Para o economista Nouriel Roubini, juros negativos nos EUA e dólar fraco geram “mãe” de todos os “carry trades” e bolha global cujo estouro é inevitável
NOURIEL ROUBINI DO “FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP
Desde março vem ocorrendo um aumento maciço em ativos de alto risco de todo tipo -participações, preços do petróleo, energia e commodities-, um estreitamento dos “spreads” de alta rentabilidade e alta classificação e um aumento maior ainda nas classes de ativos de mercados emergentes (suas ações, obrigações e moedas).
Ao mesmo tempo, o dólar caiu muito, enquanto a rentabilidade dos títulos governamentais tem aumentado ligeiramente, mas se mantido baixa e estável.
Essa recuperação dos ativos de alto risco é movida em parte por melhores condições econômicas fundamentais. Evitamos uma quase depressão e um derretimento do setor financeiro com um estímulo monetário e fiscal maciço e pacotes de socorro aos bancos. Quer a recuperação tenha formato de V, conforme a visão consensual, ou tenha formato de U e seja anêmica, como eu argumento, os preços dos ativos deveriam estar subindo gradualmente.
Contudo, ao mesmo tempo em que as economias americana e global iniciaram uma recuperação modesta, desde março os preços dos ativos vêm subindo vertiginosamente, numa alta grande e sincronizada. Em 2008, quando o dólar subia, os preços dos ativos estavam em queda forte, mas, desde março, eles têm recuperação acentuada, enquanto o dólar cai. Os preços dos ativos de alto risco vêm subindo demais, cedo demais e rápido demais em comparação com os fundamentos.
O que está por trás dessa alta maciça? Com certeza, foi ajudada pela onda de liquidez advinda de juros a quase zero e flexibilização quantitativa das condições monetárias. Mas um fator mais importante que alimenta a bolha de ativos é a fraqueza do dólar americano, movida pela “mãe” de todos os “carry trades” [operação em que o investidor pega empréstimos com juros muito baixos, como os dos EUA hoje, e aplica em outros ativos]. O dólar virou a principal moeda a financiar os “carry trades”, na medida em que o Fed [BC dos EUA] vem segurando os juros. Os investidores que estão vendendo o dólar a descoberto para comprar ativos de rentabilidade maior e outros ativos globais em base altamente alavancada não estão só contraindo empréstimos a juros zero em termos do dólar -estão contraindo empréstimos a juros muito negativos, que podem chegar a 10% ou 20% negativos ao ano-, na medida em que a queda do dólar leva a ganhos maciços de capital sobre posições do dólar.
Resumindo: negociantes estão contraindo empréstimos a juros negativos de 20% para investir em base altamente alavancada em uma massa de ativos globais de alto risco que estão subindo devido ao excesso de liquidez e a um “carry trade” maciço. Cada investidor que joga esse jogo de alto risco fica parecendo um gênio -mesmo que só navegue numa bolha imensa-, já que os retornos totais têm estado na faixa entre 50% e 70% desde março.
A consciência que as pessoas têm do valor em risco de seus portfólios deveria ter aumentado devido à correlação crescente dos riscos entre classes diferentes de ativos, todos movidos por essa política monetária comum e pelo “carry trade”. Na prática, virou uma grande negociação comum -você compra o dólar para adquirir qualquer ativo de alto risco.
Ao mesmo tempo, porém, o risco percebido das classes individuais de ativos vem declinando, na medida em que a volatilidade diminuiu graças à política do Fed de comprar tudo que está à vista. Assim, o efeito conjunto da política de taxa zero sobre fundos do próprio Fed, flexibilização quantitativa das condições monetárias e aquisição maciça de instrumentos de dívida de longo prazo está aparentemente fazendo o mundo ser seguro -por enquanto- para o maior de todos os “carry trades” e a maior de todas as bolhas de ativos globais altamente alavancados.
Ao mesmo tempo em que essa política alimenta a bolha global, também alimenta uma nova bolha de ativos americanos. Dinheiro fácil, facilitação do crédito e fluxo maciço de capitais para os EUA por meio de um acúmulo de reservas em divisas estrangeiras em outros países tornam os deficit fiscais dos EUA mais fáceis de financiar e alimentam a bolha americana de participações e crédito.
Finalmente, um dólar fraco é bom para as participações acionárias americanas, já que pode gerar crescimento maior e elevar os lucros de multinacionais.
A política americana insensata que alimenta esses “carry trades” obriga outros países a adotar a mesma política monetária. Políticas de juros a quase zero e flexibilização quantitativa já eram seguidas no Reino Unido, na zona do euro, no Japão, na Suécia e em outras economias avançadas, mas a debilidade do dólar vem agravando essa flexibilização monetária global. Ásia e América Latina, preocupadas com a fraqueza do dólar, estão intervindo agressivamente para impedir a valorização excessiva de suas moedas. Isso segura os juros de curto prazo em níveis inferiores aos desejáveis. É possível que os BCs também sejam forçados a reduzir os juros.
Preocupados com o dinheiro quente que vem inflando suas moedas, algumas autoridades, como as do Brasil, vêm impondo controles aos fluxos de capital entrantes. Mas a bolha do “carry trade” vai se agravar: se as moedas estrangeiras se valorizarem mais, o custo negativo dos empréstimos do “carry trade” ficará ainda maior. Se intervenções ou operações no mercado aberto controlarem a valorização das moedas, a flexibilização monetária doméstica decorrente alimentará a bolha nessas economias. Assim, a bolha perfeitamente correlacionada de todas as classes de ativos globais cresce diariamente.
Mas essa bolha vai estourar um dia, levando ao maior estouro coordenado de ativos já visto: se fatores puderem levar o dólar a reverter sua queda e a se valorizar repentinamente -como em inversões anteriores-, o “carry trade” alavancado terá de ser encerrado de uma hora para a outra, à medida que os investidores cobrem suas transações a descoberto com dólar. Haverá um estouro da boiada, com o fechamento de posições de alto risco e alavancagem longa em todas as classes de ativos financiadas por transações em dólar a descoberto gerando colapso coordenado de todos esses ativos de alto risco -ações, commodities, ativos de emergentes e instrumentos de crédito.
Por que esses “carry trades” desabarão? Para começar, o dólar não pode cair a zero, e em algum momento se estabilizará; quando isso acontecer, o custo de empréstimos em dólar repentinamente se tornará zero, em lugar de altamente negativo, e o risco de uma inversão no dólar levará muitos investidores a cobrirem suas transações a descoberto. Em segundo lugar, o Fed não poderá suprimir a volatilidade para sempre. Em terceiro, se o crescimento americano surpreender positivamente, os mercados podem começar a esperar que um arrocho do Fed chegue mais cedo, não mais tarde. Em quarto, pode haver fuga do risco movida pelo medo de um repique recessivo ou risco geopolítico, como um choque EUA/Israel-Irã.
Esse processo pode não ocorrer por algum tempo, já que o dinheiro fácil e a liquidez global excessiva ainda poderão elevar os ativos por algum tempo.
Mas, quanto mais se prolongarem e quanto mais crescer a bolha, maior o crash. O Fed e outros responsáveis pela política econômica parecem não ter consciência da bolha monstro que criam. Quanto mais tempo permanecerem cegos, mais dolorosa será a queda.
NOURIEL ROUBINI é professor da Universidade de Nova York e presidente da RGE Monitor.
Tradução de CLARA ALLAIN
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Brasil, ”a grande história”
Artigo no ‘Financial Times’ diz que o País é uma potência a ser observada
BBC Brasil, BRASÍLIA – O Estado SP
Um artigo publicado na edição de ontem do jornal Financial Times afirma que “o Brasil é a potência do século 21 a se observar”.
Assinado pelo comentarista Michael Skapinker, o artigo compara duas visões antagônicas do País – uma negativa, na qual se sobressaem problemas de violência e desigualdade social, e uma positiva, que ressalta uma economia pujante e plena de recursos naturais.
Sem tomar partido por uma das visões, o comentarista diz que o País será “a grande história do próximo ano”.
Os fundamentos de sua avaliação foram apresentados por ele em um recente encontro que reuniu jornalistas de diferentes publicações internacionais.
“O Brasil acabava de passar por uma crise financeira em boa forma. O País estava sentado em uma vasta descoberta de petróleo em alto-mar. Havia testemunhado a maior abertura de capital do mercado neste ano – os US$ 8 bilhões colocados em bolsa pelo braço brasileiro do Santander. Seria também a sede de dois dos maiores eventos esportivos do mundo: a Copa de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.”
Para Skapinker, o outro lado da moeda seria a violência. “Não pude esconder certa palpitação em relação às desvantagens conhecidas do Brasil”, diz ele, citando relatos e notícias de furtos, assaltos à mão armada a sequestros.
“Não vi nada disso”, diz o comentarista, que recentemente fez sua primeira visita ao Brasil. “Mas, dois dias após minha saída do País, enfrentamentos armados entre gangues rivais no Rio custaram pelo menos 14 vidas, incluindo as de três policiais mortos quando o helicóptero em que estavam foi abatido.”
Para o comentarista, “é grande crédito do Brasil que, durante vários dias de encontros e entrevistas no Rio e em São Paulo, ninguém negou que o crime violento é uma realidade no País, e pode ter um sério impacto no seu desenvolvimento”.
Já pelo lado positivo, diz Skapinker, “o Brasil é um país com imenso potencial, um povo acolhedor e diverso, excelente comida e diversas empresas de porte mundial”.
“Diferentemente da China, o Brasil não tem conflitos étnicos agudos e é uma democracia partidária. Os brasileiros reclamam da corrupção de seus políticos, mas apontam que, ao contrário dos Estados Unidos, os resultados das eleições presidenciais – a próxima será em outubro de 2010 – são anunciados rapidamente.”
O comentarista acrescenta que a riqueza petroleira, em um país que produz a maior parte de sua energia de hidrelétricas e etanol, representa um “prospecto intrigante”.
“Os brasileiros sabem que o petróleo pode ser uma maldição ou uma bênção. A maneira como empregarem sua nova riqueza determinará se o País se tornará uma força no século 21.”
O comentarista encerra o artigo retomando sua ideia inicial. “O Brasil será uma grande história – não apenas no próximo ano, mas por muitos anos.”
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Leo Pinheiro / Valor

Luiz Carlos Mendonça de Barros: crescimento do PIB em 2010 pode chegar a 6% no ano que vem
Luiz Carlos Mendonça de Barros: sócio da Quest Investimentos e ex-ministro. Para Mendonça de Barros, economia deve retomar o dinamismo de antes da crise, mas é preciso cuidado com a inflação
Luciana Xavier, AGÊNCIA ESTADO
O Brasil deve ter forte recuperação e crescer 6% no ano que vem, acredita o sócio da Quest Investimentos, Luiz Carlos Mendonça de Barros, que foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações no governo de Fernando Henrique Cardoso. “Vejo a economia retomando rapidamente o dinamismo de antes da crise”, disse, em entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo, da Agência Estado. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Esta semana o Brasil virou grau de investimento pela Moody”s. Qual a importância desse upgrade?
Houve uma convergência das agências, com uma novidade no caso da Moody”s, pois ela, além de melhorar nossa nota no nível de investment grade, colocou também em observação positiva. Isto é, deu um sinal de um movimento próximo de melhora ainda na nota. Mas é uma coisa engraçada porque o mercado já vinha antecipando esse movimento. Acho que essa questão do investment grade está superada. Vamos olhar para frente.
Ao olhar à frente, o que o sr. vê?
Vejo uma economia retomando rapidamente o dinamismo que tinha antes da crise, com impacto ainda negativo do comércio exterior – as exportações brasileiras não se recuperaram. Certamente, o investimento, afetado na crise, vai voltar naturalmente. Alguns analistas parecem não entender que uma dinâmica de economia de mercado tem um timing natural. Muita gente está criticando que o investimento não voltou ainda. Isso é absurdamente natural. Estamos saindo de uma crise. Então acho que a cadência da economia brasileira vai ser a manutenção do estímulo vindo do setor privado, do consumo – o emprego voltou a crescer, os salários voltaram a ter ganho positivo, em real. Os bancos também voltaram à normalidade. Com um estímulo adicional, pois perderam espaço para os bancos públicos nesses quatro a cinco meses em que se trancaram. Acho que vão querer recuperar o tempo perdido, o que dá um impulso maior à retomada do crédito.
O sr. enxerga uma enxurrada de recursos vindo para o Brasil?
Isso já está ocorrendo. Se olharmos a previsão de abertura de capital de empresas brasileiras nos próximos meses, estamos perto dos US$ 14 bilhões. E isso vai acontecer porque o mundo tem hoje um desequilíbrio entre oportunidade e liquidez para investimentos. Porque tem um pedaço grande do mundo, principalmente dos desenvolvidos, em que a retomada da atividade vai ser muito lenta. E esse pedaço tem ainda uma capacidade ociosa para ser ocupada, que vai fazer com que os investimentos nos próximos dois anos sejam muito pequenos. Por outro lado, há alguns países – o Brasil é um deles – onde se retomou mais rapidamente a dinâmica do consumo e as oportunidades se apresentam de forma mais clara. Além disso, é importante entender que nessa saída de crise há um problema com o dólar americano, que tem levado investidores a buscar ativos em regiões do mundo cuja moeda tenha dinâmica diferente do dólar. O real é uma dessas moedas.
O dólar chegou ontem (dia 23) a R$ 1,782. Pode cair mais?
Não sei. Há seis meses fiz uma projeção que naquele momento parecia absurda, de dólar a R$ 1,80. Até R$ 1,80 eu vou. A partir daí, prefiro observar (risos). Mas é importante entender que o real não tem movimento autônomo, isolado. Ele está se valorizando numa cesta de moedas – principalmente ligadas a economias exportadoras de commodities – e tem de acompanhar um pouco essa dinâmica. Ele não está sozinho.
O que impede o dólar de voltar ao patamar pré-crise?
Ele volta ao patamar pré-crise se as outras moedas também voltarem. E tem o Banco Central. Acho que o BC teria de acompanhar a cotação do real nessa cesta de moedas. Isto é, ele não deve interferir no processo de valorização dessa cesta. Mas se nessa cesta de moedas, o real, por alguma condição de movimento de capitais, tiver uma valorização maior, acho que é dever dele intervir.
O sr. não vê então nenhum grande problema na economia?
Por incrível que pareça, na metade do ano que vem vamos começar a nos preocupar com a inflação. E aí entra a questão fiscal. No período em que a economia privada deu esse vácuo, ele (governo) entrou, corretamente. Só que está na hora de sair. Porque, se acumularmos crescimento do consumo interno – que vai ocorrer -, volta dos investimentos e nível de gasto do governo tão elevado, vamos começar a criar tensão inflacionária, que vai desembocar na alta dos juros.
De qualquer modo, a partir do segundo semestre de 2010 pode haver um problema para o BC?
Acho que sim. Nós podemos começar a ver uma inflação mais próxima de 5% do que de 4,5% já no ano que vem.
Como o sr. vê o crescimento do Brasil em 2010?
Nós revisamos nossa projeção para crescimento do PIB em 2010 de 5% para 6%.
Qual sua expectativa para o relatório trimestral de inflação?
Acho que todas as projeções para este ano e para o ano que vem apontam ainda para um número por volta de 4,5% (IPCA). O que estou colocando como preocupação é uma projeção um pouco mais adiante, que não é bem o objetivo do relatório de inflação do BC.
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Conjuntura: Demanda, com aumento do emprego e da renda, levou analistas a um forte aumento das projeções

Sergio Lamucci e João Villaverde, de São Paulo – VALOR
O cenário positivo que se desenha para a demanda interna torna cada vez mais provável um crescimento na casa de 5% em 2010, e já há até quem aposte em alta de 6%, como o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros, da Quest Investimentos. O consumo das famílias e o investimento devem liderar a expansão, com as despesas do governo como coadjuvante, um resultado da combinação de juros baixos, mercado de trabalho em recuperação, gastos públicos elevados e redução das incertezas globais. Para este ano, boa parte dos bancos e consultorias já aponta para um Produto Interno Bruto (PIB) ligeiramente positivo.
O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, diz que uma alta expressiva do PIB em 2010 está praticamente contratada. “A política monetária e a política fiscal serão muito expansionistas. Elas estarão trabalhando como nunca para estimular o crescimento”, afirma Vale, que revisou na semana passada a sua projeção de 4% para 5%. Para ele, apenas uma piora muito acentuada do cenário global pode comprometer um PIB forte em 2010, algo como um “novo Lehman Brothers” – o banco de investimentos que quebrou em setembro de 2008, agravando a crise. Vale acredita em crescimento de 5% do consumo das famílias, estimulado pela alta de 5% da massa salarial acima da inflação, e de 11% dos investimentos na construção civil e em máquinas e equipamentos (a formação bruta de capital fixo, FBCF) – em 2009, ele projeta queda de 10,2% da FBCF.
Mendonça de Barros passou a apostar em crescimento de 6% em 2010 depois da divulgação dos números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de agosto, que revelou um saldo positivo de 242,1 mil postos de trabalhos formais. A renda segue firme e a geração de emprego está melhor do que se esperava, diz ele, observando que a Quest passou a trabalhar com uma alta do PIB neste ano de 0,2% – antes do Caged de agosto, estimava queda de 0,3%. O Morgan Stanley, que chegou a prever queda de 4,5%, hoje estima recuo de apenas 0,5%.
“O consumo das famílias deve continuar forte, e o investimento também deve voltar, estimulado pela demanda. Além disso, o governo está gastando que nem louco”, afirma Mendonça de Barros, ministro das Comunicações no governo Fernando Henrique Cardoso. Apenas as exportações não devem ter uma reação das mais expressivas, já que o mundo ainda crescerá pouco no ano que vem.
Para ele, o ritmo forte de expansão da economia, com um mercado de trabalho tão pujante, pode exigir aumentos de juros já no primeiro semestre do ano que vem. Nesse cenário, o governo deveria mudar a política fiscal, diz Mendonça de Barros. Com a demanda privada aquecida, manter os gastos públicos em alta expressiva é uma má ideia. “A inflação não vai dar saltos, pulando de 4,5% para 8%, mas pode ficar pressionada por conta do mercado de trabalho muito aquecido, elevando os preços dos serviços.” Vale diz que há de fato o risco de alta dos juros no ano que vem, mas vê um eventual aumento da taxa Selic, hoje em 8,75% ao ano, apenas no quarto trimestre. Se ocorrer, será mais por causa das perspectivas para a inflação em 2011 do que pela pressão no ano que vem, já que a capacidade ociosa na indústria é grande.
O diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco, Octavio de Barros, também mudou a sua projeção de crescimento do PIB para 2010, elevando-a de 4,9% para 5,4%. “A maior surpresa em nosso cenário certamente tem sido o comportamento muito favorável do mercado de trabalho e da renda”, diz Barros. Segundo ele, os efeitos da redução dos juros, dos estímulos fiscais e da rede de proteção social criada nos últimos anos “foram capazes de preservar o emprego de forma importante, levando à rápida recuperação da confiança dos consumidores e, consequentemente, à manutenção do otimismo empresarial e da produção voltada ao mercado doméstico”.
O economista chama a atenção para o desempenho das vendas no comércio, que podem crescer algo próximo a 5% neste ano, descontada a inflação. Num quadro de preservação da demanda interna, com perspectiva de continuidade da expansão dos estímulos fiscais e da ampliação de alguns benefícios já contratados – o salário mínimo deve subir quase 10% em 2010, por exemplo -, ele mudou as suas estimativas para o PIB deste ano e do próximo. Para 2009, o Bradesco, que projetava queda de 0,5% prevê agora uma alta de 0,1%. “Em nosso novo cenário, a demanda doméstica continua a ser o motor do crescimento, puxada pelo consumo das famílias e os gastos do governo. Os investimentos retornarão em breve, mas esperamos uma contribuição bem menor do que os demais ainda em 2010″, afirma Barros, ressalvando, contudo, que as inversões podem ser mais fortes do que ele projeta, “por conta das boas perspectivas para a economia e da farta disponibilidade de financiamento doméstico e externo. ”
Para Rodrigo Azevedo, ex-diretor do Banco Central (BC) e sócio-sênior da JGP Gestão de Recursos, o Brasil deverá alcançar crescimento de 5% no PIB do próximo ano, impulsionado pela melhora do setor exportador e do mercado interno, sustentado pelo crescente aumento da renda. “Há revisão para cima no crescimento mundial, tendo uma retomada do comércio em primeiro plano. Como já observamos uma puxada das exportações acima das previsões, é possível supor que o quadro para 2010 seja melhor”, analisa Azevedo, que trabalha com um quadro mais favorável para as exportações do que a média dos analistas. Para ele, a “profunda” retração pela qual passou a indústria entre o fim de 2008 e os primeiros meses de 2009 ampliou a capacidade ociosa, que foi e está sendo lentamente retomada. Azevedo destaca ainda que o governo federal não dá sinais de que vai segurar os gastos públicos.
O economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, diz que, do ponto de vista da oferta, a indústria é que vai brilhar em 2010. Ele prevê alta de 9% para a produção industrial, uma reação forte à queda de 7% esperada para 2009. Os setores ligados ao mercado interno e que produzem bens de capital devem ter bom desempenho, avalia ele. Do lado da demanda, ele aposta em forte expansão do consumo das famílias, de 5,2%, e do investimento, de 15,8%.
Outro fator que vai ajudar o crescimento é a herança estatística (o “carry over”) que 2009 deixará para 2010, como destaca Azevedo. Segundo ele, se o PIB deste ano ficar estável, como ele prevê, o “carry over” será de 2,5%. Com isso, se a economia não crescer nada em relação ao nível do fim deste ano, a expansão em 2010 será de 2,5%. Para comparar, o “carry over” que 2008 deixou para 2009 foi negativo em 1,5%.
Thaís Zara, economista-chefe da Rosenberg & Associados, tem previsões menos otimistas para o próximo ano, embora aposte em crescimento de 0,3% em 2009. “O fundo do poço já passou, mas o crescimento mundial não será tão forte quanto se imagina”, afirma ela, que aposta em crescimento de 3,5% para o ano que vem. O fim das desonerações tributárias deve tirar um pouco de força da economia nos próximos trimestres, acredita ela. Nem a perspectiva de aquecimento da demanda externa por produtos nacionais empolga a analista, que vê no câmbio valorizado um entrave para o impulso exportador, embora os bens primários devam melhorar o saldo comercial do Brasil.
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Carteira de empréstimos do banco estatal cresce 56% no 1º semestre, contra 19,7% da média do mercado, e atinge R$ 99 bi
Como o BB, Caixa eleva crédito após retração dos bancos privados e já deve ter passado Santander em patrimônio em agosto
Sergio Lima – 27.mai.09/Folha Imagem

A presidente da Caixa, Maria Fernanda Ramos Coelho; banco estatal elevou concessão de empréstimos apesar da crise global
GUILHERME BARROS COLUNISTA DA FOLHA
Depois do Banco do Brasil, agora é a vez da Caixa Econômica Federal. Os números do balanço do segundo trimestre, que serão divulgados hoje, mostram que a Caixa registrou o maior volume de empréstimos da sua história.
O grande destaque foi o financiamento habitacional, que fez com que a Caixa se tornasse maior do que foi o extinto BNH (Banco Nacional da Habitação, o principal agente de financiamento imobiliário dos anos 1970 e 1980), em valores e número de imóveis financiados.
A Caixa atingiu, em junho, um total de R$ 99,2 bilhões em empréstimos, um crescimento de 56,1% em relação a junho do ano passado. Como comparação, a expansão média do crédito no mercado nesse mesmo período foi de 19,7%.
Um dos principais responsáveis por esse desempenho da carteira de créditos foi a habitação. Por conta principalmente do programa Minha Casa, Minha Vida, uma das prioridades do governo Lula, a Caixa destinou ao setor R$ 17,4 bilhões no semestre, alta de 90% em relação ao mesmo período de 2008.
Com esse desempenho, a instituição praticamente empatou com o Santander no quarto lugar no ranking de ativos dos bancos no país. A diferença é mínima, de poucos milhões.
Em junho, os ativos totais da Caixa somavam R$ 323,7 bilhões, um crescimento de 22,4% em relação ao do ano passado. Já os ativos do Santander totalizavam R$ 323,8 bilhões. Desde a aquisição do ABN Amro pelo Santander, a Caixa tinha caído do quarto para o quinto lugar no ranking de ativos. A expectativa de técnicos do governo é de que a Caixa já tenha, em agosto, recuperado o quarto lugar.
O balanço é de junho, e a Caixa continuou no mesmo ritmo acelerado do expansão do crédito habitacional.
A Caixa também mostrou uma recuperação expressiva do lucro, de R$ 706 milhões no período de abril a junho, um crescimento de 56,2% em relação ao primeiro trimestre, que registrou R$ 452 milhões, resultado na época prejudicado pelas provisões diante da crise.
Já a rentabilidade sobre o patrimônio líquido foi de 17,9% no primeiro semestre, uma das mais altas do setor.
Já o lucro da Caixa de janeiro a junho somou R$ 1,2 bilhão, abaixo dos R$ 2,5 bilhões do ano passado. Apesar dessa queda, o governo ficou bastante satisfeito com o balanço, até porque, como a instituição é 100% pública, seu resultado não interfere diretamente no comportamento do mercado.
Além disso, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tinha dado duas missões à Caixa na crise. Uma, de acelerar o financiamento à habitação, e a outra, de baixar as taxas de juros. As duas foram cumpridas. O financiamento à habitação praticamente dobrou, e as taxas de juros foram reduzidas seis vezes no período.
Mesmo sendo mais agressiva no crédito, a inadimplência caiu, de 4,5% para 3,9% para pessoas físicas (créditos não pagos acima de 90 dias), e de 3,2% para 2,4% para jurídicas.
O desempenho da Caixa reforça a declaração, na semana passada, do ministro da Fazenda, Guido Mantega, de que, se os bancos privados não fizerem nada, vão “comer poeira”. A afirmação foi feita ao comemorar a retomada pelo Banco do Brasil do primeiro lugar em ativos no ranking dos bancos no país, perdida em novembro com a fusão Itaú Unibanco.
Os resultados de BB e Caixa mostram a ação firme tomada pelos bancos públicos, a partir de orientação do governo, de irrigar crédito na economia após a crise financeira global, que congelou o setor. Já os bancos privados foram mais conservadores e pisaram no freio, temendo a inadimplência e os efeitos incertos da crise.
A participação dos bancos públicos no bolo total do crédito ofertado subiu de 34,5% em junho de 2008 para 38,6% no mesmo mês deste ano. A carteira dos bancos oficiais aumentou 33,8% em 12 meses, contra 12,3% dos bancos privados, segundo pesquisa do Inepad com dados do Banco Central.
Os números da Caixa podem alimentar ainda mais a polêmica entre governo e banqueiros privados sobre sua atuação pós-crise. Os ministros da Fazenda, Guido Mantega, e do Planejamento, Paulo Bernardo, atacaram as declarações de banqueiros privados que consideram arriscada a iniciativa do governo de baixar as taxas dos bancos públicos em plena crise.
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Marcelo Neri – VALOR
O CrediAmigo, associado ao Banco do Nordeste, constitui o maior programa de crédito produtivo popular do Brasil, com cerca de dois terços do mercado nacional, e é um dos dois maiores programas de microcrédito da América Latina. Além de tamanho, o programa tem qualidade. Em 2008, o CrediAmigo foi escolhido pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), entre todas as instituições do continente, como vencedor do prêmio Excelência em Microfinanças (como “instituição regulada” que corresponde ao prêmio de microcrédito). A expansão do programa para fora da região Nordeste, a começar pelas comunidades de baixa renda do município do Rio de Janeiro como Rocinha, Rio das Pedras, Maré e Complexo do Alemão – que será oficializada amanhã -, é emblemática.
Estamos acostumados a enviar recursos e tecnologia para o Nordeste. Na verdade, observamos recentemente outros fluxos invertidos no campo das políticas sociais de última geração, como a ida do Grameen Bank e dos programas de transferência condicionada de renda (isto é, o genérico do Bolsa Família) para Nova York, a partir do início de 2007. A crise internacional ora em curso tenderá a ampliar estes movimentos de tecnologia social na direção contrária à usual.
O CrediAmigo, iniciado em 1997, é autossustentável, a taxa de inadimplência da carteira em 31 de dezembro de 2008, ou seja, em plena crise de crédito, era de 1,13%, caindo de 2,09 em 2002. O programa tem suficiência operacional, não depende de benefícios fiscais e gera lucro de R$ 50/ano por cliente, cálculo que usa o custo de oportunidade de juros de mercado para compor seu funding. O programa se aproxima do que podemos chamar de política social de mercado. Um segredo do programa está na sofisticada estrutura de incentivos. Em primeiro lugar, o esquema de crédito solidário adotado no CrediAmigo, que segue o modelo notabilizado pelo Grameen Bank, funciona como incentivo para a separação dos bons e dos maus tomadores pelos próprios participantes potenciais do programa. O esquema é ilustrativo da possibilidade de soluções simples e baratas para afrouxar os problemas de informação assimétrica e seu corolário que resultam em restrição de crédito aos produtores pobres. Enganam-se aqueles que acham que o esquema de grupo solidário “não pegou” nas cidades brasileiras. Em segundo lugar, a parceria com a Oscip Nordeste Cidadania permitiu desatrelar os encargos e os incentivos dos agentes de crédito do programa da legislação trabalhista pública. O agente de crédito é motivado pela parte variável de sua remuneração associada ao tamanho e à performance de sua carteira. A remuneração dos assessores funciona como um autêntico sistema de salário-eficiência estudado na literatura econômica. Por último, mas também importante, há separação administrativa entre o CrediAmigo e o restante do Banco do Nordeste, o que ajuda a manter a transparência operacional do programa e os incentivos à performance dos gestores do comando do programa.
Além disso, qual o impacto do programa para os seus clientes, sabidamente excluídos do sistema financeiro? Abordamos isto com o que provavelmente constitui a base de microdados mais completa sobre microcrédito no país, perfazendo, até dezembro de 2008, mais de 400 mil clientes. A base acompanha balanços e demonstrativos de resultados completos dos mesmos negócios ao longo de grandes intervalos de tempo, atingindo, no caso dos clientes mais antigos, mais de uma década desde o primeiro registro – adicionada de quatro observações anuais para os anos de 2005 a 2008. O fato de a base também incluir dados de estoques de ativos e de fluxo de despesas e rendas familiares permite calcular a riqueza líquida e a emancipação da pobreza das pessoas físicas e jurídicas de maneira integrada. A evolução do programa demonstra capacidade de atender clientes de renda inicial cada vez mais baixa. Por exemplo, o lucro bruto inicial de alguém que entrou em 2004 no programa era R$ 1.261, caindo 13,1% em termos reais até 2008.
Quanto maior o tempo de exposição dos clientes ao programa, maior é o seu impacto. Por exemplo, aqueles que entraram em 2003 tiveram um ganho de 82% no lucro em relação a 2008, enquanto os que ingressaram no ano passado tiveram um ganho de 13,84% em relação à última observação no mesmo ano. Em termos gerais, há um ganho de 11 a 14 pontos percentuais no lucro por ano de permanência adicional no programa. Entre toda a clientela ativa em 2008, o ganho de lucro bruto observado desde a entrada no programa até a data foi de 42,51%. Resultados semelhantes foram observados para todos os conceitos operacionais dos negócios, quais sejam, redução da escala dos clientes iniciais e aumento cumulativo do tamanho do negócio à medida que os clientes permanecem no programa. Em suma, o programa reúne uma tendência de ganhar força no tripé “sustentabilidade institucional, retorno aos clientes e maior foco na pobreza”.
O desafio do programa é ofertar crédito produtivo de maneira sustentável à população de renda mais baixa. Isto incluiu a criação de um produto chamado “Comunidade”, que corresponde a um Banco Comunitário (Village Bank), iniciado em 2005 com grupos solidários de cinco a 10 vezes maiores que o CrediAmigo convencional. O Comunidade impressiona não só como programa de microcrédito aos mais pobres, mas como microsseguro embutido nos mecanismos de poupança envolvidos no seu desenho – sem falar no processo de formação de capital social. Outra linha fundamental é explorar a sinergia dos produtos do CrediAmigo com programas sociais, em particular o Bolsa Família. Nossa avaliação quantitativa revela que o beneficiário do Bolsa Família possui um negócio menor, mas tem um ganho superior ao longo do tempo. Para se beneficiar plenamente desta interação com o microcrédito, o Bolsa Família na sua versão 2.0 terá de desenvolver dispositivos como o americano Earned Income Tax Credit (EITC), a fim de manter corretos os incentivos ao trabalho e a formalização.
Mais do que criar portas de saída do Bolsa Família, precisamos abrir portas de entrada dos pobres aos mercados das quais a estrutura de incentivos ao trabalho e o microcrédito são as chaves.
Marcelo Côrtes Neri , chefe do Centro de Políticas Sociais do IBRE/FGV e professor da EPGE/FGV, é autor de”Microcrédito: o Mistério Nordestino e o Grameem brasileiro”, “Cobertura Previdenciária: Diagnóstico e Propostas” e “Ensaios Sociais”. E-mail: mcneri@fgv.br
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Armando Castelar Pinheiro – VALOR
Faz algum tempo a The Economist fez um interessante artigo sobre como os americanos estavam voluntariamente segregando-se, passando a viver em comunidades cada vez mais homogêneas. À época em que lá vivi isso já me chamara a atenção: havia gente que se mudava para cidades com impostos baixos e poucos serviços públicos (por exemplo, casais sem filhos, que não queriam subsidiar a educação alheia), ou idosos que viviam em condomínios onde era proibida a entrada de crianças. Mas a revista batia em outra tecla: a segregação por semelhança de valores, opiniões políticas ou religião.
Ainda que se compreenda querer viver e criar os filhos junto a pessoas que também cultivem os nossos valores, esse processo é alienante e, no limite, pode até enfraquecer a democracia, já que reforça a diferença de visões de grandes segmentos da população, em lugar de mantê-las em constante cheque pelo convívio com aqueles que vêm o mundo de outra forma. A matéria ilustrava essa situação com uma observação de Norman Mailer, de que não sabia como Bush se elegera presidente, pois não conhecia ninguém que votara nele.
Essa matéria me vem com frequência à cabeça, em geral com pensamentos semelhantes ao de Mailer. Semana passada dela me lembrei por conta dos números do PIB no primeiro trimestre de 2009. No agregado, o número surpreendeu positivamente, com queda de 0,8% em relação ao trimestre anterior, bem menos que os 2% de contração em que apostava o mercado. A surpresa levou, em apenas uma semana, a uma revisão substantiva das projeções coletadas pelo Banco Central para a variação do PIB no ano, que deve continuar sendo ajustada para cima nas próximas semanas.
A abertura do número mostra, porém, que a situação é muito díspar dependendo do setor da economia. Na comparação anual, em que o PIB caiu 1,8%, vai-se de uma queda de 12,6% na indústria de transformação a uma alta de 7,0% em outros serviços (serviços prestados às empresas e às famílias, de alojamento e alimentação, associativos, domésticos, manutenção e reparação, e saúde e educação mercantil). Parte dessa diferença tem uma explicação simples: as maiores quedas ocorreram em setores que mantêm estoques (indústria, construção etc.), enquanto as altas se deram nos serviços, onde esses são quase inexistentes. De fato, nos dois últimos trimestres a economia reduziu o total de estoques em 2,7% e 3,3% do PIB, respectivamente, as maiores contrações desde o último trimestre de 2002.
As disparidades no desempenho setorial também se explicam pela diferença no comportamento dos outros elementos da demanda agregada: enquanto a formação bruta de capital fixo (FBCF) caiu 14,0%, o consumo das famílias subiu 1,3% e o da administração pública 2,7%. A contração da FBCF impressiona, já que ainda no terceiro trimestre de 2008 ela se expandira 19,7%. Com isso, a taxa de investimento (incluindo a FBCF e a variação de estoques) despencou de 18,4% para 13,4% do PIB entre os primeiros trimestres de 2008 e 2009.
O governo não dá sinais de que vá desacelerar o seu consumo, de forma que ele deve continuar contribuindo para a expansão da economia. Mas ainda que seja um elemento relevante da demanda (22,4% do PIB), seu ritmo de crescimento atual não diverge muito da média da última década (3,0%) e não deve variar tanto daqui para frente. Prospectivamente, portanto, o desempenho da economia vai ser determinado pelo que ocorrer com o processo de desestocagem, a FBCF e o consumo das famílias. Em que medida é possível que eles continuem evoluindo de forma tão díspar?
A redução de estoques foi um traço comum à maioria dos países nos dois últimos trimestres e sua atípica intensidade refletiu a forma súbita como as perspectivas mudaram após a quebra da Lehman Brothers. No Brasil, seu ritmo foi o mais intenso na série do IBGE, iniciada em 1995, com uma queda acumulada em dois trimestres de 6,0% do PIB, que só encontra paralelo na transição política de janeiro de 2003 (contração de 5,4% do PIB). Esse também é o único outro ponto da série do IBGE com redução dos estoques por dois trimestres consecutivos, o que sugere, inclusive por fatores sazonais, que esse processo deve perder intensidade no atual trimestre.
A FBCF deve continuar contraindo, mas em ritmo mais moderado do que no primeiro trimestre de 2009, quando houve uma queda dessazonalizada de 12,6% contra o trimestre anterior. O baixo nível de utilização de capacidade, a queda nas exportações e a piora nas expectativas dos empresários explicam esse comportamento, mas devem ter seu efeito atenuado conforme a produção se recupera, o ciclo de desestocagem termina, a demanda por commodities se recupera, e os sinais de que o pior da crise passou vão se multiplicando. A melhora nas condições de financiamento também deve ajudar, com a queda nos juros e a recuperação no mercado de capitais.
A maior surpresa no PIB foi o comportamento do consumidor. Em certo sentido, é como se ele e os analistas de mercado experimentassem a mesma dissonância cognitiva sobre os efeitos da crise no Brasil que os americanos de que fala a matéria da Economist. Mas há também fatores objetivos que ajudam a explicar porque desta vez a reação do consumidor foi diferente de outras crises. O nível e a boa gestão das reservas evitaram que o país tivesse uma crise de financiamento externo e permitiram a adoção de políticas contra cíclicas, em oposição ao ocorrido em crises anteriores, com a redução dos juros e incentivos como as isenções tributárias sobre bens de consumo. Em adição, a desvalorização cambial não se transformou em inflação, preservando o poder de compra dos trabalhadores. O crédito ao consumo, apesar de mais caro, curto e seletivo, também não desapareceu.
Ainda que o desempenho do PIB melhore nos próximos trimestres, ele não deve retornar tão cedo ao ritmo forte de expansão observado até meados do ano passado. O que não impedirá o Brasil de registrar um desempenho melhor que a média dos países desenvolvidos, ainda que não tão bom quanto o de emergentes como China e Índia.
Armando Castelar Pinheiro, analista da Gávea Investimentos e professor do IE – UFRJ. Escreve mensalmente às sextas- feiras.
Tags: Armando Castelar Pinheiro, bens de Capital, consumo, crise, estoques, gastos públicos, mercado, mercado interno, PIB, recessão
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Apesar disso, economista elogia trabalho do BC durante a crise
Ricardo Leopoldo – O Estado SP
O ex-presidente do Banco Central (BC) Affonso Celso Pastore disse que o atual presidente da autoridade monetária, Henrique Meirelles, precisa ser um pouco mais consistente na comunicação, a fim de coordenar de forma eficiente as expectativas de mercado, especialmente as relacionadas às decisões de política monetária.
“Ele (Meirelles) tem de vir a público e deixar muito claro que está defendendo certos pontos de vista que ajudam o mercado a entender a sinalização. Se há um erro que o presidente do Banco Central está cometendo, é esse. As outras ações são todas acertadas”, comentou Pastore, em entrevista concedida ontem à Agência Estado.
Segundo Pastore, as pressões políticas emanadas de setores do governo para que os juros baixem com maior vigor fazem com que Meirelles se comunique com dois públicos: um deles é o mercado e o outro é composto por integrantes do governo que desejam uma política monetária mais flexível.
Na avaliação de Pastore, foi correta e adotada por critérios técnicos a decisão da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de cortar os juros em 1 ponto porcentual, para 9,25% ao ano. A ata do encontro do BC, que será divulgada hoje, na expectativa dele, não mostrará nenhum otimismo com a recuperação da economia.
Pastore defende que o BC explique que “o hiato do produto está grande, que essa é uma força desinflacionária e que o investimento está baixo, o que freia a demanda”. O ex-presidente do Banco Central acredita que, como a inflação está sob controle, há espaço para os juros caírem pelo menos mais 0,50 ponto na próxima reunião, prevista para julho.
Ele prevê que o PIB deve registrar uma retração de 0,5% a 1% neste ano, mas voltará a crescer no quarto trimestre de 2009 a uma taxa anualizada de 3,5%. Em função do baixo vigor da recuperação do nível de atividade, ele defende que o juro efetivo deve ficar abaixo do juro de equilíbrio por um bom período, talvez até um ano. Para 2010, ele espera uma expansão do PIB de 3,5%.
O ex-presidente do BC diz que respeita o excelente trabalho que a equipe de Meirelles tem feito durante a crise. “O Brasil tem de usar políticas contracíclicas, porque está enfrentando uma crise de demanda. O BC reagiu baixando a taxa de juros, reduziu os compulsórios e criou o Fundo Garantidor de Crédito.” Com isso, diz ele, o crédito está voltando gradativamente. “Se a recessão do primeiro e segundo trimestres está se encerrando, isso se deve muito, se não quase exclusivamente, às políticas contracíclicas adotadas pelo BC.”
Tags: Affonso Celso Pastore, BC, copom, crise, demanda, governo federal, henrique Meirelles, inflação, Juros, mercado, recessão, Selic
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Indústria retoma crescimento em julho, prevê Lupi
Para o ministro, meta de um milhão de empregos será alcançada
Jamil Chade – O Estado SP
O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, afirmou ontem que o mercado de trabalho deve melhorar a partir do segundo semestre. “Já atravessamos o fundo do poço e superamos a pior fase”, garantiu Lupi, que está em Genebra para reuniões da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Na segunda-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva será um dos principais convidados da conferência da OIT sobre emprego e insistirá que não está na hora de flexibilizar os direitos trabalhistas.
Ele acredita que o atual trimestre já registrará um aumento do PIB de cerca de 1%, recuperando a queda do primeiro trimestre. “No ano, teremos um crescimento do PIB de 2%”, afirmou Lupi. No primeiro trimestre, a queda foi de 0,8% e o País entrou em recessão técnica.
Lupi garante que essa recessão não terá vida longa. “A queda do PIB já foi menor do que se esperava”, disse. “Nesses meses antes o final do primeiro semestre já teremos uma expansão da economia e vamos recuperar a perda de 0,8% e ainda ter um pequeno salto.”
A volta do crescimento, porém, está relacionada ao trimestre anterior, que havia sido negativo. Em comparação ao mesmo período de 2008, a queda deve continuar.
SEGUNDO SEMESTRE
Um crescimento mais consistente, porém, viria apenas no segundo semestre, segundo Lupi. “A segunda parte do ano será o período da recuperação”, disse. Ontem, em um outro evento, o diretor da OIT, Juan Somavia, alertou ministros e embaixadores de vários países: “Não abram a champagne, pois a situação é ainda muito séria”.
Lupi aposta na redução acelerada da taxa de juros no restante de 2009. Nesta semana, o Banco Central cortou a taxa em 1%, fazendo com que o índice esteja pela primeira vez abaixo de 10% em 13 anos.
Lupi acredita que o BC não deverá mudar o rumo da política monetária. “A queda na taxa de juros vai ajudar muito e incentivar empresas a investir na produção”, disse.
Quanto à criação de empregos, Lupi insiste que o Brasil vai conseguir gerar 1 milhão de novos postos de trabalho no ano. Só em dezembro, 600 mil trabalhadores ficaram sem emprego no País.
“O Brasil já entrou na fase de crescimento contínuo de geração de empregos”, disse o ministro. Somos o único país do G-20, salvo a China, que está criando postos de trabalho na recessão”, afirmou.
NOVOS NÚMEROS
Para o ministro, maio registrará uma nova alta na geração de empregos, superando os números de abril. “Mais de 106 mil postos de trabalho serão criados em maio”, garantiu.
“A indústria, que era o setor que mais demitia, já registrou em abril um equilíbrio entre demissões e contratações”, disse.
Lupi admite que vários setores levarão alguns meses para se recuperar . “Setores como o de máquinas agrícolas ainda estão registrando dados que são muito fracos. No setor da siderurgia, a recuperação ainda pode demorar também”, alertou. “O bom momento para a indústria virá a partir de julho.”
No setor automotivo, nem a isenção do IPI acabou com as demissões. “A dependência externa dificulta mais alguns setores”. Ele não acha necessário ampliar o seguro desemprego. Até agora, 300 mil pessoas foram beneficiadas com o prazo maior do seguro.
Tags: , Crescimento, crise, demissões, desemprego, emprego, mercado, mercado de trabalho, PIB, trabalhadores
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”Desafio do Brasil é crescer como os demais países do Bric”
Para isso, diz o economista Nouriel Roubini, o País precisa investir mais na infraestrutura e na educação
Ricardo Leopoldo – O Estado SP
O economista Nouriel Roubini, professor da New York University, disse ontem, em São Paulo, que o maior desafio do Brasil é elevar a média de crescimento econômico, que oscilou de 4% a 5% nos últimos dois anos, para uma taxa próxima da russa, chinesa e indiana, que variou de 8% a 10% no mesmo período.
“O Brasil tem grande potencial de expansão, uma quantidade extraordinária de recursos naturais, mas precisa elevar o crescimento para um nível próximo do das outras nações do Bric”, comentou, referindo-se ao acrônimo formado pelas iniciais desses quatro países.
Ao discursar no evento “Perspectivas da Economia Mundial – Visão Geral e os Impactos no Brasil”, promovido pela Serasa Experian, Roubini relacionou os fatores que vão potencializar o avanço do Produto Interno Bruto (PIB) do País: ampliação dos investimentos em infraestrutura, melhora da qualidade do ensino e reformas capazes de dar mais eficiência ao setor público e estimular as empresas a ampliar a Formação Bruta de Capital Fixo.
No geral, Roubini fez avaliações positivas do Brasil. Ele destacou a “estabilidade macroeconômica, que perdura por vários anos”, promovida de forma significativa pelo Banco Central (BC), “que tem independência” para controlar a inflação. “Isso fez com que o País apresente hoje resiliência, o que não permitirá que ocorra o risco de crise financeira, ao contrário do que aconteceu em 1999 e 2002.”
O acadêmico atribuiu o bom desempenho do País, em meio à recessão mundial, a outros elementos, como os resultados das contas externas, que não apresentam déficit de transações correntes elevado, e a solidez dos bancos, o que, para ele, está relacionada com a adequada regulação do sistema financeiro pelo governo. Ele usou o exemplo do País para defender a ação do Estado sobre a atividade das instituições financeiras em todo o planeta.
“Os governos devem agir sobretudo para evitar desequilíbrios macroeconômicos”, comentou ele, acrescentando que isso também deveria ocorrer para coibir a expansão de bolhas de ativos financeiros. “A crise nos EUA, por exemplo, não afetou só o mercado de hipotecas subprime, mas todo o sistema de crédito”, disse.
“Não foi à toa que surgiu todo um abecedário de ativos financeiros que visavam a lastrear operações com diversos títulos, como os CDOs”, disse, referindo-se à sigla em inglês das Obrigações de Dívida Colateralizada, que dão ao portador o direito de ficar com o ativo dado como garantia, caso as obrigações não sejam honradas. “A atual crise mostrou que estão errados os que defendem o laissez-faire, pois o livre mercado, da forma como vimos até recentemente, causou problemas graves à economia mundial.”
FRASES
Nouriel Roubini
Economista
“A atual crise mostrou que estão errados os que defendem o laissez-faire, pois o livre mercado, da forma como vimos até recentemente, causou problemas graves à economia mundial.”
“Governos devem agir sobretudo para evitar desequilíbrios.”
Tags: Bric, Crescimento, crise, emergentes, mercado, Nouriel Roubini
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Paula Pacheco e Ivana Moreira – O Estado SP
O mercado imobiliário de São Paulo começa a dar sinais de recuperação. Em relação ao desempenho do primeiro trimestre de 2008, os números são desanimadores. Mas a evolução das vendas e dos lançamentos entre janeiro e março indica reação consistente, segundo levantamento do Sindicato da Habitação da capital, o Secovi.
As vendas de imóveis novos cresceram 39% em março, em relação a fevereiro. No comparativo entre os primeiros trimestres de 2008 e 2009, houve queda de 43%. Em boa parte, a melhora ocorreu graças à população de menor poder aquisitivo, que tem fechado mais negócios. O fôlego extra, segundo a entidade, veio com o programa “Minha Casa, Minha Vida”, do governo federal, fez os consumidores voltarem às compras.
No caso dos lançamentos, a recuperação é mais lenta. De fevereiro a março, o crescimento foi de 28,9%. Já na comparação do primeiro trimestre com o mesmo período de 2008, há queda de 55%. A diferença entre o desempenho das vendas e dos lançamentos ocorre por causa dos estoques muito elevados desde o início da crise.
A estimativa é que 2009 termine com 28 mil unidades habitacionais lançadas. Caso se confirme, o setor voltará aos níveis mais modestos de 2005 e 2006. “A economia não é mais a mesma, e na construção não é diferente. Não voltaremos mais aos níveis de 2007 (39 mil unidades lançadas) e 2008 (com 34 mil unidades)”, analisa Cláudio Bernardes, vice-presidente da entidade.
Celso Petrucci, economista-chefe do Secovi, acredita que a recuperação deve se acentuar no segundo semestre. Uma pesquisa feita no início do mês mostrou que as vendas de abril cresceram 25% em relação a março.
O diretor comercial da InPar, Enzo Riccetti, também atribui o reaquecimento aos consumidores de menor poder aquisitivo. “Participamos do Feirão da Caixa no Paraná no fim de semana passado e até agora o plantão está cheio.”
Tags: Casa própria, construção, imobiliário, mercado, Minha Casa-Minha Vida, moradia, programa habitacional
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REGINA CARDEAL – Agencia Estado
SÃO PAULO – O Brasil e o Peru são possíveis candidatos para uma elevação da nota de crédito (upgrade) após provarem que são resilientes à crise global, embora não haja planos imediatos de elevação do rating, disseram analistas da agência de classificação de risco Moody´s Investor Service. “As crises revelaram a capacidade de resistência dos países aos choques e o Brasil e o Peru se saíram muito bem”, disse Mauro Leos, responsável da Moody´s para os ratings regionais, em teleconferência.
Enquanto a Standard & Poor´s e a Fitch Ratings conferiram grau de investimento à dívida soberana do Brasil e do Peru no ano passado, a Moody´s assumiu uma postura mais cautelosa, mantendo os dois países um nível abaixo do grau de investimento. Leos destacou que a Moodys se sente confortável ao elevar ratings durante uma crise, como fez com o Chile, mas sua equipe de analistas se reservará o julgamento até que veja mais dados econômicos sobre o impacto da crise. Os ratings para a dívida soberana do Brasil e do Peru têm perspectiva estável e normalmente a Moody´s altera a perspectiva antes de mudar o rating.
Segundo o analista sênior da Moody´s Gabriel Torres, o México está bem estabelecido três níveis acima do grau de investimento e tem amplo acesso aos mercados. O México, no entanto, é vulnerável por causa de sua dependência dos EUA, acrescentou. Torres indicou que a Moody´s não tem pressa para mudar o rating do México.
Os países da América Latina estão se saindo melhor do que muitos outros na desaceleração global, particularmente do que a Europa Oriental. “Os ratings da dívida da região começaram em geral mais baixos do que os de outras áreas. De fato, a crise tem mostrado que alguns são mais fortes do que muitos pensavam”, disse Torres. Enquanto isso, o impacto político da crise foi muito limitado e os sistemas bancários se mantiveram, em geral, sólidos, ele acrescentou.
No lado fiscal, alguns países da América Latina apresentavam superávits até serem atingidos pela crise e o declínio na renda não foi suficientemente dramático para atingir a maioria dos países, disse Torres. A Moody´s prevê um déficit fiscal médio de 3% do Produto Interno Bruto em 2009.
No caso da Argentina, o país não pode ser rebaixado mais a menos que haja um default ou risco iminente de default. “Em geral, estamos confortáveis com nossos ratings na região”, disse Leos. As informações são da Dow Jones.
Tags: agencias de risco, Argentina, crise, Divida, fiscalidade, mercado, Mexico, Moody's, notação, Peru, PIB, rating
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Especialistas afirmam que, nesta crise, o Brasil está mais forte porque, por meio de uma política distributiva, fortaleceu o mercado interno.
Valor: Até que ponto a distribuição blindou a economia?
Delfim Netto: Isso é parte do mercado interno um pouco mais forte que temos hoje. Uma crítica que se faz é a de que o Bolsa Família está dando o peixe em vez de dar a vara de pescar. O programa é acompanhado por alguns controles, a obrigação de frequentar escola, por exemplo. Deve haver naturalmente alguma fraude. Mas há pessoas que devolvem o benefício porque já conseguiram uma renda, o que mostra que o país tem áreas de excelência e indivíduos que fraudam. O Bolsa Família nos ajudou a tolerar a economia de mercado.
Samuel Pessoa: Os programas sociais são responsáveis por esse crescimento interno e por um padrão regional de distribuição. Parece que o setor de bens não-duráveis e semiduráveis está segurando o emprego, a indústria está gerando crescimento do PIB, de forma que dá para dizer que neste momento esses programas funcionaram como política fiscal. Uma questão mais sofisticada e de difícil resposta é a continuidade dos aumentos do salário mínimo.
Delfim: A fórmula de correção é imprudente, como é toda vinculação. Com tudo o que fizemos na Constituição, o Brasil é um país que está ficando velho sem ficar rico. Em 2040 a população vai começar a cair, a taxa de reprodução líquida já baixou para 1,5, ou seja, vai reduzir o tamanho da população, o número de velhos vai triplicar e o número de crianças abaixo de 14 anos vai reduzir à metade, de forma que toda aquela vinculação de educação e saúde está errada.
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Antonio Prado – VALOR
Foram muitas as reações das elites mundiais ao colapso dos mercados financeiros. Todas com o mesmo tom de surpresa em relação à súbita falência da confiança nas instituições e nos instrumentos financeiros que movimentaram, com tanto vigor e exuberância, o frenesi dos capitais desenfreados nas últimas décadas.
Sua Majestade, a Rainha Elizabeth II do Reino Unido, em visita a London School of Economics, perguntou por que não fora alertada sobre eventos tão perturbadores. Por sua vez, Sua Excelência, o primeiro-ministro de Itália, com menos elegância, mandou a OCDE calar-se em suas previsões sobre a queda do PIB em 2009, pois que também não haviam previsto a iminência da crise. O ex- presidente do Federal Reserve, o banco central dos EUA, senhor Alan Greenspan, revelou-se em estado de estupor com a calamitosa falha dos mecanismos de autorregulação dos mercados.
A verdade é que os alertas não foram poucos e realizados por economistas de alta estirpe. O mesmo Greenspan lançou o anátema da exuberância irracional, talvez acreditando demais em sua capacidade de influenciar as expectativas racionais de uma turba furiosa na busca de bônus de performance. O economista Nouriel Roubini, assíduo frequentador do Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça, ganhou o apelido de Mr. Doom, Senhor Calamidade, por suas reiteradas previsões de que o cassino iria desmoronar. A lista internacional e doméstica de analistas preocupados com a desregulação dos mercados financeiros e de capitais é longa. O fato é que a turma que diz que a ressaca será forte no dia seguinte nunca será ouvida por aqueles já embriagados por um whiskey que parece de primeira.
Mas, se o juízo competente foi tido como inoportuno, onde estavam as instituições de regulação do sistema? Nos EUA, o que fez o Federal Reserve? Um gigantesco castelo de cartas, formado de todos os tipos de instrumentos financeiros exóticos, prosperou a sua revelia e nada foi feito. Um verdadeiro sistema bancário paralelo, “shadow banking” em inglês, absorvia trilhões de dólares, sem nenhuma supervisão e adoção do mínimo de regras de prudência bancária. Alavancaram uma catástrofe planetária.
Como é possível, em um complexo e bem informado sistema financeiro, golpes de estelionatários tão antigos quanto o aplicado pelo Sr. Madoff crescerem a ponto de tragarem US$ 50 bilhões? Não foi detectado por nenhuma instituição? O mercado foi acometido pela cegueira dos caçadores de tesouros? Os investidores não calcularam que era muita rentabilidade para pouco risco? Esse golpe é tão antigo e recorrente que só pode ser aplicado em ambientes tomados por um espírito de vale-tudo. Puni-lo com 150 anos de prisão soa como uma prestação de contas tardia e pouco convincente. Onde estavam as autoridades reguladoras?
Estavam desregulando o mercado financeiro americano. Vendendo ao planeta e, principalmente, aos emergentes as virtudes do mercado autorregulado. O capital livre de amarras levaria todos ao paraíso do crescimento e da prosperidade. Como não houve distribuição de renda relevante durante as últimas décadas nos países livres dos penduricalhos da regulação, alguns espertos chegaram ao paraíso dos bônus de final de ano e outros foram pegos no sobre-endividamento em cartões de crédito de várias bandeiras.
E o FMI, sempre zeloso de suas receitas de ajuste estrutural, como não alertou aos países membros que uma tempestade perfeita estava no horizonte? Como não percebeu que em um mundo com US$ 65 trilhões de PIB não se poderia valorizar US$ 650 trilhões em ativos financeiros indefinidamente?
Nesse momento, é óbvio que a autorregulação dos mercados é mais um mito requentado pela ideologia liberal, que não deu certo. A classificação de risco pelas agências privadas, tanto em relação à saúde das instituições, bancos de investimentos, seguradoras, fundos de hedge e bancos comerciais, como também dos produtos financeiros específicos, está com a credibilidade comprometida. Ativos tidos como de baixo risco tornaram-se tóxicos em poucos dias.
As empresas de auditoria, que passaram por maus momentos com a quebra da Nasdaq em 2001, voltaram a um silêncio sepulcral. Os conselhos de administração das grandes empresas revelaram-se pouco efetivos e até incidentes de pressão sobre conselheiros mais zelosos e, preocupados com os riscos das estratégias corporativas, vieram a público.
É evidente que o esforço para evitar um colapso sistêmico financeiro de proporções planetárias não envolve apenas a derrama de trilhões de dólares nos bancos e economias intoxicadas, mas também o resgate da confiança nas instituições de regulação públicas e privadas e a defesa de valores sociais empoeirados desde a avassaladora hegemonia dos aventureiros das finanças alavancadas. Trabalho, emprego, distribuição de renda, produção e solidariedade social.
A ideia de que todos estamos no mesmo barco é sedutora. No entanto, é justo que os contribuintes de última instância, os assalariados e pequenos produtores, se perguntem por que esse espírito surge apenas no momento de socializar os prejuízos. Por que até há pouco era coisa considerada antiga, resquício das dores do pós II Guerra, já de muito superadas? É justo e correto que reivindiquem contrapartidas sociais nesse soerguimento das economias.
É justo e necessário que os países emergentes, que fizeram imensos sacrifícios para organizar suas economias arruinadas pela estagnação prolongada, hiperinflações e crises políticas e sociais, queiram uma voz mais efetiva nas instituições multilaterais. É justo que não aceitem pagar pela aventura alheia e que queiram defender seu crescimento econômico, sua capacidade de geração de emprego e de inclusão social.
Se é verdade que os ricos estão perplexos com suas perdas, mais verdade é que os pobres pagam um preço que não se contabiliza em dinheiro, mas em perda de esperança.
Antônio Prado é doutor em política econômica pelo IE-Unicamp, professor do Departamento de Economia da PUC-SP (licenciado). Atualmente é chefe do Departamento de Relações com o Governo na presidência do BNDES e docente no IRBr do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.
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Média no período foi de R$ 2,5 bi, em linha com o resto do ano; vendas e concessão de crédito batem recorde
Chiara Quintão, da Agência Estado
SÃO PAULO – O presidente da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), Luiz Antonio França, disse nesta terça-feira, 3, apesar da piora do ambiente macroeconômico, a média mensal de financiamento imobiliário no último trimestre de 2008 foi de R$ 2,5 bilhões, em linha com a média do ano.
Segundo França, essa continuidade demonstra que a decisão de compra do imóvel foi mantida e que os bancos não ficaram mais rigorosos na concessão de crédito imobiliário.
Os números de janeiro ainda não estão fechados, mas França disse acreditar que o mês “deva ser bom”, ainda que sazonalmente o período seja mais fraco.
Recorde em 2008
A Abecip divulgou hoje os resultados da a venda de imóveis financiados com recursos da poupança em 2008. Ao todo, foram vendidas 299,746 mil unidades, com um montante financiado de R$ 30,05 bilhões. Para 2009, no entanto, França optou por não fazer previsões.
“É muito difícil fazer uma previsão nos dias de hoje. Se tivessem me perguntado em outubro sobre o quarto trimestre, talvez eu não seria tão otimista quanto os resultados foram”, disse o presidente da Abecip.
Em 2008, dos R$ 30,05 bilhões em operações financiadas, R$ 16,22 bilhões foram contratos fechados com empresas e R$ 13,83 bilhões com pessoas físicas. O item pessoas físicas abrange a parte dos repasses dos financiamentos para os bancos após a entrega das chaves que supera o que foi negociado com as incorporadoras, além de crédito para imóveis usados.
Durante entrevista coletiva, França destacou que o mercado esperava, no início de 2008, que os financiamentos imobiliários chegassem a R$ 25 bilhões no ano passado, mas que a Abecip já vinha sinalizando que o número poderia ficar próximo de R$ 30 bilhões.
O presidente da Abecip ressaltou também que foi um grande passo para o setor ter batido o recorde de 1981, quando foram financiadas 267 mil unidades, ainda que a população brasileira e a demanda por moradias tenham crescido.
O presidente da Abecip afirmou que os agentes financeiros estão preparados para atender a todas as demandas de crédito imobiliário de pessoas físicas e das empresas de construção e defendeu que os bancos continuem “operando com os mesmos padrões de segurança”.
Esperança para 2009
França disse esperar que o ritmo de vendas dos lançamentos, reduzido com a cautela maior dos consumidores, seja retomado. “Estamos em um período atípico para análise, em função da grande turbulência no mercado mundial. Tanto pessoas mais graduadas quanto mais simples estão olhando o que acontece na Bolsa do Japão”, afirmou.
Ele citou também que a velocidade de vendas caiu mais em imóveis de quatro dormitórios do que em unidades menores e que as incorporadoras estão buscando os nichos mais adequados e fazendo lançamentos somente onde têm certeza de que terão bom índice de vendas. “O mais importante é que haja demanda para os lançamentos. As instituições financeiras têm de financiar projetos que têm demanda.”
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Keynes e Roosevelt
Antonio Delfim Netto – VALOR
As discussões sobre os problemas macroeconômicos são intermináveis. Até hoje, quase 80 anos depois do evento, os economistas discutem qual a “causa” (ou as “causas”) da crise de 1930. E há ainda sérias dúvidas sobre as políticas (ou os acidentes!) que a resolveram. Dúvidas completamente ignoradas por quem procura nelas inspiração para a solução da crise atual. Glamorizou-se posteriormente a solução de 1933 como “keynesiana”. O pequeno problema é que Roosevelt sempre teve pavor do “déficit público”. Como governador do Estado de Nova York, em plena crise (na presidência de Hoover), ele aumentou os impostos para dar ênfase à necessidade de manter o equilíbrio orçamentário…
Para se ter uma idéia da magnitude do problema dos anos 30 nos EUA é conveniente observar o gráfico abaixo, onde se registra o nível do PIB real dos EUA a partir de 1929 (suposto = 100) e a taxa anual de inflação.
Roosevelt fez sua campanha eleitoral com duras críticas ao sistema financeiro e produtivo dos EUA apoiado em números dramáticos. No final de 1932 (ano da eleição) a situação era a seguinte:
1) queda acumulada do PIB (1929/32) – 26%; 2) queda acumulada dos preços (1929/32) – 33%; 3) taxa do desemprego (1932) – 25%.
Para a crise atual as mais dramáticas previsões falam de uma queda do PIB entre 2007 (quando começou a crise) e 2009, da ordem de 2% ou 3%. No primeiro ano da grande crise (1930), o PIB americano caiu 9% e no segundo, mais 6,5% (1931), perfazendo uma queda de 16%! O quadriênio de Hoover é conhecido por sua ortodoxia, pelos equívocos da política monetária, pelo seu respeito irracional ao padrão ouro que o obrigou a aumentar a taxa de juros (em plena recessão!) para impedir a fuga do metal e pelo desastre das medidas protecionistas incorporadas à lei Smoot-Hawley. Esta aumentou as tarifas de importação de quase 1.000 produtos. Não há dúvida que ela produziu uma política protecionista mundial e estimulou um pernicioso “nacionalismo” que reduziu, em quase 2/3, o comércio internacional. Isso acabou restringindo as próprias exportações dos EUA agravando ainda mais o seu problema.
Roosevelt entendeu claramente que, diante da quebra de confiança que interrompera o “circuito econômico” e da perspectiva de continuidade da deflação, precisava de medidas dramáticas. Foi isso que o fez decretar um feriado bancário e o controle do movimento de capitais no primeiro dia do governo. Nos seus famosos “100 primeiros dias”, entupiu o Congresso com os projetos que constituíram o “New Deal”, com duas vertentes: reformar o sistema bancário e introduzir o controle governamental sobre a estrutura produtiva. A primeira ele atendeu com Ato Bancário de 1933 (a lei Glass-Steagall) que separou (vejam só!) os bancos de investimentos dos comerciais, criou o seguro de depósitos, o Fomc (Federal Open Market Commitee) e entregou o controle de todo o sistema ao FED. Foi este, em 1986, que voltou a permitir a confusão entre bancos comerciais e de investimento. E terminou como já sabemos…
A intervenção no sistema produtivo concretizou-se no National Industrial Recovery Act (Nira) de Junho de 1933. Ele criou a National Recovery Administration (NRA) e o Agricultural Adjustment Act (AAA). Numa larga medida estes substituíram o “mercado” por um ensaio de Estado “corporatista” que aliou empresários e trabalhadores na eliminação da concorrência e estimulou o aumento simultâneo de salários e preços (inflação para corrigir expectativa deflacionária como se vê no gráfico). Esse “corporatismo” só foi modificado em meados dos anos 80 do século passado. Suspeito que esta espécie de coordenação pelo Estado tenha mais inspirado Keynes do que resultado de seus conselhos. O ponto importante é que a execução dessas medidas foi acompanhada pela efetiva desvalorização do dólar em abril de 1933. Assim, a quieta ação econômica de Hoover foi radicalmente apagada pela agressiva e mediática política de Roosevelt. E isso mudou a expectativa de deflação e iniciou a volta da confiança que fez trabalhar o “circuito econômico”. Até hoje, com sua reconhecida miopia, a direita americana o considera um “traidor de sua classe e introdutor do socialismo nos EUA”.
A prova que há muito pouco keynesianismo no “New Deal” é que o desemprego se manteve em torno de 15% até 1939, às vésperas da 2ª Guerra Mundial. Quando em 1937 houve um aumento da receita (derivado da recuperação do PIB), a política fiscal foi contracionista (superávit). No mesmo ano o aumento dos meios de pagamentos levou o Fed a subir a taxa de juro, aumentando o depósito compulsório dos bancos (também contracionista). Os dois fatos produziram a pequena recessão de 1938 que se vê no gráfico.
Com Keynes ou sem Keynes (deixem-no em paz!), a lição que sobrou é clara: 1º ) foi a agressiva política de Roosevelt que destruiu a expectativa deflacionária, restabeleceu a confiança e colocou para rodar o circuito econômico; 2º ) os investimentos públicos foram importantes, mas não suficientes para eliminar o desemprego que, entre 1936 e 1939, continuou no nível de 15%; e 3º ) o “corporatismo” induzido pela aliança de empresários (que defendem seus lucros) e sindicatos (que defendem o salário de quem está empregado) para reduzir a competição, provavelmente diminuiu a velocidade da recuperação.
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras.
E-mail contatodelfimnetto@terra.com.br
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EDUARDO CUCOLO da Folha Online, em Brasília
O ministro Carlos Lupi (Trabalho) apresentou hoje dados sobre os empréstimos feitos às empresas paulistas com recursos do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) e cobrou garantias de empregos nas áreas beneficiadas com crédito do setor público.
Lupi divulgou uma lista dos setores que mais pegaram dinheiro emprestado, em resposta a um pedido do presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf.
“O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, me cobrou uma lista pública e eu estou apresentado”, afirmou Lupi.
De acordo com o ministério, o comércio e a indústria de transformação paulistas são os maiores devedores nessas linhas, com R$ 1,19 bilhão e R$ 1,16 bilhão, respectivamente, de um total de R$ 2,977 bilhões emprestados no Estado de São Paulo entre janeiro de 2006 e março de 2008.
O ministro afirmou também que os “juros escorchantes” aos quais o presidente da Fiesp teria se referido em entrevistas são de 6% + TJLP de 6,25% ao ano, bem abaixo da média do mercado.
Lupi afirmou que continua defendendo que o uso de linhas de crédito com origem em recursos públicos, principalmente, do FAT, estejam vinculados a garantias de emprego. “O crédito com dinheiro do trabalhador tem de estar ligado a garantias de emprego”, afirmou.
Segundo dados do Ministério do Trabalho de hoje, foram fechados 654.946 postos de trabalho no mês passado, o pior resultado desde 1999, início da série histórica do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados).
Reunião
Representantes de centrais sindicais do país se reúnem hoje com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para discutir medidas que evitem demissões no país por conta da crise.
Na última quinta-feira, a Força Sindical anunciou a suspensão das negociações com a Fiesp, por dez dias, em torno das demissões de trabalhadores. O objetivo é incluir o governo nas negociações entre trabalhadores e empregadores.
As centrais querem que o governo entre nas negociações trabalhistas para impedir a redução da jornada com redução de salário, como defende a Fiesp.
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O título acima é do artigo de Fernando Rodrigues na Folha de hoje. No artigo o jornalista crítica um excesso de otimismo por parte do PT em relação a Obama.
Acusado de não enxergar a realidade e de compartilhar com os demais políticos brasileiros uma visão atávica, maniqueísta, dos cenários externos; o jornalista considera que o PT reduz as questões à dicotomia do bem contra o mal. O partido prefere o autoengano e “beira o delírio” por escrever que “(Obama) “indicou claramente a necessidade de iniciar um novo ciclo histórico e sepultar uma era de fundamentalismo neoliberal”. Este é o conteúdo do razoamento exposto por Fernando Rodrigues.
Talvez o jornalista esteja certo sobre o grau de esperança, ou ilusão para alguns, que o PT compartilha com a maioria esmagadora dos norte-americanos. Mas o PT não diz, como pretende Fernando Rodrigues, que Obama “romperá com os cânones do livre mercado”.
O que os petistas consideram, assim como 99% dos jornalistas e artigos escritos na imprensa brasileira e mundial, é que Obama (e a crise) vão fechar uma era iniciada com Reagan e aprofundada por Bush, onde o fundamentalismo neoliberal fez da desregulação o credo central da política econômica nos Estados-Unidos e no mundo.
Dito com as palavras de Paul Krugman: “O fracasso da política monetária na crise atual mostra que Keynes estava certo. E o pensamento keynesiano está por trás do programa de Obama para a economia.” (caderno The New York Times da Folha SP de hoje).
O Prêmio Nobel de economia não pensa que Obama romperá com o livre mercado, mas sim com a ideia que o mercado resolverá -se liberado das interferências do Estado- as “negatividades” do capitalismo. Para Krugman, a era Obama coincide com um retorno da ação reguladora e intervencionista do Estado, condição sine qua non para a reconstrução da economia americana e mundial.
Ilusão?
A revista BussinesWeek, em artigo de John Carey e Theo Francis (ver aqui Setor empresarial americano espera uma nova era de regulamentação), disse com relação a Obama e seu governo:
“O fato de o governo democrata que assume amanhã o poder estar defendendo controles mais rigorosos sobre o setor privado não surpreende. Mas, desta vez, o retorno do pêndulo não é puramente ideológico. Só em 2008 houve o derretimento financeiro, brinquedos contaminados com chumbo, aeronaves com registros de inspeção duvidosos e vegetais contaminados com salmonela, entre outros casos que afetaram empresas tanto grandes como pequenas. “Há evidente percepção no país de que a era de desregulamentação prejudicou os EUA”, diz David Michaels, diretor de saúde ambiental na Faculdade de Saúde Pública, da Universidade George Washington.
Agora que os ventos da política sugerem mudanças inevitáveis, muitas empresas declaram apoiar maior rigor na regulamentação. A nova mentalidade em Washington, diz William Morin, diretor de assuntos governamentais na Applied Materials, fabricante de semicondutores em Santa Clara, Califórnia, ‘é a diferença entre as pessoas que querem fazer o governo funcionar e um pessoal que via o governo como sendo o problema’.”
Delírio?
Penso que não. Uma visão apenas lúcida sobre o significado político da vitória de Obama e sua relação com a profundidade da crise econômica.
Obama estará plenamente à altura do desafio? Poderá agir apesar da oposição Republicana no congresso? fará concessões? recuará em algumas questões? Tudo isto dependerá das relações de força políticas, sociais e das pressões de lobbys poderosos.
A resposta a estas e a outras questões relacionadas ao curso inevitavelmente sinuoso que assumirá a política de Obama, não está escrita nas estrelas, mesmo as vermelhas.
A simpatia do PT por Obama faz parte de uma identificação do partido com às posições favoráveis à regulamentação e ao carácter redistributivo que deve assumir o Estado e contrárias as pregações neoliberais, assumidas pelo programa de Obama. Isto não significa, evidentemente, endossar toda sua política, seja interna ou externa, diplomática ou comercial.
Palestinos e PT
Pulando de Obama para o Oriente Médio, Fernando Rodrigues considera que a visão “atávica” opera não só fazendo de Obama a incarnação do bem, mas também é extensiva à simpatia do PT pelos palestinos. Novamente, vale a pena ser precisos.
Tenho uma enorme simpatia pelos palestinos e não penso estar renegando minha condição de judeu fazendo esta afirmação. Os judeus vitimas de persecução e do antissemitismo só podem ter simpatia pelo direito dos palestinos a existir como nação livre e independente. O que os petistas defenderam sempre (e não deveria ser esquecido pelos petistas) é que este direito não pode implicar, nem visar, a destruição do Estado de Israel e do direito dos israelenses a viverem em paz. Por isso o PT nunca transferiu suas simpatias pelos palestinos, para os integristas do Hamas, nem para os atentados suicidas visando civis. Condenar o Hamas, seu integrismo apoiado no fanatismo religioso, não é para o PT renegar suas simpatias pelo sofrimento e pela luta do povo palestino.
Mas essa simpatia pelo justo direito dos palestinos a um Estado exige, sim, condenar sem meias palavras a política de força militar, de bombardeio de populações indefesas, de muros vergonhosos, de asfixia desumana, como a que o governo de Israel pratica depois que abandonou o processo iniciado com os acordos de Oslo. Criticando assim, o PT estará manifestando não só sua simpatia pelo povo palestino, mas uma verdadeira empatia com o povo de Israel que vê a paz almejada, cada vez mais distante, pois a política belicista de seu governo alimenta o fanatismo reacionário do Hamas.
Luis Favre
FERNANDO RODRIGUES
Obama e o PT
BRASÍLIA - Barack Obama toma posse amanhã e a onda obamista parece ter contaminado os petistas. Logo depois da vitória do democrata na eleição presidencial dos EUA, o PT ofereceu uma análise no boletim distribuído pela sigla na Câmara dos Deputados.
Foi um relato do deputado petista Nilson Mourão, do Acre, enviado aos EUA para assistir ao processo eleitoral. O acreano não é propriamente uma estrela do establishment do PT, mas sua avaliação é um denominador comum na legenda.
Em texto benevolente com o norte-americano, Mourão pontifica: “Barack Obama tem luz própria, carisma, simpatia, competência, liderança, qualidades que se manifestam em 16 meses de campanha. Ele não é um “produto bem vendido” nem uma “criatura” da mídia”.
O relato do petista acreano aproxima-se do delírio ao afirmar que Obama “indicou claramente a necessidade de iniciar um novo ciclo histórico e sepultar uma era de fundamentalismo neoliberal”. Não há a evidência de que o norte-americano romperá com os cânones do livre mercado. Como escreveu o festejado comentarista da CNN Fareed Zakaria, “o novo presidente dos EUA será julgado pela habilidade de salvar o capitalismo”.
Mas a análise produzida por Nilson Mourão não é inútil. Expõe uma dificuldade atávica dos políticos brasileiros -não só os do PT- para entender com alguma sofisticação o cenário externo. Comportam-se como se tudo fosse um jogo do bem contra o mal. No caso da faixa de Gaza, é nítida a simpatia dos petistas pelos palestinos -como Lula torcia para os guerrilheiros vietcongues no início dos anos 70.
Daqui a alguns meses, petistas em peso constatarão a sobrevivência do capitalismo. O PT então poderá ficar indignado com o companheiro Obama. Faz parte. Mas só não enxerga hoje a realidade quem prefere se entregar ao autoengano.
frodriguesbsb@uol.com.br
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John Maynard Keynes e Hyman Minsky, agora “reabilitados”
MARTIN WOLF DO “FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP
Somos todos keynesianos, agora. Quando Barack Obama assumir a Presidência, proporá um gigantesco pacote de estímulo fiscal. Pacotes semelhantes estão sendo propostos por diversos governos.
O fantasma de (1883-1946), pai da macroeconomia, voltou para nos assombrar. Com ele retornou o de seu mais interessante discípulo, Hyman Minsky. Todos sabemos agora o que quer dizer o “Momento Minsky” -o ponto no qual um período de mania financeira se transforma em pânico.
Como todos os profetas, Keynes ofereceu lições ambíguas aos seus seguidores. Poucos ainda crêem na sintonia fina fiscal que seus discípulos propunham nas décadas após a 2ª Guerra. Mas ninguém mais acredita, tampouco, nas metas monetárias propostas pelo celebrado adversário intelectual de Keynes, o americano Milton Friedman (1912-2006). Agora, 62 anos após a morte do economista britânico, numa nova era de crise financeira, é mais fácil compreender o que segue relevante em seus ensinamentos.
Eu vejo três lições amplas.
A primeira, desenvolvida por Minsky, é que não deveríamos levar a sério as pretensões dos financistas. “Um banqueiro sólido não é aquele que prevê o perigo e o evita, mas o que, quando quebra, quebra ao modo convencional, em companhia de seus pares, de maneira a que ninguém possa culpá-lo.” Ou seja, o conceito de “mercados eficientes” não era com ele.
A segunda lição é a de que a economia não pode ser analisada da mesma maneira que uma empresa individual. Para uma empresa, faz sentido cortar custos. Caso o mundo tente fazê-lo, resultará numa contração da demanda. Um indivíduo pode não gastar toda sua renda, mas o mundo deve fazê-lo.
A terceira e mais importante lição é que a economia não deveria ser tratada como uma narrativa moral. Nos anos 1930, havia duas visões ideológicas opostas em competição: a austríaca e a socialista. Os austríacos Ludwig von Mises e Friedrich von Hayek argumentavam que era necessário purgar os excessos dos anos 1920. Os socialistas argumentavam que o socialismo precisava substituir completamente o capitalismo. As posições se baseavam em religiões laicas concorrentes: a primeira, na idéia de que a busca de vantagem pelos indivíduos garantia uma ordem econômica estável; a segunda, na idéia de que essa motivação só poderia conduzir a exploração, instabilidade e crise.
Keynes foi um gênio peculiarmente inglês, já que insistia em que deveríamos abordar um sistema econômico não como uma narrativa moral, mas como um desafio técnico. Ele desejava preservar o máximo de liberdade, mas reconhecia que um Estado mínimo era inaceitável em uma sociedade democrática e de economia urbanizada. Desejava preservar a economia de mercado, mas não acreditava que o “laissez-faire” propicia tudo de melhor no melhor dos mundos possíveis.
Esse mesmo debate moralista retornou, hoje. Os “liquidacionistas” insistem em que um colapso resultaria no renascimento de uma economia purificada. Seus oponentes de esquerda argumentam que a era dos mercados acabou. E mesmo eu desejo punição aos alquimistas financeiros que alegavam que dívidas cada vez maiores serviriam para transformar chumbo econômico em ouro.
Para Keynes, abordagens como essas são tolas. Os mercados não são infalíveis ou indispensáveis. Servem de sustentação a uma economia produtiva e às liberdades individuais. Mas também podem sair do rumo, e precisam ser administrados.
A tarefa urgente é restaurar a saúde da economia mundial.
O desafio de prazo mais curto é sustentar a demanda agregada, como Keynes recomendaria. Igualmente importante será o financiamento direto do banco central à captação. Boa parte do ônus caberá aos EUA, em larga medida porque europeus, japoneses e até chineses são inertes demais, complacentes demais ou fracos demais.
Dada a correção do consumo doméstico já em curso nos países com déficits comerciais, é provável que esse período de altos gastos dos governos persista por anos. Ao mesmo tempo, é preciso um grande esforço para purgar os balanços domiciliares e do sistema financeiro. Converter dívida em capital certamente será necessário.
Também pragmática deve ser a tentativa de construir um novo sistema de regulamentação financeira mundial e uma política monetária que contenha os “booms” de crédito e as bolhas de ativos. Como Minsky deixou claro, não há resposta permanente. Mas reconhecer a fragilidade sistêmica de um sistema financeiro complexo poderia ser um bom começo.
Como foi o caso nos anos 1930, temos uma escolha: lidar com esses desafios de forma cooperativa e pragmática ou permitir que as viseiras ideológicas e o egoísmo nos obstruam. O objetivo é claro: preservar uma economia mundial aberta e ao menos razoavelmente estável, que ofereça oportunidades à maior proporção possível da humanidade.
Como Oscar Wilde poderia ter dito, na economia a verdade é raramente pura e jamais simples. É a maior lição da crise. E também uma lição de Keynes.
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Lord John Maynard Keynes
Elio Gaspari – O Globo
Terminou nas últimas semanas o predomínio intelectual de uma corrente do pensamento econômico que governou o mundo por cerca de 30 anos.
Pode-se dizer que ela cabe no rótulo de “liberal”, sem que se saiba o que isso quer dizer. Simplificando, ela encarnou a crença de que as forças internas do mercado são o elemento mais eficaz para conduzir os destinos das economias nacionais. Com o leme das nações entregue à “mão invisível”, os males seriam corrigidos e a prosperidade, assegurada. Lorota.
O naufrágio ocorreu de forma humilhante, no governo de um presidente republicano nos Estados Unidos. George Bush tem na secretaria do Tesouro um fino espécime da banca, o ex-presidente da Goldman Sachs Henry Paulson. Para salvar a economia mundial dos delírios do mercado, até agora foram necessários uns três trilhões de dólares coletados nas Bolsas das Viúvas.
Trinta anos de hegemonia produziram arrogância e até maus modos.
No Brasil, “desenvolvimento” tornou-se uma palavra maldita e “desenvolvimentista”, uma modalidade de insulto.
Além das leviandades do governo Collor, da privataria tucana e do colapso cambial de 1999, a onipotência chegou à soberba. Dois diretores do Banco Central (Afonso Beviláqua e Rodrigo da Rocha Azevedo) não se dignaram a colocar suas biografias no portal da instituição pública em que trabalhavam. Conduta semelhante, só nos BCs da Coréia do Norte, Lesotho e Armênia.
Noutro exemplo do cotidiano, em 2003 a editora brasileira do economista Joseph Stieglitz, prêmio Nobel de 2001, teve dificuldade para formar uma mesa de jantar em sua homenagem com 12 convidados de renome.
Stieglitz era um crítico daquilo que o professor Delfim Netto chamava de “pensamento único” no debate econômico brasileiro. (Das cabeças coroadas, só Gustavo Franco aceitou o convite.) Em 2000, um concurso do Banco Central valorizava candidatos com formação semelhante à da ekipekonômica tucana.
Viajando-se no tempo e no mundo, percebe-se que a cada 30 anos uma escola de pensamento prevalece e massacra a outra. Na segunda metade do século passado a agenda passou às mãos dos chamados keynesianos.
Eram economistas que acompanhavam as idéias do inglês John Maynard Keynes, formulador da conveniência da intervenção do governo na economia. Do outro lado do debate estavam professores como o austríaco Friedrich Hayek e o americano Milton Friedman. Hayek sustentava que o planejamento econômico e a ação dos governos eram o “Caminho da Servidão”, título de sua obra-prima, publicada em 1944. Comeu o pão que Asmodeu amassou. Em 1950, o departamento de economia da Universidade de Chicago negou-lhe uma posição de professor.
Morava num bairro operário de Salzburgo numa casa comprada com o dinheiro da venda de sua biblioteca.
Hayek ganhou o prêmio Nobel em 1974.
Dois anos depois foi a vez de Friedman.
Passados 30 anos de predomínio, os keynesianos saíram de cena. A vitória dos conservadores de Margaret Thatcher na Inglaterra, em 1979, e de Ronald Reagan nos Estados Unidos, um ano depois, significou um renascimento das idéias de Hayek e Friedman. Em 1980, o professor Robert Lucas (Nobel de 95) dizia que já não existiam mais bons economistas com menos de 40 anos identificados com o keynesianismo. O neologismo virou palavrão. John Kenneth Galbraith, uma de suas maiores estrelas, tornou-se saco de pancadas para os polemistas conservadores.
Seu último livro chamou-se “A economia das fraudes inocentes” e foi um ataque às extravagâncias do papelório.
Numa trapaça da história, foi um governo conservador, educado nas liberdades de Hayek e Friedman, quem conduziu a economia americana à bancarrota.
Primeiro liberando as práticas da banca em nome da santidade do mercado. Depois, recorreu à mais elementar das construções keynesianas para evitar o desastre e foi buscar na Bolsa da Viúva o remédio para a intoxicação.
Hayek e Friedman dificilmente defenderiam as políticas de seus seguidores. Quem botou fogo no mundo não foram eles, mas a mediocridade prepotente, colocada a serviço de um dinheirinho fácil.
Leia a integra da coluna de Elio Gaspari, nos jornais O Globo e Folha SP
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Alain Badiou

Badiou. Piensa que se debe construir una nueva política a partir de la idea de que hay un solo mundo, donde todos debemos convivir Foto: Soledad Aznarez
La filosofía y una vida más fuerte que la vida
A propósito de su nuevo libro, Lógicas de los mundos (Manantial), segunda parte de su obra mayor, El ser y el acontecimiento, el filósofo francés habla del platonismo, el nuevo período de la “hipótesis comunista” que abrió Mayo del 68 y la política de Sarkozy que busca instaurar muros de miedo, como los que existen entre México y estados Unidos, y entre Israel y los palestinos. Además se refiere a lo que el hombre trasciende al hombre y comenta su frase “La Historia no existe”
Por María del Carmen Rodríguez de la Redacción de LA NACION
El arte -escribe Alain Badiou en su “Esbozo para un primer manifiesto del afirmacionismo”- “debe estar tan sólidamente ligado como una demostración, ser tan sorprendente como un ataque nocturno y tan elevado como una estrella”. El tono contundente de esta afirmación es uno de los tantos con que el máximo exponente de la filosofía francesa contemporánea, orador sin par, suele sumir en el más atento de los mutismos a todos sus oyentes. Lo recuerdan, sin duda, quienes asistieron en 2003 -para atenernos sólo a los eventos locales más recientes- a sus charlas y a su seminario “El cine como experimentación filosófica” (publicado en G. Yoel, comp., Pensar el cine 1 , Manantial, 2004) o a sus conferencias de 2004, entre ellas, las dictadas en Rosario (publicadas en Justicia, filosofía y literatura , Homo Sapiens, 2007). Lo disfrutarán quienes se acerquen a escucharlo en la primera semana de diciembre, cuando Badiou nos visite para hablarnos -entre otros temas- de “Filosofía y matemática” y de “Filosofía y política”, y para presentar el segundo tomo de su obra mayor, El ser y el acontecimiento (1988; Manantial, 1999), publicado en Francia en 2006 y cuya traducción, Lógicas de los mundos (Manantial), está disponible en librerías desde hace una semana.
Más allá del tono, la afirmación de Badiou con respecto al arte podría trasponerse a su propia obra filosófica, cuya novedad y cuya complejidad exigirán una lectura atenta, lápiz en mano, a los lectores deseosos de un pensamiento fuerte. En cuanto a la variedad de sus tonos y a la versatilidad de su lengua, cabe recordar que este gran filósofo cuya obra, por su sistematicidad y su consistencia, podría compararse con la de Hegel, es a la vez matemático, novelista, dramaturgo, militante de terreno y (¿por qué no decirlo?) hombre de armas tomar.
Alain Badiou nació en Rabat (Marruecos) en 1937 y pasó gran parte de su infancia y de su adolescencia en Toulouse. Se instaló en 1956 en París, donde hizo sus estudios de filosofía en la École normale supérieure (allí preside hoy el Centre international d étude de la philosophie française contemporaine) y entró de lleno en las primeras manifestaciones universitarias contra la guerra de Argelia, preludio de otras tantas en las que participaría en su tenaz militancia política, entre ellas -por supuesto- las de Mayo del 68, acontecimiento en cuyas consecuencias sigue trabajando. En la etapa decisiva de su formación filosófica tuvo tres maestros: Sartre, Lacan y Althusser. Publicó dos novelas antes de 1969, año en que apareció su primer libro de filosofía, El concepto de modelo, y otra a fines de los años noventa, década en la que desplegó su obra de dramaturgo. Desde 1969 y hasta 1999 fue profesor en la Universidad de París VIII, donde se cruzó más de una vez en los pasillos con Gilles Deleuze, con quien mantuvo una relación alternativamente hostil, amistosa o evasiva sobre la cual se extiende en el primer capítulo de Deleuze, “El clamor del Ser” (1997; Manantial, 2002).
El punto de contacto y de cortocircuito entre ambos filósofos supone puntos en común nada desdeñables: ambos permanecen indiferentes al anuncio del “fin de la filosofía” y no rehúyen los desafíos de la metafísica; ambos construyen -cada uno a su modo- una filosofía potente y afirmativa, lo cual los confrontó abiertamente con un enemigo común: los denominados “nuevos filósofos” (entre ellos, Bernard-Henri Lévy y André Glucksmann), mediáticos y consensuales, cuyo pensamiento Deleuze supo calificar de “nulo”. Lo que los separa lleva más lejos y remite -como señala Badiou- a dos grandes tradiciones de la filosofía francesa: Deleuze es el portavoz de la tradición “vitalista”, que parte de Bergson y en la que se incluyen, digamos, Foucault y Simondon; Badiou, por su parte, se enlista de buen grado en la tradición del idealismo matematizante de Brunschvicg, en la que se eslabonan también, de maneras disímiles, Althusser y Lacan. Si remontamos más lejos, basta con recordar que el proyecto de Deleuze -en la estela de Nietzsche- es “invertir el platonismo”, y que Platón es, para Badiou, un referente mayor.
Que los medios galos se refieran a Badiou como “nuestro pensador faro de la izquierda radical” marca otro tono: su radicalismo afirmativo, tanto en la acción como en el pensamiento. En esas arenas lidió con otros grandes filósofos (Derrida y Lyotard, por ejemplo) que poblaron, desde los años setenta, el fecundo campo de las ideas en Francia, y que en Petit panthéon portatif (”Pequeño panteón portátil”, 2008) se ven hoy cálidamente homenajeados -junto a quienes fueron sus maestros o amigos-, “elevados como estrellas” en esa constelación mallarmeana que reaparece, intermitentemente, en esta obra en que el suelo y el cielo forman más de una conjunción.
Alain Badiou concedió generosamente a adn CULTURA esta entrevista, robándole tiempo a su tiempo para responder a algunas preguntas por correo electrónico, y en el punto de llegada de cada respuesta parecía entreverse su inmensa figura cuando el campo de batalla, o la amistad, llama.
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Este artigo da Folha é uma jóia rara. Ele poderia ser considerado como o concentrado das questões que deveríam determinar o voto nestas eleições. Evidentemente que a Folha fez questão que este debate não aparecesse nas suas páginas e preferiu atribuir aos candidatos propostas semelhantes. Até o artigo que reproduzo aqui começa com esse lenga, lenga da Folha.
Mas, o fundo está inteiro aqui.
Primeiro, começando pelo fim do artigo que diz que a diferença de visão se reflete na questão da Biblioteca Mário de Andrade. Marta tinha um projeto para essa biblioteca, ele foi deixado de lado pela atual administração, e ao cabo de 4 anos nos promete que a reforma diferente será entregue em 2009.
Marta conseguiu do BID um emprestimo de $100 milhões de dólares para revitalizar o Centro de São Paulo, com esse dinheiro reformou o Mercado Municipal, a Praça da Sé, preparou a reforma do São Vito retirando os moradores, avançou na reforma do Parque Dom Pedro, criou o Parque do Gato no lugar da favela. O projeto contemplava ainda a construção de estacionamentos no Mercadão, o Museu da Cidade no Palácio das Industriais e a construção de uma passarela entre o Mercado e o Museu. A mesma coisa que com a Biblioteca Mário de Andrade. O projeto foi abandonado, o dinheiro do BID ficou guardado e inventaram a Nova luz, que ficou no nome da mesma cracôlandia de sempre.
Mas, onde o artigo expõe com maior clareza o abismo que separa a gestão da Marta dos demo-tucanos, é na questão do CEU.
Aparentemente nisto, todos defendem a mesma proposta. Marta fez 21 CEU’s, Kassab fez 13 mas promete 25. Todos são unânimes agora a favor desta bandeira plantada na cidade, contra a oposição dos que supostamente a fazem própria, hoje. Pois bem, que diz o secretário de Kassab sobre os CEU’s?
“O projeto dos CEUs não é um projeto da Secretaria da Cultura, é um projeto da ex-prefeita Marta que a pasta foi chamada a acompanhar.”
É assim mesmo, todo o que foi introduzido pela Marta como instrumento de combate a desigualdade social e a exclusão, ou foi abandonado, ou mantido porem desviado de seu objetivo, diminuído.
Foi assim com os CEU’s, com o Bilhete-Único, com o Renda Mínima, com a descentralização administrativa, com o Plano Diretor, com o Vai e Volta das crianças etc.
E o pior, Marta teve que criar tudo de nada e sem dinheiro. Kassab teve um orçamento 50% maior para esse pifio resultado. Leiam e reflitam. LF
Modelos de gestão contrapõem os candidatos na área da cultura
Marta une ações com educação, Kassab prioriza resgate do patrimônio e Alckmin, a terceirização
Ex-secretário petista fala em “emancipação social” com incentivo do Estado; atual titular prega “liberdade” em espaços culturais públicos
CONRADO CORSALETTE – Folha SP
DA REPORTAGEM LOCAL
A semelhança de propostas dos candidatos com chances de chegar ao segundo turno da sucessão paulistana não se aplica à área da cultura. Marta Suplicy (PT), Gilberto Kassab (DEM) e Geraldo Alckmin (PSDB) têm modelos de gestão até antagônicos, já comprovados por suas experiências no poder público.
Na prefeitura, Marta (2001-2004) descentralizou a gestão e uniu atividades culturais, educacionais e de inclusão social, elegendo os CEUs (Centros Educacionais Unificados) da periferia como equipamento principal, numa política que promete retomar caso se eleja.
Já Kassab priorizou espaços culturais separados do ambiente escolar -a Secretaria de Cultura não participa mais da gestão dos CEUs, por exemplo. Voltou a centralizar a administração, aumentou o orçamento da área e iniciou reformas de equipamentos já existentes, como teatros e bibliotecas. Num eventual segundo mandato, promete revitalizar o centro “por meio do vetor cultural”.
O modelo proposto por Alckmin é igual ao de quando era governador (2001-2006). Como ocorre na Pinacoteca do Estado, ele planeja passar a gestão de equipamentos como o Centro Cultural São Paulo e o Teatro Municipal para as mãos de organizações sociais. O tucano ainda cita a criação da “Broadway paulistana” no centro.
A contraposição de modelos dos dois candidatos mais bem colocados nas pesquisas, Marta e Kassab, fica clara quando titulares da pasta da Cultura de suas gestões são chamados a avaliar a área nos últimos anos.
“Participávamos da gestão intrínseca do projeto por entender a educação como fenômeno integral, em que a cultura faz parte do processo de conhecimento”, diz Celso Frateschi, ex-secretário de Marta que hoje preside a Funarte (Fundação Nacional de Artes). “Parece que agora a Cultura virou prestadora de serviços, não que isso seja bom ou ruim, mas são visões diferentes. Não há mais uma visão de emancipação social das pessoas por meio da cultura.”
Atual titular da pasta, Carlos Augusto Calil diz que “não existe opção ideológica”. “O que outras gestões faziam era valorizar menos os seus equipamentos”, afirma. “O projeto dos CEUs não é um projeto da Secretaria da Cultura, é um projeto da ex-prefeita Marta que a pasta foi chamada a acompanhar. Agora mudou um pouco: temos projeto, não somos mais periféricos”, diz Calil, citando o aumento do orçamento da pasta de R$ 124 milhões, em 2004, para os atuais R$ 354 milhões.
A separação física de espaços culturais e educacionais traz sentimento de “autodeterminação e liberdade” para os jovens, afirma o secretário, que entregou um centro cultural na periferia, na zona norte, e projeta construção de mais cinco.
“Sem instituição de ensino perto, os moleques se sentem livres, sem a famosa vigilância do pai ou do professor. Por que vamos criar centros culturais na periferia e não CEUs? Porque não é interessante fazer CEUs. Não sou contra, mas é outra coisa. Queremos que as pessoas tomem posse do equipamento sem precisar ir direto para a biblioteca ou para o teatro, sem que haja controle sobre o uso do espaço”, afirma.
As diferenças de visão se refletiram no destino da Biblioteca Mário de Andrade, no centro, que teve a reforma atrasada por dois anos porque Kassab mudou o projeto deixado por Marta. No plano da petista, o prédio ganharia três pisos no subsolo e um restaurante na cobertura, o que o prefeito do DEM considerou “equivocado”. Ele retomou a antiga idéia de ampliar a biblioteca com uma nova torre e desistiu do restaurante. A obra, de R$ 26 milhões, só acaba em 2009.
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Governo quer ampliar aplicação do FGTS no crédito para habitação
Lu Aiko Otta – O Estado SP
A nova classe média, que nos dois últimos anos fez disparar as vendas de eletrodomésticos e automóveis, amparada por crédito fácil e prestações a perder de vista, deverá chegar também à casa própria. O governo prepara novas medidas cujo objetivo é massificar o crédito habitacional para famílias com renda mensal até cinco salários mínimos (R$ 2.075).
“Elas vão deixar de ser consumidoras só de linha branca e ter acesso a um financiamento habitacional”, disse ao Estado a secretária nacional de Habitação, Inês Magalhães. A estimativa é que, nos próximos 15 anos, surgirão 27 milhões de novas famílias no Brasil. Dessas, metade estará na classe média.
As medidas fazem parte do Plano Nacional de Habitação (Planhab), que começou a ser elaborado no ano passado e traça metas para o combate ao déficit habitacional até 2023. O plano está em reta final e deverá ser divulgado em meados de outubro, mas algumas medidas levarão mais tempo para sair do papel, pois terão de ser apreciadas pelo Congresso Nacional. A expectativa é que até lá o quadro econômico esteja mais calmo.
Quando em vigor, as novas medidas levarão a um uso mais intensivo dos recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Esse é o principal argumento levantado pelo ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, para explicar por que o governo não pretende autorizar que o dinheiro do fundo seja aplicado na Petrobrás para financiar investimentos na exploração de petróleo na camada pré-sal. Aplicado em ações, o dinheiro não poderá financiar a casa própria.
“O dinheiro do FGTS é fundamental, é imprescindível para fazer o atendimento do plano”, afirmou Inês. Para o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Paulo Safady Simão, autorizar a aplicação do FGTS na Petrobrás significaria desviar os recursos de sua finalidade original, que é habitação e saneamento para a população de baixa renda, para aumentar rendimentos que estão concentrados na classe média. “É até uma questão de egoísmo”, atacou.
Hoje, as famílias com renda até cinco salários mínimos já têm acesso a empréstimos a juros baixos com recursos do FGTS. No entanto, os valores e prazos dos financiamentos oferecidos muitas vezes ainda são insuficientes para comprar uma casa. “O dinheiro é usado mais para a compra de material de construção”, disse Inês.
Para contornar o problema, o Planhab pretende criar um fundo garantidor, que protegerá os bancos dos riscos de conceder empréstimos mais longos e de valor mais elevado para esse segmento da população. O fundo ainda não está totalmente desenhado, mas sua composição deverá envolver recursos do Tesouro Nacional.
“Não tem como enfrentar a questão do déficit habitacional sem envolver algum subsídio”, afirmou Inês. Já para Simão, que participa das discussões do Planhab, há condições de o fundo garantidor ser constituído apenas com recursos privados.
Com a criação de produtos financeiros para a nova classe média, a expectativa é que aumente também a oferta de imóveis destinados a essa faixa de renda. Hoje, disse a secretária, o mercado atende apenas a renda mais elevada.
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VALOR
“Para re-despertarmos como Nação, devemos nos envergonhar de nosso estado presente. Renovar tudo e nos autocriticar.” – Giacomo Leopardi
Há décadas ouvimos um coro muito afinado entoando em todo o mundo um canto de morte. Suas vozes em uníssono pregavam, nos poderosos meios de comunicação e de persuasão coletiva, a obsolescência de instituições fundadoras da modernidade como o Estado nacional e a cidadania. Nesse cortejo fúnebre se enterrava também a política democrática como língua unificante das demandas por direitos universais de cidadania, pelo reconhecimento das diferenças e pelas exigências de civilização dos conflitos. Dos seus impulsos igualitaristas nasceram e se desenvolveram nações mais universalistas, mais democráticas. Sepultá-la é substitui-la pela apatia cívica e pelo cancelamento de uma de suas dimensões mais importantes: a de fornecedora de medidas e de sentido ao poder e às lutas pelo poder no âmbito das comunidades nacionais.
Emergiu deste processo de silenciamento das conquistas civilizatórias da modernidade uma velha gramática moral e política, congênere aos processos de desregulamentação dos mercados e do conseqüente fim das funções públicas do Estado. O “novo” léxico, ao valorizar o indivíduo maximizador do auto-interesse, liquidava normativamente qualquer pacto de solidariedade entre as gerações para a fruição de direitos, e nas dobras deste processo se esvaziava a democracia como forma e método de resolução das contendas entre os diferentes grupos sociais. Na seqüência desta naturalização da vida social, as iniqüidades distributivas ganhavam cada vez mais o status de fenômenos inevitáveis e necessários ao desembarque do país à modernidade.
Um receituário político-econômico homogeneizador, uniforme na abstração vazia de qualquer diferença de tradições políticas e culturais individualizadoras dos povos, espalhou-se pelo mundo como fogo ao vento, concretizando-se em políticas privatizantes dos bens públicos. Seu liquidacionismo do patrimônio público se autoproclamou na verdadeira “reform proper” ao impor suas regras e valores, oriundos de particularíssimos interesses, como elementos de validade universal, porque sintonizados com a ordem natural do mundo. Regredíamos, por grosseira operação ideológica e política, a certo essencialismo medieval no qual a natureza toma o lugar da história. Os indivíduos nus, destituídos de direitos e de humanidade, tema da crítica de Marx ao capitalismo, se restauravam como pressuposto moral de justificação pública do desmantelamento de qualquer idéia de bem comum e de ética coletiva.
Entre nós, um conhecido economista chegou a escrever: “Chega de compaixão!”. Disse isso a propósito da defesa do fim da previdência pública para os velhos pobres que não contribuíram para suas aposentadorias. Como quase sempre viveram à margem da regulamentação do trabalho, não pagaram por ela. Logo, não deveriam ter direitos previdenciários! Queria, além de cancelar uma prerrogativa constitucional, expulsá-los da humanidade.
O resgate do Estado é percebido como o único modo da maioria não submergir destroçada às forças destrutivas da globalização
A idéia de nação como força política e de país como arena política de disputas de projetos de convivência cívica, entre eles, o aprofundamento da cidadania democrática, foi abolida como excrescência histórica. Afinal, por que invocar este anacronismo se havia desaparecido, arrastada e destruída nas suas estruturas de sentimentos e necessidades, pelo turbilhão incontrolável da globalização? Nesse ardil retórico, os coveiros da comunidade nacional silenciavam ainda mais sobre os deveres do Estado para com ela, e, na mesma operação ideológica, ocultavam o verdadeiro modus operandi da dominação social no seu interior.
Os poderes econômicos hegemônicos e seus funcionários ideológicos prescreviam liberdade absoluta de movimentos. Sua “racionalidade” não podia suportar nenhum limite, nenhum controle social, ao contrário, clamavam abertamente o exercício despótico de seu poder.
A conseqüência mais visível e mais dramática desse constructo e desse agir político foi o enfraquecimento do cidadão, personagem tardio na terra brasilis. Substituíram-no por mero consumidor de serviços privados. Suas prerrogativas representavam ataque à “liberdade”, normativamente associada à mercantilização absoluta da vida. Contudo, a “força das coisas” trouxe à tona, com evidências empíricas, a urgência de ressuscitar “os mortos sem sepultura”. Hoje se debate e se pesquisa mundo afora a necessidade de recuperar o Estado como categoria analítica e como realidade indispensável de protagonista distributivo e agência de reconhecimento de direitos civis, culturais e sociais. Este resgate é percebido como o único modo da maioria não submergir destroçada às forças destrutivas existentes no processo da globalização.
Restaura-se a nação como força politica agregadora e formadora de cidadãos democráticos dotados de lealdades aos métodos da democracia para a resolução de seus conflitos de interesses. Restaura-se a nação ao menos como comunidade transversal, no dizer do indiano Partha Chatterjee, equipada moral e politicamente para implementar padrões igualitários de integração social, fundados no aprofundamento da esfera pública republicana. Nesse sentido fator decisivo de democratização da nossa frágil democracia.
Se o Brasil como nação não colocar fortemente a extensão profunda e ampla da cidadania como coração de sua agenda democrática e de desenvolvimento econômico, perpetuará sua condição de nação partida, como no romance Sybil do conservador inglês Benjamin Disraeli: “Duas nações entre as quais não há nenhuma comunicação nem simpatia: que são ignorantes dos hábitos, pensamentos e sentimentos uma da outra como se morassem em regiões diferentes, ou como se fossem habitantes de planetas distintos, formados por raças diferentes, alimentados por comidas diversas, ordenados de maneiras diferentes, e não fossem governados pelas mesmas leis”.
Walquiria Domingues Leão Rego é professora titular do Departamento de Ciência Política do IFCH-Unicamp.
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Sergio Lamucci, VALOR
O crescimento expressivo da massa salarial tem sido fundamental para impulsionar as vendas do comércio varejista. Aliada à melhora da qualidade do emprego, com o forte aumento dos postos com carteira assinada, a expansão da massa deverá ser importante para tornar mais brando o ciclo de desaceleração da economia que se espera para os próximos meses, ainda que o avanço da ocupação e do rendimento percam fôlego daqui para frente.
A pujança do mercado de trabalho fica clara quando se analisa a evolução da massa salarial nominal de dezembro de 2005 a maio deste ano: no período, ela cresceu 25,9%, uma expansão fundamental para explicar a alta de 27,2% registrado pela receita nominal do varejo no período. O rendimento nominal do trabalho, por sua vez, teve aumento de 18,9%, evidenciando que a ocupação teve papel importante na elevação da massa nominal.
O momento positivo do varejo também se deve à alta firme do crédito nos últimos anos, mas os analistas ressaltam que a própria expansão de empréstimos e financiamentos decorre em boa parte dos avanços no mercado de trabalho. A melhora do emprego e da renda dá mais confiança para o consumidor entrar em operações de crédito, nota a economista Thaís Marzola Zara, da Rosenberg & Associados.
A crescente formalização dos postos de trabalho joga aí um papel decisivo, acrescenta Thaís. A expansão do consumo é mais sólida do que se fosse baseada numa elevação do endividamento sem expansão consistente do emprego e da renda.
Como Thaís, o economista Fábio Romão, da LCA Consultores, chama a atenção para a forte geração de empregos com carteira assinada. De janeiro a junho, o saldo entre contratados e demitidos ficou em 1,361 milhão postos de trabalho de acordo com números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho. Romão acredita que, em 2008, a criação de empregos formais ficará em 1,786 milhão, mais do que os 1,617 milhão do ano passado. “Os trabalhadores com carteira assinada têm obviamente mais segurança para consumir, porque há uma percepção de que é mais difícil perder o emprego”, afirma ele.
Neste ano, o aumento da ocupação voltou a ser o principal responsável pela expansão da massa salarial acima da inflação, que acumula alta de 5,8% nos 12 meses até junho. O emprego cresceu 3,5% no período, ao passo que a renda teve alta de 2,2% superior à inflação. Em 2007, quando a massa salarial aumentou 6,3%, a contribuição do rendimento real foi de 3,2%, um pouco acima dos 3% da ocupação. A aceleração da alta dos índices de preços explica o crescimento mais fraco do rendimento real neste ano, pondera o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale.
Em 2006 e 2007, a massa real cresceu 6,4% e 6,3%, pela ordem. Para este ano, a expectativa é de uma desaceleração do ritmo de crescimento. Vale aposta em 4,6%, resultado que seria composto por um aumento de 3,1% do emprego e de 1,5% da renda real. Como se vê, a inflação mais alta deve avançar sobre uma parcela ainda maior dos ganhos de renda dos trabalhadores no resto do ano, caindo dos 2,2% nos 12 meses até junho para 1,5% no acumulado em 2008.
Thaís diz que no segundo semestre, com o dissídio de algumas categorias de trabalhadores importantes, pode haver alguma recuperação do rendimento real, mas não a ponto de superar a contribuição da ocupação para o crescimento da massa salarial. Para ela, é possível que a expansão da massa neste ano fique na casa de 5%.
O ciclo de alta de juros deve afetar a atividade econômica com mais força no fim deste ano e no primeiro semestre do próximo. Com isso, a geração de empregos na economia tende a perder mais fôlego a partir do quarto trimestre deste ano.
A boa notícia é que não se espera um tranco brusco no mercado de trabalho. Para Vale, por exemplo, é provável que o ajuste se faça principalmente por meio de reajustes salariais menores, o que deve implicar em crescimento menor da renda real, e não por demissões maciças. Demitir quem tem carteira assinada é uma decisão mais custosa, destaca ele. Como a expectativa é de que o ciclo de desaceleração não jogue a atividade econômica no chão, a ocupação deve manter um ritmo de crescimento razoável, diz Vale. Ele espera que o nível de emprego cresça 3% em 2009, sendo o principal responsável pela alta de 3,5% prevista para a massa salarial real. A MB estima que o PIB tenha uma desaceleração moderada, passando de um crescimento de 4,8% neste ano para 3,5% no ano que vem.
Com a expectativa de um mercado de trabalho ainda razoável em 2009, não deve haver uma desaceleração muito brusca do consumo das famílias, que, junto com o investimento, tem sido o principal motor da demanda. Vale acredita que haverá uma alta de 5,6% neste ano e de 4,5% no ano que vem. “É algo bem razoável, nada drástico”, acredita ele.
O ponto é que, no atual ciclo de aperto monetário, os juros reais devem superar um pouco a casa de 8%, um nível bem abaixo dos mais de 12% observados no ciclo de alta anterior, registrado em 2004 e 2005, nota Vale. Thaís aposta numa desaceleração mais forte do consumo das famílias, de 6,3% para 4%, mas também considera que não se trata de uma perda de fôlego das mais bruscas.
Tags: CAGED, consumo, crédito, Crescimento, demanda, emprego, financiamento, inflação, Juros, mercado, PIB, Renda, trabalhadores, varejo
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