09/01/2009 - 20:26h Lula fala à revista Piauí

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Entrevista exclusiva concedida pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, à revista Piauí no dia  18 de dezembro de 2008. Publicada na edição nº 28, na primeira semana de janeiro de 2009

Presidente, é o seguinte: eu queria saber… o senhor está com a imprensa aí há quase 40 anos na sua cola. Estando no Planalto, muda a sua relação, piora, o senhor sente que a imprensa é melhor ou pior do que o senhor achava antes ou não?

Eu não vejo, Mário Sérgio, melhora ou piora na imprensa. Eu acho que a imprensa brasileira tem um comportamento, que não é um comportamento de agora, é um comportamento histórico. Eu, por exemplo, sou um cidadão brasileiro que nunca tive a grande mídia brasileira com preocupação de fazer coisas favoráveis a mim, e nunca me preocupei muito com isso, porque antes de tudo eu acredito na inteligência de quem assina uma revista, de quem assina jornal, de quem vê televisão e escuta rádio.

Possivelmente, ainda tenha gente inocente, que acredita que tudo o que ele fala, tudo o que ele escreve é recebido pelo leitor como a verdade mais absoluta, ou seja, ele não acredita na capacidade de análise do leitor, que pega uma matéria e percebe se há má fé, se não há má fé, se a matéria está informando corretamente ou se não está informando corretamente.

Hoje a informação é muito plural, não tem mais apenas a informação de tal revista, a informação de tal jornal. A informação é veiculada por diferentes fontes. Então, quando o cidadão pega o jornal de manhã, aquela matéria ele já viu na televisão, ele já ouviu no rádio, ele já viu em vários blogs (incompreensível) diferentes, então aumenta a capacidade de interpretar do cidadão que lê.

Agora, o senhor falou uma vez, eu fiz uma matéria com o senhor, eleição municipal 2000, 2001. A gente percorreu várias cidades, uma semana, dez dias. Eu, o senhor, tinha mais gente, o Zé Dirceu… Mas aí o senhor… a relação que o senhor tinha com a imprensa, eu observava, o senhor todo dia lia o jornal no avião, lia a parte de esportes. O senhor comentava comigo, o senhor comentou duas vezes comigo: “olha, esse Painel, petista adora o Painel da Folha, até o Kennedy Alencar, eles botam nota”. O senhor tinha uma coisa que curtia a imprensa, o senhor achava, vamos dizer, engraçado. O senhor disse: “se eu tivesse até mais tempo – eu me lembro disso – se eu tivesse mais tempo eu lia isso com mais vagar”. Hoje o senhor tem tempo, o senhor curte mais, curte menos, como é que é hoje?

Bem menos, bem menos.

Isso melhora a sua vida ou não?

Não, acho que melhora. Eu fui deputado e eu sei como é que muita gente passava matérias para o Painel da Folha, para o Informe JB, para aquele negócio do Estadão. Você sabia quais os deputados que ficavam procurando jornalista, você conversava com um cara aqui e daqui…

Sabia o que era plantado…

…sabia o que era plantado e o que não era plantado. Eu sempre dizia que no PT, às vezes uma matéria que saía em um informe qualquer, ou no Painel, era mais vista do que uma matéria do Jornal Nacional. Eu falava isso em tom crítico, porque eu queria mostrar o lado mais intelectualizado da Direção do PT, que não via o que passava no Jornal Nacional, que é o que o povo vê, e via o Painel, que é uma coisa que o povo não lia.

O senhor nunca foi político de fazer esse tipo de ação, vamos dizer, o senhor nunca foi fonte de jornalista, o senhor nunca…

Não gosto, não gosto de ser fonte, porque eu acho que você estabelece uma relação promíscua com o jornalista, com o jornal, com a revista, com a televisão. Se você passa a ser uma espécie de informante privilegiado… no caso do mundo policial, isso seria informante. No mundo jornalístico é mais chique, você passa a ser fonte. Então, é o cara que planta laranja para colher manga, é o cara que planta manga para colher limão…

(mais…)

10/12/2008 - 10:47h Debater é preciso

PT rejeita legado de Lula na economia

Cristiano Romero – VALOR

Se continuar atacando a política econômica do seu próprio governo, como fez no último domingo, o Partido dos Trabalhadores (PT) ficará sem bandeira para a disputa da sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A crítica a essa política, especialmente à gestão monetária e cambial, é uma marca histórica do candidato mais cotado da oposição neste momento – José Serra (PSDB), governador de São Paulo. Serra critica o modelo de estabilização que está aí desde 1994, ano em que foi lançado o Plano Real.

Ao assumir o poder, Lula abraçou o tripé superávit primário-câmbio flutuante-metas para inflação, que dá sustentação à política econômica desde 1999, e reforçou-o. Aumentou o superávit das contas públicas e manteve a autonomia do Banco Central (BC) na condução das políticas monetária e cambial. Com isso, tirou o Brasil de uma grave crise de confiança em 2003 e o colocou numa rota de crescimento sustentado que já dura cinco anos – e que só está sendo interrompida agora graças à mais grave crise internacional em oito décadas.

Ironicamente, os ataques de dirigentes nacionais do PT à política econômica (leia-se: ao Banco Central) ocorreram três dias depois de o Datafolha revelar que o presidente Lula goza de aprovação recorde (70%) e dois dias antes do anúncio, pelo IBGE, do crescimento de 6,8% do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre, quando comparado ao mesmo período de 2007. Foi a maior alta desde o segundo trimestre de 2004.

Os números mostram que a economia vinha pisando no acelerador. A velocidade de crescimento do consumo das famílias pulou, do segundo para o terceiro trimestre, de 6,7% para 7,3%. A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que revela a taxa de investimento da economia, saltou de 16,2% para 19,7%.

É importante registrar que todo esse crescimento vinha acontecendo com a inflação embicando para baixo. Depois de começar o ano em alta e de acelerar em maio e junho, quando registrou, respectivamente, altas de 0,79% e 0,74%, o IPCA, o índice de preços oficial do regime de metas, recuou justamente no portentoso terceiro trimestre do PIB – para 0,53% em julho, 0,28% em agosto e 0,26% em setembro.

Isto mostrou, mais uma vez, que o Comitê de Política de Monetária (Copom) estava certo quando decidiu elevar os juros a partir de abril. O objetivo não era abortar o crescimento de 2008, já dado, mas prevenir a inflação em 2009 e, com isso, assegurar que a economia continuasse crescendo no ano que vem, num ritmo menor, mas ainda de forma acelerada. Pelo que se viu, a gestão das expectativas conduzida pelo BC, tão incompreendida mesmo no governo, deu certo.

Em meados de setembro, o mundo entrou em crise e o Brasil foi atingido de uma maneira mais rápida qua a esperada. Em outubro e novembro, a economia entrou em pânico e, embora ainda não se saiba exatamente qual será o efeito disso sobre a atividade econômica neste e nos próximos trimestres, espera-se agora uma desaceleração brutal do crescimento.

Na reunião da corrente Construindo um Novo Brasil, o antigo Campo Majoritário rebatizado após o mensalão, que controla o PT, buscou-se um culpado para a crise. Acharam três: o PSDB, o BC – “o último bastião da ortodoxia no Brasil”, nas palavras do ex-ministro José Dirceu – e suas políticas neoliberais. Em entrevista à “Folha de S.Paulo”, Dirceu defendeu a completa reformulação da política econômica. Disse que é preciso mudar a política de juros, o superávit primário e o câmbio.

Quando esteve no governo, Dirceu, registre-se, foi crucial para o que o então ministro Antonio Palocci convencesse o presidente Lula a seguir a política econômica herdada do governo do PSDB. Com o tempo, constatando os benefícios que essa política lhe trazia (ou alguém ainda tem dúvida de que foi a estabilidade que tirou Lula do atoleiro político de 2005 e o conduziu à reeleição no ano seguinte?), o presidente decidiu ser seu principal avalista e isso, claro, ajudou a estabilizar a economia.

No mercado, são poucos os que ainda duvidam do caráter pragmático de Lula. O presidente não é, definitivamente, um reformista, mas está longe de entregar os pontos na economia. Suas escolhas o fizeram perder aliados ao longo do caminho – o mais notável deles foi a ex-senadora Heloísa Helena, que deixou o PT para fundar o PSOL -, mas o aproximaram da maioria da população. Quando dispara contra a política econômica de Lula, o PT deixa sem discurso seu candidato à sucessão.

As bases do discurso de Serra para 2010 estão lançadas. Em apenas dois anos de gestão em São Paulo, o governador levantou mais de R$ 20 bilhões para investir em infra-estrutura. Está dando um banho no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) da ministra Dilma Rousseff, sua possível adversária na disputa presidencial – e não por deméritos da ministra, mas porque é mesmo difícil, no plano federal, fazer investimento público dentro do atual quadro institucional.

Com sua política de investimento agressiva, Serra quer se diferenciar de Dilma como gestor eficiente, realizador de obras. Com críticas impiedosas à condução da economia, procura se distinguir de Lula na seara onde o presidente tem obtido mais sucesso e, portanto, pode transferir votos. Se o PT não defender o legado do seu próprio governo, ficará sem discurso.

Banco Central: o dia em que Lula piscou

Em seis anos de governo, o presidente Lula reiterou a autonomia do BC, mas não foi sempre que fez ouvido de mouco à artilharia contra a instituição. Em abril deste ano, estimulou o presidente do BC, Henrique Meirelles, a sair candidato a alguma coisa em 2010 – menos à presidência, claro – e, ato contínuo, convidou o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, da Unicamp, para substituí-lo.

Respeitável crítico da política econômica, Belluzzo declinou da oferta, preocupado com uma possível rejeição a seu nome no mercado financeiro.

Cristiano Romero é repórter especial e escreve às quartas-feiras.

E-mail cristiano.romero@valor.com.br

26/11/2008 - 11:40h PT: reflexões de Gleisi Hoffman

Por onde o PT se renova

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Rosângela Bittar – VALOR

Aguerrido, como se sabe, no presente, mesmo sem muitas opções à escolha, o PT, ao contrário de seus principais adversários, preocupa-se, sim, com o futuro, e tem permitido que novas lideranças, insinuadas nas duas últimas eleições majoritárias, desenvolvam suas chances. Exemplo puro desta situação é o da paranaense Gleisi Hoffman, 43 anos, dois filhos, duas campanhas eleitorais – candidata a senadora, teve 2,3 milhões de votos (começou com 2%) quando o vencedor ganhou com 2,5 milhões, e candidata a prefeita de Curitiba, recebeu 18% porcento dos votos – é atualmente presidente do PT do Paraná.

Vestida com elegância clássica, bastante articulada e pensamento organizado para o perfil do meio em que vem galgando degraus, Gleisi, depois de transitar dois dias em Brasília para contatos no governo e no partido, exibiu, docemente mas firme, uma avaliação resumida e realista sobre a política, tal como praticada no seu Estado e no seu partido, mostrando como vê o futuro e as tarefas mais urgentes.

“Não estou pensando em mim ou em 2012, o foco é 2010, para construirmos um bom palanque para a Dilma no Paraná”, afirma, referindo-se ao objetivo imediato, a candidatura da ministra chefe da Casa Civil a presidente da República, com apoio do presidente Lula. Neste palanque a que se refere há, para governador do Estado, dois nomes também em processo de construção. Um, Jorge Samek, presidente de Itaipu Binacional, e o outro o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, seu marido. Não está definido qual deles será o candidato do PT nem as alianças que serão firmadas com outros partidos para as demais candidaturas, mas é o trabalho a partir de agora

“Vamos fortalecer o projeto local com a consciência de que precisamos dar muita atenção ao projeto nacional”, assinala, indicando qual é a sua expectativa política, no momento: “Ter feito o Presidente da República, ter mudado tanto o país, e não conseguir manter isto”…Não pode, subentende-se de suas reticências.

Há algo com que Gleisi convivia mal, uma estranheza imposta a uma técnica formada na política pela prática eleitoral, mas que agora, como presidente do partido, terá que enfrentar, além de procurar formas de mudar as regras não escritas de que não gosta: a articulação política, interna, no PT, e com partidos aliados. “Estas articulações são conversações sem nenhum resultado concreto, articulações abstratas, e a vida está correndo”, traduz. Se há algo que a mobiliza é o desejo de levar a vida real para a política, interferir de forma direta no seu conteúdo. Destaca, por exemplo, que recentemente o Paraná registrou o assassinato brutal de cinco meninas, e o assunto ficou confinado à segurança. “Temos que trazer isso para a política, não adianta ficar só na polícia”.

Outro exemplo de quem reconhece ser a articulação política seu papel, mas pretende reinventá-la, é a questão agrícola. “O Paraná é um estado agrícola, o futuro da economia e da solução da crise está no agronegócio. Enfrentamos problemas sérios, como a crise do álcool, temos grandes produtores no Paraná, precisamos dar respostas”.

Gleisi se volta também para seu partido, o PT, que, segundo identifica, sofre um vácuo no planejamento do futuro. “Éramos um partido de esquerda, ganhamos as eleições em um país continental, passamos a administrar com uma coalizão de forças que não tinham a mesma visão dos problemas, isto gerou uma crise no partido. Quando nos preparávamos para viver este debate, veio outra crise, a do mensalão, e gastamos nossa energia nisto em vez de discutir os grandes temas. Chegou a reeleição do presidente, e nós não paramos para pensar”.

Afastando o conformismo com o que está posto, Gleisi dá indicações de que vai mudar, a começar do discurso. Política substantiva, não usa adjetivos para o governo, para a oposição, nem mesmo para os adversários locais. A análise é objetiva: “Beto (Richa) fez mais que (Cássio) Tanigushi, capitalizou bem os investimentos federais e nós não conseguimos capitalizar para o PT”. Ou: “As pessoas estavam indiferentes, não estavam querendo discutir política e não conseguimos politizar a campanha”. Richa, do PSDB, foi reeleito com quase 80% dos votos no primeiro turno, e Gleisi diz que, quem via a campanha de perto, imaginava que a disputa estava equilibrada. As pessoas me cercavam e diziam: ‘Estou em dúvida, gosto muito de você, mas gosto muito do Beto, por que te colocaram nisso logo agora?’ Na campanha para o Senado, Gleisi viajou todo o Estado, saiu mais conhecida mas com idéias mais diluídas. Na campanha municipal acredita ter sido possível expor melhor as idéias e explicar quem é, de onde veio e para onde quer ir.

Militante do PT desde 1989, Gleisi, formada em Direito, Administração Financeira e Gestão Pública, fez sua carreira, em alguns momentos, de forma paralela à de Paulo Bernardo. Foi Secretária de Reforma do Estado no Mato Grosso do Sul quando ele assumiu lá a Secretaria da Fazenda. Em outra fase, transferiram-se para Londrina, onde Paulo Bernardo foi Secretário de Fazenda e, ao deixar o governo para ser candidato a deputado, Gleisi se viu compatibilizada a assumir a Secretaria de Administração e Gestão. No Congresso, em Brasília, onde viveram outro período, trabalhou com Orçamento, área em que permaneceu quando integrou a equipe de transição para o governo Lula. Foi, no primeiro mandato do presidente, Diretora Financeira de Itaipu, de onde saiu para as recentes candidaturas.

Hoje, é presidente do PT no Paraná, e tem muitos planos. “Estamos fazendo uma intervenção política conjuntural. Isto nunca foi do PT”. Seu desafio é levar o partido à reflexão sobre seu papel meio a campanhas, eleições e sucessão. “Esta análise é que aproximará o partido da sociedade”. O que acha mais que necessário, principalmente em se tratando de um estado conservador, berço do MST onde, até por isto, o PT ainda inspira alta rejeição e onde, em 2006, o popularíssimo Lula foi derrotado no primeiro turno e só conseguiu empatar com seu adversário no segundo.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

E-mail rosangela.bittar@valor.com.br

03/11/2008 - 18:02h Mistificação

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Em entrevista publicada hoje no Correio Braziliense, Gilberto Kassab voltou a criticar a campanha de Marta Suplicy. Os argumentos da crítica merecem uma reflexão política e põe luz sobre um aspecto muito escamoteado no debate político hoje.

Segundo Kassab: “A adversária perdeu tempo em não fazer campanha. Dizer que eu sou da turma do Pitta não é fazer campanha e não sei porque usaram isso se tentaram em 2004 e já não havia dado certo. Porque essas coisas não funcionam quando não são verdade. Fazer campanha é comparar o que ela fez com o que eu fiz para ver quem fez mais e melhor. Comparar as propostas dela com as minhas, é isso que o eleitor quer saber. Na medida em que ela ficou preocupada com outras questões, ela deixou de fazer campanha. Foi uma campanha errática, totalmente equivocada.”

“Quando fui vereador, deputado estadual, federal, a imprensa me acompanhava. Não tinha muita visibilidade na opinião pública, mas as pessoas conversam entre si e sabem o que é verdade. O PT perdeu tempo com uma campanha equivocada. Eu sou eu. Minha única missão é ser um bom prefeito. Eu não consigo enxergar nada além de ser bom prefeito. Não consigo. Porque, se eu for um bom prefeito, tenho um rumo na minha vida. Se eu não for, tenho outro rumo. O bom prefeito é o caminho do respeito, da credibilidade, da estima que as pessoas vão ter por mim. Se eu for um mau prefeito, vai ser um caminho contrário a todos esses adjetivos. Se daqui a quatro anos estiver na mesma posição, e eu gosto da vida pública, gosto do que faço, evidentemente vou ter oportunidade de começar outras missões com o mesmo respeito.” (Correio Braziliense 3/11/2008).

Vou deixar de lado a apresentação inverídica feita por Kassab. Marta defendeu propostas e o balanço de sua gestão. Foi a primeira e a única candidata a apresentar uma plataforma de governo com metas e proposta orçamentária. Kassab atacou Marta e defendeu seu balanço. A situação geral favoreceu a reeleição dos atuais prefeitos.

Mas, na afirmação de Kassab tem mais. Perceba-se que para Kassab é um erro insistir na trajetória partidária e política do adversário. O adequado é comparar administração e o resumo: “ser um bom prefeito” é o supra-sumo do lugar comum.

Mas para que servem então os partidos, os programas, os militantes e as idéias?

Esta abordagem me relembrou um artigo escrito recentemente por Idelber Avilar (A Onda Verde e a substituição da política pela moral) abordando as eleições municipais de Rio de Janeiro e a campanha de Gabeira.

Para Idelber: “Os partidos políticos estão tão estraçalhados no Rio de Janeiro que foi possível que um candidato apresentasse como virtude ética o plano de costurar o segundo turno e depois governar sem conversar com os partidos (entendendo-se aqui suas lideranças, candidatos a prefeito no primeiro turno, vereadores eleitos etc.). A proposta não era inédita, mas a compreensão dela como superioridade moral o era. Gabeira se propôs a conversar “com o eleitorado” dos outros candidatos diretamente, sem mediação.”

O comum denominador de Kassab e Gabeira, além de serem ambos candidatos apoiados por José Serra, é de fornecer um discurso que procura expressar a vontade dos cidadãos por fora e acima dos partidos. Trata-se da “ética”, no caso uma ética da mentira, para cavalgar no sentimento reacionário da classe média, escamoteando do público que ele está sendo objeto de uma manipulação partidária.

Não se trata de invenção ou novidade brasileira, mas de uma longa tradição reacionária da direita e, na Europa, da direita mais extrema. Nos dias de hoje é o discurso e a postura típica de Berlusconi, por exemplo.

O sistema da democracia parlamentar, da representação dos cidadãos nas instituições do poder público, por médio de partidos políticos, comportou inúmeros “inconvenientes”. Um deles é a “lentidão” do trabalho legislativo com suas negociações e barganhas, as vezes com negociatas escusas. A política, os partidos e até o sistema de representação democrática aparecem, para certos setores sociais, como expressão de impotência e de divisão, onde deveria prevalecer o interesse comum e a união.

Os “escândalos” políticos e a procura da ética acima dos interesses sociais, servem de para-vento a ação política dos fariseus e encontram eco na aspiração pequeno-burguesa ao reconhecimento “individual”, oposto ao coletivo. Ele percebe sua situação como fruto legitimo de seu esforço e trabalho, não como produto dos interesses sociais em disputa na sociedade e seus desdobramentos em conquistas econômicas e sociais.

Este sentimento é que é explorado e manipulado por aqueles que procuram esconder seus interesses e seus objetivos políticos por trás do “mantra” reacionário e udenista que a mídia estimula como expressão do progresso.

O escândalo chamado de “mensalão” foi instrumentalizado para atiçar esse movimento político nas classes médias, procurando encaminhá-lo contra o governo Lula, além do próprio PT. Um esquema irregular de financiamento partidário utilizado por todos os partidos políticos no Brasil e no mundo, no vácuo de uma legislação que não assume plenamente a função dos partidos como decorrentes do orçamento nacional, foi utilizado para tentar questionar a validade da existência de um único partido: o PT. De golpe, os outros como que ganharam uma certa “virgindade”, à condição de ficarem fantasiados e pouco visíveis.

O passo atual é erigir em “novidade” velhas raposas e pseudos vestais mídiaticos e travestir-los de renovação da política acima dos partidarismos, pois os partidos “todos se valem”. Eis a “moda” que traduz o sentimento de certos setores das classes médias e que procuram nos apresentar como avanço. Ela será o porta-estandarte do centro-direita na sua tentativa de reconquistar o governo em 2010.

27/10/2008 - 09:56h Lula mantém crença em seu potencial de transferência de votos

Cristiano Romero, de Brasília – VALOR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sentiu o gosto da derrota nas eleições municipais. Não conseguiu transferir votos para seus candidatos, como Marta Suplicy (PT) em São Paulo, viu o provável candidato da oposição à sua sucessão, o governador José Serra (PSDB), se fortalecer e, por isso, já tomou uma decisão: vai participar ativamente da disputa de 2010, “subindo em palanque desde o primeiro momento”, segundo palavras de um assessor direto. Lula acredita que, ao contrário do que aconteceu no pleito municipal, conseguirá transferir, na corrida presidencial, popularidade e votos a seu candidato.

Sergio Alberti / Folha Imagem
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Lula no momento do voto em São Bernardo do Campo:
‘Quando o governo federal está bem, ele transfere votos’

Na avaliação do presidente, a transferência de prestígio já começou, na medida em que a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, possui hoje cerca de 9% das intenções de voto para 2010. “Ela partiu do zero, sem nunca ter disputado eleição. Seus 9% são 100% Lula”, disse ao Valor um ministro do núcleo do poder em Brasília.

O presidente, afiança esse ministro, atribui o infortúnio de petistas nas eleições municipais a fatores locais e não ao seu desempenho no governo, aprovado por 80% da população. Na disputa presidencial, daqui a dois anos, ele acredita que a história será diferente. Dessa vez, a disputa vai girar em torno do julgamento da sua gestão. Lula, assegura um assessor direto, quer fazer o sucessor de qualquer maneira. “O medo do Lula é chegar ao fim do mandato com os candidatos à sucessão fugindo dele, como aconteceu com Fernando Henrique”, diz um assessor.

Lula reconhece que Serra saiu fortalecido da eleição de ontem, mas “apenas em São Paulo”. “A oposição (o DEM, o PSDB e o PPS) diminuiu de tamanho”, observa um colaborador. O PT, na avaliação do presidente, reforçou a musculatura ao aumentar o número de prefeituras, principalmente, por ter vencido em cidades importantes nas duas maiores regiões metropolitanas do país – de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Apesar disso, Lula acha que é preciso “arregaçar as mangas” para eleger seu sucessor. O presidente já definiu a estratégia política para os dois anos de mandato que lhe restam. Dilma Rousseff continua sendo “a primeira da fila” nas suas preferências para 2010. Segundo um assessor, Lula ainda não tratou diretamente do tema sucessão com a ministra, mas diz que ela tem que se viabilizar para sair candidata. Mesmo sem ter conversado com Lula, Dilma teria captado a mensagem.

A ministra participou ativamente das eleições municipais, ao contrário do presidente. Subiu em palanques e gravou mensagens de apoio a candidatos da base aliada em todo o país. A militância, observa um ministro, é importante para diminuir resistências a seu nome dentro do PT e também em outros partidos da coalizão que apóia o governo. Siglas que historicamente acompanham Lula, como o PSB, têm ressalvas ao nome da ministra.

O PSB tem no deputado Ciro Gomes (CE) um candidato natural, mas assessores do Palácio do Planalto revelam que, se Lula não o fizer candidato em 2010, ele não disputará contra um nome escolhido pelo presidente. Restaria a Ciro, no caso de Dilma sair candidata, ser vice na sua chapa. Lula chegou a planejar a dobradinha Dilma-Ciro, mas nos últimos tempos mudou de idéia. Seu plano, agora, é sacramentar uma aliança com o PMDB já na formação da chapa que vai disputar a sucessão.

O PMDB, julga o presidente, saiu fortalecido das eleições municipais. Além disso, é um partido “crucial” para a governabilidade. O ideal, acredita Lula, é caminhar de braços dados com os pemedebistas desde o início. O presidente se arrepende de não ter incorporado o PMDB à coalizão que sustenta o governo já no início de seu primeiro mandato, em 2003.

O PMDB, por sua vez, não tem hoje, na avaliação de conselheiros de Lula, um nome forte para disputar a Presidência da República. Por essa razão, o presidente deseja convencer a sigla a indicar um nome para vice na chapa de Dilma. Seu predileto é o governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. Lula acha que Cabral, por exercer o cargo político mais importante do PMDB, não teria dificuldade para ter o apoio do partido. O problema é que Cabral almeja disputar a reeleição. Além disso, sustentam fontes, não gostaria de concorrer com José Serra, de quem se diz amigo.

Curiosamente, um outro nome que teria crescido na cotação do presidente é o do ministro Geddel Vieira, seu ex-desafeto, hoje considerado um aliado “leal” que, na avaliação do Palácio do Planalto, transita por todo o PMDB e tem diálogo com setores do PT, apesar da disputa acalorada e desgastante que os dois partidos tiveram em Salvador. Outros nomes do PMDB são lembrados, mas com restrições – o do ministro da Defesa, Nelson Jobim, por representar o Rio Grande do Sul, como a ministra Dilma Rousseff; e os dos governadores do Espírito Santo, Paulo Hartung, e do Amazonas, Eduardo Braga, por comandarem Estados pequenos do ponto de vista eleitoral.

A estratégia de Lula para 2010 passa por mudanças no comando de seu partido, o PT. Assim como fez em 1995, quando operou para colocar o então deputado José Dirceu na liderança da sigla, com o propósito de reduzir a influência das correntes à esquerda e ampliar a política de alianças, o presidente quer seu partido unido em torno de Dilma. Ele aposta na ascensão do seu chefe de gabinete, Gilberto Carvalho, à direção da legenda, em substituição ao deputado Ricardo Berzoini (SP), o atual presidente.

Assessor devoto de lealdade canina a Lula, Carvalho começou a costurar sua candidatura quando decidiu participar das duas últimas semanas da campanha de Marta Suplicy. O presidente vê nele, um católico fervoroso, a possibilidade de o PT “voltar a dialogar” com a sociedade, uma característica perdida desde a crise do mensalão. “Gilberto Carvalho fala com a sociedade. Berzoini é um dirigente de aparato. Só fala para dentro”, compara um assessor presidencial.

Apesar do desejo do presidente, Lula não considera fácil a eleição no PT. Lembra o caso de outro assessor da Presidência, Marco Aurélio Garcia, que ele também cogitou ter no comando do PT, mas não obteve sucesso. A dificuldade está na fragmentação do poder entre vários grupos dentro do partido. Com a ajuda que deu à Marta, conseguindo inclusive que um relutante Lula participasse da reta final da campanha, Carvalho ganhou pontos com o grupo do PT paulista liderado pela ex-prefeita.

Em Brasília, o presidente quer governar os dois anos restantes de seu segundo mandato sem sobressaltos. Não pretende fazer mudanças profundas no ministério, apenas “pontuais”. Uma delas para abrigar o deputado Antonio Palocci (PT-SP), caso ele seja inocentado pelo Supremo Tribunal Federal da acusação de quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo. Embora não deva retornar ao comando do Ministério da Fazenda, Palocci, se virar ministro, integrará novamente o núcleo decisório do governo. O ex-ministro, que nunca deixou de ser um conselheiro privilegiado do presidente, tem falado freqüentemente com Lula por causa da crise internacional.

O presidente sabe que a crise afetará o desempenho da economia em 2009 e possivelmente em 2010. Seu plano é manter a inflação sob controle, política que ainda é considerada seu principal capital político, e preservar os investimentos do PAC e os programas sociais. Por causa da crise, cogita manter Henrique Meirelles na presidência do Banco Central além de outubro de 2009, prazo-limite de filiação partidária para quem deseja disputar as eleições de 2010. Deste modo, Meirelles, se desejar, poderá ficar no cargo até março de 2010, prazo definitivo para desincompatibilização. “Não há nada que proíba o presidente do BC de ser filiado a um partido”, sustenta um assessor der Lula.

21/10/2008 - 10:16h A força da verdade

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Kassab agredindo munícipe: DNA do truculento PFL

Até uma semana atrás, a campanha de Kassab pretendia que o prefeito-candidato constituía uma espécie de “aparição divina”. Sem passado e sem partido, sua força eleitoral se explicaria pelas suas “realizações”, que todos desconheciam até começar a propaganda eleitoral.

No debate na Record, assim como na campanha deste segundo turno, as “realizações” ficaram cada vez mais reduzidas às do próprio marqueteiro da propaganda eleitoral, do mesmo que redigiu o papel com a “realizações” para Kassab ler frente as câmeras da Record.

Por isso agora, para evitar que a população descubra que “o rei está nu”, ressurgiu com força na boca de Kassab os mesmos argumentos do PFL e dos tucanos utilizados quando tentaram derrubar o presidente Lula, o famoso “mensalão” (aquele sistema criado pelos tucanos de Minas Gerais, com dinheiro não declarado a justiça eleitoral).

Justamente o ativo agente do “reage Pitta”, o candidato do partido da “Máfia dos Fiscais” (Máfia na época de Pitta e também agora) e dos que querem “acabar com a raça do PT por 30 anos”; emerge agora como manipulador udenista procurando esconder sua própria trajetória.

O problema é que os eleitores começam a querer entender porque demoraria 4 anos para fazer uma licitação para um corredor e durante esses 4 anos nenhum corredor foi construído? Será que é pelo mensalão?

O eleitor, mesmo com poucos estudos, acaba se perguntando: se Kassab consegue construir e entregar um CEU em 4 meses como prometeu para ocultar que o CEU Formosa é só um terreno, porque não construiu os 25 CEU’s previstos e já licitados pela Marta em 2004? 4 anos para construir CEU’s, onde 4 meses são suficientes e ele só entregou 14?

Até a questão das escolas de lata deixa o eleitor em dúvida. Se Kassab fosse sincero quando diz que era inadmissível tolerar essas escolas, porque as construiu junto com Pitta e nunca diz nada até a campanha eleitoral de 2004? Porque nada diz sobre as mesmas escolas de lata estaduais que até hoje infernizam a vida dos alunos e que Kassab recriminou ao Alckmin no primeiro turno?

Nos debates da Band e da Record, emergiu com força o Kassab da propaganda e a Marta do engajamento em favor da população mais pobre.

Nada foi mais esclarecedor, por exemplo, sobre a realidade da saúde de Kassab que a afirmação da Marta sobre os problemas encontrados para ser atendido e marcar consulta no Hospital Cidade Tiradentes. Hospital planejado, licitado e construído a 60% por Marta e que a propaganda dá como modelo de Kassab para os desavisados eleitores das outras regiões. O voto da Marta em Cidade Tiradentes, mais de 60%, e o do Kassab, menos de 20%, mostra o peso da verdade para os que a conhecem, na escolha eleitoral.

Por isso a questão do pedágio urbano ganhou relevância. O estelionato eleitoral, ocultando a permanente tentativa de aprovar esse pedágio, ficou a nu nos debates. As promessas de Kassab, afirmando ser contra o pedágio só funcionariam se os cidadão conhecessem bem quem ele é e tivessem confiança na sua palavra. Foi por isso que a promessa, mesmo enganosa, escrita e assinada por Serra que cumpriria integramente seu mandato, funcionou. Mas ninguém sabe quem é Kassab. Ninguém o conhece e o que ele mostra é, em grande parte, fantasia e maquiagem. Será que a enganação vai de novo funcionar, como funcionou com o compromisso assinado pelo Serra? LF

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07/08/2008 - 09:04h PT não é página virada do folhetim

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VALOR

O PT não pode simplesmente desconhecer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e partir para uma carreira solo em 2010, lançando um candidato a presidente que não tenha o referendo e o apoio do atual chefe-de-governo – essa é uma opinião dominante. Não está claro, todavia, se o presidente Lula tem, sozinho, o condão de levar um candidato à sua sucessão à revelia de seu partido.

O PT não é o partido dos sonhos de Lula, mas sequer está claro se Lula é o presidente dos sonhos do PT. É verdade que Lula terá um enorme poder de transferência nas eleições de 2010, quando terá terminado seu segundo mandato e estará se preparando para voltar a São Bernardo do Campo. Lula teve 60,3% dos votos válidos no segundo turno das eleições de 2006. Segundo pesquisa do Instituto Vox Populi feito para a Fundação Perseu Abramo, cujos dados foram coletadas nos últimos dias de maio, Lula nadaria em águas plácidas se pudesse disputar um terceiro mandato. Se isso fosse possível, 43% dos entrevistados votariam nele. Se for considerado como índice de aprovação de seu governo a soma de avaliações positivas e regulares, Lula está no meio do segundo mandato deitado em 93% de aprovação. Tem 59% de avaliações positivas na média do país, que pode chegar a 71% quando se aproxima do Nordeste. Amarga, na média, apenas 7% de avaliações negativas, que chegam no máximo a 11%, quando o eleitor é da Região Norte.

O PT, todavia, não é uma página virada, descartada do folhetim de Lula. O partido que amargou um enorme desgaste no escândalo do mensalão, em 2005, não apenas voltou a patamares anteriores à crise política, como superou-os. Perto dos outros partidos, o PT continua sendo o mais reconhecido pelo eleitor, para o bem ou para o mal – o que significa que tem visibilidade. É a legenda a quem o entrevistado atribui qualidades políticas e conteúdo ideológico. A primeira façanha do PT foi a de manter-se no primeiro lugar das preferências partidárias. Num universo de eleitores onde mais da metade não se identifica com um partido (54%), um quarto (25%) prefere o PT. O PMDB vem em segundo, com 7%; o PSDB tem 6%; e o DEM, 2%. Em março de 2004, o PT tinha 19%; em julho de 2006, depois do mensalão e antes da reeleição de Lula, baixou para 17%. Seu índice de rejeição, que era de 8% em 2004 e subiu para 12% em 2006, foi reduzido para 8% este ano. O DEM, por exemplo, tem 4% de rejeição, mais do que os 2% que ostenta das preferências dos eleitores. No caso do PSDB, os dois índices, de preferência e de rejeição, quase empatam – 6% e 5%, respectivamente. Os eleitores também atribuem alguma coerência ideológica ao partido de Lula – 23% consideram que o PT é de esquerda; 5% acham que é de centro; e 12%, de direita. O PSDB, por exemplo, tem um maior grau de dispersão nas avaliações: 10% o consideram de esquerda; 8%, de centro; e 18%, de direita. Essa informação pode ser completada pelo cruzamento de preferência partidária e da posição ideológica declarada pelo entrevistado. Dos que se declararam favoráveis ao PT, 42% se disseram de esquerda.

Não é claro se Lula pode desprezar seu partido

A pesquisa mostra que Lula e PT possuem pesos específicos, mas igualmente se confundem. Os resultados do cruzamento das variáveis avaliação do desempenho de Lula e favoritismo do PT levantam a dúvida: quem deve mais a quem, o PT a Lula ou Lula ao PT? Segundo a pesquisa, 79% dos que declararam preferir o PT fizeram uma avaliação positiva do governo Lula; Lula era o favorito de 48% dos indiferentes ao PT e de 23% daqueles que eram desfavoráveis ao partido. Se, nessa hipótese, se considera que o PT transferiu automaticamente seus votos para Lula, o inverso também é verdadeiro: dos eleitores tradicionais do presidente (assim considerados aqueles que votaram duas vezes ou mais nele), 62% são favoráveis ao PT; dos eleitores eventuais (que votaram em Lula uma vez), 37% são favoráveis ao seu partido. Quanto mais fiel ao PT, mais fiel o eleitor será a Lula, e vice-versa.

É certo que, numericamente, Lula atrai de forma mais declarada eleitores que o seu partido. Mas parece claro que existe uma convergência natural do eleitor de ambos – o PT avança nas regiões onde o “lulismo” é maior e Lula capta naturalmente os votos petistas. A identificação Lula/PT é um dado – por mais que se considere que o líder seja maior que a sua casa, o dado colocado é que o PT, apesar de todos os tremores, ainda é o partido mais orgânico do país, e a identificação entre a legenda e o presidente é parte dessa expressão orgânica. Todo o desgaste sofrido com o mensalão; as defecções de grupos mais à esquerda, que teoricamente eram a mão contrária à burocracia partidária que se dilatou; a adesão e a incorporação de candidatos com maior poder econômico inclusive com domínio sobre a máquina – todos esses movimentos que vêm questionando o partido há anos, mesmo antes da primeira eleição de Lula, não conseguiram destitui-lo como representante de determinados setores sociais. O eleitor ainda vê o partido assim – e é a visão do eleitor que lhe dá organicidade. O PT continua desempenhando esse papel com alguma densidade. É com essa realidade que tanto a máquina partidária, que desideologiza o partido, como Lula, têm que lidar para articular 2010. Daí se deduz que os candidatos a presidente que correm por fora da preferência de Lula dificilmente terão sucesso – mas isso só será verdade para aqueles que, sem a simpatia do presidente da República, não sensibilizarem também a maioria do partido. Essas duas coisas não são necessariamente iguais – até o momento, a candidata preferida de Lula, a ministra Dilma Rousseff, não tem a preferência do partido; o ministro Tarso Genro não é o preferido de Lula, mas é minoritário no partido não por causa disso, mas porque simplesmente não tem força política para se contrapor ao Campo Majoritário; e Marta Suplicy pode ter a maioria do partido, embora não seja a preferida de Lula. No PT, nunca nada foi simples que se possa resumir, como nos partidos tradicionais, que o candidato do presidente é o candidato do partido. Apesar dos pesares, continua não sendo assim.


E-mail maria.inesnassif@valor.com.br

Maria Inês Nassif é editora de Opinião. Escreve às quintas-feiras

maria.inesnassif@valor.com.br

09/06/2008 - 13:25h DEM acusa o vice de Yeda, também do DEM, de não respeitar a “omertà”

Omertà é uma palavra de etimologia italiana, que significa “conspiração“. No geral, é um consenso, que implica em nunca colaborar com as autoridades. Pode ser entendido como um “voto de silêncio” entre mafiosos (wikipédia)

No filme O poderoso chefão ficou famosa a frase de Marlon Brando: “Farei a ele uma proposta que não poderá recusar”

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Deixa ver se entendi bem. O vice-governador de Rio Grande do Sul, Paulo Feijó, membro do DEM (partido de Gilberto Kassab e Rodrigo Maia), grava uma conversa com Cesar Busatto do PPS (partido de Roberto Freire e Soninha). Busatto é chefe da casa cívil do governo tucano de Yeda Crusius. Na conversa, o chefe da casa Cívil disse: ““…Se pudéssemos encontrar um modus vivendi que nos permitisse tu não romper com tuas convicções….para tu estar dizendo pra ti mesmo, pra tua consciência…qual é o custo disso? Eu não sei, de repente o Fernando (o presidente do Banrisul chama-se Fernando Lemos) faz um gesto concreto pra ti, não quero pensar alto porque isso não tá no horizonte…uma coisa concreta que pudesse permitir ou outra coisa, quem sabe?”. Ou seja, propõe “comprar” o apoio ou o silêncio do vice governador e utilizaria para isso os serviços do presidente do Banrisul. Na mesma conversa ele disse que empresas estatais gaúchas são utilizadas, incluso financeiramente, para assegurar o apoio do PMDB e do PP.

A fita, gravada sem o conhecimento de Busatto, vai para Polícia Federal, para os procuradores e para os deputados da CPI do Detran. Os implicados nesta e outras, digamos, irregularidades, são demitidos pela governadora e eis que o DEM nacional, partido do vice-governador que flagrou a maracutaia, quer… expulsá-lo por deslealdade?

Rodrigo Maia chega a declarar: “Eu disse ao Sérgio Guerra (presidente do PSDB) que, para nós, é um constrangimento. Pedimos desculpas pelo que o nosso filiado está fazendo o governo gaúcho passar.”

O raciocínio avançado é que não pode ter jogo sujo com aliados e parceiros. Mesmo com parceiros que numa conversa propõem e reconhecem funcionar na base do mensalão, o DEM dos Maia e Kassab considera que a lealdade vale mais que a lei. A indignação deles, como da governadora tucana Yeda Crusius, não é com o mensalão, o uso de dinheiro público e sim com o destampador de podres.

Engraçado estes udenistas roxos: quando empresários gravaram a entrega de propina a um funcionário dos correios, eles agiam pelo bem público, assim como a revista Veja quando deu ampla publicidade as gravações; quando um dono de bingos gravou um cara do PT, funcionário de Garotinho, pedindo uma comissão, o bingueiro foi poupado pela oposição e pela mídia. Quando uma malversação das grossas é organizada pelos principais dirigentes do governo gaúcho e o vice, por motivações próprias, grava e põe a nu o sistema… o DEM estuda expulsar o vice!

Parece aqueles filmes onde o membro de uma família penetra no território de outra, quebrando a “paz” entre as famílias o que pode desencadear uma “guerra” entre as famílias e o capo de tutti le capi decide punir o intruso, exigindo que a própria família do “infrator” faça o serviço. Seguindo o código da omertá, a traição e a ruptura com a lei do silêncio, leva ao envio de peixe embrulhado em papel jornal. Eu vi muito filme assim no cinema.

O DEM nacional está dividido entre expulsar o vice de suas fileiras ou dar uma reprimenda, informa o Blog de Josias.

Em todo caso, no DEM ninguém cogita dar uma medalha ao vice, que mostrou como funcionam os udenistas aliados, quando estão no poder.

Só demos para um raciocino destes. LF

03/06/2008 - 17:37h Coisas da Política – Balança, balança, sobe e despenca

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Ana Tahan – JB

Acompanhar os bastidores da política é sempre empolgante. Não dá para se queixar de falta de notícia. A História comprova, as histórias confirmam. Os personagens mudam de nome, entram, saem e, especialmente, aprontam. Legendas desaparecem, governos se sucedem, siglas vão ao chão. Alguns acham que mudar de nome ajuda. Outros insistem e, quando se pensa que já eram, retornam exuberantes.

A introdução permite um amplo leque de comentários. A começar do PT. Os tucanos, basicamente os paulistas, encomendaram pesquisa para saber a quantas anda o partido no eleitorado. Na verdade, queriam medir chances e descobrir fraquezas, antes de entrar em campanha. Balizar o discurso, sentir como anda o humor daqueles que vão às urnas em outubro nos municípios. Surpresos, descobriram que o PT, depois do baque com o mensalão em 2005, devagar e sempre, foi recuperando terreno.

Para quem não se lembra, quando seus principais dirigentes perderam postos e mergulharam sob o dinheiro distribuído pelo caixa de Marcos Valério, aquele que se definia como publicitário e vivia num compadrio criminoso com o petista das finanças Delúbio Soares, o PT viu despencar sua credibilidade e atração. O partido mantinha, tradicionalmente, algo em torno de 20% a 30% da preferência, simpatia, confiança dos brasileiros. Depois da descoberta da farta distribuição de dinheiro em troca de votos no Congresso, despencou para 8%, 10% na média dos levantamentos.

Isso não impediu, contudo, a recondução de seu maior ícone, Lula, à Presidência da República. Até porque Lula parecia e ainda se mantém vacinado contra bandalheiras, seja de auxiliares próximos, seja de correligionários ou aliados. E o fato é tão verdadeiro que, ao se segurar nas alturas, o presidente conseguiu, vagarosamente, reduzir a distância entre eleitores e petistas. Não que essa seja a única explicação para o feito. Um pouco talvez esteja na alma brasileira que gosta de esquecer o ruim para se lembrar apenas do bom. Outro tanto, pela incompetência, falta de discursos e de entrosamento da oposição. Também pelo desempenho da economia, os programas sociais, a sensação de que a vida (apesar do recente temor com a volta da inflação e o aumento dos preços dos alimentos) anda melhor do que antes. O certo é que o levantamento pago pelo PSDB mostra que o PT retomou o patamar antigo. É a sigla mais afinada na opinião de 20% dos eleitores. Parece pouco? Não é. O PMDB também está bem. O PSDB, no conjunto, nem tanto. Situa-se bem abaixo do partido da estrela e dos feudos peemedebistas.

A descoberta tem peso relativo nas disputas municipais, quando candidatos valem mais que siglas e coligações ajudam a somar tempo de exposição no rádio e na TV. Nas grandes e médias cidades, contudo, ajudam. E muito. Vejam o caso de São Paulo. No último levantamento do Datafolha, a eventual candidata do PT, Marta Suplicy, soma 30% das preferências. Geraldo Alckmin, do PSDB, o mais próximo adversário, marca um ponto menos. Como as reticências ao comportamento nem tão ético de petistas no episódio do mensalão aparentemente ficaram para trás, Marta tende a se beneficiar bem mais com o fato. E Alckmin, sob fogo cerrado sub-reptcício do governador e correligionário José Serra e o avanço do ex-aliado e neoconcorrente Gilberto Kassab, terá de ser mico de circo para se tornar, efetivamente, candidato e, depois, manter a proximidade da ex-prefeita.

No Rio, o petista Alessandro Molon ainda não se beneficiou da recuperação da legenda. Mas é cedo para prognósticos. Afinal, não dá agora para saber se o “apoio” do governador Sérgio Cabral será efetivo, e se, depois das denúncias envolvendo os ex-governadores Anthony Garotinho e Rosinha Matheus, ele um dos que ainda controlam o PMDB no Estado, a aliança com tal sigla trará lucro ou prejuízo.

Os donos da pesquisa juram que não estão preocupados com os dados. Mas esmiuçam cada detalhe do levantamento para descobrir a brecha que pode alçá-los a outros patamares, menos preocupados com o atual ano político-eleitoral, mas de olho em 2010.

20/04/2008 - 15:26h “A maioria dos jornais preferia que Lula não tivesse vencido”, constata o novo ombudsman da Folha

“acho que os jornais brasileiros perderam o poder de influenciar. O maior exemplo foi a eleição presidencial de 2006. Era claro que a maioria dos jornais preferia que Lula não tivesse vencido. No entanto, Lula teve dois terços dos votos.”

A constatação é do novo ombudsman da Folha de São Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva. Mas ele pondera que os jornais não perderam credibilidade.

Permito-me discordar, a credibilidade dos jornais brasileiro foi desgastada precisamente pela vontade de influenciar o eleitorado na contramão das aspirações populares. O noticiário foi enviesado para alavancar um desfecho eleitoral diferente, provocando uma perda indiscutível de credibilidade. Acontece que os leitores dos jornais não são uma representação do conjunto da população e sim uma minoria de elementos da classe média, onde a oposição guarda relativamente uma maior influência.

A postura anti Lula dos jornais reforçou uma identificação de uma parte desses leitores com os jornais e um afastamento crítico dos que não se consideravam contemplados no desequilíbrio imperante na mídia. A perda de credibilidade está nesses setores.

Também discordo das afirmações do ombudsman em relação aos blogs. Ou melhor dito, considero sua afirmação uma visão parcial. O radicalismo dos blogs, muitas vezes artificial, guarda relação com o radicalismo enviesado da grande mídia, seu gosto pelo sensacionalismo e sua orientação oposicionista, refletida na esmagadora quantidade de articulistas de opinião, claramente embarcados na disputa política com o PT e o governo. É a influência deste “noticiário” que sonega à nação o debate sobre seus rumos, em proveito do udenismo demagógico. É ele que se espalha em alguns blogs, em detrimento de um debate de conteúdo.

Concordo com Carlos Eduardo quando constata que a decisão de não publicar na internet a crítica diária do ombudsman, tomada pela direção da Folha, é inócua “porque o fato de ser restrita à Redação não vai impedir que a concorrência e grupos políticos tenham acesso a ela. É impossível impedir que algo que seja distribuído a mais de uma centena de jornalistas não vaze para fora do jornal.”

Porém, não é inócua a vontade expressa nesta decisão. Ela visa censurar opiniões suscetíveis de serem “instrumentalizadas por jornalistas ligados ao planalto”, ou seja toda opinião jornalística que questione a linha de oposição ao governo.

No mais, espero que o novo ombudsman se paute pela ética da independência em relação aos donos e a redação do jornal, como instrumento da exigência da maior isenção possivel. Pois se trata de um meio de comunicação com poder de influenciar a sociedade e portanto obrigado a agir com transparência em seus objetivos. LF

A seguir a entrevista do novo ombudsman publicada na Folha de São Paulo

ENTREVISTA/CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA

Eduardo Knapp/Folha Imagem
 

O ombudsman Carlos Eduardo Lins da SilvaJornalista que assume cargo na terça defende um produto com menos assuntos e mais análises; para ele, cobertura do caso Isabella mostra que a mídia estimula o que há de pior nos instintos humanos

Jornal precisa encontrar seu novo papel, diz ombudsman

DA REDAÇÃO

NOVO OMBUDSMAN DA FOLHA , Carlos Eduardo Lins da Silva, crê que os jornais brasileiros vivem um momento contraditório. Pelo lado bom, não sofrem da crise de credibilidade que acomete os diários norte-americanos. Pelo ruim, estão perdendo o poder de influenciar a opinião pública. Segundo ele, está na hora de os jornais decidirem que papel vão ter na concorrência com outros meios, como a internet, as rádios e a TV. Defende que o futuro está num produto mais focado, com menos assuntos e mais analítico.

Lins da Silva passa a atender os leitores e a redigir uma crítica interna na próxima terça-feira, dia 22. Sua primeira coluna dominical será publicada no dia 27 no caderno Brasil. Na entrevista abaixo, ele fala da proliferação de blogs, da cobertura do caso Isabella e do impasse que culminou com a não-renovação do mandato do ocupante anterior do cargo.

FOLHA -Jornais brasileiros e americanos vivem situações opostas. Lá eles perdem circulação e receita com publicidade. Aqui cresceram as vendas e o volume de anúncios. Qual a razão desse descolamento?
CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA – O que acontece no Brasil é uma coisa ilusória e acho que os jornalistas brasileiros não deveriam se iludir com esse bom momento. Primeiro, porque a internet não está muito disseminada aqui como nos EUA. Segundo, nós estamos vivendo esse boom da economia que eu acho que é passageiro. Nos EUA, ao contrário, a internet é quase universal e a economia está começando a sofrer os primeiros tropeços. Na minha opinião, é irreversível a tendência de os jornais impressos perderem circulação.

FOLHA – É a internet que tirará esse público dos jornais?
LINS DA SILVA
- Eu acho que a internet já está tirando público e publicidade dos jornais. E será assim se o jornal impresso não revir a sua existência.

FOLHA – Você não acredita que possa crescer o número de leitores de jornais impressos com mais pessoas alfabetizadas e com mais dinheiro no bolso? Nos EUA, nos anos 60, 80% dos americanos com 18 anos ou mais liam jornais durante a semana. Hoje, ainda são cerca de 50%. O Brasil nunca chegou nem perto disso.
LINS DA SILVA
- O problema é que no Brasil o crescimento dos meios de comunicação foi atropelado. Nos EUA, o desenvolvimento do capitalismo foi mais ou menos ordeiro. Houve a afluência monetária, que atingiu grande parte da população. Houve a conquista de direitos trabalhistas, que garantiu mais tempo para o lazer. Houve a alfabetização universal. Tudo isso levou a que quase todo mundo lesse jornal. Depois disso surgiu a televisão, a internet. No Brasil, não houve distribuição homogênea de riqueza, ainda há muitos analfabetos e você teve, antes de a leitura de jornais se universalizar, a chegada da televisão e da internet. Então, acho que essa universalização nunca vai ocorrer.

FOLHA – Para enfrentar a perda de circulação, alguns jornais americanos apostam na hiperlocalidade. Focam cada vez mais na própria comunidade. Essa será uma tendência para o Brasil?
LINS DA SILVA
- Não sei se isso vai funcionar nem nos EUA. Há uma outra diferença entre os jornais americanos e brasileiros, que é a questão da credibilidade. Lá, eles passam por um momento de perda da credibilidade. Aqui, não. Mas, voltando à questão, não sei se essa é uma solução para os jornais impressos. Porque, também para o provimento da informação local, a internet é um meio mais adequado. Você pode comprar seu ingresso de cinema pela internet. Você pode saber o cardápio do restaurante pela internet. Você não tem como prestar esse tipo de serviço nas páginas do jornal.
Para mim, a saída para o jornal impresso é apostar na profundidade, na qualidade e ter mais foco, tratar de menos assuntos. Porque isso a internet não pode dar. O jornal impresso precisa procurar o tipo de conteúdo em que ele se sai melhor, em vez de insistir em competir com a internet naquilo que ela pode oferecer com mais comodidade para o leitor.

FOLHA – Alguns jornais ingleses tentam esse modelo mais focado e mais aprofundado, mas não obtêm mais leitores com isso.
LINS DA SILVA
- Eu acho natural que esse modelo que eu defendo tenha menos leitores que o modelo atual. Porque esse novo jornal não deverá atender a todo o universo de possíveis leitores. Ele deve ser dirigido para uma parcela mais específica da população. Pode ter menos circulação, mas gastará menos com papel e poderá ter mais publicidade, focada para aquele público. E o mais importante, ele pode ter mais influência social do que esse jornal dirigido ao público em geral, que é muito caro para ser produzido.

FOLHA – Do ponto de vista da qualidade da informação, deixando de lado circulação e publicidade, você acha que os jornais brasileiros vivem um bom ou mau momento?
LINS DA SILVA
- Acho que vive um bom momento, uma vez que não perderam credibilidade, como aconteceu nos EUA. Por outro lado, acho que os jornais brasileiros perderam o poder de influenciar. O maior exemplo foi a eleição presidencial de 2006. Era claro que a maioria dos jornais preferia que Lula não tivesse vencido. No entanto, Lula teve dois terços dos votos. Da mesma forma, no momento do mensalão, a maioria dos jornais de qualidade no Brasil preferia que o desfecho fosse outro.

FOLHA – Qual é o grande desafio dos jornais impressos hoje?
LINS DA SILVA
- É definir qual papel terão. Principalmente para manter a influência. O jornal terá que encontrar seu lugar, como o rádio encontrou. Muitos diziam que o rádio morreria com a chegada da televisão. Não foi o que aconteceu. Hoje o rádio está num ótimo momento. Ele descobriu que seu espaço não era mais ser como a Rádio Nacional foi em meados do século passado: o centro das atenções da família no horário nobre da noite. Perdeu audiência, sim. Na época, 80% escutavam a Rádio Nacional. Hoje, 1%. O mesmo vai acontecer com o jornal impresso.

FOLHA – A internet trouxe mais participação dos leitores. Você vê futuro nessas experiências que usam o leitor como provedor de conteúdo?
LINS DA SILVA
- Sou bastante cético com relação a isso. Essa suposta democratização da internet, que permitiria ao cidadão ser repórter, é muita demagogia. O público precisa de informação apurada com rigor, com método. Só algumas pessoas, que têm jeito e experiência, conseguem fazer isso.

FOLHA – Este será um ano eleitoral no Brasil. Com isso, o ombudsman deve ser muito procurado por assessores de políticos e também por leitores que acreditam que o jornal está protegendo esse ou aquele candidato. Como você pretende fazer essa fiscalização da neutralidade do jornal e, ao mesmo tempo, separar o que é paixão política, ou interesse de assessores, da opinião mais objetiva de leitores?
LINS DA SILVA
- Esse será um dos meus desafios. Eu acho que o jornal tem o direito de endossar um candidato. Não acho que deva, mas tem o direito. Por outro lado, no noticiário, o jornal não tem o direito de endossar um candidato. Ele tem que fazer uma cobertura o mais próximo possível do isento. Como você sabe, não existe objetividade absoluta. Mas existe algo próximo disso, que é equilibrar o espaço dado aos candidatos, não adjetivar, dar enfoque mais ou menos justo para os principais concorrentes.
Eu não gosto muito da palavra fiscalização, mas a observação que vou fazer será baseada nisso. Tem que haver equilíbrio e o máximo de isenção possível. É claro que nunca ninguém ficará satisfeito. Mas a medida do sucesso é sempre ser atacado de todos os lados. Quando mais ataques o jornal receber de todos os lados, mais próximo do equilíbrio ele estará.

FOLHA – A internet permitiu também a proliferação de blogs, muitos com enfoque político. Você acha que esses blogs já conseguem influenciar a opinião pública?
LINS DA SILVA
- No Brasil, com certeza não. Nos EUA, sim. Essa influência está sendo sentida na eleição presidencial. No entanto, eu acho que é uma influência ruim, perniciosa. Os blogs tendem a acirrar as divisões. Por exemplo, eu acho que essa disputa entre a Hillary Clinton e o Barack Obama está sendo prejudicada pela divisão que os blogs atiçam entre negros e brancos, entre mulheres e homens, entre trabalhadores industriais e profissionais liberais, que é a divisão que se estabeleceu na demografia eleitoral da Hillary e do Obama.
No Brasil, é parecido, mas é muito menor porque é pequeno o número de pessoas com acesso à internet e que lêem esses blogs. Mas cria-se um mal-estar por causa do radicalismo de alguns deles, que não argumentam, ofendem. Descem a um nível que nem se pode chamar de debate. E isso contamina o tal formador da opinião pública, que muitas vezes lê esses blogs e acaba sendo contagiado pelo radicalismo, o que cria situações artificiais.
A disputa entre petistas e tucanos é muito artificial porque não há tanta coisa que distancie um partido de outro. Mas ela é muito prejudicada pelas pessoas que lêem e até participam desses blogs e se dividem de uma forma muito odiosa.

FOLHA – O ombudsman anterior, Mário Magalhães, condicionou sua permanência no cargo a que o jornal voltasse atrás de decisão tomada no ano passado de não mais divulgar na internet a crítica interna, que, no entender da Direção de Redação, estava sendo usada pela concorrência e instrumentalizada por jornalistas ligados ao Planalto. Você acha que a crítica deveria ser pública?
LINS DA SILVA
- Do ponto de vista do ombudsman, acho que essa questão é irrelevante. Do ponto de vista do jornal, inócua. Irrelevante porque qualquer coisa importante da crítica interna poderá estar na coluna de domingo, que é pública. O leitor, então, não perderá nada.
Já para o jornal, acho que a medida é inócua porque o fato de ser restrita à Redação não vai impedir que a concorrência e grupos políticos tenham acesso a ela. É impossível impedir que algo que seja distribuído a mais de uma centena de jornalistas não vaze para fora do jornal. Acho que o impasse foi gerado por uma questão que não precisaria tê-lo provocado, nem de um lado nem de outro.
O que lamento muito, porque considero que o Mário estava fazendo um bom serviço como ombudsman e isso beneficiava o leitor e o jornal.

FOLHA – Os últimos ombudsmans focaram suas colunas dominicais na cobertura da Folha. Você fará o mesmo ou pretende fazer uma análise mais ampla de toda a mídia?
LINS DA SILVA
- Não tratarei na crítica dominical de nenhum outro veículo específico porque não tenho mandato para isso. Meu compromisso é com a Folha e não serei ombudsman dos concorrentes, da televisão ou da internet. Mas, ocasionalmente, posso tratar da mídia em geral porque acho que será interessante para o leitor.

FOLHA – Você assume o posto de ombudsman na terça, mas sempre foi um leitor atento. O que mais te irrita nos jornais?
LINS DA SILVA
- O que mais me irrita é superficialidade. Depois, erros de português. E isso é uma bobagem, um pedantismo meu, porque erro de português não é tão importante assim. Em terceiro lugar, me irritam muito invencionices de texto. A tentativa de chamar a atenção com o que o repórter considera engraçado. Por exemplo, começar um texto com uma brincadeira que só me fará perder alguns segundos com algo que não tenha nenhum sentido. Também me irritam algumas opiniões muito ralas, que não acrescentam nada para o leitor.

FOLHA – Como você avalia o trabalho dos meios de comunicação na cobertura do caso Isabella?
LINS DA SILVA
- Acho que os jornais estão preocupados em não repetir erros, como ocorreram na cobertura de outros casos policiais que mobilizaram a opinião pública. O que é muito positivo. Há preocupação com aspectos éticos. Mas acho absurdo o que o Clóvis Rossi chama de cenas de jornalismo explícito. Eu vi a saída da prisão do casal suspeito e não consigo encontrar sentido naquele batalhão de cinegrafistas em cima de motocicletas colocando a câmara no vidro do carro em que eles estavam. Não sei qual o valor informativo que pode ter uma imagem como aquela.
Só não sei se isso é evitável, porque o público parece querer esse tipo de cobertura. A mídia, nessas horas, acaba estimulando o que há de pior nos instintos humanos, de morbidez e curiosidade doentia.
Mas aqui há uma questão. Será que o jornalismo sério precisa mesmo entregar o que o público quer, ou diz querer? Na minha opinião, jornalismo sério tem que atender a demanda do público, mas tem também que liderar. É preciso haver uma troca entre o meio de comunicação e seu consumidor para que o jornal atenda os desejos dos leitores, mas também ajude a melhorar a qualidade desses desejos.

31/03/2008 - 03:08h Aprovação a Lula atinge 55% e bate recorde desde Collor

lula_positivo.jpg Aumento foi de 5 pontos em relação a novembro; desaprovação também cai, para 11%

Recuperação da aprovação no Sul, que subiu 11 pontos, e ampliação de prestígio do petista no Nordeste (68%) alavancaram popularidade

RANIER BRAGON – FOLHA DE SÃO PAULO

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva alcançou a maior popularidade em seus cinco anos e três meses de governo, atingindo índice que supera com folga o obtido por todos os seus antecessores desde Fernando Collor (1990-1992), pelo menos, mostra pesquisa nacional realizada pelo Datafolha. A aprovação de Lula é de 55%, apesar de a saúde ter sido eleita a área em que o governo apresenta seu pior desempenho.
Os números da pesquisa -feita entre os dias 25 e 27 com 4.044 entrevistados em 24 Estados, mais o Distrito Federal- indicam que a popularidade recorde do petista foi alavancada por uma recuperação da aprovação no Sul, tradicionalmente uma das regiões mais críticas a ele (aprovação subiu 11 pontos percentuais, para 52%), e pela ampliação do seu prestígio no Nordeste, onde alcançou 68% de avaliação positiva.
É o Nordeste a região mais atendida proporcionalmente pelo Bolsa Família -31,3% das famílias da região recebiam o benefício em 2006, contra média nacional de 14,9%. No Sul, um fator que pode explicar o desempenho de Lula é a recuperação do setor agrícola.
Em relação à última pesquisa Datafolha, de novembro, Lula obteve crescimento de cinco pontos percentuais em sua avaliação positiva (50% à época), o que mostra que a crise dos cartões corporativos não representou abalo na imagem do presidente ou do governo.
A desaprovação também é uma das menores em todo o governo: só 11% consideram seu desempenho ruim ou péssimo. O governo obteve nota média 7 dos entrevistados -melhor resultado desde quando assumiu.
Pesquisa do Ibope divulgada na quinta apontou igualmente índice recorde de aprovação do governo -58% contra 50% da anterior, de dezembro.

Antecessores
A análise do desempenho do governo Lula por meio das pesquisas Datafolha, desde sua posse (2003), mostra que o período em que a aprovação ficou mais ameaçada foi na crise do mensalão, no final de 2005, quando o seu índice de “ótimo e bom” atingiu o nível mais baixo, 28%, e chegou a ser superado pelos que consideravam o governo ruim ou péssimo, 29%.
Desde então, houve uma recuperação que tomou corpo na campanha eleitoral de 2006.
Em março de 2000, quando o governo do tucano Fernando Henrique Cardoso completava também cinco anos e três meses, o Datafolha registrava só 18% de aprovação a FHC (e 43% de reprovação), um terço do que Lula alcança agora.
Na ocasião, FHC começava uma lenta recuperação da popularidade abalada por causa da crise econômica que se seguiu à desvalorização do real, em 1999. Ele deixou o governo, em 2002, com 26% de aprovação -o pico foi em 1996 (47%).
O antecessor, Itamar Franco (1992-1994), teve a mais alta popularidade justamente ao deixar o governo -41%. Fernando Collor, cassado sob acusação de corrupção, nunca atingiu índice superior a 36%. O Datafolha começou em 1990 a fazer pesquisas nacionais de avaliação do governo federal.

Pontos fracos
O Sudeste foi a única região em que Lula não teve crescimento de popularidade -o índice dos que consideram o governo “bom ou ótimo” só oscilou de 46% para 47%, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos. O índice de aprovação também subiu menos nas regiões metropolitanas (de 45% para 49%) do que nas cidades do interior, de 54% para 60%.
Em relação à escolaridade, a avaliação positiva subiu sete pontos entre os que têm ensino médio (chegando a 52%) ou ensino superior (47%). Levando-se em conta a renda, a maior alta foi alcançada entre os que ganham de cinco a dez salários mínimos (de 43% a 50%).

23/11/2007 - 06:32h Agora é caixa 2

A mídia anda pisando em ovos. A denuncia do “mensalão tucano“, apesar de aguardada, provoca uma sensação evidente de mal estar nos jornais e nos seus comentaristas.

Para o Procurador geral a ação dos tucanos não foi crime eleitoral, nem caixa 2 nenhum; foi “ação criminosa” consistente em “Desvio de recursos públicos do Estado de Minas Gerais, diretamente ou tendo como fonte empresas estatais”; “Repasse de verbas de empresas privadas com interesses econômicos perante o Estado de Minas Gerais, notadamente empreiteiras e bancos, por intermédio da engrenagem ilícita” e “Utilização dos serviços profissionais e remunerados de lavagem de dinheiro”, operados, entre outros, por Valério e seus sócios, “em conjunto com o Banco Rural, para garantir uma aparência de legalidade às operações [...], inviabilizando a identificação da origem e natureza dos recursos”.

O Procurador afirma que o dinheiro desviado dos cofres públicos tinha a seguinte origem: “R$ 1,5 milhão da Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais); R$ 1,5 milhão da Comig (Companhia Mineradora de Minas Gerais); e R$ 500 mil do Bemge (Banco do Estado de Minas Gerais).

Para o Procurador não há crime eleitoral e o esquema é o mesmo que do outro “mensalão“.

Para o jornal Valor isto não é assim. A sua manchete sobre o assunto é: “Caixa 2 do PSDB mineiro chega ao Supremo”.

Segundo o artigo “O mensalão mineiro teria o objetivo de arrecadar dinheiro para campanha e o petista em obter apoio em votações no Congresso, mas o procurador evitou comentar essas diferenças entre os “mensalões“.

Na mesma linha, Merval Pereira, no Globo, afirma: “O procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, não quis deixar clara a diferença na denúncia oficial, pois não indiciou ninguém do valerioduto mineiro por crime eleitoral, o que caracterizaria o chamado caixa dois, que é na verdade do que se trata o caso dos tucanos.

Em eco ou fazendo coro, Eliane Catanhede insiste: “Mares Guia e Azeredo, ex-presidente tucano, são os pais do esquema Marcos Valério de financiamento de campanhas, que na era petista evoluiu para compra de apoio parlamentar ao governo.

Na mesma linha foram as declarações dos principais lideres tucanos. Para eles caixa 2 é uma coisa e “mensalão“é outra. É a linha da defesa do PSDB.

Pois bem, a questão do desvio do dinheiro público é o centro da peça do procurador. Ele deverá evidentemente provar e a justiça determinará. Eduardo Azeredo é inocente até a decisão judicial. Como o são todos os denunciados em ambos esquemas.

Eduardo Azeredo e Delubio Soares, acusados pelo mesmo “crime” não são tratados pela mídia da mesma maneira. Os jornais não berram em favor de uma CPI, nem utilizam os epítetos de ladrão, nem criminoso.

Delubio foi expulso do PT, Azeredo não foi expulso do PSDB e é defendido pelo seu partido. Ambos rejeitam os termos das acusações. PT e PSDB reconhecem, mais ou menos explicitamente, que os esquemas financiavam as campanhas eleitorais, eram caixa 2. No caso do PT sem desvio de dinheiro público; no caso do PSDB, que as empresas estatais eram autônomas. Trata-se da palavra dos partidos, dos acusados e dos seus advogados contra as acusações da procuradoria. Pode se acreditar ou não, a justiça dará a palavra final.

Mas a mídia, ela não tem partido…

Luis Favre

28/10/2007 - 11:17h Entrevista do Deputado Federal José Eduardo Cardoso

José Eduardo Martins Cardozo
O ex-Presidente da Câmara de Vereadores de São Paulo durante os dois primeiros anos da gestão Marta Suplicy e hoje Deputado Federal, explica o sentido de sua candidatura a Presidente do PT nacional

João Domingos, BRASÍLIA – O Estado de São Paulo


Por que o senhor decidiu ser candidato a presidente do PT?

Porque conto com o apoio de militantes que antes não costumavam se juntar, como o ministro Tarso Genro (Justiça), os governadores Marcelo Déda (Sergipe), Jaques Wagner (Bahia) e Ana Júlia Carepa (Pará), o senador Eduardo Suplicy. Isso dá à minha candidatura característica nacional.

Lula tem dito que em 2010 o candidato à sucessão dele não necessita ser do PT, mas da base aliada. O PT, no entanto, decidiu em seu último congresso que lançará um candidato. Como o senhor vê isso?

É legítimo que o PT pleiteie. Mas temos de respeitar as forças aliadas de forma a construir os nomes que são melhores para o momento. Seria um absurdo o PT dizer que não quer um candidato. É o principal partido do País, tem governadores, prefeituras importantes. Mas qualquer candidatura tem de ser construída com respeito aos adversários. Temos de abrir diálogos.

Quais devem ser os interlocutores? Os mesmos partidos da coalizão de agora?

Não devemos fazer o que ocorre hoje no PT, busca prioritária à direita e secundarização da importância de alianças à esquerda. O PT tem grande preocupação em se aliar com forças de centro-direita e não prioriza relações com os partidos de centro-esquerda. Temos de inverter isso. Não tem sentido o PT ignorar as relações de construção política com PSB, PC do B e PDT. Não tem sentido o PT, que é socialista, se aliar com forças que desejam matar o socialismo na origem. É um equívoco.

O senhor foi sub-relator da CPI dos Correios. Saiu de lá convencido de que houve o mensalão?

Às vezes, o tal do mensalão envolve uma discussão semântica que não leva a nada. Eu vou sair fora dessa palavra. É evidente que houve situações de recursos indevidamente repassados a partidos, a parlamentares. Chamem isso do que quiserem. Vamos falar da substância. Evidentemente que houve situações em que dirigentes petistas agiram como não deveriam. Temos de dizer isso com toda a clareza. É por isso que temos defendido a ética para o PT. Não se trata aqui de discutir casos individualizados. A ética é pressuposto da ação política. Não é possível pensar, como falaram em alguns encontros do PT, que a construção da democracia e do socialismo prescinde da ética. Nós defendemos um banho de ética. E que o PT seja mais rigoroso com as transgressões éticas de seus militantes do que até com seus adversários. Acho que sempre que houver denúncia de infração ética, antes de punir, o PT tem de investigar. Havendo provas, que haja punição. Não havendo, que o PT defenda o militante.

Como fazer para resgatar a credibilidade que o PT já teve?

Resgatando a democracia interna. O que tem acontecido no PT é que um pequeno grupo de pessoas decide o que o partido tem de fazer e isso é imposto para todo o conjunto, por intermédio do grupo majoritário. O militante vai num encontro e levanta crachás. Sabemos do resultado antes do encontro do PT. Isso é a negação do partido. É preciso retomar a democracia interna, o respeito à minoria. Porque um petista pensa diferente da maioria ele não tem de ser execrado. A questão da democracia interna é chave no resgate do PT. Ela traz de volta o petista à sua origem. O partido tem que ser militante. Vimos em algumas eleições militantes pagos. Isso é uma afronta ao que defendemos. Temos de ter militância ideológica.

Desde que o PT chegou ao governo, há um choque entre o partido e os meios de comunicação. Agora, vai ser criada a TV pública, como forma de pôr uma cunha na mídia. O que acha da TV pública?

Sou plenamente favorável. É correta, necessária. Não vai competir com ninguém.

E sobre a revisão das concessões de emissoras de rádio e de TV?

Aquelas que não atenderem à lei têm de ser revistas. O que for irregular exige intervenção imediata. Defendemos a liberdade de imprensa, mas existe a necessidade de que grupos econômicos não controlem a informação.

No Congresso recente do PT, foi aprovada a realização de plebiscito a respeito da privatização da Vale do Rio Doce. O que acha dessa decisão?

Temos postura crítica a todo processo de privatização feito pelo governo de Fernando Henrique Cardoso. Algumas questionáveis no mérito; na forma, quase todas, porque levaram a situações de descalabro. Acho importante que cada questão seja discutida com cuidado, para verificar se é reversível o processo, os custos para a sociedade, os ganhos com a reversão. Por sua própria natureza, a Vale está distante do cidadão comum. Mas no caso da telefonia não há como negar que a sociedade se beneficiou.

O sr. poderia fazer uma análise de seus concorrentes?

São dois excelentes candidatos. Ricardo Berzoini (que concorre à reeleição) expressa o Campo Majoritário, responsável pela direção do PT já há muitos anos. Essa forma de gestão está totalmente superada. A direção tem um projeto exclusivamente de manutenção do poder. Em relação a Jilmar Tatto, há forças políticas que seguramente estarão conosco se chegarmos ao segundo turno. Mas seu arco de sustentação está centrado no Estado de São Paulo, há dificuldade de dialogar com o País.

Quem é:
José Eduardo Martins Cardozo

Deputado federal em segundo mandato. Professor de

Direito Administrativo e Filosofia do Direito da PUC-SP.

Secretário de Governo na administração de Luiza Erundina. Vereador mais votado da história do País, com 229 mil votos em 2000.

16/09/2007 - 17:24h O início do Valerioduto

Luis Nassif
O relatório da Polícia Federal sobre o esquema de financiamento na campanha do ex-governador mineiro Eduardo Azeredo fecha o ciclo de interpretações sobre o “mensalão”. Aqui o link do relatório, disponibilizado pelo Consultor Jurídico.

Vários jornalistas foram execrados e enfrentaram dificuldades em seus órgãos de imprensa quando pretenderam atuar jornalisticamente e discutir a gênese do mensalão, os financiadores efetivos. Na “Globo” foi ostensiva a pressão de Ali Kamel sobre comentaristas, para que não mencionassem mais o esquema mineiro ou insistissem para que se descobrisse a origem do esquema. De minha parte, sempre defendi a tese de que há uma estrutura de “operadores” que serve a qualquer governante.

Nessa loucura em que se transformou a cobertura – em que o mero fato de se tentar manter a objetividade era encarado como “colaboracionismo” –, a grande mídia deixou de lado o jornalismo para fazer política. Está pagando um preço alto, do descrédito perante parcelas expressivas de leitores. Vai continuar investindo nessa linha, em um momento em que as novas formas de comunicação escancaram as práticas jornalísticas?

Tanto esses esquemas se interligam, que o principal operador do esquema mineiro, Walfrido dos Mares Guia, hoje é o principal articulador político de Lula. Os agentes são os mesmos: Valério, SMPB, BMG, Rural.

Há um agravante fundamental: pelo relatório da Polícia Federal, provas consistentes de desvio de recursos de estatais mineiras, e de convênios com órgãos federais, para o esquema, operados por agentes do governo mineiro.

Alguns dos trechos da abertura do relatório:

Os métodos de desvio

Pelas provas reunidas, pode-se identificar ao menos dois métodos utilizados para desviar recursos públicos para utilização na campanha de reeleição para o Governo de Minas Gerais no ano de 1998: a) patrocínios fictícios de eventos esportivos realizados pelas empresas COPASA – Companhia de Saneamento de Minas Gerais, COMIG – Companhia Mineradora de Minas Gerais (atual COPASA) e GRUPO BEMGE – Banco do Estado de Minas Gerais; b) simulação de gastos publicitários da CEMIG – COMPANHIA ENERGÉTICA DE MINAS GERAIS.

Da mesma forma, foram reunidos elementos indicativos do superfaturamento dos serviços prestados pelas agências de publicidade de MARCOS VALÉRIO para a administração direta do Estado de Minas Gerais, ou mesmo da inexistência da prestação efetiva destes serviços.

Os recursos federais

MARCOS VALÉRIO também realizou em 1998 procedimentos ilícitos junto à Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho – FUNDACENTRO, entidade integrante da administração pública federal vinculada ao Ministério do Trabalho, utilizando a mesma técnica de branqueamento de fundos desviados através da prestação de serviços publicitários inexistentes ou superfaturados.

O esquema das agências

Foi comprovada, igualmente, a utilização das empresas de publicidade investigadas como receptáculo e entreposto dos repasses privados destinados à campanha de reeleição do Governador EDUARDO AZEREDO no ano de 1998, realizados por empresários que pretendiam permanecer no anonimato devido ao evidente conflito de interesses que suscitavam suas doações, uma vez que eram empresas, em sua maioria empreiteiras e construtoras, que haviam vencido diversas concorrências no Estado de Minas Gerais durante os anos de 1994 a 1998.

(…) CLÁUDIO MOURÃO afirmou que, posteriormente, MARCOS VALÉRIO posteriormente obteve outro empréstimo, desta feita no valor de R$ 9 milhões, que também foi utilizado na campanha de 1998. A análise financeira efetuada durante as investigações constatou que este mútuo foi liquidado com recursos originados do contrato de publicidade que a SMP&B mantinha com a administração direta do Estado de Minas Gerais, juntamente com recursos disponibilizados pelo próprio BANCO RURAL S/A.

(…) Na verdade, as provas reunidas nesta investigação demonstram que MARCOS VALÉRIO obteve diversos empréstimos para simular a origem de recursos repassados para a campanha de EDUARDO AZEREDO, no total de R$ 28.515.000,00 (vinte e oito milhões quinhentos e quinze mil reais), conforme quadro abaixo:

O comando do esquema

Segundo declarações de CLÉSIO ANDRADE (fls.623/631), o núcleo de poder do Governo do Estado de Minas Gerais em 1998 era formado pelo governador, pelo vice-governador WALFRIDO DOS MARES GUIA e pelos secretários de estado ÁLVARO AZEREDO, CLÁUDIO MOURÃO e JOÃO HERALDO, sendo este praticamente o mesmo núcleo político da campanha. CLÉSIO ANDRADE afirmou que as estratégias eram decididas por este núcleo, não tendo qualquer participação na gestão financeira da disputa eleitoral de 1998.

Destaca-se, neste ponto, a participação de WALFRIDO DOS MARES GUIA, então vice-governador e coordenador da campanha de EDUARDO AZEREDO em 1994, na definição das estimativas dos gastos que seriam realizados durante a campanha, sendo de sua lavra os manuscritos constante às fls. 118/120.

O caso Walfrido

O atual ministro WALFRIDO DOS MARES GUIA também participou ativamente das negociações envolvendo a contratação do publicitário DUDA MENDONÇA, cujo pagamento, no total de R$ 4.500.000,00, foi suportado com recursos disponibilizados por MARCOS VALÉRIO.

Conclusões minhas

Pergunto: como fica a cobertura agora? Há interesse em aprofundar o caso e em tirar lições que eliminem definitivamente essas práticas, ou vai se ignorar o relatório, continuar a instrumentalizar as denúncias, e continuar a jogar fora o que resta de credibilidade?

Pergunto: como fica o governo Lula, trazendo para dentro de si um dos principais responsáveis por esse esquema, apenas pelo fato de sabê-lo blindado pela grande mídia.


Luis Nassif

05/09/2007 - 16:23h O boi vai atrás – Carlos Brickmann para o Observatório da Imprensa

Unanimidade: a imprensa toda festeja a aceitação, pelo Supremo Tribunal, da denúncia do Ministério Público contra quarenta acusados no Caso do Mensalão. Tamanha é a alegria que sobram duas certezas para o consumidor de notícias:

1 – Os réus já estão condenados;

2 – A partir de agora, com a perspectiva de punição de graúdos acusados de corrupção, começa uma nova vida para o país.

Um terceiro grupo, mais radical e mais reduzido, diz que, com a aceitação da denúncia contra os 40, só fica faltando alcançar seu chefe, o barbudo Ali Babá.

Tamanha é a alegria, a alegria é tamanha, que faltou ressaltar no noticiário que os acusados se tornaram réus, mas não foram julgados. E só depois do julgamento poderão ser considerados culpados e receber a punição legal devida.

Mesmo se forem todos condenados, a vida não vai mudar tanto assim. Já tivemos presidente deposto, após nomear o irmão para a chefia de Polícia do Rio, na época o cargo mais importante da repressão; já tivemos presidente que, para não ser deposto, suicidou-se. Já tivemos presidente afastado por impeachment, acusado de corrupção, com punições também a seus auxiliares mais próximos. Tivemos a CPI da Corrupção, que emparedou o Governo Sarney. Hoje, os integrantes do Governo Sarney, incluindo o próprio, e os mais ferozes inquisidores da CPI da Corrupção estão juntos, lado a lado, no apoio ao presidente Lula.

Tanta unanimidade, pois, só se explica por um motivo: a Síndrome de Manada, que assola boa parte do jornalismo brasileiro. O importante não é descobrir novos assuntos, novos ângulos, novos temas: é seguir a pauta da concorrência. E, é claro, assim fica mais fácil para as reportagens trabalharem em pool.

Como dizia Nelson Rodrigues, nunca suficientemente citado, toda unanimidade é burra. Tão burra que nem percebe que Ali Babá não era o chefe da quadrilha dos 40 ladrões. Ali Babá foi quem localizou seu esconderijo e os prendeu.

04/09/2007 - 09:53h MARTA ELOGIA FALA DE LULA E PREGA APOIO A PETISTAS DENUNCIADOS

A ministra do Turismo elogiou ontem em São Paulo o discurso do presidente no 3º Congresso do PT. “O presidente falou muito claro, ninguém foi absolvido, ninguém foi condenado”, disse Marta Suplicy. “Eu diria que muitos já foram até sacrificados. O sentimento de solidariedade é muito humano, e o Lula é uma pessoa muito humana.”

Folha de São Paulo (para assinantes)

01/09/2007 - 17:43h O ônus da prova

por Sergio Lirio

Ao contrário do que apregoam alguns, a parte mais dura da ação da Procuradoria começa agora: demonstrar o mensalão

Ao fim do espetáculo que transformou as últimas cinco sessões do Supremo Tribunal Federal no evento mais esperado do calendário político, os personagens cumpriram à risca o papel a eles reservado no momento. O ex-ministro José Dirceu, definido pelo relator do processo no STF, Joaquim Barbosa, como o “chefe inconteste” do esquema que se convencionou chamar de mensalão, anotou em seu blog na internet tratar-se de uma injustiça (como, de resto, fizeram todos os acusados).

Marco Aurélio Mello, companheiro de Barbosa no tribunal, sempre pronto e disponível para interpretar os anseios da sociedade, disparou: “O pior em termos de avanço cultural é o sentimento de impunidade. E essa decisão revela que esse sentimento está excomungado de uma vez por todas”. Significativas palavras, fora o fato de, na história do Supremo, não haver registros de nenhum político condenado por atos de corrupção. Ou de que se avolumam nas gavetas da Corte centenas de processos de improbidade e crimes semelhantes.

O procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, preferiu um tom professoral. À saída do tribunal, no fim da tarde da terça-feira 28, Souza anunciou a disposição de fortalecer as provas contra os acusados e manifestou, de forma discreta, sua satisfação com o resultado. “O recebimento da denúncia é a demonstração de que as informações lançadas no seu corpo representavam, ao menos para este ato processual, elementos suficientes de convencimento”, afirmou.

Leia toda a reportagem em CartaCapital

31/08/2007 - 10:42h Janela de oportunidades

Nada foi provado com o início do processo no Supremo Tribunal Federal, a não ser a evidência de que o jogo de 2010 não passará mais pelo ex-deputado José Dirceu. E do III Congresso do partido que se inicia hoje pode se esperar tudo menos que o PT dê indicações de que abrirá mão de candidatura à sucessão de Lula. Numa eleição em dois turnos, é na disputa presidencial que ancoram-se as coligações proporcionais e as chapas para a disputa dos governos estaduais. Abrir mão disso equivale a um suicídio político que o partido ainda não deu mostras de estar pronto a sucumbir.

A influência de José Dirceu sobre os rumos do partido poderá ser medida pela quantidade de pessoas que o ex-deputado consegue pôr na rua com seu diagnóstico sobre o julgamento – “O que está em jogo não é apenas minha vida política e minha história, mas o projeto político que o PT e o presidente Lula representam”. A Igreja e o MST já tiraram o corpo fora.
Igualmente escassas são as chances de que o julgamento seja posto em questão pelas confidências mais do que públicas do ministro Ricardo Lewandowsky na ‘Folha de S.Paulo’. Está claro que o tribunal pautou-se antes pelo imperativo político de responder à impunidade do que sob os ditames do formalismo jurídico.
A abertura de processo na Corte Suprema ainda está por se mostrar suficiente para influenciar os rumos de uma justiça que dá habeas corpus a adolescente que participou da agressão a uma empregada doméstica, mantém salário de um promotor assassino confesso e fica num jogo de prende-solta com os capturados da Polícia Federal.
O procurador e o ministro relator da denúncia acolhida foram escolhidos pelo presidente da República que teve o segundo homem de seu primeiro mandato indiciado. Se essa prova robusta da solidez da democracia pode ser colocada em questão pelo poder de pressão da imprensa, que se busquem os resultados da última pesquisa sobre a imagem dos partidos conduzida pelo próprio PT.
Ao mesmo tempo em que a legenda é considerada a que mais defende os pobres e faz os melhores governos é também aquela de quem se diz ter mais políticos corruptos. Isso não impediu a reeleição do presidente, nem o bom desempenho eleitoral do partido na disputa de 2006, mas pode, sim, comprometer seu futuro quando Lula estiver fora da cédula eleitoral.
É sob esse temor que o indiciamento de Dirceu reacende as expectativas de grupos do PT defensores da renovação da atual direção, que tem resistido a reprovar a adesão do partido às práticas tradicionais da política brasileira.

Indiciamento pode facilitar renovação do partido


Os sinais de esgotamento da atual cúpula partidária ficaram eloquentes no endosso à lulice ninguém-põe-mais-gente-na-rua-do-que-eu. O presidente dá-se ao luxo de bravatas irresponsáveis porque, apesar de ser o maior eleitor de sua sucessão, é candidato a mito em 2010. Ao endossar esse discurso, o partido candidata-se a alijar-se do poder ao lado de José Dirceu.
Um dos nomes que volta a ser cogitado para substituir o atual presidente, Ricardo Berzoini, é ex-governador do Acre, Jorge Vianna. No comando do PT onde o partido está há mais tempo no poder – terceiro mandato no governo do Estado e no comando da prefeitura da capital e da metade das cidades do interior – Vianna diz que o PT está prestes a cair na armadilha de se indispor com a classe média: “Trabalhar pelos excluídos não nos dá o direito de excluir os incluídos”.
Vianna vê o PT dominado pelo maniqueísmo: “A gente tem que se reencontrar com os princípios com que conquistamos o Brasil. Eleger a classe média como inimiga não é um deles. O PT conquistou o Brasil numa combinação de princípios com práticas. Hoje sabe que não vai poder se escorar em Lula mas perdeu sua capacidade de reflexão sobre o que fazer”
E diz que o cargo de presidente do PT ‘honra qualquer um’, mas afirma que nunca foi convidado a participar de uma Executiva do partido. Estará na abertura do Congresso do partido, quando Lula vai discursar, mas não assinou quaisquer das teses em disputa: “Minha tendência é o PT”.
Investe no discurso de que para ajudar o partido não precisa estar na direção, mas exibe uma ampla plataforma: “O PT foi construído para enfrentar governos e fazer a luta política. Temos medo e vergonha de ser governo. Não dialogamos com a sociedade. Precisamos criar um ambiente para superar as brigas paroquiais e assumir os erros de ter aderido aos métodos corriqueiros da política no país”.

Vianna não vê possibilidade de o PT abrir mão de candidatura em 2010, mas diz que o partido tem que privilegiar seus aliados históricos e disputar na base do a-gente-se-encontra-no-segundo-turno com os candidatos da aliança governista. Diz que o PSDB, se não tropeçar nas próprias pernas, tem grandes chances de estar no 2º turno contra um adversário do campo aliado. E alerta para a necessidade de não se deixar os arranjos eleitorais para a última hora, sob o risco de o partido passar um vexame.

Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras no Valor

mcristina.fernandes@valor.com.br

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30/08/2007 - 17:42h Jurista vê "coação" ao STF e defende Lewandowski

Daniel Bramatti

Redação Terra

O jurista Dalmo Dallari, que foi professor do ministro Ricardo Lewandowski
 
 

Primeiro, uma troca de mensagens por computador com uma colega é fotografada e exposta pela imprensa a todo o país. Agora, uma conversa por celular é parcialmente ouvida por uma repórter e chega à manchete de um jornal. No centro dos dois episódios, o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal.

Segundo a Folha de S.Paulo, o ministro disse a um interlocutor que seus colegas estavam “com a faca no pescoço” ao julgar a abertura de processo criminal contra os acusados de envolvimento com o esquema do mensalão. “A imprensa acuou o Supremo”, afirmou Levandowski ao celular, ainda de acordo com o jornal, em um restaurante de Brasília, na noite de quarta-feira.

O jurista Dalmo de Abreu Dallari, que foi professor de Lewandowski, concorda com a tese de que houve pressão da imprensa -usa até o termo “coação”-, mas não acredita que ela possa ter sido formulada por seu ex-aluno.

“Que houve uma pressão da imprensa é mais do que óbvio. Grande parte da imprensa não queria um julgamento, queria uma condenação”, disse Dallari. Ele afirma, porém, que a reportagem da Folha é uma “invencionice” e que seu ex-aluno teve agredido o direito à intimidade e à privacidade. Avisada das críticas, a Folha não se manifestou até este momento.

Leia a seguir a íntegra da entrevista concedida pelo jurista, por telefone, a Terra Magazine.

Terra Magazine – Eu gostaria de ouvi-lo sobre a reportagem da Folha na qual o ministro Lewandowski afirma que votou acuado pela imprensa. Como o senhor vê essa questão?
Dalmo de Abreu Dallari – Em primeiro lugar, acho absolutamente imoral e ilegal o que a Folha está fazendo. Na verdade, a repórter não ouviu isso do ministro. Ela, segundo consta, estava sentada numa mesa de restaurante e o ministro estava falando no celular caminhando, não estava parado. E ela reproduz todo o diálogo, ela dá os argumentos da outra pessoa com quem falava o ministro, tira conclusões. É espantoso, essa repórter tem poderes mediúnicos. Na verdade isto é uma invencionice. Acabo de ler isso, fiquei indignado.

O senhor vê esse episódio como uma violação de sigilo…
Não tenho dúvida. É mais uma agressão ao seu (de Lewandowski) direito à intimidade e à privacidade.

E o fato em si o sr. acha que não é verdadeiro? Os ministros não…
Não é verdadeiro, eu conheço muito o professor Lewandowski, ele foi meu aluno de pós-graduação aqui na Faculdade de Direito. É um homem impoluto, do mais alto nível ético, não acredito de maneira alguma nessas acusações. Mas a maneira como ela descreve deixa evidente que é imprensa marrom. Há muita invencionice, sem dúvida. Muitas vezes a gente está num lugar público e alguém está num celular, fala alto e a gente ouve, mesmo que não queira, mas não ouve o que a outra parte fala. E ela reproduz, diz que o outro dizia e ele respondia “sem dúvida”. Aí ela concluiu o que o outro dizia…

Nessa conversa o ministro se declara independente, mas faz uma análise sobre o Supremo em geral, diz que o Supremo votou pressionado pela imprensa…
Isso é o que a jornalista diz. E eu não acredito que ele tenha dito isso.

E dessa análise o senhor discorda também?
Que houve uma pressão da imprensa é mais do que óbvio. Grande parte da imprensa não queria um julgamento, queria uma condenação. Houve um prejulgamento, disso não tenho dúvida, estou lendo todos os dias vários jornais, estou acompanhando.

E essa eventual pressão não pode ter afetado o comportamento de alguns ministros?
Eventualmente pode. Mas não dá para dizer que eles concluíram por causa disso. Que isso pode ter afetado eu acho também, são fatores humanos. Em caso de dúvida, podem ter preferido não afrontar a coação da imprensa, isso pode acontecer. Mas que houve essa tentativa de coação, disso não há duvida.

Terra Magazine

30/08/2007 - 11:54h Tudo muito esquisito

Confira abaixo um guia para a sua navegação na web. São as notícias que realmente importam, lidas e analisadas para você saber o que precisa ler.

THOMAS TRAUMANN

THOMAS TRAUMANN
é colunista de política e chefe da sucursal da revista ÉPOCA no Rio de Janeiro.

“Sem medo da crise”
As bolsas asiáticas fecharam em altas nesta segunda-feira, recuperando-se do impacto sofrido na sexta-feira. Os mercados europeus também abriram em alta moderada. Em pronunciamento hoje pela manhã, o presidente Lula voltou a esbanjar otimismo. Afirmou que apesar dos que “parecem torcer para as coisas não darem certo”, o “Brasil não está com medo da crise”. Entre as cassandras dessa crise certamente está o diário britânico Financial Times que volta a escrever hoje que o mercado latino-americano será afetado pela turbulência. “O Brasil, novamente, está na linha de frente (..). A sua relativa prosperidade nos últimos anos tem sido baseada na demanda global, liderada pela China, de suas exportações de commodities”, afirma o jornal. A equipe econômica informou ao presidente Lula que o crescimento de 5% do PIB deste ano está garantido, mas no ano que vem podem diminuir as exportações de commodities como petróleo, minério de ferro e soja. Em entrevista a O Estado, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, foi sarcástico. “Ontem, a reclamação era dos órfãos do câmbio. Agora, os importadores já estão reclamando da crise, porque o dólar repicou”, diz.

Na terra e no céu
Começaram hoje as obras na pista principal do aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, com os previsíveis atrasos nos pousos e decolagens. Para não aparecer que o problema é só brasileiro. A revista inglesa The Economist está tão furiosa com o caos aéreo do aeroporto de Heathrow que passou a defender a quebra do monopólio privado das concessões aeroportuárias. A revista americana Time aponta que esse ano deve ser quebrado o recorde de atrasos de vôos. Segundo a revista, pelo menos um terço dos atrasos ocorrem porque os aeroportos americanos usam radares com tecnologia dos anos cinqüenta. Hoje pela manhã um Boeing 737-800 da China Airlines pegou fogo após aterrissar no aeroporto de Okinawa, em um vôo vindo de Taiwan. As 165 pessoas a bordo sobreviveram ao incidente.

A lei do mais forte
Na maioria das vezes, quando os jornais publicam reportagens em série estão mais interessados em impressionar os juízes dos prêmios de jornalismo do que servir ao leitores. Mas série iniciada ontem em O Globo tem transpiração e inspiração. Relata um fato conhecido _ o inferno da vida nas favelas cariocas _ sob um ângulo histórico do desrespeitos aos direitos humanos. O número de desaparecimentos nas favelas do Rio é mais de cinqüenta vezes o do Regime Militar. A lei do tráfico e das milícias impõe julgamentos sumários e torturas que vão do derretimento de plásticos ao decepamento de membros. A série é um prêmio para o leitor.

Boi da cara preta
A seção painel da Folha adianta que os senadores Marisa Serrano (PSDB) e Renato Casagrande (PSB) irão subscrever relatório recomendando a cassação do mandato de Renan Calheiros (PMDB). Para se ter uma idéia da fragilidade dos argumentos do presidente do Senado, O Globo informa que ele irá justificar as notas frias na venda de gado acusando o frigorífico comprador. “O Renan é uma vítima. Ele vendeu carne para uma empresa. A partir daí qual a responsabilidade dele?”, diz o líder do governo Romero Jucá (PMDB).

Para que julgamento?
Os três grandes jornais O Globo, Folha e O Estado gastaram suas edições dominicais com tediosas reportagens sobre o julgamento no Supremo Tribunal Federal dos acusados do mensalão. Novidade que é bom, nada. Apenas uma condenação prévia de todos os acusados, sem direito a defesa. Um serviço melhor para o leitor seria recontar o que aconteceu no Congresso entre 2004 e 2005, enumerar as acusações e mostrar as defesas. Afinal quem (além dos políticos, jornalistas e juízes) se lembra da participação de João Carlos Genu, Rogério Lanza Tolentino e Maurício Marinho nos episódios? Daria trabalho, é verdade, mas seria mais útil ao leitor.

O iPhone no Brasil
A Folha noticia a disputa entre as operadoras Vivo, Tim e Claro pela exclusividade do lançamento no Brasil do iPhone, o revolucionário filho do casamento entre o celular e o computador. As empresaspretendem aproveitar a negociação da fabricante Apple com o mercado europeu para realizar um lançamento conjunto com o Brasil. O aparelho deve custar R$ 3 mil. Há informações de alguns desses aparelhos já estão sendo usados no Brasil com ajuda de hackers, que desbloquearam o programa americano.

Etanol, etanol
A revista Newsweek traz mais uma reportagem americana sobre a oposição entre a produção de combustível a partir do milho e da cana-de-açúcar. O único mérito da matéria é informar que (bingo!) a maior parte da cana brasileira está plantada em São Paulo e não na Amazônia.

A condenação da bispa
Dois dias depois de terem sido condenados pela Justiça americana por contrabando de divisas, a bispa Sonia Hernandes e o apóstolo Estevam Hernandes apareceram em um culto transmitido por telão para a sede da Igreja Renascer em Cristo, em São Paulo, informa a Folha. Eles ficarão presos por cinco meses por tentarem entrar com US$ 56 mil não declarados nos EUA.

Movimento escatológico
Do cantor sertanejo Luciano à colunista Mônica Bergamo, da Folha, sobre o movimento Cansei, apoiado pelo seu irmão Zezé: “Como é que eu vou apoiar um movimento liderado por alguém que promove desfile de cachorros (o empresário João Doria)? O Zezé é o Zezé, eu sou eu. Eu cansei desse Cansei. Vou lançar o “Caguei”. Caguei para o Cansei”. É maravilhoso o nível da discussão política brasleira.