28/07/2009 - 15:54h De médicos e gripes

JANIO DE FREITAS – FOLHA SP

http://images.ig.com.br/publicador/ultimosegundo/116/116/15/3656414.gripe_suina_mundo_254_398.jpg

Provavelmente é a 1ª vez que o país se vê ante situação crítica de saúde sem sucumbir à falta de medicamento

MÉDICOS ENVOLVIDOS no combate direto à gripe A, dita suína, começam a fazer críticas públicas ao jornalismo que se ocupa do problema. Além de reconhecer a razão dos médicos, é preciso admitir também que estão sendo vítimas de uma injustiça. As providências médicas e o trabalho psicológico-informativo feitos no Brasil a partir do Ministério da Saúde, desde os primeiros sinais externos de uma gripe incomum, têm sido sucessos na sua competência e, a despeito das más influências do contravapor sensacionalista, nos seus efeitos.
Ressalta logo, nesse quadro, ser provavelmente a primeira vez que o Brasil se vê ante uma situação crítica de saúde pública sem sucumbir, em pouco tempo, à falta de medicamento específico e à distribuição caótica do estoque insuficiente. É a máquina pública em ação, no entanto, a máquina dada como inútil e que, apenas recebe comando competente, comprova seu papel insubstituível e comprova-se capaz de exercê-lo.
Não fomos postos diante de um problema secundário, mas do risco de sermos invadidos por uma epidemia depressa elevada, por sua rapidez mundial, a pandemia. Risco agravado pela vizinhança com Uruguai, atual recordista relativo em número de vítimas, e Argentina, que ultrapassou o México e nem sabe ao certo, ou não diz, a quanto somam os seus vitimados; e ainda a proximidade com o Chile, outro país de números muito altos. Consideradas as ameaças geográficas de contaminação e a concentração demográfica dos Estados brasileiros mais expostos a ela, no Sul e no Sudeste, nem caberia dar nome de epidemia ao que ocorre no Brasil. Ainda mais se comparadas as mortes provocadas pela gripe comum em 2008 (Folha de sábado) e nos iguais meses deste ano, pela gripe A: só em julho, e só na cidade de São Paulo, 629 mortes em 2008, e, em todo o Brasil, 45 mortes provocadas até ontem pela gripe A.
Mas cinco mortes mais, ou cem doentes sob tratamento em UTI no Rio Grande do Sul, levam a um noticiário de espaço, de tempo e de termos alarmistas. A queixa médica é correta: não adianta que o ministro José Gomes Temporão fale aos meios de comunicação todos os dias, desde o primeiro momento do problema, dando informações claras e calmas contra o alarmismo, e sobre as condutas convenientes na população. E, como Temporão, à vista do alarmismo tantos outros médicos se ocupem com esclarecimentos e orientação acalmante. Não adianta: hospitais e demais centros de atendimento já são levados ao tumulto e à incapacidade de dar vazão à procura tão aflita quanto equivocada. Há um relato médico de que mais de metade dos atendidos nem a gripe comum tinham, quando muito passavam por um resfriado ou uma dor de garganta.
Na fase inicial da ação contra a gripe A, houve uma tentativa política de aproveitar o problema contra o ministro Temporão, que não ocupa o cargo como ponta de lança, ou “laranja”, de nenhum grupo político. Chegou a haver a publicação de que “o corpo técnico da saúde não gostou da recomendação do ministro José Temporão para que os brasileiros evitem viagens à Argentina, devido ao risco da gripe suína”. Os “técnicos” do Ministério da Saúde preocupados com as perdas do turismo na Argentina – a mediocridade de lobismo político não tem cura.
Não é demais repetir o dado do Ministério da Saúde: a gripe comum provocou 70.142 mortes registradas no Brasil em 2008. Ou 192 por dia. As mortes pela gripe A não são menos deploráveis, mas seu número é um atestado de êxito do que foi feito para enfrentá-la aqui.

10/06/2009 - 14:04h “Crianças doentes chorando, mães irritadas, salas de espera cheias e filas intermináveis de atendimento”, é a “gestão” Kassab na saúde

Sem médico, AMA de Kassab deixa crianças na fila

Aline Mazzo e Gilberto Yoshinaga do Agora

Crianças doentes chorando, mães irritadas, salas de espera cheias e filas intermináveis de atendimento. Essa cena é comum na periferia de São Paulo, onde as AMAs (Assistências Médicas Ambulatoriais), postos de saúde básica, sofrem com a falta de médicos, principalmente pediatras. Segundo usuários e funcionários, a situação piora a cada dia.

Robson Ventura /Folha Imagem
ama_pediatria.jpg
Fila de espera para o atendimento na AMA Anhanguera

A reportagem do Agora visitou nesta semana 18 AMAs nas zonas sul, norte e leste da cidade (são 115 no total). Em pelo menos oito faltavam pediatras, sendo que em algumas as mães eram mandadas de volta para casa, já que não havia médicos. Mesmo nas unidades em que o quadro de profissionais estava completo, a demanda era grande, o que causava fila de espera.

O próprio prefeito Gilberto Kassab (DEM), ao explorar a criação das AMAs na eleição, afirmava que elas reduziriam as filas e acabariam com a falta de médicos na cidade.

Demissões, faltas
A situação mais caótica era na AMA Parelheiros, extremo sul da cidade. Ontem de manhã, nenhum dos três pediatras tinha ido trabalhar. “Um deles pediu demissão semana passada porque foi agredido pela mãe de uma criança. Ele era muito bom”, lamentou uma funcionária, que pediu para não ser identificada.

Cerca de 50 mães aguardavam atendimento às 12h30. “Meu filho está muito resfriado, com febre e tosse. Ele é alérgico. Não posso dar qualquer remédio”, disse a dona de casa Josefa Torres, 37 anos, com o filho de seis anos.

Segundo funcionários, a coordenação conseguiu um pediatra que chegaria às 13h.

Nos postos City Jaraguá e Elísio Teixeira Leite, ambos no Jaraguá (zona norte de SP), o atendimento para pediatria, anteontem, acabou às 13h. Os funcionários avisavam os usuários que só haveria médico no dia seguinte. “Saí do serviço para trazer meu filho aqui. Ele está com dor de estômago e vomitando. Agora me mandaram para o hospital de Taipas. Não tenho como ir”, reclamou a costureira Isabel Roque Moreira, 50 anos.

Em muitas unidades, o atendimento fica prejudicado pela ausência de médicos. Geralmente, o quadro é formado por dois pediatras. Quando um falta, o outro não consegue dar conta da demanda. “Na maioria das vezes somos avisados da falta assim que a AMA abre. É muito difícil conseguir um médico rápido. O pessoal não gosta de vir para a periferia”, afirmou a gerente de uma unidade, que não quis se identificar.

No posto do Jardim da Conquista 3 (zona leste de SP), havia cerca de 40 pessoas esperando pela consulta, por volta das 12h de ontem. Apenas um pediatra fazia o atendimento clínico. “Aqui demora de quatro a cinco horas para ser atendido”, disse uma moradora que estava na fila.

Garoto leva 7 horas para ser atendido

Gilberto Yoshinaga do Agora

Foram quase sete horas de peregrinação, em dois dias, para que a dona de casa Valdirene Pereira de Souza, 37 anos, garantisse que seu filho Gabriel, 7, fosse atendido por um pediatra. “Para driblar a falta de médicos tem que ter paciência”, afirma ela.

Preocupada com uma inflamação na garganta do filho, Valdirene o levou à AMA Jardim Etelvina, em Guaianases (zona leste de SP), no início da tarde de anteontem. “Disseram que eu deveria tentar outro hospital ou voltar outro dia”, conta. Ela, então, decidiu ir a pé para o pronto-socorro municipal Júlio Tupy, a dois quilômetros dali. “Lá, esperei mais de duas horas e desisti, porque também não tinha médico”, lembra.

A dona de casa fez o filho faltar às aulas, ontem, e voltou à mesma AMA às 9h. O garoto só foi atendido depois de quatro horas e meia de espera, pelo único pediatra que estava no local. “Só não demorou mais porque muitas mães que estavam na fila desistiram”, afirma ela. “O duro é a gente esperar sem almoço, enquanto vê os funcionários fazendo pausa para fumar ou para bater papo”, desabafa.

Com sintomas de pneumonia, o metalúrgico Rafael Lira de Sales, 35 anos, teve de esperar três horas, anteontem, até ser atendido na AMA Parque Anhanguera. “O pior é ficar passando mal debaixo do sol, porque não cabe mais gente lá dentro”, comentou. A sala de espera tem 33 assentos, mas cerca de 80 pessoas aguardavam atendimento.

Sua mulher, Valéria Bianchi Sales, de 32 anos, afirma que o atendimento só foi rápido nos primeiros meses seguintes à inauguração da unidade, em março do ano passado. “Ultimamente, o atendimento tem sido bem demorado. Às vezes, não tem pediatra aqui”, reclama ela.

Pediatras estão em falta

Aline Mazzo e Gilberto Yoshinaga do Agora

A Secretaria Municipal da Saúde afirmou que a falta de pediatras acontece porque há poucos profissionais dessa especialidade no mercado –tanto na rede pública quanto na privada. Segundo nota enviada pela pasta, esse déficit é constatado pela baixa oferta de recém-formados.

As vagas para pediatras são oferecidas pelas entidades parceiras que gerenciam as AMAs, por meio de processos seletivos, com ampla divulgação na mídia, afirmou a secretaria.

Apesar de mencionar que a contratação de profissionais é uma preocupação constante, a pasta não diz o que fará para solucionar o problema. Além disso, diz que, das 18 unidades visitadas, apenas 8 são gerenciadas por organizações sociais. Ou seja, as outras dez são administradas pela própria gestão Kassab.

Quanto à agressão aos médicos, a secretaria afirmou que os seguranças das unidades cuidam da proteção do patrimônio e dos funcionários.

28/05/2009 - 11:43h Aumento de servidores: pecado ou virtude do governo?

Carlos Lessa – VALOR

Pelas notícias e pelo tratamento dado a esta questão pela mídia brasileira e por algumas instituições formadoras de opinião, a ampliação do quadro de servidores públicos seria um erro estratégico e um pecado em relação à economia e sociedade brasileiras. Tem sido quase universal a “denúncia” de aumento dos gastos de custeio da administração federal. Neste item, a massa salarial do funcionalismo é a principal componente, sendo resíduo tudo o que é necessário para que os serviços públicos sejam executados. Por exemplo, a “Folha de S. Paulo”, em 17/05, enuncia que “Lula anula enxugamento de servidores”. A atual administração é acusada de haver cancelado o esforço de enxugamento de funcionários públicos realizado pela administração FHC, cujo governo teria reduzido o funcionalismo a 599 mil pessoas, porém Lula elevou, em 2008, para 671 mil. Este contingente, mais os servidores aposentados e militares, absorvem 5% do PIB.

Este aumento pode ser virtuoso ou pecaminoso. Em 2002, o Ministério do Meio Ambiente tinha 7.100 servidores e, em 2008, 9.500; em início de 2003, quando presidente do BNDES, ouvi de Marina Silva a declaração entusiasmada com a contratação de 73 novos analistas de meio ambiente, qualificados para o exame de RIMAs (Relatório de Impacto do Meio Ambiente) e fiquei assustado com a exiguidade do contingente. Somente no BNDES, havia 17 contratos de financiamento para novas usinas hidrelétricas paralisados por ausência de exame do MMA. É quase universal a queixa quanto à lentidão dos pareceres ambientais. Este é um dos retardadores do PAC. Como reitor da UFRJ, conheci de perto os dramas de falta de pessoal e complemento de custeio para ampliar e melhorar os programas docentes. Cursos premiados com avaliação máxima só dispunham de professores com mais de 50 anos; inexistiam jovens professores auxiliares de ensino cuja qualificação e assimilação de padrões permitiria a continuidade e preservação da qualidade e fecundidade do curso. Entre 2002 e 2008, cresceu o número de servidores na educação, com 14.100 novos quadros. Este reforço oportuno é “uma gota d’água” nas necessidades educacionais brasileiras.

Em avaliação de gasto com pessoal e outros itens de custeio, deve ser examinado se o crescimento foi com atividades-meio ou com atividades-fim. Se os 14.100 novos servidores da educação fossem para atividades-meio (planejamento, controle de execução, administração de material, etc), haveria uma macrocefalia e continuidade de fraqueza e insuficiência operacional no ensino público. Tenho certeza que, em sua imensa maioria, os novos servidores são professores e auxiliares técnicos nos estabelecimentos oficiais de ensino do governo federal, que continua com dramática falta de pessoal.

A Constituição de 1988 declara que “a saúde é um direito do cidadão e um direito do Estado”. É impossível garantir minimamente o direito à saúde sem ampliar substantivamente os quadros públicos de pessoal médico. As unidades de saúde se ressentem da falta de pessoal em praticamente todo o território nacional.

O Brasil é um dos países do mundo que têm menor proporção de servidores federais por mil habitantes. Alemanha, França, Inglaterra, Japão e EUA têm percentagens que vão de 6,1% a 38,5% da população; o Brasil tem apenas 5,3%.

Segundo a “Folha”, os gastos anuais do governo federal com pagamento de juros terão tido uma redução de R$ 40 bilhões entre abril de 2006 e fevereiro de 2009; neste período, as despesas com pessoal cresceram cerca de R$ 40 bilhões. É óbvio o mérito da ampliação das políticas públicas em relação ao vazadouro de juros. Como reitor da UFRJ, necessitava de novas obras (investimento), porém estive desesperado com a falta de professores. Coloquei a placa de inauguração do Centro de Medicina Nuclear mas não consegui número de pessoal para operá-lo adequadamente. Qualquer diretor de escola pública irá viver este tipo de carência. O investimento público é fundamental, mas para ser utilizado exige ampliação de custeio. Nada é mais prioritário para o país do que manter e operar adequadamente os bens públicos. Por exemplo, todos os anos morrem no Brasil, em acidentes de trânsito e de tráfego, quase 50 mil irmãos (o total de americanos mortos nos dez anos de conflito com o Vietnã foi apenas pouco superior); 300 mil são hospitalizados, ficando em leito nove dias, em média; dezenas de milhares ficam com sequelas. No Japão, o número de acidentados por mil veículos é 1/6 dos números do Brasil. É visível que a prioridade, no Brasil, seria conservar as rodovias existentes, aumentar a segurança (inclusive com a contratação de novos policiais) e reformular os sistemas de transporte coletivo urbano e metropolitano, evoluindo da modalidade automotora para o transporte sobre trilhos. Além da redução de mortes estúpidas, da “produção” de portadores de deficiência, das incontáveis horas de dor e medo, se, no Brasil evoluíssemos para um índice próximo ao japonês, estaríamos ampliando as vagas no sistema médico-hospitalar. Entretanto, nos anos FHC e nos dois mandatos de Lula foi crônica a insuficiência de verbas de manutenção rodoviária, mas ausente do noticiário e do contencioso sequer a discussão sobre a urgência de reforma do sistema circulatório metropolitano.

A partir de 2006, houve alguma recuperação salarial em diversas carreiras do serviço público federal. As políticas públicas precisam de pessoal qualificado, deve haver algum estímulo para a progressão na carreira do servidor e um horizonte à aposentadoria digna. Estas são regras criadas pelo “public service” na Grã-Bretanha no Século XIX. Logo após a Revolução Francesa, a visão aperfeiçoada da instituição democrática considerou o funcionário público um servidor do Estado e da nação e não um assalariado a serviço do governante do momento. O acesso por concurso público, a estabilidade do vínculo empregatício, a estrutura das carreiras e a segurança da aposentadoria compõem as exigências que diferenciam o servidor público do assalariado empregado privado. Em economias de mercado, o setor privado paga mais ao assalariado do que ganha o servidor em função equivalente. Na crise, o setor privado desemprega e “lava as mãos”, como Pilatos. O salário do servidor é uma certeza para o “mercado” e lhe atenua a crise. Naturalmente, a estabilidade, depois de três anos de estágio probatório, do servidor concursado gera inveja e dá suporte à tese de “contenção do gasto público”. Debilitar o Estado num cenário de crise é enfraquecer a instituição que pode superar e consertar os desvios da economia de mercado.

Carlos Lessa é professor-titular de economia brasileira da UFRJ. Escreve mensalmente às quartas-feiras. E-mail: carlos-lessa@oi.com.br

06/04/2009 - 15:28h Música vira receita médica contra doenças

music_brain.jpg

Por MATTHEW GUREWITSCH – The New York Times – Folha SP

O fato de que a música nos toca no próprio cerne de nosso ser é uma descoberta tão antiga quanto a consciência humana. Mas será que a música pode ser considerada medicamento?
Uma especialista que aposta nisso é Vera Brandes, diretora do programa de pesquisas com música e medicina da Universidade Médica Privada Paracelsus, em Salzburgo, Áustria.
“Sou a primeira farmacologista musical”, disse Brandes no ano passado em Viena. Como tal, ela vem desenvolvendo medicamentos na forma de música, prescritos como receita médica. Para promover a linha de produtos, ela ajudou a fundar a Sanoson (www.sanoson.at), empresa que também cria sistemas de música sob medida para hospitais e clínicas.
“Estamos preparando o lançamento de nossas terapias na Alemanha e na Áustria no final de 2009 e prevemos o lançamento nos EUA em 2010”, disse.
O tratamento funciona assim: uma vez dado o diagnóstico médico, o paciente é enviado para casa com um protocolo musical para ouvir e músicas carregadas num tocador semelhante ao iPod. O timing é essencial. “Se você ouvir música para acalmar quando estiver num ponto ascendente de seu ciclo circadiano, isso não o acalmará”, explicou Brandes. “Pode até deixá-lo irritado.”
Brandes e seus colaboradores analisam músicas de todo tipo para retirar seus “ingredientes ativos”, que então são misturados e balanceados para formar compostos medicinais. Embora eles não procurem tratar patologias graves ou doenças infecciosas, afirmam que seus métodos têm aplicações amplas em desordens psicossomáticas, administração de dor e o que Brandes descreve como “doenças da civilização”: ansiedade, depressão, insônia e determinados tipos de arritmia. A farmacopeia contém até agora cerca de 55 faixas de música medicinal, e novas faixas estão sendo planejadas.
Num estudo piloto, que em 2008 foi citado na reunião científica anual da Sociedade Psicossomática Americana, Brandes e seus colaboradores estudaram os efeitos da música sobre pacientes com hipertensão sem causas orgânicas. “O tratamento convencional para pacientes hipertensos é com betabloqueadores, que suprimem seus sintomas”, disse Brandes. “A música pode tratar as causas psicossomáticas originais.”
Segundo seu estudo, depois de ouvir um programa musical criado especialmente para o paciente, por 30 minutos por dia, cinco dias por semana, durante quatro semanas, os pacientes apresentaram melhoras significativas na variação do ritmo cardíaco, um indicador importante da função nervosa autônoma.
Brandes, 52, já foi produtora de eventos e gravações musicais e tem um vasto currículo na área. Mas um acidente de carro quase fatal em 1995 a levou a pensar numa mudança de carreira.
“Quebrei as vértebras 11 e 12, passando a um milímetro da medula espinhal”, ela contou. “O médico disse: ‘Não vou poder fazer nada por você durante algum tempo, mas você pode cantar, se quiser’.” A equipe médica previa que Brandes teria que ficar imobilizada entre 10 e 14 semanas.
Ela estava dividindo o quarto do hospital com uma budista, cujos amigos vinham diariamente entoar cânticos para ela. Após apenas 15 dias no hospital, uma ressonância magnética mostrou que sua espinha estava curada. “Todo o mundo disse que era um milagre”, contou Brandes. “Os médicos me mandaram para casa. Aquilo me fez refletir.”
Brandes, que não tem diploma de estudos avançados em medicina ou ciência, sabia que suas teorias jamais ganhariam aceitação se não passassem por testes clínicos. “Desde o início, eu estava determinada a satisfazer os mais exigentes critérios científicos ocidentais”, disse.
Além dos esforços de Brandes, a Sourcetone Interactive Radio, que se descreve como “o maior serviço mundial de saúde com música”, emprega pesquisas feitas conjuntamente pelo Centro Médico Beth Israel Deaconess, em Boston, e a Escola de Medicina Harvard, onde o neurologista Gottfried Schlaug estuda os efeitos da atividade musical sobre a função e a plasticidade cerebrais. “Acho que é importante participar, fazendo música, não apenas ouvir”, disse Schlaug.
Stefan Koelsch, pesquisador-sênior sobre o neurorreconhecimento da música e da linguagem na Universidade de Sussex, em Brighton, Reino Unido, concorda e está trabalhando com tratamentos musicais participativos para a depressão. No longo prazo, ele enxerga possibilidades mais amplas.
“Fisiologicamente falando, é perfeitamente plausível que a música afete não apenas as condições psiquiátricas, mas também as desordens endócrinas, autoimunes e do sistema autônomo”, disse ele.
Vera Brandes também está pensando no futuro. “Digamos que um paciente chegue sofrendo de depressão”, disse ela. “O primeiro passo sempre é procurar um médico. Mas, a partir disso, haverá opções de tratamento: com psicólogo, antidepressivo ou música.”

12/03/2009 - 16:58h Um arcebispo mais ou menos

CONTARDO  CALLIGARIS

FOLHA SP



Lula se expressou numa ordem perfeita: ele é (primeiro) cristão e (segundo) católico


NA SEMANA passada, no Recife, descobriu-se que uma menina de nove anos estava grávida de gêmeos. A mãe imaginava que a barriga crescente fosse o efeito de um parasito. Mas não era um parasito; era o padrasto, que abusava regularmente a menina e a irmã (de 14 anos, portadora de uma deficiência mental). O abuso começou quando as crianças tinham, respectivamente, seis e 11 anos.
O padrasto foi preso, e uma equipe médica, autorizada pela mãe, interrompeu a gravidez da menina, seguindo a lei brasileira, que permite a interrupção de gravidez em caso de risco de vida para a mãe e também em caso de estupro. Quem conhece alguma menina de nove anos pode facilmente imaginar o que significaria submeter aquele corpo a uma gravidez completa e a um parto duplo.
Além disso, qualquer um pode intuir que carregar na barriga, parir e “maternar” o fruto de um estupro é devastador para a mãe assim como para os eventuais rebentos dessa catástrofe. Alguém dirá: “Mas a mulher acabará esquecendo o estuprador (que foi gentil, nem a matou, não é?), e o sentimento materno prevalecerá”. Esse conto de fada (machista) não se aplica no caso da menina de Recife.
Pede-se o quê? Que ela esqueça que, durante três anos, quem devia ser para ela o equivalente a um pai se serviu de seu corpo de uma maneira que ela não tinha condição de entender e num quadro em que ela não tinha a quem recorrer, é isso? No meio da semana, o arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, declarou que os que estivessem envolvidos na interrupção da gravidez da menina (a mãe, os médicos, os enfermeiros) fossem excomungados. Agora, o padrasto não; pois o crime dele seria mais leve. Isso, segundo o bispo, é a “lei de Deus”. O bispo se confundiu: essa não é a lei de Deus, é a lei da Igreja Católica.
E faz alguns séculos que essa igreja não tem mais (se é que um dia teve) a autoridade moral para ela mesma acreditar que seus decretos sejam expressão da vontade divina. Portanto, sua persistência em tentar convencer os fiéis de que a voz da igreja coincide com a voz de Deus se parece estranhamente com a conduta do padrasto da história (e de qualquer pedófilo): trata-se, em ambos os casos, de tirar proveito da “simplicidade” de crianças e ingênuos. Mas voltemos aos fatos. O presidente Lula, “como cristão e como católico”, achou lamentável a declaração do arcebispo. Dom José não gostou e afirmou que o presidente Lula é “um católico mais ou menos”.
O presidente Lula se expressou numa ordem perfeita: ele é (primeiro) cristão e (segundo) católico. Ou seja, se a igreja diz algo que contraria seu entendimento da mensagem de Cristo, tanto pior para ela. A mensagem cristã da qual se trata não tem a ver com a interrupção de gravidez. Ela é mais fundamental: trata-se da liberdade do indivíduo e da consciência em sua relação com Deus. Explico.
É trivial constatar que, na modernidade, a decisão moral é um questionamento constante e, às vezes, atormentado: cada um, levando em conta as ideias de seu grupo, seus valores mais singulares, seus sentimentos, sua fé (se ele tem uma) e os fatos (caso a caso), chega a uma decisão ou a uma opinião que acredita justa. Um pouco menos trivial é lembrar que esse aspecto da modernidade é o melhor fruto da tradição judaico-cristã e, mais especificamente, da novidade cristã, pela qual Deus pode ser o mesmo para todos porque ele não se relaciona com grupos ou pelo intermédio de grupos, mas com cada indivíduo, um a um.
Ser moderno não significa topar qualquer parada e perder-se no relativismo. Ao contrário, ser moderno (e ser cristão) significa tomar a responsabilidade de decidir no nosso foro íntimo o que nos parece certo ou errado. Claro, é mais difícil do que procurar respostas feitas e abstratas no direito canônico. Mas, contrariamente ao que deve achar dom José, ninguém nunca disse que ser cristão (e moderno) seja fácil.
Felicito o presidente Lula, que falou como cristão, ao risco de parecer “católico mais ou menos”. Quanto a dom José, ele falou como católico e se revelou como um “cristão mais ou menos”. O dia em que ele quiser ser cristão, ele nos dirá, com suas palavras, por que e como, em seu foro íntimo, acha o gesto de quem interrompeu a dupla gravidez de uma criança de 30 quilos muito mais grave do que a abjeção de um padrasto que, por três anos, estuprou suas enteadas.

ccalligari@uol.com.br

11/03/2009 - 16:33h Estupra, mas não aborta

MARCELO COELHO

FOLHA SP



A atitude desse arcebispo é tão estreita e sem caridade, que fica até vulgar criticá-la


BOMBAS DE fragmentação, também chamadas de “cluster” ou bombas-cacho, funcionam assim. Você lança uma bomba sobre uma área mais ou menos indefinida, uns quatro campos de futebol, digamos. Pontaria não é o importante.
O objetivo não é destruir um alvo muito específico, como um centro de atividades terroristas, uma ponte, ou uma fábrica de armamentos no país inimigo.
A bomba que você lançou -pode ser chamada de “bomba-mãe”- dá à luz centenas de bombas menores, que se espalham pela região, como se fossem uma chuva de granadas.
Como ninguém é perfeito, muitas dessas “granadas” ou submunições não explodem na hora certa e ficam no solo, à espera de que uma criança invente de tocar nelas. De modo que a região se transforma num verdadeiro campo minado.
Leio que, segundo a Cruz Vermelha, há 400 milhões de pessoas vivendo em terrenos semeados com essas bombas.
O Brasil é um dos países que produzem, estocam e exportam esse artefato bélico.
Por isso mesmo, o Brasil participou apenas como observador de uma convenção internacional no ano passado, na Noruega, em que 94 países assinaram um tratado para banir essas bombas.
Não creio que qualquer nação do mundo possa reivindicar foros de santidade em questões de defesa militar. Mas o Brasil até que tem um currículo razoável, se comparado a muitos outros países.
Acontece que as tais bomba “lança-granadas” são produzidas aqui. E exportadas, pelo que se sabe, a países como Irã e Arábia Saudita. O Brasil ficou, portanto, sem assinar nada. Isso foi em dezembro.
Mais informações no site da ONU www.mineaction.org e também em www.clusterconvention.org. Este último site afirma, aliás, que na próxima quarta-feira, 18, há mais uma chance para assinar o tal tratado. Um evento com esse objetivo será realizado na sede da ONU, em Nova York.
Bem que o arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, poderia aproveitar o embalo dos últimos dias e excomungar os produtores brasileiros dessas tais bombas de fragmentação.
Na pessoa do presidente da Comissão Pontifícia para a América Latina, o cardeal Giovanni Re, o Vaticano manifesta seu apoio ao arcebispo de Olinda e Recife, que excomungou a mãe de uma menina de nove anos, grávida de gêmeos após ter sido estuprada pelo padrasto. A mãe da menina autorizou o aborto. Os médicos que o fizeram foram excomungados também.
A atitude desse arcebispo é tão estreita e sem caridade, que fica até vulgar criticá-la como merece. Mas quando leio que o padrasto, o homem acusado de estuprar a menina, não foi excomungado, não resisto à tentação.
Assim como se martelou muito a frase de Maluf sobre o “estupra, mas não mata”, bem que dom José mereceria ser celebrizado pelo “estupra, mas não aborta”.
Não vou discutir a questão do aborto neste espaço. Uns serão contra com motivos importantes, outros, como eu, são a favor de sua legalização.
Mas veio de um padre, evidentemente contrário ao aborto, uma atitude mais bonita nesse episódio. Márcio Fabri dos Anjos, que é também professor de bioética, declarou na TV outro dia que “a primeira palavra que eu esperava ouvir da Igreja é a de que Deus está do lado de quem sofre”. A própria nota oficial da CNBB mostra atitude mais hábil e reflexiva que a do arcebispo.
Afinal, por que não ouvir, dialogar e consolar, antes de condenar?
Fora da discussão do aborto, o que mais me incomoda é a “pauta”, como se diz em linguagem jornalística, que a hierarquia católica segue na maior parte do tempo.
Parece que tudo se resume a condenar a camisinha, no lado conservador, ou discutir a privatização da Vale do Rio Doce e a Alca, no campo da esquerda.
Lideranças católicas no Brasil teriam muitos outros assuntos a tratar. Por que não reclamam, por exemplo, de coisas como a propaganda de cerveja na televisão ou da exposição das crianças ao consumismo desenfreado?
Em casos como esses, fugiriam de uma teimosia doutrinária quase talebânica e poderiam construir algum consenso, para variar um pouco. E, já que se trata de defesa da vida, podiam pensar nas bombas que o país produz, em vez de condenar a mãe de uma menina de nove anos estuprada pelo padrasto.

coelhofsp@uol.com.br

09/03/2009 - 13:30h Seja feliz, menina!, por Miriam Leitão

http://www.96fmarapiraca.com.br/v2/noticias/2357_img_chamada.jpg

Miriam Leitão – Blog do Globo

Anoitece no dia da Mulher e este silêncio do blog não é falta do que dizer. É tristeza. O caso da menina de Recife foi devastador. Não, ninguém ignora quantas meninas são vitimas da violência em suas próprias casas. Os algozes são os pais, padrastos, pessoas que deveriam estar ensinando e protegendo. Os números são muitos, os casos que aparecem na imprensa são frequentes. Mas a menina de Pernambuco doeu mais.

Talvez por ter apenas nove anos, por estar sendo estuprada desde os seis, ou porque a chantagem do padrasto era que mataria a mãe. Ou talvez porque ela é bem pequena, menor do que deveria ser para a sua idade. A menina passou anos vendo a irmã também abusada. Só a mãe das duas nada via. O que acontece que cega as mães?

A menina de Recife lembra o quanto a luta da mulher será longa. Recentemente a Sharia, um código tribal brutalmente contra a mulher, foi restabelecida em todo o Paquistão. Acaba qualquer chance de que não aconteçam casos como a da escritora do livro Desonrada, Mukhtar Mai, que foi condenada a ser estuprada publicamente porque seu irmão de 12 anos teria olhado para uma mulher de casta “superior”. O suplicio de Mukhtar, com estupro público e múltiplo, só não foi mais intenso que sua força de superação. A história dessa paquistanesa choca e emociona, mas a notícia de que a Sharia, que tinha começado a ser suprimida no Paquistão, volta a ser usada em todo o país é um choque. Penso em Mukhtar naquela pequena aldeia onde ela decidiu morar e resistir com uma escola para meninas e meninos.

Normalmente eu gosto de escrever nos dias oito de março, de quanto avançamos, mostrando estatísticas de conquistas, e de quanto falta avançar, mostrando as diferenças salariais, o pequeno percentual de mulheres no poder em qualquer país, as discriminações, mas aí… veio a menina de Recife.

Ela simplesmente me enfraquece. Que números de avanços levantar para compensar essa violência?

Eu penso nela diariamente desde o dia da notícia. Não pela polêmica da Igreja Católica, porque a Igreja não me espanta. Que ela excomungue o médico, as enfermeiras, a mãe pela decisão de interrupção da gravidez e que nada diga sobre o estuprador, não me surpreende. É apenas bizarro! Medieval.

Eu penso na menina de Recife e nos debates que tenho participado nos últimos anos, sempre em março. Nesses debates sempre discordo das mulheres bem sucedidas que dizem que a luta está ganha, que o feminismo é um movimento ultrapassado, ou outros equívocos assim. Eu, feminista, confesso, minha luta e meu espanto diante da incapacidade de ver o óbvio: que cinco mil anos de opressão não se acabam em poucas décadas, que há muito a fazer, a construir, a vigiar, para que haja algum dia respeito igual. Falta tanto para o dia em que poderemos dizer que o feministro está superado!

Mas hoje, na verdade, eu penso apenas no futuro dela: a menina curará suas feridas? Conseguirá entender e processar a violência de que foi vítima? Vai estudar, ter carreira, filhos? Vai conseguir amar um dia? Escapará das teias da reprodução da pobreza? Vai simplesmente reaprender a brincar, como deve fazer uma menina de nove anos?.

Eu podia dizer que ela desperta em mim uma fúria feminista. E é verdade, mas é uma verdade incompleta. Ela desperta em mim o o sonho de protegê-la de algum modo. De embalá-la docemente e contar uma história cheia de aventuras e graça. De cantar para ela uma cantiga de roda, de brincar de pique esconde em volta da casa. De ir com ela ao cinema e comer pipoca sentada no degrau de uma escadaria. Que tal um sorvete para resfrescar o calorão?

Não sei o que é. Mas por alguma razão eu penso insistemente na menina de Recife neste dia da mulher. Penso com o coração. Eu apenas sonho que suas feridas se cicatrizem um dia.

O discurso feminista, com estatísticas e fatos eloquentes, eu o farei outro dia. Hoje eu apenas quero sonhar que a menina de Recife um dia, apesar de tudo, após tanta violência, será feliz.

09/03/2009 - 13:09h A palavra que expressa o sentimento da maioria

“Entre os médicos e os religiosos, a medicina está mais certa do que a Igreja.”

Presidente, Luiz Inácio Lula da Silva

09/03/2009 - 12:38h Infância violentada: Em hospital, meninas grávidas por estupro correspondem a 43% dos atendimentos

O Globo

RIO – Pesquisa realizada no Hospital Pérola Byington, em São Paulo, referência no tratamento de mulheres vítimas de violência sexual, mostra que 43% dos atendimentos diários se referem a meninas com menos de 12 anos que engravidaram depois de estupro. É o que mostra reportagem de Maiá Menezes e Tatiana Farah, publicada na edição desta segunda do jornal O GLOBO. No ano passado, cerca de 3.050 abortos previstos em lei, em mulheres de todas as idades, foram realizados no país, segundo dados do Datasus. ( Miriam Leitão: menina de Recife lembra o quanto a luta da mulher será longa )

De acordo com a reportagem, a maioria das mulheres ouvidas pela pesquisa se diz contrária ao aborto. Mas as vítimas mudam de posição quando a gestação é fruto de estupro. Nenhuma delas afirma ter se arrependido da opção pelo aborto legal.

No Dia Internacional da Mulher, a história da menina pernambucana de 9 anos que se submeteu a um aborto de gêmeos depois de estuprada pelo padrasto foi relembrada. Em São Paulo, manifestantes defenderam o direito ao aborto e cobraram o fim da violência , em passeata que reuniu cerca de duas mil pessoas.

Militantes de movimentos sociais, sindicatos e partidos políticos carregaram cartazes em protesto contra o arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, que excomungou a mãe e os médicos que interromperam a gravidez da menina estuprada pelo padrasto. “Se o Papa fosse mulher, o aborto seria legal” era uma das frases do ato.

“Em vários estados, mulheres têm sofrido perseguições, humilhações e condenações criminais por terem realizado aborto. No Congresso Nacional, está para ser instaurada uma CPI do aborto, cujo resultado trará mais perseguição às mulheres”, diz manifesto distribuído na passeata.

No Rio, o projeto “Mulheres da Paz”, que integra o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania do Estado do Rio (Pronasci-Rio), organizou caminhada com duas mil moradoras de comunidades carentes. À tarde, representantes das nove Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deam) distribuíram, no trem de acesso ao Cristo Redentor, panfletos sobre como denunciar um agressor.

(Leia a íntegra da reportagem na edição digital – só para assinantes)

Passeata pelo Dia Internacional da Mulher na Avenida Paulista – Joca Duarte / Diário de S.Paulo

07/03/2009 - 18:38h É justo questionar dogmas católicos

A Igreja Católica é composta por homens e mulheres de carne e osso. Como toda instituição viva, seus dogmas merecem contestação de quem pertence aos seus quadros, de quem já pertenceu e de que não pertence. Os de fora têm o direito de opinar sobre as decisões de uma instituição poderosa e que influencia o debate público no mundo inteiro.

No Brasil, há separação entre Estado e igreja. Apesar disso, os religiosos se julgam no direito de criticar decisões legais, como o aborto de uma criança de 9 anos que foi estuprada. Ora, se podem meter o bedelho nas regras do Estado laico e democrático, podem também ouvir críticas a seus dogmas.

Nesse contexto, é absurda a excomunhão dos médicos e da mãe da menina estuprada pelo padrasto. Pior, o arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, disse que aborto é pior do que estupro. Os idiotas da subjetividade vão dizer que é assunto da Igreja Católica e ponto final. No direito canônico, o aborto é mais grave que o estupro. Quem é católico que se acomode, e os incomodados que se retirem.

Esse discurso serve a um conservadorismo anacrônico que afasta cada vez mais a Igreja Católica do cotidiano de seus seguidores. É um erro considerar um meio católico ou um mau católico quem apoia a decisão de abortar na circunstâncias em que se encontrava a menina de 9 anos. Ela pesa 30 quilos. Sua gravidez poderia matá-la. A lei brasileira permite aborto em caso de estupro e quando se coloca em risco a vida da gestante.

Há outro agravante: a menina é de um região pobre do Nordeste, na qual o peso dos valores religiosos é maior do que em outras partes do Brasil. Uma condenação da Igreja Católica soa a uma espécie de sentença de morte religiosa.

É uma pena que a Igreja Católica tenha abandonado a opção preferencial pelos pobres. O homem que deu início à caminhada dessa instituição milenar teria reparos a fazer à turma de Bento 16.

Mais debate

A briga é meio perdida, mas é preciso discutir a ampliação do direito ao aborto num país em que isso é questão de saúde pública. A mulher deve ter o direito de decisão. Legalizar mais amplamente o aborto, com limite até determinado tempo de gestação, não vai obrigar ninguém a tirar filho da barriga.

E-mail: kennedy.alencar@grupofolha.com.br


Kennedy Alencar, 41, colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre bastidores do poder, aos domingos. É comentarista do telejornal “RedeTVNews”, de segunda a sábado às 21h10, e apresentador do programa de entrevistas “É Notícia“, aos domingos à meia-noite.

06/03/2009 - 16:54h Padrasto que violentou menina de 9 anos em PE não será excomungado pelo arcebispo de Recife

Sem pecado

 

Jornal Hoje, O Globo

Arcebispo de Recife, que não excomungou estuprador, mas médicos que fizeram aborto em menina de 9 anos em PE - Reprodução Jornal Hoje, TV GloboSÃO PAULO – O arcebispo de Olinda e Recife, José Cardoso Sobrinho, não excomungou o padrasto que estuprou e engravidou a enteada de 9 anos em Alagoinha, Pernambuco. Grávida de gêmeos, a menina foi submetida a aborto na última quarta-feira e o arcebispo excomungou os médicos que participaram do procedimento e a mãe . Para o religioso, no entanto, Jailton José da Silva, o padrasto, que foi indiciado por estupro e está preso, não está incluído na excomunhão.

- Ele cometeu um crime hediondo, mas não está incluido na excomunhão. Existem tantos outros pecados graves. Mais grave do que isso, é o aborto, eliminar uma vida inocente – afirmou o arcebispo.

Acho que, neste aspecto, a medicina está mais correta que o bispo


Nesta sexta-feira, em visita a Vitória, no Espírito Santo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apoiou os médicos e afirmou que o arcebispo teve posição conservadora.

- Como cristão e católico, lamento profundamente que um bispo católico tenha comportamento conservador como este. Acho que, neste aspecto, a medicina está mais correta que o bispo – disse o presidente, ao lembrar que a violência é responsabilidade de todos e é fruto da degradação da sociedade.

( Ouça o que disse o presidente sobre o estupro da criança )

Um dos médicos que participaram do aborto, Rivaldo Albuquerque, é católico e disse que não deixará de ir à missa.

- Minha tristeza de dá porque a Igreja poderia levar para o lado da fraternidade, mas leva para o lado do conflito. Não é esta igreja que a gente gosta, que o povo quer. O povo quer uma igreja de perdão, amor e misericórdia – disse o médico.

Ele cometeu um crime hediondo, mas não está incluido na excomunhão


A equipe médica que fez o aborto recebeu mais de 500 mensagens de apoio de médicos e especialistas, que afirmaram que a decisão foi correta. A menina deixou nesta sexta-feira o hospital e se recupera bem. Junto com a mãe, ela foi encaminhada a um abrigo e não deve voltar a viver em Alagoinha, onde morava com a família e o padrasto.

Médico diz que continuará indo à missa - Reprodução Jornal Hoje, TV Globo Perguntado se todas as mulheres que fizeram aborto após serem violentadas foram excomungadas, Dom Antonio Muniz, da regional Nordeste da CNBB, afirmou que cada caso é um caso e “continua sendo analisado como tal”.

Não é esta igreja que a gente gosta, que o povo quer. O povo quer uma igreja de perdão, amor e misericórdia


A notícia da excomunhão dos envolvidos no aborto correu o mundo e foi comentada pela imprensa de diversos países.

No site da rede britânica BBC, a noticia foi a mais lida durante a quinta-feira. A rede Foxnews noticiou a excomunhão, citando a entrevista do arcebispo à TV Globo, e lembrando dos casos em que o aborto é permitido no Brasil. O espanhol “El Pais” ressaltou que no Brasil os assuntos de Estado não costumam se misturar com os de igreja. Em sua página, o “New York Times” citou que o aborto legal foi realizado a despeito da oposição da igreja. A decisão do bispo católico foi noticiada até no “Karachi News”, do Paquistão, país de maioria muçulmana.

04/03/2009 - 14:26h Beber todos os dias aumenta risco de câncer de pâncreas

Beber todos os dias aumenta risco de câncer de pâncreas Estudo com mais de 860 mil pessoas, o maior já realizado, mostra relação entre o consumo diário de álcool e o tumor

Um dos mais letais, o câncer pancreático representa 2% de todos os tipos de tumor no Brasil e responde por 4% das mortes por câncer

http://www.antidrogas.com.br/img_artigos/alcoolcancer.jpg

http://www.colegiosaofrancisco.com.br/alfa/cancer-de-pancreas/images/cance-de-pancreas.jpg

CLÁUDIA COLLUCCI E RACHEL BOTELHO – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

O consumo diário de duas ou mais doses de bebida alcoólica aumenta em 22% o risco de desenvolver câncer de pâncreas, revela uma revisão de 14 estudos científicos que envolveram 862.664 pessoas. Entre a mulheres, o risco cresce a partir de uma dose por dia.
O trabalho, publicado ontem em jornal da Associação Americana para Pesquisa do Câncer, é o maior já feito mostrando a relação entre dieta e câncer pancreático. O tabagismo é outro importante fator de risco. Fumantes têm o triplo de chances de desenvolver o tumor.
O câncer de pâncreas, um dos mais letais, é a quarta principal causa de morte por câncer no mundo. A sobrevida média, em cinco anos, é de apenas 5%. No Brasil, ele representa 2% de todos os tipos de tumor, sendo responsável por 4% do total de mortes por câncer.
Durante o estudo, os pesquisadores identificaram 2.187 pessoas que tiveram tumor no pâncreas. Elas foram comparadas com indivíduos que não bebiam. A conclusão foi que o risco de câncer aumenta a partir do consumo diário de 30 gramas ou mais de álcool (menos de duas latas de cerveja de 350 ml ou três taças de vinho). Não foi observada diferença quanto ao tipo de bebida consumida.
Na avaliação do médico Felipe Coimbra, diretor do departamento de cirurgia abdominal do Hospital A.C. Camargo, o estudo é muito importante no sentido de reforçar o perigo do consumo crônico de álcool, que já estava relacionado a outros tumores, como o de esôfago.
“Até então, não existia uma relação tão direta do consumo de álcool ao câncer de pâncreas. Assim como as pessoas devem evitar o fumo, diminuir o álcool pode ajudar na prevenção.”
O cirurgião gastroenterologista Antonio Luiz Macedo, do hospital Albert Einstein, diz que é comum as pessoas exagerarem no consumo do álcool sob alegação de que a substância faz bem ao coração. “Muitas ultrapassam facilmente os 30 gramas diários.”
O oncologista Antonio Carlos Buzaid, diretor-geral do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, afirma que o estudo corrobora uma forte suspeita de que o álcool esteja associado ao aparecimento de câncer, mas ele avalia que o aumento do risco seja pequeno. “O risco de câncer de pâncreas é tão pequeno que, se eu aumentar em 22% uma coisa pequena, ela continua pequena.”
O problema do câncer pancreático é que 90% dos pacientes descobrem a doença em estágio avançado. “É um órgão que está no retroperitônio, atrás do intestino e do estômago e que os exames habituais podem não visualizá-lo adequadamente”, afirma Coimbra.
Outro fator limitante, diz Buzaid, é que o tumor não manifesta sintomas iniciais. “Quando dá [sinais], está avançado.”

12/02/2009 - 16:37h Progresso no diagnostico do câncer da próstata

Urina pode indicar fase de câncer de próstata Estudo encontra marcadores para tumor agressivo

RICARDO BONALUME NETO
DA REPORTAGEM LOCAL

Ainda não é o fim do exame mais “temido” pelos homens -o toque retal para detecção de câncer de próstata. Mas a descoberta de que uma substância, a sarcosina, está mais presente na urina de homens com a doença abre caminho para técnicas de diagnóstico “menos invasivas”, segundo os autores do estudo, possibilitando criar um exame para identificar o estágio de progressão do câncer.
Uma equipe de 26 pesquisadores liderados por Arul Chinnaiyan, da Universidade de Michigan, examinou em detalhe os metabólitos (substâncias produzidas pelo metabolismo) que poderiam ser pistas de câncer de próstata.
Foram isolados 1.126 metabólitos presentes em 262 amostras (42 de tecido, 110 de urina e 110 de sangue) e identificados 87 metabólitos cuja presença e dose ajudavam a distinguir a próstata sadia da com tumor. Seis deles tinham níveis maiores nos casos mais graves, em que o câncer estava na fase de metástase.
A sarcosina foi a que melhor serviu para identificar os tumores, como está no artigo publicado na edição de hoje da revista “Nature”. Os níveis de sarcosina eram elevados em 79% dos casos de câncer com metástase e em 42% dos casos da doença em fase inicial. Ela não estava presente nas amostras sadias.
“Um dos maiores desafios é determinar se o câncer de próstata é agressivo. Exageramos no tratamento porque os médicos não conseguem saber quais tumores serão de crescimento lento. Com essa pesquisa, nós identificamos um potencial marcador para tumores agressivos”, declarou Chinnaiyan.
Um dos problemas da dificuldade de diagnóstico é o aumento de cirurgias desnecessárias. A descoberta poderá permitir que um simples teste de urina ajude no diagnóstico mais preciso da doença e poderá auxiliar na criação de uma terapia, pois também se encontrou um vínculo entre a sarcosina e a agressividade do câncer.
Ao adicionar o metabólito a uma cultura de células de próstata sadias, elas se tornaram malignas e agressivamente invasivas. Foi possível reverter a ação com enzimas que regulam o metabolismo de sarcosina.
A pesquisa foi feita em cooperação com a empresa Metabolon, pioneira na aplicação de uma nova área de pesquisa, a “metabolômica”. Essa área pretende conhecer em detalhe os resultados químicos dos processos celulares.
No Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer, o número de casos novos de câncer de próstata em 2008 foi de 49.530. O diagnóstico é feito pelo exame de toque retal e pela dosagem do antígeno prostático específico (conhecido pela sigla em inglês, PSA).

06/02/2009 - 12:48h As medidas de que os americanos precisam

obama_micro.jpg

Barack Obama *, The Washington Post – O Estado SP

A esta altura, ficou claro para todos que herdamos uma crise econômica mais profunda e grave do que qualquer outra desde os dias da Grande Depressão. Milhões de empregos dos quais há apenas um ano os americanos dependiam desapareceram; milhões de dólares em poupanças economizadas com tanta dificuldade pelas famílias sumiram. Em toda parte, as pessoas estão preocupadas com o que pode acontecer amanhã.

O que os americanos esperam de Washington são medidas proporcionais à urgência sentida nas suas vidas cotidianas, medidas suficientemente ágeis, corajosas e sábias para nos tirar desta crise.

Pois a cada dia que esperamos para dar início ao trabalho de reverter o declínio econômico, mais pessoas perdem o emprego, a poupança e o lar. E se nada for feito a recessão pode durar anos. Nossa economia perderá outros 5 milhões de postos de trabalho; o desemprego chegará aos dois dígitos; nosso país se afundará cada vez mais numa crise que, depois de certa altura, não seremos mais capazes de superar.

É por isso que sinto tamanha urgência em relação ao plano de recuperação que tramita atualmente no Congresso. Com ele, seremos capazes de criar ou manter mais de 3 milhões de empregos nos próximos dois anos, poderemos oferecer alívio fiscal para 95% dos trabalhadores americanos, estimular os gastos tanto dos consumidores quanto das empresas e tomar medidas que fortalecerão nosso país por anos a fio.

Esse plano é mais que uma receita de gastos de curto prazo, é uma estratégia para o crescimento dos Estados Unidos no longo prazo e o melhor aproveitamento das oportunidades em áreas como a energia renovável, o sistema de atendimento médico e a educação.

É uma estratégia que será implementada com transparência e responsabilidade sem precedentes, de modo a permitir aos americanos saber para onde vão os impostos que pagam e como esse dinheiro é gasto.

Nos últimos dias, surgiram contra esse plano críticas equivocadas, que ecoam as teorias fracassadas que ajudaram a nos levar a esta crise – a ideia de que os cortes de impostos por si mesmos são capazes de resolver todos os nossos problemas; de que nós podemos enfrentar nossos enormes testes com medidas tímidas e descompromissadas; de que podemos ignorar desafios fundamentais como a independência energética e o alto custo do atendimento médico e seguir esperando que nosso país e nossa economia continuem a prosperar.

Eu rejeito essas teorias e o mesmo fez o povo americano quando foi às urnas em novembro e votou indiscutivelmente em favor da mudança. Eles sabem que já tentamos esse caminho durante muito tempo. E, por termos insistido nesse rumo, o custo do atendimento médico continua a aumentar num ritmo superior ao da inflação. Nossa dependência em relação ao petróleo estrangeiro ainda ameaça nossa economia e nossa segurança.

Nossos filhos ainda estudam em escolas que os colocam em desvantagem competitiva. Vimos as trágicas consequências do nosso descaso com a infraestrutura quando as pontes caem e os diques se rompem.

A cada dia, nossa economia fica mais doente – e agora é a hora de aplicar um remédio capaz de conduzir os Estados Unidos de volta ao trabalho, capaz de fazer nossa economia funcionar de novo e de investir no crescimento duradouro.

Agora é a hora de proteger os mais de 8 milhões de americanos que correm o risco de perder o seguro de saúde e de informatizar os registros do sistema de saúde de todos os americanos em questão de cinco anos, economizando bilhões de dólares e salvando incontáveis vidas neste processo.

Agora é a hora de economizar bilhões de dólares aumentando a eficiência energética de 2 milhões de lares e de 75% dos prédios federais e dobrar nossa capacidade de geração de fontes alternativas de energia em questão de três anos.

Agora é a hora de oferecer às nossas crianças todas as vantagens de que necessitam para manter sua competitividade através da modernização de 10 mil escolas, instalando nelas salas de aula, bibliotecas e laboratórios de última geração; através do treinamento dos nossos professores nas habilidades matemáticas e científicas; e através da oferta da oportunidade do sonho da educação superior ao alcance de milhões de americanos.

E agora é a hora de criar os empregos que recriarão os Estados Unidos para o século 21 por meio da reconstrução das antigas estradas, pontes e diques; da elaboração de uma rede elétrica inteligente; e da conexão de cada canto do país à rede mundial de informações.

Essas são as medidas que os americanos esperam que tomemos, sem demora. Eles são pacientes o bastante para saber que a nossa recuperação econômica será medida em anos, não meses.

Mas eles não têm a paciência de suportar os mesmos impasses políticos que há muito se colocam no caminho da ação enquanto nossa economia continua a se deteriorar.

Assim sendo, temos uma escolha a fazer. Podemos deixar novamente que os maus hábitos de Washington fiquem no caminho do progresso. Ou, então, podemos nos unir para dizer que, nos Estados Unidos, o destino não foi definido para nós, mas é escrito por nós.

Podemos colocar as boas ideias acima das antigas batalhas ideológicas e o sentido de propósito acima do velho partidarismo limitado. Podemos agir com ousadia para transformar crise em oportunidade e, juntos, escrever o próximo capítulo grandioso da nossa história e superar as provações da nossa época.

* Barack Obama é presidente dos Estados Unidos

11/01/2009 - 17:05h O tédio

La epidemia del aburrimiento

Lo consideran el mal por excelencia del hombre de hoy. Quien lo padece, siente el vacío abrumador de la vida. ¿Aceptarlo o huir?

fastio_nik.jpg
clique na tira para ler

Humano, demasiado humano
Muchos lo consideran el mal por excelencia del hombre de hoy. Quien lo padece, siente el vacío abrumador de la vida. Para huir de él, algunos se alienan con el trabajo, y así se ganan, a la vez, aprobación social y desdicha; otros creen que la solución es satisfacer los deseos, pero pronto advierten que el deseo asegura el infierno. Heidegger piensa que aburrirse hace tomar conciencia de que se tocó fondo y permite así alcanzar la autenticidad. ¿Habrá que aceptar ese molesto estado de ánimo?

fastio_tute.jpg
clique na tira para ampliar e ler

Por Diana Cohen Agrest Para LA NACION – Buenos Aires, 2009

Cómo se nos habrá hecho carne que hasta Kierkegaard hace del aburrimiento la piedra fundacional de la Creación, imaginando que “los dioses estaban tan aburridos que entonces crearon a los seres humanos”. No sólo los dioses. También “Adán estaba aburrido porque estaba solo, entonces crearon a Eva. Desde entonces, el aburrimiento ingresó en la Creación”. Nietzsche no le fue en zaga cuando, con su demoledor sarcasmo, sugirió que en su descanso sabatino Dios se habría aburrido espantosamente. Y Kant aportó lo suyo cuando, a modo de consuelo del devenir de la historia misma, advirtió que, de permanecer en el Paraíso, Adán y Eva se habrían aburrido soberanamente.

Tantas citas ilustres prueban que, parafraseando a Camus, si hay un problema verdaderamente filosófico, es el del aburrimiento. Raramente reconocido en su magnitud, el tema no suele ser un objeto de reflexión de la filosofía académica ni del común de los mortales. Se trata, sin embargo ,de una experiencia inescindible de la existencia humana.

También la escritura en torno al aburrimiento corre el riesgo de resultar, precisamente, aburrida. Sin embargo, la histórica y sospechosa omisión de este asunto nos convoca a su examen: ¿Qué es? ¿Cuándo aparece? ¿Por qué aparece? ¿Por qué nos afecta? ¿Cómo nos afecta?

Aun cuando, por una suerte de reduccionismo, rotulamos con la etiqueta de “aburrido” todo aquello que no despierta nuestro interés, lo cierto es que convivimos con el aburrimiento de una manera tan atroz como imperceptible, como con “una especie de polvo. Uno va y viene sin verlo, un respira en él, uno lo come, lo bebe, y es tan fino que ni siquiera cruje entre los dientes. Pero si uno se detiene un momento, se extiende como una manta sobre el rostro y las manos”, en la descarnada descripción que de él hace Georges Bernanos en su Diario de un cura rural . El aburrimiento se apodera de nosotros, penetrando en cada intersticio con la sutileza de un escalpelo en manos de un hábil cirujano y termina por ser vivido como una compañía tan fastidiosa como irreconocible.

El aburrimiento irrumpe cuando el deseo se divorcia de los hechos, en pocas palabras, cuando no podemos hacer lo que queremos hacer o cuando debemos hacer aquello que no queremos hacer. Pero también se cierne, amenazador, cuando no tenemos ni idea de lo que queremos hacer. Podemos estar aburridos de cosas (el hastío es el alimento por excelencia de la sociedad de consumo) o de personas (de otros o hasta de nosotros mismos), aunque también podemos sentirnos aburridos cuando nada en particular nos aburre. Lo peor es que, enunciado tautológicamente, el aburrimiento es aburrido.

Pese a esta caracterización intimista, el aburrimiento no es un mero estado subjetivo sino también una característica del mundo: es tan verdad que todos los hombres son mortales como que todos, absolutamente todos, participamos en prácticas sociales saturadas de aburrimiento.

No hay nada nuevo bajo el sol

Hay quienes creen que se trata de un fenómeno relativamente reciente. Sin embargo, su origen se remonta a la Antigüedad tardía, cuando apareció un fenómeno que en griego se designó athymía y en latín, accidia (en castellano, acedia), expresiones que aludían a una condición subsumible en lo que tiempo después se difundiría con un nombre tan vago como indefinible: la melancolía. Curiosamente, los monjes eran particularmente proclives a la acedia. Alertados de un fenómeno tenido por obra del Demonio, hasta los mismos Padres de la Iglesia consideraron la acedia el peor de los pecados, no sólo porque de ella brotaban todos los demás sino porque era la expresión de cierto descontento ante la Creación de Dios, ante cuya sombra amenazadora hasta San Jerónimo exhortaba con festiva piedad: “Bebed, hermanos, bebed, para que el diablo no os halle ociosos”.

A partir del Renacimiento, la acedia enclaustrada en los muros de la vida monacal fue desplazada por la melancolía, cuya sede era un alma indisociable de un cuerpo carnal, que había sido celebrado en la Antigüedad clásica y era redescubierto por el Humanismo. Fue precisamente un médico y hombre de ciencia inglés, Robert Burton, quien condensó su novedosa concepción en un célebre ensayo publicado en 1621. En su Anatomía de la melancolía , con un espíritu más científico que apocalíptico, diagnosticó que lejos de ser atribuible a Satanás, la melancolía es una enfermedad que suele atacar particularmente a las gentes consagradas al estudio, cuyas meditaciones pueden fácilmente caer en un mórbido rumiar. A modo de fármacos anímicos, Burton recomendaba un tratamiento tan natural como placentero: diversificar las actividades y frecuentar menos los libros y más las mujeres hermosas, cuya vista regocija el corazón, siempre y cuando el trato con ellas se ejerciera -se cuidaba de aclarar el galeno- en el marco de una vida equilibrada. Sin embargo, pese a sus tan floridos consejos, su autor terminaba por admitir que no existe un remedio universal para ese mal.

La melancolía perduraría en la obra de Freud, quien en Duelo y melancolía declaró que el melancólico vive la pérdida del objeto de amor como una pérdida del Yo. Este empobrecimiento del Yo es vivido por la subjetividad como una confrontación con una vida vaciada de su sentido. En el mismo campo del psicoanálisis, Lacan finalmente reconoce en el aburrimiento su estatuto bien ganado en Televisión , donde, frente a las clásicas seis pasiones del alma propuestas por Descartes en el siglo XVII (la admiración, el amor y el odio, el deseo, el gozo y la tristeza), despliega otras tantas en versión aggiornata : la felicidad, el gay saber, la beatitud, el mal humor, la tristeza y, pues no podía faltar, el aburrimiento. Semejante linaje teórico no es suficiente, sin embargo, para dotar al aburrimiento de un bien ganado estatuto epistémico: exonerado del campo de las patologías, el aburrimiento no suele ser de interés ni para los psicológos ni para los psiquiatras, aun cuando es vivido como una pérdida de identidad que denuncia el corte entre el sentido y el vacío de sentido.

Aunque dignas de atención, acedia y melancolía se distinguen sutilmente del aburrimiento: mientras que la primera era una noción moralmente demoníaca, atribuible a unos pocos elegidos, el aburrimiento es una condición psicológica que nos afecta a todos. Y mientras que la melancolía hunde sus raíces en una tradición aristocrática, asociada a la sensibilidad y a la belleza, el aburrimiento es un descastado.

En Filosofía del tedio (Tusquets, 2006), Lars Svendsen baraja la hipótesis de que, visto desde la historia de las ideas, el Romanticismo sentaría las bases del aburrimiento contemporáneo, exacerbado por la proclama de la muerte de Dios, en cuya estela el sujeto pierde el sentido de la trascendencia y comienza a verse como un individuo que debe realizarse a sí mismo. Al hombre, confrontado con ese mandato inmanente, la vida cotidiana se le antoja ni más ni menos que una prisión.

Los méritos (o, nunca mejor dicho, los deméritos) del aburrimiento no son pocos, en particular si nos guiamos por el juicio de Kierkegaard, para quien “es la raíz de todo mal”, desde las adicciones hasta los desórdenes de la alimentación, pasando por el vandalismo, la depresión, la violencia y las conductas de riesgo, placebos sociales que funcionan como efímeros remedios que, al fin de cuentas, justifican el imaginario medioeval en el que la acedia figuraba entre los frutos de poderes demoníacos. Cuando se perpetúa, se transforma en el taedium vitae , el tedio de la vida ante el cual la jurisprudencia de la antigua Roma legitimaba el derecho al suicidio. Pues así como se ha dicho que el aburrimiento aportó más infelicidad al mundo que todas las pasiones juntas, incluso más que el Mal provocado por todas las guerras juntas, se ha dicho a su favor que ha puesto fin a numerosos males, por la simple razón de que terminaron por resultar aburridos. En Prejudices: A Philosophical Dictionary (1983), Robert Nisbet sostiene que la quema de brujas fue abandonada como práctica no por motivos legales, morales o religiosos, sino simplemente porque la gente pensó: “Una vez que viste una quema, viste todas”.

El undécimo mandamiento: “Diviértete”

Si la fórmula para superar el aburrimiento parece hoy empujar al yo más allá de sí, es porque el yo quiere encontrar algo novedoso, algo distinto de lo mismo que amenaza hundirlo en el aburrimiento. Según una lógica transgresora, todo placer impulsa la búsqueda de un nuevo placer para evitar la rutina de lo mismo, en un movimiento que persigue la búsqueda de nuevos límites que puedan ser transgredidos. Vivimos arrojándonos a lo nuevo, con la ilusión de que eso nuevo nos proporcionará, generosa y finalmente, un sentido personal. Pero ese intento está destinado, una y otra vez, al fracaso, pues esa promesa de un sentido personal jamás se cumple. Y además, porque lo nuevo rápidamente se torna una rutina. George Bernard Shaw ilustró lúcidamente esta imposibilidad de origen cuando reconoció que “hay dos catástrofes en la existencia: la primera, cuando nuestros deseos no son satisfechos. La segunda, cuando lo son”, coronando esa existencia pendular denunciada por Schopenhauer, quien notaba que cuando deseo lo que no tengo, sólo obtengo sufrimiento, y que cuando el deseo es satisfecho, sólo obtengo aburrimiento.

Esta exacerbación del deseo insatisfecho ha sido un caldo de cultivo del aburrimiento, “privilegio” por excelencia del sujeto de la Posmodernidad, quien sumido en la cultura del ocio corre en procura de divertimentos para matar el tiempo superfluo. Su maleabilidad se explica porque el aburrimiento no se conecta con necesidades reales sino con el deseo. Y el deseo suele traducirse en una constante búsqueda de estímulos sensoriales, lo único que, hoy por hoy, parece resultar “interesante”. En su manifestación más perversa, la exhibición obscena de violencia gratuita se sostiene en la premisa marketinera de sacudirnos el aburrimiento. A propósito de los efectos mediáticos sobre el deseo, Orrin Klapp exploró el impacto de la información en la calidad de vida de la cultura contemporánea. En Overload and Boredom: Essays on the Quality of Life in the Information Society , Klapp sostiene que, pese a todos sus esfuerzos para escapar de ese destino, la sociedad de la información se ha tornado una cultura tan saturada de pseudoconocimientos como aburrida. De la metralla constante de flashes “en vivo y en directo”, resulta un desgaste del sentido. El ruido y la redundancia, añade, reemplazaron la resonancia y la diversidad del mundo nacido de la Ilustración. Así pues, traicionando los ideales dieciochescos, en lugar de emular el Progreso, la sociedad de la información se ha vuelto entrópica, desordenada, de lo que resulta un déficit en la calidad de vida.

En una línea semejante, en La tragedia educativa, Guillermo Jaim Etcheverry observó que los hijos -cuando no los mismos padres- suelen tildar a la escuela de “aburrida”, calificativo más apropiado para un programa de televisión o para un festival de rock. Banalmente, se aspira a imitar el modelo Disneylandia, aun a costa de que el mandato de ser divertido penetre, como un fluido viscoso, en actividades tradicionalmente no asociadas a la diversión. Traducido en el registro discursivo, participamos directa o indirectamente de esta suerte de reduccionismo infantojuvenil, dominado por una retórica empobrecida donde todo es “divertido” o, con suerte, “redivertido”.

El vacío del tiempo en el aburrimiento no es un vacío de acción porque, en verdad, siempre acontece algo: el vacío del tiempo es el vacío del sentido. No importa tanto lo que hacemos o el objeto al que nos dirigimos (mirar una y otra vez el reloj) sino estar ocupados en algo sin importar cuán intrascendente sea (como puede serlo el mero contar cuántas moscas hay adheridas al vidrio de la ventana). Y aunque mejor vistos, los “pasatiempos”, expresión autorreferencial si la hay, son medidas paliativas toda vez que el tiempo, en lugar de aparecérsenos como un horizonte de oportunidades, se nos antoja como algo que ha de ser engañado, ocupándolo ilusoriamente en la creencia de que nos liberaremos del vacío del aburrimiento.

Si cada cosa tiene su propio tiempo, Heidegger observa que el aburrimiento aparece cuando el tiempo cronológico y el tiempo subjetivo no coinciden. Una circunstancia casual viene a cuento: cuando, consternados, nos enteramos de que un vuelo fue reprogramado y despegará con siete horas de retraso, nos vivimos anclados e impotentes en un bloque temporal que se nos ha impuesto, más allá de nuestra voluntad, y sobre el que no ejercemos control alguno. Sin consulta previa con nuestro deseo, se nos ha robado un tiempo que sólo atinamos a llenar con actos tan irrisorios como devaluados en cuanto no elegidos: en el peor de los casos, vagabundear por el duty free o comer una hamburguesa, en el mejor, leer de un tirón una novela que queríamos disfrutar sin ser forzados a hacerlo por factores extemporáneos.

Taxonomías del aburrimiento

En Bouvard y Pécuchet , Flaubert distingue el aburrimiento común del aburrimiento moderno, el “común” es el anhelo de poseer un objeto deseado (un amor perdido, un objeto suntuario, cualquier cosa que por el momento se me presenta inalcanzable), mientras que el llamado “moderno” es el anhelo mismo de deseo que se siente una vez perdida la capacidad de sentir deseo (propio del abúlico a quien el mundo se le antoja aburrido y desea, simplemente, recuperar la capacidad de desear). Kundera complejiza esta clasificación, pues en La identidad se refiere a tres clases de aburrimiento: el aburrimiento pasivo (la chica que baila y bosteza), el aburrimiento activo (los aficionados a los hobbies , al sudoku, a los crucigramas y a los rompecabezas) y por último, el aburrimiento rebelde (los jóvenes que incendian autos y rompen vidrieras).

Una última clasificación que atiende a sus modalidades, distingue el aburrimiento situacional, semejante al aburrimiento común de Flaubert, que es aquel que sentimos durante una actividad especifica (esperamos a alguien, escuchamos una conferencia); el aburrimiento de la saciedad (cuando uno tiene demasiado de lo mismo); el aburrimiento creativo, caracterizado no por su contenido sino por sus resultados (nos sentimos obligados a hacer algo nuevo). Y por último, el aburrimiento existencial -otro nombre para el aburrimiento moderno de Flaubert- que es siempre un estado de ánimo que nos invade toda vez que nos resulta aburrido el mundo como tal.

Terapéutica del aburrimiento

A menudo no puedo identificar exactamente qué me aburre. Heidegger lo ilustra con una situación por la cual, quien más, quien menos, todos pasamos alguna vez: una vez concluida una agradable velada con amigos, vuelvo a casa y me doy cuenta de que, en verdad, me aburrí espantosamente toda la noche. El “pasatiempo” no se dio en una situación, era la situación. Y la conciencia tardía del aburrimiento es la conciencia del vacío revelado en la toma de conciencia de que podría haber hecho otra cosa durante ese tiempo. En ese escenario, piensa el filósofo alemán, la tarea del aburrimiento es llamar la atención sobre esta ausencia. Este “tocar fondo”, precisamente, puede ser el inicio del retorno hacia una dimensión existencial, haciendo del aburrimiento una experiencia que conduzca hacia la autenticidad. Pese a los esfuerzos heiedeggerianos redentores de ese estado del ánimo, se le ha criticado al filósofo que, con su optimismo residual de creer que puede ser superado, permanece preso de la lógica de la transgresión.

A la solución de Heidegger de rescatar el aburrimiento como fuente redentora de sentido, se han contrapropuesto un puñado de terapias más pedestres. Por ejemplo, nos repetimos hasta el cansancio que el aburrimiento se cura a fuerza de sudor. Sin embargo, quien recurre al trabajo como remedio confunde la desaparición temporaria de los síntomas con la cura de la enfermedad. Ya Theodor Adorno asoció el aburrimiento a la alienación en el trabajo, idea ilustrada magníficamente por la célebre escena del clásico Tiempos modernos , donde Chaplin encarna risueña y lúcidamente al obrero que, reiterando una y otra vez un único movimiento, se ha metamorfoseado en una mera prótesis de la máquina, con la cual comparte la ausencia de autodeterminación en el proceso productivo. Incluso la expresión “tiempo libre” alude al lapso en que no se trabaja, cuando en rigor de verdad no se es ni más ni menos libre en un tiempo que en otro, ni necesariamente tiene más sentido uno que otro. Lo que cambia es el rol, en uno somos productores y en el otro, consumidores. Milan Kundera, en La identidad , observa que antiguamente los oficios se ejercían con pasión, el zapatero conocía de memoria cuánto calzaba cada uno de los habitantes del pueblo, y cada ocupación creaba una forma de ser. “Hoy somos todos iguales, mancomunados por nuestra apatía compartida hacia el trabajo. Esa apatía se ha tornado una pasión. La única gran pasión colectiva de nuestro tiempo.” El trabajo ya no ofrece una respuesta, y cuando parece serlo, es apenas un vano intento de huir del tiempo.

Una vez desestimada la cura a través del trabajo, ¿acaso puede ser superado por un acto de la voluntad? Bien mirado, estimular a quien siente un profundo aburrimiento diciéndole algo así como “ponele ganas” es como ordenarle a un enano ser más alto de lo que es. Porque lo cierto es que el aburrimiento es más una cuestión de sentido que de pereza, desocupación o vagancia.

La aceptación

En lugar de hacer del aburrimiento, su destino, otros rescataron el ideal filosófico de la ataraxia, esa imperturbabilidad de ánimo gracias a la cual alcanzaríamos cierto equilibrio emocional, mediante la disminución de la intensidad de nuestras pasiones y deseos. Lejos de ser malo, proclaman, es un sentimiento natural que nos asalta cuando sentimos que no somos productivos. Pero lo cierto es que si no se tolera cierto grado de ese mal, se vive una vida reducida a huir del aburrimiento. Frente a esa amenaza, y una vez resignados ante el factum del aburrimiento, se dice que en lugar de ser abolido, debería ser incorporado como un dispositivo tan funcional a la psiquis como lo suelen ser el temor, la ira o la indignación.

En una suerte de apología, lejos de buscar un antídoto, tal vez se trate de hacer del aburrimiento una parte esencial a la condición humana. Como el nacimiento, el sexo o la muerte, una más entre las tantas otras por aceptar. O, por qué no, tal vez hasta por celebrar. Reconciliándonos con él, como cuando redescubrimos a un antiguo y entrañable amigo de quien, con el tiempo, aprendimos a querer sus defectos.

04/01/2009 - 16:58h O câncer da próstata num olhar médico


O diagnóstico do tumor da próstata está longe de ser circundado por ideias consensuais; médicos e pacientes devem escolher o melhor tratamento de acordo com cada caso

http://www.plugbr.net/wp-content/uploads/2007/07/cancer_prost.gifhttp://www.laprp.com/images/surg3B.jpg

MIGUEL SROUGI ESPECIAL PARA A FOLHA SP

O PASSAR dos anos, com suas desfigurações incontornáveis, é acompanhado de tamanha deterioração dos nossos genes que, se fosse dado ao homem o privilégio da imortalidade, o mundo seria inundado por seres altamente imperfeitos. Talvez por isso, a pressão evolucionista ou Deus (na ordem ou exclusividade que você preferir) tenha criado um mecanismo impiedoso para conter os anseios de perenidade da mente humana: o câncer da próstata, que atinge cerca de 10% dos homens com 50 anos, 30% daqueles com 70 anos e 100% dos que chegam aos cem anos.

Vivem atualmente no Brasil cerca de 12 milhões de homens com mais de 50 anos, e 2 milhões deles serão atingidos pelo câncer da próstata. Essa estatística alarmante contrapõe-se a outra mais alentadora. De cada 14 pacientes acometidos pelo mal, apenas 1 morrerá pela doença, o que produz uma conclusão óbvia. A maioria dos pacientes sobrevive ao câncer, alguns por portarem tumores indolentes, que não progridem, muitos outros graças às ações médicas reparadoras.

Duas condições aumentam os riscos de contrair o câncer da próstata: a raça e a ocorrência de casos na família. A frequência desse tumor é 70% menor em homens orientais. Por outro lado, negros têm o dobro da incidência e neles o tumor costuma ceifar mais vidas. Estudos recentes patrocinados pela American Cancer Society sugerem que esse comportamento está relacionado com certa tendência hereditária e com marginalização social e menor acesso aos tratamentos curativos, fenômeno perverso que, certamente, se repete numa sociedade tão injusta como a nossa.

Sabe-se, há muito, que a incidência do câncer da próstata aumenta entre duas e cinco vezes quando o pai ou o irmão são portadores do mal. Nos casos hereditários, o tumor manifesta-se em idades mais precoces. Por isso, homens com histórico familiar devem realizar exames preventivos da próstata a partir dos 40 anos, e não após os 45, como se recomenda hoje.

Obesidade, vasectomia e excesso de atividade sexual, lembrados como possíveis causadores do câncer da próstata, não parecem ter vínculo com a doença. Contudo o tumor em homens obesos costuma evoluir de forma mais desfavorável. Por outro lado, maior frequência de atividade sexual talvez até iniba o aparecimento do câncer da próstata. Uma pesquisa que foi patrocinada pelo National Institute of Health dos EUA e envolveu 29 mil homens revelou que a incidência desse câncer é 33% menor nos indivíduos que ejaculam mais do que cinco vezes por semana. Alegro-me em relatar esse estudo, enfim uma boa notícia no meio de linhas tão áridas, lembrando que, ao se exercitar bastante, o homem também evita a obesidade, atenuando a gravidade da doença se ela insistir em aparecer.

Diagnóstico
Para explorar a presença de câncer da próstata, os especialistas recorrem ao exame de toque e às dosagens de PSA no sangue. Esses dois exames devem ser feitos conjuntamente, já que o toque e o PSA, isolados, falham, respectivamente, em 50% e 25% dos casos atingidos pela doença. Executando-se os dois testes, deixam de ser identificados apenas 7% ou 8% dos pacientes acometidos. A simplicidade dessas estatísticas poderia indicar que o diagnóstico do câncer da próstata é circundado por ideias consensuais. Infelizmente, isso está longe de ser real.

Em primeiro lugar, o toque da próstata gera assombros na mente masculina, sobre os quais têm sido dedicadas incontáveis linhas e intrincadas interpretações psicológicas. A verdade é que o toque costuma ser realizado em quatro ou cinco segundos, de forma indolor; para os mais recalcitrantes, gostaria de dizer que muito pior do que o desconforto psicológico de alguns segundos é o flagelo que perdura por anos quando um câncer é descoberto tardiamente. Em segundo lugar, o PSA, produzido exclusivamente pela próstata, encontra-se aumentado nos pacientes com câncer, mas também pode elevar-se em alguns casos de crescimento benigno, de infecção da glândula ou até em homens sem nenhuma doença local. Níveis alterados de PSA exigem avaliação médica, mas não indicam, necessariamente, a existência de câncer. Conhecendo-se as taxas de PSA no sangue e o resultado do toque, é possível calcular as chances de câncer da próstata.

Em terceiro lugar, novos exames para identificar a doença vêm sendo testados. Incluem-se aqui as proteínas PCA3, PGC e EPCA-2, que estão alteradas nos homens portadores da doença e que, talvez, sejam mais precisas do que o PSA. Confirmadas essas observações, estarão criados instrumentos adicionais para descortinar os novos casos de câncer da próstata. De forma auspiciosa para alguns, os urologistas talvez possam anunciar o fim do toque prostático. Finalmente, uma recomendação recente do Inca (Instituto Nacional de Câncer) desaconselhou os exames preventivos anuais da próstata. Segundo a nota, muitos casos de câncer da próstata são indolentes e, por isso, não progridem nem precisariam ser identificados.

Ações médicas contundentes nesses casos seriam desnecessárias e produziriam um sem-número de homens com a qualidade de vida comprometida pelas sequelas do tratamento.

Embora não tenha sido totalmente descabida, a recomendação do Inca, no mínimo, foi precipitada. Realmente, uma pesquisa publicada no ano passado pelo National Cancer Institute dos EUA concluiu que, entre os casos de câncer da próstata descobertos em exames preventivos, cerca de 15% são do tipo indolente, 25% já são avançados e incuráveis e 60% têm doença agressiva, mas curável se tratada a tempo. Fica claro que, sob o argumento de evitar tratamentos desnecessários em 15% dos pacientes, serão prejudicados 60% dos homens com tumores potencialmente curáveis e que deixarão de ser identificados no momento propício.

Com a esperança de reduzir a incidência do câncer da próstata, dieta e suplementos têm sido recomendados pelos especialistas. Infelizmente, dados emergentes indicam que os três agentes mais difundidos, o licopeno (encontrado no tomate), a vitamina E e o selênio, não têm a ação protetora que lhes foi atribuída e, pior, talvez sejam nocivos. Pesquisas das Universidades do Texas (EUA) e McMaster (Canadá) demonstraram um aumento nos riscos de complicações cardíacas e de diabetes nos indivíduos que já tinham propensão a esses problemas e que receberam vitamina E e selênio para prevenir o câncer da próstata.

Tratamento
Os casos indolentes de câncer da próstata não precisam ser tratados. Por outro lado, quando se chega à conclusão de que a doença deve ser combatida, a terapêutica é selecionada em função da extensão do câncer. Os pacientes com doença restrita à próstata são tratados com cirurgia (prostatectomia radical) ou radioterapia. Já os tumores que se estendem para outros órgãos do corpo são controlados com medicações hormonais, orientação que também é usada nos casos mais simples, que não precisam de terapêutica radical.

Uma certa polêmica envolve o tratamento dos pacientes com câncer circunscrito à próstata, gerando aflição nos portadores da doença. Cirurgiões e radioterapeutas proclamam que a prostatectomia radical e a radioterapia representam, respectivamente, a melhor maneira para tratar tais casos. Na verdade, até o presente, não foram publicados estudos convincentes comparando diretamente esses dois métodos. Pesquisas antigas e indiretas sugerem que as chances de cura com a cirurgia radical são cerca de 10% a 15% maiores do que as obtidas com a radioterapia. Ademais, dados recentes demonstraram que, quando o tumor está totalmente contido na glândula, os riscos de o paciente morrer em decorrência da doença são, respectivamente, de 2% e de 5% após o emprego da cirurgia e da radioterapia.

Novas técnicas
Outras angústias permeiam a mente dos homens atingidos pelo câncer da próstata. A prostatectomia radical é acompanhada de impotência sexual em 80% dos homens com 70 anos, em 50% dos indivíduos com 65 anos e em 15% dos pacientes com menos de 55 anos. Ademais, produz incontinência urinária em 3% a 35%, dependendo da experiência do cirurgião e da idade do paciente. A radioterapia associa-se a riscos um pouco inferiores de problemas sexuais, mas, em 10% a 15% dos casos, surgem complicações intestinais e urinárias que podem persistir por anos.

Conscientes desses problemas, os cirurgiões introduziram duas novas técnicas para executar a prostatectomia radical: o método laparoscópico e as intervenções auxiliadas por um robô, conhecido como “da Vinci”. Os dois métodos são executados através de pequenos orifícios, evitando as incisões maiores. A cirurgia assistida por robô permite, adicionalmente, uma visão tridimensional ampliada da próstata e adjacências, é facilitada pela existência de um terceiro braço manipulado pelo cirurgião e permite manobras mais precisas, já que a mão do robô realiza sete movimentos, e a mão humana, apenas quatro. Apesar do apelo que envolve o uso dessas técnicas, ditas minimamente invasivas, existem questões relacionadas que não foram ainda respondidas.

http://www.fapex.org.br/images/upload/robo1207136616.jpg

Complicações pós-operatórias mais graves têm sido observadas após a cirurgia laparoscópica, uma vez que o acesso mínimo nem sempre se traduz pela agressão mínima aos tecidos.

No caso da prostatectomia radical robótica, a principal limitação para a disseminação do seu uso é o elevado custo do equipamento. Seu valor atual, da ordem de US$ 2,5 milhões, torna-o inacessível à maioria dos centros brasileiros. Por isso, e enquanto não surgirem dados consistentes que demonstrem índices mais elevados de cura e de preservação da qualidade de vida dos pacientes tratados, deve continuar prevalecendo, em nosso meio, a indicação da cirurgia aberta. Por outro lado, é razoável que sejam instalados no país cinco ou dez centros dotados de robô, envolvendo cirurgiões experimentados, de modo que a técnica seja avaliada cientificamente. Comprovada sua superioridade, estaria justificada, dos pontos de vista médico e econômico, sua dispersão.

Como corolário, vale lembrar uma ideia consensual entre os especialistas: o sucesso na execução da prostatectomia radical está mais ligado à experiência do cirurgião e menos ao método cirúrgico utilizado. Lida de outra forma, mais importante do que a técnica escolhida é o técnico envolvido.

Os pacientes tratados com medicações hormonais podem deixar de reagir a esses tratamentos após alguns anos e, para eles, existe uma notícia auspiciosa. Uma nova droga, a abiraterona, foi recentemente testada na Inglaterra em pacientes com formas agressivas de câncer da próstata e mostrou intensa atividade antitumoral, inclusive nos casos resistentes aos tratamentos convencionais. Com baixa toxicidade, a droga fez a doença regredir em quase 70% dos pacientes, e muitos se mantinham bem quando o estudo foi publicado, em outubro último. Ainda indisponível, constitui uma esperança real na luta contra o mal.

Nestas linhas, fica claro que, ao dirigir um olhar para o câncer da próstata, vislumbram-se boas e más notícias, números decifráveis e estatísticas emblemáticas. Mais do que isso, percebe-se que, no entorno do câncer da próstata, existem seres humanos inseguros com o porvir, com aflições exacerbadas pelas divergências entre os especialistas e pelas incertezas dos tratamentos, que curam um grande número de pacientes, mas que podem comprometer a qualidade de vida desses indivíduos. Por esses motivos, um médico só exercerá com grandeza o seu papel de guardião do corpo e da alma se, tanto na saída como na chegada, levar em conta não apenas a doença mas também os sentimentos e os direitos de todos os seres de controlar seu próprio destino. Com isso, quero dizer que médicos e doentes, num certo conluio durante a travessia, devem optar pela terapêutica mais eficiente quando a sobrevida for a questão mais relevante e escolher o tratamento menos agressivo quando as complicações possíveis forem intoleráveis para esse paciente -realidade que Riobaldo, o jagunço filósofo de Guimarães Rosa, sabia muito bem como descortinar: “Digo, o real não está na saída ou na chegada, ele se dispõe para a gente no meio da travessia”.

MIGUEL SROUGI , 62, é pós-graduado em urologia pela Harvard Medical School (EUA) e professor titular de urologia da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo)

01/01/2009 - 15:15h Cinismo ou arrobo de sinceridade?

estadao_prioridade.jpg

“Trânsito não é prioridade”, afirma Kassab em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo

A afirmação de Kassab é uma confissão da sua incompetência e um insulto lançado na cara dos paulistanos, de todos os eleitores.

“Trânsito não é prioridade”, afirma sem pudor o prefeito, corroborando o que tenho mostrado aqui durante estes anos e que para alguns parecia excessivo.

Pois bem, fora este insólito reconhecimento, as declarações de Kassab aos jornais de hoje mostram um método: repetir uma inverdade muitas vezes até virar o seu contrário. O pior é que temos que reconhecer que o método funciona em São Paulo com razoável êxito.

Os usuários do transporte público sabem que o setor não foi prioridade do governo demo-tucano pois o vivenciam diariamente. Nenhum corredor novo, trajetos cada vez mais longos, nenhuma fiscalização, CET sucateada, nenhum investimento em semáforos inteligentes etc. Mas a cidade comporta um número grande de pessoas que não utilizam o transporte público e para eles Kassab pretendeu que o setor era uma prioridade, repetindo, como repete agora, realizações inexistentes. Quem usa sabe, quem não usa acreditou em Kassab. Os problemas do trânsito são decorrentes diretos das fraquezas do transporte público. E trânsito e transporte público nunca foram prioridade para os demo-tucanos.

Para que o método funcione plenamente são necessários dois requisitos a mais, estreitamente ligados entre si. Uma mídia favorável e uma oposição sem voz. Os jornais cumprem sua parte sonegando aos vereadores da oposição qualquer espaço nas suas páginas e enviesando ou reduzindo permanentemente a cobertura sobre os fatos (sem falar em matérias abertamente favoráveis e campanhas interesseiras).

Vou dar um exemplo do método de Kassab. Na entrevista ao Estadão o prefeito declara: “É fundamental o investimento em corredores, como deve ser feito, não como as administrações anteriores falavam. Corredor mesmo é você não ter interferência, não ter cruzamento. Nos pontos de parada, ter áreas para ultrapassagem, como é o Expresso Tiradentes, como é o Celso Garcia, como é o projeto para a zona sul.”

O que vemos? Kassab fala de corredores e diz que é fundamental; depois ataca as “administrações anteriores” e acrescenta um descritivo citando dois corredores. O primeiro é o Fura-Fila planejado na gestão anterior, de Celso Pitta, e do qual só existem 8 Km já tendo engolido somas fabulosas (projeto tipicamente marqueteiro e condenado por todos os especialistas de transporte por faraônico, caro e não prioritário) e um corredor que é só um projeto, o Celso Garcia, que em 4 anos nem saiu do papel. O total é completado com o mantra inverídico de aporte de R$1 bilhão no metrô (a cifra é bem menor, como já foi noticiado pelos jornais).O leitor desinformado pensa que Kassab construiu dois bons corredores. A verdade é que prometeu 5, não fez nenhum e só completou uma pequena parte do fura-fila, isto em 4 anos!

Kassab diz que é inadmissível as gestões anteriores não terem investido no metrô. Inadmissível é ter participado da administração Pitta e destruído as finanças da prefeitura, escamotear a responsabilidade dos 14 anos de poder demo-tucano no pouco metrô existente e confessar que o transporte público -do qual Kassab é responsavel- os ônibus e corredores, não são prioridade.

Inverdade também quando fala do número de vagas em creche criadas nos últimos 4 anos, inverdade registrada na própria entrevista ao afirmar na mesma frase “Fizemos 60 mil vagas. A gente recebe na cidade inteira os cumprimentos. São mães beijando, cumprimentando. Quase dobramos o número de vagas. Ninguém questiona se a gente vai zerar. Fizemos 48 mil vagas em creche.” 48 mil ou 60 mil?

Nenhuma das cifras é verdadeira. Quem tem criança e não tem vaga em creche sabe do que estamos falando. Os que se interessam no assunto e conhecem os dados de 110 mil crianças aguardando vaga e a realidade do trabalho realizado por Kassab, também. Mais e os outros?

Outro exemplo na mesma entrevista, as especialidades medicas. Segundo Kassab este problema não existe. Textual!

O entrevistador disse que “o Conselho Regional de Medicina mostrou que muitos pacientes voltam às AMAs com o mesmo problema, sinal de que eles não têm acesso a especialistas”, o que é de conhecimento de todos e só durante a campanha eleitoral Kassab criou algumas AMAs especialidades, muito poucas e abaixo do prometido. Pois bem, vejam sua resposta:

“Temos as AMAs voltadas para especialistas, o Estado tem as AMEs (Ambulatório Médico de Especialidades) e trabalhamos em conjunto. Não existe esse problema. O que existe na saúde e na educação é a necessidade permanente de melhorar e aperfeiçoar.”

Cinismo? Sim, mas um método: repetir uma inverdade até virar realidade. Para todos aqueles que utilizam o sistema privado de saúde e que não passam perto do sistema público, não aguardam meses para marcar uma consulta, o método funciona. Novamente, graças ao fato que a voz da oposição é afastada dos jornais (quase nunca os jornais entrevistam vereador da oposição para fazer o contraponto as propostas ou afirmações do governo demo-tucano).

Em janeiro de 2004 Marta Suplicy formulou um desejo, no discurso de transmissão do cargo para os demo-tucanos, para que tivessem o dobro dos seus acertos e a metade dos seus próprios erros. Nos primeiros 4 anos demo-tucanos foi o contrário o que aconteceu. Hoje iniciam um novo mandato de mais 4 anos que espero permita que realizem pelo menos o que prometeram para os 4 que passaram.

Luis Favre

Leiam embaixo o artigo do Estadão e a entrevista de Gilberto Kassab

01/01/2009 - 15:06h Trânsito não é prioridade para Kassab

Viviane Kulczynski e Bruno Tavares – O Estado SP

O engenheiro Gilberto Kassab (DEM), de 48 anos, toma posse hoje, em cerimônia a partir das 15 horas, como o primeiro prefeito reeleito de São Paulo. Após 33 meses no cargo – em abril de 2006, como vice de José Serra (PSDB), assumiu o posto com a saída do titular, que disputou e assumiu o governo do Estado -, Kassab agora tem a bênção de 3.790.558 milhões de votos (60,7% dos válidos) recebidos no 2ª turno.Eleito pela coligação São Paulo no Rumo Certo (com PR, PMDB, PRP, PV e PSC), bateu a candidata do PT, Marta Suplicy (39,3% dos votos) e segue no comando da cidade de maior orçamento do País (R$ 27,5 bilhões). Com o desafio de apresentar à sociedade um político além da Lei Cidade Limpa, terá de correr contra o tempo para realizar as novas promessas e concluir as antigas.

Como o Estado revelou na edição de ontem, a gestão deixa um passivo equivalente a R$ 5 bilhões. A maioria dos projetos e obras inacabados se concentra nas áreas de transportes, habitação e revitalização do centro. Mas os desafios atingem todas as áreas.

CARROS-CHEFE

Diante do quadro, Kassab promete empenhar forças em duas frentes que ele aponta como as grandes marcas do mandato anterior: saúde e educação. “Temos 5 milhões de pessoas que dependem do ensino público em São Paulo e 7 milhões de pessoas que dependem da saúde pública”, afirmou em entrevista ao Estado, na sexta-feira passada (leia na página C3). “Nunca se fez tanto em saúde e educação, que é o carro-chefe da nossa administração, a nossa marca.”

Mas e o trânsito, prefeito? “Você não quer que eu repita os erros de administrações anteriores, pensar no curto prazo, me preocupar em colocar nome em placa e não fazer a lição de casa, não é?” Os paulistanos, que viram em 2008 índices de congestionamentos serem batidos sucessivamente (o caos: 266 km de lentidão, às 19h30 do dia 9 de maio), terão de esperar. O tema não é prioridade.

Kassab prefere apostar em planos de longo prazo e cita sempre os investimentos em parceria com o Estado na ampliação do Metrô. “Na nossa gestão, (o investimento foi de) R$ 1 bilhão.” E deposita esperanças no Rodoanel, outra obra tocada pelo Estado, para desafogar as Marginais e liberar os caminhos pela cidade. “A grande transformação é daqui a um ano, quando tivermos a conclusão do trecho sul. Aí vamos ter uma reanálise do trânsito na cidade.”

Alguma grande mudança no horizonte? Definitivamente, não. “São oito anos de uma mesma gestão. É o mesmo governo, a mesma filosofia. A cidade renovou o mandato (assumido em 2005 por Serra). Não tem por que mudar”, diz Kassab, que promete ficar no cargo até o fim do mandato. “Chance zero”, falou, sobre uma possível candidatura ao governo do Estado, em 2010. Ano, aliás, em que ele gostaria de ver Serra eleito presidente. “Ele é a pessoa mais bem preparada hoje na vida pública para se tornar presidente”, enfatizou.

Após seis anos sem férias, o prefeito deve descansar em fevereiro. Mas não revela onde.

”Se receita cair, social não sofrerá cortes”
Gilberto Kassab: prefeito de São Paulo

Bruno Tavares e Viviane Kulczynski O Estado SP

O senhor termina o primeiro mandato com alguma frustração que esses próximos quatro anos vão lhe permitir resolver?

Quem tem o cargo de prefeito de São Paulo sempre tem a frustração de não ter solucionado todos os problemas na dimensão que gostaria. Essa é a frustração de qualquer um que esteja na vida pública. Você quer resolver todos os problemas na área de ensino, na saúde. Mas, por outro lado, é muito gratificante observar que nós avançamos mais do que qualquer gestão anterior. Nunca se fez tanto em saúde e educação, que é o carro-chefe da nossa administração, a nossa marca. Eu diria que a frustração foi não ter avançado mais. E a frustração é que nos motiva a continuar realizando. Fizemos bastante, foi uma gestão muito qualificada e nos dá muita motivação para continuar.

No primeiro mandato, o sr. sempre fez questão de se colocar como o vice do Serra…

Isso vai continuar, é a mesma administração, não muda nada. Acho que hoje ninguém tem dúvida. São oito anos de uma gestão.

Mas agora o eleito é o senhor.

Num primeiro momento, o Serra foi eleito. Ao assumir, meu papel era dar sequência a todos os compromissos, à gestão e mostrar para a cidade que o Serra acertou ao deixar na Prefeitura alguém com os mesmos compromissos. Agora, o que mudou? A cidade conheceu (meu trabalho), o vice-prefeito se tornou prefeito e achou que ele era o melhor para dar sequência. É o mesmo governo, a mesma filosofia. A cidade renovou o mandato. Não tem por que mudar, tanto é que eu não mudei a equipe. Não vão mudar as prioridades, os objetivos.

Na educação, ainda há o déficit de vagas em creches. Como resolver?

Fizemos 60 mil vagas. A gente recebe na cidade inteira os cumprimentos. São mães beijando, cumprimentando. Quase dobramos o número de vagas. Ninguém questiona se a gente vai zerar. Fizemos 48 mil vagas em creche. Isso nos permite afirmar que vamos zerar e as pessoas acreditarem. Já fizemos tanto sem ser a prioridade absoluta. A prioridade era escola de lata, salários. Agora é creche.

Na saúde, a prioridade são as AMAs, que o sr. faz sempre questão de enaltecer…

115 AMAs (Assistência Médica Ambulatorial), é um número extraordinário.

Mas elas ainda têm pendências, uma delas jurídica.

Esse questionamento jurídico não é só em relação à cidade de São Paulo. Acontece no governo do Estado, em outros Estados. O Supremo tem sido muito cuidadoso. Você vai fechar as AMAs, que estão atendendo 1 milhão de pessoas por mês? Fechar os hospitais de parceria, que funcionam com menos recursos e melhor? Demos um exemplo com a valorização do funcionalismo. As parcerias não vieram substituir, vieram complementar. Na medida em que elas complementaram, valorizamos o servidor para trabalhar em condições de igualdade. Então, não tem aquela disputa, aquele ciúmes, aquele medo.

E a questão de especialidade, o Conselho Regional de Medicina mostrou que muitos pacientes voltam às AMAs com o mesmo problema, sinal de que eles não têm acesso a especialistas.

Temos as AMAs voltadas para especialistas, o Estado tem as AMEs (Ambulatório Médico de Especialidades) e trabalhamos em conjunto. Não existe esse problema. O que existe na saúde e na educação é a necessidade permanente de melhorar e aperfeiçoar.

O sr. diz que a marca do governo é saúde e educação. Mas e o transporte, o trânsito? Não são prioridade?

Não. As prioridades são saúde e educação. Em transporte público, procuramos fazer a tarifa mais baixa possível porque são 4 milhões de pessoas que utilizam e é a mais baixa do Brasil. Vamos ficar três anos sem aumentá-la. Apesar disso, não deixamos de fazer o que deve ser feito, que é investimento em transporte público de qualidade.

Mas quais os planos para trânsito e transporte público?

Todos nós pagamos pela omissão de administrações anteriores. A falta de investimento em transporte público. É impressionante e inadmissível aceitar que nunca na cidade houve investimento da Prefeitura no Metrô. Na nossa gestão, (o investimento foi de) R$ 1 bilhão. Isso é uma demonstração da nossa falta de preocupação em colocar nome em placa. Não sou governador e nem secretário de Estado e nem serei mais prefeito quando as obras ficarem prontas. Mas, infelizmente, isso não foi feito nas últimas décadas. É fundamental o investimento em corredores, como deve ser feito, não como as administrações anteriores falavam. Corredor mesmo é você não ter interferência, não ter cruzamento. Nos pontos de parada, ter áreas para ultrapassagem, como é o Expresso Tiradentes, como é o Celso Garcia, como é o projeto para a zona sul. E investimento em Metrô e trem. Isso é transporte de qualidade. Você não pode é dizer que vai estimular com pedágio, com taxas, o uso de transporte público, se você não cria o transporte público de qualidade. É um direito da pessoa ter carro. Você tem de criar o transporte público de qualidade para que ela deixe o carro em casa, porque o tempo de viagem do transporte público vai ser 10 vezes menor. Eu sempre fui de metrô para o centro. Essa é a política que tem de ser implantada e nós implantamos na nossa gestão, só que ela é de longo prazo. O prefeito não pode ter a preocupação de colocar nome em placa. Com R$ 1 bilhão eu poderia ter feito dez pontes. É o que meus antecessores faziam. Eu não fiz.

Como o sr. mesmo diz, são medidas de longo prazo. Até lá, o que vai ser feito para o trânsito?

Você não quer que eu repita os erros de administrações anteriores, pensar no curto prazo, me preocupar em colocar nome em placa e não fazer a lição de casa.

Não existe nada que possa ser feito, como a restrições a caminhões?

Não, porque a grande transformação é daqui a um ano, quando tivermos a conclusão do trecho sul do Rodoanel. Aí vamos ter uma reanálise do trânsito na cidade, porque vamos ter toda a circulação de caminhões com direção principalmente à Baixada Santista, o Porto de Santos, sem entrar na cidade de São Paulo. O trecho sul é o mais importante, porque chega à Anchieta/Imigrantes. Ele ficará pronto já em 2010.

O sr. não pensa em nenhuma medida de engenharia de trânsito?

Medida de engenharia é manter as transformações, continuar as pequenas obras, naqueles pontos críticos e fazer a gestão do trânsito. Investir em tecnologia. Estamos recuperando nossa rede de semáforos que estava totalmente velha. Ela era mecânica, agora será totalmente eletrônica. Os nossos semáforos inteligentes… Nenhum deles era inteligente, eram todos burros.

A promessa de não reajustar a tarifa de ônibus, hoje em R$ 2,30, foi feita antes da crise econômica. Os subsídios não podem impactar os cofres da Prefeitura?

Como a Prefeitura está numa boa saúde financeira, fizemos uma opção pelo social. E o que é o social? Transporte público, saúde e educação. Hoje São Paulo tem a tarifa mais barata do Brasil. É muito positivo fazer com que 4 milhões de usuários tenham a tarifa mais barata do Brasil. Aqui está R$ 2,30 por três horas. Vamos poder, mesmo com a crise, manter a tarifa. Ela ficará três anos sem reajuste e só será reajustada em 2010.

Mesmo com os R$ 2 bilhões a menos no orçamento não haverá prejuízo ao tesouro?

Isso já está definido no orçamento. Não vamos cortar no social. Se tiver redução, vai ser em outras áreas. Qual é o desafio? Você não pode errar nas receitas. Quanto vamos arrecadar em 2008? Cerca de R$ 24 bilhões. Se você partir disso, já se define 31% para educação. Para saúde, mais uma vez não vou gastar só 15%. Na educação, a lei obriga 31%. Na saúde, 15%. Neste ano, fechei com 19%. Então, saúde, educação e transportes são três áreas em que não vou mexer. Qual o maior desafio? Tentar não mexer em nada do resto. Se cair a receita, temos de ir atrás de novas receitas. Operações urbanas, por exemplo…

Impostos?

Impostos não. Não vamos aumentar a carga tributária. Operações urbanas podem ser a saída.

Quando veremos aquela região da Luz revitalizada?

Estamos numa fase final. Estamos encaminhando para a Câmara o projeto de concessão urbanística para agilizar a primeira fase. Já temos 27 grandes empresas habilitadas ao incentivo.

Será possível entregar aquela área nesta gestão?

Tenho essa meta. É uma meta.

Na gestão passada, a Câmara foi muito favorável aos projetos do Executivo. A renovação foi pequena, mas de que forma o sr. pretende trazer os vereadores para o lado do governo?

Acho que não vai mudar. Vai continuar uma relação o mais transparente possível, em cima de políticas públicas. A maioria dos vereadores foi reeleita. A Câmara tem sua independência. Como no orçamento, eles não precisavam ter reduzido. Eles não questionaram o mérito, fizeram um corte linear porque acharam que não vai ter receita. Podiam ter contingenciado, mas não muda nada.

O sr. tem um favorito para a presidência da mesa diretora?

Mais uma vez não vamos interferir. A ideia é não ter nenhuma interferência, deixar a condução entre eles, seja o partido da base aliada, seja o líder do governo. Não tem da nossa parte nenhuma orientação, como não teve nas outras vezes.

Quais investimentos estão sujeitos a corte se a arrecadação de fato diminuir no próximo ano?

Não serão no campo social. E, se não serão no campo social, se você elencar tudo aquilo que não é social, vai definir daí qual é o volume de receita que deixará de entrar para cortar o equivalente.

A manutenção da cidade não será prejudicada?

Não, aí são serviços.

Quais pastas ainda estão sujeitas a mudanças?

Não teve alteração. Quando ganhei a eleição, disse que não haveria. O que tem são alterações rotineiras. A Prefeitura, com essa dimensão, muda muito mesmo, são muitos secretários, muitos colaboradores. O que aconteceu desde o segundo turno até agora, e durante o ano, são mudanças naturais, rotineiras.

E as novas secretarias ou as que ganharam status de secretaria?

O secretário ganhou status, não foi criada nenhuma estrutura. Secretaria de Segurança: nós crescemos, integramos com as ações do Estado, do governo federal. Tanto que o governo federal usa a cidade como exemplo de integração de ações do poder público municipal com o governo federal. Apenas mudamos o nome. Em vez de coordenador é secretário. A Secretaria de Desenvolvimento Urbano: só retiramos parte da estrutura de política urbana da Secretaria de Planejamento para uma outra estrutura. E o Miguel, que já está lá, que é diretor de Planejamento Urbano, passou a ter o status de secretário. O Controle Urbano é só o Contru que vai ficar especificamente isolado, porque o Contru não tem vinculação com Habitação, tem relação com a cidade inteira. Criamos cargos em Habitação e Meio Ambiente porque há 40 novos parques.

Vários dos seus desafios são temas metropolitanos. O sr. pensa em ajudar a criar uma autoridade metropolitana?

Isso é papel do governador. Acho que o prefeito de São Paulo sendo a favor ajuda. Mas isso tem de ser coordenado pelo governo do Estado.

E em que moldes?

Criando agências metropolitanas de serviços, específicas. O transporte público, por exemplo, tem de ser pensado sob a ótica metropolitana. Não tem sentido o Metrô e os trens da CPTM não integrarem todas as cidades. Até porque, com isso, as pessoas não vêm de carro para São Paulo.

E sob o aspecto tarifário?

As tarifas são mais caras em outras cidades. Precisaria ver a planilha de custos delas.

Quais são, por parte do Executivo, as linhas mestras da revisão do Plano Diretor?

Aproximar o emprego da moradia. Não tem nenhum sentido você ter 4,5 milhões de moradias na zona leste e o investimento em empregos não ter se concentrado nessa região. E por isso essas duas áreas de incentivos que foram criadas, na zona leste e na Nova Luz, que é vizinha da zona leste. São regiões fundamentais e dotadas de infraestrutura de transportes. Por isso as pessoas podem chegar à Nova Luz de Metrô, de trem. Planejar uma cidade com 11,5 milhões de habitantes é antes de mais nada levar emprego para as regiões próximas de onde as pessoas moram.

E de que forma o sr. pretende viabilizar isso?

Induzindo o estabelecimento de polos e indústrias em regiões específicas próximo dessas áreas.

Na primeira gestão, o sr. teve como marca pessoal e mais forte o Projeto Cidade Limpa…

Não é mais forte. Mais forte é saúde e educação. Onde eu ando, 90% das pessoas agradecem pela saúde e educação. Essa é a marca do governo.

E qual será o Cidade Limpa dessa gestão, com mesma envergadura?

O Cidade Limpa é um modelo. É mais do que o combate à poluição visual, é um combate à poluição em seus múltiplos aspectos. Como começamos pelo combate à poluição visual, que é o mais fácil, ficou com essa marca mais forte. Mas o Cidade Limpa também é a construção de moradias para transferir as pessoas das áreas de mananciais e despoluir as represas; é a atuação do Psiu no combate à poluição sonora; é a inspeção veicular. O Cidade Limpa é uma força de expressão. E não é a marca. Nossa marca, nossa prioridade, continua sendo saúde e educação. Temos 5 milhões de pessoas que dependem do ensino público em São Paulo e 7 milhões de pessoas que dependem da saúde pública. Se prioridade de um governo não é estar ao lado dessas pessoas, então não sei o que é prioridade

Quais suas pretensões políticas ao final deste mandato, já que não pode ser reeleito?

Tenho um único objetivo: sair ao fim deste mandato…

Cumprindo-o inteiro?

Cumprindo inteiro. Sair da mesma maneira que estou saindo neste primeiro, o que está sendo muito gratificante. As pessoas contentes com a administração, 63% na última pesquisa entendendo que a administração é ótima ou boa, 80% aprovando.

E se o seu nome aparecesse para o governo do Estado?

Não vou ser candidato. Vou cumprir o mandato até o fim. Chance zero.

CIDADE LIMPA: “Não é a marca. Nossa marca, nossa prioridade, continua sendo saúde e educação”

OITO ANOS: “É o mesmo governo, a mesma filosofia. A cidade renovou o mandato. Não tem por que mudar”

PLANO DIRETOR: “Meta é aproximar emprego da moradia, estabelecendo polos e indústrias em regiões específicas”

21/12/2008 - 15:03h Casamento é ‘missão quase impossível’, afirma psiquiatra

http://bodymagnetix.co.nz/UserFiles/Image/16_%20sleeping%20couple.JPG

Maria Vianna – O GLOBO

Arquivo O Globo

RIO – Antes de mais nada, esqueça a idéia de “felizes para sempre”. Esta é a sugestão do psicoterapeuta Eduardo Ferreira-Santos, médico-supervisor do Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital da Clínicas de São Paulo, autor do livro “Casamento, missão quase impossível”, lançado este mês pela editora Claridade. Para o médico, manter a individualidade é a base para uma união feliz. Em entrevista ao site do Globo, ele aponta os principais problemas que levam ao fim de um relacionamento e mostra os caminhos para quem quer ser mais feliz no amor.

Por que dizer que o casamento é uma missão ‘quase’ impossível? Não seria uma afirmação meio radical?

Sim, de fato é. A expressão ‘quase’ foi colocada apenas para mostrar que, em alguns casos e com muito esforço de ambos os cônjuges, é possível manter uma relação matrimonial estável, saudável e verdadeira. O crescente número de divórcios e a observação de que tantos casamentos se mantêm apenas na aparência, mantidos por motivos financeiros, de dependência emocional e de pressão social mostram claramente o quanto é difícil a convivência e a manutenção de um vínculo verdadeiro e duradouro.

A sexualidade permite e propicia a intimidade necessária à manutenção da união


Quais os principais motivos que fazem um casamento fracassar?

O principal motivo, na minha maneira de ver, é a imposição de que o coletivo deva prevalecer sobre o individual em uma relação estável. Em tempos modernos, em que se luta tanto pela individualidade, surgem enormes conflitos de interesse que, se não trabalhados exaustivamente através do diálogo franco e aberto em busca do consenso, levam fatalmente à situação de concessões, de submissão de um ou de outro que, por sua vez, levam ao desgaste pessoal devido às frustrações geradas. As frustrações, como se sabe, geram sentimentos antagônicos de depressão e raiva, acumulando-se ao longo do tempo e exigindo reparações por parte daquele que submete o outro e que, por fim, esgotam a expectativa de uma vida feliz e harmoniosa a lá “Família Margarina”.

Por que as pessoas ainda se casam? Há motivos certos e motivos errados que levam a um casamento ou isto é uma questão individual?

Há vários enfoques teóricos que procuram explicar este fenômeno, desde o biológico (a tendência natural à perpetuação da espécie) até o meramente social que ainda exige a qualificação de casado ou mesmo descasado, com observações pejorativas em relação às ’solteironas’ ou ’solteirões’, além da intensa propaganda subliminar ou mesmo explícita de uma suposta estabilidade só encontrada na família. O fator psicológico que fica entre o biológico e o social é um determinante importante, pois as pessoas acreditam que sozinhas estão incompletas e procuram em um outro a “outra metade da laranja”, na esperança de se sentirem completas e satisfeitas.

Como explicar casais que se juntam, brigam sem parar e não conseguem se separar?A explicação mais plausível para este fato é a dependência, seja ela financeira ou emocional. Há, ainda, mesmo com toda a evolução ocorrida nos últimos tempos, particularmente com a ascensão da mulher no mercado de trabalho, uma enorme dependência econômica e emocional que torna principalmente a mulher uma refém do marido provedor e estabilizador.

Sexo é fundamental para um casamento feliz?

Sim, pois ainda numa visão romântica, a sexualidade permite e propicia a intimidade necessária à manutenção da união. Por outro lado, o “sexo por sexo” tem se tornado tão banalizado que perde em muito pelo quesito respeito, em minha opinião, o fundamental para uma união feliz.

A falta de comprometimento consigo mesmo e com a própria vida acaba por levar as pessoas a realizarem atos impensados e desastrosos


Há características comuns em pessoas que são mais felizes em relacionamentos e que conseguem manter relações saudáveis?

Acredito que há dois lados nesta questão. Um deles, a maneira mais antiga, é o daquelas relações que parecem estáveis e felizes porque um dos cônjuges abdicou de sua individualidade e, inconscientemente, se deixa submeter pelo outro, “curtindo” sua solidão a dois em nome de pressões culturais . A outra forma, como já falei, é a mais trabalhosa, pois exige um constante diálogo através das longas e cansativas “discussões da relação”, a DR, como já se fala jocosamente, em que ambos procuram encontrar pontos de vista em comum sobre as várias adversidades que a vida apresenta.

Como saber se é a hora certa de se casar ou de se separar?

Não creio que haja uma hora certa para casa ou para se separar. Na verdade, penso que ambos devam estar bastante conscientes do ato que estão por realizar e saibam avaliar com clareza o que este ato significa na vida de cada um e, no caso de uma família, nas implicações para os filhos. Penso que a falta de comprometimento consigo mesmo e com a própria vida acaba por levar as pessoas a realizarem atos impensados e desastrosos, com repercussões traumáticas, muitas vezes para o resto da vida.

13/12/2008 - 15:42h FDA pode banir drogas para asma

http://imgsrv.kcbs.com/image/kcbs/UserFiles/Image/asthma_inhaler.jpg

Serevent e Foradil, broncodilatadores aprovados pela Anvisa, são amplamente usados no Brasil

Recomendação é de painel de especialistas da agência, que avaliam que remédios aumentam risco de morte; posição não é definitiva

FERNANDA BASSETTE – FOLHA SP

Especialistas da FDA (agência norte-americana que regulamenta a aprovação de alimentos e fármacos) sugeriram a proibição do uso dos medicamentos Serevent e Foradil para tratar pacientes com asma sob a justificativa de que eles aumentam os riscos de morte. No Brasil, os dois remédios são aprovados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e são amplamente prescritos pelos médicos.
A recomendação foi feita durante uma reunião realizada anteontem nos Estados Unidos e ainda não é a posição definitiva da FDA, que costuma seguir a mesma linha de decisão.
A discussão envolvendo os riscos dos medicamentos para asma incluía outros dois remédios: Advair (que ainda não é aprovado no Brasil) e Symbicort. Esses não tiveram associação direta com o aumento do número de mortes e continuam indicados para tratar asma.
Segundo o alergista Celso Henrique de Oliveira, professor da pós-graduação em pediatria da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Foradil e Serevent são medicamentos broncodilatadores de ação prolongada, indicados apenas quando associados a um corticóide inalatório. Já Advair e Symbicort possuem corticóide na formulação. “O broncodilatador abre os brônquios e ajuda o paciente a respirar, enquanto o corticóide tem ação antiinflamatória e age no tratamento da doença.”
O problema, explica Oliveira, é que muitos pacientes usam os broncodilatadores por conta própria e para alívio imediato da crise, sem associar com um corticóide -o que não é recomendado. Em tese, esses remédios deveriam ser vendidos apenas com receita médica.
“A gente sabe que no Brasil a venda acontece indiscriminadamente. O remédio é indicado para uso duas vezes por dia, mas o paciente usa cinco, seis, até dez vezes. Isso causa uma sobrecarga mesmo. Além disso, as causas das mortes ainda estão sendo investigadas”, afirmou o alergista.
Segundo Oliveira, Serevent e Foradil são medicamentos “primos” dos broncodilatadores Aerolin e Berotec, de ação curta e que são usados no tratamento de asma há mais de 30 anos. “Serevent e Foradil são melhores, melhoram a qualidade de vida do paciente e têm uma indicação específica. Em vez de proibir o uso, as agências reguladoras deveriam controlar a venda, feita de maneira indiscriminada, pois qualquer remédio ingerido em excesso pode aumentar o risco de morte.”
Na opinião da alergista Yara Mello, diretora da Associação Brasileira de Asmáticos (Abra), os dois medicamentos possuem ação comprovada, demonstrada em inúmeros estudos clínicos, então ainda não há motivo para pânico.
“O que a FDA está apresentando agora são evidências estatísticas de que há mais casos de morte de pacientes que usaram os remédios sem o corticóide, mas eles ainda não comprovaram qual mecanismo está envolvido nisso. Por isso, acho complicado associar o medicamento à morte”, ponderou.

Nenhum caso grave

A assessoria de imprensa da Anvisa informou que a agência está acompanhando as discussões internacionais sobre a indicação de Serevent e Foradil para tratar asma, mas avisou que, por enquanto, não há indícios suficientes de riscos para proibir os medicamentos no Brasil e também não há nenhum registro de reação adversa ou efeito colateral grave associados aos medicamentos.
Tatiana Matozo, da Novartis (fabricante do Foradil) e Robson Lima, da GlaxoSmithKline (que fabrica o Serevent) informaram que as empresas acreditam na segurança dos produtos, quando usados de acordo com o que está previsto na bula -uso do remédio associado a um corticóide inalatório. As duas informaram também que a decisão não é definitiva.
(Colaborou RACHEL BOTELHO)

01/12/2008 - 08:09h Transporte gratuito para gestante fica disponível só depois do parto

http://www.kassab25.com.br/files/imagecache/tratamento-noticia/page/mae_paulistana.jpgMatéria do jornal Diário de S. Paulo de sexta-feira (28) revela que o transporte gratuito prometido para gestantes da capital que participam do Programa Mãe Paulistana durante a gravidez só tem chegado depois do parto. O benefício deveria estar disponível no início da gestação, para que as mulheres pudessem ir até as Unidades Básicas de Saúde (UBS) para realizar as consultas e exames durante toda a gravidez. Mas, na prática, não é o que vem ocorrendo para muitas mulheres.

O Mãe Paulistana nada mais é do que o programa Nascer Bem, implantado na gestão Marta Suplicy e que teve o nome mudado na atual administração. Trata-se de uma rede de atenção às gestantes, que prevê transporte gratuito e atenção no pré-natal e puerpério.

O programa foi usado na campanha eleitoral como sendo uma das marcas do prefeito Gilberto Kassab. Mas no final do segundo turno, um jornal revelou que figurantes teriam sido usadas para falar sobre o Mãe Paulistana nos programas de rádio e TV do candidato do DEM.

O Diário entrevistou mães e gestantes que relatam problemas que enfrentam para usarem o benefício. “Entrei com o pedido do Bilhete Único do programa quando estava grávida de um mês e quinze dias, mas até agora não recebi nem o cartão”, contou ao jornal a recepcionista Ângela Maria de Araújo, de 27 anos, mãe de Agatha, de dois meses. Para chegar até a UBS Paulo VI, na Zona Oeste, onde fez todo o acompanhamento durante a gravidez, Ângela precisava tomar dois ônibus.

“Vim aqui os nove meses da minha gravidez. E tenho vindo agora, que minha filha nasceu, para fazer o acompanhamento com o pediatra”, diz. Na última quinta, quando levou a filha ao médico na UBS, Ângela consultou mais uma vez se o benefício estava disponível. “Só disseram que ainda não estava”, conforma-se. (Fonte Boletim bancada PT).

26/11/2008 - 19:08h Santa Catarina pede doação de água potável, médicos voluntários e dinheiro

http://f.i.uol.com.br/folha/homepage/images/08331227.jpghttp://f.i.uol.com.br/folha/homepage/images/08331345.jpg

 Moradores caminham por rua alagada em Itajaí, em Santa Catarina; a região foi a mais atingida pelas chuvas que mataram 86. A direita, Lula e o governador de SC, Luiz Henrique, sobrevoaram hoje a região do Vale do Itajaí; governo vai destinar R$ 1,6 bilhão

da Folha Online

Atualizado às 16h01.

A Defesa Civil de Santa Catarina pediu doações de água potável, médicos voluntários e dinheiro aos municípios atingidos pelas chuvas. Com acessos interditados, há, no entanto, dificuldade para a entrega dos materiais. Com isso, Defesa Civil Estadual pede para os interessados priorizem as doações em dinheiro nas contas bancárias.

A água poderá ser entregue na Defesa Civil dos municípios, além dos órgãos de segurança do governo estadual, como polícias Civil e Militar e Corpo de Bombeiros.

Hospitais do Estado pediram também ajuda de médicos voluntários, como é o caso do Santo Antônio, em Blumenau, que precisa de um oftalmologista. Medicamentos para atender 50 mil pessoas foram enviados pelo Ministério da Saúde.

A Defesa Civil criou duas contas bancárias para receber doações para compra de mantimentos. Os interessados em contribuir podem depositar qualquer quantia nas seguintes contas:

- Banco do Brasil – Agência 3582-3, Conta Corrente 80.000-7;
- Besc – Agência 068-0, Conta Corrente 80.000-0;
- Bradesco Agência 0348-4, Conta Corrente 160.000-1
Em nome da pessoa jurídica é Fundo Estadual da Defesa Civil, CNPJ – 04.426.883/0001-57

O posto da PRF (Polícia Rodoviária Federal) de Biguaçu, na região da Grande Florianópolis, está recebendo doações de alimentos não-perecíveis para as vítimas da enchente. A mercadoria arrecada será entregue à Defesa Civil Estadual.

Itajaí

O município de Itajaí, um dos mais afetados pelas chuvas, pede material para sutura e curativos para poder atender os feridos.

As doações podem ser entregues na Univali Itajaí –rua Uruguai, 458, em Itajaí. Moradores de outros Estados do país devem encaminhar os materiais para qualquer posto da Defesa Civil.

Carretas com doações às vítimas aguardam em Curitiba a liberação da estrada que dá acesso à cidade de Itajaí. Os caminhões levam roupas e alimentos, doados pela delegacia da Receita Federal em Foz do Iguaçu (PR), mas não conseguem chegar à cidade.

Orientação

A Defesa Civil Estadual pede prioridade nas doações em dinheiro. Mesmo que o empresário ou pessoa física queiram fazer doações em espécie, o Estado não conta, neste momento, com estrutura suficiente para atender o transporte desses produtos.

Entretanto, empresas interessadas podem enviar donativos desde que se responsabilizem pelo transporte. Ao menos 50 grandes empresas já fizeram doações. Foram montados centros de distribuição nas principais localidades atendidas.

São Paulo

Em São Paulo, a Cruz Vermelha Brasileira e a Comdec (Coordenadoria Municipal da Defesa Civil-SP) anunciaram a criação de postos para arrecadar doações para as vítimas das chuvas que atingem Santa Catarina.

A arrecadação vai funcionar 24 horas na sede da Comdec, na rua Afonso Pena, 130, no bairro Bom Retiro, e na sede da Cruz Vermelha Brasileira, na avenida Moreira Guimarães, 699, no bairro Saúde. As defesas civis das subprefeituras receberão doações em horário comercial.

O governo de São Paulo anunciou que a partir de hoje irá receber doações de água potável em todos os quartéis do Corpo de Bombeiros e em postos de policiamento da Polícia Militar.

As doações podem ser feitas durante o horário de funcionamento dos quartéis e postos. O transporte das doações será feito pelo Fundo Social de Solidariedade, segundo a Polícia Militar.

25/11/2008 - 17:25h Centro médico favoreceu laboratório

Renomado psiquiatra ajudou a aumentar lucro de empresa farmacêutica

http://www.motherjones.com/blue_marble_blog/Pharma%20Industry%20Can%20Help%20States.jpg

Gardiner Harris Do New York Times – O GLOBO

NOVA YORK. Quando uma investigação no Congresso americano revelou, em junho, que o renomado psiquiatra infantil Joseph Biederman, da Universidade de Harvard, havia recebido muito mais dinheiro de um laboratório farmacêutico do que havia relatado à sua instituição, este declarou que “seu interesse era apenas o avanço do tratamento médico por meio de um estudo rigoroso e objetivo”. Porém e-mails e documentos internos da Johnson & Johnson tornados públicos mostraram que Biederman convenceu o laboratório a financiar um centro de pesquisa no Hospital Geral de Massachusetts cuja meta seria “levar a adiante os interesses comerciais da Johnson & Johnson ”. Documentos também mostraram que a Johnson & Johnson escreveu o sumário de um artigo científico assinado pelo psiquiatra.
O trabalho de Biederman ajudou a elevar em 40 vezes, de 1994 a 2003, o diagnóstico de transtorno bipolar pediátrico e estimulou rápido aumento na prescrição e uso de potentes, perigosos e caros antipsicóticos em crianças. Embora muitos de seus estudos sejam pequenos e às vezes financiados por fabricantes de drogas, ele tem grande influência em sua área, em parte devido à sua posição numa mais prestigiadas instituições médicas do mundo.
A Johnson fabrica o Risperdal (risperidona) e mais de um quarto de seu uso é em crianças e adolescentes. Na semana passada, especialistas disseram que drogas como Risperdal são receitadas em excesso para crianças e que resoluções deveriam ser adotadas sobre possíveis riscos. Outros antipsicóticos conhecidos são Zyprexa (Eli Lilly); Seroquel (AstraZeneca); Geodon (Pfizer), e Abilify (Bristol-Myers Squibb).
Milhares de pais entraram com ações contra Johnson & Johnson, Eli Lilly e AstraZeneca, alegando que seus filhos tiveram seqüelas depois de tomarem drogas psiquiátricas, cujos riscos foram minimizados pelos laboratórios. Advogados das vítimas têm exigido milhões de documentos das empresas, quase todos apresentados sob ordem judicial. E pediram a um juiz para intimar Biederman.

Médico ficou furioso por não receber dinheiro

Em moção há duas semanas, advogados argumentaram que eles deveriam receber permissão para ouvir Biederman porque seu trabalho tem sido crucial na aceitação generalizada de antipsicóticos na infância. Para apoiar esta tese, advogados mostraram documentos, incluindo emails de Johnson & Johnson, mencionando Biederman.
Esses papéis mostram a delicada relação entre laboratórios e médicos influentes. Em e-mail em novembro 1999, John Bruins, executivo de marketing da Johnson & Johnson, pediu a superiores para pagar um cheque de US$ 3 mil a Biederman por palestra na Universidade de Connecticut: “Biederman não é um qualquer e tem pavio curto”, escreveu. Bruins se referia ao fato de o psiquiatra ter ficado furioso depois que a Johnson recusou pedido de US$ 280 mil para pesquisa. Depois disso, a companhia passou a ser ignorada na sua especialidade.
Laboratórios contratam médicos para escrever artigos e recrutam cientistas como autores.
A prática é criticada por sociedade médicas e universidades.
Biederman, que ainda trabalha para o centro de pesquisas da Johnson, omitiu de Harvard que recebeu US$ 1,4 milhão da companhia e de outros laboratórios.

Conflitos de interesse no jornalismo de saúde


Laboratórios oferecem viagens

Roni Caryn Rabin
Do New York Times

NOVA YORK. Jornalistas de saúde podem se ver envolvidos nos mesmos conflitos éticos que eles próprios reportam ao aceitarem prêmios patrocinados por indústrias farmacêuticas ou confiarem em informações prestadas pelas assessorias de comunicação dessas empresas, alertam pesquisadores.
Prêmios financiados por laboratórios que oferecem premiação em dinheiro e viagens pagas por fabricantes de medicamentos estão entre os mais “chocantes” elos financeiros entre jornalistas e a indústria farmacêutica. O estudo foi publicado na revista “British Medical Journal” e tem como principal autor Steven Woloshin, do Instituto Dartmouth de Políticas em Saúde e Prática Clínica.
Entre os prêmios citados pelo artigo estão alguns oferecidos pelos laboratórios Eli Lilly e Boehringer Ingelheim para reportagens sobre incontinência urinária e novos tratamentos para o câncer.
Os vencedores ganham viagens internacionais.
Os autores também citam treinamentos e programas educacionais voltados para jornalistas financiados pela indústria. O texto critica duramente a confiança que muitos repórteres depositam em textos e material de divulgação sobre drogas distribuídos pelos próprios fabricantes para obter informações e, mais grave ainda, para acessar pacientes e especialistas médicos.

23/11/2008 - 15:17h A nova superbactéria

Caption: Scanning electron microscope image of A. baumannii, with maps of its genome (outer circle) and alien island sequences (inner circle – red).
Credit: Courtesy of J.Carr/CDC; T.Gianoulis and D.Massa/Yale

Comunidade internacional divulga alerta para infecções resistentes a remédios

Normalmente encontrada no solo e na água, uma perigosa e resistente bactéria se alastra por hospitais de todo o mundo, inclusive do Brasil, alertaram especialistas em doenças infecciosas em artigo publicado esta semana na revista médica “The Lancet”. De acordo com os médicos, a Acinetobacter baumannii seria ainda mais ameaçadora do que a MRSA (uma variante muito resistente de Staphylococcus aureus) e a Clostridium difficile: ela já responde por pelo menos 30% das infecções hospitalares resistentes a drogas.

— Há um crescente aumento de infecções por A baumannii em vários hospitais em todo o mundo — afirmou, em entrevista à Reuters, Matthew Falagas, da Universidade de Tufts, em Boston, e do Instituo Alfa de Ciências Biomédicas, na Grécia, co-autor do artigo ao lado de Drosos Karageorgopoulos. — E são infecções muito difíceis de tratar porque as bactérias são resistentes à maioria dos medicamentos disponíveis.

Brasil já registrou casos de infecção

Especialistas em infecção hospitalar no Brasil já estão cientes da ameaça da bactéria e de sua presença em centros de saúde no país há algum tempo.

— Do mesmo modo que em outros países, não somente as Staphylococcus aureus resistentes à meticilina, conhecidos como MRSA, têm preocupado nossa comunidade médicocientífica.

Surtos de infecções hospitalares causadas por A. baumannii, sensíveis somente ao antibiótico colistina, têm sido descritos, há alguns anos, no Brasil — diz Agnes Marie Sá Figueiredo, diretora do Instituto de Microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

De acordo com o artigo da “Lancet”, o papel da A. baumannii em graves infecções diagnosticadas em pacientes criticamente doentes é cada vez mais claro. “Esse patógeno está associado a surtos de infecção muito difíceis de serem controlados”, destaca o texto.

Alguns médicos estão lançando mão de uma classe de antibióticos conhecidos como polimixinas para combater a infecção.

Essas drogas não são usadas há 20 anos para esta finalidade, em parte por causa dos efeitos colaterais que apresentam, entre eles problemas renais. “Isso significa que os médicos precisam de novas drogas para combater a bactéria”, sustentou Falagas. “Mas a melhor arma para deter o avanço da A. baumannii ainda é lavar bem as mãos. Essa é a medida mais importante de prevenção para os que trabalham em hospitais.” Mas não apenas. A limpeza das instalações hospitalares e dos equipamentos utilizados é ainda mais importante, sustentam especialistas em infecções resistentes.

A A. baumannii compartilha muitas das piores características da MRSA e da Clostridium difficile, como a sobrevivência em superfícies secas e a resistência à maioria dos desinfetantes. A A. baumannii sobrevive na poeira e até na roupa de cama por meses.

Ela também pode ser transportada na pele de pessoas saudáveis. Tudo isso torna muito difícil a erradicação da bactéria depois que ela se instala em alguma instituição, explicam os especialistas, e revelam a importância da limpeza rigorosa na prevenção.

A A. baumannii provoca infecções sangüíneas e pneumonia, entre outros problemas.

Especialistas dizem que a bactéria não representa uma ameaça às pessoas saudáveis e que mesmo para as linhagens mais resistentes ainda existem drogas eficazes. No entanto, dizem, a questão é preocupante.

22/11/2008 - 15:00h O conselho do governador

TENDÊNCIAS/DEBATES

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

 

 

O conselho do governador

DAVI DE LACERDA


O pragmatismo do conselho que o governador me deu reflete o descaso do Estado com os médicos da rede pública de saúde


A SÃO Paulo Companhia de Dança realizou no dia 7 deste mês uma magnífica apresentação em comemoração ao seu primeiro ano de existência. Entre as várias autoridades presentes estava José Serra. Ele escreveu a introdução do programa e merece grandes elogios pelas realizações da companhia. O belo espetáculo foi seguido de um coquetel, no qual tive a honra de parabenizar o governador pessoalmente pela alta qualidade técnica alcançada por uma companhia tão jovem.

O breve encontro foi a oportunidade de lhe comunicar um fato que me deixara perplexo, ocorrido no início daquela semana.

Ao me apresentar, contei ao governador que sou médico, que fiz graduação na USP, pesquisas em Harvard, residência em dermatologia no hospital Johns Hopkins (EUA) e especialização em cirurgia dermatológica em Paris. Contei também que há cinco dias fora contratado como médico concursado do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Ele sorriu e me deu parabéns. Ao agradecê-los, muito constrangido, informei-o de meu espanto ao descobrir que o salário-base para o médico do HC era de R$ 414 mensais para uma carga horária de 20 horas semanais.

O governador buscou me consolar dizendo que eu não ganharia só isso.

Respondi que estava ciente das gratificações e que, mesmo assim, meu salário bruto seria de R$ 1.500.

Informei-o ainda de que o custo para manter meu consultório fechado durante as horas em que estarei no HC é o triplo do valor que receberei do Estado.

Àquela altura, quando já não mais sorríamos, pedi sua opinião. O governador me aconselhou a deixar o HC, dizendo que o HC não é um bom negócio para mim.

A objetividade e o pragmatismo do conselho refletem bom senso nas finanças privadas. O seu conteúdo reflete o descaso do Estado com os médicos da rede pública de saúde e com o futuro de uma instituição cujas contribuições assistenciais e para a pesquisa e educação médica são inigualáveis em todo o território nacional.

A maioria dos médicos concursados do HC são funcionários do Estado atraídos pela fama da instituição. Eles se distinguem pela admirável formação acadêmica e excelência dentro de suas especialidades. Quase todos são profissionais humanitários, muito trabalhadores e que se dedicam aos seus pacientes de forma exemplar.

Grande parte deles detém habilidades e notório saber valorizados além das fronteiras da instituição e do país.

Quase nunca fazem greve e freqüentemente acumulam tarefas para que o hospital funcione. Muitos fazem pesquisas inovadoras, publicam artigos científicos e constantemente levam trabalho para casa. São médicos tão apaixonados pelo que fazem que não se deram conta de que poderiam entrar em um péssimo negócio. Com tantas qualidades, seria esperado que os médicos do HC fossem pelo menos remunerados adequadamente. O salário de qualquer médico deve, no mínimo, pagar o longo investimento na sua formação e nos cursos de reciclagem; deve também permitir que exerça sua profissão com dignidade e que seja modelo de saúde para os seus pacientes. A sua remuneração deve ainda compensar pela grande responsabilidade que carrega.

As associações médicas estaduais sugerem hoje um piso de R$ 7.500 para atender tais necessidades. O HC paga um quinto desse valor.
Não precisa ser economista para perceber que pagar para trabalhar não é um bom negócio. Enquanto a política de estagnação salarial no HC é péssima para os médicos, ela é desastrosa para toda a população.

Sem a vontade governamental de resgatar salários de médicos e funcionários do HC, o elenco dos que vão dançar nessa história é gigantesco, e a coreografia, tragicamente previsível.

Primeiro ato – Os prestigiados médicos que se aposentam não encontram candidatos à altura para substituí-los. Os novos médicos que ainda ingressam, quando dotados de um pouco de inteligência e bom senso, rapidamente abandonam seus cargos.

Entreato – Pacientes graves de renda média e baixa não conseguem acesso a uma das poucas filas que restavam a sua disposição. Segundo ato – Sem médicos capacitados, o atendimento se torna precário, e a pesquisa, de baixa qualidade; não se produzem novos conhecimentos nem se consegue transmiti-los aos alunos da USP. Os prodigiosos passos alcançados pelo HC e pela Faculdade de Medicina da USP em tantas décadas já não mais impressionam nem beneficiam aqueles sentados em camarotes. As cortinas se fecham.

O conselho do governador ilumina a cena.

DAVI DE LACERDA, 36, graduado em medicina pela USP e residência em dermatologia pelo Johns Hopkins Hospital (Baltimore, EUA), é dermatologista em consultório e no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Publicado em 18/11/2008 página 3 Folha de São Paulo