14/02/2008 - 15:50h O criminal de Trelew foi preso
Após tentativa de fuga da prisão de Trelew, os presos políticos se renderam. 2 dias depois foram fuzilados
O militar assassinou a sangue frio 19 presos políticos na cárcere de Trelew, no sul de Argentina. Foram fuzilados na própria prisão, sem julgamento e indefesos.
Preso argentino acusado de massacre
Capitão da Marinha que ordenou a execução de guerrilheiros em 1972 foi localizado pela polícia em Buenos Aires
Ariel Palacios – O Estado de São Paulo
Os segredos mais bem guardados da Marinha argentina – o rosto atual e o paradeiro do capitão da reserva Luis Emilio Sosa – acabaram revelados nesta semana, após 35 anos de mistério. Na terça-feira, a polícia localizou e prendeu Sosa, responsável pelo massacre de Trelew – uma matança de guerrilheiros que, depois do fracasso de uma tentativa de fuga em agosto de 1972 de uma prisão na Patagônia, haviam se rendido aos militares na frente das câmaras de TV e de um juiz, em troca de garantias de sua integridade física. No entanto, Sosa rompeu sua palavra e, dois dias depois, deu ordens para que os guerrilheiros fossem postos num paredão e fuzilados.
Só três sobreviveram. Outros 19 morreram. Na época, o governo do general Augustín Lanusse argumentou que os guerrilheiros (que pertenciam a vários grupos, como os Montoneros e o Exército Revolucionário do Povo, ERP) tinham sido mortos durante uma tentativa de fuga.
O massacre de Trelew foi considerado uma “prévia” da modalidade de repressão que seria aplicada em grande escala poucos anos depois, a partir do golpe de 1976, que instalou a ditadura que duraria até 1983 e deixaria 30 mil civis torturados ou mortos.
Após o massacre, Sosa foi enviado para os EUA e países da América Central como adido militar. Durante a ditadura, era citado pelos torturadores como exemplo a ser seguido. Com a volta da democracia, Sosa manteve-se discreto, protegido pela Marinha. Desde 2004 – quando foram anuladas as leis de anistia aos militares (Ponto Final e Obediência Devida) -, Sosa mudou de residência uma vez por ano, para despistar a Justiça. Oficial da reserva, recebia normalmente sua pensão militar.
A localização de Sosa teve toques cinematográficos. Quando a Divisão Especial da Polícia da Província de Chubut (onde ocorreu o massacre) bateu na porta do último apartamento registrado em nome da mulher de Sosa, na Rua Áustria, no bairro portenho da Recoleta, encontrou um jovem que ficou espantado quando viu a movimentação no corredor do prédio.
Depois de explicar que o casal Sosa não residia ali desde 2006, perguntou porque o procuravam.
“Sosa é o responsável pelo massacre de Trelew”, respondeu um dos policiais. Surpreso, o jovem logo explicou que era filho de desaparecidos da ditadura e prontificou-se a encontrar o endereço da imobiliária na qual trabalhava a mulher de Sosa. Na imobiliária, o dono admitiu que era amigo de Sosa. Na seqüência, telefonou para Sosa explicando o que estava acontecendo. Poucos minutos depois, Sosa foi até a imobiliária e entregou-se.
O militar, de 73 anos, tem câncer. Mas sua doença está controlada. Ele será levado a Chubut, onde será julgado.
Os organismos de defesa de direitos humanos celebraram a detenção do militar. Segundo o Secretário de Direitos Humanos, Eduardo Luis Duhalde (sem parentesco com o ex-presidente Eduardo Alberto Duhalde), “o massacre de Trelew tem um caráter emblemático por ser o antecedente mais notório da aplicação de terrorismo de Estado aplicado durante a ditadura”. Em 1972, Duhalde era o advogado dos guerrilheiros mortos em Trelew.
