Alberto Tamer* – O Estado SP
Os presidentes dos bancos centrais reunidos nos Estados Unidos reafirmaram que a recessão global está perto do fim e, mais uma vez, alertaram contra o otimismo prematuro. “O Fed (banco central americano) não está preparado para jogar confete ao primeiro sinal de crescimento”, afirmou Bernanke. “É cedo para tirar os trilhões de dólares injetados na economia e o apoio dos bancos centrais. Falta muito para que a economia se autossustente”, acrescentou. Seus colegas confirmam essa tese. E é exatamente isso que Meirelles vem dizendo no Brasil, apesar de um certo clima que vai além do alívio e beira a euforia. Há muitos riscos a enfrentar, mesmo que a economia volte a crescer.
E QUANDO O GOVERNO SAIR?
Mas por que insistem tanto nessa cautela, mesmo admitindo que o pior passou e que, como disse Bernanke, “o colapso possível do sistema financeiro global foi evitado?”
A principal preocupação no momento não é mais com a recessão, mas o que poderá acontecer quando os governos, principalmente Estados Unidos e China, tiverem de retirar ou pelo menos reduzir o estímulo aos investimentos, ao consumo e, nos casos americano e europeu, ao socorro aos bancos? Estima-se que foi bem mais de US$ 10 trilhões, se somarmos o aporte de recursos aos grandes bancos, a salvação da indústria automobilística, a boia lançada aos mutuários com hipotecas atrasadas. Ainda agora, foram US$ 3 bilhões em algumas semanas, com o governo americano dando até US$ 5 mil para quem vendesse o carro velho e comprasse um novo menos poluidor. Isso é apenas uma gota do que já injetou no mercado interno.
Essa intervenção dos governos que salvou a economia deixará uma herança pesada que pode ser enfrentada mais adiante, sim, mas não aumentada indefinidamente, dão a entender os presidentes dos BCs . Há ainda espaço para mais ajuda, como vimos na penúltima coluna, mas há um limite também.
MAIS GOVERNO AINDA
É por essa razão que ninguém propôs na reunião dos BCs que sejam retirados os subsídios ao crescimento, que se volte a aumentar os juros, que se pare de injetar recursos no reaquecimento econômico. Mas todos se preocupam com a conta de governos que agiram certo contendo a recessão, mas saem profundamente endividados.
Os caminhos clássicos têm sido apresentados pelos economistas que acompanham a crise. Cito alguns: encontrar a hora certa de recuar sem afetar a retomada, a forma mais adequada de financiar a dívida, como a sociedade poderá ajudar a pagá-la e evitar que esse custo seja uma inflação elevada.
CAMINHOS PENOSOS
O já lendário bilionário Warren Buffet, em artigo publicado no Estado, quinta-feira, utiliza a situação dos Estados Unidos para mostrar como os governos podem obter esses recursos. A crise americana foi mais grave e o socorro oficial maior. Mas, considerando as proporções, os outros também vão sair endividados; alguns, até mais que o os Estados Unidos, em relação ao PIB. Buffet aponta três caminhos que merecem citação.
1. Pedir emprestado no exterior, em outros países ou no próprio mercado financeiro internacional. É o que está sendo feito pelos Estados Unidos, por meio de títulos do Tesouro. Financia a dívida, adia o vencimento, mas não a diminui. Ao contrário, pode aumentar.
2. Pedir emprestado internamente, vendendo títulos do governo. É o que o governo brasileiro tem feito, ainda que de forma calculada, com um endividamento suportável. No caso dos EUA, implica emitir dólares. A base monetária do país – dólares fora dos cofres do Tesouro – vem crescendo de forma significativa desde junho, sinalizando pesadas emissões. Não é o melhor indicador, mas serve para mostrar que, em quase desespero, o governo decidiu adotar a forma menos saudável de financiar sua luta contra a recessão. Buffet não o condena, mas pede cautela a partir de agora.
3. A terceira hipótese é o aumento de impostos, que enfraquecem a demanda, provocam evasão e, em última análise, desestimulam a economia. Lembrem-se que no caso do Brasil a redução de impostos foi um dos fatores de maior sucesso da política anticíclica.
ESPERA AÍ, SR. COLUNISTA!
O leitor meio irritado deve estar perguntando: não está esquecendo que aumentando o crescimento aumenta também a receita do governo?!
Sim, essa é forma mais saudável de resolver o problema. Mas não se esqueça de que, nas circunstâncias atuais, a recuperação econômica vai depender ainda da intervenção maciça dos governos, e isso só foi possível porque se endividaram e continuam se endividando!
Quem afirma isso não é a coluna, mas os respeitáveis presidentes dos bancos centrais!
Então, não tem saída? Sim, dizem eles, continuar estimulando a economia. O que os preocupa – e a todos neste momento – é que não calculem certo o momento de recuar. E esse momento é quando o sistema financeiro se estabilizar, a demanda voltar a crescer e o mercado global se recuperar.
*E-mail: at@attglobal.net
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Sergio Leo – VALOR
A alegria quase adolescente com que as autoridades brasileiras falam da aproximação entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama desmoraliza um dos mais frequentes lugares-comuns nas críticas à política externa do governo, a acusação de antiamericanismo. Quando se trata da relação comercial Brasil-EUA, os críticos têm até (reduzida) base real para reprovações contra Lula e assessores, mas o chavão foi esquecido neste fim de semana. Parte das atenções para o encontro entre Lula e Obama se concentrou em uma tolice, as tarifas dos EUA contra o etanol brasileiro.
Etanol não é besteira, nem o esforço brasileiro para derrubar as barreiras dos Estados Unidos contra qualquer produto brasileiro, especialmente commodity tão simbólica. Mas medir os resultados do primeiro encontro dos presidentes por decisões que possam adotar em relação à tarifa do álcool é um exercício de quem ignora a natureza e funcionamento do poder nos EUA.
Não será na Casa Branca que se decidirão mudanças relevantes na política comercial americana nessa questão. É no Capitólio, o Congresso dos EUA. Que, aliás, rejeitou na semana passada a tentativa feita por Obama de reduzir os subsídios pesados à agricultura, que distorcem o comércio e prejudicam países competitivos como o Brasil.
Curiosamente, o blogue da Casa Branca contraria o noticiário que, no Brasil, insinuou uma aparente relutância de Obama em reduzir a tarifa aplicada sobre o etanol brasileiro nos EUA. O texto do governo americano fala do tom “positivo e otimista” de Obama, que limitou-se a dizer o óbvio – a questão do etanol não se resolve do dia para a noite – e disse acreditar que essa fonte de atrito se eliminará com o tempo, à medida em que os dois governos aprofundarem a troca de “ideias, comércio, intercâmbio no setor de biocombustível”. Esse último comentário foi ignorado no relato de jornais brasileiros.
Entre os queixumes com ar de despeito feitos sobre a bem-sucedida visita de Lula a Obama, uma crítica é relevante: como notou o presidente do Diálogo Interamericano, Peter Hakim, Lula poderia ter aproveitado a oportunidade para contatos com os importantes presidentes das comissões do Congresso, tão essenciais para o futuro das questões de interesse brasileiro quanto o chefe do Executivo americano.
Lula, que hoje fala a empresários, limitou os encontros extra-agenda a uma conversa com um velho conhecido, John Sweeney, presidente da AFL-CIO, principal organização sindical do país. Visita importante: a AFL-CIO move parte do insistente lobby protecionista americano. Não há registro, porém, que Lula tenha tentado converter Sweeney para a campanha de livre-mercado hoje em moda no Planalto.
O embaixador do Brasil em Washington, Antônio Patriota, considera a questão levantada por Hakim um “falso problema”, já que a viagem, desde o convite, no primeiro contato telefônico entre os dois presidentes, à definição da data – que se ajustou à agenda de Obama – tinha uma característica diferente da visita de Estado, onde, aí sim, sem nenhuma distorção no protocolo, caberiam encontros de Lula com líderes no Congresso americano. “Essa crítica está fora de foco; e o Brasil não pode ser visto apenas pela perspectiva interamericana”, reage Patriota.
De fato, o Brasil, para os EUA tem uma dimensão hemisférica e outra mundial. A tradição é dar ênfase à relação dos EUA com o Brasil no plano do chamado Hemisfério Ocidental. Nesse plano, o encontro deu sinais importantes. Primeiro deles: como definiu a revista “Time”, na edição desta semana, Lula firmou-se como a “melhor aposta” para aproximar o governo Obama da esquerda que governa boa parte dos países do continente. Lula teve aval do venezuelano Hugo Chávez para levar sinais de paz à Casa Branca. Mais discreto, o boliviano Evo Morales indicou a Lula que gostaria de encontrar-se com Obama às margens da reunião da Cúpula das Américas, em abril, onde o Brasil será ator de destaque.
Também notável foi o anúncio feito por Lula de que o Brasil promoverá a formação de uma instituição sul-americana para cuidar, sem participação dos EUA, do combate a drogas no continente. Tarefa inadiável e complicada. Na Bolívia, por exemplo, a receita com o gás natural tende a cair, deixando sem muitas opções de renda a economia do país. Vale lembrar que o presidente da República, lá, fez questão de manter, depois de eleito, o posto de presidente do sindicato de cultivadores de coca.
Como nota o embaixador brasileiro nos EUA, porém, a dimensão do Brasil se expandiu para além do continente, e também nesse aspecto é um avanço importante a abertura de um canal direto com o governo Obama, para discutir as soluções em discussão para a crise econômica global. É difícil imaginar que o secretário do Tesouro, Thomas Geithner, vá consultar o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ou o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, para decidir os próximos passos a tomar na crise; mas a criação de um regime de contatos regulares entre as duas equipes econômicas tem o potencial de aumentar em muito a qualidade do processo decisório e a esfera de ação das autoridades brasileiras.
Resta das acusações de antiamericanismo contra o governo brasileiro a constatação de que, desde os anúncios de parceria estratégica, ainda no governo Bush, pouco andaram os grupos de trabalho criados ou o comemorado Fórum de Altos Executivos Brasil-EUA; e os interesses estritamente bilaterais perderam espaço na agenda em Brasília.
Baseada em evidências como a delicada economia do México, maior parceiro americano no continente, e a recusa americana em aprovar até hoje acordos de livre comércio já assinados com parceiros fiéis como a Colômbia, há uma convicção no governo brasileiro de que as diferenças essenciais de interesse entre os dois países recomendam certo descolamento da agenda americana. Se os mecanismos de parceria criados com o governo dos EUA forem postos em funcionamento desta vez, o governo poderá argumentar mais facilmente que suas ações não são guiadas por preconceitos ideológicos, mas por frio e saudável pragmatismo.
Sergio Leo é repórter especial e escreve às segundas-feiras
E-mail sergio.leo@valor.com.br
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Lula ficou surpreso com o fraco desempenho da construção civil
Beatriz Abreu e Tânia Monteiro, BRASÍLIA – O Estado SP
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não se limitou a consultar a equipe econômica para tratar dos efeitos da brutal queda do Produto Interno Bruto (PIB). Ontem, depois de ter se reunido com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e com o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, por mais de uma hora, o presidente Lula ainda se encontrou com o ex-ministro da Fazenda e hoje deputado Antonio Palocci (PT-SP), para uma longa conversa. Na pauta, além do PIB, constavam discussões sobre outros indicadores da economia, que preocupam o presidente da República.
Afastado do governo desde março de 2006, Palocci está voltando aos poucos à cena política e tem frequentado o Palácio do Planalto, onde no passado já teve uma sala para despachos diários. Lula gosta de ouvi-lo. Palocci é o candidato preferido de Lula para disputar o governo de São Paulo, em 2010, caso seja absolvido do processo que enfrenta no Supremo Tribunal Federal, em que é acusado de violar o sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos.
ESPANTO
Lula foi informado ontem, bem cedo, pelo ministro Paulo Bernardo (Planejamento), da queda do PIB. Para o presidente, os números “foram um pouco piores do que imaginava”, embora já esperasse a queda. Lula reagiu com mais espanto diante dos números da construção civil. “Foi só isso?”, perguntou, lembrando em seguida que “os investimentos na construção civil não pararam”.
No balanço geral, o governo considerou que a queda de 3,6% do PIB é um “dado muito ruim, mas não desesperador”, disse uma fonte à Agência Estado.
A estratégia de comunicação para avaliar o comportamento da economia no fim de 2008, manda considerar que esses dados “estão no retrovisor”, ou seja, espelham uma situação do passado. “A situação já mudou com as medidas adotadas nos últimos meses”, dizem os assessores presidenciais.
O foco das mensagens oficiais agora será que, no ano passado, a economia cresceu 5,1%, um resultado bem acima do experimentado por diversos países. Somente a China superou o Brasil e cresceu cerca de 9%.
O Planalto não estimula o anúncio de novas projeções para este ano, mas não desautoriza iniciativas como a do ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, que revelou estimativas de um crescimento entre 2% e 2,5%.
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Segundo Meirelles, em Davos, estimativas apontam que o País vai crescer um ponto acima da média mundial
Beatriz Abreu, BRASÍLIA – O Estado SP
A deterioração da economia mundial e o agravamento da crise financeira dominaram as discussões do Fórum Econômico Mundial, em Davos, mas ainda assim o Brasil é apontado como um dos países que se sairão melhor da crise que arrasta o mundo para a recessão. “Em todas as estimativas variam o número, mas tem um fato que não muda: o Brasil vai crescer um ponto porcentual acima da média mundial”, disse o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.
Meirelles, que participou das discussões sobre a crise com lideranças políticas de vários países, enfatiza que a “crise é séria” e concorda que a brusca mudança de cenário é uma preocupação não apenas do Brasil, mas de todas as economias mundiais. Ele insiste, no entanto, que as medidas tomadas ao longo dos últimos anos e a melhora dos fundamentos econômicos garantem “que o Brasil tenha um desempenho melhor que a média mundial”.
Esse cenário internacional de grande volatilidade e incertezas está abrindo espaço para uma discussão importante e, ao mesmo tempo, complexa. Meirelles citou, por exemplo, que começa a ganhar corpo a discussão sobre a necessidade de os países terem uma cesta de moedas como referência de reserva internacional. “A visão majoritária é de que o euro ou o iene não substituirão o dólar como moeda de reserva em futuro próximo. Estão ocupando espaço, mas não substituindo”, disse o presidente do BC.
Por outro lado, explicou, “ganha força a ideia de que o mundo não deve depender da moeda de um único país como moeda de reserva internacional”.
RÁPIDA E VIOLENTA
São discussões que afetam as economias mundiais e a dinâmica entre os países que, a cada momento, se deparam com novo efeito devastador da tsunami na qual se transformou a crise financeira. Na economia brasileira, essa mudança de cenário foi “rápida e violenta” e está expressa na ata da última reunião do Conselho de Política Monetária (Copom) e nos indicadores conjunturais, como o da Confederação Nacional da Indústria (CNI): o setor industrial enfrentou no último trimestre do ano passado sua pior crise dos últimos dez anos. As incertezas que prevaleciam em dezembro foram eliminadas pelo documento que o BC divulgou semana passada. Hoje, o governo tem claro que o problema não é mais o de trazer a inflação para meta de 4,5% neste ano. A batalha que se impõe é garantir a atividade econômica.
Embora a projeção oficial seja mirar um crescimento de 4%, essa possibilidade é um sonho descolado da realidade. Meirelles não faz uma aposta sobre o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) este ano e tampouco estabelece comparações com a previsão do Fundo Monetário Internacional (FMI), que reviu o crescimento brasileiro em 2009 de 3% para 1,8% do PIB. Em um cenário pessimista, o Ministério da Fazenda aceita a hipótese de um crescimento de 1,5%. Mas acredita que o país se sairá bem melhor.
O cenário se deteriora com uma velocidade tão rápida que as medidas são reavaliadas a todo momento, num ritmo frenético de ações do governo. Neste momento, prevalece a avaliação de que as medidas adotadas para liberar o crédito ao comércio exterior não surtiram efeito ante um mercado internacional travado. Amanhã, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio divulga o resultado da balança comercial de janeiro e a possibilidade de déficit não está descartada. A tentativa de monitorar as importações para definir que novas ações podem fortalecer o setor foi um tiro que saiu pela culatra e só gerou mais confusão na equipe econômica.
O setor exportador foi um dos que primeiro receberam socorro, mas o fato é que as exportações estão desabando no mundo. O governo já se rendeu a essa realidade, estuda novas medidas de estímulo aos exportadores mas, por enquanto, decidiu ser preventivo e não reforçar os problemas do setor: as empresas terão um prazo maior – 31 de janeiro de 2010 – para comprovar o embarque de mercadorias. Assim, elas agora têm dinheiro disponível, mas não têm mercado.
O problema não é só brasileiro. Cingapura, por exemplo, enfrentou a queda de 2,5% do PIB em um único mês, por causa da forte dependência das exportações, segundo dados analisados pelo governo. Esse caso é citado para desmontar avaliações de um movimento errático na definição das medidas para fazer frente à crise. O mundo inteiro está tentando soluções, ponderam fontes do Planalto.
O desafio é manter o crescimento da economia e o governo sabe que, para isso, terá de vencer o sentimento de insegurança que contaminou o setor privado. Mais: está percebendo que a questão não será resolvida apenas jogando muito dinheiro na economia ou estimulando setores intensivos em mãos-de-obra. O sentimento é generalizado. O exportador não vende porque ninguém quer comprar. O banco não empresta porque não há tomador de crédito interessado em pagar taxas elevadas e o consumidor se retrai por temer o desemprego.
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EDUARDO CUCOLO da Folha Online, em Brasília
O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) decidiu hoje reduzir a taxa básica de juros em 1 pontos, de 13,75% ao ano para 12,75% ao ano. Trata-se do maior corte de juros promovido pelo BC desde dezembro de 2003, quando a Selic caiu de 17,5% a.a para 16,5% ao ano.
A decisão do BC ocorre em um momento de forte desaceleração da economia brasileira e em meio à pressão feita por empresários, sindicatos e por membros do próprio governo. O corte está dentro das previsões mais “otimistas” do mercado e do setor produtivo.
Arte Folha Online
A taxa Selic está agora abaixo do patamar em que estava até o dia 10 de setembro do ano passado (13% a.a.), data em que o BC aumentou os juros pela última vez, poucos dias antes do estouro da crise econômica. Apesar da queda, os juros reais brasileiros permanecem como os maiores do planeta, à frenta da Hungria.
A maioria dos economistas já esperava uma queda entre 0,5 ponto percentual e 1,0 ponto percentual. Na reunião de dezembro, quando decidiu manter os juros inalterados, o BC havia informado que parte da sua diretoria já pensava em realizar um corte.
Depois disso, uma sequência de dados negativos sobre emprego, produção industrial e vendas do comércio reforçou as apostas na queda dos juros. Além disso, os principais índices de preços mostraram queda na inflação ou até deflação, o que abriu espaço para um corte maior.
Mesmo com a chegada da crise ao Brasil, refletida principalmente na falta de crédito e queda da demanda, a instituição vinha optando por manter a Selic inalterada desde setembro do ano passado, temendo os impactos da alta do dólar sobre os preços no país. Esse movimento foi compensado, no entanto, pela queda na cotação de vários produtos, como alimentos e petróleo no mercado internacional.
Previsões para o ano
Trata-se da primeira das oito reuniões do Copom neste ano. Agora, os diretores do BC só voltam a se reunir nos dias 10 e 11 de março. Até lá, já será conhecido o PIB (Produto Interno Bruto, soma das riquezas produzidas no país) do último trimestre de 2008, que deve mostrar o tamanho do impacto da crise no país.
De acordo com a pesquisa Focus, realizada pelo BC com o mercado financeiro, os economistas esperam agora uma sequência de novos cortes nos juros: para 12,50% em março; 11,75% em abril; 11,50% em junho; e 11,25% em julho. Depois disso, a taxa só voltaria a cair em 2010, para 11% ao ano.
Mesmo prevendo queda nos juros neste ano, o mercado financeiro aposta que o BC conseguirá trazer a inflação para o centro da meta, que é de 4,5%, devido à desaceleração da economia, que deve crescer apenas 2% neste ano, segundo a pesquisa Focus do BC.
Lula
Segundo reportagem da Folha desta quarta-feira, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, se reuniu anteontem com o presidente Lula para lhe dizer que os juros cairiam hoje, mas ressaltou que o principal problema ainda é o “spread” cobrado pelos bancos privados.
O “spread” é a diferença entre o custo de captação dos bancos e os juros que eles cobram dos seus clientes. Desde setembro, mesmo com a Selic inalterada, o spread subiu, influenciado pela falta de crédito no mercado.
Amanhã, o presidente deve se reunir com os dirigentes de bancos públicos e privados para cobrar uma redução do “spread”.
Tags: alimentos, Bancos, copom, crédito, crise, deflação, demanda, desaceleração, dólar, emprego, empresários, inflação, Internacional, Juros, Lula, Meirelles, Mercados, PIB, Selic, sindicatos
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Temor da volta da inflação alta, por causa do dólar caro, ainda ronda o Planalto e Meirelles
Rui Nogueira e Vera Rosa, BRASÍLIA – O Estado SP

A primeira reunião de 2009 do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para os próximos dias 20 e 21, já tem um roteiro técnico e político definido. Pela avaliação dos economistas do Banco Central (BC), o governo “está ganhando a batalha das expectativas” e, “o mais provável”, é que haja mesmo um corte de pelo menos 0,25 ponto porcentual na Selic que está hoje em 13,75%. Mas a decisão de reduzir a taxa básica de juros vai depender explicitamente dos números da economia e dos preços, seguindo o pacto político anti-inflação existente entre o presidente do BC, Henrique Meirelles, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em uma conversa recente, a equipe econômica e o Planalto selaram um acordo traduzido nesta frase: “Não será na base do seja o que Deus quiser”. A frase veio à tona diante da discussão sobre fazer um corte de juros no início deste ano para “sinalizar” a manutenção da política de crescimento econômico, mostrando aos investidores que o País trabalhará para não entrar em recessão.
Meirelles tem dito ao presidente da República que o BC está comprometido com a política antirecessão, mas os dois têm concordado que o “pior dos mundos” seria o País conseguir manter a taxa de desemprego sob controle e segurar o poder de compra da sociedade, mas ver a demanda cair por causa dos preços altos. A “sinalização” do corte na Selic, disse na sexta-feira uma fonte da equipe econômica ao Estado, não pode desprezar, por exemplo, “eventuais sinais de repasse da alta do dólar aos preços das mercadorias brasileiras”. Desprezar isso, explicou a fonte, seria adotar a tal política do “seja o que Deus quiser” com a inflação.
“EVITANDO REPASSES”
O “mais provável” é que haja mesmo o corte no primeiro Copom porque os números objetivamente apontam o tal controle de expectativas. “Estamos notando que a indústria e o comércio estão evitando os repasses do dólar por entender que o consumidor vai deixar de comprar se isso acontecer”, disse uma fonte do Banco Central. “Até agora tem sido isso, mas vamos monitorar”, advertiu, lembrando, a favor da redução da Selic, que o relatório de inflação do BC divulgado no final do ano trouxe uma expectativa de inflação do mercado para 2009 em torno de 4,7%, ante uma meta oficial que, no centro, prevê inflação de 4,5%. “As expectativas parecem ajustadas”, disse.
No Planalto, o presidente Lula não esconde que espera mesmo que o primeiro Copom do ano reduza os juros. Ele tem dito que não vê motivos para a manutenção dos juros em patamar elevado num momento de queda da inflação. A ordem, porém, é para que os ministros não estiquem a polêmica.Nos bastidores do governo, o comentário é que, quando muitos começam a reivindicar tesourada nos juros, o BC sempre adota posição mais cautelosa, para mostrar independência.
Preocupado em sustentar o ritmo de atividade econômica, Lula também deteminou à equipe econômica que não promova cortes nos programas sociais e mantenha a previsão de reajuste do salário mínimo para R$ 465, já que esse dinheiro vai direto para o consumo. O governo avalia que políticas sociais, como o Bolsa-Família não têm nada de assistencialistas: ao contrário, injetam recursos na economia e fazem a roda girar.
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Lula, com a primeira-dama Marisa Letícia, e o coral que se apresentou na confraternização do Palácio do Planalto: novas medidas contra a crise e juros baixos já em janeiro.
Um trimestre delicado
Para Lula, começo de 2009 será o mais difícil, mas afirma que ninguém fala em recessão
Daniel Pereira – Correio Braziliense
O otimismo continua em alta no Palácio do Planalto. Ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, durante café da manhã com jornalistas, que o país não entrará em recessão no ano que vem, como ocorreu com Japão, Alemanha, Itália, Inglaterra e Estados Unidos devido à crise mundial. Lula foi enfático ao negar tal possibilidade e reafirmou a aposta em crescimento de 4% em 2009. “Nem a imprensa, nem a oposição, nem os especialistas falam em recessão”, declarou o presidente.
Na terça-feira passada, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou previsão segundo a qual o Brasil entrará em recessão no fim do primeiro trimestre do próximo ano, quando a atividade econômica registraria redução de 1,1% em relação aos últimos três meses de 2008. Tecnicamente, há recessão quando ocorre retração por dois trimestres seguidos. Ontem, Lula admitiu que o início de 2009 será fundamental para o desempenho ao longo do ano. Por isso, prometeu o aumento dos investimentos públicos e novas medidas para estimular a produção.
“O primeiro trimestre é o mais delicado. Será o momento de um esforço imenso para não haver desaceleração das coisas. Se as coisas param, recomeçar do zero leva um tempo enorme”, afirmou o presidente. “As decisões do governo contra a crise não têm limites”, acrescentou. Lula não quis anunciar quais iniciativas estão sob estudo da equipe econômica. Mesmo assim, ratificou que a prioridade é incentivar setores que geram empregos. Citou como exemplos a construção civil, a agricultura e a indústria automobilística. Falou ainda da necessidade de assegurar capital de giro e crédito de longo prazo para pequenas e médias empresas.
Orçamento
O presidente avisou que editará uma medida provisória (MP) até o fim do ano destinando ao Fundo Soberano um crédito de R$ 14,2 bilhões. A idéia é investir os recursos em 2009. Além disso, informou que se reunirá com o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, no dia 29, para discutir remanejamento de verbas. O rearranjo visa a injetar mais dinheiro no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). “Não fiquem surpresos se incluirmos novas obras no PAC.”
Além das novas medidas e do fôlego extra na verba para infra-estrutura, Lula deixou claro que conta com a redução da taxa básica de juros da economia, a Selic, hoje em 13,75% ao ano. De preferência, já no próximo encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. “Até agora, a política monetária foi acertada. Mas, em época de crise, você não pode agir do mesmo jeito.” Depois da crítica, um afago, com uma pitada de provocação. “O (Henrique) Meirelles é um homem inteligente e sabe o que fazer.”
Bem-humorado, o presidente disse ainda que não se arrependeu de ter chamado a crise de “marolinha”. “Falei em setembro, e no terceiro trimestre a economia cresceu 6,8%. Faria de novo.”
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Banco Central reduzirá taxa básica para combater a desaceleração econômica brasileira
Vicente Nunes – Correio Braziliense

A taxa básica de juros (Selic) deverá cair 0,5 ponto percentual em janeiro próximo, dos atuais 13,75% para 13,25% ao ano, como contribuição do Banco Central para minimizar os impactos da crise financeira internacional na economia brasileira. Foi essa a conclusão da maioria dos analistas depois da leitura da ata da reunião da semana passada do Comitê de Política Monetária (Copom), na qual os juros permaneceram inalterados. Divulgado ontem, o documento mostrou que no BC já vê a inflação de 2009 convergindo para o centro da meta, de 4,5%, em meio a um quadro que combina consumo em queda, produção industrial menor, desemprego em alta e crédito ainda restrito. “Somente um fato muito sério fará com que o Copom não corte os juros no mês que vem”, disse Flávio Serrano, economista-sênior do Banco BES Investimento.
A tendência, segundo Serrano, é de que o Copom promova três reduções consecutivas da Selic em 2009, sendo duas de 0,5 ponto e uma de 0,25. “A partir daí, os juros ficarão estacionados em 12,5%, permitindo ao BC uma visão mais clara da atividade econômica. Se realmente constatar que a desaceleração será forte, inviabilizando por completo o repasse da alta do dólar para os preços, o BC retomará o processo de corte dos juros”, acrescentou. A baixa da Selic em janeiro, segundo ele, será ditada por dados relevantes que estarão à disposição do Copom: a retração da indústria e do comércio em novembro e os indicativos de um novo tombo em dezembro. É com base nesse cenário, inclusive, que os analistas, endossados pelo secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, falam em queda do Produto Interno Bruto (PIB) de até 1,5% no quarto trimestre do ano.
Movimento
Na avaliação do economista José Márcio Camargo, da Opus Gestão de Recursos, em princípio, há espaço para que o Copom promova redução de até dois pontos percentuais no juros, para 11,75%, ao longo de 2009, movimento que poderá até ser acentuado se a inflação cair para um patamar abaixo de 4,5%. “O BC identificou que a economia está sofrendo dois choques, um inflacionário, outro, deflacionário”, disse. “De um lado, a significativa arrancada do dólar criou uma inflação potencial, que, em algum momento, pode ser repassada aos consumidores. De outro, a restrição do crédito fez o consumo e os investimentos desabarem. O problema é que não se sabe qual desses choques prevalecerá. Caso o choque deflacionário se sobreponha, os juros terão de cair mais”, frisou.
Para os diretores do BC, apesar da certeza de piora da economia em 2009, há muitas incertezas à frente. Por isso, mesmo com os integrantes do Copom tendo discutido a possibilidade de derrubarem a Selic em 0,25 ponto na semana passada, optou-se pela manutenção da taxa por pura cautela. No entender dos diretores do BC, criou-se um cenário mais benigno para a inflação, com o equilíbrio entre oferta e demanda, cujo descompasso vinha sendo o principal motivo para o arrocho na política monetária. Mas é preciso lembrar que a demanda interna se mantinha robusta até o terceiro trimestre, devido ao aumento da renda a da maior oferta de emprego e do crédito. Agora, com o crédito escasso, a economia será movida, basicamente, pelos rendimentos dos trabalhadores. Caso, porém, não sejam suficientes para sustentar um crescimento do PIB em um nível adequado, o estímulo adicional virá por meio dos juros, para deleite do presidente Lula.
“Não houve contradição. O fato de discutir um assunto não quer dizer que houve decisão. Não vejo como a ata poderia ser mais clara”
Henrique Meirelles, presidente do Banco Central
“Não consigo entender o que aconteceu naquela sala. A maioria dos diretores defendia o corte de juros, mas foi pulverizada pela minoria. É incompreensível”
Aloizio Mercadante, deputado federal (PT-SP)
Gasolina mais barata

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central admite a possibilidade de a Petrobras reduzir os preços da gasolina e do diesel nos próximos meses, repassando aos consumidores parte da expressiva queda da cotação do petróleo no mercado internacional. A expectativa — e a torcida — é para que os preços caiam ao longo dos primeiros seis meses de 2009, como forma de aliviar a inflação e permitir cortes seguidos na taxa básica de juros (Selic) sem grandes traumas. Os analistas estimam que a gasolina esteja 52% mais cara no Brasil do que no exterior e o diesel, 19%.
Pelas contas de Flávio Serrano, economista-sênior do Banco BES Investimento, a cada 5% de baixa nos preços da gasolina nas bombas dos postos, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado como referência para o sistema de metas do governo, encolhe 0,2 ponto percentual. “Se realmente os combustíveis ficarem mais baratos, não será surpresa se a inflação fechar o ano que vem abaixo de 4,5%, o centro da meta perseguido pelo BC”, afirmou. Pelo governo, os preços da gasolina e o diesel já teriam caído. Mas a Petrobras alegou que precisa fazer caixa nesse momento de grande escassez de crédito.
Segundo o BC, ainda que os preços da gasolina e do diesel não tenham se alterado, o impacto da retração da cotação do petróleo de quase US$ 150 para US$ 40 o barril desde junho já se faz presente na economia brasileira, por meio da indústria petroquímica (resinas plásticas, por exemplo), base para as demais cadeias produtivas. O principal insumo da petroquímica, a nafta, ficou bem mais barato, assim como o querosene de aviação e o óleo combustível que move as fábricas de muitas empresas. “É por isso que os Índices Gerais de Preços (IGPs) estão desabando, ficando próximos de zero”, afirmou Serrano.
Os consumidores, no entanto, devem se preparar para pagar 2,6% a mais pelo gás de cozinha até o fim do ano e arcar com reajuste de 3,6% nas contas de telefonia fixa. Na média, estimou o Copom, os preços administrados pelo governo (tarifas públicas e serviços como planos de saúde e medicamentos) terão reajustes médios de 3,8% neste ano e de 5,5% em 2009. (VN)
Bate-boca no Senado
Ricardo Allan
Da equipe do Correio
Sob pesado tiroteio político por causa da manutenção dos juros em níveis altos, o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, protagonizou ontem um bate-boca com o presidente da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP). Na audiência pública trimestral para discutir a atuação do BC, o senador se mostrou inconformado com a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de deixar a taxa básica de juros (Selic) inalterada em 13,75% na semana passada. Constrangido, Meirelles foi obrigado a defender veementemente a decisão. Para ele, ainda não era o momento de baixar a Selic, apesar dos nítidos indícios de forte desaceleração econômica no país.
Logo no início da sessão, Mercadante usou a ata do Copom, divulgada ontem, para basear o seu ataque. “Não consigo entender o que aconteceu naquela sala. A maioria dos diretores defendia o corte de juros, mas foi pulverizada pela minoria. É incompreensível”, disse. Na avaliação do senador, a recusa em amenizar a política monetária pode agravar a situação econômica. “Lendo a ata, fiquei ainda mais convencido de que havia espaço para uma redução dos juros em pelo menos 0,25 ponto.”
Meirelles tentou explicar. “Quando a ata diz que a maioria considerou cortar os juros já naquele momento, não diz que a maioria decidiu por isso. Houve uma discussão sobre essa possibilidade, mas se concluiu que esse não seria o movimento adequado naquele momento”, disse. Para ele, as razões para a manutenção da taxa estão “muito claras” na ata. Meirelles apelou para que os senadores não fizessem um “encontro pós-ata”, o que, a seu ver, seria “altamente inadequado” e poderia dar sinalizações indevidas ao mercado.
Mesmo com o apelo, Mercadante voltou à carga, afirmando que a manutenção dos juros altos no Brasil num momento em que os demais países do mundo estão cortando suas taxas, prejudica a competitividade dos produtos brasileiros. “Na ata, não fica claro porque os diretores mudaram de opinião”, disse. Mais uma vez, Meirelles rebateu: “Não houve contradição. O fato de discutir um assunto não quer dizer que houve decisão. Não vejo como a ata poderia ser mais clara.” Para o presidente do BC, se o órgão tivesse errado a mão ao calibrar os juros, a economia não estaria crescendo tanto e a inflação estaria abaixo da meta.
Tags: analistas, Bancos, combustíveis, consumo, copom, crédito, Crescimento, crise, desaceleração, desemprego, dólar, Indústria, inflação, investimentos, IPCA, Juros, Lula, Meirelles, Mercadante, Mercados, Nafta, Petrobras, Selic
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Alberto Tamer * – O Estado SP
Juro praticamente zero nos Estados Unidos. O Federal Reserve (Fed, obanco central americano) está nu, segurando tangas esfarrapadas que não encobrem nada.Acabou a munição monetária para animar a economia entorpecida.
Ao contrário do nosso Banco Central, que tem muita bala, mas ainda hesita em se despir, só lhe resta agora criar e inundar o mercado com uma enxurrada de dólares e garantir dívidas de retorno duvidoso. Corre o risco de afogar-se lá na frente, quando a economia retomar o rumo e a inflação voltar. Mas esse é um problema que vai surgir no futuro. Não incomoda nem um pouco agora. Primeiro, é preciso não se afogar no mar turbulento.Depois, navegar.
DÓLARES E DÓLARES TAMBÉM
E é isso o que o Federal Reserve já vem fazendo: mais de US$ 1 trilhão, desde setembro. E sabe que terá de dobrar. É o gesto heróico do dinheiro fácil para situações dramáticas. O último tiro que, mesmo assim, corre o risco de errar, pois o alvo está nublado.
Vai inflacionar? Por enquanto, não. Agora, é evitar a depressão. A inflaçao está recuando, menos 1,7% agora, com a desacelaração da demanda e a queda das commodities agrícolas e o petróleo.Grandes lojas de departamentos tradicionais estão oferecendo 50% de desconto para compras acima de US$ 250. Ou seja, a metade do preço e nem assim as vendas reagiram na véspera das festas de fim de ano.
O consumidor está cauteloso, teme perder o emprego ou ver reduzido o seu salário. O que ele ganha com a queda dos preços não afasta a insegurança no trabalho. Afinal, milhares já estão sendo despedidos e tentando encontrar um novo emprego.
Pela primeira vez que se tem memória, o índice de poupança dos americanos, que era zero, está registrando alguns pontos acima de traço.
O JOGO DO ESPERA
Está todo mundo esperando Barack Obama – o presidente eleito dos Estados Unidos -, que espera Henry Paulson – o secretário americano do Tesouro-, que espera Obama… que sonha em tirar férias nas praias do Havaí.
O resultado é soma zero. E ninguém faz nada. Todo mundo espera o dia 20 de janeiro, tão próximo, mas ainda tão distante. E, enquanto isso, a economia americana afunda à espera de um Obama, aflito e desencantado com o fim do governo de George W. Bush.
O Congresso tem um novo pacote pronto de US$ 600 bilhões, mas Bush nem quer falar dele.Também deve estar sonhando com as maravilhosas praias havaianas.
BRASIL ATÉ ESNOBA
Aqui, mesmo num cenário mais ameno, o governo já está adotando as medidas que os Estados Unidos e a Europa adiam, mesmo estando em recessão.
O governo já aprovou medidas que reduzem os impostos dos bens de consumo, dos bens duráveis e não-duráveis, injetam vultosas quantias de recursos nos bancos para levá-los a financiar as empresas e a emprestar mais. Além disso, o BNDES, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal entraram ativamente no mercado, municiados por recursos do Estado. Uma boa parte das exportações estão sendo financiadas pelas instituições do governo.
Nós nos antecipamos a eles, prevendo o que já está vindo.
Por que essa diferença de reação? Primeiro, deve-se à agilidade do BC de prever e preparar-se para absorver os efeitos da falta de crédito externo. Henrique Meirelles e seus técnicos mostraram grande competência e maturidade. Segundo, foi mais fácil para o BC e o governo brasileiro reagirem porque não tínhamos os terríveis desafios dos bancos europeus e americanos. Direta (EUA) e indiretamente (Europa), eles sofreram os efeitos da imprudência e ganância, do subprime imobiliário. Aqui, se houver, quando muito, pode ser subprime no financiamento de carros e motos. Não há como comparar.
Outro fator positivo, já conhecido do leitor desta coluna, crescíamos ainda, com os demais emergentes, enquanto eles afundavam. Demoraram para agir por incompetência (zona do euro) ou imprudência das autoridades monetárias. Isso foi agravado pelo vendaval destruidor da desvalorização dos ativos imobiliários, que ainda persiste.
MAS CUIDADO
A nossa situação mais favorável tem bases frágeis, um mercado interno suscetível e forte retração, principalmente, em caso de desemprego. Eles têm vários pilares de sustentação, nós apenas um. Eles têm economias maduras de US$ 28 trilhões somados, 50% do PIB, e um mercado interno e externo bem formado. Nós, com US$ 1,3 trilhão, representamos apenas 2,3%. Mais ainda, daquele valor, mais de 60% são representados pelo mercado interno. Dependemos pouco do comércio exterior.
No entanto, o que é às vezes apontado com uma vantagem, menos dependência externa, torna-se uma desvantagem considerado o relativamente baixo poder aquisitivo dos brasileiros e a fragilidade de um mercado interno ainda incipiente. Ele está sendo sustentado mais pelo crédito do que pela renda.
Essa é a nossa fragilidade em relação aos outros.
Os Estados Unidos podem renascer com um empurrão fiscal porque partem de uma base sólida. Nós vamos precisar muito mais empurrões, de um governo que tem recursos limitados.
Estamos até bem em relação a eles, mas não tanto em relação a nós mesmos e aos nossos desafios.
*E- mail: at@attglobal.net
Tags: Bancos, BNDES, Brasil, Bush, commodities, consumo, crédito, depressão, desemprego, dinheiro, emergentes, EUA, Euro, Europa, exportações, FED, inflação, Juros, Meirelles, Mercados, Obama, Paulson, PIB, poupança, recessão, Renda, salários, subprime
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Blog de Krieger
O governo anunciou ontem um pacote para enfrentar a crise econômica. Inclui corte de impostos , ajuda a empresas endividadas e ajuda para a indústria automobilística. São medidas positivas, mas são pontuais. O núcleo central da política econômica continua a apresentar uma contradição insolúvel. Enquanto o Ministério da Fazenda e o discurso do presidente apontam para a necessidade de aumentar o consumo, o Banco Central recusa-se a baixar os juros, numa atitude destinada a frear o mesmo consumo. Lula teme a recessão. O BC, mais conservador, teme a volta da inflação.
Há alguns dias, escrevi uma matéria no Correio, contando como o presidente toma suas decisões sobre a crise. Fontes do Planalto contaram que, na hora final, ele se fecha na sala com Mantega e Meirelles. Age como um árbitro. Mas nem sempre, Lula tem a última palavra. Quando se trata de juros, o BC é soberano.
A nós, que assistimos, fica uma sensação contraditória. De um lado, é bom ver que o governo está agindo. Mas é inquietante perceber essa falta de unidade.
Gustavo Kriger é jornalista do Correio Braziliense
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Tags: , BC, crise, impostos, Indústria, inflação, IR, Juros, Lula, mantega, Meirelles, recessão
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Alíquota zero
O Globo
BRASÍLIA – Para tentar manter em alta o consumo das famílias e os investimentos produtivos – os dois alicerces do ciclo de expansão acelerada que se encerrou em setembro -, a solução encontrada pelo governo passa pela redução do custo dos financiamentos. E, conforme informaram ao Globo fontes do primeiro escalão, o Ministério da Fazenda deverá reduzir a zero a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) incidente nas principais modalidades de crédito.
Atualmente, a tributação é de 3,38% ao ano na maior parte dos empréstimos. Espera-se que a medida provoque uma queda dos spreads bancários (diferença entre o custo de captação e o cobrado do tomador final). Como mostra a reportagem do Globo, nesta quarta-feira, a ação já foi informada aos bancos públicos, cujos dirigentes estiveram reunidos com a equipe econômica e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na segunda-feira.
Outras duas medidas praticamente certas são a redução do IPI do setor automotivo e a queda da PIS/Cofins para o segmento de alimentos. O pacote foi apresentado na noite de terça-feira pelo ministro Guido Mantega (Fazenda) a Lula, em reunião da qual participou o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, e deverá ser anunciado nesta quarta-feira.
A alteração nas regras do seguro-desemprego, que visa ampliar o número de parcelas pagas de cinco para dez, deverá ficar para mais tarde.
Para fechar as medidas, o governo está monitorando os 20 setores sob maior risco de sofrer desaceleração severa e passar por uma onda de demissões.
Leia a íntegra da matéria no Globo Digital (conteúdo exclusivo para assinantes)
Tags: alimentos, Bancos, Cofins, consumo, crédito, demissões, financiamento, impostos, investimentos, IOF, IPI, Lula, mantega, Meirelles
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PT rejeita legado de Lula na economia
Cristiano Romero – VALOR
Se continuar atacando a política econômica do seu próprio governo, como fez no último domingo, o Partido dos Trabalhadores (PT) ficará sem bandeira para a disputa da sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A crítica a essa política, especialmente à gestão monetária e cambial, é uma marca histórica do candidato mais cotado da oposição neste momento – José Serra (PSDB), governador de São Paulo. Serra critica o modelo de estabilização que está aí desde 1994, ano em que foi lançado o Plano Real.
Ao assumir o poder, Lula abraçou o tripé superávit primário-câmbio flutuante-metas para inflação, que dá sustentação à política econômica desde 1999, e reforçou-o. Aumentou o superávit das contas públicas e manteve a autonomia do Banco Central (BC) na condução das políticas monetária e cambial. Com isso, tirou o Brasil de uma grave crise de confiança em 2003 e o colocou numa rota de crescimento sustentado que já dura cinco anos – e que só está sendo interrompida agora graças à mais grave crise internacional em oito décadas.
Ironicamente, os ataques de dirigentes nacionais do PT à política econômica (leia-se: ao Banco Central) ocorreram três dias depois de o Datafolha revelar que o presidente Lula goza de aprovação recorde (70%) e dois dias antes do anúncio, pelo IBGE, do crescimento de 6,8% do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre, quando comparado ao mesmo período de 2007. Foi a maior alta desde o segundo trimestre de 2004.
Os números mostram que a economia vinha pisando no acelerador. A velocidade de crescimento do consumo das famílias pulou, do segundo para o terceiro trimestre, de 6,7% para 7,3%. A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que revela a taxa de investimento da economia, saltou de 16,2% para 19,7%.
É importante registrar que todo esse crescimento vinha acontecendo com a inflação embicando para baixo. Depois de começar o ano em alta e de acelerar em maio e junho, quando registrou, respectivamente, altas de 0,79% e 0,74%, o IPCA, o índice de preços oficial do regime de metas, recuou justamente no portentoso terceiro trimestre do PIB – para 0,53% em julho, 0,28% em agosto e 0,26% em setembro.
Isto mostrou, mais uma vez, que o Comitê de Política de Monetária (Copom) estava certo quando decidiu elevar os juros a partir de abril. O objetivo não era abortar o crescimento de 2008, já dado, mas prevenir a inflação em 2009 e, com isso, assegurar que a economia continuasse crescendo no ano que vem, num ritmo menor, mas ainda de forma acelerada. Pelo que se viu, a gestão das expectativas conduzida pelo BC, tão incompreendida mesmo no governo, deu certo.
Em meados de setembro, o mundo entrou em crise e o Brasil foi atingido de uma maneira mais rápida qua a esperada. Em outubro e novembro, a economia entrou em pânico e, embora ainda não se saiba exatamente qual será o efeito disso sobre a atividade econômica neste e nos próximos trimestres, espera-se agora uma desaceleração brutal do crescimento.
Na reunião da corrente Construindo um Novo Brasil, o antigo Campo Majoritário rebatizado após o mensalão, que controla o PT, buscou-se um culpado para a crise. Acharam três: o PSDB, o BC – “o último bastião da ortodoxia no Brasil”, nas palavras do ex-ministro José Dirceu – e suas políticas neoliberais. Em entrevista à “Folha de S.Paulo”, Dirceu defendeu a completa reformulação da política econômica. Disse que é preciso mudar a política de juros, o superávit primário e o câmbio.
Quando esteve no governo, Dirceu, registre-se, foi crucial para o que o então ministro Antonio Palocci convencesse o presidente Lula a seguir a política econômica herdada do governo do PSDB. Com o tempo, constatando os benefícios que essa política lhe trazia (ou alguém ainda tem dúvida de que foi a estabilidade que tirou Lula do atoleiro político de 2005 e o conduziu à reeleição no ano seguinte?), o presidente decidiu ser seu principal avalista e isso, claro, ajudou a estabilizar a economia.
No mercado, são poucos os que ainda duvidam do caráter pragmático de Lula. O presidente não é, definitivamente, um reformista, mas está longe de entregar os pontos na economia. Suas escolhas o fizeram perder aliados ao longo do caminho – o mais notável deles foi a ex-senadora Heloísa Helena, que deixou o PT para fundar o PSOL -, mas o aproximaram da maioria da população. Quando dispara contra a política econômica de Lula, o PT deixa sem discurso seu candidato à sucessão.
As bases do discurso de Serra para 2010 estão lançadas. Em apenas dois anos de gestão em São Paulo, o governador levantou mais de R$ 20 bilhões para investir em infra-estrutura. Está dando um banho no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) da ministra Dilma Rousseff, sua possível adversária na disputa presidencial – e não por deméritos da ministra, mas porque é mesmo difícil, no plano federal, fazer investimento público dentro do atual quadro institucional.
Com sua política de investimento agressiva, Serra quer se diferenciar de Dilma como gestor eficiente, realizador de obras. Com críticas impiedosas à condução da economia, procura se distinguir de Lula na seara onde o presidente tem obtido mais sucesso e, portanto, pode transferir votos. Se o PT não defender o legado do seu próprio governo, ficará sem discurso.
Banco Central: o dia em que Lula piscou
Em seis anos de governo, o presidente Lula reiterou a autonomia do BC, mas não foi sempre que fez ouvido de mouco à artilharia contra a instituição. Em abril deste ano, estimulou o presidente do BC, Henrique Meirelles, a sair candidato a alguma coisa em 2010 – menos à presidência, claro – e, ato contínuo, convidou o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, da Unicamp, para substituí-lo.
Respeitável crítico da política econômica, Belluzzo declinou da oferta, preocupado com uma possível rejeição a seu nome no mercado financeiro.
Cristiano Romero é repórter especial e escreve às quartas-feiras.
E-mail cristiano.romero@valor.com.br
Tags: Belluzzo, Câmbio, consumo, copom, Crescimento, crise, Dilma, Dirceu, estabilidade, IBGE, inflação, infra-estrutura, Internacional, investimentos, IPCA, Juros, Lula, Meirelles, mensalão, Mercados, Palocci, PIB, preços, PSDB, PSOL, Serra, trabalhadores
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Última reunião ministerial do ano também discute manutenção de investimentos e crédito para a compra de máquinas
Renata Veríssimo, Vera Rosa e Lu Aiko Otta, BRASÍLIA – O Estado SP
Redução do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para setores produtivos em crise, como agricultura, automobilístico e da construção civil, manutenção do ritmo crescente dos investimentos em grandes obras, linhas de crédito para a compra de máquinas e equipamentos destinados à exploração e produção de petróleo e campanhas publicitárias para que as pessoas não deixem de comprar bens de consumo são as principais medidas que o governo estuda tomar para amenizar os efeitos da crise econômica no ano que vem.
As formas de o País enfrentar a crise serão o tema da última reunião ministerial do ano, marcada para hoje. Nela, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pedirá empenho de todos os auxiliares para tentar evitar que a crise venha a atrapalhar seus dois últimos anos de governo. Uma das formas de vencer a crise, na opinião do presidente, é manter os investimentos nas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) – cerca de R$ 200 bilhões até o fim de 2010 -, irrigar o crédito e convencer as pessoas de que devem continuar comprando.
Pelos cálculos do governo, a perda de arrecadação estimada para o ano que vem será de no mínimo R$ 8 bilhões. Mas Lula quer que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) fique em 4%. Portanto, os ministros terão de oferecer ao presidente soluções que conciliem os ajustes necessários ao enfrentamento da crise e a oferta de dinheiro para os investimentos.
“O presidente acha que o governo precisa entender o que está acontecendo com essa crise e se preparar para agir, de maneira unificada, tendo em vista as medidas que vamos tomar”, afirmou o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo. “Não vamos liberar mais recursos em 2009 para gastos correntes, mas manteremos os investimentos e queremos fomentar a produção. Não se trata de favor nem de dar dinheiro: é fazer a roda girar.” O ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, farão uma exposição sobre o cenário econômico e as providências tomadas até agora pelo governo para combater os efeitos da crise. “Estamos conseguindo superar os problemas e acreditamos que dá para manter uma taxa positiva de PIB com políticas anticíclicas”, disse Mantega, numa referência à poupança feita em anos de crescimento para ser usada nos tempos de vacas magras.
Para injetar mais recursos na economia, a equipe econômica estuda cortar tributos, como novas reduções nas alíquotas do IOF. A equipe econômica avalia que há margem para novos cortes caso seja necessário.
Mas as medidas devem continuar sendo pontuais, para setores com dificuldades, como a decisão tomada na semana passada de reduzir o IOF para as operações de financiamento de motos para pessoa física. O setor havia registrado uma queda forte nas vendas.
O governo também fará todos os esforços para garantir os investimentos para os projetos incluídos no PAC. Na semana passada, o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES), Luciano Coutinho, disse que o desafio do governo será manter a taxa de crescimento dos investimentos em pelo menos de 10% em 2009, contra o ritmo de expansão deste ano, que está em 16%.
Além dos recursos do Orçamento e os esforços para capitalizar o BNDES, o governo espera contar com os R$ 14 bilhões anunciados para criar o Fundo Soberano do Brasil (FSB). Caso seja aprovado pelo Congresso, o Fundo servirá para reforçar os investimentos em momento de baixa expansão da economia. Mas se o FSB não for aprovado até o final do ano, o governo já estuda a possibilidade de “carimbar” esses recursos para projetos de infra-estrutura de forma a garantir que serão gastos em 2009. A equipe econômica quer evitar que o dinheiro vire superávit primário e seja usado no pagamento dos juros da dívida pública.
DILMA E A CRISE
A pedido de Lula, a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, falará sobre investimentos. Favorita do presidente para concorrer à sua própria sucessão, em 2010, Dilma não se concentrará apenas no PAC, que hoje enfrenta dificuldades para sair do papel em vários Estados. Fará ainda um balanço das principais ações do governo.
“É uma reunião para que possamos trocar informações sobre o momento econômico e afinar o discurso”, comentou o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro. Articulador político do governo, Múcio conseguiu a duras penas, na semana passada, que Lula ordenasse à equipe econômica o empenho (reserva para pagamento) de R$ 1,2 bilhão em emendas parlamentares individuais. Na prática, o governo temia que a base aliada, movida a cargos e emendas, ficasse ainda mais rebelde se nada fosse autorizado.
Lula também pediu que os ministros da Agricultura, Reinhold Stephanes, e do Desenvolvimento, Miguel Jorge, apresentem um diagnóstico dos problemas em suas pastas no cenário pós-tormenta global. Para fechar a exposição, o chanceler Celso Amorim abordará as conclusões da reunião do G-20 – grupo de países que representa 85% do PIB mundial -, em Washington, no último dia 15.
Naquele encontro, o Brasil insistiu na tese de que os países emergentes devem ter mais peso nas discussões sobre uma solução coordenada para a crise e defendeu a reforma de organismos multilaterais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial.
AS METAS PARA 2009
Crescimento da economia: 4%
Taxa de crescimento dos investimentos: 10%
Reduções pontuais do IOF para setores produtivos em dificuldades
Linha de crédito para fornecedores de equipamentos para exploração e produção de petróleo
Fundo Soberano do Brasil: R$ 14 bilhões
Tags: agricultura, arrecadação, Bancos, BNDES, construção, consumo, crédito, Crescimento, crise, desenvolvimento, dívidas, emergentes, financiamento, FMI, governo, impostos, infra-estrutura, Internacional, investimentos, IOF, Juros, Lula, mantega, Meirelles, Orçamento, PAC, petróleo, PIB, poupança, produção, Reservas, Tributos
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Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil já se preparam para jogar mais R$ 13 bilhões na economia.
A Caixa oferecerá R$ 8 bilhões para servidores públicos federais comprarem imóveis em até 30 anos. Além disso, a própria Caixa e o Banco do Brasil estão ampliando os recursos para crédito com desconto em folha (consignado) em até R$ 5 bilhões no ano que vem.
Novo empurrão oficial
Caixa e BB terão crédito imobiliário de R$ 8 bi para servidor e mais R$ 5 bi para consignado
Gustavo Paul e Geralda Doca – O Globo
BRASÍLIA
Com a missão de segurar o nível do consumo das famílias — motor do Produto Interno Bruto (PIB) nos últimos anos —, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal vão conceder em 2009 R$ 28 bilhões em crédito consignado (com desconto em folha), um reforço de R$ 5 bilhões em relação aos desembolsos de 2008, a despeito da desaceleração da economia no próximo ano em meio à crise financeira global. Além disso, as instituições abriram uma linha de crédito de até R$ 8 bilhões para financiar a compra de imóveis para 1,3 milhão de funcionários públicos federais em condições facilitadas, financiando até 100% da casa própria em até 30 anos.
Ou seja, no total serão mais R$ 13 bilhões em recursos novos.
A Caixa anunciou ontem R$ 10 bilhões para crédito consignado em 2009 e se comprometeu a manter inalterados taxa de juros e prazo de pagamento. O valor representa alta de 25% sobre os R$ 8 bilhões destinados a essa modalidade de crédito este ano. De acordo com fontes ouvidas pelo GLOBO, o BB, maior emprestador em consignação, seguirá o mesmo caminho e já decidiu elevar a carteira com desconto em folha em 20%, para R$ 18 bilhões. Um aumento de 25% não está descartado.
Com as iniciativas, o governo mostra disposição para suprir a escassez de crédito no mercado. Semana passada, após inúmeras linhas para o setor produtivo, o Executivo passou a mirar diretamente o consumidor. Por intermédio da Caixa, liberou R$ 2 bilhões para financiar compras no varejo e R$ 1 bilhão para aquisição de material de construção para quem recebe até R$ 4,9 mil mensais.
Com isso, o “pacote anticrise” do governo federal, anunciado em contagotas desde o fim de setembro, já soma R$ 373,556 bilhões, considerando só a injeção de dinheiro novo no desconto em folha da Caixa e do BB. Entre as medidas estão mexidas nos depósitos compulsórios dos bancos, venda de dólares e financiamento de capital de giro.
Sem limite para valor do imóvel
Novas medidas podem ser editadas.
Hoje à tarde, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comanda reunião com os presidentes de BB, Caixa e BNDES, da qual também participarão o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.
— Esse convênio (para o funcionalismo público) é mais uma forma de ajudar a crescer o crédito. Precisamos zelar para que o crédito continue sendo um dos fatores fundamentais a irrigar a economia. Nesse momento de crise, em que Europa e Japão estão em recessão, e também os Estados Unidos, temos de resistir aqui. Temos um momento diferenciado no Brasil — disse o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, na assinatura do crédito imobiliário ao servidor.
Segundo o vice-presidente de Pessoa Física da Caixa, Fábio Lenza, o aumento da carteira de consignado em 2009 visará aos funcionários de empresas privadas, que representam menos de 10% da carteira do banco nesta modalidade. O público potencial é de 1,5 milhão de trabalhadores que recebem salário pelo banco. A taxa de juros do consignado será mantida no próximo ano entre 0,90% e 2,35%.
— A Caixa nesse momento tem trabalhado no sentido de atender à população. Nossa estratégia é não aumentar taxas nem encurtar prazos — disse a presidente da instituição, Maria Fernanda Coelho.
Já o convênio para atender ao funcionalismo reformula um acordo existente desde 2003. O novo plano prevê taxas de juros entre 8,9% a 11,5% ao ano, mais variação da Taxa Referencial (TR), enquanto nos demais planos da instituição, em média, as taxas são de 11% mais TR. Não haverá limite para o valor do imóvel a ser financiado. Será analisada só a capacidade de pagamento do comprador, que pode possuir outro imóvel em seu nome.
Paulo Bernardo ressaltou que as taxas poderão cair devido à concorrência entre os bancos.
— Estamos tentando nos contrapor a efeitos maléficos que a crise pode causar à economia brasileira — disse o presidente do BB, Antônio Lima Neto.
O governo também deve anunciar nos próximos dias regras para facilitar a obtenção de crédito para micro e pequenas empresas. A Fazenda deve regulamentar a possibilidade desse segmento emitir recebíveis para os bancos e, assim, antecipar receita com vendas para o governo.
Tags: Bancos, BNDES, CEF, consumo, crédito, crise, dinheiro, financiamento, Funcionalismo, imobiliário, imóvel, Lula, mantega, Meirelles, Mercados, PIB, recessão, salários, servidores, varejo
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Conta de juros do setor público cai à metade com alta do dólar
Despesa passa de R$ 12,5 bi para R$ 6,1 bi em setembro e resultado é o melhor para o mês
Lu Aiko Otta – O Estado SP
A alta do dólar provocada pela crise financeira internacional fez com que a conta de juros paga pelo setor público no mês de setembro atingisse seu menor nível em sete anos: R$ 6,142 bilhões. Para se ter uma idéia, no mês anterior essa mesma conta havia ficado em R$ 12,527 bilhões.
A queda na despesa de juros e a forte arrecadação tributária fizeram com que as contas públicas tivessem o melhor setembro da história, segundo os registros do Banco Central, iniciados em 1991: superávit de R$ 3,863 bilhões no conceito nominal, que considera inclusive as despesas com juros. Sem contar com os juros, o saldo (chamado primário) chega a R$ 10,005 bilhões.
A explicação para o efeito positivo do câmbio sobre as contas públicas está numa operação feita pelo Banco Central, chamada swap cambial reverso.
“É uma operação em que o Banco Central aposta com o mercado que a taxa de câmbio vai se desvalorizar, ou seja, que o dólar vai subir”, disse o chefe-adjunto do Departamento Econômico, Túlio Maciel. “No final do contrato, paga-se a diferença entre a variação do juro e do câmbio.” O juro usado nessas operações é o Depósito Interfinanceiro (DI), que funciona como uma referência para o custo do dinheiro no mercado.
Segundo Maciel, até agosto o governo tinha perdas com o swap cambial reverso, porque o dólar estava em queda. Com a crise, o comportamento do câmbio se inverteu e o Banco Central passou a ter ganhos expressivos, estimados em R$ 6,5 bilhões no mês, na forma de juros.
Assim, caiu a despesa global de juros e as contas do setor público tiveram bom desempenho. No final de setembro, o estoque de operações de swap estava em R$ 39,9 bilhões.
Esse efeito do dólar sobre os juros tende a ser menor nos próximos meses, porque com a crise o governo inverteu a mão das operações de swap. Assim, passou a apostar na queda do dólar. Essa medida tem por objetivo dar ao mercado liquidez em dólares, garantindo a moeda no mercado futuro a uma determinada cotação.
RUMO AO DÉFICIT ZERO
O efeito do câmbio, porém, não explica sozinho o comportamento das contas do setor público em setembro. O governo central (Tesouro, Previdência e Banco Central) teve um resultado primário positivo de R$ 5,173 bilhões, explicado pelo bom nível de arrecadação. Os Estados e municípios também fecharam a conta com saldo positivo de R$ 1,59 bilhão. A surpresa ficou por conta das empresas estatais, que apresentaram um superávit de R$ 3,242 bilhões, um recorde para os meses de setembro.
Nos 12 meses encerrados em setembro, o resultado primário acumulado é de R$ 128,798 bilhões. No mesmo período, os gastos com juros somaram R$ 165,641 bilhões. Assim, em 12 meses existe um déficit nominal de R$ 36,843 bilhões. Medido como proporção do Produto Interno Bruto (PIB), é o menor déficit para 12 meses já registrado pelo Banco Central: 1,32% do PIB. A meta do governo é chegar ao déficit nominal zero.
Dívida é a menor em 10 anos em relação ao PIB
A dívida líquida do setor público atingiu R$ 1,127 trilhão em setembro, equivalente a 38,3% do Produto Interno Bruto (PIB). Em agosto, estava em 40,4% do PIB. Como proporção do PIB, é o menor resultado em dez anos. A última vez que a dívida esteve tão baixa foi em outubro de 1998, de 37,58% do PIB.
Esse é outro reflexo positivo da valorização do dólar. Em setembro, a moeda ficou 17% mais cara. Com o dólar em alta, as reservas internacionais crescem quando convertidas em reais. O mesmo ocorre com outros ativos em moeda estrangeira. “A valorização do dólar impacta favoravelmente os ativos cambiais, principalmente as reservas”, disse o chefe-adjunto do Departamento Econômico do Banco Central, Túlio Maciel.
Quando comparados com as dívidas do setor público, os ativos mais valorizados ajudam a diminuir o saldo líquido. O efeito cambial foi responsável pela redução de 1,6 ponto porcentual da dívida líquida em setembro, de uma queda total de 2,1 pontos. No ano, a contribuição da alta do dólar é ainda maior: 4 pontos, em uma queda total de 4,3 pontos.
Além do efeito do câmbio, a dívida líquida caiu em setembro por causa do desempenho das contas públicas. O fato de terem encerrado o mês com superávit nominal respondeu pela queda de 0,1 ponto na dívida medida como proporção do PIB.
A expectativa do governo é que a dívida continue em queda este mês. Anteontem, em depoimento no Senado, o presidente do BC, Henrique Meirelles, apresentou uma projeção na qual a dívida cairia para 37% do PIB em outubro. Se confirmado, será o melhor resultado desde setembro de 1998.
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Presidente do Citigroup diz que país pode dar lições aos países ricos

William Rhodes, presidente do Citigroup: Brasil é exemplo
José Meirelles Passos – O Globo
Correspondente
WASHINGTON. Houve unanimidade entre banqueiros internacionais e brasileiros, ontem, sobre a capacidade de o Brasil suportar o impacto da atual crise financeira, sem perder o rumo do crescimento sustentável.
Ao fim de uma ampla análise da situação do país, o presidente e executivo-chefe do Citigroup, Bill Rhodes, utilizou um velho ditado brasileiro para resumir a situação privilegiada do país em meio à turbulência do momento.
— Começo a acreditar que Deus é realmente brasileiro.
Pelo jeito ele tinha tirado umas férias anos atrás — disse o banqueiro, provocando risos na platéia de investidores que lotou ontem a Conferência Econômica Brasileira, em Washington.
Para Mantega, crise foi uma “orgia financeira”
Rhodes, que nos anos 80 e 90 comandou o grupo de credores do país, numa longa e complicada negociação da dívida externa, disse que “o Brasil mudou completamente”, aprendendo muito com as crises que enfrentou. E acrescentou que os brasileiros hoje têm condições de ensinar os países ricos: — Se algum país é capaz hoje de domar essa tempestade que enfrentamos é o Brasil.
O que me incomoda é os Estados Unidos não terem aprendido com as lições da América Latina. Os EUA passaram décadas ditando regras.
Acontece que os estudantes cresceram e se tornaram professores — disse ele.
Em seu discurso, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, definiu a crise deflagrada nos Estados Unidos como “uma orgia financeira”. E admitiu que, a princípio, não imaginava que ela seria tão grave: — Não sabíamos o tamanho da encrenca.
Banqueiros brasileiros que participaram do evento, traçaram um retrato positivo do país.
Eles exibiram estudos mostrando que, mesmo com o dólar a R$ 2,20 e com o preço das commodities caindo, o país terá condições de continuar crescendo de forma sustentada.
Sergio Werlang, chefe do setor de riscos da Itaú Holding Financeira, chegou a dizer que isso será possível mesmo com grandes gastos federais: — Mesmo que o governo queira continuar gastando como está fazendo, o que eu não aprovo, o resultado continuará sendo positivo no ano que vem — disse ele.
Mantega respondeu: — Vamos cortar gastos, mas manter investimentos que são importantes. Eles representam nada mais que 1% do PIB.
Caio Megale, da Mauá Investimentos, disse que a crise tem um lado benéfico para o Brasil, uma vez que o país estava precisando desacelerar um pouco: — Estamos crescendo acima do potencial, acima do limite de velocidade. É como um carro numa estrada: você pode ir a 180 quilômetros por hora. Só que, em algum momento, vai dar uma trombada — comparou ele, acrescentando que “o risco seria haver uma redução do ritmo maior do que estamos precisando”.
Beny Parnes, diretor-gerente do Banco BBM, foi taxativo ao falar da capacidade de resistência do Brasil.
— Alguns anos atrás o Brasil sofreria um nocaute em dez segundos. Já temos grande experiência em enfrentar crises: é uma especialidade nossa.
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Presidente Lula explica seu otimismo e diz que seu papel é passar serenidade à sociedade brasileira
João Domingos – O Estado de São Paulo
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o governo vai ajudar as empresas brasileiras a obterem os empréstimos necessários para enfrentar a crise econômica mundial. “Nunca fiz tantas reuniões com o presidente do Banco Central (Henrique Meirelles) e o ministro da Fazenda (Guido Mantega), porque nós temos que acompanhar (tudo) com lupa, para não sermos pegos de surpresa”, disse o presidente em entrevista aos portais na internet, entre eles o limão.com.br, do Grupo Estado.
Lula disse que seu papel é o de passar serenidade para que a sociedade continue acreditando no País. Ele admitiu que a crise é “profundamente forte”, mas o Brasil está preparado. “Essa é a diferença básica, e por isso nós vamos continuar incentivando (as empresas)”. Ele afirmou ainda que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e os programas sociais estão mantidos.
Apesar do otimismo, Lula disse que, se a crise implicar diminuição dos investimentos, ou o governo for obrigado a diminuí-los, tomará as medidas necessárias. “Com a mesma serenidade que digo que o Brasil está em um momento bom, eu vou dizer: ?companheiros, a situação está se agravando e nós vamos ter que fazer isso, fazer aquilo?, e anunciar as medidas”, disse o presidente.
NATAL
“Eu continuo otimista que nós vamos ter um Natal extraordinário. Até porque, embora o Brasil participe da economia global, a crise não chega do mesmo tamanho em todos os países. No Brasil, nós ainda não temos nenhum grande projeto que tenha sofrido qualquer arranhão. A decisão do governo é manter todas as obras do PAC.
Portanto, eu acho que precisamos nos preparar para comprar tudo aquilo que a gente sonha comprar no Natal e torcer para que o Ano Novo seja infinitamente melhor.”
ATÉ ONDE A CRISE VAI
“Os dados do IBGE mostram que o emprego continua crescendo. Portanto, embora essa seja uma crise muito maior que todas as outras que aconteceram, seja a russa, a asiática ou a do México, o Brasil está mais preparado.
É como se tivéssemos tomado uma vacina contra uma doença. Então, ela está demorando para chegar ao Brasil. Talvez, se chegar, chegue em proporção muito menor do que nos Estados Unidos ou na Europa.”
O POVO E A CRISE
“O povo está vendo na televisão, e é preciso saber como essa crise é vendida todo santo dia. Eu me lembro de uma vez em que morreu uma galinha em Marília e colocaram na televisão que era gripe aviária. O que aconteceu? Diminuiu o consumo de frango no Brasil, e a gripe aviária não tinha nem chegado aqui. A questão da febre amarela, dos macacos aqui, foi vendida como uma coisa nacional, quando era uma coisa localizada. Então, é preciso que a gente dê às crises a dimensão que elas têm.”
LULA, O OTIMISTA
“Tem muita gente que fala ‘o presidente Lula está muito otimista, não está vendo a crise’. Ora, meu Deus do céu! Eu sou um tipo de ser humano que, quando vou visitar alguém no hospital, não fico contando para ele quantas pessoas já morreram daquela doença, eu fico contando das pessoas que se curaram. O meu papel é passar serenidade para a sociedade brasileira, a verdade absoluta para o povo brasileiro.”
BANCOS ESTÃO BEM
“Não há sinal de que os bancos estejam metidos no subprime. Se tiverem, vai aparecer em algum momento. Isso é como boletim de criança que tira nota baixa e quer esconder do pai. Não adianta, um dia aparece. Então, é melhor que as pessoas contem logo, para as pessoas tomarem posição.”
O PROER DE FHC E HOJE
“Alguns já estão agindo com mais sabedoria. Eu já vi pessoas mais conservadoras dizerem: ‘nós vamos disponibilizar recursos para os bancos, mas comprando ações dos bancos’. As pessoas já não querem mais dar, como nós demos o Proer.
As pessoas agora estão fazendo o seguinte: ‘Está precisando de dinheiro para garantir a conta corrente das pessoas’ Então, é o seguinte: vou pôr tanto, e isso significa que estou comprando ações desse banco?. Na hora em que a situação melhorar você pode vender, devolver as ações.”
MEDIDAS
“Tomamos medidas para garantir que o Banco Central pudesse fazer redesconto. Nós tomamos como primeira medida diminuir o compulsório para que os bancos grandes pudessem comprar as carteiras dos menores. O Banco do Brasil, por exemplo, comprou três carteiras.
Nós fomos informados depois de que havia uma pressão dos bancos grandes em cima dos pequenos, ou seja, é aquele negócio, não é? As pessoas querem levar vantagem em tudo. Não vamos permitir que os bancos pequenos fiquem reféns dos bancos grandes. Vai o próprio Banco Central fazer o redesconto.”
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Célia Froufe – O Estado de São Paulo
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, disse ontem que o Brasil “está preparado para enfrentar uma situação adversa dos mercados”, mas “não existe descolamento completo de nenhuma economia”. “Crise internacional não é bom para ninguém.”
Meirelles afirmou ainda que o papel do BC é o de antecipar o risco de agravamento da crise. “O BC sempre trabalha em um cenário de pior stress”, disse, acrescentando que já existe hoje uma crise de liquidez importante no mercado global.
“Está se provando que a política estratégica do Brasil aumentou a sua resistência a choques externos”, enfatizou Meirelles durante entrevista coletiva concedida em São Paulo, citando o acúmulo de reservas internacionais, o uso de swaps cambiais e a diminuição do passivo externo. Na avaliação do presidente do BC, esses três pontos são um vetor de segurança para a economia. Ele afirmou que, além do “grande colchão” de liquidez obtido com as reservas, o Brasil conta com a estabilidade da economia e o regime de câmbio flutuante para enfrentar a crise.
Meirelles disse que as autoridades americanas têm atuado de maneira decidida para evitar uma crise sistêmica. “O Banco Central do Brasil está em contato permanente com seus pares de outros países e monitorando tudo com muita atenção.”
O presidente do BC considerou normal a volatilidade no mercado nacional e garantiu que os bancos brasileiros têm liquidez suficiente para passar pela turbulência. “Até o momento o Banco Central não teve que fazer gestão extraordinária nos mercados.”
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Salve o perdedor!

Valdo Cruz – Folha Online
Kassab está fora do páreo. Viva o Kassab. Assim pode ser resumido o clima das conversas entre os tucanos, alckmistas e até serristas, no atual momento da disputa pela cadeira de prefeito de São Paulo. Coisa de bate-papo reservado, mas que já está totalmente explícito. Ninguém no PSDB acredita mais na viabilidade eleitoral do prefeito paulista, Gilberto Kassab, mas todos sabem que ele é peça chave no tabuleiro do segundo turno.
Portanto, a ordem é manter desobstruídas as pontes que unem os tucanos ao democrata paulista. Por uma questão de sobrevivência política, Kassab deve topar entrar nesse jogo. Só não podem deixar que o prefeito fique muito desidratado e vá minguando até o dia da votação. Aí, o risco é a eleição se resolver no primeiro turno, objetivo confesso dos petistas. A equipe de Marta Suplicy sabe que um segundo turno será osso duro de roer, teria exatamente de enfrentar tucanos e democratas juntos.
Agora, não será Gilberto Kassab o grande derrotado em São Paulo, caso se confirmem as avaliações do momento. Ele conseguirá uma sobrevida política transferindo seu apoio ao candidato tucano. Será o seu partido, o Democratas, o antigo PFL o maior perdedor.
São Paulo era o sonho eleitoral de um partido às voltas com uma crise de identidade desde que mudou de nome. Desde que Lula chegou ao poder e só fez aumentar sua popularidade e influência no Nordeste, os democratas só perderam espaço na política depois que ficaram sem as verbas e cargos federais. Ganhando na capital paulista, o DEM aumentaria seu cacife político, visando principalmente a eleição de 2010. Hoje, nem os democratas acreditam muito na vitória na capital paulista.
O drama do DEM é que a eleição em São Paulo pode ser a maior de várias outras derrotas. Nas demais cidades que contam, o partido tem chances reais em duas: Salvador, com ACM Netto, e Recife, com Mendonça Filho. Nas duas capitais, porém, há quem avalie que o partido irá para o segundo turno. E nisso ficará, diante da união dos adversários tucanos, petistas e peemedebistas contra seus candidatos.
Antes do início das campanhas municipais, lideranças democratas faziam uma avaliação otimista de suas chances eleitorais. Acreditavam que a inflação só faria crescer até a eleição de outubro, prejudicando os candidatos governistas nas grandes cidades.
Agora, os últimos índices de preços indicam que o remédio amargo ministrado pelo Banco Central está surtindo efeito. A pressão altista sobre os preços está se arrefecendo. Mantida a tendência, a eleição deve ocorrer com inflação em queda e popularidade presidencial elevada, jogando por terra o sonho democrata de faturar alto.
Resultado, o partido corre o risco de sair dessa e da eleição de 2010 como uma legenda de deputados e senadores. E talvez nem tantos quanto hoje.
Ainda a inflação
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, mandou seu recado ontem. Sua equipe vai trabalhar para que a inflação volte a ficar no centro da meta, 4,5%, no próximo ano. Leitura imediata: o aperto monetário do BC será mantido até o final do ano, bem acima das expectativas do início do ano. A dúvida, porém, é sobre o custo efetivo dessa decisão, que conta com o apoio do presidente Lula. Nesse ano, o crescimento já está praticamente contratado e deve ficar entre 4,8% a 5% do PIB (Produto Interno Bruto). No próximo ano, o governo espera que ele fique na casa dos 4%, acima disso, não abaixo. Mas tem gente que enxerga números menores, exatamente por conta do aperto maior na política monetária. Mas aí Lula já foi convencido. Melhor reduzir o ritmo em 2009, com uma inflação controlada, podendo voltar a crescer mais em 2010, o ano da sucessão. Se vai dar certo, aí é outra história.
Valdo Cruz, 46, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal e atuou como repórter de economia. Escreve às terças.
E-mail: valdo@folhasp.com.br
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BC surpreende e anuncia aumento maior dos juros, para 13% ao ano
EDUARDO CUCOLO
da Folha Online, em Brasília
O Copom (Comitê de Política Monetária) do BC (Banco Central) anunciou nesta quarta-feira um aumento de 0,75 ponto percentual na taxa básica de juros. Assim, em decisão unânime, a taxa Selic subiu de 12,25% para 13% ao ano.
A decisão surpreendeu a maioria dos analistas do mercado financeiro, que esperavam um aumento de 0,5 ponto. Parte dos economistas, no entanto, já previa que o BC poderia acelerar o ritmo de alta dos juros para evitar uma disparada da inflação.
Entenda como a taxa básica de juros influencia a economia
“Avaliando o cenário macroeconômico e com vistas a promover tempestivamente a convergência da inflação para a trajetória de metas, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic para 13% ao ano, sem viés”, informou o comitê em nota após a reunião.
Trata-se do terceiro aumento da taxa em 2008. No início do ano, a Selic estava em 11,25% ao ano. Com a alta da inflação, o BC iniciou uma nova série de aumentos dos juros para tentar segurar a escalada de preços. Foram dois aumentos de 0,5 ponto percentual.
Agora, os juros voltaram ao mesmo patamar de janeiro de 2007. O maior nível da taxa Selic no governo Lula foi alcançado no início do governo, em fevereiro de 2003 (26,5% ao ano).
Novos aumentos
Esse não deve ser o último aumento de juros neste ano. Os economistas ouvidos pelo próprio BC esperam que a taxa básica termine 2008 em 14,25% ao ano.
O mercado espera uma nova alta para 13,25% na reunião do Copom no início de setembro; outra para 13,75% em outubro; e para 14,25% em dezembro –o Copom se reúne a cada 45 dias, aproximadamente.
Em janeiro de 2009, os juros chegariam a 14,75% e só voltariam a cair, na previsão do mercado, no segundo semestre, para terminar o ano em 13,75% a.a..
Inflação acima da meta
A alta dos juros é uma tentativa do BC de evitar que a inflação estoure o teto da meta para 2008. A meta definida pelo governo para o IPCA (indicador oficial de inflação medido pelo IBGE) é de 4,5% (centro da meta), com tolerância de dois pontos, podendo chegar a 6,5% (teto da meta).
O próprio BC prevê uma inflação de 6% para este ano e de 4,7% para 2009, ambas acima do centro da meta.
A instituição também já admite que há 25% de chances de a inflação estourar o teto da meta para este ano. Para os economistas ouvidos pelo BC, o IPCA vai terminar 2008 em 6,53%.
Apesar do discurso de parte do governo de que a inflação estaria restrita aos preços dos alimentos, o BC já admite que ela tem contaminado outros setores da economia.
Parte desse efeito será sentido nas tarifas e aluguéis reajustados pelos IGPs (Índice Geral de Preços), por exemplo, que devem fechar o ano acima de 12%, na previsão de mercado financeiro.
Enquanto for necessário
O próprio presidente do BC, Henrique Meirelles, afirmou que, mesmo tirando os alimentos da inflação, o IPCA acumulado em 12 meses já supera os 6%.
Na avaliação de Meirelles, os preços no Brasil estão sendo influenciados não só pelo aumento internacional dos alimentos, mas também pelo forte consumo interno e pelo aumento do crédito.
O volume de crédito país bateu novo recorde no mês passado, apesar do aumento dos juros. Mesmo assim, já se verifica uma desaceleração nos empréstimos das pessoas físicas.
Por isso, os diretores do BC vêm afirmando que para segurar a inflação, continuarão aumentando os juros “enquanto for necessário”.
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Para presidente do BC, política monetária frouxa é ‘política de direita’
Ricardo Gandour, João Bosco Rabelo e Beatriz Abreu, BRASÍLIA
O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, definiu sua política monetária como “de esquerda” a uma delegação do PT que o procurou ontem para municiar-se de argumentos capazes de responder aos questionamentos de suas bases eleitorais quanto ao aumento das taxas de juros. Meirelles se inspirou em pronunciamento do senador Jefferson Peres (PDT-AM), recentemente falecido, no qual afirmou que “política monetária frouxa é política monetária de direita, porque corrói o salário do trabalhador”. Segundo o presidente do BC, os dados de aumento de consumo da família brasileira e a transferência de parte das classes D e E para a classe C, mostram que a inflação foi derrotada pela política monetária aplicada, com efeito direto e positivo na renda do povo.
Os parlamentares assistiram a uma exposição minuciosa do momento econômico do País, com dados que explicam o comportamento do BC criticado pelo mercado e pela própria base aliada do governo Lula. Ele retrocedeu aos anos 70, do primeiro choque dos preços do petróleo aos dias de hoje, para explicar erros e acertos de países que reagiram de formas diferentes às crises mundiais.
Nesse contexto, mencionou que as políticas monetárias mais duras e os ajustes mais amargos que recuperaram economias em crise foram aplicadas por governos de esquerda, citando os governos de Jimmy Carter, nos EUA, de Tony Blair, na Inglaterra, e de Felipe González, na Espanha. A defesa da política adotada pelo BC a integrantes da bancada do PT ocorreu horas antes de a Fitch Ratings anunciar que reconhece o Brasil como porto seguro para investidores, confirmando a elevação do País ao grau de investimento. O chamado “investment grade” foi dado primeiramente pela Standard&Poor’s e pela canadense DBRS.
Os parlamentares – que estão visitando vários ministros – foram buscar no Banco Central “informações e argumentos” para melhor se comunicar com suas bases, que cobram explicações sobre a volta da alta do juro. Meirelles explicou aos parlamentares as ações do BC e disse que o País enfrenta “uma encruzilhada”: ou aumenta os juros ou vê a inflação voltar. Foi nesse momento da conversa que o presidente do BC deu uma estocada no PT, que sempre criticou a alta dos juros como estratégia de combate à inflação.
“Historicamente, são os governos de esquerda que mais querem segurar a inflação”, disse Meirelles, segundo um dos participantes do encontro. Meirelles foi questionado por petistas que queriam saber se a intenção da equipe econômica era mexer no câmbio. Respondeu que não. O presidente do BC defendeu o câmbio flutuante sob o argumento de que “o mercado se ajusta”. Mais: garantiu que está fazendo, desde 2003, o que precisa ser feito, apesar da resistência do governo e do PT. “A reunião foi boa para ele e excelente para o PT. Ele conseguiu quebrar resistências no partido, que, a partir de agora está preparado para defender a política econômica do governo”, disse o deputado Geraldo Magella (PT-DF).
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Fitch eleva Brasil para grau de investimento
Anúncio se segue ao da Standard & Poor’s, que foi a 1ª entre as 3 maiores a conceder o grau de investimento
Da Redação – portal O Estado SP
SÃO PAULO – A Fitch Rating, uma das três maiores agências de classificação de risco, elevou o Brasil para grau de investimento nesta quinta-feira, 29. A mudança na classificação passou de BB+ para BBB-, que é a primeira escala na classificação de grau de investimento. Com a nova classificação, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) passou a subir. Às 15h30, a alta é de 0,65%. Antes da notícia, operava em queda de 0,14%.
A Fitch Ratings destaca que “a elevação do rating reflete a melhora dramática das contas externas e do setor público do Brasil, que reduziu bastante a vulnerabilidade do país a choques externos e de câmbio e fortaleceram a estabilidade macroeconômica e melhoraram as perspectivas de crescimento para o médio prazo”.
Segundo a agência, as autoridades estabeleceram um “histórico de compromisso com inflação baixa e um superávit orçamentário primário que dirimiu preocupações anteriores quanto à sustentabilidade fiscal no médio prazo”.
“A melhora impressionante nas finanças externas, resultante, em parte dos preços mais altos das commodities, mas também de boa gestão política, ao lado do status de credor soberano líquido, tornou o Brasil bastante mais resistente a choques financeiros globais e aumentou a credibilidade de seu quatro de referência macroeconômico”, disse Shelly Shetty, diretora sênior do grupo de ratings soberanos da Fitch.
Ela acrescentou que “um consenso cada vez maior em todo o espectro político quanto às políticas macroeconômicas também reduz o potencial para um afastamento marcante do quadro atual”.
Para o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, a nova classificação de risco dada ao Brasil, desta vez pela Fitch Rating, significa que o País está tendo cada vez mais reconhecida a sua melhora de fundamentos. Segundo Meirelles, a confirmação vai determinar a melhora da qualidade do investimento no Brasil. Investimento de longo prazo e recursos que têm, em geral, a maior contribuição para setor produtivo, acrescentou o presidente do BC.
Primeira nota
O anúncio da Fitch se segue ao da Standard & Poor’s, que se tornou a primeira entre as três maiores agências de rating do mundo a conceder o grau de investimento ao País, ao elevar, no último dia 30 de abril, a nota brasileira de BB+ para BBB-. A outra grande agência classificadora, a Moody’s, mantém o rating brasileiro um nível abaixo do grau de investimento, em Ba1, com perspectiva estável.
No último dia 18 de abril, a agência de classificação de risco de crédito japonesa R&I (Rating and Investment Information) também elevou o rating do Brasil para BBB-, grau de investimento. A R&I foi a segunda agência japonesa a conferir este status ao Brasil. Em junho de 2007, a Japan Credit Rating (JCR) havia elevado a nota da dívida de longo prazo em moeda estrangeira do Brasil para BBB-.
O que significa o grau de investimento?
A nova nota significa que os títulos da dívida do Brasil agora são considerados com baixo risco de crédito. Na prática, o grau de investimento funciona como uma permissão para que instituições e investidores estrangeiros apliquem seus recursos em papéis da dívida brasileira. O resultado é que essa classificação deve atrair ainda mais recursos estrangeiros.
Ou seja, o real deve se apreciar ainda mais frente ao dólar; e as ações de empresas, principalmente de bancos, serão melhor avaliadas pelos investidores e devem subir muito nos próximos dias.
Do ponto de vista da economia real, esta classificação pode atrair mais investimentos para o País, melhorando mais as condições macroeconômicas. Além disso, as empresas conseguirão captar recursos com taxas mais baixas e terão lucros maiores.
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Superávit leva Lula a suspender fundo
Presidente avalia se o aperto fiscal maior não deveria ajudar a reduzir a dívida pública e, portanto, a conter a inflação
Envio do projeto de lei do fundo ao Congresso foi adiado; Lula cogita ainda usar parte das reservas, mas Banco Central é contra
VALDO CRUZ – FOLHA SP
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Preocupado com o cenário internacional adverso e com a inflação em alta, o presidente Lula suspendeu o lançamento do Fundo Soberano do Brasil por ainda ter dúvidas sobre o uso de recursos do superávit primário para formar seu caixa.
Lula tem sido aconselhado por economistas de fora do governo a elevar o superávit primário -economia destinada ao pagamento da dívida pública- somente para ajudar o Banco Central no combate à inflação, evitando destinar a economia excedente ao fundo.
Como o presidente não desistiu da idéia, ele voltou a cogitar uma medida já descartada anteriormente por pressão do comandante do BC, Henrique Meirelles: usar parte das reservas internacionais, talvez US$ 15 bilhões dos quase US$ 200 bilhões, para criar o fundo soberano, abortando assim o uso de recursos fiscais.
Lula ainda avalia a proposta de usar o superávit primário, já dada como certa pelo Ministério da Fazenda. Segundo disse a assessores, se for para fazer um ajuste fiscal maior, talvez seja melhor destinar esses recursos só para o pagamento da dívida pública, auxiliando diretamente o Banco Central no combate à inflação.
O presidente, contudo, ainda não tomou uma decisão. Na última segunda-feira, ele determinou que o ministro Guido Mantega (Fazenda) segurasse o envio ao Congresso do projeto de lei que cria o Fundo Soberano do Brasil.
Lula disse a seus ministros ter considerado o formato “supercomplicado e pouco harmônico”. Pela proposta divulgada por Guido Mantega à imprensa, teria recursos do superávit primário -uma poupança fiscal- e da compra de dólares.
O superávit subiria informalmente de 3,8% para 4,3% do PIB ao ano, uma economia extra de 0,5 ponto percentual do PIB, equivalente a cerca de R$ 14 bilhões. A outra parcela viria da compra de dólares no mercado pelo Tesouro Nacional.
Essa idéia foi bombardeada por interlocutores do presidente. Lula ouviu de um deles que o superávit extra tem de ficar “entesourado” para, de fato, reduzir a demanda pública e auxiliar o BC no combate à inflação, prioridade do petista.
O presidente ouviu de economistas que a proposta da Fazenda acabaria tendo efeitos fiscais contrários, dificultando o trabalho do BC. Um dos argumentos usados para convencer Lula é que o Tesouro, ao comprar dólares para criar o fundo, jogaria mais reais na economia ou elevaria seu endividamento.
O recuo do presidente se deve, principalmente, à avaliação de que o cenário econômico internacional pode piorar depois dos últimos dados vindos dos EUA. O Fed (o banco central americano) sinalizou que o processo de queda de juros acabou e mostrou pessimismo com a inflação e o crescimento.
No Brasil, a inflação dá mostras de que ainda pode seguir elevada nos próximos meses, ante os efeitos do segundo choque das commodities: após os alimentos, é a vez dos minerais.
Na última reunião de coordenação, quando Lula tomou a decisão de adiar o envio do fundo ao Congresso, ele comentou estar preocupado com a alta do petróleo, que está atingindo vários setores da economia por conta da elevação dos preços de seus derivados, como fertilizantes e plásticos.
Além de ser desaconselhado a destinar o ajuste fiscal maior ao fundo soberano, Lula tem ouvido que não basta aumentar informalmente a meta de superávit primário; é preciso divulgá-la oficialmente.
Só assim o governo irá colher os dividendos de uma reversão de expectativas, sinalizando ao mercado que a União vai cortar seus gastos para deixar que a demanda do setor privado continue crescendo. Com isso, o ciclo de alta dos juros do Banco Central poderá realmente ser curto, reduzindo seu impacto sobre o ritmo da economia.
Críticas
Afora a questão fiscal, o fundo soberano desenhado pelo governo brasileiro foi alvo de críticas de economistas pelo fato de o país não apresentar as características comuns aos países que o possuem.
Em comum entre a maioria dos mais de 30 países que possuem fundos soberanos estão superávits tanto fiscais como em conta corrente ou ao menos um dos dois indicadores. Mas o Brasil já tem déficit fiscal, ou seja, gasta mais do que arrecada; e, a partir deste ano, voltará a ter resultado negativo na sua conta corrente (que contabiliza o resultado das relações de trocas de bens, serviços e renda de um país com o exterior).
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Ex-governador receia ter futuro político atrelado ao do colega, dizem interlocutores
Em 2010, Alckmin só poderá concorrer ao governo de São Paulo caso Serra abra mão da reeleição para se lançar candidato à Presidência
CATIA SEABRA – JOSÉ ALBERTO BOMBIG – FOLHA DE SÃO PAULO
DA REPORTAGEM LOCAL
Sob pressão para que desista da corrida municipal, o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) já não esconde, em conversas, sua insatisfação com o governador de São Paulo, José Serra, a quem é atribuído o patrocínio da aliança PMDB-DEM na capital. Ao relatar a reunião que tivera na véspera com o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), Alckmin alegou, segundo interlocutores, que não concorda com a idéia de esperar para concorrer ao governo em 2010 por dois motivos: ainda falta muito tempo até lá e porque não será “cabo eleitoral de luxo” da campanha de Serra à Presidência.
Seu medo, dizem tucanos, é ter o futuro político atrelado ao de Serra. Em 2010, Alckmin só poderá concorrer caso Serra abra mão da reeleição para disputar a Presidência.
Também ontem, Alckmin falou de Serra numa conversa com o presidente municipal do PSDB, José Henrique Reis Lobo, e o vice-presidente, deputado Júlio Semeghini.
Aos dois, disse que Serra é beneficiário da aliança entre DEM e PMDB. Por isso parece lógico que o acordo seja debitado na conta do governador. Ainda assim, disse que não acreditava na sua participação. Lobo é secretário de Serra.
Na tentativa de se livrar da asfixia imposta pelos kassabistas, Alckmin intensificou a pressão sobre o Diretório Municipal e obteve o compromisso de que, na próxima segunda, avalize a candidatura própria.
Na ofensiva, alckmistas reivindicam a presença do candidato no programa estadual do PSDB. Alckmin avalia a hipótese de participar de ato pela candidatura própria na segunda.
Sem a oficialização da pré-campanha, o grupo de Alckmin encontra dificuldades para definir alianças, montar a equipe e arrecadar recursos. Em reunião ontem, obteve de Lobo a promessa de que uma decisão final sairá no dia 5.
Pelo acordo, o diretório se reunirá para referendar a decisão da Executiva -a candidatura própria. Pelo roteiro idealizado, Alckmin será aclamado candidato antes de 12 de maio, em convenção do partido.
Nos últimos dias, com a iminência do acordo DEM-PMDB, que acabou se concretizando anteontem, Alckmin e seu grupo passaram a correr atrás de apoio. Mas, segundo a Folha apurou, o ex-governador ouviu de eventuais aliados o argumento de que não há condições de fechar alianças sem ter uma certeza da candidatura.
Caixa vazio
Com a ruptura da parceria DEM-PSDB, emissários de Alckmin têm enfrentado dificuldades para convencer o empresariado de que ele irá concorrer -com chances de vitória e boa estrutura- a prefeito.
Entre alckmistas, a função de “sondar” os empresários acabou sendo delegada em especial ao ex-secretário de Planejamento Fernando Braga.
Segundo colocado na disputa presidencial de 2006, ele até agora não conseguiu assinar contrato com um marqueteiro de ponta. Marta Suplicy (PT) terá João Santana e Kassab fechou com José Maria Braga.
Até agora, o publicitário mais próximo de Alckmin é Oswaldo Martins, levado até o ex-governador pelo ex-secretário João Carlos Meirelles. Nos últimos dias, porém, o QG alckmista tem se ocupado apenas em discutir como furar o bloqueio de Kassab, deixando em segundo plano a montagem da equipe.
Sem dinheiro, Alckmin procura se escorar na sua popularidade -divide com Marta a liderança da última pesquisa Datafolha. Nesse campo, segundo a Folha apurou, ele tem a ajuda do padre Marcelo Rossi, fenômeno multimidiático da Igreja Católica, e de seu ex-secretário de Justiça, Édio Silva Júnior, ligado ao movimento negro.
Tags: Alckmin, alianças, DEM, empresariado, igreja, José Serra, justiça, Kassab, Meirelles, PMDB, PSDB, Tucanos
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Estratégia é obter ‘consenso’ para mudança de política
Cristiano Romero – VALOR
A estratégia da equipe econômica liderada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, é construir um “consenso” dentro do governo: o de que, mantidos os pressupostos da atual política econômica, o país caminhará, nos próximos anos, para uma crise no balanço de pagamentos, seguida de descontrole inflacionário e aperto monetário. Fontes do primeiro escalão ouvidas pelo Valor confirmam que o ministro e sua equipe vêm trabalhando, há cerca de um mês, na mudança “gradual” dessa política, com o suposto objetivo de impedir que a crise prenunciada aconteça.
A principal preocupação é com a valorização do real, que estaria estimulando importações, diminuindo a competitividade das exportações e forjando o reaparecimento de déficits nas contas externas. A solução, na avaliação da equipe de Mantega, passa pela desvalorização do real, apoio às exportações, a redução da taxa básica de juros e aumento do esforço fiscal.
Em menos de 30 dias, desde o início do debate sobre ajustes na atual política econômica, o Ministério da Fazenda adotou medidas para conter a apreciação do real – o fim da cobertura cambial e a taxação, com 1,5% do IOF, da entrada de capital estrangeiro para renda fixa -, começou a preparar iniciativas de apoio à exportação e defendeu o aumento do esforço fiscal. Com o objetivo de evitar provável elevação dos juros, Mantega chegou a anunciar, também, que o governo adotaria medidas de contenção do crédito, mas foi desautorizado pelo Planalto.
A Fazenda partiu para a ofensiva de construção de um consenso justamente porque está tendo dificuldades de fazer valer algumas de suas propostas dentro do governo. Lula resiste a mudanças numa política que, na sua avaliação, está dando certo. Foi por essa razão que Mantega recorreu à ajuda de dois conselheiros informais do presidente Lula e críticos contumazes da política monetária do BC – o ex-ministro Delfim Netto e o professor Luiz Gonzaga Belluzzo -, para testemunhar sobre os “riscos” que o câmbio apreciado traria ao país.
No encontro que reuniu, no Planalto, Delfim, Belluzzo, Mantega, o senador Aloísio Mercadante (PT-SP) e o presidente do BC, Henrique Meirelles, os dois convidados falaram “sobre a tragédia que é o câmbio apreciado”. O quadro pintado previa o derretimento do dólar, provocado pela crise americana lá fora e a taxa Selic no Brasil, a acumulação acelerada de déficits em conta corrente, seguida de crise de confiança, desvalorização do real, explosão inflacionária, elevação dos juros e, conseqüentemente, desaceleração do PIB.
Uma das possibilidades vislumbradas pela equipe econômica, e reconfirmadas pelo Valor, é trabalhar com um sistema de metas cambiais, mas sem explicitá-lo. Na prática, o governo já está atuando nessa direção ao tentar, com o IOF sobre investimentos de estrangeiros em renda fixa, controlar a entrada de capital. Quando a medida foi anunciada, Mantega disse que se tratava de “uma atitude do governo”, que poderá, segundo ele, aumentar a alíquota do IOF e que, de agora em diante, não permitirá a ocorrência de déficits em conta corrente. No mesmo dia, revelou que o modelo a ser perseguido é o de países asiáticos, onde as moedas são mantidas desvalorizadas para estimular as exportações.
O ex-ministro Delfim Netto disse que, na reunião do Planalto, não se tratou da mudança do regime cambial, mas da adoção de medidas para conter a apreciação do real e de uma política industrial exportadora. Ele disse que é contra a adoção de metas cambiais. “O governo está numa armadilha”, afirmou o ex-ministro, referindo-se à situação atual.
* Referente ao artigo precedente Gestão do “tripé econômico” segue polêmica
Tags: , BC, Belluzzo, Câmbio, Competitividade, crédito, Delfim, dólar, exportações, Guido Mantega, henrique Meirelles, importações, investimentos, IOF, Juros, Lula, Meirelles, Mercadante, moeda, PIB, real, Renda, Selic, taxa
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