11/11/2008 - 12:09h Pesquisa revela perfil do voto em Obama

Levantamento com eleitores em todo o país mostra avanço democrata entre os jovens, independentes, mais pobres e mais ricos

 

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Marjorie Connelly, The New York Times – O Estado SP

Uma pesquisa realizada pela Edison Media Research e pela Mitofsky International com 17.836 eleitores em 300 zonas eleitorais dos EUA, além de 2.378 entrevistas com eleitores que votaram pelo correio ou antecipadamente, traçou o perfil do eleitorado americano na disputa pela Casa Branca. O levantamento ajuda a explicar a vitória do candidato democrata Barack Obama sobre o republicano John McCain.

O presidente eleito obteve vitória incontestável entre os eleitores negros, hispânicos e aqueles com menos de 30 anos. Ele fez progresso dentro de importantes grupos de indecisos, incluindo os católicos, suburbanos, independentes políticos e até mesmo entre os veteranos de guerra. Ele venceu no Meio-Oeste, onde o candidato democrata John Kerry havia sido derrotado em 2004, e conseguiu avançar entre grupos que tradicionalmente pertencem ao eleitorado republicano – brancos, conservadores, sulistas e freqüentadores da igreja.

Foi revelado um profundo abismo entre as gerações. Os eleitores com menos de 45 anos apoiaram Obama; aqueles acima dos 60 anos apoiaram McCain. O resto deles estava dividido.

A disparidade de números entre eleitores que se identificam como democratas (39%) e os que se dizem republicanos (32%) aumentou em 7 pontos porcentuais, dando aos democratas a sua maior vantagem desde 1980.

Entre os eleitores com menos de 30 anos Obama teve ampla vantagem (66% a 32%). Apenas Ronald Reagan em 1984 e Bill Clinton em 1992, cada qual com vantagem de 19% sobre o adversário, chegaram minimamente perto. Os eleitores mais velhos foram o único grupo etário que votou na sua maioria em McCain (51% a 47%). Eles apoiaram Reagan em 1984, mas passaram para o lado democrata durante a era Clinton. Em 2004, eles foram o grupo etário em meio ao qual Bush se mostrou mais forte.

Obama conquistou a maioria dos independentes (52% a 44%). Foi a primeira vez que um democrata conseguiu este resultado desde 1972. Obama obteve o apoio de 60% do eleitorado cuja renda familiar anual fica abaixo dos US$ 50 mil e da maioria dos eleitores cuja renda supera os US$ 200 mil – uma reviravolta notável para um democrata. Em 2004, o eleitorado rico era o que apoiava Bush com mais energia.

Obama obteve maioria no nordeste, Meio-Oeste e oeste. McCain ganhou no sul, onde os republicanos têm vencido desde 2000.

10/11/2008 - 19:01h Duas visões da vitória de Obama

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por Luiz Weis – Verbo Solto

Deu nos jornais. Há poucas semanas, a deputada republicana Michele Bachmann, de Minnesota, disse na televisão que estava “muito preocupada” com a possibilidade de Obama ter “idéias anti-americanas”. No dia seguinte à eleição, ela se declarou “extremamente grata por termos um presidente afro-americano”. A vitória de Obama, exultou, “foi um tremendo sinal que nós mandamos.”

Se fosse mais uma das incontáveis cenas explícitas de adesismo que os políticos se permitem o tempo todo em toda parte (Mangabeira Unger e Eduardo Paes em relação a Lula, por exemplo, guardadas as devidas), o episódio não serviria de gancho para espetar nele um comentário – ou uma provocação – sobre o que parece a este blogueiro um dos aspectos mais interessantes da eleição americana de que a imprensa mundial se ocupou, com pencas de fatos e argumentos, mas, salvo engano, sem parar para discuti-los.

A deputada, a rigor, não aderiu a Obama. O que ela queria, segundo uma interpretação, era “não ficar no lado errado da história”. Isso deve ser verdade também para aqueles americanos que, a julgar por suas manifestações dos últimos dias, sonhavam desde criancinha com a eleição de um negro para a Casa Branca – e com os quais não se devem confundir os milhões de pessoas, dentro e fora dos Estados Unidos, que torciam ardentemente por ele e acham que o mundo ficou melhor depois da maior das terças-feiras da história da América.

Mas não é nem disso que se trata exatamente. O ponto – que remete aos tais fatos e argumentos que inundaram a mídia, sem que ela os tivesse posto em debate – está no fecho da fala da senhora Bachmann.

Repetindo: “Foi um tremendo sinal que nós enviamos”.

Então lá vai: “Nós” quem, cara-pálida?

”Nós”, evidentemente, seriam os Estados Unidos da América – os seus valores de berço com os quais o país, sem distinções, se reencontrou elegendo Obama. Não foi ele próprio quem disse, no discurso de vitória, que a América “é o lugar onde tudo é possível”?

Ou, no título do editorial da edição do último domingo do Observer, de Londres: “A América restaurou a fé mundial nos seus ideais”.

Aceitar esses enunciados pelo seu valor de face implica, primeiro, passar batido pelo fato de que esses ideais – “democracia, liberdade, oportunidade e inabalável esperança”, Obama, no mesmo discurso – conviveram durante 76 anos (de 1787, quando foi promulgada a Consitutição de Filadélfia, a 1863, quando acabou a Guerra Civil) com a escravidão legal e, depois, durante mais de um século com a segregação racial, aberta ou disfarçada, em muitas partes da América.

É fato histórico que, entre abolir a escravidão e garantir a unidade das 13 colônias que viriam a formar os Estados Unidos, os “pais fundadores” escolheram a unidade.

É fato histórico ainda que eles adotaram um sistema político – o do voto majoritário, ou distrital, para a eleição do Congresso, combinado com a escolha em última análise indireta do presidente da República – concebido para barrar a ascensão ao poder das minorias, quaisquer que fossem. E adotaram um sistema eleitoral feito para desestimular os mais pobres a votar [“O voto americano visto do Brasil”, neste blog].

Mas é fato histórico também que, em matéria de liberdades individuais, a começar da mais essencial delas, a de expressão, nenhum país iguala os Estados Unidos.

O país, escreveu na semana passada o historiador holandês Ian Buruma, “representa o que o combalido mundo ocidental tem de melhor e de pior”. Pura verdade.

Em segundo lugar e mais prosaicamente, aceitar o enunciado de que “a América” elegeu Obama faria sentido se ele devesse a sua vitória a uma maioria homogênea, ou quase isso, de eleitores. Não foi assim: quem deu a Obama 65,4 milhões de votos (ante 57,4 milhões para McCain) foi uma determinada América – a coalisão de negros, jovens, mulheres e hispânicos das grandes cidades.

As pesquisas de boca-de-urna (depois da votação) revelaram que votaram em Obama 95% dos negros, 70% dos moradores das metrópoles, 66% dos jovens de 18 a 29 anos – o grande exército mobilizador de recursos e eleitores, via internet –, 66% também dos hispânicos e 56% das mulheres.

A propósito, dos eleitores de primeira viagem, 7 em 10 votaram em Obama.

Se dependesse apenas do voto masculino, não se sabe no que daria a eleição. Foram 49% para Obama, 48% para McCain. Se dependesse apenas do voto branco, daria McCain por 55% a 43%. Embora, proporcionalmente, mais homens brancos votaram em Obama do que em qualquer outro candidato democrata desde Jimmy Carter (1974), Bill Clinton incluído.

Além disso, Obama ganhou no Nordeste, no Meio-Oeste e no Oeste. Perdeu no Sul (Arkansas, Oklahoma, Louisiana, Tennessee, Missisippi, Alabama, Georgia e Carolina do Sul), embora tivesse obtido uma vitória histórica – com perdão pelo adjetivo – na Carolina do Norte.

A coalisão pró-Obama foi também uma coalisão de motivações – o que a ênfase no “voto da América” que percorre a mídia torna mais difícil discernir.

Os negros votaram em Obama, antes de tudo, porque era o primeiro deles escolhido candidato por um dos dois grandes partidos nacionais, portanto o primeiro a ter chances reais de chegar lá.

O mestiço Obama, no Brasil, seria mulato. Nos Estados Unidos de duas cores, negro. E, como tal, os negros o encamparam. Perguntado, depois da vitória, se preferia se referir a Obama como meio-branco e meio-negro, ou simplesmente negro, um barman de Washington respondeu: “Negro. Porque significa mais.”

Não menos revelador – e neste caso também por relativizar a teoria de que “a América” elegeu Obama – foi um comentário recolhido pelo correspondente do Globo em Washington, José Meirelles Passos, em Birmingham, Alabama.

“Sempre houve, no fundo, a sensação de que os negros não podiam ser parte do povo americano, e muito menos do sonho americano”, disse-lhe Jacqueline Wood, diretora-assistente do Programa de Estudos Afro-Americanos da Universidade do Alabama. “Nós estávamos sentados na cozinha. Agora passamos para a sala de visitas.”

Os jovens votaram em Obama principalmente por se identificar com o mais inspirador (“Yes, we can”) dos políticos americanos desde John Kennedy e decerto o mais singular deles: pelas origens, trajetória, personalidade, estampa – e coolness.

Também junto às mulheres funcionaram as suas “armas de atração em massa”. Com uma particularidade que, de novo salvo engano, só foi destacada na imprensa graças a um artigo no New York Times da sexta-feira, 7, pelo sociólogo jamaicano Orlando Patterson, da Universidade Harvard.

”Essa campanha, de maneira notável, foi uma reencenação da inteira e entrelaçada luta de negros e mulheres pela inclusão política”, observou. “A primeira vez que rejeitaram o seu confinamento ao papel de virtuosa maternidade na esfera privada no início da República foi ao liderar o combate muito público pela abolição da escravatura.”

As conquistas negras sempre pressagiaram os avanços femininos, lembra Patterson, “embora não sempre pelos motivos mais nobres”. Ou seja, o movimento pela emancipação das mulheres se nutria da seguinte rationale: afinal, se os negros podem votar, podem encontrar na lei proteção contra a discriminação e disputar cargos eletivos, por que não nós, mulheres?

A partir dos anos 1980, pela primeira vez desde que passaram a ter direito ao voto, as mulheres passaram a votar proporcionalmente mais do que os homens e em candidatos comparativamente mais progressistas.

”Em termos demográficos crus, o mais importante fator da vitória de Obama foi a margem de 13 pontos a seu favor no eleitorado feminino”, assinala o sociólogo.

De fato, a vantagem de Obama foi relativamente maior entre os mais jovens. Mas estes são apenas 18% do eleitorado. Vale para os hispânicos: como os jovens, 2 em cada 3 deles votaram em Obama; mas representam somente 8% do eleitorado. Já as mulheres (56% pró-Obama) pesaram mais porque são 53% do eleitorado.

E os trabalhadores brancos, aqueles a quem, nas prévias do Partido Democrata, e no seu pior momento, Hillary Clinton pediu o voto com uma mensagem que se curvava ao seu preconceito (”Hard-working Americans; White hard-working Americans…”)? O que levou sabe-se lá quantos deles a votar em Obama?

A resposta, numa palavra, parece ter sido a crise. Como se tivessem posto num dos pratos da balança o medo de ter um presidente negro, no outro o medo de ter um presidente branco incapaz de salvá-los do naufrágio econômico.

O New York Times ouviu um deles, no subúrbio de Levittown, Pensilvânia (Estado em que McCain investiu pesadamente, em vão, na reta final da campanha). O técnico em ar-condicionado Joe Sinitski disse ao repórter Michael Sokolove:

”Durante muito tempo eu não podia ignorar o fato de que Obama é negro, se é que me entende. Não me orgulho disso, mas fui criado a pensar que não há negros bons. Eu podia ver que ele é muito inteligente, e isso conta para mim, mas meu instinto ainda era o de fechar com o branco. Mas, quando ele escolheu [a governadora do Alasca] Sandra Palin para vice, com todos os problemas que a gente tem, isso não mostrou inteligência da parte de McCain. Não dizia coisa boa dele em geral.”

O interesse próprio prevaleceu sobre o racismo, em suma.

O que vai acontecer com o racismo americano não se pode prever. O lugar-comum que se encontra numa página dos jornais e na outra também é que o próprio triunfo de Obama – e a sua repercussão mundial sem paralelo – funciona por si só como um breve contra o preconceito.

Tomara. Afinal, o homem tem uma capacidade única de fazer com que as pessoas ponham para fora o que têm de melhor. A euforia dos europeus, por exemplo, é o reverso da medalha da hostilidade européia aos imigrantes, principalmente de pele escura.

Mas, nos Estados Unidos, há apenas quatro meses uma pesquisa nacional mostrou que apenas 30% dos eleitores brancos diziam ter uma opinião favorável de Obama. E mais: cerca de 60% dos entrevistados negros – e não mais de 34% dos brancos – achavam que as relações raciais no país são em geral ruins.

A pesquisa revelou que muitos padrões raciais na sociedade americana permanecem intocados nos anos recentes. Muito pouco mudou no componente racial da vida cotidiana no país desde 2000, quando o New York Times publicou uma série de reportagens intitulada “Como a raça é vivida na América”.

Exemplo: mais de 40% por cento dos negros americanos acham que foram parados pela polícia por causa da cor de sua pele, a mesmo índice de respostas da pesquisa de oito anos atrás.

”Devagar com o andor pós-racial”, escreveu na Folha o correspondente Sérgio Dávila. “Os Estados Unidos mudaram, os novos eleitores e os eleitores novos ajudaram a eleger Barack Obama – mas foi preciso uma crise econômica sem precedentes e o equivalente ao gênio negro na política concorrendo para que isso acontecesse.”

Toda eleição, obviamente, tem a sua circunstância. A desta, nos Estados Unidos, se chamou George W. Bush, atolando americanos em duas guerras, nos maiores índices de pobreza e desigualdade desde os impropriamente chamados Anos Dourados (a década de 1920), e, enfim, no colapso financeiro e na recessão.

Foi o que decidiu a parada em favor de Obama. Antes do derretimento de Wall Street, não custa lembrar, ele e McCain estavam cabeça a cabeça nas pesquisas.

Então, uma coisa é dizer que Obama encarna o que a América tem de melhor ou que a América ficou melhor com a sua vitória. Outra coisa é dizer que o resultado eleitoral comprova a excepcionalidade dos Estados Unidos, o poderio incomparável de seus valores.

A imprensa ficou devendo um debate sobre essas duas visões – um debate, em suma, sobre a democracia na América.

10/11/2008 - 16:00h Casamento gay, esquerda e caretice


Paul Sakuma/Associated Press

blog Folha na Sucessão de Bush

Vi muita gente argumentar que o sinal de vitória sobre o conservadorismo dado pela eleição de Barack Obama teria sido manchado pela derrota do casamento gay na Califórnia, na Flórida e em outros Estados.

De fato, tudo indica que os mesmos eleitores negros e latinos que votaram maciçamente em Obama também votaram em sua maioria contra o casamento gay _mas note-se, não contra a união civil de homossexuais, que continuará existindo nesses Estados, nem a favor de muitos projetos submetidos a referendo ou plebiscito que visavam restringir o direito ao aborto e que foram derrotados.

Eu acho esse raciocínio furado por dois motivos.

Em primeiro lugar, porque casamento gay nunca foi o sinal básico da diferença entre direita e esquerda em nenhuma parte. Como diz um clássico do italiano Norberto Bobbio, e como ensina a história, a diferença entre direita e esquerda é dada pela valorização de um mínimo de igualdade e justiça social como requisito para o desenvolvimento de uma sociedade verdadeiramente democrática.

Nos Estados Unidos, cuja tradição política vem dos filósofos liberais do século 18, essa valorização da igualdade é expressada no eufemismo, tantas vezes repetido por Obama em seus discursos, da “igualdade de oportunidades”. Isso é traduzido, entre outras coisas, na defesa de um sistema de impostos mais progressivo para “espalhar a riqueza”, na frase do presidente eleito a Joe, o encanador que foi tão atacada pela campanha de McCain como sinal de “socialismo”.

Os conservadores nos Estados Unidos valorizam sobretudo as chamadas “liberdades negativas”, o direito das pessoas de não serem importunadas por governos ou outros, em detrimento das “liberdades positivas”, entre elas os direitos à educação, à saúde, ao emprego. Claro que também os conservadores são os primeiros a minar as liberdades individuais que dizem prezar quando o alvo é o inimigo, seja ele “comunista” (lembrem-se do macartismo) ou “terrorista” (lembrem-se do Ato Patriótico sob Bush).

Foram os conservadores americanos que inventaram, nas “guerras culturais” a partir de Richard Nixon, que a diferença entre direita e esquerda eram os chamados “valores morais”. Com isso, tiraram o foco das mudanças que viriam a implantar na estrutura básica da sociedade, no sentido de redução das oportunidades (ou da igualdade). Hoje, os Estados Unidos têm a sociedade mais desigual entre os países ricos.

Nesse sentido, a vitória de Obama foi sim um repúdio ao conservadorismo que desde Ronald Reagan vem pregando que, se você beneficiar o topo da pirâmide econômica, a riqueza vai automaticamente se espalhar para a base, sem que sejam necessários um governo ou uma coletividade trabalhando para que isso aconteça.

Em segundo lugar, eu acho muito questionável a idéia de que os gays que querem se casar no papel estão sendo intrinsecamente “progressistas”.

Se por um lado há a idéia de igualdade de direitos, por outro eles só estão reivindicando o direito de ser conservadores, de terem a “aprovação” da sociedade.

Eu ainda sou do tempo em que casar no papel era sinal de caretice. Estou casada de fato há 20 anos com um homem que amo, tenho dois filhos quase adultos lindos, e nunca tive paciência para ir ao cartório. Nunca achei que esse ritual valesse um minuto da minha vida.

Escrito por Claudia Antunes

07/11/2008 - 15:40h California: dois passos a frente e um atrás

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Blog O biscoito fino e a massa

Em meio à comemoração, uma derrota importante
É chave não perder de vista as derrotas parciais que tivemos na noite histórica do 04 de novembro. Além da emocionante vitória de Obama, as coisas correram razoavelmente bem nas eleições para o Senado e a Câmara dos Representantes. Mas houve pelo menos uma derrota que me doeu muito. Na Califórnia, estado progressista, foi aprovada por 52,5% a 47,5% a odiosa Proposição 8, patrocinada por grupos religiosos, que estabelece que “somente o casamento entre um homem e uma mulher será reconhecido pelo estado”. Na mesma noite em que ajudou a eleger o primeiro presidente negro da história, a Califórnia deu uma banana para gays e lésbicas.

Vamos aos números.

Eu não gostaria de estar dizendo isso, mas é a pura verdade: o comparecimento massivo do eleitorado negro foi decisivo para a aprovação da proposição. Entre os brancos, o “não” ganhou por 51 x 49, mas entre os negros o “sim” goleou por 70 x 30. Entre os latinos, muito numerosos na Califórnia, o “sim” também venceu, por 53 x 47. Entre as mulheres negras, 75% votaram a favor de se retirar o direito dos gays ao casamento. O eleitorado feminino costuma ser muito mais progressista que o masculino nos EUA, mas nesta questão o voto foi praticamente idêntico. Os jovens votaram massivamente contra a proposição discriminatória. A turma com mais de 35 votou massivamente a favor.

John McCain apoiava a proposição e Barack Obama, professor de direito constitucional, se opunha. A histeria contra o casamento gay foi decisiva para a derrota de John Kerry em 2004 e, neste ano, Obama elaborou uma posição com mais nuances sobre o assunto. Ele não defende o “casamento gay”, mas também não defende casamento nenhum como matéria constitucional. Argumenta que o casamento deve ser deixado para que cada igreja resolva como queira, e que a lei do país se limite a garantir a todos os casais direitos idênticos (de adoção, propriedade conjunta, herança etc.) como elementos de uma união civil.

O problema é o raio da palavra, “casamento”.

Se você colocar numa cédula a idéia de restringir o direito de gays e lésbicas à adoção, herança etc. (ou seja, os direitos que costumam acompanhar o “casamento”), ela não passará, mesmo em estados mais conservadores. Basta definir o “casamento” como “a união de um homem e uma mulher” que a proposição passa, mesmo nos lugares mais liberais. É a mesma idéia, mas dependendo de como ela for formulada, o resultado é distinto. Se, amanhã ou depois, algum grupo religioso maluco resolver emendar a constituição proibindo ateus de serem professores nas escolas primárias e secundárias, a proposição passa, mesmo nos lugares mais progressistas. Esta foi uma das chaves das vitórias conservadoras nas chamadas “guerras culturais” nos EUA: mobilizar os medos e preconceitos da maioria silenciosa.

Para que vocês tenham uma idéia do absurdo da coisa: na mesma cédula em que elegeram Obama e aprovaram a proposição 8, os californianos também aprovaram a proposição 2, que exige gaiolas mais confortáveis para as galinhas. Não, não estou brincando. Siga o link. Na mesma noite em que estabeleceu os direitos das galinhas, a Califórnia decidiu que gays e lésbicas são cidadãos de segunda classe. Este blog não tem nada contra galinhas e porcos e se opõe a quaisquer maus-tratos gratuitos de animais. Mas continua firmemente antropocêntrico.

Ainda há esperanças de que numa nova Suprema Corte – com mais um ou dois juízes nomeados pelo Presidente Obama –, proposições como a número 8 sejam definitivamente declaradas inconstitucionais. Afinal de contas, elas são um tapa na cara da décima-quarta emenda à constituição americana.

Mas essa batalha é morro acima, não há dúvidas. O blog manda seu abraço solidário a todos os seus leitores gays e lésbicas, decepcionado com essa importante derrota.

escrito por Idelber Avelar

06/11/2008 - 10:00h Após 145 anos, finalmente acabou a Guerra Civil

Obama terá dificuldades, mas poderá ser um dos grandes presidentes da história americana

Thomas L. Friedman, The New York Times * – O Estado SP

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Aconteceu que, em 4 de novembro de 2008, pouco após as 22 horas (horário da costa leste dos EUA), a Guerra Civil americana acabou quando um negro – Barack Hussein Obama – recebeu uma votação suficiente para se tornar presidente.

A Guerra Civil que, até certo ponto, foi decidida pela Batalha de Gettysburg, Pensilvânia, em 1863, terminou 145 anos mais tarde pelas urnas nesse mesmo Estado. Pois Obama conquistou a Pensilvânia, crucial para as eleições, garantindo sua vitória.

Em seu Discurso de Gettysburg, o presidente Lincoln instou cada americano a retomar “o trabalho inacabado que os que aqui lutaram promoveram até agora tão nobremente”. Entretanto, essa obra ficou inacabada por um século e meio. Pois, apesar de décadas de ativismo social, de intervenções judiciais, de leis em defesa dos direitos civis – do caso Brown contra a segregação nas escolas, da cruzada de Martin Luther King (”Eu tenho um sonho”) e da Lei dos Direitos Civis de 1964 -, não se podia dizer que a Guerra Civil tivesse acabado enquanto a maioria branca dos EUA não elegesse um presidente negro.

Foi o que aconteceu na noite de anteontem, e os americanos acordaram em um país diferente. A luta pela igualdade nunca acaba. Mas agora podemos recomeçar de um novo ponto de partida. Que toda criança, todo cidadão e todo imigrante saiba que deste dia em diante “tudo é realmente possível nos EUA”.

Como Obama conseguiu? Provavelmente, foi necessária a crise econômica para que houvesse votos brancos suficientes para eleger um negro. E o jeito calmo de Obama, sua oratória comedida e branda, sua mensagem de “mudança” desprovida de ameaças foram elementos que ele soube usar muito bem.

Mas houve também o “efeito Buffett”, que derrotou o “efeito Bradley” – pelo qual os eleitores brancos diriam a pesquisadores que votariam em Obama mas votariam no candidato branco. O efeito Buffett foi o contrário: foram os republicanos brancos que afirmaram aos colegas no restaurante masculino do Country Club que votariam em McCain e depois votaram em Obama, mesmo sabendo que isso implicaria aumento de impostos.

Por quê? Alguns fizeram isso porque perceberam que seus filhos concentraram suas esperanças em Obama e não só não quiseram frustrar essas esperanças como secretamente decidiram compartilhá-las. Outros abraçaram intuitivamente as convicções de Buffett segundo as quais, se você é bem-sucedido, é porque teve a sorte de ter nascido nos EUA. Portanto, precisamos mais uma vez arrumar nosso país – precisamos de um presidente que possa nos unir. Intimamente, também sabiam que, após a atuação desastrosa da equipe de Bush, haveria conseqüências gravíssimas para o Partido Republicano. Eleger McCain agora significaria premiar a incompetência, zombar da confiança no governo e desencadearia uma onda de cinismo nos EUA.

Obama será sempre nosso primeiro presidente negro. Mas conseguirá ser um dos nossos grandes presidentes? Ele terá sua chance, pois nossos maiores presidentes são os que assumiram o cargo nos momentos mais sombrios. “Assumir em um momento de crise não garante a grandeza, mas pode ser uma oportunidade para alcançá-la”, disse o especialista em filosofia política Michael Sandel, da Universidade Harvard. “Foi o que aconteceu com Lincoln, Franklin Delano Roosevelt (FDR) e Truman.” Entretanto, parte da grandeza de FDR “foi o fato de ele ter criado uma nova filosofia política aplicada ao governo – o New Deal – a partir dos destroços e da desordem política da depressão econômica herdados do antecessor”. Obama precisará proceder do mesmo modo, mas isso leva tempo.

“FDR não disputou em 1932 tendo como plataforma o New Deal”, disse Sandel. “Seu programa baseava-se no equilíbrio do orçamento. Assim como Obama, ele não assumiu a presidência com uma filosofia de governo claramente elaborada.”

Bush & Co. não acreditaram que o governo pudesse ser um instrumento do bem comum. Castraram os secretários de gabinete e nomearam incompetentes para cargos importantes. Para eles, a busca do bem comum não passou da busca do interesse próprio. Os eleitores rebelaram-se. Mas houve também uma rebelião contra uma versão democrata tradicional do bem comum – que é a soma de todos os grupos de interesse que reivindicam sua fatia do bolo.

“Nesta eleição, o público americano rejeitou esses conceitos mesquinhos de bem comum”, afirmou Sandel. Mas uma nova política do bem comum não pode dizer respeito apenas ao governo e aos mercados. “Também terá de dizer respeito a um novo patriotismo – do que significa ser cidadão”, disse. O que arrancou os maiores aplausos em seu discurso de agradecimento foi a afirmação de que todo americano terá a possibilidade de freqüentar a universidade desde que preste um período de serviço à nação – no Exército, nos Peace Corps ou na comunidade. “A campanha de Obama despertou um idealismo civil, a fome de servir a uma causa maior do que eles próprios.”

Nada disso será fácil. Mas, de todas as mudanças que a presidência de Obama inaugurará, a ruptura com nosso passado racista será talvez a menor. Há muito trabalho a fazer. A Guerra Civil acabou. É hora de reconstruir.

*Thomas Friedman é colunista

04/11/2008 - 19:32h Eua: o mapa eleitoral antes do voto

The Electoral Map: Key States

By ADAM NAGOURNEY, JEFF ZELENY AND SHAN CARTER

November 4, 2008


04/11/2008 - 19:13h Acompanhe os resultados das eleições nos Estados-Unidos

O site do jornal The New York Times permite de acompanhar em tempo real a apuração dos votos nos Estados-Unidos, os números de delegados por Estados etc. A janela é automaticamente atualizada. Basta clicar aqui

http://www.uh.edu/~dsocs3/images/American_Flag_2.jpg

31/10/2008 - 10:50h Preconceituoso? Quem, eu?

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Nicholas Kristof – O Globo

No último ano e meio, uma equipe de professores de psicologia conduziu experimentos sobre como os americanos vêem Barack Obama sob o prisma da raça. Eles usaram uma técnica comum, o teste de associação implícita, para medir se as pessoas viam Obama e outros candidatos como mais estrangeiros ou mais americanos. Descobriram que os entrevistados — particularmente ao serem levados a pensar em Obama como um candidato negro — subconscientemente o consideraram menos americano do que Hillary Clinton ou John McCain.

A pesquisa indica que o alvo do estudo — estudantes de ensino superior da Califórnia, muitos dos quais apóiam Obama — inconscientemente o percebe menos americano do que o expremier britânico Tony Blair.

Não é que algum deles realmente acredite que Obama seja estrangeiro. Mas o teste mede a forma como a mente trabalha, e, ao seguir instruções para classificar imagens rapidamente, o cérebro se recusa a aceitar um candidato negro como completamente americano.

O resultado é importante: quanto mais dificuldade a pessoa tem em classificar Obama como americano, menos provável que vote nele.

É fácil ser cético sobre esse estudo, então teste seus preconceitos inconscientes em https://implicit.harvard.edu/implicit/demo ou em http://backhand.uchicago.edu/Center/ShooterEffect.

Raça é um tema controvertido nos EUA, particularmente no contexto desta campanha.

Muitos eleitores de Obama acreditam que seu candidato estaria muito à frente se não fosse pelo racismo, enquanto eleitores de John McCain acreditam que se Obama fosse branco nem teria sido considerado para a Presidência.

Alguns pesquisadores relacionam atitudes raciais a um benefício na época da evolução.

Devia haver uma vantagem evolutiva em reconhecer instantaneamente se um estranho era da própria tribo ou um inimigo. Há evidências de que a amígdala, centro no cérebro para emoções, emite um sinal de alerta ao perceber pessoas “diferentes”.

Apesar disso, nossos preconceitos são em sua maior parte culturais. Uma razão para achar isso é que muitos negros inconscientemente têm preconceitos pró-brancos. Evidências sugerem que, embora a maioria dos americanos aspire a oportunidades iguais para todos, nossas mentes não são tão igualitárias assim.

“O estudo revela a brecha entre nossas mentes e nossos ideais”, disse Thierry Devos, professor da Universidade Estadual de San Diego que conduziu a pesquisa junto com Debbie Ma, da Universidade de Chicago.

Pesquisas mostraram que a maioria dos americanos, incluindo latinos e de origem asiática, associam a idéia de americano com a pele branca.

Alguém pode argumentar que Obama é registrado como forasteiro em nossas mentes devido ao pai queniano. Mas experimentos chegaram ao mesmo resultado com esportistas negros. Além disso, Devos descobriu que quando se pediu aos participantes para se concentrarem na idade dos candidatos ou no partido, Obama e McCain foram percebidos como igualmente americanos.

Foi apenas quando as pessoas foram estimuladas a se concentrar na cor da pele que perceberam Obama como um estrangeiro.

Esta eleição cria a oportunidade para uma conversa adulta sobre as turvas complexidades sobre raça, em parte porque, quando as pessoas são despertadas para preconceitos inconscientes, têm a oportunidade de superá-los.

18/10/2008 - 15:00h Vamos falar de gastos públicos

Paul Krugman * – O Estado de São Paulo

O índice Dow Jones está subindo até as alturas! Não, está em queda livre! Não, está em forte alta! Não, está…

Deixemos isso de lado. Enquanto o mercado de ações maníaco-depressivo domina as manchetes, a história mais importante está nas desanimadoras notícias sobre a economia real. Agora, está claro que o resgate dos bancos é apenas o começo: a economia não-financeira também precisa desesperadamente de ajuda.

E para oferecer essa ajuda, teremos de deixar de lado alguns preconceitos. Na política, está na moda falar contra os gastos do governo e exigir responsabilidade fiscal. Mas no momento, um aumento nos gastos do governo é exatamente o que o médico receitou e a preocupação com o déficit orçamentário deve ser adiada.

Antes de chegar nesse ponto, vamos falar da situação econômica. Nesta semana, aprendemos que as vendas no varejo despencaram de um precipício e o mesmo ocorreu com a produção industrial. O número de desempregados está num patamar associado a recessões graves e o índice de manufaturados medido pelo escritório do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) da Filadélfia está caindo no ritmo mais rápido em quase 20 anos. Todos os sinais apontam para um declínio econômico terrível, brutal e longo.

Quão terrível? A taxa de desemprego já está acima dos 6% (e critérios mais amplos de medição do desemprego já registram valores de dois dígitos). É agora praticamente certo que o desemprego vá superar os 7% e, possivelmente, até os 8%, fazendo desta a pior recessão do último quarto de século.

E quanto vai durar? Poderia de fato durar bastante tempo.

Pense no que houve na última recessão, que se seguiu ao estouro da bolha tecnológica do fim dos anos 1990. Na superfície, as medidas elaboradas em resposta àquela recessão parecem uma história de sucesso. Apesar do medo de que os EUA experimentassem uma “década perdida” ao estilo japonês, isto não ocorreu: o Fed foi capaz de construir uma recuperação por meio de cortes nas taxas de juros.

Mas a verdade é que durante um bom tempo a situação americana esteve muito parecida com a japonesa: o Fed enfrentou dificuldade até obter mais tração. Apesar dos repetidos cortes nas taxas de juros, os quais acabaram levando a taxa sobre os fundos federais até apenas 1%, a taxa de desemprego continuou a subir; foram mais de dois anos até que o cenário dos empregos começasse a melhorar. E quando finalmente chegou uma recuperação convincente, isto se deu apenas porque Alan Greenspan conseguiu substituir a bolha tecnológica por uma bolha das moradias.

Agora a bolha das moradias explodiu, deixando a paisagem financeira repleta de destroços. Mesmo que funcionem os esforços atuais para o resgate do sistema bancário e para o descongelamento dos mercados de crédito – e apesar de ainda estarmos nos primeiros dias, os resultados iniciais foram desapontadores – é difícil de imaginar que ocorra uma recuperação nas moradias tão cedo. E se há uma outra bolha esperando, ela não é óbvia. Desse modo o Fed enfrentará dificuldade ainda maior em conseguir tração desta vez.

Em outras palavras, não há muito o que Ben Bernanke possa fazer pela economia. Ele pode e deve cortar ainda mais as taxas de juros, mas ninguém espera que isso faça mais do que oferecer um discreto estímulo econômico.

Por outro lado, há muito que o governo federal pode fazer pela economia. Ele pode oferecer benefícios mais extensos aos desempregados, o que ao mesmo tempo ajudaria as famílias em dificuldade e põe dinheiro nas mãos de pessoas que provavelmente vão gastá-lo. O governo pode oferecer ajuda de emergência para os governos estaduais e locais, para que não sejam obrigados a realizar grandes cortes de gastos que ao mesmo tempo degradam os serviços públicos e destroem empregos. Ele pode comprar hipotecas (mas não pelo seu valor de face, conforme propôs John McCain) e reestruturar os termos da dívida para ajudar as famílias a permanecerem em suas casas.

E essa seria também uma boa época para se envolver em grandes gastos com infra-estrutura, coisa que o país precisa muito, seja como for. O argumento habitual contrário às obras públicas enquanto estímulo econômico diz que essas demoram muito para ficar prontas: quando finalmente começar o conserto daquela ponte e a substituição daquela ferrovia, o declínio já terá acabado e o estímulo não será mais necessário. Bem, esse argumento não tem força agora, já que as chances de que este declínio termine num futuro próximo são virtualmente nulas.

Então, vamos dar início a esses projetos.

Será que a próxima presidência fará o que é necessário para lidar com o declínio econômico? Não se McCain conseguir frustrar a todos. O que precisamos agora é de mais gastos do governo – mas quando perguntaram a McCain como ele lidaria com a crise econômica, ele respondeu: “Bem, antes de mais nada, precisamos controlar essa enorme quantidade de gastos governamentais.” Se Barack Obama for eleito presidente, ele não sofrerá do mesmo tipo de oposição aos gastos públicos. Mas ele enfrentará um coro de tipos experientes em Washington dizendo a ele para ser responsável, afirmando que seriam inaceitáveis os grandes déficits nos quais o governo incorreria no próximo ano, caso faça a coisa certa.

Obama deve ignorar este coro. A atitude responsável, no momento, é estender à economia a ajuda de que ela necessita. Agora não é hora de se preocupar com déficits orçamentários.

*Paul Krugman escreve para o ‘The New York Times’

16/10/2008 - 09:14h Os deuses que fracassaram

http://markjberry.blogs.com/way_out_west/Deconstruction.jpg

Harold Meyerson* – O Globo

Em 1949, escritores famosos escreveram ensaios explicando por que não eram mais comunistas, reunidos no volume “O Deus que fracassou”.

Hoje, intelectuais conservadores talvez considerem escrever sobre os fracassos de sua amada divindade: o capitalismo sem regulação.

A queda do sistema financeiro tem sido tão rápida e ampla que não houve tempo para considerar suas implicações para a teoria econômica que reinou nos últimos 30 anos. No que exatamente economistas conservadores acreditam, agora que seu deus está morto? Não nos surpreende ver um desorientado John McCain. O que ele deve fazer? Admitir que a crença de Ronald Reagan e Margaret Thatcher no capitalismo sem regulação, no qual todo candidato republicano apoiava até o último inverno, desmoronou? Na verdade, a crença da auto-suficiência do mercado também teve apoio de importantes democratas. Nos anos 90, o republicano Alan Greenspan e o democrata Robert Rubin agiram para que o mercado de derivativos seguisse sem regulação, apesar de Warren Buffett e George Soros terem alertado para o risco.

Se o colapso dos mercados deixou o conservadorismo em farrapos, deu aos liberais a tarefa de construir uma economia mais sustentável. Foram os liberais do Congresso que insistiram que o governo deveria ter poder para adquirir participações em bancos.

Agora, liberais devem ficar atentos ao tipo de nacionalização financeira que estão prestes a adotar. Henry Paulson (secretário do Tesouro dos EUA) quer injetar recursos públicos em bancos, mas continuar confiando nosso sistema aos banqueiros que nos colocaram nessa situação.

Esses bancos não deveriam incluir membros do governo em seus conselhos de administração para evitar as mesmas besteiras? A atual crise de ideologia não está confinada à doutrina do laissez faire. A crença no equilíbrio do orçamento se tornou sem sentido com a economia se encaminhando para uma recessão. Com bancos parando de emprestar, empresas demitindo funcionários, governos locais e estaduais suspendendo serviços, proprietários de imóveis com dívidas recordes e consumidores reduzindo compras, um maciço estímulo federal é o que separa a nação de uma calamidade econômica.

McCain e Obama discordam no que se refere ao papel do governo no estímulo à economia.

Tendo passado a vida defendendo políticas que levaram ao “derretimento”, McCain agora defende políticas que transformarão recessão em depressão. Ele pode ter suas crenças, mas a nação não pode rezar no altar desses deuses que fracassaram.

*HAROLD MEYERSON é colunista do “Washington Post”

12/10/2008 - 14:46h O mapa das eleições norte-americanas feito pelo jornal Le Monde

O mapa publicado pelo jornal francês, Le Monde, permite de acompanhar as intenções de voto nos Estados-Unidos, por Estado. A eleição presidencial é indireta, os eleitores escolhem por Estado os seus representantes no Colégio Eleitoral Federal que elege o Presidente. Pelas últimas pesquisas Mc Cain (Republicano) contaria com 163 delegados e Obama (Democrata) 338. Os indecisos seriam 37.

Les élections américaines à la carte
LEMONDE.FR | 29.09.08 | 19h23   •  Mis à jour le 06.10.08 | 19h07

10/10/2008 - 07:27h “Poderemos ter uma depressão global”

FOLHA SP – ENTREVISTA  NOURIEL ROUBINI

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Economista que previu crise diz que sistema financeiro precisa mudar para evitar “derretimento total”

SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON

Na segunda-feira, Nouriel Roubini escreveu que o governo norte-americano deveria organizar um corte coordenado de juros nas principais economias mundiais e o Federal Reserve, o banco central do país, tinha de fazer empréstimos de curto prazo diretamente para as empresas. Na terça e na quarta, as duas medidas foram anunciadas. Você sabe que a crise é realmente grave quando um economista conhecido pelo apelido de “Sr. Apocalipse” começa a ser ouvido pela Casa Branca.
Profissional do meio que mais acertos fez em relação à crise atual, Roubini falou à Folha por telefone na tarde de anteontem. Sotaque de mafioso de filme B de Hollywood -filho de judeus iranianos, nasceu na Turquia, morou na Itália e vive em Nova York-, disse que toureava 300 pedidos de entrevista que chegaram apenas naquele dia. Ele acha que o mundo corre o risco de uma depressão, e o Brasil, de crescer menos de 3% (leia texto nesta página). Leia trechos da entrevista.

FOLHA – Depois de os 12 passos que o sr. previu em fevereiro para a crise atual se cumprirem, o que podemos esperar para o 13º?
NOURIEL ROUBINI
– Bem, há duas opções. Ou promovemos uma mudança radical no sistema financeiro para evitar o derretimento completo, que é a coisa certa a fazer, ou esse sistema sofrerá colapso nos Estados Unidos, na Europa e em outros países. E poderemos ter uma depressão global.

FOLHA – O sr. vê contágio no setor corporativo?
ROUBINI
– Já começa a acontecer aqui nos EUA. Em geral, com algumas exceções, as companhias americanas não estavam tão expostas ao papéis tóxicos hipotecários. Ainda assim, nas últimas semanas, diminuiu drasticamente o acesso a crédito das empresas aqui no país, mesmo companhias avaliadas pelas agências de risco como AAA.
Com o mercado de papéis comerciais [letras de câmbio não-garantidas] praticamente interrompido e os empréstimos bancários caríssimos, não há dinheiro para que elas cumpram as obrigações do dia-a-dia. Se nem essas estão tendo acesso, imagine as que têm avaliação pior. Se isso se agravar no setor corporativo, todo o sistema pára, começaremos a ver quebras de empresas incapazes de honrar seus compromissos de curto prazo. Na minha opinião, já estamos no ponto de crise grave também aqui.

FOLHA – Isso leva à minha próxima pergunta. O sr. escreveu na última segunda um artigo em que pedia um corte coordenado de juros nas principais economias mundiais e que o Federal Reserve emprestasse diretamente para as empresas. Nos dias seguintes, as duas medidas foram anunciadas. Coincidência, é claro, mas o sr. acha que alguém no governo finalmente começou a ler suas colunas?
ROUBINI
– Eu sei que eles ouvem de fato, porque muitos deles me ligam e dizem isso. As decisões foram corretas e vão na direção certa, mas não são suficientes, muito mais tem de ser feito. Se você ler o meu artigo, eu pedia duas outras ações, que o Fed garanta que vai prover liquidez no caso de uma corrida generalizada aos bancos e que aumente sua ação para prover liquidez de curto prazo a atores não-bancários que emprestam a corporações. A primeira eu não sei quando vai acontecer, a segunda já estamos vendo aos poucos.
Outro aspecto que eu não escrevi mas que acho necessário é um programa de expansão fiscal do governo nos moldes dos da Grande Depressão, porque a demanda privada e o consumo estão sofrendo colapso, então serão necessários gastos governamentais em infra-estrutura nos níveis municipal, estadual e federal. Precisamos revisar o Plano Paulson também para que aja efetivamente nos setores imobiliário e no sistema bancário. Resumindo, ainda falta fazer muito.

FOLHA – O sr. pinta um quadro excessivamente grave. A situação é tão ruim assim?
ROUBINI
– Sim, na última semana ou dez dias, o sistema financeiro inteiro parou de funcionar, não há mais empréstimos interbancários, não há mais transmissão de liquidez entre os bancos e do sistema bancário para o sistema financeiro paralelo, que está em extinção, e começa a chegar ao setor corporativo. As Bolsas se enfraquecem a cada dia, o mercado seca e os gastos começam a diminuir. Estamos a um passo do derretimento total.

FOLHA – O sr. mencionou a possibilidade de depressão global. Quão perto estaria?
ROUBINI
– Já estamos em recessão nos Estados Unidos, na Europa, no Reino Unido, no Canadá, na Austrália, na Nova Zelândia, no Japão. Ou seja, cerca de 50% das economias globais já estão em recessão. Depois que essa se estabelecer, começaremos a ver desaceleração maciça de crescimento nas economias emergentes. O que quer dizer isso? Que teremos algum crescimento nos mercados emergentes, entre 2% e 3%, o que será uma aterrissagem dura para esses países, que necessitam de muito mais do que isso. Essa diminuição contribuirá para a queda do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) global, que pode ficar negativo.

FOLHA – E quanto durará?
ROUBINI
– Se fizermos tudo certo, o que não está garantido, deve durar entre 12 e 24 meses. Há também o risco de os EUA entrarem numa estagnação como a que atingiu o Japão.

FOLHA – E quem é o culpado , em sua opinião?
ROUBINI
– São muitos e diferentes fatores. É uma tempestade perfeita composta de dinheiro fácil, crédito fácil, baixas taxas de juros, instituições financeiras se expondo a risco excessivo, instrumentos financeiros novos e modernos, mas também exóticos e sem liquidez, cumplicidade das agências classificadora de riscos, falta de regulação e supervisão adequada por parte dos governos. Não há um só culpado, mas vários: agentes financeiros, reguladores, governantes, bancos centrais…

FOLHA – O sr. foi um dos primeiros a preverem essa crise, já em 2006. Foi chamado de catastrófico, apocalíptico e alarmista então. O sr. se sente vingado, de alguma maneira?
ROUBINI
– Vingado não é a palavra, pela quantidade de desastres que essa crise trouxe, mas eu estava seguro de que minhas análises eram plausíveis e que meus dados eram corretos, que eu tive a honestidade intelectual de manter meus pontos de vista porque sabia que estava certo. E, infelizmente, eu estava certo.

FOLHA – Por que o sr. foi quase uma exceção?
ROUBINI
– Os que fazem a política econômica tinham receio de dizer que temiam pelo futuro da economia, muitos analistas econômicos fazem previsões que procuram agradar a seus clientes, havia ainda um clima de euforia, muita gente dizendo que era um novo mundo, que seria diferente dessa vez. Muita gente dizendo que não se tratava de uma bolha imobiliária, mas de uma série de pequenos avanços…

FOLHA – O que o sr. não previu? O que o surpreendeu?
ROUBINI
– A velocidade com que os 12 passos que eu previ aconteceram. Na minha análise, o que aconteceu desde a quebra do Lehman Brothers levaria talvez dois anos.

FOLHA – O sr. trabalha numa nova série de passos?
ROUBINI
– Não, em vez de ficar prevendo desgraças novas, estou me dedicando a sugerir soluções para a catástrofe.

FOLHA – O Plano Paulson vai funcionar?
ROUBINI
– Não, falta muita coisa. Recapitalizar o sistema bancário, lidar diretamente com os mutuários inadimplentes, fazer uma triagem entre os bancos que merecem ser salvos e os que devem quebrar, muito mais tem de ser feito para que o plano funcione, e eu não vejo isso acontecendo.

FOLHA – O secretário do Tesouro, Henry Paulson, e o presidente do Fed, Ben Bernanke, parecem estar sempre um passo atrás dos acontecimentos.
ROUBINI
– Sim, atrás da curva, e isso prejudica até as ações positivas que eles tomam. Muitas vezes os mercados têm reagido mal a boas iniciativas, porque chegam tarde.

FOLHA – O próximo presidente vai encarar o pior da crise. Qual a diferença fundamental entre a política econômica do democrata Barack Obama e a do republicano John McCain?
ROUBINI
- A principal diferença é que Obama, a quem apóio, tomará ações mais decisivas para lidar com a crise, não deixará o mercado cuidar de si mesmo. Precisaremos de uma intervenção mais formal, e isso estava faltando na última gestão e continuará faltando na de McCain. Essa será a principal diferença entre os dois.

FOLHA – O sr. se incomoda de ter sido apelidado “Sr. Apocalipse”?
ROUBINI
– Não ligo. Não é que eu seja uma pessoa permanentemente pessimista em relação ao mercado, eu serei o primeiro a gritar “a crise acabou!” quando ela acabar e me tornarei um otimista. Creio, na verdade, que ainda há muitas oportunidades na economia global para que mercados emergentes cresçam num ritmo sustentável, mesmo agora. Não é uma questão de otimismo versus pessimismo. É que os eventos das últimas semanas surpreenderam até mesmo o meu pessimismo.

FOLHA – Quando o sr. se sentirá otimista?
ROUBINI
– Quando eu sentir que chegamos ao fundo do poço, o que não aconteceu. Eu vejo uma luz no fim do túnel, mas é uma locomotiva vindo em nossa direção…

01/10/2008 - 17:38h Sarah Palin é incapaz de nomear um jornal americano

Blog O Biscoito fino e a massa

A jornalista Katie Couric está entrando para a história da política americana com as entrevistas que tem feito com a candidata republicana à vice-presidência, Sarah Palin. Depois de impedir que a candidata tivesse qualquer contato com a imprensa durante semanas, a campanha de McCain liberou Palin para alguns papos com Couric. Talvez tivesse sido melhor lançar Palin aos leões do jornalismo beligerante. O massacre quiçá lhe rendesse alguma simpatia ou compaixão. Com voz macia, dicção pausada, perguntas simples (que exigiriam respostas específicas) e um grande talento para conter as gargalhadas, Couric tem levado Palin a sucessivos desastres, que deixam entrever sua assombrosa ignorância. Seleciono hoje os meus dois trechos favoritos. Este é o primeiro, em que, depois que Palin afirma que havia estado lendo muitos jornais para se preparar, Couric lhe pede que cite algum. A candidata republicana é incapaz de citar o nome de um jornal americano. Confira:

Mas o campeão realmente é este vídeo, em que, ante uma pergunta sobre o recente pacote de socorro ao setor financeiro, Palin produz um dos parágrafos mais insanos da história da língua inglesa. Acompanhe o show e depois leia a tradução exclusiva do Biscoito:

Ok, qualquer um que se proponha a traduzir isso está fadado ao ridículo, mas aí vai minha melhor tentativa:

Pergunta: Por que não seria melhor, Governadora Palin, gastar os US$ 700 bilhões ajudando as famílias de classe média que estão em dificuldades com assistência médica, moradia, gasolina e comida, para permitir que elas gastem mais e coloquem mais dinheiro na economia, ao invés de ajudar essas grandes instituições financeiras que cumpriram um papel na criação dessa bagunça?

Resposta: É por isso que eu digo que eu, como todo americano com o qual eu estou conversando, estamos doentes com essa posição em que fomos colocados. Onde são os contribuintes tentando socorrer. Mas no final das contas, o que o socorro faz é ajudar aqueles que estão preocupados com a reforma do sistema de saúde que é necessária para consertar nossa economia. Uh, ajudar… oh .. tem que ser tudo para criar empregos. Consertar nossa economia e colocá-la de volta nos trilhos. Então, a reforma do sistema de saúde, e baixar os impostos, e controlar os gastos tem que acompanhar a redução de impostos e os alívios de impostos para os americanos, e o comércio. Nós temos que ver o comércio como oportunidade, não, uh, como uma coisa competitiva e, uh, que dá medo. Temos que olhar para isso como mais oportunidade. Todas essas coisas sob o guarda-chuva da criação de empregos.

É, mes amis, é o Império, na sua marcha inexorável. Assim, não há humorista que consiga chegar perto. É um caso único, em que a paródia não necessita fazer nada além de citar o original. A literatura pós-moderna tenta há décadas, mas só Sarah Palin consegue transformar a paráfrase em paródia.

PS 1: Continua a curva ascendente de Obama nas pesquisas. Os números mais comemorados hoje foram: 1) Rassmussen dá Obama 50 x 47 em Virgínia, estado republicano; 2) Rassmussen dá Obama 49 x 47 na Carolina do Norte, estado republicaníssimo. 3) Rassmussen dá Obama por 8 pontos na Pensilvânia. Digamos o seguinte: qualquer candidato republicano que esteja atrás 8 pontos na Pensilvânia e sofrendo para empatar nos bastiões vermelhos da Virgínia e da Carolina do Norte está em sérios, sérios apuros.

01/10/2008 - 12:16h O telefonema das 3h da madrugada

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Paul Krugman* – O Estado de São Paulo

São três horas da madrugada, no começo de 2009, e toca o telefone na Casa Branca. Vários dos maiores fundos hedge (de risco) estão prestes a falir, diz a voz do outro lado da linha, e é provável que haja caos quando o mercado abrir.

Em quem você confiaria para atender a este chamado? Não estou sendo melodramático. O plano de resgate lançado no domingo é muito melhor do que a primeira proposta do secretário do Tesouro, Henry Paulson – melhor o bastante para merecer a aprovação. Mas não é o que poderíamos chamar de bom plano, e não vai pôr fim à crise. Tudo indica que o próximo presidente terá de lidar com algumas grandes emergências financeiras.

Então, o que sabemos sobre o preparo dos dois homens que acabarão atendendo a este telefonema? Bem, Barack Obama parece bem informado e sensato em relação aos problemas econômicos e financeiros. John McCain, por outro lado, me assusta.

Sobre Obama: é uma pena que ele não tenha demonstrado mais liderança no debate a respeito do pacote de resgate, optando ao invés disso por deixar o assunto nas mãos dos democratas no Congresso. Mas tanto Obama quanto os democratas estão cercados por assessores conhecedores da sua área, entre eles os experientes administradores de crises Paul Volcker e Robert Rubin.

Então temos o assustador McCain – mais assustador agora do que há algumas semanas. Já sabemos há bastante tempo que McCain não sabe muito de economia. Isto não importaria muito se ele tivesse bom gosto na hora de escolher seus assessores – coisa que ele não tem.

Lembre-se, o seu principal mentor na área da economia é Phil Gramm, um dos maiores inimigos da regulamentação, que tomou cuidados especiais nos seus dias de senador para impedir a supervisão dos derivativos financeiros – justamente os instrumentos levaram os mercados de crédito à beira do colapso. Gramm não teve mais função na campanha de McCain desde que declarou que os EUA são “uma nação de chorões”, mas ainda é cotado para o cargo de secretário do Tesouro.

E no ano passado, quando a campanha de McCain anunciou que o candidato havia reunido “uma impressionante equipe de economistas e professores para aconselhá-lo em relação à política econômica, quem era citado com destaque? Kevin Hassett, co-autor do livro Dow 36.000. Não é necessário dizer mais nada.

Agora, em boa medida a péssima qualidade dos assessores de McCain reflete o esfarrapado estado intelectual do seu partido. Será que já houve uma proposta econômica mais patética do que a sugestão feita pelos republicanos no Congresso, pedindo que tentemos resolver a crise financeira eliminando os impostos sobre ganhos de capitais? Instituições financeiras em apuros, por definição, não dispõem de ganhos de capitais para serem taxados. Mas até o presidente Bush tem procurado, no crepúsculo do seu mandato, o conselho de pessoas relativamente sensatas: não sou fã de Paulson, mas ele representa um enorme progresso em relação ao seu predecessor. A esta altura, temos a suspeita de que uma eventual presidência de McCain nos faria sentir saudades da competência da era Bush.

A verdadeira revelação nas últimas semanas, no entanto, foi o quanto a opinião de McCain sobre a economia é errática. A qualquer momento, ele parece ter opiniões muito fortes – mas poucos dias depois, ele parte numa direção completamente diferente.

Assim, no dia 15 de setembro ele declarou que “os fundamentos da nossa economia são sólidos”. Isto foi no dia seguinte à falência do Lehman, enquanto a crise financeira entrava num estágio novo e ainda mais perigoso.

Mas três dias mais tarde ele declarou que os mercados financeiros da América se tornaram um “cassino”, e disse que demitiria o chefe da Comissão de Valores Mobiliários – coisa que, aliás, não faz parte das atribuições do presidente.

E então ele encontrou um novo grupo de vilões – Fannie Mae e Freddie Mac, os credores patrocinados pelo governo. (Apesar de alguns verdadeiros escândalos dentro de Fannie e Freddie, eles desempenharam um papel pequeno na instalação da crise: a maioria dos empréstimos realmente podres veio de credores particulares.) E ele acusou moralmente outros políticos, incluindo Obama, de estarem sob a influência financeira de Fannie e Freddie; mas no final era uma empresa de propriedade do seu próprio chefe de campanha que recebia dinheiro do Freddie até o mês passado.

Então Paulson lançou seu plano, e McCain entrou com veemência no debate. Mas ele admitiu, vários dias depois, que não havia de fato lido o documento, o qual não consistia em mais de três páginas.

Ok, acho que você captou a imagem que quero transmitir.

Parece que a economia moderna é um lugar perigoso – e não é o tipo de perigo que você pode enfrentar falando duro e denunciando os malfeitores. Será que McCain dispõe da capacidade de julgamento e do temperamento necessários para lidar com esta parte do emprego que ele busca?

*Paul Krugman é colunista do ‘New York Times’

29/09/2008 - 16:51h “Essa é a conseqüência de oito anos de irresponsabilidade”, acusa Obama

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da Folha Online

O senador Barack Obama, candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos, realizou um pronunciamento com ataques diretos ao governo do presidente George W. Bush apenas minutos depois da notícia de que os deputados americanos tinham rejeitado projeto de lei que previa o destino de US$ 700 bilhões para salvamento do setor financeiro do país.

“O que vimos nas últimas semanas é o veredicto final dessa filosofia. Essa é a conseqüência de oito anos de irresponsabilidade. Está na hora de ter a supervisão de um adulto na Casa Branca. Por isso sou candidato. É hora de virarmos a página”, disse Obama diante de uma empolgada platéia, em um comitê no Colorado.

No discurso, Obama afirmou que o dinheiro que o governo luta para destinar ao resgate da economia podia ser usado para melhorar os sistemas de saúde e de educação, por exemplo.

“O senador [John] McCain [candidato republicano à Casa Branca] seguiu essa filosofia falida por 36 anos, em Washington. Agora ele quer nos dar mais quatro anos disso”, disse. “Em entrevista recente, ele chegou a dizer que essa regulação havia ajudado a minguar a economia. Senador McCain, de qual economia você está falando?”, questionou o candidato.

Projeto

Na semana passada, o republicano McCain anunciou a suspensão dos eventos de campanha para ir a Washington negociar com colegas congressistas a aprovação do plano de Bush. Um pouco a contragosto, Obama fez o mesmo. Depois de um dia de reuniões com congressistas e com o próprio Bush, Obama afirmou que a presença dos candidatos politizava a discussão e que isso causava “mais problemas que soluções”.

McCain, por outro lado, insistiu que a negociação do pacote era prioridade e chegou a pedir o adiamento do primeiro debate entre os dois. No último minuto, McCain recuou e foi ao debate, que aconteceu na sexta-feira (26), em Mississippi. Em seguida, retornou a Washington.

No fim de semana, líderes do Congresso e do governo anunciaram que tinham alcançado texto do projeto sobre o qual a maioria concordaria. Na manhã desta segunda, Bush disse que a aprovação seria “difícil”, mas iria acontecer. O plano, porém, não passou. Obama e McCain, que tinham prometido acordo, não chegaram a votar –o Senado votaria quarta (1º).

18/09/2008 - 09:03h ”Crise é o Muro de Berlim do livre mercado”

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Instituições voltadas para os mercados nas economias de mercado quebram e pedem socorro ao governo, diz Stiglitz

Nathan Gardels e Global Viewpoint – O Estado de São Paulo

http://blogs.zdnet.com/open-source/images/joseph-stiglitz.jpgCom a profunda crise por que passa o sistema financeiro mundial, puxada pela quebra das principais instituições de crédito dos Estados Unidos, Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia em 2001, avalia que a queda de Wall Street representa para o fundamentalismo do mercado o que a queda do Muro de Berlim representou para o comunismo. A seguir, principais trechos da entrevista ao editor do Global Viewpoint.

Barack Obama disse que a quebradeira de Wall Street é a maior crise desde a Grande Depressão; John McCain afirma que a economia está ameaçada, mas que é fundamentalmente forte. Quem tem razão?

Obama está muito mais próximo da verdade. De fato, os Estados Unidos têm pessoas de talento, grandes universidades e um excelente setor de alta tecnologia. Mas os mercados financeiros desempenharam um papel muito importante e foram responsáveis por 30% dos lucros corporativos dos últimos anos. Os principais operadores dos mercados financeiros colheram esses lucros argumentando que estavam contribuindo para administrar o risco e alocar o capital de modo eficiente e, por isso, afirmam, “merecem” os altos retornos. Ficou claro que nada disso é verdade. Eles administraram pessimamente toda a situação. Agora esta se voltará contra eles e o restante da economia terá de pagar, enquanto as engrenagens da atividade econômica começam a rodar mais devagar em razão do aperto no crédito. Nenhuma economia moderna pode funcionar bem sem um vibrante setor financeiro. Portanto, o diagnóstico de Obama é correto: nosso setor financeiro se encontra numa situação desesperadora. E, se está numa situação desesperadora, significa que a nossa economia está na mesma situação. Mesmo se não analisarmos a turbulência financeira, mas o grau de endividamento nacional, federal e do setor da habitação, veremos que há um grave problema. Nós estamos afogando. Se considerarmos a desigualdade, a mais profunda desde a Grande Depressão, veremos igualmente um grave problema. Se considerarmos os salários estagnados, perceberemos outro grave problema. A maior parte do crescimento econômico nos últimos cinco anos teve base na bolha da habitação, que acaba de estourar. E os frutos desse crescimento não foram amplamente compartilhados. Em suma, os fundamentos não são fortes.

Que medida seria necessária para enfrentar a crise de Wall Street?

Evidentemente, não precisamos só de uma nova regulamentação, mas de uma reformulação do sistema regulador. Durante seu reinado à frente do Federal Reserve (Fed) – no qual a bolha financeira e hipotecária foi crescendo -, Alan Greenspan dispunha de inúmeros instrumentos para contê-la, mas não o fez. Afinal, ele foi escolhido por Ronald Reagan por suas atitudes contrárias à regulamentação. Paul Volcker, o chefe anterior da instituição, conhecido por manter a inflação sob controle, foi demitido porque o governo Reagan julgou que ele não atuava de maneira adequada à desregulamentação. Nosso país sofreu, então, as conseqüências da escolha para o cargo de principal regulador da economia de alguém que não acreditava em regulamentação. Portanto, em primeiro lugar, para corrigir o problema precisamos de líderes políticos e de estrategistas que acreditem em regulamentação. Além disso, precisamos adotar um sistema capaz de lidar com a expansão das finanças e de instrumentos financeiros além dos tradicionais bancos.Por exemplo, precisamos regulamentar os incentivos. É preciso começar a pagar bônus pelo desempenho referente a vários anos, e não só a um ano, porque isso acaba encorajando o jogo. As opções de ações estimulam a contabilidade desonesta e precisam ser limitadas. Em suma, criamos incentivos para um mau comportamento do sistema e foi o que tivemos. Também precisamos de “redutores de velocidade” . Historicamente, toda crise financeira esteve associada a uma expansão muito rápida de determinados tipos de ativos, das tulipas às hipotecas. Se conseguirmos reduzir isso, poderemos impedir que as bolhas escapem do controle. O mundo não teria desaparecido se expandíssemos o setor de hipotecas a 10% ao ano, em lugar de 25%. Conhecemos o esquema tão bem que deveríamos ser capazes de fazer alguma coisa para contê-lo. Acima de tudo, precisamos de uma comissão de segurança para produtos financeiros, assim como temos uma comissão para os bens. Os financistas inventaram produtos que não tinham o objetivo de administrar o risco, mas criar o risco. É claro que acredito totalmente em maior transparência. Entretanto, em termos de normas reguladoras, esses produtos eram transparentes do ponto de vista técnico, mas eram tão complexos que ninguém conseguia entendê-los. Se todas as cláusulas desses contratos tivessem sido divulgadas, não teriam acrescentado nenhuma informação útil sobre o risco para os mortais comuns. O excesso de informações não é informação. Nesse sentido, os que pedem maior transparência como solução do problema não compreendem as informações. Quando você compra um produto, quer conhecer o risco, essa é a questão.

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Os títulos respaldados em hipotecas, que estão na base da crise, estão espalhados pelo mundo, de bancos a fundos soberanos na China, Japão, Europa e Golfo. Qual o impacto da crise para eles?

É verdade. Os prejuízos das instituições financeiras européias relativos ao crédito hipotecário subprime foram maiores que nos EUA. O fato de os EUA terem diversificado esses títulos para os seus investidores no mundo todo, graças à globalização dos mercados, amorteceu o impacto nos EUA. Se não tivéssemos diluído o risco, o resultado nos EUA teria sido muito pior. Uma coisa que agora todos compreendem como conseqüência dessa crise são as informações assimétricas da globalização. Na Europa, por exemplo, não se entendia muito bem que as hipotecas americanas são non-recourse (o valor do financiamento não pode superar o valor de mercado do imóvel) – se o valor da casa cai abaixo do valor da hipoteca, você pode devolver a chave ao banco e ir embora. Na Europa, a casa é a garantia, mas o mutuário continua pendurado pela quantia que tomou emprestado, seja qual for. É esse o perigo da globalização: o conhecimento é local porque você está muito mais a par do que ocorre em sua sociedade do que nas outras.

Então, qual é o impacto da crise de Wall Street para a globalização impulsionada pelo mercado?

O programa da globalização está estreitamente vinculado aos fundamentalistas do mercado – a ideologia dos mercados livres e da liberação do comércio. Nesta crise, vemos que instituições mais voltadas para os mercados nas economias mais orientadas para o mercado quebram e pedem o socorro do governo. Todo mundo dirá agora que esse é o fim do fundamentalismo do mercado. Assim, a queda de Wall Street representa para o fundamentalismo do mercado o que a queda do Muro de Berlim representou para o comunismo: ela diz que essa forma de organização econômica não funciona. A conjuntura mostra que a liberação do mercado financeiro não existiu. A maneira hipócrita com a qual o Tesouro americano, o FMI e o Banco Mundial lidaram com a crise asiática de 1997 e a maneira como a atual está sendo tratada enfatizou essa reação intelectual. Agora, os asiáticos dizem: Espera aí, vocês disseram que deveríamos imitá-los nos EUA. Se tivéssemos seguido o exemplo, também estaríamos no caos. Talvez vocês possam se permitir isso; nós, não.”

11/09/2008 - 16:56h Por que a vantagem de Obama não é maior?

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Idelber Avelar – Blog O Biscoito Fino e a Massa

Ao longo da semana passada, as matérias publicadas pela Folha sobre as eleições americanas repetiram um mesmo bordão, a insistente pergunta: por que a vantagem de Obama nas pesquisas não é maior? O objetivo deste post é explicar por que essa pergunta não faz sentido.

Na matéria escrita no domingo (link para assinantes), Fernando Rodrigues afirma: A economia do país está à beira de uma de suas piores recessões, como vários indicadores atestam, mas o candidato governista e republicano John McCain se mantém praticamente empatado nas pesquisas de intenção de voto com o democrata Barack Obama. Uma hipótese para explicar esse possível paradoxo é que a crise econômica tal qual tem sido noticiada na mídia, por causa dos indicadores ruins, ainda não afetou com força uma parcela considerável do eleitorado.

Jisuis, a crise econômica afetou muito mais que “uma parcela considerável do eleitorado”! A taxa de desemprego é a maior dos últimos cinco anos. O número de americanos que viram seus empregos de tempo integral reduzidos a meio horário chegou a 3,7 milhões, a maior cifra desde que o governo começou a computar esta estatística, há 50 anos. Sobre a crise imobiliária, a matéria da Folha afirma que ela fez milhares de pessoas perderem suas casas. Caro Fernando Rodrigues, as perdas de hipotecas não se medem aqui por milhares. Não se medem por dezenas de milhares. Não se medem por centenas de milhares. As perdas de casas nos EUA já há tempos se contam pelos milhões.

Por que, então, não faz sentido se perguntar por que Obama não tem vantagem grande nas pesquisas? A resposta é pateticamente simples: porque assim são as eleições americanas. Sabem qual foi o último candidato a ser eleito com mais de 50% dos votos? Bush pai, em 1988, com 53,4%. Exato, há duas décadas ninguém recebe mais de 50% dos votos aqui. Clinton foi eleito em 1992 com 43% (numa eleição atípica, já que havia um terceiro candidato, Perot, que recebeu 1 de cada 5 votos). Em 1996, numa goleada histórica de Clinton sobre os Republicanos, a diferença foi 49,2% a 40,7% sobre Bob Dole. Em 2000, quando Bush filho venceu joserobertowrightianamente, a diferença em favor de Al Gore no voto popular foi 48,4% a 47,9%. Trata-se de um sistema eleitoral onde cada um dos dois candidatos já entra com 40%. Aqui não existem goleadas de 62 a 38. Goleadas de 62 a 38 são exclusividade de países onde o governo bate recordes históricos de redução da desigualdade social e a única plataforma eleitoral da oposição é falar de grampos telefônicos.

Portanto, toda a indagação sobre o “problema” de Obama não tem o menor sentido. Os números são os esperados e quem conhece a história eleitoral americana sabe disso. Ninguém que conhece o jogo jamais achou que ia ser fácil.

O outro grande serviço que a Folha poderia prestar aos seus leitores é avisar que manchetes como Obama abre 5 pontos, McCain empata com Obama, McCain está um ponto na frente são não-fatos. Como os leitores deste blog já estão carecas de saber, as pesquisas nacionais não significam nada, pois a eleição é indireta. David Plouffe, o competentíssimo coordenador da campanha de Obama, afirmou outro dia numa conversa: “as tracking polls a gente nem olha”.

Segundo os cálculos deste blog, McCain tem, garantidos, 157 votos no Colégio Eleitoral. É a soma de Alaska, Utah, Idaho, Arizona, Wyoming, Dakota do Sul, Nebraska, Kansas, Oklahoma, Texas, Louisiana, Mississippi, Tennessee, Kentucky, Virgínia Ocidental, Alabama, Arkansas, Geórgia e Carolina do Sul.

Obama tem 200 votos sólidos no Colégio Eleitoral: é a soma de Califórnia, Washington, Oregon, Havaí, Illinois, Wisconsin, Vermont, Maine, Maryland, Nova York, Rhode Island, Connecticut, Massachusetts, Nova Jersey, Delaware e o Distrito de Columbia (da cidade de Washington).

Ganha quem chegar nos 270.

São 181 votos indefinidos: a soma de Ohio, Flórida, Pensilvânia, Nevada, Novo México, Virgínia, Carolina do Norte, Montana, Dakota do Norte, Michigan, New Hampshire, Indiana, Colorado, Iowa, Minnesota e Missouri. O mapinha, com o número de votos que cada estado carrega ao Colégio Eleitoral, é este.

As pesquisas nesses 16 estados são as únicas que importam. Em alguns deles, McCain é forte favorito, como em Missouri. Em outros, Obama é forte favorito, como na Pensilvânia. Mas é razoável dizer que em todos eles há alguma chance para ambos.

Em breve, um passeio estado a estado, por esses 16.

08/09/2008 - 15:57h FMI e analistas elogiam intervenção em Fannie Mae e Freddie Mac

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Medidas devem ajudar a tranqüilizar o mercado financeiro mundial

José Meirelles Passos*, Nadja Sampaio e Ramona Ordoñez – O Globo

WASHINGTON e RIO. O pacote de ajuda anunciado ontem pelo governo americano às gigantes do setor hipotecário foi bem recebido por analistas. Eles avaliam que a intervenção na Fannie Mae e na Freddie Mac era inevitável e poderá ajudar a tranqüilizar os mercados. O socorro também foi apoiado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Em nota, o diretor-gerente do Fundo, Dominique Strauss-Kahn, afirmou que o organismo ainda estava estudando os detalhes do pacote, mas elogiou a atitude, definindo-a como “uma ação decisiva”, que ajudará a apoiar os mercados “e a perspectiva econômica e financeira”.
Num sinal de que os mercados financeiros devem receber bem as medidas, as ações da Bolsa de Nova York subiam quase 2% no pregão eletrônico de futuros ontem à noite.

Para especialistas brasileiros, ao ajudar a tranqüilizar o mercado americano, o pacote do governo dos EUA será, por tabela, positivo para o Brasil.

— Este socorro foi importante porque acalma a economia americana e sinaliza para o mundo que a crise está sob controle — afirma Aloísio Araújo, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Analistas prevêem alta de 0,75 ponto percentual na Selic

Araújo explica que o mercado americano tem, por tradição, organismos reguladores fortes. Mas que, neste caso, demoraram a agir.

— O erro começou antes. As empresas eram privadas, mas tinham garantia implícita do governo americano, que deixou de agir quando deveria.
Agora, era inevitável.

O economista-chefe do WestLB no Brasil, Roberto Padovani, acha que a intervenção é boa para os EUA e, se afetar o Brasil, será apenas a curto prazo, com a valorização do dólar pressionando o real. Padovani não acredita que as medidas influenciarão o Banco Central (BC) brasileiro na sua decisão sobre a taxa de juros. O BC se reúne esta semana para fixar a nova Taxa Selic e, para Padovani, deverá repetir a alta de 0,75 ponto percentual, como na última reunião.

Mas, para Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do BC, as medidas nos EUA poderão afetar negativamente o Brasil. Ele avalia que a crise americana está longe de terminar. E também prevê alta de 0,75 ponto percentual nos juros brasileiros.

— A economia mundial está reduzindo seu ritmo, e isso já se reflete no Brasil. Essa situação, aliada a uma alta exagerada dos juros, poderá desaquecer demais nossa economia.

Nos EUA, os candidatos à presidência apoiaram com ressalvas o socorro do governo. O democrata Barack Obama afirmou que se tratava de uma “medida necessária”, mas destacou que era preciso preservar os contribuintes. O republicano John McCain avaliou a medida como um “passo na direção correta”, mas disse que, no futuro, Fannie e Freddie deveriam ser privatizadas, segundo declarações de seu conselheiro econômico Douglas Holtz-Eakin. O presidente George W. Bush afirmou que o socorro era necessário para evitar que Fannie ou Freddie fossem à falência, o que seria um “risco inaceitável”.

(*) Correspondente

02/09/2008 - 15:36h No Sitio do Leo bufão da imprensa vira espeto

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Metralhadora giratória e suas casualidades

Quis o destino ou um editor sacana que a coluna de conhecido bufão da imprensa saísse ao lado da matéria da Veja sobre um brucutu personagem de novela que maltrata a mulher. E bem ao lado da foto, com o brutamontes e a mulher que aceita sem reparos a violência cotidiana do marido, o colunista escreve o que deve considerar uma divertida piadinha, a ser repetida ao som de pedrinhas de gelo no úisque bebericado com os amigos durante o churrasco de fim de semana:“…(John McCain) realizou o sonho secreto de todos os homens casados do planeta e despachou sua mulher, Cindy, para a zona de guerra”.

Todos os homens casados de que planeta, cara pálida? Pegue o canhão com quem casou e vá se queixar ao ministério da Defesa.

(No churrasco com os amigos, a piada deve ser acompanhada de um tapa no traseiro da esposa, que interromperá o serviço de mesa para dar um risinho e comentar algo do gênero “ah, esse Dioguinho não tem jeito mesmo!” É muito divertida a vida dessa classe média intelectualizada)

posted by Sergio Leo

Sergio Leo é jornalista do VALOR e anima um blog Sitio do Sergio Leo

31/08/2008 - 17:48h Balanço da convenção democrata e do presente de McCain


Blog O Biscoito Fino e a Massa

1. A idéia de aceitar a candidatura no Mile High Stadium foi um gol de placa. Quando Barack anunciou que faria seu discurso num estádio de futebol, não faltou quem previsse um desastre, como brancos nas arquibancadas ou falhas técnicas. Mas o que ficará marcado será esta imagem:

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Há um detalhe que você só lerá aqui: o nome oficial é Invesco Stadium, construído em 2001 para substituir a casa anterior dos Denver Broncos, potência do futebol americano. Houve uma ovação estrondosa quando, na quarta-feira, Barack anunciou que a convenção se reuniria tomorrow at Mile High. Boa parte dos fãs de futebol americano se recusa a usar o nome corporativo do novo estádio e continua a chamá-lo pelo nome da casa antiga, Mile High. É simbólico e significativo. É um ato de resistência. É mais ou menos como continuar chamando de 2 de Julho o Aeroporto de Salvador. Ali, nessas duas palavrinhas, já se vê toda uma diferença com John Kerry que, em 2004, teve uma de suas maiores gafes quando errou o nome do Lambeau Field, em Green Bay, o templo mais legendário do futebol americano. O analfabetismo futebolístico de Kerry quase nos custou a vitória em Wisconsin. Com Barack, esse flanco está coberto.

2. O discurso de Hillary foi memorável. Concordo com o Rude Pundit: foi um discurso não-hipócrita. Sem fingir amizades que não existem, ela foi ao cerne: o programa de governo e as diferenças imensas, de política, de estilo e de caráter que existem entre Barack e John McCain. Deu um recado direto aos seus eleitores: entraram nesta jornada por aquilo que eu represento? Pois então votem em Barack Obama. Não forçou nem inventou. Foi pura substância. Classuda, coordenou um “pass” da delegação da Califórnia na votação, para que ela mesma pudesse — na certa cumprindo um acordo feito antes — convocar a confirmação de Obama por aclamação (parece que o blog da Folha não entendeu as situações em que se usa um “pass” numa convenção americana).

3. Confirmou-se em Denver o que o blog vem dizendo há meses: “Hillarites for McCain” é uma invenção sem qualquer base na realidade. Quinze dias atrás, antes da convenção e depois das primárias mais acirradas e disputadas da história, Barack já havia chegado a 83% de apoio entre os democratas. O teto histórico é 92% — sempre há defecções. Mas a Folha de São Paulo insiste em falar de eleitoras democratas órfãs de Hillary Clinton, insatisfeitas tanto com a indicação de Obama como com a não-escolha da senadora para vice sem apresentar qualquer indício ou prova de que essas eleitoras tenham existência estatisticamente significativa. A tal “classe trabalhadora” que supostamente “resiste” a Obama já lhe dava, antes da convenção, uma vantagem de 66 x 33 sobre McCain. No entanto, continuamos ouvindo nonsense sobre o “problema” de Obama com os “trabalhadores brancos”. Não se ouve uma palavra, claro, sobre o “problema” de McCain com os “trabalhadores negros”, eleitorado no qual ele perde por 90 x 10.

4. Big Dog deu um show. Bill Clinton é das figuras retoricamente mais hábeis da história da política. Sempre digo: xinguei os Clintons de 1992 a 2000, mas como faz diferença ouvir Clinton depois de 8 anos de Bush! Há uma antiga queixa de Bill — justificada, em parte — de que Barack quase nunca se refere aos anos de prosperidade da sua administração. É difícil para um candidato com mensagem tão centrada na mudança e no futuro fazer alusões a uma era dourada do passado. Mas desta vez, Obama fez questão de encher a bola do governo Clinton.A união do partido não é pró-forma. Os Clintons sabem que uma derrota de Barack não é de seu interesse.

5. A sabedoria tradicional manda que o candidato se exima de fazer ataques ao adversário no discurso da convenção. O normal é deixar esse papel para os outros oradores. Barack mais uma vez quebrou a tradição. Alinhavou sua história de vida e propostas de governo com aquela estratégia que os militares chamam de ataque defensivo: tomou cada uma das acusações feitas por McCain nas últimas semanas e rebateu-as uma por uma, mas sempre atacando, sem se enrolar em justificativas. Não foi o típico discurso positivo, inspirador de Obama. Foi porrada, com classe. Este não é um novo Michael Dukakis, mes amis. Podemos até perder, mas não será com um patinho feio que apanha calado.

6. Minha foto favorita da convenção é esta. Dois delegados de Illinois se abraçam, emocionados, no momento da confirmação histórica do primeiro negro candidato a presidente:

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7. E eis que John McCain, no dia do seu aniversário — a campanha manteve rigoroso silêncio sobre o fato de que ele completou ontem 72 anos — nos dá esse extraordinário presente: sua escolha da companheira de chapa. Situada uns 15 quilômetros à direita de Garrastazu Médici, Sarah Palin é governadora de um estado que tem menos gente que Betim; antes disso, foi prefeita de uma cidade de 8.000 habitantes; 30 dias atrás, perguntava-se o que um vice-presidente faz mesmo? Grande fã de armas, ela está envolvida até o pescoço num escândalo que deve aflorar nos próximos dias (dentro de umas duas semanas a Folha descobre): as tentativas de demitir seu ex-cunhado, Michael Wooten, policial do Alaska que está em batalha judicial — divórcio, guardas de filhos etc. — com a irmã de Palin. Depois que o chefe de Wooten se recusou a demiti-lo, Palin mandou embora o próprio chefe, desencadeando uma investigação legislativa sobre abuso de poder que pode estourar na véspera da eleição. Aqui e aqui você tem a cobertura do TPM, aqui a entrevista com o chefe demitido e aqui a reportagem do canal local sobre o escândalo. A escolha de McCain foi, evidentemente, uma tentativa de chegar às eleitoras de Hillary, insultando-as com a idéia de que uma mulher praticamente fascista, apoiadora de ninguém menos que Pat Buchanan em eleições anteriores, representaria seus anseios. A obviedade da manobra e o escândalo no Alaska têm tudo para fazer o tiro sair pela culatra.

PS: Já estamos em Memphis, na companhia do Imortal. Tudo bem por aqui. Estou acompanhando meio ansioso a trajetória do tal Gustav, que parece ter dado um giro bem na direção de New Orleans.

31/08/2008 - 10:02h O exótico

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VERISSIMO – O GLOBO

Agora que Barack Obama está confirmado como o indicado dos democratas à Presidência dos Estados Unidos e sua candidatura passou de hipótese a fato, muitos no seu partido devem estar se perguntando “o que foi que nós fizemos?” A hipótese de alguém como Obama ser o candidato era atraente, era de sonho. O fato irreversível da sua candidatura traz um choque de realidade. Obama como hipótese era um candidato diferente, mais diferente do que qualquer outro na história do partido e do país. Obama confirmado provoca especulações sobre a viabilidade política do sonho. Especula-se que ele talvez seja diferente demais.

Se Obama fosse negro de pai e mãe seu exotismo seria menor. Bem ou mal, os brancos americanos já têm uma longa experiência de convivência com negros, principalmente depois do fim do racismo oficial nos estados do Sul e da segregação nas escolas.

Mas ainda existe uma separação de fato, e o que quase não faz parte da experiência americana é a mestiçagem. Obama não é apenas diferente da maioria branca, é diferente da maioria dos negros do país — na verdade, com sua história multirracial e multinacional, é diferente da maioria da Humanidade.

Além de ser filho de um africano muçulmano e de uma americana branca, nasceu no Havaí, que no imaginário, e nos planos de viagem, do americano comum é o lugar mais exótico em que se pode estar sem sair dos Estados Unidos. E, não sendo um havaiano típico, até no Havaí ele é diferente.

O trabalho duro dos democratas agora é fazer o eleitorado distinguir o que Barack Obama tem de positivamente diferente do que ele tem de estranho.

Na convenção que indicou Barack já deu para perceber que grande parte da propaganda eleitoral democrata será dedicada a mostrar que os Obama são gente como a gente americana e não têm nada de exótico, ou não ao ponto de assustar. E que a novidade que ele representa é a de um jovem com outras idéias, em contraste com o velho McCain, e não a de um enigma que se aproxima da Presidência para fazer ninguém sabe bem o quê. Esta última alternativa é a que a propaganda dos republicanos enfatizará, numa campanha que — segundo comentaristas americanos — já é uma das mais sujas da história. Pode-se imaginar que até as eleições de novembro um lado insistirá que Barack Obama é normal e o outro que ele é um mistério de quem se pode esperar de tudo, até o sacrifício de galinhas no Gabinete Oval.

De qualquer jeito, agora começa o período em que as pessoas se concentram nas opções e nos contrastes e pensam melhor em quem vão votar. E em que o partido democrata descobre se fez uma boa escolha ou jogou fora uma eleição imperdível.

06/08/2008 - 22:13h Um guia para as pesquisas eleitorais americanas

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Blog O biscoito fino e a massa

Com a aproximação da eleição americana, é bem provável que cheguem ao Brasil notícias incompletas ou distorcidas a respeito de pesquisas eleitorais. Aconteceu esta semana, com uma chuva de fogos de artifício no blog da Veja, festejando a divulgação da primeira pesquisa Gallup que apontava John McCain na frente de Barack Obama. É provavelmente certo que – por uma série de motivos para serem discutidos outra hora — houve algum movimento nos números durante os últimos dias. Mas em nenhum site de notícias brasileiro vi menção do fato de que se tratava, por exemplo, de uma pesquisa com “eleitores prováveis” (likely voters – LV) e não com “eleitores registrados” (registered voters – RV), o que, acreditem, nesta campanha faz a maior diferença. Em todo caso, que conste que a última Gallup já mostra Obama na frente de novo, por quatro pontos.

Mas o objetivo do post de hoje não é especular sobre os números atuais, e sim oferecer a lista de perguntinhas que acredito que você deve fazer quando vir notícias sobre alguma pesquisa nos EUA. São dicas para quem é, como eu, fanático por pesquisas eleitorais — sempre lembrando que três sites indispensáveis são o Real Clear Politics, o Five Thirty-Eight e o Pollster.

1.Os números se referem a eleitores prováveis ou a eleitores registrados? Os institutos usam diferentes métodos para calcular um “eleitor provável”. Sabe-se, por exemplo, que tradicionalmente os eleitores mais velhos vão às urnas em números mais altos que os mais jovens; que os mais escolarizados votam em maior número que os menos escolarizados; que os brancos comparecem em maior proporção que os negros. Baseados nisso, os institutos de pesquisa ajustam o universo da pesquisa. As pesquisas deste ano baseadas em “eleitores prováveis” tenderão a sub-representar o apoio de Obama. Por quê? Porque não há dúvidas que os jovens, por exemplo, votarão em proporção maior que em anos anteriores. E os jovens favorecem Obama massivamente. Para quem lê inglês e tem paciência de elefante, esta é fonte para entender como os vários institutos selecionam o “eleitor provável”. Ponto para o Gallup, que apresenta seus critérios com mais transparência.

2.Os números foram ajustados para refletir a ausência dos celulares? Todos os institutos de pesquisa já perceberam que a limitação das pesquisas telefônicas a aparelhos fixos dá um quadro distorcido do universo pesquisado. Alguns poucos já criaram algoritmos para tentar levar isso em consideração. Entende-se: a população que abandonou o fixo em favor do celular é predominantemente jovem. A pesquisa num universo de telefones fixos também tenderá a sub-representar o apoio de Obama. Ponto para a Rassmussen, que sacou isso antes e vem tentando calcular com exatidão o impacto dessa variável.

3.Se a pesquisa é nacional, o movimento detectado por ela é notado também nos estados decisivos? Nunca é demais repetir: o voto na eleição americana não é universal direto. Elegem-se delegados estaduais, com o vencedor em cada um levando a totalidade dos votos daquele estado no Colégio Eleitoral. São favas contadas que McCain vencerá em Oklahoma. São favas contadas que Obama vencerá em Connecticut. Estes estados não interessam (sim, o voto de um eleitor desses estados para presidente não vale nada. O meu voto, aqui na Louisiana, por exemplo, tampouco vale nada). A eleição se decidirá no grupo de swing states (estados decisivos) que, este ano, poderíamos reduzir a doze: Nevada, Colorado, Novo México, Missouri, Indiana, Ohio, Michigan, Flórida, Virgínia, Carolina do Norte, New Hampshire e Montana. Algum Republicano muito otimista poderá incluir a Pensilvânia nesse grupo. Acho difícil que Obama perca por lá. Acompanhe especialmente, claro, os estados maiores, com maior número de delegados. Na Flórida, por exemplo, McCain ainda é favorito. Mas uma virada de Obama por lá torna a coisa muito difícil para o Republicano. Praticamente não há mapa de vitória para McCain que não inclua a Flórida. Obama, por outro lado, pode perfeitamente vencer sem a Flórida e mesmo sem Ohio. Segundo o mapa do RCP, linkado acima, 238 votos do Colégio Eleitoral hoje tendem para Obama. 163 tendem para McCain. 137 permanecem indefinidos. Ganha quem chegar a 270.
PS: E vão caindo os mitos, um a um. A campanha de Hillary afirmou incessantemente que Obama tinha um “problema” com eleitores brancos de classe trabalhadora. Na última pesquisa, Obama bate McCain nesse eleitorado 2 por 1. Repetiu-se ad nauseam que Obama não teria o voto latino, porque “latinos não votam em negros”. As pesquisa apontam balaiada de Obama entre os latinos. Muita tinta foi gasta para dizer que Obama faria o Partido Democrata perder o voto judeu. Incrivelmente, Obama tem mais aprovação entre o eleitorado judeu que o próprio Joe Liberman. Alguns poucos fizeram bastante barulho com a previsão de que o eleitorado de Hillary nas primárias não migraria para Obama. Entre os democratas, o nível de apoio de Obama anda por volta dos 84%, não muito longe dos patamares normais, que sempre incluem uns 10 a 12% de defecções.

PS 2: Parece — eu disse parece — que Obama escolherá mesmo o Senador centrista da Indiana, Evan Bayh, como seu candidato a Vice-Presidente. Você leu aqui no Biscoito primeiro. É uma escolha que tem prós e contras. Confirmada, publico uma análise.

PS 3: O Biscoito inagura hoje uma nova coluna aí à esquerda, um “mini-observatório” da imprensa. É um espaço para apontar gafes e erros da nossa imprensa escrita. Contribua, leitor, com indicações diárias. Só erros factuais ou gafes notórias. Nada que demande muita análise.


Escrito por Idelber – O biscoito fino e a massa

18/07/2008 - 16:16h Cada vez mais subsidios agricolas nos Estados Unidos

La ley más desastrosa de EE.UU.

Por Andrés Oppenheimer publicado por Clarín de Argentina

biocarburant_milho.jpgMIAMI.- Mientras muchos estábamos distraídos con otros temas, el Congreso estadounidense aprobó una ley agrícola que difícilmente podría ser peor: subsidia a los agricultores más ricos del país, perjudica a la mayoría de los consumidores, contamina el medio ambiente, no ayuda a reducir el hambre en el mundo y perjudica a los países latinoamericanos productores de alimentos. Lo que es peor, la ley hace todas estas cosas -y más- en un momento en el que muchos productores estadounidenses tienen ganancias récord gracias a los altos precios internacionales de las materias primas.

Todo esto sería difícil de entender si no fuera porque estamos en un año de elecciones. Pero el amplio respaldo ofrecido a esa legislación por la mayoría demócrata y de 100 legisladores republicanos logró que el Congreso invalidara un veto de la Casa Blanca por 318 votos contra 106.

Además de los US$ 5000 millones que el gobierno norteamericano pagará directamente a agricultores que en muchos casos ganan muy buen dinero, la nueva ley está repleta de dádivas propias de un año electoral. Ellas incluyen US$ 170 millones a la industria salmonera de la Costa Oeste; US$ 93 millones en recortes impositivos a criadores de caballos de carrera de Kentucky; US$ 260 millones de reducción impositiva a la industria maderera, y US$ 15 millones para los productores de espárragos, que en el pasado no recibían estos subsidios.

“Es una desgracia nacional”, me señaló Gary C. Hufbauer, ex funcionario de la Secretaría del Tesoro que se desempeña actualmente en el Instituto Peterson para la economía internacional. “Estamos en una época de prosperidad para muchos productores agrícolas. Si alguna vez hubo un momento adecuado para liberalizar la industria agrícola, es precisamente el actual.”

El probable candidato presidencial demócrata Barack Obama -que ha sido objeto de elogios en esta columna en las últimas semanas- dio su apoyo a la ley. Los partidarios de la norma señalan que la legislación prevé US$ 209.000 millones para programas de nutrición, incluyendo fondos para bonos de comida para los pobres.

El probable candidato presidencial republicano John McCain criticó la ley. Dijo que en un momento en que las materias primas han alcanzado un precio récord los agricultores no necesitan subsidios. Entre los peores efectos de la ley agrícola se cuentan:

• Perjuicio a la mayoría de los consumidores estadounidenses con el subsidio al etanol de maíz, que desvía el 25% de la producción maicera a la producción de etanol subsidiado. Como resultado, los precios del maíz en el supermercado aumentan al igual que los precios de la carne de vaca y pollo.

• Perjudica el medio ambiente, entre otras cosas, porque en vez de eliminar las trabas a la importación de etanol de azúcar procedente de Brasil -que se produce de manera más eficaz, es más barato y menos contaminante-, la nueva ley conserva las barreras tarifarias que protegen a los productores estadounidenses de etanol de maíz.

• Perjudica a América latina porque mantiene las barreras, tanto tarifarias como no tarifarias, para los productos agrícolas de la región. En vez de contribuir a la reducción de los precios del azúcar en Estados Unidos facilitando la importación de países centroamericanos o del Caribe, la ley mantiene los cupos de importación para proteger a los magnates azucareros de Palm Beach. Como resultado, los estadounidenses pagan mucho más que los precios internacionales por el azúcar que consumen.

• Está en abierta contradicción con la prédica oficial de Washington a favor del libre comercio. Hasta ahora, Estados Unidos les decía a los productores latinoamericanos: “Nosotros vamos a reducir los subsidios agrícolas si la Unión Europea hace lo mismo . Ahora, con este voto bipartidista, el Congreso le dice al mundo que no le permitirá a ningún presidente norteamericano reducir los subsidios.

Mi opinión: el daño ya está hecho. Ahora, Bush debería hacer algo realmente audaz, que lo ayudaría a dejar la presidencia en algo menos que un descrédito absoluto.

Tal como me dijo Hufbauer, Bush debería anunciar después de las elecciones de noviembre la propuesta más ambiciosa que haya hecho Estados Unidos para reducir sus subsidios agrícolas a cambio de concesiones razonables de sus socios comerciales.

Esto no tendría ningún resultado inmediato, pero obligaría al próximo presidente estadounidense a ocuparse del tema y, tal vez, le daría al próximo gobierno una excusa para continuar con una política heredada de su antecesor. La alternativa, que es no hacer nada, será desastrosa para Estados Unidos, y desastrosa para el mundo.

05/06/2008 - 14:14h Colaboradores

VERISSIMO – O Estado de São Paulo

http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/img/luis_sax.jpgA imprensa americana está comentando o recém-lançado livro de Scott McClellan, que foi porta-voz da presidência durante três anos e agora conta tudo sobre a campanha mentirosa para justificar a invasão do Iraque e outras sujeiras do governo Bush. A única novidade do relato é ser feito por alguém que estava dentro da Casa Branca e participou – muitas vezes enganado também, diz ele agora – do logro que resultou na guerra mais longa em que o país já se meteu, e cujo custo em vidas humanas continua a subir. A imprensa americana está comentado menos outra coisa que já se sabia mas ninguém com as credenciais de McClellan tinha dito antes: a sua cumplicidade na campanha mentirosa. Com a autoridade de quem se encontrava com ela quase todos os dias, McClellan descreve uma imprensa subserviente que raramente questionava as mentiras do governo e, com poucas exceções, aceitava todas as razões da direita guerreira.

O próprio New York Times, besta negra dos conservadores americanos com sua linha pró-democratas e internacionalista, forneceu os exemplos mais notórios de colaboração com o engodo nas matérias de primeira página em que sua super-repórter Judith Miller transmitia as alarmantes ficções do escroque iraquiano no exílio Ahmad Chalabi sobre armas de destruição em massa do Saddam. O Times depois pediu desculpas aos seus leitores mas nenhum outro grande jornal americano que ajudou a promover a guerra teve o mesmo escrúpulo. McClellan chama a atitude da maior parte da imprensa com relação a Bush, antes e depois da invasão do Iraque, de “reverencial”.

Apesar de persistir nos Estados Unidos o mito de uma imprensa dominada por “liberais”, o fato é que – de novo, com exceções – a direita não tem do que se queixar dos jornais americanos. Mesmo os não abertamente reacionários como o Wall Street Journal preferem um centrismo não muito bem equilibrado. Agora mesmo, com as eleições presidenciais se aproximando, o desequilíbrio aparece.

Não fizeram metade do barulho com as ligações do republicano McCain com religiosos malucos mas brancos, como o que disse que Deus castigou Nova Orleans pelos seus pecados com o furacão, que fizeram com a ligação de Obama com aquele pastor radical negro. “Double standards” é o termo em inglês para dois pesos e duas medidas.

Como diria o Ancelmo Góis, deve ser horrível viver num país em que a imprensa age assim.

Dois belos livros novos. Caminhos da Conquista – A Formação do Espaço Brasileiro, da Editora Terceiro Nome, sobre o que só pode ser descrito como a história da nossa geografia, com ótimo texto de Ricardo Maranhão e ilustrações primorosas de Vallandro Keating. E A Mão Devota – Santeiros Populares das Minas Gerais nos Séculos 18 e 19, do artista plástico José Alberto Nemer, publicado pela Editora Bem-Te-Vi. Fantásticos.

01/06/2008 - 10:35h A luta pela qualidade da informação

O sociólogo espanhol Ignacio Ramonet defende a pressão pacífica pela verdade

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Ubiratan Brasil – O Estado de São Paulo

Jornalista e sociólogo espanhol, Ignacio Ramonet tornou-se uma das vozes mais vibrantes contra a globalização no formato atual. Diretor desde 1991 da publicação francesa Le Monde Diplomatique e fundador das organizações Media Watch Global e ATTAC, ele escreveu vários livros sobre geopolítica e crítica da comunicação mundial, nos quais relaciona os meios de comunicação com o projeto estratégico da globalização.

Sua defesa da esquerda e, em especial, do governo cubano de Fidel Castro, provocou diversas críticas pelo mundo, especialmente contra seu livro Biografia a Duas Vozes (Boitempo, 624 págs., R$ 66, tradução de Emir Sader), considerado dócil e servil ao ex-ditador cubano. ‘Ramonet tem a companhia de Noam Chomsky, caso flagrante de esquizofrenia intelectual, que é inspirado e até genial quando limita-se à lingüística transformacional e um ‘idiota’ irredimível quando desata a falar de política’, observou Vargas Llosa, em artigo publicado no Estado no ano passado.

Controverso, Ramonet esteve em São Paulo na semana passada, quando participou de um debate, no Instituto Cervantes, ao lado do sociólogo Emir Sader. Juntos, discutiram sobre o poder dos meios de comunicação frente aos sistemas econômicos. Antes, Ramonet respondeu as seguintes perguntas.

Como enfrentar os perigos dos conglomerados de mídias, que podem ameaçar a informação de qualidade?

Os conglomerados de mídia dominam hoje a informação. Sua preocupação básica não é a qualidade da informação. Nem sequer sua veracidade. O que mais lhe interessa é a rentabilidade da empresa. Essa é sua obsessão principal. Por isso, dão absoluta prioridade à informação-espetáculo, à informação-entretenimento. Concebem a notícia como uma variedade da cultura de massas e não como item da formação e educação do cidadão. O que importa é um maior número de pessoas consumindo essa informação-lixo. Porque, hoje em dia, o negócio noticioso não consiste em vender novidades aos cidadãos, mas vender cidadãos aos anunciantes. Essa é a nova equação, que constitui uma regressão copernicana. A população precisa tomar consciência dessa mudança radical. E defender seu direito a ser bem informada, porque a qualidade da informação depende da qualidade da democracia.

O crescimento da internet está diretamente ligado à formação desses conglomerados?

A internet foi apresentada, em princípio, como uma possibilidade para os cidadãos se livrarem da dominação dos conglomerados de mídia. Mas hoje, na prática, a internet foi integrada ao império desses conglomerados. Ainda assim, todos podemos abrir um blog, que nos permite falar com todo o planeta. Na realidade, se consideramos o ranking dos sites de informação mais freqüentados em qualquer país, vemos que os primeiros lugares são ocupados por empresas de mídia que dominam a informação nesse país. Por isso, a internet só veio a reforçar o poderio dos conglomerados.

Na França, dois grupos de imprensa, Dassault e Lagardère, têm ligação com atividades militares. Qual o perigo disso quando se travam guerras como a do Iraque?

Sim, na França, os grupos Lagardère e Dassault, cujas atividades industriais principais são militares, estão entre os que dominam o setor de mídia. O perigo é que a informação difundida por esses grupos (como acontece nos Estados Unidos com os meios dominados pela General Electric) seja, em caso de conflitos, favorável, independente do pretexto, a uma intervenção francesa com a única intenção de que, dessa forma, as empresas proprietárias conquistem maiores benefícios. Até o momento, isso não aconteceu, tampouco em 2003 quando se comentava sobre a possibilidade de a França integrar a coalizão que invadiu o Iraque no dia 20 de março daquele ano.

Como os cidadãos devem atuar contra este desvio da liberdade de imprensa?

Os cidadãos devem se organizar como fizeram os consumidores, durante os anos 1960, contra os abusos dos construtores de automóveis ou contra o uso de produtos cancerígenos nos alimentos. Consumimos a informação com nossa mente e, se ela é de má qualidade, acaba por envenenar nosso espírito e nossa personalidade. Devemos criar observatórios dos meios – no Brasil, já existem e são muito sérios e profissionais – para denunciar mentiras, manipulações ou o silêncio dos meios de comunicação. Essa denúncia não tem caráter ideológico (meios de qualquer ideologia podem errar), mas unicamente a busca da perfeição da qualidade da informação. Os cidadãos devem mobilizar-se e fazer pressão pacífica e democrática para os meios melhorarem a informação.

O senhor conversou muito com Fidel Castro e até escreveu um livro sobre esse relacionamento. O senhor acredita que o destino de Cuba, agora sem Fidel, depende diretamente de quem será o próximo presidente dos Estados Unidos?

Sim. Fala-se muito, nos meios de comunicação, sobre a ‘necessidade de Cuba mudar’. Mas inúmeros jornalistas se esquecem da enorme responsabilidade que têm os Estados Unidos em algumas das dificuldades, particularmente econômicas, sofridas por Cuba. A manutenção do cruel bloqueio durante quase 50 anos é um grande crime. Por isso, os Estados Unidos devem iniciar uma mudança em relação a Cuba, no sentido de reconhecer os direitos daquele país de descobrir seu próprio destino. Mudar no sentido de respeitar Cuba e considerá-lo um Estado soberano. Se o republicano John McCain vencer a eleição presidencial de novembro, a atitude de Washington pode endurecer ainda mais – mesmo que essa atitude beligerante não tenha frutificado em meio século. Por outro lado, a eleição de um candidato como o democrata Barack Obama abre certas perspectivas positivas. O temor de muitos observadores é o de que, especificamente sobre essa opinião a respeito de Cuba, Obama seja simplesmente assassinado antes de novembro pela máfia anticubana de Miami.

Qual a melhor herança deixada por Fidel? E a pior?

Fidel Castro é o maior latino-americano da história, ao lado de Simon Bolívar. Ainda que sua contribuição continue muito valiosa, sua herança é imensa. Não apenas material (educação, saúde, cultura, ciência, emprego pleno) mas também espiritual: latinoamericanidade, ética, independência real, resistência. Graças a ele e à revolução, Cuba foi depositária, durante o período negro da repressão e das ditaduras (1964-1979), dos grandes valores latinos de independência, soberania e republicanismo. Valores que hoje estão no auge em todo o continente, democraticamente aprovados pela maioria dos cidadãos.