais das cidades, o bilhete único surgiu como uma solução e, para alguns, a única maneira de sustentar o custo do transporte até o local de trabalho ou escola.

O bilhete único foi criado em maio de 2004 pela ex-prefeita Marta Suplicy (PT). Os sistema permite que, com apenas uma tarifa, de R$ 3,00, o usuário pegue quatro ônibus em um período de três horas, ou três ônibus mais uma integração com metrô ou trem pela metade do preço (R$ 1,50), também num período de três horas. Isso permitiu que os moradores da periferia, mais carentes, gastassem menos para ir ao emprego, concentrado no centro expandido da cidade.

Apesar de elogiado pelos candidatos, o bilhete único é criticado pelo ex-presidente da Dersa e consultor na área de transportes Luiz Célio Bottura. Para ele, o bilhete único não é uma política de transporte, “é política social”, e acaba por sobrecarregar o sistema. “Se as pessoas tivessem que pagar o transporte, pensariam onde vão morar. Como não pagam, não pensam nisso”, afirma.

Entre os candidatos a prefeito em São Paulo, no entanto, todos elogiam o bilhete único, que tem forte apelo e aceitação popular. Celso Russomano (PRB) diz que já ouviu reclamações de que o período de integração deveria ser de mais de duas horas, mas ainda não fez estudos para saber o impacto disso. Ele promete, porém, permitir a recarga do bilhete dentro do próprio ônibus, com os cobradores – hoje, a recarga só é feita nas estações.

Gabriel Chalita (PMDB) diz que fará estudos técnicos e negociará com empresas de ônibus, CPTM e Metrô (estas duas sob responsabilidade estadual) para expandir o tempo de uso e formas de integração com outras cidades da região metropolitana, “já que parte dos usuários do sistema é composta por trabalhadores de outras cidades que precisam vir diariamente para São Paulo”.

Há poucos dias, o ex-ministro da Educação Fernando Haddad, candidato do PT, prometeu criar um “bilhete único mensal”, que permitiria aos usuários de transporte público utilizar de forma ilimitada os ônibus da capital por um mês com uma tarifa de R$ 150,00. Nesse sistema, haveria também versões mensais e semanais do bilhete único. Metrô e trem, geridos pelo governo do Estado, teriam tarifa diferenciada. Haddad defende, no entanto, a integração com os ônibus de prefeituras da região metropolitana e promete associar o cartão a futura rede de bicicletas públicas.

José Serra (PSDB) lembra que foi em sua gestão como prefeito que o bilhete único foi integrado ao metrô e CPTM, o que “permitiu enorme economia para quem usa transporte público na cidade”. Ele destaca ainda o aumento no período de integração, feito por seu aliado, o prefeito Gilberto Kassab (PSD), em 2008. “O mais importante agora é investirmos na integração entre os diferentes modais (ônibus, metrô e trens), criando mais oportunidades da integração tarifária”, diz.

Soninha Francine (PPS) diz que fará a integração com outros modais. Ele prevê a construção de garagens para automóveis nas estações de metrô fora do centro da cidade e a associação do bilhete a uma rede de bicicletas compartilhadas. “O Haddad falou primeiro, mas eu já tinha pensado nisso”, brinca. Ela afirma que também quer integrar o sistema de transporte com outras cidades da região metropolitana, mas que a “prefeitura, sozinha, não tem poder sobre isso”.

Porto Alegre implantou o sistema de bilhetagem eletrônica em 2008 e desde julho do ano passado adota o modelo de integração com segunda passagem gratuita. O benefício vale para usuários do chamado cartão “Tri”, inclusive os que usam passe escolar e vale-transporte, que tomam o segundo ônibus até 30 minutos depois de desembarcar do primeiro.

É um dos trunfos do prefeito José Fortunati (PDT), que concorre à reeleição. Segundo ele, no primeiro ano de integração mais de 30 milhões de passagens, que custam R$ 2,85 cada, deixaram de ser cobradas. De 2008 para 2009, o volume de passageiros na cidade caiu ligeiramente, mas em 2011 voltou a subir.

A bilhetagem dos ônibus urbanos também funciona integrada ao sistema de cartões da Trensurb, estatal federal que opera o trem que liga Porto Alegre a cinco municípios da região metropolitana, com desconto de 10% em cada uma das tarifas.

A candidata do PCdoB, Manuela D’Ávila, diz que o sistema de integração precisa ser “repensado”. Para ela, um dos problemas é a perda da passagem gratuita, quando o passageiro demora mais de meia hora para pegar o segundo coletivo. Para o candidato do PT, Adão Villaverde, a solução é aumentar o limite de 30 minutos entre uma viagem e outra para garantir a isenção da segunda tarifa. Ele também propõe uma “política concertada” com outras prefeituras num sistema de integração entre os sistemas de transporte dos municípios da região metropolitana.

O candidato do PSOL, Roberto Robaina, considera “adequado” o sistema atual. “Alguma coisa foi feita”, diz. Já os candidatos do PSDB, Wambert Di Lorenzo, e do PSTU, Érico Corrêa, revelam uma afinidade incomum e propõem um modelo que permita o pagamento de uma única passagem por dia, sem limite de utilização.

Esta é a quarta reportagem do jornal VALOR da série “Mobilidade nas Eleições”

14/08/2012 - 14:12h Haddad resgata motes de Marta e promete obras de R$ 20 bilhões

Alexandre Moreira/Folhapress / Alexandre Moreira/Folhapress
Haddad, em evento de sua candidatura: mote da campanha será o de desenvolver áreas da periferia da capital, com incentivos fiscais a empresários


Por Cristiane Agostine | Valor

De São Paulo

Anunciado como uma celebridade, o candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, subiu ao palco de uma universidade e, com o microfone em mãos, começou a explicar quais são os problemas da capital paulista. “Nossa cidade é rádio-concêntrica. Toda as radiais levam para os mesmos lugares. Não há infraestrutura que suporte essa sobrecarga de mobilidade, que é fruto da irracionalidade do desenvolvimento”, disse. “O modelo que desenvolvemos é rodoviarista e tinha como pressuposto o automóvel”, comentou, logo nos primeiros minutos da apresentação. Na plateia, algumas pessoas se mexeram nas poltronas, com um olhar de interrogação. Atrás de Haddad, um enorme “H” vermelho é projetado. “O fator-chave de uma metrópole é o tempo e ele tem que ser liberado. É sinônimo de liberar as energias criativas de cada cidadão”, completou, dizendo que é com “essa variável” que trabalhará, se eleito.

Nas duas horas seguintes, Haddad falou sem parar sobre seu plano de governo, lançado oficialmente ontem. Na plateia, a grande ausência foi a do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, patrocinador da candidatura do petista. A presença do ex-presidente, que ainda se recupera de tratamento contra um câncer na laringe, era tida como certa pelo comando da campanha. O lançamento das propostas chegou a ser adiado para contar com Lula. O candidato, no entanto, minimizou a ausência.

Em meio a lembranças da gestão da ex-prefeita petista Marta Suplicy (2001-2004), Haddad disse que “pela primeira vez” um candidato “rompia o paradigma de repensar a forma de organizar a cidade” e anunciou o mote de sua campanha: o “arco do futuro”. A proposta, explicou, é de desenvolver a periferia a partir de investimentos no entorno de grandes vias da capital. No eixo central está um pacote de obras de infraestrutura no valor de R$ 20 bilhões para os próximos quatro anos. O nome do programa foi dado pelo marqueteiro da campanha, João Santana, e o arco é formado pela avenida Cupecê, as marginais dos rios Pinheiros e Tietê e a avenida Jacu Pêssego. “Quero transformar a Cupecê e a Jacu Pêssego em uma nova [avenida] Faria Lima”, disse.

O petista prometeu reduzir a alíquota do ISS de 5% para 2% para empresas que forem para as áreas mais distantes do centro. O candidato disse também que poderá zerar o IPTU para essas empresas e isentar a outorga onerosa do direito de construir nessas regiões. Segundo Haddad, essas medidas ajudariam a levar empresas para a periferia e gerar mais empregos.

Haddad resgatou bandeiras da gestão Marta, como o Bilhete Único, os corredores de ônibus e os Centros Educacionais Unificados (CEUs). O petista reciclou também uma das propostas apresentadas por Marta em 2008, de dar internet gratuita para todos os bairros.

O ex-ministro afirmou que fará 20 novos CEUs e criará 150 mil vagas em creches. Haddad disse que resgatará o programa de transporte escolar “Vai e Volta”, outra marca da gestão Marta. O candidato do PT prometeu ensino integral a 100 mil alunos, em quatro anos.

Em transportes, o candidato do PT disse que o Bilhete Único terá três versões: diário, semanal e diário. O usuário poderá realizar quantas viagens quiser em um período de tempo que será determinado pela prefeitura.

O petista prometeu construir 150 quilômetros de corredores de ônibus, o dobro do que foi construído por Marta. Haddad disse que fará também 150 quilômetros de faixas exclusivas para ônibus. Haddad afirmou que fará repasses ao Metrô, mas disse que o aporte só será feito se a prefeitura puder intervir nas metas do governo estadual e na escolha das estações que serão entregues.

O petista disse que pretende firmar convênios com o governo estadual, comandado por Geraldo Alckmin (PSDB), e ironizou os tucanos ao dizer que eles não gostam de fazer parcerias com o PT. “Mas eu não tenho preconceito com parceria”, disse.

Ao defender parcerias com o governo federal, o petista afirmou que levará a Universidade Federal de São Paulo para a Itaquera, na zona leste, e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, para a zona norte.

Na saúde, área com a pior avaliação segundo pesquisas de opinião, Haddad disse que fará três hospitais na periferia, em Parelheiros (zona sul), Vila Matilde (zona leste) e Brasilândia (zona oeste) e que entregará em quatro anos 1 mil leitos. Em meio a críticas à gestão de Gilberto Kassab (PSD), o petista lembrou que o prefeito prometeu na campanha de 2008 construir os hospitais, mas não deverá entregá-los até o fim do ano.

Apesar das críticas a Kassab, o candidato afirmou que não vai abandonar nenhuma licitação feita pela atual gestão.

O petista defendeu a construção de moradias na região central, para diferentes classes sociais. Disse que construirá 55 mil unidades habitacionais na capital e que atenderá 70 mil famílias com obras de urbanização de favelas.

Em tom professoral, Haddad expôs suas propostas a cerca de 500 pessoas. Depois de uma hora de apresentação, diante do silêncio da plateia, pediu aplausos. O nome de Lula e da presidente Dilma Rousseff foram pouco citados.

Em diversos momentos, Haddad fez propostas mais afeitas a um candidato a governador. O petista disse que sua proposta de desenvolver a periferia em torno de grandes vias da capital beneficiaria as cidades do ABCD paulista, além de Osasco e Guarulhos, na região metropolitana. Ao falar sobre o aporte de recursos ao metrô, Haddad apresentou propostas de extensão de linhas do metrô e da CPTM e de entrega de estações, apesar de a gestão desse sistema ser da competência do governo estadual. Questionado, disse que o prefeito tem que participar da definição do cronograma do metrô.

06/06/2012 - 07:35h Sobre caciques e partidos

O papel das grandes lideranças nacionais de PT e PSDB na eleição paulistana revelam estilos opostos: só um é caciquista

Por Cláudio Gonçalves Couto – VALOR

A birra de Marta Suplicy, ausentando-se do ato de lançamento da candidatura de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo, enseja uma boa oportunidade para discutir o papel das lideranças individuais nos partidos políticos. Ela serve para mostrar que o caciquismo é um fenômeno mais complexo do que sugerem análises apressadas sobre a influência de certas lideranças na definição dos rumos das organizações partidárias. Quanto a isto, um aspecto ganha relevo: enquanto alguns líderes criam sucessores, atuando na produção ou reforço de novas lideranças (crucial para a sobrevivência organizacional), outros embotam essa criação, contribuindo para a esclerose organizacional.

O problema é distinguir entre caciquismo – um tipo de liderança que subjuga a organização à vontade pessoal inquestionável do líder – e influência. Uma liderança influente no partido logra convencer os correligionários, sem contudo impor-lhes decisões inquestionáveis. Assim, se a persuasão é requisito para a obtenção de anuência, não há caciquismo. Trata-se de diferença de grau, que ultrapassados certos limiares se converte em distinção de natureza.

Há situações nas quais se migra, ao longo do tempo, de um estado para outro. Assim, caciques podem converter-se apenas em lideranças influentes, seja por que se debilitam ou ajustam a conduta, seja porque um reforço organizacional do partido lhes reduz o espaço para o arbítrio. Inversamente, líderes influentes podem, em certas conjunturas, tornar-se caciques; algo mais provável em organizações partidárias frouxas ou enfraquecidas – o que não é a mesma coisa.

Caciques são os que se colocam acima do partido

Para existir, o cacique necessita do apoio de um subconjunto organizacional dentro do partido: sua entourage, uma facção majoritária ou posições-chave na burocracia. Assim, enquanto o partido como um todo é fraco organizacionalmente, esse subgrupo é relativamente forte, impondo a vontade de seu líder. Contudo, há uma condição principal, decisiva distinguir o caciquismo da influência: o cacique subordina os interesses da organização aos seus próprios; é o projeto pessoal do cacique que sempre prevalece sobre o do partido – e mesmo sobre o de sua claque.

Há quem veja no patrocínio de Lula à candidatura de Fernando Haddad evidência de caciquismo, demonstrando que o PT nada mais seria do que um partido sem vontade própria, a reboque do grande líder. Será mesmo? Isto não se coaduna com características notórias do partido: organização forte, disputa intensa entre facções, espaço para contestação seguido de alinhamento a decisões tomadas pelo conjunto. Na realidade, Lula é muitíssimo influente, mas não um cacique no sentido próprio do termo. E isto não só por méritos próprios dele, mas pelas características do partido que construiu – que restringe o caciquismo.

No caso paulistano, antes mesmo de Marta desistir da candidatura, já enfrentava – além de Fernando Haddad – a oposição interna de antigos aliados, agora pré-candidatos, os deputados Jilmar Tatto e Carlos Zarattini. Candidata duas vezes derrotada à prefeitura, a senadora já não desfrutava da condição de escolha óbvia da agremiação – como foi em 2008. A imposição de seu nome – a despeito de outras postulações, de um clamor interno por renovação e da grande rejeição aferida pelas pesquisas ¬- é que seria caciquismo. Em tal contexto, o apoio de Lula à renovação operou mais como contrapeso à tentativa de caciquismo em nível local do que se mostrou ele próprio uma imposição inconteste.

Compare-se com a autoimposição de José Serra no PSDB, contra Aécio Neves. Verificou-se no ninho tucano uma estratégia de sufocamento da disputa interna pela interminável postergação do embate, até que o ex-governador mineiro jogou a toalha, considerando que não teria tempo hábil para se viabilizar. A solução pelo alto, dessa ardilosa vitória pelo cansaço, repetiu-se agora na escolha da candidatura tucana à prefeitura paulistana. Após meses alegando que não se candidataria, o que ensejou uma animada disputa entre quatro pré-candidatos (sugerindo renovação partidária) o ex-governador mudou de ideia, inscreveu-se na prévia após o prazo regulamentar, provocou a desistência de dois postulantes e prevaleceu. Serra obteve na prévia apenas pouco mais de 50% dos votos, num embate contra postulantes muito menos expressivos – tanto no que concerne à envergadura política quanto à história. Isto mostra o tamanho do desagrado que sua soberba causou na base tucana.

Fosse o PSDB dotado de maior densidade organizacional, os dois episódios da imposição serrista deflagrariam uma crise interna – como a que deve se produzir no PT de Recife neste ano. O caráter elitizado da agremiação e a baixa intensidade da vida partidária (sobretudo se comparada à do PT) permitem que as manobras dos caciques e seus embates permaneçam basicamente como um problema deles mesmos. A renovação, neste caso, ocorre apenas nas franjas da disputa política (como nas eleições de deputado estadual e vereador), pelo ocaso das lideranças ou por algum acidente; raramente por uma estratégia bem definida. Em São Paulo, a oportunidade da renovação foi perdida; o risco da esclerose cresceu.

É nisto que as atuações de Lula e Serra se distinguem como influência, no primeiro caso, e caciquismo, no segundo. Enquanto o ex-presidente interveio no processo de modo a promover uma renovação de lideranças e atuando segundo a lógica da organização partidária, o ex-governador apenas fez prevalecer seu projeto pessoal de poder, às expensas do partido, que tornou seu refém. Isto permanece, a despeito de quem venha ganhar ou perder as eleições de outubro.

Algo que confunde a percepção de papéis tão distintos são os estilos muito diversos de um e de outro. Enquanto Lula é um líder carismático e de estilo esfuziante, Serra é um líder gerencial e de estilo soturno. Intuitivamente, o senso comum identifica o primeiro com o improviso e o personalismo, e o segundo com a racionalidade e a institucionalidade. Uma análise mais cuidadosa revela exatamente o oposto.

Cláudio Gonçalves Couto é cientista político, professor da FGV-SP e colunista convidado do “Valor”. Rosângela Bittar volta a escrever na segunda quinzena de junho

E-mail: claudio.couto@fgv.br

19/03/2012 - 09:34h Petistas devem apoiar aliança com PSB pela reeleição de Lacerda em BH

Por Marcos de Moura e Souza | VALOR

De Belo Horizonte

O PT deverá apoiar a reeleição do atual prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB). Em votação interna ocorrida ontem na cidade, 60% dos filiados optaram pela aliança, segundo apuração parcial. Os demais votaram nas chapas que defendiam uma candidatura própria. Se confirmada, a decisão pode facilitar o diálogo do PT com o PSB em outras cidades pelo país, como São Paulo e Recife.

Pelas regras do PT, o resultado de ontem ainda tem de passar pelo crivo de uma assembleia de delegados que votarão no próximo domingo. Mas para o vice-presidente do PT de Minas, o deputado estadual Miguel Corrêa Júnior, o apoio a Lacerda está praticamente decidido.

O partido apoiou Lacerda em 2008 e elegeu o vice-prefeito, Roberto Carvalho. Mas o próprio Carvalho vem liderando queixas em relação ao governo e, com o apoio de parte da base, levantou a bandeira da candidatura própria. Ele se apresenta como potencial candidato.

Lideranças petistas de peso nacional, no entanto, têm defendido que o PT continue apoiando Lacerda e continue tendo a vice-prefeitura numa eventual reeleição. O ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, o presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia, dois ex-ministros do governo Lula, Luis Dulci e Patrus Ananias estão entre os que pregam a manutenção da aliança do PSB em Belo Horizonte. A direção do partido em Minas também é a favor da chapa com Lacerda.

Favorito atualmente à reeleição, Lacerda quer manter a peculiar aliança que envolve o PT e o PSDB. Os dois partidos participam do governo com secretarias e cargos em autarquias – no caso do PT, também com a vice-prefeitura. Entre os argumentos dos petistas que não querem mais apoiar Lacerda é que não é possível estar ao lado dos tucanos na prefeitura e na oposição a eles no governo estadual e federal. Mas em outras cidades de Minas, disse um dos líderes petistas no Estado, “há muitas possibilidades de chapas com o PSDB, a maioria delas com o PT com um candidato a prefeito e o PSDB como vice”.

Na disputa interna de ontem, eram ao todo 16 chapas. Metade defendia Lacerda, metade candidatura própria. O presidente do PT estadual, o deputado federal Reginaldo Lopes, disse na sexta que esperava uma vitória das chapas a favor da aliança, com cerca de 65% dos votos. Corrêa Júnior considera que com o resultado de ontem é muito improvável uma virada no jogo até domingo.

Na semana passada, Mário Assad Júnior, secretário-geral do PSB em Minas, disse que caso o PT decidisse pela candidatura própria em Belo Horizonte as conversas com o PSB em outras cidades poderiam ficar comprometidas.

Marta descarta abrir mão de cadeira

Por Fernanda Pires | Para o Valor, de Santos

A senadora Marta Suplicy (PT-SP) rechaçou a possibilidade de deixar o Senado para abrir espaço para o suplente Antonio Carlos Rodrigues, um dos principais dirigentes do PR em São Paulo. A estratégia que levaria a senadora ao ministério, seria uma forma de atrair o PR à candidatura do petista Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo, que anda desidratada.

O ex-ministro da Educação tem tido dificuldade para fechar alianças com partidos menores depois que o ex-governador José Serra (PSDB) acenou com a intenção de concorrer à sucessão de Gilberto Kassab (PSD). Agremiações que nas últimas eleições na capital paulista apoiaram o PT agora flertam com os tucanos ou ameaçam lançar candidatura própria. São os casos do próprio PR, do PSB, do PCdoB, e do PDT.

“Não tenho nenhuma intenção de sair do Senado, abrir vaga para ninguém. Estou trabalhando em projetos muito importantes”, disse Marta na sexta, em Santos (SP). Ela esteve na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) subseção de Santos para o encontro “Mais Mulheres: uma responsabilidade de toda a sociedade”. Dia 8 de março é celebrado o dia internacional da mulher.

“Sou relatora do [projeto] do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço. Considero que será o projeto de maior envergadura que eu terei oportunidade naquela Casa”, disse Marta, apresentando o que seria uma das principais justificativas para permanecer no Senado. O texto do projeto admite que os trabalhadores possam sacar todos os anos o que receberem de lucro do FGTS, para aumentar a remuneração.

Marta – prefeita de São Paulo entre 2001 e 2004 – foi preterida da atual disputa pela Prefeitura de São Paulo pelo ex-presidente Lula, que escolheu Haddad para concorrer à vaga. Desde então, a senadora tem se mantido longe da pré-campanha de Haddad, que foi chefe de gabinete do ex-secretário de Finanças de sua gestão, João Sayad.

Questionada se vai se engajar na campanha de Haddad, a senadora disse que sim. “Na hora em que achar que vai fazer sentido e eu puder contribuir de fato”, afirmou.

Durante o evento, ela destacou o que considera os dois paradigmas da luta da mulher brasileira pela igualdade com os homens. O direito ao voto, que completa 80 anos em 2012, e a eleição de Dilma Rousseff, em 2010, a primeira brasileira eleita presidente da República. De acordo com Marta, a chegada de Dilma ao Palácio do Planalto pavimentou um caminho sem volta. O governo de Dilma tem dez ministras; o de Lula teve no máximo cinco; e o de Fernando Henrique Cardoso, três.

15/02/2012 - 09:55h O que seu mestre mandar

Por Rosângela Bittar – VALOR

O PT tem, hoje, uma só ideologia, uma só direção e uma só concepção política: é o que Lula mandar. O ex-presidente é o senhor do voto, da força de arrecadação, da linguagem e do discurso das campanhas e das vitórias. Portanto, ele manda e o PT obedece. Mesmo que às vezes um ou outra reajam a imposições que os prejudicam. Depois de um tempo, dedicado a convencê-lo do contrário, encaminham-se dóceis para a aceitação.

Retrato esse que, apesar da grande nitidez no momento, não impede que cabeças mais preparadas e dadas à formulação política, no PT, continuem raciocinando com autonomia. O que lhes permite ver risco no exagero e acreditar que se torna imprescindível uma reação mais efetiva por parte de políticos petistas que porventura contem com o respeito do ex-presidente. Esses amigos tentariam convencê-lo a não radicalizar tanto o pragmatismo que, na avaliação de Lula, foi o que passou a dar vitórias eleitorais sucessivas a ele e ao partido.

A política de alianças é o cerne dessa questão, nem está mais na berlinda, chegou ao PT para ficar e os demais partidos, inclusive adversários, que a praticavam antes de Lula, tentam retomar o modelo para reconquistar o horizonte da vitória.

Pragmatismo radical implica riscos

O que preocupa boa parte do PT, no momento, mesmo aprovando as alianças e precisando de Lula mais que tudo, é o óbvio: a formação de aliança com o PSD de Gilberto Kassab para melhorar as condições eleitorais do candidato Fernando Haddad em São Paulo.

Lula decidiu que o melhor para o PT seria embarcar em um amplo processo de renovação de imagem das candidaturas petistas, rifando os desgastados e jogando biografias zeradas à arena. Seu projeto-piloto foi, em gesto ousado que lhe é peculiar, a presidência da República, e deu certo, com Dilma Rousseff. Decidiu então promover nomes menos batidos em todo o Brasil, a começar por São Paulo, em um plano de tomar as rédeas da política estadual e municipal, há anos em mãos do PSDB. Mas o plano só funcionaria imobilizando adversários possíveis já no primeiro turno.

Ofereceu Haddad às eleições municipais e tem no forno o projeto estadual, com o prefeito Luiz Marinho. Aluizio Mercadante, natural candidato a comandar o governo paulista, não sofreu rasteira como a aplicada a Marta Suplicy, ainda, e foi engajado oficialmente no projeto de eleição do prefeito petista recebendo o instrumento fabuloso do Ministério da Educação, de onde saiu o candidato a prefeito e seu portfólio de campanha, que não pode ser conspurcado por um sucessor mais distraído.

Marta Suplicy esperneou contra a invenção de Lula, vende caro seu apoio ao candidato, e agora manifesta-se refratária às negociações entre o PT e o PSD do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, para a composição da chapa que disputará a prefeitura. Ou seja, não engoliu o projeto Lula em nenhum de seus aspectos, mas sabe que o partido precisa dele e se ainda não se rendeu integralmente é porque ainda tem tempo.

Não é só dela, ou de seu agora reduzido grupo, porém, que partem os alertas sobre o mal que o comportamento do ex-presidente pode fazer ao partido, a médio prazo. “Lula está abusando do seu prestígio. Metade do PT já acha que, em vez de solução, Lula está criando problemas desnecessários”. É que o ex-presidente, autosuficiente, namora o risco.

Pelo menos três fatos consolidaram em Lula o sentimento da onipotência. Ter vencido a reeleição em plena crise do mensalão foi o primeiro deles; a vitória com Dilma, que nunca havia disputado uma eleição, foi outro feito que o maravilhou; e o terceiro foi ter saído do governo com cem porcento de aprovação popular. “Ele fala o que quer e o PT faz o que ele quer”.

O exagero, ou transposição de uma linha imaginária de limite, teria sido, primeiro, a escolha de Haddad, que o PT não reconhece como sendo do ramo. Mas aceitou como havia acatado a decisão da escolha de Dilma. Agora, a corda da política de alianças esticou-se ao máximo com o convite à união com Gilberto Kassab.

O risco do método Lula, da ocasião, tem um nome, Afif Domingos. Para os protagonistas dessas reflexões no interior do PT, o partido está de dedos cruzados: “Deus queira que o candidato seja o Henrique Meirelles, porque o PT poderá ter um discurso. O Meirelles não é do PT mas trabalhou oito anos no governo Lula e foi muito bem. E se o PSD indicar o Afif? Vai ser uma tragédia”.

Na hipótese de formalização dessa aliança o PSD indicaria o vice do PT, e o partido perderia todo o combativo discurso de campanha contra a administração da cidade, de que tanto Marta quanto Mercadante já usaram e abusaram em suas campanhas.

A tarefa principal do PT agora é direcionar as conversas, pressionar, levar o ex-presidente a abraçar a causa Meirelles. O PT não aceitará Afif ou qualquer outro nome identificado mais com o PSDB. Pelo menos até o momento em que Lula empurrar goela abaixo do partido aquilo que preferir. É ele quem segue mandando.

Não por acaso foi o político hoje mais próximo do ex-presidente, o prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho (PT), que serviu de porta-voz autorizado de Lula na reunião de aniversário de 32 anos do PT, em Brasília. Marinho considerou “muito positiva” uma eventual composição PT-PSD na disputa pela sucessão municipal em São Paulo.

Ouvidos moucos à divergência, Marinho carimbou o projeto: “Creio que o prefeito Kassab pode colaborar muito para o resultado eleitoral”. E sacou da justificativa para a aliança dos até ontem contrários com a cara de pau com que o partido abordou as suas privatizações: “A oposição feita pelo PT à gestão do prefeito paulistano Gilberto Kassab se deu enquanto ele mantinha ligações com o PSDB. Agora, o convencimento da militância sobre a necessidade dessa aproximação se dará por meio de “discussões” fortalecidas por um “alinhamento de propostas” para a cidade”.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

E-mail rosangela.bittar@valor.com.br

11/02/2012 - 10:39h Kassab ignora ataques de Marta e vai à festa do PT


Apesar de o PSD não ser oficialmente da base de Dilma, prefeito sobe ao palco de evento, é vaiado por militância e aplaudido por cúpula

11 de fevereiro de 2012

BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

Um dia após a senadora Marta Suplicy ter dito que teme acabar de “mãos dadas” com Gilberto Kassab numa eventual aliança entre seus partidos na eleição deste ano em São Paulo, o prefeito da capital, fundador do PSD, elogiou a petista e fez questão de comparecer à festa em comemoração aos 32 anos do PT, em Brasília. Ao ser apresentado oficialmente, ele chegou a ser vaiado pela militância, mas ganhou aplausos dos líderes que estavam a seu lado no palco principal.

A presença de Kassab foi um gesto público do prefeito para deixar às claras que negocia com o PT uma aliança em torno do apoio ao ex-ministro Fernando Haddad na eleição. O fundador e principal líder do PSD também elogiou Marta, apesar do ataque desferido por ela anteontem.

Kassab afirmou ter “muito respeito por ela”. Disse ainda que uma das principais qualidades da senadora é a sinceridade. “A preocupação dela é a de quem já exteriorizou em alguns momentos discordância com a administração, foi em alguns momentos nossa adversária. E eu vejo com muita naturalidade. Eu não acredito que a Marta nos tenha como inimigos. Ela nos teve como adversários”, afirmou o prefeito, para quem subir no palanque com petistas seria algo natural em uma aliança. Marta não compareceu à festa do PT.

Haddad também participou da comemoração e minimizou a visita do prefeito ao afirmar apenas que ele era “bem-vindo” à festa. Segundo o PT, Kassab compareceu à cerimônia na condição de “presidente de um partido aliado ao governo Dilma”. Porém o PSD não integra oficialmente a base de apoio ao Planalto, ainda que tenha votado com os governista no ano passado.

A afirmação de Marta se referia ao fato de ela ainda não ter entrado na campanha de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo. A senadora abriu mão da disputa pelo cargo a pedido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Eu tenho o direito de não mergulhar de cabeça e aguardar a decisão do meu partido sobre a aliança. Preciso ser muito cuidadosa, porque senão corro o risco de acordar num palanque de mãos dadas com Kassab”, disse ela anteontem, referindo-se sobre a possível chapa conjunta entre PT e PSD.

Kassab mantém o discurso de que a prioridade do PSD é esgotar todas as possibilidades antes de abrir mão da candidatura própria. “Aliás, temos um candidato muito bem preparado, o vice-governador Guilherme Afif Domingos”, disse ele ontem.

Questionado sobre as críticas que recebeu de integrantes de seu ex-partido, o DEM, de que ele esvaziou a sigla após a criação do PSD, Kassab fez piada. “Você está me dizendo que lá no DEM os dirigentes estavam dizendo que acabou o partido? Eu lamento também”, afirmou o prefeito, sorrindo.

Na espera. Apesar de ter comparecido à festa do PT, o prefeito ainda aguarda um posicionamento dos tucanos paulistas, aliados dele na administração da capital, quanto à possibilidade de repetirem a união vitoriosa em 2004, quando José Serra derrotou Marta Suplicy no segundo turno. Kassab era o vice de Serra.

O PSDB não cogita abrir mão da cabeça da chapa. De seu lado, no entanto, o PSD de Kassab avalia que os tucanos não têm um nome com peso eleitoral para concorrer com chances de vitória à Prefeitura de São Paulo. As prévias do PSDB para a escolha desse nome estão marcadas para o mês que vem. / ARTUR RODRIGUES, EUGÊNIA LOPES e RICARDO BRITO

02/02/2012 - 09:40h Marta mantém cargo na mesa do Senado

Por Raquel Ulhôa | VALOR

De Brasília

Após ter sua permanência na primeira vice-presidência do Senado – até o fim do mandato da mesa diretora da Casa, em fevereiro de 2013 – aceita pela bancada do PT na Casa, em tensa reunião, a senadora Marta Suplicy (SP) afirmou que participará da campanha do ex-ministro Fernando Haddad (PT) à Prefeitura de São Paulo. Ela considerou “prematura” a cobrança por seu engajamento agora, já que a campanha não começou.

“Nem tem candidatos ainda. Só Haddad e Chalita [Gabriel Chalita, do PMDB]. É uma cobrança prematura [por sua participação agora]“, disse. “Quero o PT na Prefeitura de São Paulo. Vou fazer o que for preciso. Quando minha presença fizer a diferença, estarei lá… Sempre fui soldado do partido”, afirmou.

O presidente nacional do PT, Rui Falcão, participou da reunião da bancada, na qual Walter Pinheiro (BA) foi escolhido por unanimidade o novo líder, em substituição de Humberto Costa (PE). Wellington Dias (PI), que também postulava, abriu mão. Prevaleceu sua intenção de participar ativamente das eleições municipais, para fortalecer sua candidatura a governador, em 2014.

A permanência de Marta na vice foi facilitada pelo anúncio do senador José Pimentel (CE) de que não cobraria o cumprimento do acordo de revezamento feito há um ano. Evitando o confronto, Pimentel fica com crédito e espera ser mantido pela presidente Dilma Rousseff na liderança do governo no Congresso.

A ideia de Costa era restringir a reunião de ontem à troca do líder. No entanto, Marta insistiu no assunto. Disse que sua escolha para a vice teria resultado de uma decisão do Palácio do Planalto e não reconheceu o acordo. Os petistas reagiram. Um dos mais contundentes foi Tião Viana (AC), que elogiou o desprendimento de Marta, ao abrir mão da candidatura à Prefeitura de São Paulo, mas defendeu o cumprimento do acordo. O anúncio encerrou as contestações a Marta.

Durante a reunião, a conversa entre os senadores foi dura. Mas, para a imprensa, a palavra de ordem era unidade partidária. A avaliação das lideranças é que o PT tem que mostrar coesão para se aproximar dos partidos aliados e buscar maior afinação com o PMDB, fortalecendo a base de sustentação da presidente Dilma Rousseff.

Em fevereiro de 2011, Marta e Pimentel disputavam a primeira vice-presidência. Para evitar uma eleição na bancada, foi feito um acordo de rodízio, começando pela senadora. O então presidente do PT, José Eduardo Dutra, deu aval.

Pelo entendimento, também haveria revezamento nas comissões de Assuntos Econômicos (CAE) e na de Direitos Humanos (CDH), comandadas pelo PT. Delcídio Amaral (MS), que presidiu a CAE em 2011, seria substituído por Eduardo Suplicy (SP) no segundo e último ano do mandato. Na CDH, Paulo Paim (RS) seria substituído por Ana Rita (ES). Agora, tudo fica como está por mais um ano, até o fim dos mandatos.

Após ser preterida na escolha do candidato do PT a prefeito de São Paulo, Marta decidiu não renunciar.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, responsável pela escolha da candidatura de Haddad, e petistas de São Paulo temiam que Marta não participasse da campanha eleitoral, prejudicando a candidatura de Haddad. O ex-presidente chamou Pimentel e Costa para uma reunião em São Paulo, na segunda-feira. O encontro não foi realizado, por questões de saúde de Lula. Mas a posição do ex-presidente a favor da permanência de Marta na vice era clara.

18/11/2011 - 11:39h Marta anuncia apoio a Haddad e diz que estilo de “ir na jugular” a fez desistir das prévias

Marta Suplicy: senadora afirma que se engajará na campanha de Haddad e tentará resgatar marcas de sua gestão


Por Raymundo Costa | VALOR

De Brasília

Após conversar durante uma hora e meia com o ministro Fernando Haddad (Educação), em Brasília, a senadora Marta Suplicy anunciou ontem que vai apoiar e se engajar na campanha do candidato escolhido pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para disputar a Prefeitura de São Paulo, nas eleições municipais do próximo ano.

Marta desistiu porque Haddad é o nome preferido de Lula. Ela não assegura que venceria a prévia contra a dupla Haddad-Lula. “É uma interrogação”, diz. Mas de uma coisa ela se diz absolutamente convencida: a disputa “estralhaçaria” o PT.

Ela defende o instituto das prévias, mas reconhece que a disputa, desta vez, seria diferente da que foi obrigada a disputar em 1998 para sair candidata ao governo do Estado, quando teve como adversário um companheiro, Renato Simões, minoritário no partido. Serviu para ela conhecer o Estado e a militância.

“Eu não sou uma pessoa que faz o debate numa “nice”. Eu vou na jugular”, diz Marta, para explicar sua desistência. “Pra que que eu ia fazer um trabalho para os adversários”? Segundo a senadora, isso seria inevitável numa disputa entre ela, Haddad e os deputados federais Jilmar Tatto e Carlos Zarattini, os pré-candidatos às prévias canceladas do PT.

“Se eu ganhasse, sobraria um partido rachado, com ódio mortal dos apoiadores do Haddad; e se o Haddad ganhasse sobraria uma pessoa também bastante avariada”. A senadora afirma: “Eu não podia fazer isso com o meu partido, porque tem o ‘day after’. O que é que iria acontecer, depois, com ele ou comigo? Aí a gente acabaria com a chance de o PT ir para a prefeitura”.

Em entrevista ontem ao Valor, Marta deixou claro que a campanha de Haddad recorrerá muito ao fato de que o ministro terá mais condições de governar a cidade do que o PSD ou PSDB, por ser um aliado da presidente da República. “Outras cidades importantes, como o Rio de Janeiro, se beneficiaram enormemente com recursos federais, em várias áreas”, diz a senadora, depois de criticar o atual prefeito, Gilberto Kassab, que, segundo a senadora, não quis ou não soube como carrear dinheiro federal para São Paulo.

Na conversa com o ministro, a senadora também combinou o “resgate” das marcas do governo do PT na cidade, ou seja, do governo de Marta (2001-2005), como a retomada do conceito original dos CEUs. “Eu acho que esse legado tem que ser resgatado. Porque a gente tem que mostrar que sabe fazer, tem que mostrar que o outro finge que faz e tem que mostrar o novo”, diz.

Mostrar o que é o novo é o desafio de Haddad, segundo Marta. O dela é “como colocar essas marcas [de seu governo] em outra candidatura [de Haddad]. Mas é um desafio que eu vou me empenhar em fazer”.

Para que isso aconteça, o PT vai precisar de tempo de rádio e de televisão para contar o “passado” e apresentar o “novo” – a administração de Fernando Haddad no Ministério da Educação. Marta está convencida de que PT e PMDB farão uma aliança para a eleição, só não está segura se isso ocorrerá no primeiro ou no segundo turno.

Para a senadora, este é um assunto a ser resolvido pelo vice-presidente, Michel Temer, e o deputado federal Gabriel Chalita, que se filiou ao PMDB na expectativa de ser o candidato a prefeito da sigla, em São Paulo, em 2012. O Valor apurou com outras fontes do PT que Lula, antes de se recolher para tratamento de saúde, trabalhava no sentido de que Chalita fosse indicado candidato a vice na chapa de Haddad. Quando disputou a reeleição, em 2004, Marta dispensou o apoio do PMDB.

A senadora se recusa a falar sobre a eventualidade de compor o ministério da presidente Dilma Rousseff, na reforma prevista para 2012, mas é certo que seu nome faz parte do leque de opções da presidente.

Apesar da “frustração” que sentiu ao deixar a disputa paulistana, Marta é só elogios, quando fala de Dilma, ao modo como ela conseguiu imprimir uma marca própria ao governo e como tem lidado com as sucessivas crises no ministério. “Acho que ela conseguiu uma forma particular, muito dela, de deixar os próprios partidos perceberem quando retirar os seus ministros, e manter a sua base, sem a qual ela não aprova um projeto em quatro anos”.

Entrevista: Marta anuncia apoio a Haddad e critica gestão de Kassab

Por Raymundo Costa | Valor

BRASÍLIA – A senadora Marta Suplicy (PT-SP) virou a página. Não nega um certo sentimento de “frustração” por ter renunciado à disputa pela Prefeitura de São Paulo em favor do ministro Fernando Haddad (Educação), um noviço na política apoiado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas a ex-prefeita acredita que a manutenção de seu nome nas prévias do PT, que estavam previstas para o dia 27, “estraçalhariam” o partido. “Eu faria uma prévia na jugular. Eu não podia fazer isso com o meu partido, porque tem o ‘day after’”. E o dia seguinte seria o ódio dos partidários de Haddad, se ela vencesse as prévias, ou exatamente o contrário, caso o ministro fosse o vencedor. Marta acertou os termos de seu apoio numa conversa com Haddad, em Brasília, na noite de quarta-feira. Nesta entrevista ao portal Valor, ela fala ainda da possibilidade de aliança com o PMDB e critica acidamente o ex-prefeito José Serra (PSDB) e seu sucessor, Gilberto Kassab (PSD).

Valor – Como a sra. avalia o fato de o PT trocar uma candidata que lidera as pesquisas, em São Paulo, por um nome desconhecido?

Marta – Para mim, ter saído da disputa é página virada. No momento em que se toma uma decisão como eu tomei, o engajamento na campanha do escolhido pelo partido é total. Eu sou uma pessoa absolutamente partidária, sempre me portei assim.

Valor – A sra. vai se engajar na campanha de Fernando Haddad?

Marta – Daqui para frente é um outro momento. O Haddad é o candidato. Ontem conversou comigo e ele é o candidato. Não sobrou ninguém para candidato. [A senadora ri numa referência à “desistência” de todos os candidatos para apoiar o nome indicado por Lula]. E no momento em que eu me comprometi apoiar quem fosse o candidato do partido, ele é o meu candidato e eu vou me engajar para que ele fique mais conhecido para que nós possamos chegar na Prefeitura de São Paulo. O que me interessa agora é ver o PT de volta à prefeitura e levar minha cidade para um outro momento, longe de um governo medíocre que foi o governo Kassab. Serra-Kassab. Foi um governo muito ruim para a cidade de São Paulo.

Valor - Por quê?

Marta – Enquanto o Brasil cresceu enormemente e cidades muito menos poderosas que São Paulo tiveram um benefício muito grande por parte do governo federal,  a cidade de São Paulo, por absoluto descaso e falta de interesse do prefeito, não realizou nenhum convênio importante com o governo federal. Outras cidades importantes, como o Rio de Janeiro, se beneficiaram enormemente com recursos federais, em várias áreas.  Além disso, a dificuldade do prefeito de gastar os recursos de São Paulo também é bastante incompreensível. Por que um governo que tem a carência que tem na área de saúde, a cidade esburacada, suja e o povo de rua em um número gigantesco, tem R$ 7 bilhões aplicados no mercado financeiro, como ele tem mantido durante sua gestão? É incompreensível.  Nenhum governo com tantas carências como tem São Paulo pode deixar superávit e dinheiro parado no banco.

Valor – Por exemplo?

Marta - São Paulo tinha um projeto antigo, da minha gestão, de renda mínima. Esse projeto depois foi transformado no Bolsa Família, com ajuda federal. Só que 150 mil pessoas poderiam estar cadastradas, e a cidade de São Paulo não moveu uma palha. Tem o mesmo número da época em que eu era prefeita (2001-2005). E não é porque a cidade de São Paulo se tornou mais rica. Há uma parte da população de São Paulo extremamente miserável. Poderia estar sendo beneficiada, mas o prefeito Kassab não fez nenhum gesto para incluir o programa Brasil Sem Miséria. O (governador Geraldo) Alckmin está começando a implementar essa parceria de maneira mais forte, que também está vagarosa. A cidade de São Paulo poderia ter feito vários convênios na área da Educação, Justiça. Não houve isso. Esses oitos anos de Serra e Kassab são anos em que o Brasil teve crescimento extraordinário, comparado com a época anterior, da qual eu fui prefeita.

Valor – A sra. quer dizer que foram anos perdidos?

Marta - O que aconteceu nesses oito anos? O Brasil teve enorme crescimento, as receitas começaram a se ampliar, tanto é que o Kassab hoje trabalha com o orçamento três vezes maior do que o que eu trabalhava, R$ 37 bilhões. Desde o começo, ele não tem uma marca na cidade. E nos trabalhamos primeiro com R$ 9 bilhões – depois com R$ 13 bilhões – e deixamos marcas na educação, no transporte público – criamos o bilhete único e acabamos com as máfias – começamos a fazer os corredores de ônibus que a cidade precisava, deixamos 300 quilômetros planejado, e ele fez um quilômetro. Não é que ele fez dois, fez zero. E a desculpa que ele coloca é que tem muito carro. É evidente que tem muito carro, porque tem “boom” econômico e o brasileiro vai comprar carro. Estaria difícil o transporte? Estaria. Mas não nesta dimensão. Nós, sem um tostão, conseguimos deixar marcas na cidade. É que as pessoas esquecem. Nós tiramos o PAS da cidade (programa de Paulo Maluf). A saúde era privada. Ele tirou o SUS, São Paulo não recebia o recurso federal. Fora não receber, era privado e absolutamente corrupto. Nós levamos dois anos para conseguir trazer o SUS de volta para a cidade

Valor - Mas essas são marcas associadas à sua gestão.

Marta – Esse é o grande desafio, como é que nós vamos agora colocar essas marcas em outra candidatura. Mas é um desafio que eu vou me empenhar em fazer.

Valor – O Haddad se comprometeu com essas marcas ou foi apenas uma conversa breve?

Marta – Não, foi uma conversa longa de uma hora e meia sobre a cidade de São Paulo, o que é a experiência de governar a cidade e o que eu considero que vão ser os grandes desafios que a cidade terá de enfrentar e que ele, como candidato e depois como prefeito, vai ter que dar continuidade ou inovar. Insisti muito para ele que, primeiro, é um resgate do bem feito que foi na cidade para a população; do fingir que fez, como o que o PSDB fez com os CEUs – faz propaganda de que nós fizemos 21 e eles fizeram 25, mas esquecem de dizer que os 25 que fizeram foi terreno que nós deixamos comprados e que 21 foram feitos em quatro anos. Eles fizeram 25 em oito. E o conceito, isso é o mais grave, foi mudado. Porque o CEU não é para ser um grande escolão. O CEU é para ser uma janela de oportunidade para quem não tem nenhuma janela de oportunidade na vida, que mora numa favela onde os pais, muitas vezes, nem alfabetizados são. O CEU é isso, tem o esporte e a cultura absolutamente agregados para fazer com aquela criança uma formação holística que ela não teria oportunidade de ter em outro lugar; de aprender a tocar um violino até aprender a tocar numa big-band, hidroginástica para mãe e avó; ioga e teatro do primeiro mundo. Isso era o CEU. Isso tem de ser desmistificado. Porque essa é a diferença nossa com o PSDB. Então, eu coloquei. Eu acho que esse legado tem que ser resgatado. Agora, ninguém ganha a eleição com o passado.

Valor – Mas ajuda?

Marta – Ajuda, porque a gente tem que mostrar que sabe fazer, tem que mostrar que o outro finge que faz e tem que mostrar o novo, e esse é o grande desafio para você. Agora, para o nosso partido é pensar o novo, porque a continuidade você pode facilmente assumir esse compromisso, com todo o nosso empenho.

Valor – A sra. concorda que é preciso uma cara nova na eleição?

Marta – Eu não concordo nem discordo. Para mim, são águas passadas. Acabou. Eu queria ter sido [candidata], achei que teria o reconhecimento da população, que está muito saudosa do governo. Eu ando na rua e vejo, eu pego o avião e vejo. Isso é uma realidade, não tem como negar. Agora, não foi assim? Não foi assim. Quero que o PT volte à prefeitura porque amo a minha cidade? Quero. Vou me esforçar para viabilizar a candidatura petista? Vou.

Valor - A sra. vai efetivamente se engajar na campanha?

Marta - Vou. Eu viro a página. O meu sentimento foi um sentimento de frustração. Agora, eu virei a página. Ele é o candidato, agora tem que trabalhar o candidato. Ele é o prefeito de volta na prefeitura para fazer o que tem que ser feito na minha cidade, porque os outros candidatos não vão fazer o que nós fizemos.

Valor – Então vamos falar pra frente. A sra. foi criticada, em 2004, por não fazer uma aliança com o PMDB. Como vê agora a possibilidade de o deputado Gabriel Chalita ser o vice de Haddad?

Marta – Aquela falta de aliança com o PMDB tem uma história muito complicada, que eu não vou entrar de novo porque é página virada. Acho o PMDB um parceiro muito importante para o PT em São Paulo, seja para o primeiro turno, se for possível. Se não for, no segundo. É muito importante. Principalmente, pela possibilidade de mostrar o que já fizemos, ao dar maior visibilidade ao nosso candidato, que ainda não tem esse conhecimento todo. Então, quanto mais tempo de televisão a gente tiver para poder mostrar o que foi a gestão do Haddad no ministério e as coisas positivas que ele conseguiu realizar, melhor. Porque você vai levar para a população um nome novo, mas um nome que tem uma bagagem. Se não tem esse tempo, como é que vai apresentar um candidato novo?

Valor – E a possibilidade de ser o Chalita?

Marta - O Temer e o Chalita é que vão avaliar. Eu acredito que a aliança vira, ou no primeiro ou no segundo turno. A palavra final é do PMDB.

Valor – A possibilidade de aliança com o PSD é nula mesmo?

Marta – Nunca! A base petista não aceitaria nunca. Não tem hipótese. Zero. Que campanha você vai fazer se põe o Kassab dentro do teu partido? Não tem sentido nenhum. Não tem possibilidade nenhuma.

Valor – Por que a sra. está tão convencida de que o Serra vai ser candidato?

Valor – Pelos motivos óbvios de quem lê nas entrelinhas políticas. Ele tem um script. Está repetindo o roteiro: o seu aparecimento cada vez maior, a defesa da parceria com o PSD, o pedido do senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) de adiamento das prévias, tudo faz parte do mesmo quadro. Vai ser de novo PSDB versus PT.

Valor - A “solução paulista” parece que será estendida ao país: o PT, que sempre fez prévias, agora tem outra postura. A sra. acha boa essa opção?

Marta - As prévias são um instrumento bastante interessante. Eu mesma posso dizer, quando disputei as prévias para governador do Estado com o Renato Simões, que tinha poucas chances de ganhar porque eu tinha o apoio majoritário. A mim fizeram muito bem. Porque eu percorri o Estado inteiro conversando com a militância, discutindo e aprendendo. E assim como esses 35 encontros zonais que nós fizemos, e que não eram prévias, tinham outra característica, esse contato com a militância… Eu dou risada quando o PSDB diz ‘nós temos que empolgar a militância’; eles não têm militância, eles vão ter que catar gente para fazer essa prévia. Se fizerem algum dia. O PT, não. O PT tem uma militância aguerrida, que se eu fosse até o final das prévias e tivesse me empenhado realmente, teria… Era um ponto de interrogação o que iria acontecer. Esses contatos mostraram a todo mundo isso.

Valor – Então o que lhe fez desistir?

Marta - Fora o apelo da Dilma e do Lula, também foi que estraçalharia o partido. Eu não sou uma pessoa que faz o debate numa “nice”. Eu vou na jugular. Pra quê que eu ia fazer um trabalho para os adversários. A prévia de que eu participei foi uma coisa de aprendizado. Uma prévia com o Jilmar Tatto (deputado federal), com o Haddad e com o outro (deputado federal Carlos Zaratini) seria uma prévia na jugular. O que sobraria dessa prévia para quem ganhasse? Se eu ganhasse, sobraria um partido rachado, com ódio mortal dos apoiadores do Haddad. E se o Haddad ganhasse, sobraria uma pessoa também bastante avariada. Eu não sou pessoa que faria uma prévia parceira. Eu faria uma prévia na jugular. Eu não podia fazer isso com o meu partido, porque tem o “day after”. O que é que iria acontecer, depois, com ele ou comigo? Aí, a gente acabaria com a chance de o PT ir para a prefeitura. Não teria sentido. Teria sido um bom treino para ele. Mas não era o caso.

Valor - E a imposição desse modelo para todos os Estados?

Marta – Depende da situação. Em São Paulo, certamente não seria um bom caminho [as prévias].

Valor – Que contribuições, a partir de agora, Marta Suplicy pode dar ao partido e ao país?

Marta - A grande contribuição eu acabei de dar. Você quer maior?

Valor – O governo Dilma lhe empolga?

Marta – Acho que ela está indo bem. Era muito difícil suceder o Lula. Acho que ela tem duas vantagens: primeiro de ser mulher e ter as características específicas de personalidade dela, e depois de ter um governo bem arrumado, um governo do qual ela participou de seu plano estratégico de desenvolvimento. Então, ela ser mulher e ter uma personalidade absolutamente diferente do Lula, e ser percebido isto de forma clara desde o primeiro segundo, a diferenciou. Ninguém iria exigir dela as coisas que o Lula faz, que são dele. O carisma, o desempenho. Ela, não. Ela é mulher e tem outro jeito, sim. Então, isso ajudou muito, para ela. A outra questão foi ter participado de todo o planejamento estratégico do governo Lula. Ela sabia a direção que o Brasil tinha que caminhar.

Valor – Essa queda seriada de ministros não prejudica o governo?

Marta – Eu acho que ela está sendo de uma habilidade extraordinária e surpreendendo até os seus adversários. Porque não é fácil você governar do jeito que a eleição do Brasil é, e a constituição do Congresso. Precisa ser trapezista, ter uma habilidade extraordinária para conseguir a aprovação de projetos importantes para o Brasil e, ao mesmo tempo, não pactuar com o que aparece. Ela tem sido extraordinária nessa questão. Acho que ela conseguiu uma forma particular, muito dela, de deixar os próprios partidos perceberem quando retirar os seus ministros, e manter a sua base, sem a qual ela não aprova um projeto em quatro anos.

(Raymundo Costa | Valor)

Luta por direção divide PT em SP

Por Cristiane Agostine | VALOR
De São Paulo

O primeiro desafio do ministro da Educação, Fernando Haddad, na disputa pela Prefeitura de São Paulo será resolver o conflito no PT sobre quem será o coordenador da campanha municipal petista. Amanhã, o partido vai oficializar a candidatura do ministro.

O grupo que participou da pré-campanha de Haddad quer manter o deputado federal Vicente Cândido à frente das articulações políticas, mas vereadores defendem o nome do presidente municipal do PT, vereador Antonio Donato. O impasse deve marcar a reunião da executiva municipal, na noite de hoje.

Segundo um dos articuladores da pré-campanha de Haddad, a disputa interna tem acirrado os ânimos de petistas. “Donato terá papel de destaque, mas o Vicente Cândido fez as articulações até agora. Não é justo tirá-lo do comando”, comentou esse petista. Donato, no entanto, deu um recado: “Não existe mais coordenação da [pré] campanha. O que existe é a direção municipal”, disse.

Amanhã, o PT municipal deve fazer um ato pró-Haddad, com parlamentares e dirigentes. A senadora Marta Suplicy – que desistiu de desafiar Haddad, apadrinhado pelo ex-presidente Lula – não deve participar, segundo Donato. No mesmo dia, o ministro buscará apoio de sindicalistas. A expectativa é que Haddad reforce sua campanha em janeiro, quando deve deixar o ministério.

11/11/2011 - 13:26h Haddad fecha acordo e enterra prévia; PT quer SP como exemplo para o País

11 de novembro de 2011

VERA ROSA / BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

A cúpula do PT quer usar o exemplo de São Paulo como modelo para sepultar as prévias destinadas a escolher os candidatos do partido às prefeituras das principais capitais. Sob o argumento de que é preciso homenagear o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, padrinho da candidatura do ministro da Educação, Fernando Haddad, petistas convenceram ontem os deputados Jilmar Tatto e Carlos Zarattini a desistir da disputa interna na capital paulista.

Foi um café na manhã na casa do presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), com Haddad e 15 deputados federais do PT de São Paulo, que sacramentou a desistência de Tatto e Zarattini da prévia marcada para o dia 27. Pouco depois, a Executiva Nacional do PT – reunida em Brasília – fez um apelo pela “coesão”, num claro movimento contrário às prévias em capitais estratégicas, como Belo Horizonte e Recife. “Nunca pusemos a prévia como objetivo a ser alcançado”, disse o presidente do PT, Rui Falcão. “São Paulo é um exemplo a ser seguido, em nome da unidade”, emendou o deputado José Guimarães (CE), vice-presidente do partido.

Até janeiro. A renúncia de Tatto e Zarattini, com o consequente apoio a Haddad, será anunciada hoje, em São Paulo. Antes, o ministro almoçará com os dois e também com dirigentes do PT. A intenção da presidente Dilma Rousseff é substituir Haddad em janeiro de 2012, na esteira da reforma ministerial, para que a eleição não contamine o governo.

Lula quer que a senadora Marta Suplicy (PT-SP) integre o comando da campanha de Haddad. Pressionada, ela se retirou do páreo há oito dias, atendendo a apelo de Dilma e do ex-presidente. “Eu, agora, vou me recolher”, disse Marta ao Estado. Ela deverá anunciar apoio ao ministro só após conversar com Lula.

Haddad prometeu assegurar espaço em seu comitê às correntes de Tatto e Zarattini. Aliados de Marta no passado, os dois reclamavam de privilégio ao grupo do titular da Educação. “Nós fizemos um apelo a eles para não haver prévia e mostramos preocupação com a unidade do PT em São Paulo. Temos uma campanha dura pela frente e vamos enfrentar o PSDB e o PSD”, insistiu o líder do PT na Câmara, Paulo Teixeira (SP).

PMDB. Mesmo em tratamento para combater um câncer na laringe, Lula já marcou novas conversas com aliados e acha possível convencer o PMDB a não lançar o deputado Gabriel Chalita à sucessão do prefeito Gilberto Kassab (PSD).

No PMDB do vice-presidente Michel Temer, porém, a hipótese de uma chapa formada por Haddad e Chalita é vista como “bastante remota”. Nem mesmo a ideia de Chalita ocupar um ministério empolga Temer, ao menos por enquanto.

Dilma, Lula e Haddad aparecerão no programa nacional de TV do PT, que irá ao ar no dia 8 de dezembro, sob a direção do marqueteiro João Santana.

O cenário eleitoral apresentado ontem na reunião da Executiva petista mostrou que o partido está rachado em Belo Horizonte e enfrenta disputas fratricidas em Recife e Fortaleza, além de muitas incertezas em Porto Alegre. Na capital mineira, o vice-prefeito Roberto Carvalho (PT) rompeu com o prefeito Márcio Lacerda (PSB) e bate o pé para lançar chapa própria.

O grupo de Lula defende a reeleição de Lacerda, mas o PSDB do senador e ex-governador Aécio Neves faz questão de integrar a coligação. Uma parcela do PT é contra esse acordo e promete dar trabalho.

“Nunca vi a gente recusar apoio”, insistiu Falcão. “Nada apaga as nossas divergências com o PSDB, mas eu não recuso apoio de ninguém.” Em setembro, resolução aprovada pelo 4.° Congresso do PT proibiu o partido de formar chapa com o PSDB, o DEM e o PPS, mas abriu brecha para a entrada dos adversários na coligação.


Para Marta, fala de Serra é de quem ‘quer ser candidato’

GUSTAVO URIBE / AGÊNCIA ESTADO – O Estado de S.Paulo

A senadora Marta Suplicy (PT-SP) rebateu com ironia a declaração do ex-governador José Serra (PSDB-SP) de que a sua candidatura seria mais forte para o PT do que a do ministro Fernando Haddad (Educação). “É uma posição do José Serra, que quer ser candidato”, afirmou ontem, após participar do evento “+Mulher 360″, em São Paulo.

Na segunda-feira, José Serra criticou a senadora petista, que desistiu de sua pré-candidatura para concorrer à Prefeitura de São Paulo nas eleições do ano que vem. “Eu achava a Marta uma candidata fortíssima do PT. Era a mais forte. Eles não optaram pela candidata mais forte”, afirmou o tucano, durante participação em um seminário do PSDB no Rio.

Apoio. Marta também negou ontem a possibilidade de anunciar apoio a um dos nomes do PT cotados à Prefeitura antes da definição partidária sobre o candidato da sigla na disputa de 2012. As prévias estavam marcadas para o dia 27, mas serão canceladas com a desistência dos deputados federais Jilmar Tatto e Carlos Zarattini, até então os dois últimos pré-candidatos do PT à Prefeitura de São Paulo que insistiam em disputar a prévia com Haddad. A renúncia dos dois deve ser formalizada amanhã.

“Não, (apoio) só depois de escolhida a pessoa”, respondeu Marta ao ser questionada se anunciaria apoio a algum dos três pré-candidatos do partido. “Isso é uma decisão partidária.”

Marta disse que ainda não foi procurada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para discutir um apoio formal à pré-candidatura do ministro Fernando Haddad.

O ex-presidente Lula havia dito que se reuniria nesta semana com a senadora em almoço no Instituto Lula, na capital. Mas os efeitos colaterais da primeira sessão de quimioterapia a que foi submetido no tratamento contra um câncer na laringe impediram que Lula cumprisse agenda nos últimos dias, apesar de ele manter as articulações.

06/11/2011 - 13:58h A ÚLTIMA FRONTEIRA DA ‘MARTOLÂNDIA’

Em Parelheiros, eleitores fieis da ex-prefeita questionam opção de Lula por Haddad
06 de novembro de 2011

JULIA DUAILIBI / TEXTO , MARCIO FERNANDES / FOTOS – O Estado de S.Paulo

A 40 km da Prefeitura de São Paulo, numa região do extremo sul da capital paulista, mais próxima do mar que do centro da cidade, a dona de casa Nilanilva Francisca André de Lima, de 55 anos, caminha no final da tarde de sexta-feira por uma rua recém-pavimentada de Vargem Grande, em Parelheiros.

De casaco vermelho, duas sacolas de plástico em uma mão e uma latinha de alumínio na outra, demonstra surpresa com um fato político da semana. “Não acredito nisso, não! Não eram amigos, os dois?”, comenta sobre o pedido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que a senadora Marta Suplicy (PT) desistisse da candidatura à Prefeitura em 2012. “Com um amigo assim, não precisa nem de inimigo”, diz num sorriso malicioso.

Nilanilva e a maior parte dos 140 mil habitantes da região formam o maior eleitorado da petista na capital, em termos proporcionais. Em 2008, Marta teve seu melhor desempenho eleitoral em Parelheiros, que, com o distrito de Marsilac, tem 25% dos 1.507 km² da cidade e densidade demográfica pouco maior que a da Holanda. De cada dez eleitores do segundo turno, oito votaram na ex-prefeita, que foi derrotada pelo prefeito Gilberto Kassab. “Votaria de novo. A melhorzinha foi ela. Mesmo perdendo a bichinha veio aqui agradecer. Tadinha, mas fazer o quê?”, lembra Nilanilva.

Em 2004, ao tentar a reeleição, Marta teve em Parelheiros sua maior votação em 1.º turno até então: 64%. Quatro anos depois, quando o seu eleitorado se reduziu em quase toda a cidade, obteve lá 70% dos votos válidos no 1.º turno.

Quem? Se Marta é estrela no extremo sul paulistano, o ministro Fernando Haddad (Educação) é um nobre desconhecido. “Quem é esse malandro que não deixa ela ser candidata?”, pergunta Nelson José, de 63 anos, em Vargem Grande. “Ninguém conhece”, diz o metalúrgico Fernando Carlos, de 33 anos.

O projeto Haddad é uma criação de Lula para chegar à classe média, setor em que Marta, com uma rejeição de cerca de 30%, perdeu densidade eleitoral.

“Haddad não vai fazer nada para a gente, tem cara de rico”, diz Dacília Melo, de 51 anos, conselheira tutelar e fundadora de uma associação que cuida de 20 crianças carentes no Grajaú. E Marta? “Ela tem cara de rica, mas o coração é de pobre”, afirma a militante do PT. “Antes, achava ela uma loira chata. Dizia que a loira não estava com nada. Era uma ricona do Morumbi”, conta.

Em postes do bairro, propaganda eleitoral antiga dos Tatto, família de parlamentares petistas que tem a zona sul como base eleitoral. Por lá, vale o apelido de “Tattolândia”. Dacília diz que se houver prévias no PT, não votará em Haddad, mas no deputado Jilmar Tatto.

“Lula tem que pôr gente como a gente. Nunca vi esse homem. É filiado no PT desde quando?”, pergunta Dacília. A colega de associação Maria Aurilene Cavalcante, de 39 anos, quieta até então, dispara. “Quem é esse Haddad aí?”.

“Se Haddad disser que vai fazer CEU aqui, vamos pensar”, pondera Dacília. “Olha lá as crianças brincando, e os marmanjos se drogando”, diz ela, apontando para um descampado, onde funciona uma quadra de futebol improvisada.

Os eleitores dizem que, apesar de não conhecerem Haddad, votarão nele se Lula pedir, assim como fizeram com Dilma Rousseff. “A doença do Lula vai ajudar. O pessoal tem muito respeito por ele. Ele é como um mágico. Você dá um passo aqui, ele dá 200. Falou que acabaria com o DEM e acabou”, diz Antônio Poltela dos Reis, de 57 anos, o Marrom, ligado ao vereador Alfredinho (PT).

Para o presidente municipal do PT, vereador Antonio Donato, o desafio de Haddad é grudar neste eleitorado. “Dilma ganhou lá. Então o PT é forte lá. Nessas regiões, o apoio de Lula e Marta serão decisivos para Haddad.”

Próximas a parlamentares, lideranças locais, que prestam favores às comunidades, também influenciam o cenário eleitoral. “A militância acompanha a liderança da região”, avalia Reis. Dacília, que diz ter mais de cem votos no bairro, conta que trabalhou para a eleição de Kassab em 2008: “Fiquei desgostosa com uma briga no partido. Mas sempre votei na Marta”.

Malufismo. O extremo sul paulistano tem a renda média mais baixa da cidade: R$ 928, segundo dados de 2008 do Observatório Cidadão da Rede Nossa São Paulo. Também apresenta um dos maiores índices de criminalidade: 17 assassinatos por cada cem mil habitantes, em 2009. Em Pinheiros, onde Marta teve sua pior votação, a renda média é a maior da capital, R$ 2.764, assim como os índices de violência são os menores: 1,93 assassinato por cem mil habitantes. Em 2008, ela teve apenas 11% dos votos no Jardim Paulista, área administrativa de Pinheiros. “Playboy vota no Serra ou Alckmin”, afirma Carlos.

O eleitor da “Martolândia” ignora polêmicas da gestão da ex-prefeita (2001-2004), como criação de taxas, que lhe renderam o apelido de “Martaxa”, ou obras viárias consideradas caras e equivocadas – o que lhe custou votos da classe média. Questionados sobre a razão do voto, os martistas citam a melhoria no transporte e projetos sociais como os CEUs. “Na minha região não melhorou nada”, rebate uma crítica da ex-prefeita, Adriana Herculano, de 30 anos.

Antes malufista, o extremo sul se rendeu ao PT. “Tínhamos muita dificuldade de fazer campanha lá. Mudou com ela. A partir daí, a votação do PT lá foi crescente”, diz Alfredinho. “O malufismo perdeu capacidade de diálogo e houve substituição por outras forças. Uma delas foi Marta. A população tende a carimbar as conquistas sociais. Carimbava antes com o Maluf, depois com o PT”, diz o cientista político Marco Aurélio Nogueira.

Nos anos 80, o extremo sul de São Paulo foi tomado por lotes irregulares. A paisagem bucólica, com cavalos e cabras, se mescla ao cenário precário, onde ainda hoje falta água potável. Segundo informe da Prefeitura sobre Parelheiros, no site oficial, a “exponencial” taxa de crescimento demográfico “inviabiliza qualquer tipo de planejamento municipal”.

Áreas da “Martolândia” seguem invisíveis, inclusive nas caravanas de anos eleitorais. Marta e Lula não passaram por lá, e Haddad, provavelmente, não passará. “Quando tem campanha, os políticos não deixam entrar para cá. Tem muita poeira aqui”, diz Dacília, que após breve silêncio conclui: “Aqui só entram mesmo para multar”. / COLABOROU DANIEL BRAMATTI

05/11/2011 - 13:38h Aliados de Marta devem anunciar hoje apoio a Haddad

05 de novembro de 2011

EQUIPE AE – Agência Estado

O pré-candidato do PT à Prefeitura de São Paulo e ministro da Educação, Fernando Haddad, deve ganhar hoje o apoio de deputados estaduais e federais aliados da senadora Marta Suplicy, que na última quinta-feira anunciou sua desistência da corrida eleitoral do ano que vem. Os parlamentares do PT se reúnem por volta do meio dia em um restaurante da zona sul da capital paulista. Eles devem anunciar oficialmente apoio à pré-candidatura do ministro, o preferido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a sucessão do prefeito Gilberto Kassab (PSD).

Com a saída de Marta da disputa, seus aliados avaliaram que os demais pré-candidatos – os deputados Carlos Zarattini e Jilmar Tatto e o senador Eduardo Suplicy – são incapazes de levar o partido à vitória em 2012. Pesou na decisão dos aliados de Marta o fato de Haddad ter se firmado na disputa.

A senadora desistiu de concorrer à Prefeitura paulistana após receber um pedido da presidente Dilma Rousseff. A conversa entre as duas ocorreu no Aeroporto de Congonhas, minutos antes do embarque da delegação brasileira à França, onde a presidente participou do G-20 de Cannes, cúpula encerrada ontem.

04/11/2011 - 12:51h Para Marta, prévias iam ‘estraçalhar’ PT paulista


Senadora anuncia que está fora da disputa pela Prefeitura de São Paulo, mas evita apoio público a Haddad

Senadora durante entrevista em que confirmou saída da disputa - Ernesto Rodrigues/AE

04 de novembro de 2011

Julia Duailibi, de O Estado de S.Paulo

Sem declarar de modo explícito apoio ao ministro Fernando Haddad (Educação), a senadora Marta Suplicy disse nesta quinta-feira, 3, que abandonou a disputa pela Prefeitura de São Paulo para evitar que o PT se “estraçalhe”. A decisão joga os holofotes nos demais pré-candidatos, que já são alvo de operação de dirigentes do partido para desistirem das prévias.

Acuada politicamente pela operação montada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em favor de Haddad, Marta resolveu não disputar as prévias, após acordo que envolveu a presidente Dilma Rousseff, a quem coube falar que fizera um apelo à ex-prefeita. Marta disse que o pedido fora “irrecusável”.

“Queria muito voltar a ser prefeita. Ao mesmo tempo, com um pedido da presidente, que além de presidente é uma amiga pessoal, e do ex-presidente Lula, não teria nenhuma condição nem vontade de dizer não. Nem poderia dizer não como petista”, disse. “Um pedido dos dois para mim é algo irrecusável”, completou Marta, em entrevista na sede nacional do PT, em São Paulo.

Na segunda-feira, 1º, por orientação de Lula, Dilma chamou a senadora para uma conversa, durante a qual fez o “apelo”. Marta foi prefeita entre 2001 e 2004. Fracassou nas duas eleições consecutivas em que tentou voltar ao cargo. Lula avalia que a senadora, com rejeição alta, perdeu sustentação na classe média. O projeto Haddad, uma novidade no cenário eleitoral, atende à estratégia de tentar ampliar o eleitorado petista na capital.

Conhecida pelo temperamento forte, Marta, que defendia as prévias, disse que abriu mão da candidatura para evitar que o partido saísse “rachado”, embora a avaliação na sigla é de que dificilmente ela conseguiria a vitória depois de Lula amarrar 60% do PT ao nome de Haddad.

“Uma prévia é algo muito difícil. Principalmente para uma pessoa como eu, que sou muito combativa e aguerrida e que vai na jugular para entrar numa prévia”, disse Marta. “Esse enfrentamento iria estraçalhar as nossas militâncias, e isso não teria nenhum sentido. Sou do jeito que sou e não dava para ir nisso e depois ter o partido unido.”

No PT, avalia-se agora que é uma questão de dias até que os deputados Carlos Zarattini e Jilmar Tatto abandonem as prévias – Zarattini já se inscreveu, e a tendência é que Tatto o faça na segunda-feira. O senador Eduardo Suplicy quer disputar, mas ainda não tem as 3.181 assinaturas necessárias para a inscrição.

Haddad entrará em contato com os pré-candidatos nos próximos dias. Paralelamente às pontes jogadas pelo ministro, os líderes petistas trabalham para “prestigiar” os parlamentares. Tatto, cotado para líder do PT na Câmara no ano que vem, receberá sinalização a favor do projeto.

Apoio. Marta evitou nesta quinta declarar o apoio a Haddad. “Esse processo não está terminado. Não adianta eu pôr a carroça na frente dos bois”, declarou.

Minutos depois, no entanto, disse que o candidato do PT deve ser o ministro: “Tudo indica que vai ser o Haddad. Tudo que quero neste momento é que o PT volte à Prefeitura, e a candidatura que o PT escolher é a que eu vou me esforçar para levar lá”.

Como contrapartida por ter acatado o “apelo” de Lula, Marta deverá ter papel de destaque na campanha e também atuará em eleições do PT pelo resto do País. Não está descartada a participação no governo Dilma, que passará por reforma ministerial no começo do ano que vem.

Marta negou que a desistência tenha relação com promessa de cargos. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, também seguiu a mesma linha ao ser questionado sobre um ministério para a petista. “Isso não está em discussão.”

Desde 2008, quando perdeu a eleição pela segunda vez, Marta vem se isolando. Aos poucos, vereadores e deputados que lhe davam sustentação se afastaram, por falta de interlocução com a ex-prefeita e, neste ano, em razão dos recados enviados por Lula para que aderissem a Haddad.

Os maiores apoiadores de Marta, os deputados Candido Vaccarezza e José Mentor e o deputado estadual João Antonio, se reúnem com Haddad sábado para sacramentar o apoio ao ministro. Eles já haviam decidido apoiá-lo antes do anúncio da senadora.

Marta negou que esteja isolada. “Nunca senti, nenhum minuto, nada a não ser o imenso carinho e preferência da militância.” / COLABOROU TÂNIA MONTEIRO

01/11/2011 - 23:01h Em acerto com Lula e Dilma, Marta desiste e Haddad será candidato do PT

Num roteiro combinado com a senadora, a presidente lhe pediu que se retirasse do páreo

01 de novembro de 2011

Julia Duailibi, Vera Rosa e Andrei Netto, enviado especial de O Estado de S.Paulo

SÃO PAULO, BRASÍLIA e CANNES – Em ação conjunta com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a presidente Dilma Rousseff pediu na segunda-feira, 31, à senadora Marta Suplicy (PT-SP) que abandone sua pré-candidatura à Prefeitura da capital paulista na eleição de 2012. A ação abre caminho para chancelar o ministro Fernando Haddad (Educação) como o candidato do PT na disputa.

Marta e Haddad, durante encontro em agosto - Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE Marta e Haddad, durante encontro em agosto

O encontro entre Marta e Dilma, e o respectivo pedido de desistência, foram divulgados pela própria Presidência da República em ato acertado com a senadora. O apelo feito por Dilma faz parte do roteiro combinado com Marta, que anuncia na quinta-feira, 3, em São Paulo a desistência da pré-candidatura à Prefeitura.

Acuada no PT pela operação de Lula a favor de Haddad, a ex-prefeita paulistana ficou sem respaldo interno para dar continuidade ao projeto de disputar prévias, marcadas para novembro.

O convite da Presidência a Marta para a conversa foi feito na segunda-feira. A reunião entre as duas acabou ocorrendo horas depois, no Aeroporto de Congonhas, dentro do avião presidencial. Depois do encontro, Dilma visitou Lula num hospital da capital, onde ele deu início a tratamento de saúde, e relatou a conversa ao ex-presidente. À noite, embarcou para Cannes, onde participa de reunião do G-20.

“Dilma fez um apelo, afinada com o presidente Lula, para que Marta desista da candidatura”, divulgou na terça-feira, 1º, em Cannes, a ministra da Secretaria de Comunicação Social, Helena Chagas.

Lula e Dilma já haviam conversado sobre a necessidade de buscar uma saída para Marta durante viagem para Manaus, no último dia 24. Embora tenha boa inserção na base do PT e lidere as pesquisas de intenção de voto, Marta amarga um isolamento gradual entre os parlamentares e dirigentes do partido desde que perdeu a eleição para a Prefeitura paulistana em 2008.

A situação piorou com a operação de Lula pró-Haddad, que culminou no apoio de 60% do partido à pré-candidatura do ministro. As prévias tornaram-se, então, uma operação de risco para a ex-prefeita, e o lema no PT foi buscar uma “saída honrosa”.

O vazamento pela Presidência do pedido de desistência feito à senadora atende tanto aos anseios do governo quanto aos da própria Marta, que preparou o caminho para a desistência.

Ministério. Agora a negociação passa por acomodar a senadora em um local de prestígio. Os petistas dizem que Dilma não sinalizou com nenhum cargo, mas teria feito projeções para o futuro. Marta ambiciona o Ministério da Educação. Segundo integrantes do partido, ela pode ser indicada para a Cultura, numa eventual reforma ministerial no ano que vem, ou conseguir o apoio do governo num voo mais alto, como disputar a presidência do Senado – hoje ela ocupa a vice.

Desde que ouviu de Lula que seria melhor desistir da candidatura em agosto, Marta já dava sinais de que não se manteria no páreo. “Não dá para enfrentar o Lula”, disse a interlocutores.

Assim como a articulação para a desistência de Marta, o ex-presidente também montou operação para os demais pré-candidatos, os deputados Jilmar Tatto e Carlos Zarattini e o senador Eduardo Suplicy, saíssem da disputa. No PT, avalia-se ser mais fácil a desistência de Zarattini e Tatto. O Estado apurou que o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), colabora com o ex-presidente na operação de convencimento de Tatto, que passa pela indicação para a liderança do PT na Câmara.

Os dois deputados, no entanto, negam que pretendam abrir mão das prévias. “Da minha parte, não muda nada. O processo para a liderança do partido é independente do processo de disputa na capital”, afirmou Tatto. “Vou manter minha candidatura. Vamos trabalhar pela unidade do partido. As prévias não colocam em risco a unidade”, disse Zarattini, que já apresentou a lista de apoios necessários para se inscrever na disputa.

Suplicy pode não abrir mão da eleição interna, como fez em outras ocasiões – ele disputou prévia com Lula para se candidatar a presidente em 2002, apesar dos apelos no partido para que desistisse. Sua candidatura, no entanto, encontra pouco respaldo.

O senador pediu aos filiados, ontem, que assinassem a lista de apoio a seu nome, para se inscrever na eleição interna. “Se você é filiado do PT em S. Paulo agradeço se puder me ligar nesta quarta-feira”, disse Suplicy, por meio do Twitter.

São necessárias 3.181 assinaturas de filiados para que uma pessoa possa se inscrever na prévia.

Eleitorado. Lula lançou a operação Haddad após avaliar que o ministro tem mais condições de conseguir votos do eleitor conservador paulistano, que resiste ao PT. O ex-presidente avalia que Marta não tem como ultrapassar os 30% de votos que o partido tem tradicionalmente na capital: ela começa com a intenção de votos alta, em razão do recall das últimas eleições, depois cai.

“Marta foi a melhor prefeita que São Paulo já teve. É uma das lideranças do PT, mas Dilma apelou para que ela permaneça como primeira vice-presidente do Senado, onde ela tem um papel muito importante para o governo”, disse Helena Chagas.

01/11/2011 - 11:04h A falta que Lula faz ao PT e ao governo

Por Raymundo Costa – VALOR

A doença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve reduzir consideravelmente o ritmo de uma agenda que estava adquirindo os contornos de sua antiga rotina em Brasília. Além das viagens internacionais, Lula estava profundamente envolvido na articulação entre os partidos da base aliada do governo e na escalação das candidaturas amigas às prefeituras das principais cidades do país, como São Paulo e Porto Alegre.

Lula trabalha para evitar a dispersão de aliados tradicionais do PT como PSB, PDT e PCdoB, com interesses regionais diferentes, e de recém-chegados, mesmo que sob a cobertura de “independentes”, como o PSD do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. O ex-presidente tratava dia e noite com os presidentes desses partidos, Eduardo Campos, Carlos Lupi e Renato Rabelo, respectivamente, além de Kassab. Ele deve diminuir o ritmo dessas articulações, segundo se espera no PT, mas também o acompanhamento e monitoramento das disputas internas no partido.

A campanha em que Lula mais se envolveu é a de São Paulo. O ex-presidente apoia a candidatura do ministro da Educação, Fernando Haddad, um nome sem experiência política anterior, que depende da ajuda de Lula para se viabilizar eleitoralmente, mas já consolidado como pré-candidato. Apesar dos boatos em contrário, ainda ontem a senadora Marta Suplicy insistia em que será candidata às previas do partido, no final deste mês. Seus aliados já começaram a recolher as assinaturas necessárias (cerca de 3,3 mil) para a formalização da candidatura, até o dia 7.

Dilma conta com Lula no “Ministério das Eleições”

Segundo a avaliação de petistas, o problema de Haddad hoje não é a eventual ausência de Lula do processo, mas a disposição de Marta em efetivamente ser candidata a prefeita.

Marta teria todas as condições de bater Haddad na prévia, de acordo com avaliações mais independentes do PT paulista, apesar do apoio de Lula ao ministro. O problema é que ela deixou de transmitir segurança em suas intenções. Marta participa dos debates que antecedem a prévia, mas pouco conversa com outros líderes partidários, inclusive antigos aliados hoje pré-candidatos contra ela nas prévias, como Jilmar Tatto e Zarattini Jr. Os dois, a exemplo de Haddad, antigos colaboradores de Marta quando ela era prefeita de São Paulo (2001-2005).

Marta parece ausente do processo, num momento em que precisaria demonstrar que quer ser candidata, mesmo com a opinião contrária de Lula. Ela já poderia, inclusive, ter procurado conversar com Lula. Há petistas em São Paulo segundo os quais não há como Lula deixar de apoiar a candidatura de Marta Suplicy, caso ela saia vencedora da prévia partidária (algo sobre o que Marta não parece estar convencida).

Marta, por enquanto, mantém-se no páreo, talvez à espera da “contagem das garrafas” do primeiro turno da prévia partidária. Essa seria a hora de procurar candidatos a alianças.

A doença de Lula – um câncer de laringe diagnosticado precocemente – e as limitações que ela deve impor ao ex-presidente, nos próximos meses não tem como ser ignorada nas avaliações de conjuntura. O ex-presidente é figura fundamental nas articulações políticas em curso no país, sejam para as eleições ou a estabilidade do governo Dilma Rousseff. Na campanha municipal, dois exemplos demonstram o poder do ex-presidente de influenciar os rumos do partido do que presidente honorificamente: as campanhas de Porto Alegre (RS) e de Curitiba (PR).

O presidente do PDT e atual ministro do Trabalho, Carlos Lupi, quer o apoio do PT à candidatura à reeleição do prefeito José Fortunati. O PCdoB também cobra dos petistas apoio à candidatura da deputada federal Manuela D’Ávila, bem cotada nas pesquisas de opinião. Alas do PT defendem o lançamento de candidatura própria, para tentar resgatar a história do partido em uma cidade que governou por 16 anos (1989-2005). Lula articula para o PT não ter candidato e apoiar um dos dois aliados.

A coligação mais provável é com Fortunati. O PDT quer amarrar no mesmo pacote a candidatura do ex-deputado Gustavo Fruet à prefeitura de Curitiba. Na CPI do Mensalão, Fruet, que trocou o PSDB pelo PDT, foi um inquiridor implacável. Mas Lula costuma ser pragmático quando estão em jogo seus interesses eleitorais. O duro é convencer o PT de que essas alianças são favoráveis ao partido.

Com o Eduardo Campos, governador de Pernambuco e presidente do PSB, as conversas são basicamente sobre as eleições nas capitais do Nordeste. Campos é potencial candidato a vice-presidente numa chapa do PT em 2014. Lula só está incomodado com o PSB de São Paulo, que aderiu no município a Gilberto Kassab, no Estado ao governador Geraldo Alckmin e, nacionalmente, ao PT. Mas também conversa com Kassab, que não quer briga com o ex-presidente.

No Palácio do Planalto repetia-se, até sexta-feira, que não há risco de a presidente Dilma Rousseff ser multada pela Justiça Eleitoral em 2012. Nem ela nem Lula, ao contrário do que ocorreu na eleição presidencial. Ela porque não gosta do trabalho de tecer composições partidárias para a formação de chapas.

No máximo, Dilma se dispõe a gravar programas para o horário eleitoral dos candidatos do PT e da base aliada. De preferência, no Palácio da Alvorada.

A despreocupação de Lula com o TSE deve-se ao fato de não ter mais as amarras impostas pelo cargo de presidente da República. Como presidente de honra do PT, sua margem de manobra eleitoral se ampliou consideravelmente. Para Dilma é um conforto ter Lula articulando e fazendo campanha. No Palácio do Planalto chegou-se a cunhar um termo para o papel a ser desempenhado por ele em 2012: “Ministro das Eleições”.

Avaliações feitas no PT levam em conta que o ex-presidente será a partir de agora notícia obrigatória, mas com exposição pessoal menor, ou seja, menos imagens na mídia. Espera-se um retorno “triunfal” de Lula, entre março e abril, curado e na condição de quem outra vez venceu a adversidade. Mais forte ainda do que em janeiro de 2011, quando deixou a Presidência da República com popularidade recorde na história do país.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

E-mail raymundo.costa@valor.com.br

25/10/2011 - 09:13h Dirceu evita declarar apoio a Haddad

Por Marcos de Moura e Souza | VALOR

De Belo Horizonte

Apesar dos rumores de que tenha fechado apoio à candidatura do ministro da Educação, Fernando Haddad, à Prefeitura de São Paulo, o ex-ministro José Dirceu evita dizer publicamente quem é seu candidato favorito em 2012. “A tendência é que ele [Haddad] vença as prévias. Mas uma coisa é a opção dos filiados, outra é o apoio dos eleitores. E a Marta tem 30% de apoio”, disse Dirceu ontem à noite em Belo Horizonte durante lançamento de seu livro “Tempos de Planície”.

O PT deverá decidir entre Haddad e a senadora Marta Suplicy. São os dois nomes mais fortes na pré-campanha do partido. Eduardo Suplicy, Carlos Zarattini e Jilmar Tatto também disputam a indicação. “Acredito que sem a Marta não se ganha eleição em São Paulo”, disse. No caso de se confirmar a tendência do partido de escolher o ministro da Educação para disputar a sucessão do prefeito Gilberto Kassab (PSD), Dirceu diz o PT “terá de encontrar uma forma de que essa vitória que unifique o partido”.

Perguntado sobre se apoia Haddad, Dirceu disse: “Meu apoio eu vou dar na hora de votar”. O ex-ministro da Casa Civil disse ja ter conversado com Haddad sobre eleições e que é muito próximo de Marta.

28/09/2011 - 11:42h Marta propõe mudança no FGTS

Waldemir Barreto / Agência Senado - 15/9/2011/Waldemir Barreto / Agência Senado - 15/9/2011Senadora quer repartir com trabalhadores o lucro obtido com a aplicação do FGTS: “O projeto proporciona ao trabalhador sua real condição de cotista do fundo”


Por Raquel Ulhôa | VALOR

De Brasília

A senadora Marta Suplicy (PT-SP) apresentou projeto de lei para permitir que o trabalhador seja beneficiado com o lucro obtido a partir da aplicação dos depósitos das contas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Para a senadora, trata-se de corrigir uma “injustiça histórica”, já que o trabalhador é cotista do fundo, mas não participa dos seus lucros.

A proposta – aguardando designação de relator na Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado, onde tramita em caráter terminativo (aprovada, vai direto à Câmara dos Deputados se não houver recurso para ir a plenário) – altera a lei 8.036, de 11 de maio de 1990, que dispõe sobre o FGTS. Determina a distribuição de no mínimo 50% do resultado financeiro positivo que exceder a um por cento do patrimônio Líquido do FGTS do exercício anterior ao da apuração do resultado.

A distribuição às contas dos trabalhadores será feita proporcionalmente aos respectivos saldos. O percentual do resultado positivo a ser repartido, de no mínimo 50%, pode ser de até 100%, a critério do Conselho Curador do FGTS, que tem representantes de trabalhadores, empregadores e do governo.

“Esse dinheiro é do trabalhador, não tem por que ficar parado no sistema financeiro. Em vez de enricar banco, vai melhorar a vida do trabalhador”, diz a senadora, ex-prefeita de São Paulo (2001 a 2004) que disputa no seu partido nova candidatura ao cargo em 2012.

Mantendo sua disposição de concorrer às prévias do PT que vão escolher o candidato a prefeito do partido – a despeito da campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo nome do ministro da Educação, Fernando Haddad-, Marta se mostra entusiasmada em atuar na área econômica, que diz ser nova para ela.

“Quando fui deputada, cuidava mais de assuntos ligados a mulher e gays. São áreas que tenho de cuidar. Estão carimbadas na minha testa, eu as prezo e são importantes no meu mandato. Mas fui prefeita de São Paulo, meus interesses aumentaram. Tenho mais interesse agora de pensar em coisas na área econômica, que favoreçam os trabalhadores, as cidades”, afirma.

Com relação ao FGTS, a senadora lembra que, nos últimos anos, várias propostas têm sido apresentadas na Câmara dos Deputados e no Senado, com o objetivo de tentar aumentar a participação do trabalhador nos recursos. Mas, em geral, eles apresentam o risco de afetar o equilíbrio financeiro do fundo. Ela considera o projeto que está apresentando “uma alternativa viável para aumentar o retorno do FGTS para o trabalhador”.

Segundo os cálculos da assessoria da senadora, a proposta poderia resultar em uma rentabilidade adicional de 1,5% ao ano às contas vinculadas, além da remuneração atual (TR mais 3% ao ano). “É proporcionar ao trabalhador sua real condição de cotista do fundo”, diz Marta, sobre a distribuição do lucro do FGTS.

21/09/2011 - 10:15h Adversários articulam frente contra Haddad

Decisão do grupo majoritário do PT em prol do ministro da Educação uniu pré-candidatos a prefeito de São Paulo e prévias ganharam força
21 de setembro de 2011

IURI PITTA – O Estado de S.Paulo

Toda ação gera uma reação, dizem as leis da física e da política. A decisão da corrente majoritária do PT, Construindo um Novo Brasil (CNB), de apoiar a pré-candidatura do ministro Fernando Haddad (Educação) à Prefeitura de São Paulo fez os grupos dos demais postulantes à vaga não só reafirmarem a disposição de ir às prévias, em 27 de novembro, como de traçar cenários para alianças num eventual segundo turno da disputa interna.

A CNB, da qual faz parte o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, principal defensor de Haddad, reforçou seus quadros nas últimas semanas e, com isso, acredita ser hoje a tendência mais forte dentro do PT. As outras duas correntes mais fortes – Novo Rumo, da qual faz parte o deputado Carlos Zarattini, e PT de Lutas e Massas, liderada pelo deputado Jilmar Tatto – perderam quadros, mas ainda somam mais da metade do diretório municipal. Fora isso, os militantes da senadora Marta Suplicy estão diluídos nas diversas tendências petistas – o que torna difícil mensurar o apoio à ex-prefeita, embora ela seja a mais ovacionada nas reuniões dos diretórios zonais.

Com esse cenário em vista, os adversários de Haddad afirmam que a realização de prévias está ainda mais provável e não tão favorável a ele. “Quem teria de ir já foi (para o grupo pró-Haddad)”, disse Tatto. “Continuo trabalhando pela minha candidatura, conversando muito dentro do PT.”

Retrospecto. Defensores de Marta, Tatto e Zarattini lembram outras disputas internas do PT em que, apesar do apoio das líderes nacionais a um candidato, a militância não seguiu essa orientação automaticamente. A história, creem, pode se repetir.

Em 2006, o hoje ministro Aloizio Mercadante era o favorito de Lula para concorrer ao governo do Estado e venceu as prévias contra Marta por menos de 5 mil votos, num universo de mais de 67 mil militantes. Na década anterior, na própria capital, a então petista Luiza Erundina venceu prévias também contra Mercadante, o favorito de Lula na época.

Ontem Lula também se amparou no retrospecto eleitoral, mas para insistir na tese de que o PT precisa inovar e lançar “pessoas novas”. “A Marta sempre será uma forte candidata, ninguém pode dizer que alguém que começa a corrida com 30% é fraca, mas nós sempre tivemos 30% dos votos em São Paulo”, observou ele, em Salvador. “Ganhamos com a Luíza Erundina em 1988 com 30%, ganhamos com a Marta com 30%, depois perdemos com a Marta e com o Aloizio Mercadante, com 30%. Então o PT tem 30% em São Paulo quem quer que seja o candidato.”

Para Lula, é preciso encontrar “um José Alencar da capital”, a partir de composição política com outros partidos que possam dar os 20% de votos de que o PT precisa. / COLABOROU TIAGO DÉCIMO

20/09/2011 - 09:38h Corrente majoritária petista opta por Haddad

Por Cristiane Agostine | VALOR

De São Paulo

A corrente majoritária no PT nacional, Construindo Um Novo Brasil (CNB), decidiu ontem apoiar a candidatura do ministro da Educação, Fernando Haddad, na disputa pela Prefeitura de São Paulo, em 2012. A decisão, tirada em um encontro de lideranças nacionais, estaduais e municipais petistas, em São Paulo, reduz as chances de o partido realizar prévia para escolher quem será o candidato petista na capital. A senadora e pré-candidata Marta Suplicy, integrante dessa tendência, não foi convidada a participar da reunião de ontem.

A discussão foi realizada na filial do diretório nacional em São Paulo, com dirigentes nacionais, prefeitos, deputados federais e estaduais e vereadores. Amanhã, a CNB reunirá todos os dirigentes dos diretórios zonais para reforçar o apoio à candidatura de Haddad, em São Paulo. O grupo planeja realizar um grande ato com a militância na próxima semana, em favor do ministro. A CNB é a corrente do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo o coordenador da tendência no partido, Francisco Rocha, o Rochinha, a CNB optou por Haddad por considerar que o ministro tem mais chances de vitória. “Fizemos uma análise política do quadro de São Paulo e do perfil das candidaturas. É a conjuntura”, disse. O dirigente informou que a corrente não quis chamar Marta a participar do encontro de ontem.

Para Rochinha, o PT não precisa realizar a consulta aos filiados para definir o candidato na disputa na capital paulista. “Advogo que não haja prévia, pela importância que essa disputa tem para o PT. Deveríamos trabalhar para ter unidade no partido”, disse. O dirigente, no entanto, não descarta totalmente a possibilidade da prévia, pré-agendada para o dia 27 de novembro.

Na reunião, Haddad, que é ligado ao governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, declarou que não pertence à corrente Mensagem ao Partido, de Tarso. “Ele negou peremptoriamente e disse isso sem ninguém perguntar”, comentou Rochinha. No PT municipal, as correntes CNB e Novos Rumos, do presidente nacional do partido, Rui Falcão, têm a maioria dos dirigentes. Há divergências quanto à influência do grupo. Segundo Rochinha, a CNB tem 37% dos dirigentes. O deputado federal e pré-candidato Carlos Zarattini, na Novos Rumos, diz que sua tendência tem 38% e que a CNB tem 20%. “Quem disse que eles terão maioria?”, questionou Zarattini. “Vamos levar a disputa às prévias.”

O deputado federal Jilmar Tatto e o senador Eduardo Suplicy também pré-candidatos, também insistem pela consulta aos filiados. Procurada, Marta informou, por meio de sua assessoria, que não iria comentar a decisão de seu grupo e disse que defende a prévia.

19/09/2011 - 09:18h Lula na Prefeitura de São Paulo

Por Renato Janine Ribeiro – VALOR

Esperei para comentar o impacto da pesquisa do Datafolha sobre as candidaturas a prefeito de São Paulo. Queria ver as reações. Os trinta por cento de Marta Suplicy e os dezoito de José Serra tornam difícil o PT negar a legenda a sua ex-prefeita, ou o ex-prefeito e governador aceitar concorrer pelo PSDB. Esperei que alguém jogasse a toalha, do lado petista – talvez os ex-aliados de Marta que ora competem com ela – e que, do lado tucano, algum nome se viabilizasse. Mas, se todos tomaram nota, como se diz em linguagem diplomática quando o resultado não é o que se deseja, ninguém piscou. Tudo continua possível. Aparentemente.

A baixa intenção de voto em Serra não surpreende. Ele teve perto de 54% dos votos válidos na cidade, no segundo turno das eleições de 2010; por isso, o fato de obter apenas um terço desse número, menos de um ano depois, soa estranho à primeira vista. Certamente ele conta com muitos eleitores que votariam nele, de novo, para presidente – mas não para prefeito. O que em nada o desmerece, porque ao que tudo indica ele não quer a prefeitura. Seus eleitores e ele pensam do mesmo modo. Seu sonho continuaria sendo a Presidência, o único cargo importante que não ocupou e para o qual se preparou por longos anos. Poderia ter sido presidente em 1994, se Itamar o tivesse escolhido em vez de FHC, ou em 1998, não houvesse a reeleição. Ainda tem chances. Agora, se concorrer à prefeitura, será difícil perdoar uma nova renúncia após um ano somente de mandato, para mais uma vez disputar o Planalto. Será a repetição da história como farsa. O problema então é encontrar um nome que mantenha unido o condomínio tucano paulista, no qual a divisão entre Alckmin e Serra levou à dissidência de Chalita, pelo lado do primeiro, e de Kassab, pelo lado do segundo. A família tucana, que governa o Estado desde 1994, e a cidade desde 2004, está em risco na capital.

Transparência maior poderia diminuir a desconfiança

Já o PT terá dificuldades em rejeitar uma candidata que, a um ano das eleições, conta com quase um terço das intenções de voto. Mais estranho ainda será descartá-la em favor de um candidato que obteve só dois por cento na pesquisa. É verdade que alguém pode começar com um ou dois por cento e vencer. Assim sucedeu com Pitta, secretário e sucessor de Maluf na prefeitura, Fleury, secretário e sucessor de Quercia no governo estadual, e Dilma, ministra e sucessora de Lula na presidência da República. Mas, em todos esses casos, em que candidatos sem prévia experiência eleitoral (como Fernando Haddad, o favorito de Lula) derrotaram opositores mais cotados, havia alguns traços especiais. Primeiro: foram apoiados pelo titular do cargo, por sinal muito bem avaliado. O problema era transferir a popularidade de um nome conhecido para um desconhecido. Segundo, e mais importante: se cada um deles partiu de meros dois por cento, enfrentava um favorito inicial que não era de seu partido – mas do concorrente. Dava para promover, simultaneamente, a construção do nome novo e a desconstrução do opositor. Agora, um eventual prélio Haddad-Marta se dará no interior do mesmo partido. Não pode ser demasiado agressivo, porque o perdedor deverá apoiar o vitorioso. Nos Estados Unidos, as palavras horríveis que Hillary Clinton disse sobre Obama não a impediram de apoiá-lo, quando ele ganhou a indicação, nem o impediram de nomeá-la para o cargo mais importante da administração. Mas, no Brasil, o eleitor dificilmente esqueceria acusações fortes entre companheiros de partido. Isso limita a capacidade de um nome alternativo para contestar, nos meses que faltam, o favoritismo de Marta no eleitorado.

No entanto, há uma racionalidade clara no apoio de Lula a seu ministro da Educação. Nas primeiras eleições que Lula disputou, ele queria marcar uma posição. Vencer ou não era secundário. Num segundo tempo, ele aceitou marcar uma posição. Ele trazia os votos, a esquerda petista fazia o programa, e ele engolia isso. Já em 1998, derrotado pela terceira vez, Lula mudou radicalmente. Decidiu só concorrer para vencer. Convenceu-se de que, num país complexo como o Brasil, um partido não ganha a Presidência sozinho. Precisa de alianças. Isso implicava aceitar que, no governo, ele não aplicaria in totum o programa do PT. Mas, entre realizar parte razoável do programa e nada realizar, Lula não teve dúvidas. Creio que esse é seu raciocínio em São Paulo. Trinta por cento dos votos, os que Marta tem, são o patrimônio usual do PT na cidade. Ela por ora consegue realizar o total desse estoque; mas qualquer candidato petista que não seja um absurdo partirá desse patamar. O problema é conseguir os vinte por cento que faltam para ganhar, provavelmente no segundo turno. Quando começarem a atacar Marta pela taxa do lixo, ou baixarem o nível na campanha, ela conseguirá expandir seu cabedal de votos? Lula provavelmente crê que um nome novo, de pouca rejeição, com a causa simpática da educação, possa crescer mais. Sua questão não é o que o partido faz, intra muros. É se o partido consegue conquistar a sociedade. A isso se soma um fato curioso: Marta na política, como por exemplo Paulo Bernardo na administração, são nomes polivalentes, que podem ocupar praticamente qualquer cargo. Já Haddad se identificou tanto com a educação que, paradoxalmente, se inviabilizou para qualquer posição que não seja a sua, atual – onde começa a sofrer uma fadiga de material que pode se acentuar -, ou a chefia de um poder executivo. Daí que ele queira a prefeitura. Daí que talvez Lula pense nele como sucessor de Dilma, em 2018. Mas o fato, hoje, é que ele tem dois por cento e Marta, trinta.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo. Escreve às segundas-feiras

E-mail rjanine@usp.br

06/09/2011 - 09:24h Desafio e dilemas de Marta Suplicy

Por Raymundo Costa – VALOR

Na véspera do Congresso do PT, realizado o último fim de semana, a senadora Marta Suplicy reuniu seu estado-maior político, em Brasília, e prometeu para já uma decisão sobre sua candidatura a prefeito de São Paulo. Sua intenção é permanecer na disputa, apesar da preferência – nunca manifestada com todas as letras – do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo nome do ministro Fernando Haddad, da Educação.

Marta falou de seus dilemas e contou a conversa que teve com Lula sobre a sucessão em São Paulo. A senadora disse ao ex-presidente que quer voltar a ser prefeita para concluir “uma obra que deixei pela metade”. Eleita em 2000, Marta perdeu o posto para o tucano José Serra em 2004, apesar de ter feito uma gestão bem avaliada pelos paulistanos. Derrotada, deixou a sede da municipalidade com aprovação de 48% do eleitorado.

Marta perdeu quando tinha certeza da reeleição. Diz que está satisfeita no Senado, mas sente que deixou um trabalho inconcluso. Não há dia em que a ex-prefeita não pense no apelo que Lula lhe fez para retirar sua pré-candidatura, sob a alegação de que ela é importante no Senado. Marta não vê como disputar uma eleição contra a vontade de Lula. Mas pesquisas como a divulgada ontem pelo Datafolha, na qual aparece 11 pontos à frente do tucano melhor colocado (José Serra) reforçam a intenção de se manter no páreo.

Ex-prefeita está disposta a enfrentar Lula por 2012

A mesma pesquisa, por sinal, aponta para a fragilidade de Fernando Haddad: muito embora 40% do eleitorado paulistano tenha manifestado disposição para votar em alguém indicado por Lula, é baixa a intenção de votos em Haddad – 2%. Fernando Haddad já é reconhecido por parcela da população como o “homem de Lula”.

Sem Marta, o time do PT para as eleições de 2012 na maior cidade do país está repleto de candidatos infanto-juvenis como Jilmar Tatto e Carlos Zarattini, mesmo caso de Haddad, a menos que Lula consiga fazer pelo ministro da Educação o milagre da multiplicação de votos que fez com Dilma. Lula será capaz de repetir em São Paulo o que fez com Dilma em praticamente todo o país?

A pergunta que se faz é por que Lula insiste com Fernando Haddad: se é capaz de eleger um ministro que atravessou dois governos sob crítica cerrada, o ex-presidente poderia fazer o mesmo com Marta. O problema seria que Marta “tem teto” e dificilmente ganharia a eleição. Ela costuma refutar: sua rejeição (30%, segundo o Datafolha) não é muito diferente daquela exibida por José Serra (30%) – aliás, ela está convencida de que Serra vai remanchear, mas ao final será o candidato do PSDB a prefeito. “As pessoas se repetem”, costuma dizer a ex-prefeita paulistana.

Os argumentos usados por Lula não convenceram Marta, até agora. Até onde se sabe, o ex-presidente elogiou seu trabalho no Senado e disse que ela tem muito a contribuir com o governo da presidente Dilma Rousseff. Marta insistiu, com os correligionários com os quais se reuniu na véspera do encontro do PT, que não tem outro interesse, no momento, a não ser a prefeitura. Circula no PT que ela “joga alto” a fim de tentar, ao menos, beliscar um ministério. Ideia repudiada, entre outros, pelo presidente do partido, deputado estadual Rui Falcão.

É difícil entender as motivações de Lula, nem o ex-presidente diz claramente que Haddad é seu candidato. Seu lugar-tenente Luiz Marinho se encarrega disso. Além de Haddad, Lula provavelmente terá outro aliado na eleição para a prefeitura de São Paulo: Gabriel Chalita (PMDB). O candidato, entre os dois, que perder deve apoiar o outro no segundo turno.

Lula, na realidade, precisa de um PT para chamar de seu na capital de São Paulo. Este não é o caso de Marta Suplicy, considerada independente demais. Em 2006 o ex-presidente jogou todas as fichas na candidatura ao governo estadual de Aloizio Mercadante, atual ministro da Ciência e Tecnologia, para o governo do Estado. A adversária de Mercadante à indicação do PT era Marta.

Para 2014, o nome cultivado por Lula para o Palácio dos Bandeirantes é Luiz Marinho, atual prefeito de São Bernardo e afilhado político do ex-presidente desde a época sindical – Marinho foi o sucessor de Lula na presidência da CUT. Com um aliado na prefeitura, Lula terá percorrido mais da metade do percurso necessário para emplacar um candidato a seu gosto para o Palácio dos Bandeirantes. Outra opção é Mercadante, que ontem abandonou a disputa municipal mas se considera no páreo para 2014.

Deputados ligados a Marta acham que o pior cenário para Lula, em 2014, é um prefeito do PT independente em São Paulo, como seria a eleição da ex-prefeita. Até mesmo para a hipótese de ele vir a ser o candidato do PT às eleições presidenciais de 2014, insinuação que o ex-presidente tentou afastar na reunião do congresso petista, mas sem muito êxito.

A pergunta que se faz é: e se Dilma estiver bem no governo, o que é esperado diante das perspectivas de desempenho econômico do país? Por mais modesto que seja o crescimento, o cenário atual é que o país estará melhor que Europa e EUA. Neste caso, o ex-presidente não terá o discurso, mas sempre terá o PT, e a maioria dos aliados que hoje se encontram na condição de “viúvas do Lula”. Se Dilma estiver mal, sabe-se que há setores dos movimentos sociais prontos para colocar na rua a campanha “Volta, Lula”. O ex-presidente só precisaria estalar os dedos.

No PT há quem esteja desconfiado da existência de uma combinação entre Lula e Dilma a respeito a sucessão, pela qual Lula seria o candidato em 2014. No grupo sindicalista mais próximo de Lula afirma-se que não há nada no atual governo feito em desentendimento entre Lula e Dilma. Até a aproximação com Fernando Henrique Cardoso teria sido feita de comum acordo. Uns poucos privilegiados que tiveram a oportunidade de ouvir o assunto ser comentado na frente de Dilma afirmam que ela apenas dá a entender que não existe combinação.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

E-mail raymundo.costa@valor.com.br

06/09/2011 - 09:19h PT prepara máquina para dar vitória a Haddad caso prévia seja inevitável

Ex-prefeita Marta Suplicy, animada com liderança em pesquisa, afirma que sua pré-candidatura ”não esmoreceu”; para o presidente do partido em São Paulo, ”o cenário é de prévia”, mas ministro Aloizio Mercadante já avisa que não vai disputar

Clayton de Souza/AE
Proximidade. A senadora e ex-prefeita Marta Suplicy (PT) coordenou seminário ontem na capital para o qual o prefeito Gilberto Kassab (PSD) foi convidado - Clayton de Souza/AE
Proximidade. A senadora e ex-prefeita Marta Suplicy (PT) coordenou seminário ontem na capital para o qual o prefeito Gilberto Kassab (PSD) foi convidado


06 de setembro de 2011

Iuri Pitta, Fernando Gallo e Daiene Cardoso – O Estado de S.Paulo

AGÊNCIA ESTADO

A direção do PT paulistano aposta na realização de prévias para a escolha do partido, a despeito dos esforços do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para emplacar a candidatura consensual do ministro da Educação, Fernando Haddad, à Prefeitura de São Paulo. Com esse cenário, dirigentes já articulam nos bastidores o fortalecimento da corrente majoritária do PT nacional, a Construindo um Novo Brasil (CNB), para garantir a vitória de Haddad caso a disputa interna seja mesmo inevitável. A CNB, corrente de Lula, não repete, na capital paulista, a hegemonia nacional.

O campo majoritário vai fechar questão em favor da candidatura de Haddad no dia 19. No dia 12, tornará pública a adesão de petistas de outras correntes, entre eles o vereador Francisco Chagas, o deputado estadual José Zico Prado, e o ex-vereador Paulo Fiorillo. Com um volume expressivo de migrações, a CNB, que é a terceira força na capital, poderá assumir a liderança num processo de eleição interna.

“O cenário hoje é de prévia”, previu o presidente do PT municipal, vereador Antonio Donato. Segundo ele, o nome do candidato do PT só deverá ser definido em 27 de novembro, data marcada para a disputa interna.

Força. “Não vejo a minha pré-candidatura esmorecer. Eu vejo minha candidatura forte”, afirmou ontem a senadora e ex-prefeita Marta Suplicy, embalada pelos resultados da pesquisa Datafolha divulgada ontem, em que lidera todos os cenários. Os dados deram força à candidatura da petista, que havia dado sinais nas últimas semanas de que poderia desistir.

Numa eventual disputa com o ex-governador José Serra, Marta aparece na frente com 29%, ante 18% do tucano. Entre os entrevistados na sondagem, 59% acham a ex-prefeita a melhor candidata do PT, e outros 20% citam Haddad. O ministro aparece com apenas 1% ou 2% das intenções.

“Fui para o segundo turno em todas (as eleições municipais) que disputei. Perdi as duas últimas, mas são situações de conjuntura”, disse a senadora, que coordenou ontem em São Paulo um seminário sobre as metrópoles no Brasil do século 21, para o qual convidou dois oposicionistas, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) e o secretário estadual de Desenvolvimento Metropolitano, Edson Aparecido (PSDB).

Apesar da larga vantagem de Marta na pesquisa, a avaliação dos petistas é que ainda é muito cedo para fazer qualquer previsão. Além disso, 40% dos entrevistados disseram que votariam no candidato do ex-presidente Lula, o que daria expressiva vantagem a Haddad. Também pesa contra Marta o alto índice de rejeição, de 30%.

“A posição do Lula sempre influi, porque o Lula é o grande líder do partido. Mas a gente tem que deixar o processo acontecer. O processo é soberano, e a conjuntura determina”, afirmou Marta, que disse que seu recall não é de participação em eleições, mas de “obras feitas na cidade”, em uma indicação indireta de que seu principal oponente não tem o mesmo a mostrar.

“É uma característica do Lula pensar e propor ações. Às vezes dão certo, às vezes não dão. É bom ter um líder que consegue propor ações que o partido pode aceitar ou não aceitar, mas é alguém que está sempre pensando. E que sempre está inovando, está tentando buscar soluções”, disse a senadora.

Mercadante. O ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, afirmou ontem que está fora da disputa à Prefeitura. “Acho que vou ajudar mais o Brasil na condição de ministro, mesmo porque em São Paulo temos excelentes candidatos”, disse Mercadante, após reunião de mais de três horas com os vereadores petistas ontem. De acordo com ele, a presidente Dilma Rousseff lhe pediu para comunicar formalmente ao PT paulistano de que continuaria à frente do ministério.

“A presidente Dilma Rousseff pediu para que eu ficasse no governo porque considerava meu trabalho de excelente qualidade e que eu teria muito apoio neste ano que vai começar”, relatou o ministro petista.

Mercadante contestou a preferência de Marta no PT e deu demonstrações de apoio à candidatura de Haddad. “Nas pesquisas, ela (Marta)é quem aparece mais bem posicionada. Mas já houve eleições, no passado, em que quem saiu na frente não ganhou e, em que quem tinha uma posição inferior, na mesma etapa da pesquisa, ganhou a eleição.”

Correntes. O campo majoritário (CNB) ficou em terceiro lugar no último Processo de Eleição Direta (PED) na capital, em novembro de 2009, com 23,1% dos votos. Com a vinda dos novos integrantes, os defensores da candidatura de Haddad – que é da Mensagem ao Partido (6,5% dos votos no PED) – tentam garantir à chapa cerca de 35% dos votos na prévia, e mostrar que podem ter mais força que a Novo Rumo, corrente que liderou as votações em 2009, com 36,6%.

05/09/2011 - 08:35h Marta vai ”até o fim” com candidatura, mas sem ”guerra”

05 de setembro de 2011

Julia Duailibi – O Estado de S.Paulo

Em reunião com um grupo de petistas, a senadora Marta Suplicy (PT-SP) avisou que “não quer guerra”, mas que “irá até o fim” na tentativa de viabilizar internamente a sua candidatura para a Prefeitura de São Paulo no ano que vem.

Em jantar com quatro parlamentares do PT em um restaurante de Brasília na sexta-feira, a ex-prefeita paulistana afirmou que, mesmo sem o apoio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, trabalhará para vencer as prévias internas do PT, marcadas para o final de novembro.

Marta disse ainda ao grupo ter ficado “recolhida” nestes últimos dias para evitar a ideia de que estaria promovendo um “confronto” com Lula.

O ex-presidente articula com outras lideranças petistas a candidatura do ministro Fernando Haddad (Educação). Em reunião com Marta há 15 dias, o petista não pediu a ela que retirasse a pré-candidatura, mas declarou achar importante que continuasse no Senado em 2012.

Acuada no PT em razão das articulações de Lula pró-Haddad, Marta chamou para jantar os petistas que veem com bons olhos sua candidatura: o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza, os deputados João Paulo Cunha e José Mentor e o deputado estadual João Antonio.

Marta também disse que pretende retomar a participação nas plenárias pela capital, organizadas pelo partido para debater temas da eleição do ano que vem. Avisou, no entanto, que não será sempre que poderá participar dessas reuniões internas.

A ausência da senadora nos últimos encontros do partido pelos diretórios zonais do PT levantou a suspeita de que ela iria desistir da pré-candidatura.

Reunião. O ministro Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia) se encontrará hoje com a bancada de vereadores do PT para discutir a eleição municipal de 2012, em um hotel no centro.

Embora seja o nome com melhor inserção no PT paulista para disputar a eleição no ano que vem, Mercadante acatou pedido de Lula e da presidente Dilma Rousseff para que continue no ministério. O ministro avisou os petistas que não será candidato.

29/08/2011 - 10:29h Lula articula apoio sindical a Haddad

Por Caio Junqueira | VALOR

De Brasília

Idealizador da candidatura do ministro da Educação, Fernando Haddad, a prefeito de São Paulo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva estruturou uma cúpula informal de pré-campanha de petistas que, como ele, são oriundos do meio sindical. Ela é formada por políticos e sindicalistas da Grande São Paulo, motivo pelo qual seus correligionários batizaram a estratégia de “Operação ABC”.

À frente deste grupo estão o prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho, e o de Osasco, Emídio de Souza, ambos ex-sindicalistas. O braço operacional é o vice-presidente estadual do PT e vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Rafael Marques.

Juntos, já conseguiram a adesão de três vereadores petistas sindicalistas de São Paulo. Alfredo Cavalcante, o Alfredinho, ex-funcionário da Ford de São Bernardo do Campo e ex-diretor do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Francisco Chagas, diretor do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas, Farmacêuticas e Plásticas de São Paulo e Região. E Carlos Neder, médico ligado ao Sindicato dos Trabalhadores Públicos da Saúde (SindiSaúde-SP).

O objetivo desse grupo é utilizar a força dos sindicatos do ABC paulista para deflagrar o movimento pró-Haddad para dentro dos sindicatos do município de São Paulo ligados à CUT e, consequentemente, para a militância petista. Esse movimento, avaliam, é necessário, tendo em vista que o ministro não tem nem grupo político dentro do diretório paulistano e nem uma militância organizada para trabalhar pelo seu nome. Por essa razão, buscaram nos municípios vizinhos com tradição sindical a capilaridade necessária para fazer crescer o nome de Haddad no PT.

“O que está havendo é dirigentes do PT com origem sindical ajudando neste primeiro movimento de levar o Haddad para os bairros, os diretórios zonais, as plenárias. Para que ele possa se apresentar e mostrar sua cara”, afirma Marques, considerado dentro do PT como homem de confiança de Luiz Marinho.

Ele inclusive articulou para que Haddad comparecesse, na quarta-feira, à 13ª plenária estadual da CUT em Guarulhos. A central aceitou, mas houve uma avaliação posterior dos petistas de que configuraria conflito de interesse, uma vez que ele teria de sair de Brasília para participar no meio da semana de um ato de sua pré-campanha.

A CUT-SP diz não ter um nome ainda para apoiar, mas é inegável que a opinião de Lula e Marinho exerce grande influência sobre os sindicatos. “Evidente que a opinião do Lula e do Marinho tem muito peso e acaba tendo um reflexo em outras pessoas. Nós sempre ouvimos o Lula e damos muito valor para as posições que ele toma”, afirma o presidente da CUT-SP, Adi dos Santos.

Tamanha é a dimensão da força-tarefa sindical em favor de Haddad que ela acabou por acirrar as divergências internas dentro do PT paulista. Lideranças do partido no Estado veem nesse movimento uma estratégia de Marinho e Emídio para, tal qual o ministro, garantirem a preferência de Lula por eles nas eleições de 2014. Por essa avaliação, Marinho busca ser o ungido de Lula para a disputa ao Palácio dos Bandeirantes, enquanto Emídio se cacifa para a única vaga que haverá no PT para o Senado.

Além da benção de Lula, ambos, segundo um petista, juntam-se agora para enfraquecer o grupo do deputado federal João Paulo Cunha para as eleições internas do PT em 2013, determinantes para a escolha dos nomes em 2014.

João Paulo sempre controlou sua corrente em São Paulo, a Construindo Um Novo Brasil (CNB). Entretanto, após ser atingido pelo escândalo do mensalão em 2005, Marinho passou a ser o quadro em ascensão da CNB no Estado. Tanto que nas eleições de 2010 Emídio se afastou dele devido às preferências de cada um nas eleições para a Assembleia Legislativa e não se empenha em angariar votos para ele em Osasco, a base eleitoral dos dois.

Um deputado ligado a Marinho, contudo, tem outra avaliação. Diz haver grande dificuldade em alguns petistas de aceitar que Lula optou por Haddad; que no horizonte está a candidatura de Emídio a presidente do PT-SP em 2013, função incompatível com o cargo de senador; e que Marinho tem chances de se candidatar a governador, mas dentro de um cenário em que o “candidato natural”, o ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, não queira se candidatar.

O próprio Emídio diz não haver qualquer projeto para 2014 por trás da candidatura Haddad: “O que há é uma discussão sobre o futuro do PT e a disputa na capital influencia toda a Grande São Paulo. Queremos um candidato competitivo e que dialogue conosco.” Segundo ele, “Haddad dialoga muito bem com um setor relutante a nós, como intelectuais e a classe média” e que “nosso problema é fazer esse diálogo e ampliar o diálogo com outros setores”.

Marta falta a um terço das caravanas petistas

Por De São Paulo

Pela segunda semana consecutiva, a senadora e pré-candidata à Prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy, faltou ontem à caravana organizada pelo PT para mobilizar a militância na capital paulista. Das dez atividades de pré-campanha já realizadas pelo partido, Marta não compareceu a três. A ausência reforçou os rumores de que a petista estaria desanimada com a falta de apoio dentro do PT e que poderia desistir de levar a disputa à prévia.

Dos cinco pré-candidatos petistas, Marta foi a única a não participar da caravana em Cidade Ademar, na zona sul. A ausência se deu poucos dias depois de a senadora conversar com a presidente Dilma Rousseff e com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre 2012. No encontro com Lula, Marta demonstrou divergências com o ex-presidente, que defendeu um nome novo em 2012 e a permanência da petista no Senado.

Ontem, a justificativa da ausência de Marta foi dada pelo senador e pré-candidato Eduardo Suplicy, que disse que ela estava com os netos. Ex-marido de Marta, Suplicy recebeu a informação por uma assessora da senadora. Apesar de não participar ontem, a petista foi aos eventos na sexta-feira e no sábado. A assessoria da parlamentar disse que ela continua candidata.

O PT pretende definir o candidato depois das 36 caravanas com a militância, evitando as prévias.

O presidente nacional do PT, deputado Rui Falcão (SP), e o presidente do diretório municipal, vereador Antonio Donato, evitaram falar sobre uma eventual desistência de Marta, mas lembraram da conversa que pré-candidatos tiveram com Lula, na semana passada, e da defesa do ex-presidente por uma nova candidatura. Ex-prefeita, Marta disputou a eleição municipal três vezes. “Ela está desanimada”, opinou o deputado federal e pré-candidato Carlos Zarattini.

O pré-candidato e ministro da Educação, Fernando Haddad, intensificou a articulação de sua pré-campanha e passou o fim de semana em reuniões com parlamentares e líderes de movimentos sociais. Haddad faltou à primeira caravana, no início do mês. Os mais assíduos são Zarattini, Suplicy e o deputado federal Jilmar Tatto, que insistem na realização de prévias. (C.A.)

27/08/2011 - 09:59h Moeda de troca

A cúpula do PT que articula a candidatura do ministro da educação Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo considera crucial o apoio de Marta Suplicy na corrida eleitoral

Gisele Vitória com Bela Megale ~ Istoé

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A cúpula do PT que articula a candidatura do ministro da educação Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo considera crucial o apoio de Marta Suplicy na corrida eleitoral. Mas para isso acredita que o governo terá que dar à senadora algum benefício para fazê-la desistir da pré-candidatura. “Um Mistério como o das Cidades ou até mesmo o da Educação podem ser alternativas. Eles têm prestígio e peso para isso”, cogita um dirigente do partido, que afirmou já ter falado sobre essa questão com o ex-presidente Lula.

23/08/2011 - 08:51h Lula ”tratora” PT e tenta tirar Marta de disputa

Ex-presidente trabalha para que senadora desista de candidatura em prol de Haddad

Evelson de Freitas/AE
Encontros. Antes de receber Marta, Lula conversou separadamente com o ministro Haddad e os deputados Zarattini e Tatto - Evelson de Freitas/AE

Encontros. Antes de receber Marta, Lula conversou separadamente com o ministro Haddad e os deputados Zarattini e Tatto

23 de agosto de 2011

Julia Duailibi – O Estado de S.Paulo

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deflagrou ontem a operação para emplacar o ministro Fernando Haddad (Educação) candidato a prefeito de São Paulo sem a necessidade da realização de prévias eleitorais no PT. Em termos práticos, a manobra significa principalmente retirar a senadora Marta Suplicy da disputa.

Lula recebeu ontem, separadamente, quatro pré-candidatos petistas – o senador Eduardo Suplicy não foi chamado. A eles defendeu o que fala nos bastidores: o PT precisa de “discurso novo” e de “proposta inovadora” se quiser vencer no maior colégio eleitoral do País. Foi a senha de que não quer Marta candidata.

A senadora foi a última a conversar com Lula. O ex-presidente não pediu a ela que retirasse seu nome da disputa. Mas tangenciou o assunto ao dizer, sem meias palavras, que achava melhor um “nome novo”. Ao deixar o encontro, Marta chegou a admitir que “a ideia de uma cara nova pode até ser boa”. Afirmou, no entanto, que pretende levar adiante a sua pré-candidatura.

“Eu falei que achava importante ouvir a opinião dele, mas que achava que era a pessoa com mais condição de disputa. Ele também não discordou. Ele tem uma teoria toda dele. Mas foi extremamente respeitoso”, disse Marta ao deixar o encontro com Lula no Instituto Cidadania.

A senadora reuniu-se na quinta-feira passada com a presidente Dilma Rousseff. De acordo com relato de petistas, a presidente teria sido direta. Disse a Marta que precisa dela no Senado para colaborar com o governo, principalmente no momento de fragilidade da base. Também não teria dado espaço para negociar um prêmio de consolação, como um ministério.

Ontem Lula reeditou a tese do Senado. Disse a Marta que era uma posição muito importante e lembrou que perdeu candidatos a governador na eleição de 2010 para eleger senadores da base.

Apesar das negativas da senadora, há na cúpula petista a expectativa de que Marta desista da disputa. A avaliação é que a ex-prefeita não levará adiante um projeto à revelia de Lula e Dilma. No final de semana, ela sequer participou das reuniões internas do PT municipal em bairros da capital para discutir pauta das eleições. Ontem, disse ter sido feito um “escarcéu” ao relacionar a ausência nas reuniões à retirada da pré-candidatura.

Sintonia. Antes de receber Marta, Lula conversou com Haddad e com os deputados Carlos Zarattini e Jilmar Tatto. O ministro deixou o encontro afirmando não trabalhar com a hipótese de desistência de Marta “neste momento”. “Estamos sintonizados”, completou.

Com os deputados, Lula não condenou as prévias, mas as classificou como um mecanismo perigoso. Citou como exemplo a eleição para o governo do Rio Grande do Sul em 2002, quando Tarso Genro e Olívio Dutra concorreram pela indicação. O PT rachou e foi derrotado.

Nas conversas com os quatro pré-candidatos, falou da construção de um leque amplo de alianças, a exemplo do que dá sustentação ao governo.

Lula avalia que o candidato do PSDB em 2012 não será José Serra. Como o tucano mira o Planalto em 2014, disse ele, não se aventuraria por um cargo que teria de renunciar novamente, como fez em 2006 e em 2010. Marta discordou da avaliação.

PRÉ-CANDIDATOS DO PT

Fernando Haddad
Ministro da Educação

Favorito de Lula para a disputa. Nas últimas semanas, apareceu ao lado do ex-presidente e de Dilma. É a aposta do PT para seduzir setores da classe média.

Marta Suplicy
Senadora, ex-prefeita de SP

É a que tem mais visibilidade. Comandou o Turismo. Seu ex-chefe de gabinete Mário Moysés foi preso na Operação Voucher. Quer disputar prévia, mas pode desistir.

Carlos Zarattini
Deputado Federal

Nome pouco conhecido, o deputado tem usado a seu favor o argumento de que é preciso apostar na “renovação”.

Jilmar Tatto
Deputado Federal

Tem o eleitorado concentrado na Zona Sul, onde fica a chamada “Tattolândia”. Foi secretário de Marta.

Eduardo Suplicy
Senador

Não foi chamado por Lula, mas quer disputar.