27/10/2009 - 11:25h FMI deveria ajudar o Brasil a enfrentar fluxo de capitais

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Mundo precisa de uma abordagem menos doutrinária sobre capital estrangeiro, e discutir o IOF sobre remessas sinalizaria que o Fundo pode facilitar essa mudança

ARVIND SUBRAMANIAN E JOHN WILLIAMSON DO “FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP

A ação brasileira ao impor um tributo sobre certas formas de fluxo de capital estrangeiro, a fim de controlar a alta da moeda do país, tem grande importância, prática e simbólica.
O valor simbólico está no fato de que a decisão sinaliza o fim da era em que os mercados emergentes viviam enamorados dos financiamentos estrangeiros e na expressão de uma disposição de agir para moderar fluxos de capital externo. Em termos práticos, a importância está na ampliação do arsenal de que os países podem dispor para moderar o superaquecimento de suas economias. O caso serve como boa ilustração do tipo de medida que as autoridades econômicas podem usar para deter um superaquecimento incipiente nos preços dos ativos.
A resposta do FMI (Fundo Monetário Internacional) à medida foi cálida ou até ligeiramente negativa. Um importante dirigente da instituição afirmou que “esse tipo de imposto oferece alguma margem de manobra, mas nem tanto, e por isso os governos não deveriam se sentir tentados a postergar ajustes mais fundamentais. Em segundo lugar, implementar esse tipo de taxa é muito complexo, porque ela precisa ser aplicada a todos os possíveis instrumentos financeiros”; ele acrescentou que esse tipo de imposto se havia provado “poroso” em diversos países.
A resposta é decepcionante não porque esteja errada, mas porque reflete que a abordagem intelectual do FMI quanto à globalização das finanças continua a mesma. Essa abordagem sempre envolveu desaprovação implícita a esse tipo de medida, por meio de apelos aos países para que tomem medidas complementares (melhor governança empresarial, reforço de regulamentações financeiras etc.), a fim de preservar influxos estrangeiros, que o FMI vê como sacrossantos.
Para os países de mercado emergente, o problema vem sendo o de que nem sempre é fácil implementar medidas como essas em curto prazo, de modo que a questão prática premente do que fazer quanto aos influxos excessivos persiste, e não há muita orientação do FMI quanto a respostas.
Taxas sobre os fluxos de capital têm seus problemas, mas isso não é argumento contra elas. Nenhuma pessoa sensata acredita que taxas não devam ser impostas porque podem ser, e serão, sonegadas. Em lugar disso, seria necessário procurar as melhores maneiras de ordenar essas medidas (a base deveria ser o preço ou a quantidade?
Que espécie de influxo deve ser visado preferencialmente, para títulos de dívida ou de capital? Qual é a duração mais efetiva para essas limitações? Quando elas devem ser retiradas?), de modo a que os benefícios sejam maximizados, e os riscos, minimizados.
Em lugar de continuar recebendo medidas como essa com um banho de água fria, o FMI deveria considerar que elas oferecem uma oportunidade intelectual. Deveria continuar a apoiar os países em sua busca de fluxos de capital mais abertos, como objetivo estrutural, de longo prazo. Mas também é preciso que reconheça que surtos de alta no fluxo de capitais podem representar um sério desafio macroeconômico, capaz de requerer resposta cíclica diferenciada.
Para os mercados emergentes, o arsenal de medidas de política econômica contra crises futuras precisa abarcar medidas de restrição em forma contracíclica do crescimento de crédito e do endividamento, especialmente as altas no influxo de capital. O motivo mais importante para que o FMI leve a sério a medida tomada pelo Brasil se refere a ideologia e narrativa.
Se a crise mundial deriva, em parte, de um sistema de crenças que elevava de maneira indevida o status das finanças, o FMI contribuiu, de forma explícita ou implícita, para que fosse santificado o capital estrangeiro. Isso impôs um custo pesado, e subestimado, aos países de mercado emergente: caso tomassem medidas de restrição ao fluxo de capital, corriam o risco de ser vistos como avessos ao livre mercado e imprudentes em suas políticas econômicas.
Ao reconhecer que, em certos casos, limitações sensatas aos fluxos podem ser uma resposta de política econômica pragmática e razoável, o Fundo eliminaria o estigma de aversão ao livre mercado que ações como as empreendidas pelo Brasil correm o risco de sofrer.
De fato, o medo desse estigma fica evidente na recente medida brasileira: as magnitudes são pequenas, e o Brasil vem se esforçando por enfatizar a natureza temporária das limitações e as duas coisas fazem com que o mercado leve a medida menos a sério, o que prejudica sua eficiência.
Caso o estigma não existisse, o imposto sobre o fluxo poderia ter sido definido de forma melhor e aplicado com mais confiança, a fim de garantir sua efetividade. O mundo precisa de uma abordagem menos doutrinária quanto aos influxos de capital estrangeiro. Ajudar o Brasil em sua decisão, em lugar de divulgar uma resposta negativa, sinalizaria que o FMI está desempenhando papel construtivo para facilitar essa mudança.

ARVIND SUBRAMANIAN e JOHN WILLIAMSON são pesquisadores sênior do Instituto Peterson de Economia Internacional.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

09/08/2009 - 11:45h O conto do vigário

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Kenneth Rogoff * – O Estado SP

 


No próximo mês, o colapso do venerável banco de investimentos americano Lehman Brothers completará um ano. A queda do Lehman marcou o início de uma recessão global e uma crise financeira que o mundo não observava desde a Grande Depressão, nos anos 30. Depois de um ano, de trilhões de dólares de dinheiro público utilizados e muita autoanálise dentro da comunidade política do mundo, aprendemos as lições certas? Temo que não.

O consenso geral é de que, se o governo tivesse socorrido financeiramente o Lehman, tudo teria sido apenas um soluço e não um enfarte. Famosos investidores e políticos influentes opinaram que, nessa nossa economia global interconectada, nunca se poderia deixar uma grande instituição financeira como o Lehman ir à falência.

Independentemente do quão péssima foi a sua administração – o Lehman basicamente transformou-se numa holding imobiliária totalmente independente dentro da bolha formada no setor de habitação -, os credores de uma grande instituição financeira sempre teriam de ser reembolsados. Do contrário, a confiança no sistema ficaria corroída e o caos se implantaria.

Tendo chegado à brilhante conclusão de que uma reestruturação financeira devia ser evitada a todo custo, os governos mundiais decidiram criar uma enorme rede de proteção para os bancos (e todos os países na Europa Oriental), tecida pelos dólares dos contribuintes.

Infelizmente, essa autópsia do Lehman era uma utopia. Ela basicamente dizia que, independentemente do tamanho da bolha imobiliária, do quão profundo era o buraco do crédito cavado pelos Estados Unidos (e outros países) e o quão enredado estivesse o sistema financeiro global, nós podíamos ter encontrado um caminho de saída. Se tivéssemos solucionado o problema do Lehman, ido em frente e continuássemos aproveitando o vigor da energia da China, nada de ruim jamais ocorreria.

O fato é que os desequilíbrios globais em termos de dívidas e preços de ativos aumentou tanto, atingindo seu clímax nos últimos anos , a ponto de não haver saída. Os EUA estavam dando sinais de alerta de uma profunda crise financeira bem antes de estourar o problema do Lehman Brothers, como Carmen Reinhardt e eu documentamos em nosso próximo livro This Time is Different: Eight Centuries of Financial Folly (Desta vez é diferente: oito séculos de loucura financeira).

Os preços dos imóveis residenciais dobraram num curto período, levando os consumidores americanos a não pensar mais em fazer poupança. Os órgãos de decisão política, incluindo o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), permitiram que essa festa de crescimento dos anos 2000 continuasse por muito mais tempo.

Embriagados com os lucros, os setores bancários e de segurança se endividaram como nunca. Os bancos de investimento transformaram seus negócios de tal forma que seus administradores e conselhos claramente não entenderam.

Não foi somente o Lehman Brothers. O sistema financeiro todo estava despreparado para lidar com o inevitável estouro das bolhas do crédito e imobiliária. O sistema chegou a um ponto em que precisou ser socorrido e reestruturado. E não há cenário legal ou político realista em que tal socorro poderia ter sido oferecido sem que um pouco de sangue ficasse nas ruas.

Portanto, o colapso de uma grande instituição bancária ou de um banco de investimento foi inevitável como catalisador para a ação. O problema do Lehman Brothers afundar não foi o conceito, mas a execução. O governo devia ter agido agressivamente para proteger a complexa carteira de derivativos do Lehman, mesmo que isso significasse interpretações criativas da lei ou a aprovação de novas leis de controle do sistema financeiro.

A verdade é que é difícil fazer tudo isso da noite para o dia, mas os alertas eram muitos. Nos seis meses anteriores ao colapso do Lehman, houve um congelamento lento do crédito global e recessões incipientes nos Estados Unidos e na Europa. Mas quase nada foi feito em preparação.

Então, qual é o plano de jogo, agora? Fala-se de regulamentar o setor financeiro, mas os governos temem que isso possa abalar a confiança. Admite-se que o estouro da bolha imobiliária precisa ser absorvido, mas não há disposição para reconhecer que isso implicará anos de lento crescimento do consumo.

Reconhece-se que as relações entre China e Estados Unidos têm de ser reequilibradas, mas não se sabe bem como proceder. Nossos líderes e legisladores se convenceram de que, apesar de todas as falhas, o velho sistema é melhor do que qualquer outro que se possa imaginar, e que restaurar a confiança vai resolver tudo, ao menos enquanto eles estiverem no comando.

A lição correta a se tirar o colapso do Lehman Brothers deve ser a de que o sistema financeiro necessita de importantes mudanças tanto em termos de regulamentação como de governança. O enfoque atual de uma rede de proteção pode funcionar a curto prazo, mas acabará resultando em dívidas governamentais enormes e insustentáveis, especialmente nos Estados Unidos e na Europa.

A Ásia pode estar disposta a patrocinar o Ocidente agora, mas não perpetuamente. No fim, ela encontrará alternativas, em parte aprofundando seus próprios mercados de dívida. Dentro de alguns anos, os governos ocidentais precisarão elevar drasticamente os impostos, permitir o aumento da inflação, ficar em parte inadimplentes, ou uma combinação dos três. Por mais doloroso que possa ser, é muito melhor começar a colocar os fundamentos da economia em ordem agora. Restaurar a fé é útil e importante. Mas, em última instância, precisamos de um sistema de regulamentação e governança financeira que mereça a nossa confiança.

*Kenneth Rogoff é professor de Economia e Políticas Públicas na Universidade Harvard e chefiou a equipe de economistas do Fundo Monetário Internacional

26/04/2009 - 10:16h Crise global: ‘Economia ficará fraca por 3 anos”


Stephen Roach: presidente da divisão Ásia do Banco Morgan Stanley; conhecido pelo pessimismo e por ter previsto a crise, economista diz que rali recente do mercado se mostrará ‘desapontador’

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Leandro Modé – O Estado SP

 


Em um breve perfil na Wikipédia, a enciclopédia online mais consultada do mundo, o economista americano Stephen Roach é definido como um “urso permanente”. No mercado financeiro, o grande mamífero peludo é o símbolo do pessimismo. Embora rechace a qualificação, dizendo que tenta ser apenas “realista”, Roach é amplamente conhecido pelas previsões catastrofistas. Durante anos – e muito antes de a atual crise estourar -, Roach, que comandava até 2007 o departamento econômico do Banco Morgan Stanley, alertou para os desequilíbrios da economia global. Em síntese, chamava a atenção para o consumismo dos americanos, para a política monetária frouxa do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) e para o excesso de poupança nos países asiáticos, notadamente a China. O tempo mostrou que ele estava certo. Olhando para a frente, Roach diz que só vê alguma recuperação tênue da economia global em 2010. Por isso, avalia que o rali das últimas semanas nas bolsas mundiais se mostrará desapontador. “Minha visão é que, após um boom extraordinário e insustentável, haverá um movimento de volta que deixará a economia fraca por ao menos três anos”, disse ao Estado, por telefone, de Cingapura. Há cerca de dois anos, Roach comanda a divisão da Ásia do Morgan Stanley.

Temos visto alguma recuperação nos mercados financeiros, especialmente em países emergentes. É sustentável?

Ainda é muito cedo para termos um sinal preciso da economia global. É bem possível que o pior em termos de contração tenha ficado para trás, mas ainda veremos uma recessão severa no mundo. O mais importante é que qualquer recuperação, quando vier, será limitada. O mercado financeiro está antecipando uma recuperação mais forte, algo em que não acredito.

Ou seja, é cedo demais?

Sim, esse rali vai se mostrar desapontador, uma vez que veremos alguma recuperação só em 2010.

A principal razão para essa melhora é o relativo otimismo com o plano americano para resgatar os bancos. Como o sr. o avalia?

Não concordo que essa seja a principal razão. Nos últimos três meses, houve leves sinais de melhora da atividade econômica, do mercado imobiliário, do consumo nos EUA e das exportações de países emergentes. Mas, a despeito disso, penso que o conceito do plano do secretário (Timothy) Geithner para os bancos é bom, pois contempla um mecanismo para estabelecer um preço para os ativos tóxicos e sua retirada dos balanços dos bancos. A questão é se os investidores vão participar. Em resumo, é bom na teoria, mas há dúvidas sobre a execução.

É preciso ver se vai funcionar na prática, então.

Exatamente. Há também a questão de privatizar os ganhos e socializar as perdas. Há uma possibilidade séria de que a conta venha a ser paga pelos contribuintes americanos.

É inevitável a estatização do sistema bancário americano?

O governo está fazendo tudo o que pode para evitar uma nacionalização formal. Não está claro se no fim da linha ainda veremos uma nacionalização mais profunda, ainda que o governo tenha assumido boa parte de várias instituições.

O sr. falou em alguns números melhores na economia global nos últimos meses, mas espera uma recuperação apenas em 2010. Não soa contraditório?

Há uma expressão que define bem isso: ainda são números ruins, mas não tão ruins como antes. Refletem apenas o fato de que tivemos um raro declínio na atividade econômica nos últimos seis ou sete meses. A maior parte dele decorre do congelamento dos mercados de crédito e de capitais após a quebra do Lehman Brothers. Não é normal esperar que esse ritmo de queda se mantenha. Então, algum freio nessa deterioração poderia provocar certo otimismo. Algo com o que não concordo.

O sr. afirmaria que em alguns países a situação parou de piorar?

Não. Isso é explicado por um conceito técnico, segundo o qual há uma grande diferença entre melhora e desaceleração das taxas de queda.

O FMI informou esta semana que espera a primeira recessão global desde a 2ª Guerra. Qual o seu cenário?

Nos meus 30 anos de projeções econômicas, raramente concordo com o FMI. Mas acho que, dessa vez, a expectativa deles para 2009 é bem próxima da minha, que é de um recuo de 1,5% no PIB mundial. A recessão alcançou o mundo todo. Acredito que, mesmo para 2010, qualquer recuperação será fraca. O PIB mundial talvez cresça entre 1,5% e 2%.

Qual a expectativa para a China?

Acho que os números da China também serão fracos. O crescimento neste ano deve ficar entre 6% e 6,5%, levando-se em conta os dados já divulgados do primeiro trimestre. Não acho que a economia chinesa crescerá tão rapidamente quanto a projeção oficial do governo, de 8%. A queda em relação ao desempenho anterior é significativa, e se explica pela fraqueza na demanda externa e porque a China é muito dependente dessa demanda.

Quais as consequências desse enfraquecimento da China para países que exportam bastante para lá, como o Brasil?

Essa é uma das razões pelas quais o Brasil terá uma contração neste ano. A principal compradora de matérias-primas do mundo é a China. Em 2007, a expansão chinesa foi de 13%. Em 2009, ficará perto da metade disso. Ou seja, não teremos mais o superboom de commodities dos últimos anos. Com isso, grandes fornecedores de matérias-primas como Brasil, Nova Zelândia e Austrália sentirão impacto relevante.

Sei que o sr. não é responsável pelas projeções do Brasil, mas a previsão do Morgan Stanley para o PIB brasileiro em 2009 – retração de 4,5% – causou surpresa por aqui. O sr. realmente acredita que esse é um número crível?

Espero que sim. Já fui responsável pela equipe econômica e acho que eles têm boas razões para a projeção.

Olhando a partir de hoje, como o sr. vê a ideia de “descolamento” dos emergentes?

É uma piada. Como esperar que economias em desenvolvimento, em que grande parte do crescimento dependia da demanda externa, iam descolar? O rápido crescimento das economias emergentes era uma história maravilhosa, mas resultava de dois movimentos: explosão do comércio global e aumento da parcela das exportações no PIB, sobretudo na Ásia. Com a desaceleração do comércio, a maioria das economias emergentes falhou em estimular a demanda doméstica. Todas as economias desenvolvidas estão em recessão. Basicamente, a ideia de descolamento foi uma piada, uma piada de mau gosto.

Durante anos, o sr. alertou para os desequilíbrios globais. Como avalia as medidas que os governos estão adotando para estimular suas economias?

Os governos estão fazendo o que podem para limitar a queda. Mas há o risco de que estejam focando demais o reestímulo do consumo nos EUA, o que é uma estratégia pobre. Essa foi uma das razões chave para que os EUA entrassem nessa confusão. Os consumidores compraram além de suas possibilidades, o que criou as duas bolhas que estouraram: no crédito e no mercado imobiliário. Tentar recriar outro período de excesso de consumo e encorajar os americanos a consumir, em vez de poupar, é um grande erro. Realmente me preocupo que essas políticas de estímulo resultem em desequilíbrios semelhantes nos EUA. Para cada dólar de excesso de consumo nos EUA, há um dólar de poupança em algum lugar do mundo.

O que fazer para evitar isso?

Esse é um problema global, portanto, deveríamos ter políticas que lidassem com a questão da poupança mundial – concentrada principalmente na Ásia – e com os déficits (em conta corrente e fiscal) nos EUA. Os chineses têm de consumir mais e os americanos, poupar mais. Não estou convencido de que as políticas atuais atingirão esse objetivo.

O G-20 poderia agir para isso?

Fiquei muito desapontado com o comunicado da última reunião do G-20. Creio que o grupo falhou ao encaminhar esse problema dos desequilíbrios globais. O texto mencionou a questão de relance e não trouxe uma proposta de ações concretas para lidar com o tema. Os esforços do G-20 que devem ser celebrados estão basicamente relacionados ao fortalecimento do FMI.

Olhando dois ou três anos à frente, a inflação é um risco no mundo?

Não. O buraco entre oferta e demanda na economia mundial é de tal ordem que inflação não será problema no período de três a cinco anos. Há muita fraqueza no mercado de trabalho e no consumo.

O sr. é conhecido como um pessimista. Mas, no início do ano, no Fórum Econômico Mundial, foi chamado de otimista pelo colunista do ‘Financial Times’ Martin Wolf. Como se define neste momento?

Martin fazia uma brincadeira. Na sessão de abertura do Fórum, eu disse que via uma recessão muito séria e um período de fraqueza na economia mundial durante os próximos três anos. É o meu pronunciamento habitualmente “bearish” (pessimista). Mas Martin disse que eu não estava “bearish” o bastante. Alguns jornalistas escreveram que eu havia mudado meu ponto de vista. Não quero ser conhecido como pessimista nem como otimista, mas como realista. Minha visão é que, após um boom extraordinário e insustentável, haverá um movimento de volta que deixará a economia fraca por ao menos três anos. Não creio que seja otimismo.

O sr. poderia resumir as causas dessa crise, em poucas palavras?

Foi um problema sistêmico causado por instituições financeiras, governos, legisladores, consumidores – especialmente nos EUA – e um problema particular: uma política monetária pobre do Fed de Alan Greenspan. Essa política gerou a bolha de ativos, não prestou atenção à estabilidade financeira e ignorou a responsabilidade regulatória.

Como vê a proposta da China de criar uma moeda de reserva do FMI para substituir o dólar?

É uma proposta que deve ser seriamente considerada. Com exceção dos últimos meses, o dólar vinha se desvalorizando havia seis anos. Daqui para a frente, essa é a tendência. Muitos gestores no mundo vão preferir aplicar recursos em uma cesta de moedas e, assim, reduzir o peso do dólar.