04/09/2009 - 20:18h “cuckold”

Mari trompé, mari heureux: le fantasme du “cuckold”

Le cuckold est un “cocu heureux”, c’est-à-dire un homme –généralement marié– qui jouit de voir sa femme dans les bras d’un ou plusieurs amants. Elle le trompe ouvertement. Et ça l’excite.

Cuckold-place

Le mot “cocu” viendrait du mot “coucou” (cuckoo en anglais). La femelle du coucou pond dans le nid des oiseaux d’autres espèces afin que ceux-ci couvent l’œuf et nourrissent son petit à sa place. De même, le cuckold met sa femme dans le lit d’autres hommes, afin qu’ils lui fassent l’amour à sa place.

Contrairement aux cocus habituels dont on dit qu’ils portent des cornes parce que tout le monde peut les voir sauf eux, les “cocus heureux” ne sont pas les derniers informés de leur infortune. Ils jouent au contraire un rôle actif dans leur propre cocufiage: ce sont souvent eux qui poussent leur compagne à avoir des rapports extra-conjugaux.

Parfois même, ils assistent aux ébats et tirent un plaisir sans nom de voir leur bien-aimée entre les bras d’un autre. Pourquoi? Dans le milieu SM, la raison invoquée est souvent humiliante: le cuckold prétend qu’il n’est pas capable de satisfaire son épouse. Il affirme qu’il est impuissant, éjaculateur précoce ou “mauvais coup”. Ce qui n’est pas forcément vrai. A l’origine de ce fantasme, il peut y avoir une forme d’homosexualité larvée. Il peut aussi y avoir le désir d’être transformé en objet sexuel dont la femme dispose à sa guise: tel jour, elle s’offrira un amant, tel autre elle préfèrera utiliser son mari comme un sextoy de substitution…

Mais la raison principale, probablement, c’est que le cuckold trouve sa femme plus désirable si elle est désirée par d’autres. C’est un fantasme qui repose sur la “triangulation du désir”: tu as plus de prix, ma chérie, quand les autres mâles te convoitent.

Tenaillé par la jalousie, le cuckold fera tout pour satisfaire lui aussi sa femme, rivalisant d’ardeur avec ses innombrables amants afin qu’elle ne le quitte pas pour un autre… S’il fallait résumer grossièrement, on pourrait définir le cuckold comme un “mari idéal”. Un homme capable d’aimer sa femme envers et malgré tous les amants, défiant ainsi les conventions morales qui assimilent les adultères à d’indignes trainées.

Le cuckold est aussi un homme tirant son plaisir de celui que sa femme éprouve, s’identifiant à elle lorsqu’elle se met à gémir et crier, partageant ses émotions. C’est aussi un homme qui met son orgueil à rude épreuve, pour le seul plaisir d’avoir –sans cesse– à reconquérir celle qu’il aime. Il met en danger son couple afin de mieux le sauver et entretient en permanence l’excitation des premiers moments, lorsqu’il n’était qu’un prétendant parmi d’autres, luttant pour obtenir la main de son élue, en compétition avec des rivaux séducteurs. Pour le cuckold, chaque jour est une déclaration d’amour.

Beaucoup de maris sont des cuckold sans le savoir: ils encouragent parfois leur femme à se faire particulièrement belle et marchent derrière elle à vingt pas dans la rue, pour regarder les passants qui se retournent ou qui la sifflent. Beaucoup de femmes sont aussi des cuckold. En anglais, on les surnomme cuckqueans. Elles aiment imaginer que leur compagnon flirte avec d’autres femmes, et l’encouragent parfois à aller plus loin, parce qu’il est doux de savoir qu’au final c’est vers elle qu’il reviendra. Il peut bien faire ce qu’il veut “ailleurs”. Les cukqueans savent qu’elles restent l’amour unique. Elles jouissent des regards envieux que leur lancent d’autres femmes. Au final, les cuckold ne sont-ils pas dans une position privilégiée? Ils possèdent un trésor dont les autres ne peuvent jouir qu’à mi-temps. Par un curieux retournement de rôle, ils parviennent même à rendre les amant(e)s jaloux(ses).

(mais…)

24/08/2009 - 20:23h Crepax – Masoch e a A Vênus de Peles

Guido Crepax foi o primeiro grande mestre dos quadrinhos eróticos. Era formado em arquitetura, mas nunca exerceu a profissão, tendo-se dedicado, ainda estudante, às artes gráficas publicitárias e à ilustração.
Em 1965 escreveu e desenhou a sua primeira história em quadrinhos, com a personagem Valentina,a bela fotógrafa cosmopolita criada à imagem e semelhança da atriz Louise Brooks, de quem Crepax era fã. Além de Valentina, outras obras suas se destacaram: baseado em histórias do Marquês de Sade fez Justine; em Arsan, fez Emanuelle; em Pauline Reage, História de O e em Sacher-Masoch, A Vênus das Peles. Isso entre muitas outras.
Adorava jazz, fez então uma homenagem para Charlie Parker em O Homem do Harlem. Não bastando tudo isso, fez adaptações para os clássicos Frankenstein, O Médico e o Monstro e Drácula.
Foi autor de outras heroínas: Bianca, Anita, Giulietta, Belinda e Francesca. No campo das artes plásticas propriamente ditas, Crepax assinou uma centena de obras, entre litografias e serigrafias.Faleceu em 2003.

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Sacher-Masoch, Um aristocrata sui generis

Masoch era de ascendência nobre. A cidade em que nasceu levava o nome de seu bisavô e o seu próprio: Léopold. Seu pai era a maior autoridade da região. Um Conselheiro com o título de cavalheiro. Algo como um prefeito e um delegado reunidos num único poder. Masoch herdou do pai a inclinação pelos prazeres do sexo? Bem, o certo é que ele foi uma figura poderosa para Masoch. Homem que amava o luxo, a caça, e não tinha pruridos em exaltar o próprio sucesso.

No século 19 a Áustria pertencia ao Império Austro-Húngaro, e os nobres falavam francês, que era considerada a língua culta. Masoch alfabetizou-se em francês e alemão. Estudou filosofia e ciências naturais. Aspirava e conseguiu tornar-se um romancista de primeira linha. Tinha um projeto literário extremamente ambicioso. Pretendia, num conjunto de 20 volumes intitulados O Legado de Caim, fazer uma síntese da condição humana em seus aspectos literários, naturais e filosóficos. Mas os homens têm a memória curta para a arte e aguçada para as perversões. Masoch retratou em seus romances suas próprias inclinações, e isso o condenou.

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Um criado para seu prazer

Em 1869, Masoch, então com 33 anos, conheceu Fanny de Pistor Bogdanoff, bela mulher, nobre como ele, e que acima de tudo o amava. Leopold lhe propõe um pacto redigido como contrato: durante seis meses ele será seu criado. Ela poderá fazer com ele o que bem entender. A única ressalva é que permita que ele continue a escrever seus romances durante três horas por dia.

O contrato era para Masoch uma forma de reinventar as relações entre homem e mulher. Havia algo de Fausto também na idéia. Um pacto onde o prazer é obtido à custa do sofrimento. Fanny estranha a proposta, mas por amor aceita. O casal empreende uma viagem pela Itália. Passeiam extasiados pelos belos e antigos cenários de Nápoles. Masoch vestido e comportando-se como um criado polonês, que acompanhasse a princesa.

Ele tinha uma fantasia. Deveriam encontrar um amante para ela, jovem e belo, que a possuísse. Eles o chamariam o Grego. Finalmente, ela pediria ao amante que chicoteasse seu criado, que se comportara mal. A primeira parte do plano deu certo. Fanny realmente conseguiu uma amante. Era uma ator chamado Salvini. Mas o rapaz se recusou a surrar Masoch. Este suplicou, beijando-lhe os pés, que o castigasse. Sem sucesso. Em seu livro A Vênus de Peles, a cena aparece inteira, e na literatura o amante não hesita em malhar o criado. O gozo é atingido.

Em seu livro, Présentation de Sacher – Masoch, o filósofo Gilles Deleuze faz o seguinte comentário: “O contrato masoquista não expressa somente a necessidade do consentimento da vítima, mas também o dom de persuasão, o esforço pedagógico e jurídico pelo qual a vítima educa seu carrasco.”

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De encontro ao seu desejo

Com A Vênus de Peles, Masoch tornou-se um escritor conhecido. A fama trouxe uma enxurrada de assédios, alguns sinceros, outros oportunistas. Um desses viria a marcar a vida do escritor. Trata-se do encontro com Wanda.

Abandonada pelo pai e vivendo em péssimas condições com a mãe, que lavava roupa para o exército, Wanda conheceu Madame Frischauer, que julgava ter razões para se vingar de Masoch. Seu filho, um jornalista corrupto, fora denunciado por Leopold. Madame Frischauer leu o livro de Masoch e percebeu sua fraqueza por mulheres dominadoras.

Obrigou Wanda, que era sua empregada, a ler o livro também. Convenceu a jovem de que Masoch a adotaria se ela encarnasse os desejos perversos dele. Fez mais. Escreveu uma carta a Masoch oferecendo seus préstimos e seu amor. Wanda assinou a missiva. Masoch engoliu a isca e respondeu assim: “Se eu tivesse a sorte de encontrar uma mulher que pudesse encarnar essa Vênus das peles, essa mulher eu amaria, eu a adoraria até a loucura, eu poderia me tornar seu escravo, mesmo que ela fosse apenas uma arrumadeira, porque só espero da mulher beleza e amor”

Wanda, a Dominadora

Quando Wanda, que em verdade chamava-se Aurora Rümelin, e foi rebatizada como Alice por Masoch percebe que ele estava fisgado, passa a sonhar com o casamento. A segurança de estar ao lado de um nobre era por demais tentadora. Havia um impedimento. Wanda usava em seus encontros uma máscara, e se dizia casada para mais inflamar o desejo de Masoch.

Ela aprendera em seus livros que o ciúme é afrodisíaco. Os encontros com uma dama comprometida tinham sabor especial para Leopold. Wanda dispõe-se a abandonar o suposto marido. Masoch era ainda noivo de Jenny. Decide-se por abandoná-la em favor de Alice/Wanda. Esse é apenas o início de seu aviltamento. Quando Wanda percebe que ele está plenamente dominado retoma a idéia do contrato.

Envia para Masoch uma carta com o seguinte trecho: “Se me ama como diz, deve assinar o texto anexo, acrescentado-lhe algumas palavras para confirmar que aceita todas as minhas condições e que dá sua palavra de honra de ser meu escravo até o último suspiro. Prove que tem coragem de se tornar meu marido, meu amante, e… meu cão.” Leopold aceita, com a condição de que ela tire a máscara.

Ele descreve assim o primeiro encontro amoroso dos dois: “Wanda: dispa-se.
Eu: tiro o casaco, quer me amarrar os pés, quer fazê-lo ela própria, amarra-me os pés e as mãos, me chicoteia; inclina-se para mim, pergunta se gosto daquilo. Volúpia. Depois aproxima seus lábios dos meus. Como quero beijá-la, ela se afasta, quer que eu lhe suplique, depois chicoteia com tanta força que mal posso suportar.”

Caso limite entre um romancista e seus personagens. Ele criou Wanda e aceita agora se tornar o escravo de sua própria criatura.

O apaziguamento.

Wanda, moça pobre que ascendeu à burguesia com o casamento, logo se tornou uma enfadonha dona-de-casa. Tiveram três filhos, sendo que o primeiro foi vítima do surto de cólera que se abateu sobre a Europa em 1873. Viveram juntos ainda durante 13 anos, quando tiveram o segundo e o terceiro filho, Alexandre e Demétrius. A separação de Wanda só veio em 1883 com a morte do filho Demetrius e o encontro com Hulda Meister, que seria sua segunda esposa.

Hulda era uma burguesa tradicional, mas amava Leopold. Deu segurança emocional a ele. Foi o apaziguamento. Masoch teve várias outras amantes, nas quais perseguiu seu ideal feminino, ou seja, mulheres fortes, autoritárias, que lhe infligiam os castigos esperados. Com Hulda teve mais 3 filhos.

Sacher – Masoch morreu em 5 de março de 1895, aos 59 anos. Seu corpo foi levado para Heildelberg e cremado, conforme sua vontade. Deixou mais de 30 romances, ensaios e contos publicados. Sua fama como amante singular ultrapassou seu gênio como escritor. Fonte Sexo e literatura

 Mais sobre A Vênus de Peles

por Caio Arias 

A primeira publicação de “Venus in Furs” data de 1870.  Após este livro em específico, Leopold Von Sacher-Masoch ganhou notoriedade e sua obra, a meu ver, começa a aparecer como “imoral”, principalmente quando, após alguns anos, o masoquismo – derivado de seu nome – entrou para o léxico psicanalítico. O romance, dizendo de forma simplista, descreve a obsessão sexual de Severin von Kusiemski, um nobre europeu com desejo de “ser escravo de uma mulher”.

 (A capa é de Gustav Klimt)

Venus in Furs deu origem a mais frutos que talvez até mesmo Sacher-Masoch pudesse crer.

A primeira versão de Venus in Furs ilustrada data de 1921, com ilustrações de Fritz Bucholz. É interessante perceber o caráter animalesco da retratador por ele.

A música do grupo Velvet Underground, de mesmo título, descrevia situações clássicas de relações sexuais que uniam dor e prazer. Sem uma mudança de acorde sequer, a faixa era ponteada pelo agudo, marcando assim, o tempo da música como um aparelho de tortura.

“Shiny, shiny, shiny boots of leather
Whiplash girlchild in the dark
Comes in bells, your servant, don’t forsake him
Strike, dear mistress, and cure his heart
Downy sins of streetlight fancies
Chase the costumes she shall wear
Ermine furs adorn the imperious
Severin, Severin awaits you there
I am tired, I am weary
I could sleep for a thousand years
A thousand dreams that would awake me
Different colors made of tears
Kiss the boot of shiny, shiny leather
Shiny leather in the dark
Tongue of thongs, the belt that does await you
Strike, dear mistress, and cure his heart
Severin, Severin, speak so slightly
Severin, down on your bended knee
Taste the whip, in love not given lightly
Taste the whip, now plead for me
I am tired, I am weary
I could sleep for a thousand years
A thousand dreams that would awake me
Different colors made of tears
Shiny, shiny, shiny boots of leather
Whiplash girlchild in the dark
Severin, your servant comes in bells, please don’t forsake him
Strike, dear mistress, and cure his heart”

Vênus de peles

Brilhantes, brilhantes, brilhantes botas de couro
Garotinha açoitada na escuridão
Vem ao sinal, seu servo, não o abandone
Golpeie, cara senhora, e cure o coração dele
Pecados felpudos das fantasias à luz do poste
Cace as roupas que ela irá vestir
Coberta de peles a dominadora
Severin, Severin o aguarda lá
Estou cansado, entediado
Poderia dormir por mil anos
Mil sonhos que poderiam me acordar
Diferentes cores feitas de lágrimas
Beije as botas de couro, couro brilhante
Couro brilhante na escuridão
Língua de tiras de couro, a correia que o espera
Golpeie, cara senhora, e cure o coração dele
Severin, Severin, fala tão parcamente
Severin, caia de joelhos
Sinta o gosto do chicote, do amor não dado superficialmente
Sinta o gosto do chicote, agora implore pra mim
Estou cansado, entediado
Poderia dormir por mil anos
Mil sonhos que poderiam me acordar
Diferentes cores feitas de lágrimas
Brilhantes, brilhantes, brilhantes botas de couro
Garotinha açoitada na escuridão
Severin, seu servo vem ao sinal, por favor não o abandone
Golpeie, cara senhora, e cure o coração dele

 

Surge Guido Crepax, criador das personagens Valentina e Anita. Foi um dos artistas que mais contribuiu para a revolução das histórias em quadrinhos dos anos 60 e 70. Criador de uma linguagem própria, o delírio, o erotismo, a liberação em oposição ao comportamento reprimido das décadas anteriores estavam claros nas criações de Crepax e com uma estética impecável trouxe novamente à vida Venus in Furs.

 Venus in Furs (Guido Crepax)

O fato é que parece haver uma força renovadora, um respiro, um refúgio que leva artistas a buscarem, das mais variadas formas, a publicação de Sacher-Masoch que, muito além de um simples conto de luxúria e “perversão” sexual ou um fantasma da decadência Vitoriana, é um apaixonado e poderoso retrato de um homem que luta para esclarecer e instruir o seu próprio mundo no domínio de seu próprio desejo.

“(…) mas de repente, ela me empurra com o pé, ergue-se e puxa uma campainha. Imediatamente três esbeltas negras talhadas no ébano apareceram, vestidas de cetim vermelho e cada uma com uma corda na mão. Compreendo agora minha situação e tento me levantar, mas Wanda, de pé, com seu belo e frio rosto de sobrancelhas escuras e olhos zombeteiros virados para mim, se impõe como senhora dominadora. Ela faz um gesto e, antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, as três negras jogam-me no chão e amarram minhas mãos e pernas, depois os braços atrás das costas, como um homem pronto para ser executado, de forma que mal posso me mexer (…)”

 

23/08/2009 - 20:35h Gozar

São Paulo, domingo, 23 de agosto de 2009
 
 

Gozar das leis

 

 

Ao repensar a obra de Sacher-Masoch, Deleuze associa o sadismo à ironia, e o masoquismo ao humor ante as regras, aceitando-as para melhor subvertê-las

VLADIMIR SAFATLE
ESPECIAL PARA A FOLHA

Sacher-Masoch: o Frio e o Cruel”, de Gilles Deleuze [1925-95], poderia parecer uma obra menor no interior de uma experiência intelectual que nos deixou livros da envergadura de “Diferença e Repetição”, “Mil Platôs” e “O Anti-Édipo”, além de comentários fundamentais sobre filósofos como Hume, Nietzsche, Spinoza, Bergson e Kant.
Lançado na França como uma grande introdução à tradução de “A Vênus das Peles”, de Leopold von Sacher-Masoch [1836-95], o texto de Deleuze, que aparece agora ao público brasileiro, pode parecer preencher apenas duas funções.
Por um lado, trata-se de reconhecer o lugar de Sacher-Masoch como grande escritor, e não apenas como aquele que forneceu seu nome a uma perversão (o masoquismo) graças ao psiquiatra Richard von Krafft-Ebing, responsável pelo mais influente tratado de desvios sexuais do final do século 19 (”Psychophatia Sexualis”, de 1886).
Deleuze insiste na importância de sua obra, composta, em larga medida, de contos baseados em material folclórico de minorias que habitavam a Galícia [no Leste Europeu], como judeus, russos, húngaros, prussianos. Da mesma forma, ele não deixará de exaltar as qualidades literárias de “A Vênus das Peles” e do outro volume que compõe o ciclo “O Legado de Caim”.

A ironia e o humor
Mas Deleuze também aproveitará o comentário de Sacher-Masoch para mobilizar um amplo aparato psicanalítico a fim de discutir a natureza do masoquismo e a incongruência de pensar uma relação de complementaridade com seu oposto, criando com isso a categoria do sadomasoquismo.
Não se trataria apenas de duas perversões distintas, mas de duas lógicas completamente diferentes na constituição do objeto do desejo e na relação à lei moral. Essas duas lógicas são descritas por Deleuze por meio de uma associação que se mostrará plena de consequências. Ela consiste em afirmar que, no interior do sadismo, encontramos uma lógica que o associa à ironia, isso enquanto o masoquismo seria a encarnação mais evidente do humor. A princípio, essas associações podem parecer gratuitas.
No entanto, elas consistem em dizer que uma perversão não é simplesmente a descrição de alguma forma de desvio em relação a um padrão de conduta sexual socialmente partilhado. Ela é uma maneira de distorcer uma lei moral da qual o próprio perverso reconhece a existência. Neste sentido, Deleuze poderá dizer que, dada uma lei que reconhecemos, há duas maneiras de não a seguir.
A primeira é através da ironia. Deleuze pode afirmar isso por lembrar do conceito romântico de ironia, onde este aparece como uma posição na qual o sujeito sempre está para além de seus enunciados. Enunciar uma lei de maneira irônica significa mostrar que seu enunciador não está lá onde seu dizer aponta. Esse recurso a um lugar transcendente seria uma maneira de evidenciar que sigo um princípio para além da lei que enuncio.
Todo o esforço de Deleuze no livro será mostrar como a posição de Sade [escritor francês, 1740-1814] em relação à lei moral pode ser compreendida a partir desse esquema.
A segunda seria através do humor. O humor visaria torcer a lei por meio do aprofundamento de suas consequências.
Não colocamos nenhum princípio de significação para além da lei moral. Mas os efeitos da lei são invertidos devido à possibilidade de torções nas designações: “a mais estrita aplicação da lei tem o efeito oposto a este que normalmente esperávamos (por exemplo, os golpes de chicote, longe de punir ou prevenir uma ereção, a provocam, a asseguram)”. Isto é Deleuze falando de Sacher-Masoch, este mesmo Sacher-Masoch em quem o filósofo vê uma insolência por obsequiosidade, uma revolta por submissão.

A paródia do desejo
Essa maneira de torcer a lei fará Deleuze insistir em que só podemos compreender o masoquismo por meio de conceitos como a paródia. Afinal, que nome poderíamos dar ao ato de firmar um contrato onde abro mão, livremente, de minha autonomia para me tornar escravo de uma dominatrix, ato absolutamente necessário no interior do cenário masoquista?
Mas, para além da descrição de uma perversão, Deleuze age como quem acredita que por meio do humor, da paródia, da passividade simulada, abre-se uma possibilidade de desdobrar a relação com o desejo, com a lei talvez mais próxima de nossa situação contemporânea. Só não esperávamos nos descobrir todos contemporâneos de Sacher-Masoch.

VLADIMIR SAFATLE é professor no departamento de filosofia da USP.


A VÊNUS DAS PELES

 

Autor: Leopold von Sacher-Masoch
Tradução: Saulo Krieger
Editora: Hedra (tel. 0/xx/11/ 3097-8304)
Quanto: R$ 19 (160 págs.)

 

 

SACHER-MASOCH – O FRIO E O CRUEL

 

Autor: Gilles Deleuze
Tradução: Jorge Bastos
Editora: Ed. Zahar (tel. 0/xx/21/2108-0808)
Quanto: R$ 29 (136 págs.

21/04/2008 - 17:11h Masoquismo ganha bar temático na Ucrânia

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Masoquismo ganha bar temático na Ucrânia em homenagem a escritor Leopold von Sacher-Masoch; atendentes portam chicotes

da BBC Brasil – Folha Online

A cidade natal de Leopold von Sacher-Masoch, o escritor e jornalista austríaco considerado o pai do masoquismo, ganhou o seu primeiro bar temático sobre o assunto. Veja vídeo.

Sacher-Masoch nasceu em 1836 em território que hoje pertence à Ucrânia, mas era parte do Império Austríaco, e ficou famoso por escrever sobre os prazeres que podem ser alcançados apanhando e sendo subjugado. O próprio termo masoquismo vem do sobrenome Masoch.

“Queremos que as pessoas saibam quem foi Sacher-Masoch, porque ele não é só o pai do masoquismo. Ele foi um autor clássico, muito moderno para a época em que viveu”, disse o empresário Yuri Nazaruk, idealizador do bar.

Uma estátua de bronze de Sacher-Masoch decora a entrada do café que virou um grande sucesso em Lviv.

Além de apresentar a história do pai do masoquismo, o café ganhou fama por seus drinques exóticos.

“O ingrediente principal do coquetel é o afrodisíaco. Usamos essa raiz, mas não vou revelar o nome. é a substância mais diferente e fundamental do drinque”, afirmou o barman.

O clima no café da cidade natal do masoquismo é completado por garçonetes e garçons atendem de chicote na mão e usam algemas para prender os clientes.

PS – É no livro Psychopathia Sexualis (publicado em 1886) que o doutor Richard von Krafft-Ebing criou o termo masoquismo para designar o que ele definiu como perversão sexual.

Leopold von Sacher-Masoch escreveu vários livros com personagens vivendo suas fantasias de submissão e castigo. Um deles, a herança de Caim deu lugar a esta performance:

The heritage of Cain – L’eredità di Caino


The Heritage of Cain is a project that was born six years ago. The starting point was the novel Venus in Fur by Leopold von Sacher-Masoch which had been discussed during the editing of a previous piece of work. The initial ideas were trasformed during the five week project. It no longer meant following a film script or a storyboard but we simply spent hours discussing the evolution of each scene and then filmed each take in a different way to the previous one in an instinctive manner. All the crew lived, ate and slept in the same house just a few hundred metres from the set itself; an industrial warehouse on the outskirts of a small village in the province of Verona. The sharing of life and work led to an intimacy both free and devoid of compromise which was crucial to the project. Each one of us was allocated several tasks to carry out from erecting the scenery, charging the generator, cleaning the set, organising the meals, attending the actors to the quest of ensuring that every minor detail related to a scene went well.

The collaboration with Filippo Timi extended far beyond is mere role in the film, making a deep impression on the general vision of the movie.

The direction of the movie was born almost spontaneously and the editing – despite a thousand difficulties – is enabling us to reveal the profound nexus that throbbed strongly during the shooting.

Filming took place in a completely black space with a black and white chequered floor and very few white scenery objects. The film narrates the relationship between the leading character, Leopold von Sacher-Masoch, and four women: Wanda von Dunajev (the Venus in Fur), Anna Klauer (a single prostitute), the Maid (almost a mother figure), and the Contess Aunt Xenobia (the first sexual impulse). Haidée – both the leading character’s delirious alter ego and instigator of events – accompanies his host untill he awakens the deepest truth of each one of the characters. Haidée’s dream reveals the characters’ truths, lies, memories, projections, fears and sufferings in a context which is more emotional than narrative.

We were attracted by Leopold von Sacher-Masoch’s imagination and freedom in expressing love. His extreme diversity – reinterpreted and rethought through images – became the submissive or accelerated breath of that Haidée that exist in each one of us. A kind of intimate and extremely personal truth that is asking to be let out and to devote itself. Sacher-Masoch has made this voice the reason of his writing and his vision has unleashed ours.