01/09/2008 - 09:07h Empresas do Brasil e dos EUA pedem mais proteção contra têxteis da China

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Raquel Landim - VALOR

O aumento de um crédito tributário para produtos têxteis e vestuário na China, que é considerado subsídio à exportação pelos empresários de Brasil e Estados Unidos, gerou uma reação protecionista nos dois países. Os setores privados estão pressionando seus respectivos governos a reagir, com a adoção de uma sobretaxa de importação e/ou a renegociação dos acordos de restrição das exportações.

A decisão de Pequim inflamou os ânimos dos empresários brasileiros e americanos, que já estavam temerosos de uma invasão de confecções “made in China” no fim do ano, quando expira os acordos bilaterais que possuem com o país e o prazo permitido pela Organização Mundial de Comércio (OMC) para aplicar salvaguardas contra têxteis chineses. O limite foi estabelecido em 2001, quando a China ingressou na entidade.

No início do mês passado, o gigante asiático elevou de 11% para 13% do valor do produto o crédito tributário que concede para as empresas locais na hora de exportar produtos têxteis e de vestuário. O país também anunciou recentemente que prepara medidas adicionais como redução das taxas de juros para empréstimos ao setor e mais recursos para novos equipamentos e modernização.

Com essas iniciativas, o governo chinês atende às reivindicações dos fabricantes locais, que reclamam da desaceleração da economia mundial, do aumento dos custos da mão-de-obra e outros insumos, como energia. A medida, no entanto, é uma guinada na posição do país, que vinha reduzindo os créditos tributários, que chegaram a ser de 17%, em uma tentativa de desacelerar as exportações e acalmar a pressão internacional.

“Solicitamos ao governo uma medida compensatória desse subsídio”, disse Fernando Pimentel, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit). O Ministério do Desenvolvimento informou que ainda não recebeu um pedido oficial. Para obter uma medida compensatória, é preciso comprovar a existência de subsídio e pedir a abertura de uma investigação. O setor têxtil também pediu recentemente a troca da tarifa “ad valorem”, em percentagem, para uma tarifa “ad rem”, em reais por peso, em alguns produtos. Essa discussão está mais avançada, já virou lei no Congresso e o governo agora avalia apenas a maneira de implementá-la.

As importações brasileiras de produtos têxteis chineses saíram de apenas US$ 61 milhões em 2000 para US$ 992 milhões no ano passado. Apesar do acordo de restrição de exportações em vigor há três anos, os chineses incrementaram suas vendas para o Brasil em 43% em 2005, 69% em 2006 e 63% em 2007. Pimentel argumenta que, com a desaceleração nos mercados dos países ricos, a China está desviando produtos para o Brasil.

Os diretores da Abit estão conversando por telefone e trocando e-mails com sua contraparte americana, o Conselho Nacional das Organizações Têxteis (NCTO). No combate às importações de produtos chineses, a NCTO conta com o apoio da Coalizão de Ações do Comércio da Indústria Americana (Amtac). Esses lobbies conseguiram que os deputados apresentassem um projeto de lei no Congresso dos EUA, que, entre outros temas, ajudaria a resolver o problema do setor têxtil, mas até agora não obtiveram sucesso. De acordo com Augustin Tantillo, diretor-executivo da Amtac, o presidente George W. Bush não está empenhado em resolver o assunto, que deixou para a próxima administração.

O crédito concedido pela China para as exportações de têxteis não pode ser questionado na OMC. Pequim dá o benefício como compensação para o Imposto sobre Valor Agregado (IVA), uma exceção permitida pelo extinto Gatt desde a década de 40. Com exceção dos americanos, quase todos os membros da OMC possuem algum tipo de sistema de ressarcimento de tributos na exportação, inclusive o Brasil, que concede crédito ao exportador pelo ICMS pago. “O problema é que a China, ao contrário de outros países, manipula o sistema para estimular as exportações”, disse Tantillo.

O subsídio à exportação é a ponta do iceberg de problemas que a China promete para os fabricantes de têxteis ao redor do mundo a partir de 2009, quando termina o prazo para que os países estabeleçam cotas para a importação de têxteis chineses. Esse setor é um dos mais protegidos do mundo, por conta do potencial de geração de emprego. O Acordo de Têxteis e Vestuários (ATV) regulou o comércio internacional durante 50 anos e só deixou de existir no fim de 2004.

Em 2005, as exportações chinesas do setor têxtil para Estados Unidos e União Européia avançaram 84% e 57%, respectivamente. A movimentação assustou os dois gigantes mundiais, que aplicaram salvaguardas contra as importações chinesas e pressionaram o país a fechar acordos de restrição de exportações. O Brasil foi o único país que também conseguiu esse tipo de benefício. A renovação desses acordos é polêmica. Enquanto os fabricantes argumentam que é legítimo se os países chegarem a um acordo voluntário com a China, os varejistas argumentam que as regras da OMC dizem que não.

O setor privado brasileiro está tentando renovar o seu acordo com a China sem sucesso até agora. A idéia é estender o prazo até 2013 e trocar os produtos sujeitos a cota. Segundo a Abit, os produtos incluídos no acordo representam hoje 20% do comércio. Quando o acerto foi fixado, esse percentual chegava a 70%. Os negociadores brasileiros estiveram em Pequim duas vezes, em setembro de 2007 e em julho deste ano. As negociações, no entanto, não avançaram. Os chineses também marcaram reuniões no Brasil, mas não vieram. “O aumento dos subsídios à exportação demonstra que os chineses não querem discutir essa questão seriamente”, reclamou Pimentel.

09/08/2008 - 14:06h Mercedes-Benz investe cerca de US$ 500 milhões no ABC

Empresa vai ampliar produção de caminhões em 25% e abrirá centro de logística em Diadema

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Cleide Silva - O Estado de São Paulo

A Mercedes-Benz, maior fabricante no País de caminhões e ônibus, vai ampliar a capacidade produtiva da fábrica de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, em 25%. Para abrir espaço para novas máquinas, a montadora deve transferir a área de logística e montagem de CKDs (kits de veículos para exportação) para uma área em Diadema. Os dois projetos devem consumir aproximadamente US$ 500 milhões em equipamentos e instalações.

O anúncio da ampliação da fábrica será feito na segunda-feira ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao governador de São Paulo, José Serra. A estimativa de fontes do governo é de criação, ao longo dos próximos anos, de cerca de 1,5 mil novos empregos na unidade de São Bernardo, que já emprega 12 mil pessoas, e de 350 na de Diadema. A direção da empresa não confirma os dados.

Para abrigar a nova unidade de logística a Mercedes vai alugar o prédio da Papaiz, tradicional fabricante de fechaduras e cadeados que está transferindo sua produção para a Bahia. Atualmente, a Papaiz só produz em Diadema peças de esquadrias, mas concluirá a transferência da linha nos próximos meses. Inaugurada há 52 anos, a fábrica de São Bernardo está tomada, sem espaço para ampliação, por isso a decisão pela transferência das áreas de logística e CKD para outra área.

Com a ampliação em São Bernardo, a montadora terá capacidade aproximada de 75 mil veículos por ano. A empresa exporta parte de sua produção, principalmente de motores para caminhões fabricados pela marca nos Estados Unidos.

CONCORRÊNCIA

O presidente da Mercedes-Benz do Brasil, Gero Hermann, vinha negociando a liberação do investimento há vários meses com a matriz alemã. O projeto foi aprovado num momento em que as vendas totais de caminhões crescem a um ritmo de 30,5% (de janeiro e julho) e há filas de espera que chegam a nove meses para determinados produtos. No ano, as vendas totais somam 69,3 mil unidades. A produção atingiu 94,9 mil caminhões, 27,5% a mais que em igual período de 2007.

A Mercedes-Benz vendeu este ano 22,7 mil caminhões, 31,5% a mais que em 2007. Sua principal concorrente, a Volkswagen, ficou muito próxima, com 21,6 mil unidades, um aumento de 40% na comparação com o ano passado. As duas travam acirrada disputa pela liderança do mercado e a vantagem da Mercedes é garantida pela Sprinter, com capacidade para até 5 toneladas de carga, segmento em que a rival ainda não atua.

Já em ônibus, a Mercedes mantém liderança absoluta, com 9,2 mil unidades vendidas este ano, 16,6% a mais que em 2007. A Volkswagen vendeu 5,3 mil unidades, desempenho 20,7% melhor que o do ano passado.

A Mercedes também tem uma fábrica em Juiz de Fora (MG), que deve produzir este ano cerca de 30 mil unidades de um sedã de luxo para exportação. A fábrica foi inaugurada em 1999 para produzir 70 mil unidades ao ano do compacto premium Classe A, mas nunca atingiu esse volume. A produção foi suspensa em 2005.

País pode ser 4º maior produtor

CÉLIA FROUFE - OESP

Apesar da robustez dos números da indústria automobilística brasileira, que levaram o setor ao posto de sexto maior fabricante mundial neste ano, ela ainda não chegou ao seu máximo, na avaliação do ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge. “Acho que tem mais investimento, mais salário, mais crescimento da população pobre indo para a classe média e, claro que não vai ser logo, mas podemos crescer mais”, afirmou ele na noite de sexta-feira, durante a Edição 2008 do prêmio “As melhores da Dinheiro”, em São Paulo. Ele embasou sua previsão no fato de que os mercados europeus estão saturados e sem crescimento populacional. “Podemos crescer mais e ir para o quarto lugar”, afirmou. Jorge descartou a possibilidade de o governo oferecer mais incentivos ao setor. “Os incentivos que demos já estão no plano de desenvolvimento produtivo e equivalem para outras indústrias”, disse, citando a depreciação acelerada de investimento e o drawback verde e amarelo (compra de insumos e peças sem impostos para produtos a serem exportados). Ele atribuiu o crescimento da produção e vendas de carros à expansão do crédito e à melhoria do poder aquisitivo de parte da população.

Volks decide ampliar produção no País

Fábrica de caminhões receberá R$ 2 bi em 10 anos

Alberto Komatsu - OESP


A Volkswagen Caminhões planeja dobrar seus investimentos no País no longo prazo, ou R$ 2 bilhões nos próximos 10 anos. A montadora já havia anunciado um desembolso de R$ 1 bilhão entre 2008 e 2012, mas o presidente da empresa, Roberto Cortes, contou que a tendência é de mais R$ 1 bilhão entre 2012 e 2018, com o objetivo de atender a crescente demanda da China, Índia e Rússia.

A estratégia de expansão para até 2018 já está definida. Nesse período, a Volkswagen pretende exportar o equivalente a 25 mil veículos (caminhões e ônibus) de sua fábrica em Resende, no interior do Rio, para serem montados na China, Índia e Rússia. O aumento na demanda dos principais países emergentes do mundo irá puxar a ampliação da capacidade da montadora. A previsão é mais do que triplicar a produção no período, das atuais 47 mil unidades para 150 mil por ano.

“Nossa vocação é crescer 20% ao ano e a estratégia é estar em todos os países em desenvolvimento”, afirma. A idéia é abrir unidades nos três países para montar os veículos com peças exportadas de Resende. A companhia já conta com filiais com esse mesmo perfil de produção na África do Sul, Colômbia e México.

As exportações da Volkswagen de caminhões e ônibus já alcançam 30% da produção atual da fábrica de Resende. No início de julho, a empresa anunciou o terceiro turno de produção a partir de setembro, com a contratação de 1,3 mil funcionários. Essa medida deverá fazer com que a capacidade produtiva da unidade seja ampliada de 220 para 260 veículos por dia.

O objetivo da Volkswagen de abrir filiais de montagem nos demais países que pertencem ao grupo de países em desenvolvimento conhecido como BRIC deverá ser viabilizado com a mesma estratégia que originou a fábrica de Resende. Segundo o presidente da montadora, o objetivo é fazer o investimento nas novas unidades com o apoio de recursos de seus parceiros e fornecedores.

Cortes afirma que a nacionalização de peças em mercados fora do Brasil é viável quando a demanda em cada país alcança o patamar de 15 mil unidades. Por isso, a operação inicial na China, Índia e Rússia deverá ser atendida somente com as peças e componentes produzidas principalmente no Rio.

A fábrica de Resende fez parte de um pacote de investimentos de R$ 1 bilhão entre 1995 e 2001. Foi construída em 1997, após a dissolução da Autolatina, a união entre a Volks e a Ford, no Brasil. Naquela época, a montadora tinha 15% de participação no mercado de caminhões. Este ano a empresa está com 31,4%, segundo o diretor de vendas e marketing, Ricardo Alouche.

05/08/2008 - 09:33h Produção e vendas na indústria batem recorde no semestre

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Puxado pelo mercado interno, crescimento é o maior desde 2003, segundo a CNI; emprego e massa de salários também avançam

Para economista, ritmo da atividade industrial deve se desacelerar sob reflexo do aumento dos juros; uso da capacidade instalada sobe

LUCIANA OTONI - Folha de São Paulo

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O setor industrial bateu recorde de faturamento e produção no primeiro semestre. Segundo a CNI (Confederação Nacional da Indústria), de janeiro a junho as indústrias registraram alta de 8,4% nas receitas e de 5,9% na produção ante o primeiro semestre de 2007, configurando os maiores percentuais desde 2003, quando os indicadores do setor começaram a ser pesquisados.

O emprego nas indústrias aumentou 4,4%. Esse desempenho representou o melhor primeiro semestre desde 2005, quando a variação havia sido de 5,4%. Sob essa mesma base de comparação, a massa de salários pagos aos operários ficou 5,6% maior.

Já o uso da capacidade instalada no primeiro semestre foi de 83,3 (numa base de 100), tido como elevado para padrões tradicionais do setor. Ao comentar esse nível, Paulo Mol, economista da CNI, disse que o uso intensivo do parque fabril é positivo por ser fator de estímulo ao investimento. Segundo ele, a tendência é a expansão do investimento nas indústrias na segunda metade do ano.

O uso da capacidade instalada reflete as condições operacionais das indústrias em atender a demanda sem que haja pressão de preços. É, também, um dos principais indicadores analisados pelo BC nas decisões sobre aumento dos juros.

Especificamente em junho, todos os indicadores apresentaram alta tanto na comparação com maio como na comparação com junho de 2007. O destaque foi, mais uma vez, o faturamento, que avançou 10,5% ante junho do ano passado e 2% sobre maio.

Os setores que apresentaram os maiores percentuais de aumento da receita foram as indústrias de aviões e motos, montadoras de veículos, fábricas de material eletrônico, de máquinas e equipamentos, de refino de álcool, de papel e celulose e fábrica de metais.

Para Paulo Mol, os bons resultados refletem o mercado interno, que se mantém ano como o motor da economia.

A CNI analisa que o ritmo intenso da atividade industrial tende a ser manter, mas com desaceleração, devido à elevada base de comparação com os primeiros seis meses do ano e como efeito da decisão do governo de combater a inflação por meio da elevação dos juros.

A alta dos juros encarece o crédito a empresas e consumidores e provoca redução do ritmo de expansão da economia.

29/07/2008 - 12:07h Exagero

VALOR

Do ponto de vista econômico, o Brasil mudou (e para melhor) desde 1994, quando se iniciou o bem-sucedido Plano Real. Do ponto de vista político-social a mudança (também para melhor) já havia começado com a Constituição de 1988. Ela talvez tenha sido muito generosa, o que tem exigido um aumento de carga tributária que certamente não estimula o crescimento. Em compensação, tem permitido um processo redistributivo que dá aos cidadãos o sentimento de que cresce a igualdade de oportunidade, condição necessária para a ratificação e continuidade, nas urnas, de uma boa política econômica.

Os principais indicadores mostram que somos hoje uma economia normal. Nos últimos três anos registramos: 1) um crescimento médio do PIB de 4,1%; 2) uma taxa média de inflação de 4,4%; 3) um saldo médio em conta corrente de US$ 9,8 bilhões (1% do PIB); e 4) uma redução anual da relação dívida/PIB de 1,3%. Em 2007 crescemos 5,4%, com uma inflação de 4,5% e com um saldo em conta corrente ligeiramente positivo (0,1% do PIB). São todos sinais vitais de uma economia que se prepara para crescer robustamente. O fator que destoa desse quadro é a nossa teratológica taxa de juro real. Ela é há muitos anos a campeã ou vice das quantas que vigem no mundo civilizado. A figura abaixo mostra a barbaridade.

A única explicação plausível para esse fato - que nega todas as mais sofisticadas, que acabam não sendo “explicações”, mas apenas “justificações” - é que, num ato de desespero diante de uma crise externa, escolhemos um arriscado mecanismo de financiamento da dívida interna, que nunca mais tentamos seriamente corrigir. Tudo muito ligado à oportunista valorização do câmbio de 1995-1998 (com taxas de juros reais de 20% ao ano!) para a redução da taxa de inflação. É esse extravagante nível da taxa de juro real que torna problemática a nossa política monetária.

Estamos agora diante de uma inflação planetária produzida pela conjugação de vários fatores: 1) uma enorme desvalorização da unidade de conta do comércio internacional, o dólar americano; 2) uma expansão dos emergentes (China, Índia e seus satélites), facilitada pelo próprio déficit em conta corrente dos EUA, que desequilibrou a oferta e a procura mundiais de alimentos, metais e petróleo e elevou seus preços; e 3) uma política monetária laxista dos bancos centrais dos países desenvolvidos que, além do mais, não controlaram a imoralidade implícita nos incentivos construídos pelas sofisticadas inovações do seu sistema financeiro. A inflação planetária é confirmada pela tabela abaixo, onde se revela a taxa de inflação anual média entre 1996 e dezembro de 2006, comparada com a de janeiro de 2007 a maio de 2008 em países desenvolvidos, que representam mais de 50% do PIB mundial. Como a inflação é global, é claro que seu controle exigirá um compromisso entre todos os bancos centrais.

É preciso lembrar que o Brasil beneficiou-se largamente de sua integração mundial e que, portanto, o preço dos seus bens transacionáveis são fixados no mercado internacional e internalizados pela taxa de câmbio flutuante. Quando a taxa de juros real interna é parecida com a internacional, esse mecanismo é bastante razoável. A inflação de hoje em um país particular é em parte “importada”, mas pode também ser adicionalmente (ainda que não necessariamente), estimulada por um excesso de demanda interna. Isso torna mais difícil e delicada a tarefa de um Banco Central responsável, que precisa manter a taxa de inflação dentro da “meta” sem desatentar para as conseqüências do seu excesso de zelo sobre o nível de atividade produtiva, do emprego e do equilíbrio fiscal, que no Brasil é cada vez mais precário.

Tudo bem considerado e ponderado, não parece impróprio questionar como extravagante o recente aumento da nossa taxa Selic em 75 pontos. Ele pareceu mais o resultado de uma necessidade infantil de afirmação de independência da autoridade monetária, estimulada pelas espertas “tesourarias” que a candongam. Se há dúvidas sobre tal demonstração para reforçar uma falsa “credibilidade”, não há dúvida sobre seu objetivo: aprofundar a já desastrosa valorização do real. É apenas o mesmo expediente oportunístico de controlar a taxa de inflação à custa da higidez do sistema produtivo e do futuro equilíbrio fiscal. Diante de tanta incerteza, a virtude exigiria um pouco mais de paciência e conservadorismo: 50 pontos estaria de bom tamanho, até que os outros bancos centrais explicitem o que vão fazer…

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

25/07/2008 - 16:45h Krugman defende ação do BC no Brasil

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O economista
Paul Krugman,
que vê Brasil
líder dos emergentes

FOLHA SP - DA REPORTAGEM LOCAL

FOTO Moacyr Lopes Jr -

23.jul.08/Folha Imagem


DENYSE GODOY - FOLHA SP

Não, não vai ser a China. O papel de grande líder das nações emergentes caberá ao Brasil, na avaliação do economista americano Paul Krugman, 55, embora a economia brasileira esteja crescendo menos do que poderia, segundo ele. As deficiências do Brasil, porém, impedem um crescimento maior sem inflação agora. “Não se pode ter uma política que leve o crescimento a um ritmo superior ao seu potencial”, disse. Por isso o economista apóia a elevação dos juros pelo BC.

A seguir, trechos da entrevista que concedeu ontem à Folha, por telefone, do Rio. Ele esteve no Brasil por dois dias participando de seminários.

FOLHA - Qual é a sua análise da atuação dos bancos centrais dos emergentes, como o brasileiro, que acaba de elevar os juros?

PAUL KRUGMAN - Eu diria que faz sentido, mas não posso julgar se o tamanho e o ritmo do aumento de juros estão certos.
Nos países avançados, o problema é a deflação e uma ameaça de colapso no mercado financeiro. Na maior parte do mundo emergente, as pressões são inflacionárias.

FOLHA - Aumentar os juros é a melhor alternativa no caso de uma inflação causada primeiramente pela alta dos preços das commodities?

KRUGMAN - A minha avaliação é de que, nos EUA, não é desejável usar a política monetária para lutar contra a inflação de commodities. No Brasil, muito do que está acontecendo é explicado pelos alimentos, mas não tudo. Olhando para os EUA, temos um mercado de trabalho muito fraco. No Brasil, é o contrário.

FOLHA - É possível combater a inflação sem desistir totalmente de crescer?

KRUGMAN - Sim. Entretanto, se os indicadores dizem que o país está crescendo acima do potencial, é preciso fazer alguma coisa para segurar a inflação. Não tenho provas convincentes de que o Brasil possui uma taxa de crescimento potencial de mais de 5% [ao ano]. Não se pode ter uma política que leve o crescimento a um ritmo superior ao seu potencial.

FOLHA - Como vê o novo cenário mundial, em que EUA e Europa continuam sendo as economias mais importantes, porém surgem novos grandes atores, como China e Índia?

KRUGMAN - Ninguém sabe realmente como esse novo mundo vai se desenvolver, se será preciso um poder hegemônico ou não. Esperamos que não, porque não temos um.

FOLHA - E qual é o papel do Brasil nesse mundo?

KRUGMAN - O Brasil está em uma posição bastante interessante porque é o maior país em desenvolvimento que não é a China nem a Índia. A China e a Índia têm as suas especificidades, e é difícil colocar qualquer uma delas no papel de líder para os outros emergentes, porque, de certa forma, elas são grandes demais para fazer parte de alianças. Então, é o Brasil que está rumando para a função de líder dos emergentes.

FOLHA - Nas comparações com o crescimento da Índia e da China, o Brasil fica em desvantagem. O senhor está dizendo, então, que essa comparação não é justa?

KRUGMAN - Apesar de tudo, o Brasil é um país muito mais rico. Não é razoável esperar que o Brasil cresça tão rápido como a China. A China partiu de uma pobreza tão grande que um mínimo de modernidade é um avanço notável. Comparar com o crescimento da China é injusto, mas o Brasil está crescendo menos do que poderia.

FOLHA - A que se deve isso?

KRUGMAN - As explicações usuais dizem respeito à educação, que não é boa como deveria ser. Nos países asiáticos de elevado crescimento, a educação é surpreendentemente melhor do que se esperaria, mesmo o país tendo muita pobreza. Se esse é o motivo? Não sei.

FOLHA - Os EUA já se encontram mergulhados em uma recessão?

KRUGMAN - A definição oficial de recessão nos EUA é dada por um comitê. Não temos uma definição formal, então fica difícil. Independentemente da palavra, a situação que temos claramente nos últimos seis meses é a economia crescendo, mas devagar demais. A questão é se o comitê vai decidir chamar isso de recessão, porque a maior parte de nós sente como uma recessão, com certeza.

FOLHA - O presidente George W. Bush e o presidente do Fed (banco central americano), Ben Bernanke, poderiam ter feito alguma coisa diferente para evitar que a situação chegasse ao ponto em que está?

KRUGMAN - O melhor teria sido tomar uma posição [quanto às operações com hipotecas de alto risco] entre o final de 2004 e o começo de 2005. Se o Fed tivesse começado a cortar os juros no começo de 2007, talvez pudesse ter evitado isso tudo. A redução da taxa só veio em agosto de 2007, pois antes não estava óbvio para todo mundo que havia um problema. No entanto, acho que Bernanke tem o crédito de estar agindo com a agressividade que um banco central nunca teve.

FOLHA - Quais são os principais desafios para o próximo presidente?

KRUGMAN - Ele vai ter que mostrar trabalho imediatamente. Em um ano os resultados precisam aparecer, senão terá que assumir a recessão como sua.
Ademais, será necessário fazer a reforma do sistema de saúde.

FOLHA - Em termos de projetos, dá para saber para qual direção Barack Obama e John McCain (candidatos à Presidência dos EUA) estão caminhando?

KRUGMAN - McCain quer fazer o que Bush fez, só que melhor, e isso é o máximo que é possível dizer. Sobre Obama, não sabemos ainda. Ele claramente é um democrata liberal, mas não sabemos se é um reformador modesto ou se é alguém que vai realizar grandes mudanças.

FOLHA - Alguma esperança em relação a ele?

KRUGMAN - Eu tenho esperança. Se bem que, falando de Obama, não se pode usar a palavra “esperança” [risos]. Sempre que uso o termo “esperança” na minha coluna. recebo dezenas de cartas perguntando se estou tirando sarro de Obama [o candidato utiliza a palavra nos seus slogans]. Estou preocupado, acho que ele tem uma tendência de ser cauteloso demais, de correr para o que as pessoas chamam de centro. Espero que se mostre mais determinado.

FOLHA - Para os que reclamam do protecionismo dos EUA, quem, entre Obama e Mccain, seria mais liberal em termos de comércio?

KRUGMAN - Nenhum dos dois.
Não vamos ter novamente um grande apoio dos EUA à globalização. Mas provavelmente também não teremos um período de grande protecionismo.
É provável que McCain seja mais protecionista. Para Obama, se existem acordos [multilaterais], os EUA devem obedecer a eles, enquanto McCain pode dizer que os tratados existem mas o país mudou de idéia.

FOLHA - Algum dos dois poderia ser mais simpático ao álcool de cana-de-açúcar, considerando que o biocombustível de milho não parece ser uma boa idéia e o preço do petróleo está nas alturas?

KRUGMAN - Os 5% da população dos EUA a quem interessa que o país mantenha essas medidas malucas [de incentivo ao álcool de milho] são os que têm poder de decisão política. A resposta é não, nada vai acontecer.

24/07/2008 - 09:10h Crise será longa, mas sem colapso

Paul KrugmanA imagem “http://www.valoronline.com.br/images/edicoes/ed_0002056/imagens/foto_24pri-capa-a1.jpg” contém erros e não pode ser exibida.

A atual crise financeira dos Estados Unidos e da Europa não deve levar a um colapso na economia global, mas o mundo pode se preparar para alguns anos de desaceleração no ritmo de crescimento. O professor Paul Krugman, da Universidade de Princeton, considera que a ação agressiva e pró-ativa dos bancos centrais foi providencial e deve evitar uma catástrofe econômica semelhante à registrada nos anos 30. Essa avaliação é compartilhada por analistas brasileiros como o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, da Unicamp, e o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho. Os três economistas participaram ontem, em São Paulo, do Fórum CPFL Energia, evento que contou com o apoio do Valor e teve como tema “Crise Financeira Internacional e Crescimento da Economia Brasileira”.

Sobre o Brasil, a opinião dominante é de que o novo cenário internacional traz pressões inflacionárias e alguma desaceleração da atividade econômica, mas não a ponto de causar transtornos mais sérios. Krugman lembra que, no meio da crise, o país tem se beneficiado da alta dos preços das commodities, por ser um grande exportador de produtos primários. Com a perspectiva de alguma queda das commodities, ele acha possível que haja uma desvalorização do câmbio.


Luciano Coutinho, residente do BNDES e  Luiz Gonzaga Belluzzo, Pres. do conselho da TV Brasil

Horizonte de incertezas


Por Sergio Lamucci e Cristiane Perini Lucchesi - VALOR

A crise financeira dos Estados Unidos e da Europa que se seguiu ao estouro da bolha imobiliária americana não deve levar a um colapso na economia global, mas o mundo pode se preparar para alguns anos de desaceleração no ritmo de crescimento. Esse é o diagnóstico feito pelo professor Paul Krugman, da Universidade de Princeton, para quem a ação agressiva e pró-ativa dos bancos centrais - como o Federal Reserve, dos Estados Unidos, o Banco da Inglaterra e, em menor grau, o Banco Central Europeu - foi providencial e deve evitar uma catástrofe econômica semelhante à registrada nos anos 30. A avaliação de que os efeitos da crise não serão muito agudos, porém prolongados, é compartilhada por analistas brasileiros como o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, da Unicamp, e o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho.

Quanto ao Brasil, a opinião dominante é de que o novo cenário internacional traz pressões inflacionárias e alguma desaceleração da atividade econômica, mas não a ponto de causar transtornos mais sérios. No meio da crise, o país tem se beneficiado da alta dos preços das commodities, por ser um grande exportador de produtos primários, como nota Krugman. O economista americano participou ontem do Fórum CPFL Energia, realizado em São Paulo. O evento, que contou com o apoio do Valor, teve como tema “Crise Financeira Internacional e Crescimento da Economia Brasileira”.

Ao comentar as origens da crise americana atual, Krugman destacou uma mudança na economia global que teve início depois da crise asiática de 1997. Após a turbulência que acometeu a região naquele ano, muitos países asiáticos adotaram uma estratégia baseada no atrelamento de suas moedas ao dólar, formal ou informalmente, e na acumulação agressiva de reservas internacionais.

O excedente dos superávits comerciais dos asiáticos passou a ser aplicado principalmente na compra de títulos públicos do Tesouro dos EUA. Esse arranjo, pelo qual os países da Ásia passaram a financiar os déficits americanos, ficou conhecido como Bretton Woods II, definição cunhada pelos economistas Michael Dooley, David Folkerts-Landau e Peter Garber. As conferências de Bretton Woods aconteceram em 1944 e determinaram um sistema de câmbio fixo global, usando como base a paridade entre o dólar e o ouro. Esse sistema acabou nos anos 70.

No Bretton Woods II, “países que eram importadores de capital se tornaram exportadores de capital”, disse Krugman. Esse mecanismo ajudou a financiar as bolhas especulativas na economia americana, diz ele, lembrando que os preços dos imóveis nos EUA cresceram 70%, em termos reais, entre 2000 e 2006.

A bolha então estourou, primeiramente com a crise do subprime (as hipotecas de alto risco), que atingiu os mercados internacionais a partir de meados do ano passado. “De agosto de 2007 para cá, nós já tivemos quatro ondas sucessivas da crise. A mais recente foi a da Fannie Mae e da Freddie Mac”, apontou Krugman, em referência às dificuldades enfrentadas pelas gigantes do financiamento imobiliário americano.

Dado o tamanho do problema, seria factível pensar num cenário parecido com o colapso financeiro dos anos 30, disse ele. A grande diferença é que os bancos centrais agiram agressivamente para evitar o pior. Com essa atuação, Krugman acredita que um colapso financeiro como o ocorrido nos anos 30 é muito pouco provável, embora não completamente implausível. “Mas, há seis meses eu tinha mais dúvidas sobre isso”, afirmou ele. Krugman não negou a existência do chamado “risco moral” - moral hazard -, de bancos não-regulamentados receberem garantias governamentais iguais aos regulamentados. “Há o risco de estarem jogando com o dinheiro público”, afirmou. Atuação das autoridades monetárias não deve impedir, também, que os EUA cresçam alguns anos abaixo do seu potencial, advertiu Krugman, que vê o seu país em recessão. “O crescimento só não tem sido mais baixo por causa do dólar fraco, que tem feito aumentar as exportações.”

Belluzzo concordou com a avaliação de Krugman, apostando que a crise não “será aguda, mas será prolongada”. Para Belluzzo, já está em curso um “credit crunch”, ou seja, uma violenta contração do crédito. “Isso gera problemas graves para a economia real”, afirmou ele, para quem também é provável que a economia americana cresça algum tempo abaixo do potencial. Coutinho, por sua vez, enfatizou que os problemas financeiros nos EUA deverão demorar bastante para ser digeridos. Quem previu em maio o fim da crise mostrou-se totalmente precipitado, observou ele.

Krugman considera crucial o papel do câmbio desvalorizado nos EUA para explicar os efeitos globais da atual crise, num mundo em que países importantes como a China tem suas moedas em alguma medida atrelada ao dólar. Além do aumento dos preços das commodities em dólar, Krugman disse que, dado o arranjo de Bretton Woods II, os “EUA estão de fato exportando inflação para o mundo”, com o dólar fraco e os juros baixos. Nos Estados Unidos, que enfrentam uma crise financeira e uma desaceleração da atividade econômica, essa combinação não é inflacionária nem expansionista. Nos países que de algum modo atrelam sua moeda à divisa americana, a situação é diferente, como por exemplo na China.

Ele lembrou que os cortes de juros do Fed têm afetado o crédito imobiliário americano, que continua com alta de taxas para o cliente final. No entanto, tem promovido uma aceleração forte de crescimento nas economias dos países emergentes. Para ele, a economia da China está superaquecida e será necessário desacelerar o ritmo de crescimento. Uma das estratégias para combater a inflação nesses países será por meio da valorização de suas moedas, acredita Krugman. Com isso, a China, um dos principais motores da economia global nos últimos anos, deverá crescer a um ritmo um pouco menor daqui para frente, o que, segundo ele, poderá levar a alguma queda dos preços de commodities, mas não a um tombo abrupto. Esse crescimento menor na China, na sua visão, não é positivo para o Brasil, que pode ter seu ritmo de expansão econômica reduzido.

Krugman foi cuidadoso ao falar do impacto da crise ao Brasil. Disse que a situação é mais complicada de se analisar, porque o país não faz parte do Bretton Woods II, tendo em seu lugar um câmbio flutuante que já se valorizou bastante em termos reais nos últimos anos. Com a perspectiva de alguma queda das commodities, ele acha possível que haja uma desvalorização do câmbio. Quanto à orientação das políticas no Brasil, disse que poderia afirmar que “elas não são obviamente estúpidas”.

Também presente no evento, o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros discordou da avaliação de Krugman sobre o papel da China. Para ele, o economista americano vê o país asiático como um personagem passivo, o que não seria condizente com a importância chinesa para a economia global. Para Mendonça de Barros, a China é, de fato, um dado novo no equilíbrio global, que mudou profundamente o panorama econômico do mundo. “O Brasil, por exemplo, foi um dos principais beneficiários do surgimento da China”, disse ele, referindo-se ao fato de o país asiático demandar fortemente os produtos exportados pelo país.

O ex-ministro avalia ainda que a China terá um papel crucial inclusive para “viabilizar a solução do problema econômico americano”. Mendonça de Barros destacou a importância cada vez maior do consumo na economia chinesa, compensando em parte a desaceleração na economia americana. Mendonça de Barros ressaltou a flexibilidade da economia dos EUA, que sempre mostra uma capacidade de adaptação a situações complicadas. “Eu aprendi que não se deve apostar contra o capitalismo americano, porque você acaba perdendo dinheiro.”

Para Luciano Coutinho, a economia brasileira tem condições favoráveis como nunca no pós-guerra para enfrentar a crise. “O colchão de reservas e a estabilidade e crescimento econômico vão permitir a digestão melhor dos problemas financeiros internacionais”, disse. Para ele, a alta de juros básicos é necessária neste momento e vai promover uma desaceleração “desejável” no crédito no Brasil. Na sua visão, “não há risco de o crédito desabar, ter uma parada abrupta”.

16/07/2008 - 14:29h Ano de viver perigosamente

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Por Martin Wolf - VALOR

Passou-se quase um ano desde que a crise do subprime nos EUA se tornou global. À época, muitos esperavam que a reavaliação do risco não seria mais do que uma breve interrupção no progresso da economia mundial e dos EUA. Essas esperanças foram frustradas. Os infortúnios do Fannie Mae e do Freddie Mac, o tombo dos mercados acionários e a escalada nos preços do petróleo deixam claro como esta confusão está longe do seu fim. Ela, muito provavelmente, nem passou o fim do seu começo.

Então, onde está a economia mundial agora? E para onde poderá rumar? Eis algumas respostas preliminares.

A resposta à primeira vem em duas partes principais: manutenção do aperto financeiro e aumentos nos preços das commodities. O desempenho das ações do setor bancário nos revela a maior parte do que precisamos saber sobre a crise financeira. Nos EUA, o epicentro do aperto, os bancos perderam metade do seu valor de mercado entre um ano atrás e o fim da semana passada, em relação ao índice composto S&P.

Investidores em ações não são as únicas pessoas preocupadas com a saúde dos bancos. Os próprios bancos também estão preocupados. Os prêmios de risco entre taxas de juros que incidem sobre empréstimos interbancários em dólares, euros e libras esterlinas, e as taxas oficiais esperadas para três e seis meses estão agora mais dilatados do que estiveram em março. Os prêmios de risco sobre empréstimos de seis meses agora se nivelaram aos dois picos anteriores, ocorridos em setembro e dezembro do ano passado. Esta não é uma mera crise de liquidez. Os bancos estão manifestando preocupação a respeito da solvência dos seus pares. Um bom motivo para estarem preocupados é que a qualidade das garantias básicas para grande parte do empréstimo dos anos passados - habitação - continua se deteriorando. O índice Case-Schiller de 20 cidades caiu 18% em termos nominais e 22% em termos reais entre seu pico, em meados de 2006, e abril deste ano. Essa taxa de queda também está se acelerando.

Não admira, portanto, que o mercado de ações esteja mostrando algo semelhante a pânico em torno das perspectivas para os dois empreendimentos patrocinados pelo governo, Fannie Mae e Freddie Mac, que têm financiado aproximadamente 75% de todos os financiamentos habitacionais dos EUA. Uma tomada do controle formal do governo sobre estas entidades, cujo passivo total está próximo de 40% do PIB dos EUA, não está descartada. Em termos de endividamento bruto do governo, isso faria os EUA se assemelharem à Itália.

Enquanto isso, o preço do petróleo está próximo de US$ 150 o barril. Apesar de uma parte importante da economia estar preocupada com os riscos de colapso financeiro e posterior deflação, o preço da commodity mais importante do mundo dobrou ao longo do ano passado. Em termos reais, o preço do petróleo está 25% mais alto agora do que em 1979, no auge do segundo choque do petróleo. Os preços ascendentes do petróleo e demais commodities são uma espécie de quebra-cabeças, pois o crescimento econômico mundial está se desacelerando: a maioria das projeções para junho estima o crescimento mundial em 2,9% neste ano (a taxas de câmbio de mercado), numa queda ante os 3,8% em 2007, em grande parte devido à desaceleração econômica nos países ricos, com o crescimento dos EUA projetado em apenas 1,5% neste ano, numa queda ante os 2,2% de 2007, e crescimento de 1,8% na Europa Ocidental, numa queda na comparação com 2,8%, em 2007.

Os produtores deixarão o petróleo no solo se o aumento esperado nos preços do petróleo for mais rápido do que o retorno sobre os ativos alternativos

Por que os preços das commodities estão disparando quando a economia mundial está desacelerando? A explicação popular parece ser “especulação”. No entanto, considerando que a especulação já está presente, isso não consegue explicar porque o preço do arroz está em franca aceleração agora. Outra explicação popular é o agressivo afrouxamento da política monetária dos EUA. Mas isso dificilmente consegue explicar o veloz aumento de preço do petróleo, mesmo em euros. A especulação tampouco explica o aumento nos preços de commodities que não possuem mercados futuros ativos: o minério de ferro, por exemplo.

No caso do petróleo, como observou Daniel Gros, do Centro para Estudos de Política Européia, no “Financial Times” da semana passada, a especulação é inerente à decisão de produzir. Os produtores são especuladores em relação ao valor futuro dos seus recursos - e com justiça, já que são finitos.

Os produtores deixarão o petróleo no solo se o aumento esperado nos preços reais do petróleo for mais rápido do que o retorno sobre os ativos alternativos. O que determina o preço atual, portanto, é o preço futuro esperado. Os mais importantes propulsores têm sido o crescimento potencial na demanda de países emergentes, particularmente a China, e o pessimismo em torno de fontes alternativas de abastecimento. O crescimento veloz e altamente intensivo em recursos da China é o fator mais importante: estima-se que o crescimento no país será de 10% neste ano e de mais de 9% em 2009.

Então, o que acontecerá com a economia mundial doravante? Aqui talvez o ponto mais importante seja a incerteza. É possível fazer relatos de um retorno ao crescimento acelerado na economia mundial. É igualmente fácil contar histórias sobre algo semelhante a um desastre financeiro. O equilíbrio de forças econômicas, porém, é de contração: crises financeiras e colapso dos preços dos imóveis nos EUA e em vários outros países ricos, forte alta nos preços das commodities, além de pressões inflacionárias, especialmente nos países emergentes.

É difícil enxergar um desfecho diferente de uma desaceleração sustentada na economia mundial. É até bastante provável que o crescimento de longo prazo da economia mundial seja consideravelmente mais lento do que se esperava há poucos anos. Ademais, alguns riscos poderão se combinar de formas perigosas. Um ataque ao Irã poderá empurrar o preço do petróleo para acima de US$ 200, por exemplo. Além disso, a solvência do governo dos EUA não pode ser considerada um fato consumado. Se a desalavancagem em curso na economia americana enfraquecer o consumo, a economia poderá entrar em profunda recessão. Os déficits fiscais dos EUA poderão disparar e as taxas de juro de longo prazo poderão dar um salto. Esse cenário poderá tornar a visão da dinâmica da dívida do governo dos EUA altamente desagradável. Daí poderão sobrevir uma fuga do dólar e dos bônus denominados em dólar. Quem desejará comandar o Fed depois disso?

A boa notícia é que a economia mundial se manteve surpreendentemente bem. A má notícia é que os riscos continuam completamente no pólo negativo. Será preciso muita sorte e muita capacidade de discernimento para atravessar as tempestades incólumes. É hora de fazer uma pausa deste ambiente pessimista. É o que farei agora. Voltarei no fim de agosto.

15/07/2008 - 10:02h Fannie, Freddie e você

 

Paul Krugman* - O Estado de São Paulo

E chegamos à etapa seguinte da nossa aparentemente interminável crise financeira. Desta vez são Fannie Mae e Freddie Mac que ocupam as manchetes, com alertas funestos de um colapso iminente.

Até que ponto devemos ficar preocupados? Bem, eu assumo a posição contrária: o clima criado em torno dessas instituições de créditos particulares é exagerado. Fannie e Freddie precisam de um socorro governamental. Mas como já está claro que esse socorro virá, seus problemas não vão arrasar a economia.

Além disso, embora Fannie e Freddie sejam instituições problemáticas, elas não são as responsáveis pelos apuros que estamos passando.

Vamos aos antecedentes: Fannie Mae - Federal National Mortgage Association (Associação Hipotecária Federal) - foi criada na década de 30 para facilitar o acesso à casa própria, comprando hipotecas de bancos, liberando dinheiro que poderia ser utilizado para fazer novos empréstimos. Fannie Mae e Freddie Mac, que operam quase da mesma maneira, hoje financiam a maior parte dos empréstimos feitos nos Estados Unidos para aquisição de imóvel residencial.

Os argumentos contra Fannie e Freddie começam com relação ao seu estatuto peculiar: embora sejam companhias privadas, com acionistas e lucros, elas são “empresas subvencionadas pelo governo”, estabelecidas por lei federal, o que significa que têm privilégios especiais.

O mais importante desses privilégios está implícito: é a crença dos investidores de que, se as duas empresas estiverem ameaçadas de falência, o governo federal partirá em seu socorro.

Essa garantia implícita significa que os lucros são privatizados, mas os prejuízos são socializados. Se Fannie e Freddie prosperam, seus acionistas colhem os benefícios. Porém, se as coisas andam mal, Washington paga a conta. Cara, eles ganham, coroa, nós perdemos.

Esse tipo de aposta que vai num único sentido pode encorajar a assunção de um mau risco porque o inconveniente disso vai ser problema de algum outro. Exemplo clássico de como isso pode acontecer foi a crise das instituições de poupança e empréstimo, nos anos 80. Essas instituições ofereciam altas taxas de juro para atrair grande volume de depósitos garantidos pelo governo federal, e depois especulavam com esse dinheiro. Quando muitas das suas operações deram errado, os fundos federais acabaram pagando o pato. O custo final da arrumação da casa aos contribuintes foi de mais de US$ 100 bilhões.

Mas essa é a questão. Fannie e Freddie não tiveram nada a ver com a explosão dos empréstimos de alto risco iniciada há alguns anos, uma explosão que fez parecer insignificante o fiasco das instituições de poupança e empréstimo dos anos 80. Na verdade, Fannie e Freddie, depois de um veloz crescimento na década de 90, praticamente sumiram de cena durante o pico da bolha imobiliária.

Em parte porque os órgãos reguladores, reagindo aos escândalos contábeis nas empresas, impuseram algumas limitações temporárias para as duas instituições que restringiram suas operações de empréstimos, exatamente quando os preços das habitações estavam realmente decolando.

Além disso, elas não operaram com empréstimos considerados de alto risco porque não podem: um empréstimo de alto risco, ou suprime, pode ser definido precisamente como o empréstimo que não atende aos requisitos, impostos por lei, e Fannie e Freddie só compram hipotecas emitidas para tomadores de empréstimo que dão uma entrada substancial e cuja renda é cuidadosamente documentada.

Assim, quaisquer incentivos negativos criados por essa garantia federal implícita são contrabalançados pelo fato de que Fannie e Freddie foram e são fortemente regulamentadas no tocante aos riscos que podem assumir. Você pode dizer que a experiência de Fannie e Freddie mostra que a regulamentação funciona.

Nesse caso, porém, como elas acabaram em dificuldade? Parte da resposta está na magnitude da bolha imobiliária e no porte das quedas de preço que vêm ocorrendo hoje com o estouro dessa bolha.

Em Los Angeles, Miami e outros lugares, qualquer pessoa que fez um empréstimo para adquirir uma casa quando o mercado estava no pico provavelmente está hoje com patrimônio negativo, mesmo que tenha dado originalmente 20% de entrada. O resultado é uma taxa crescente de inadimplência, mesmo no caso de empréstimos que atenderam às diretrizes de Fannie e Freddie.

Além disso, Fannie e Freddie, embora fortemente regulamentadas quanto à concessão de empréstimos, não precisam constituir capital suficiente - ou seja, dinheiro captado pela venda de ações em vez de levantar empréstimos. Isso significa que mesmo um pequeno declínio no valor dos seus ativos pode fazê-las submergir, devendo mais do que têm.

E claro, existe um real escândalo político nesse caso: reiteradamente vinha sendo alertado que a capitalização insuficiente das duas instituições apresentava riscos para os contribuintes, porém a administração das empresas subornou o processo político, contratando sistematicamente figuras influentes de ambos os partidos. Mas, embora alarmantes, as maquinações políticas de Fannie e Freddie não tiveram um papel significativo nas causas dos nossos problemas atuais.

Contudo, não é vergonhoso que os contribuintes acabem tendo de socorrer essas instituições? Na verdade, não. Estamos atravessando uma grande crise financeira e essas crises quase sempre acabam com algum tipo de ajuda do contribuinte socorrendo o sistema financeiro.

E vamos ser claros: não se deve permitir que Fannie e Freddie vão à falência. Com o colapso dos empréstimos subprime, essas empresas hoje são mais do que nunca fundamentais para o mercado imobiliário e a economia como um todo.

*Paul Krugman escreve para o “The New York Times”

12/07/2008 - 11:14h USA: Mercado imobiliário à beira do colapso

ANÁLISE

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DO “FINANCIAL TIMES” - FOLHA DE SÃO PAULO

COM O preço do barril de petróleo acima de US$ 146 e a oscilação nos mercados mundiais de ações, o tumulto na economia mundial se agravou durante esta semana. Mas o acontecimento mais notável foi o fato de que velhos pecados socialistas agora terão de ser pagos nos Estados Unidos, a terra do capitalismo de livre mercado.
Os problemas afetam duas empresas de financiamento hipotecário coloquialmente conhecidas como Freddie Mac e Fannie Mae e definidas como “empresas patrocinadas pelo governo”. O significado exato dessa descrição pode ser revelado em breve.
Com um passivo combinado de US$ 5,3 trilhões, o equivalente a cerca de 38% do PIB (Produto Interno Bruto) dos Estados Unidos, essas imensas companhias são universalmente vistas como grandes demais para falir.
Já que respondem por cerca de três quartos das novas hipotecas, elas também são importantes demais para que se permita que cheguem à falência.
Caso deixem de existir, o mercado de habitação poderia entrar em colapso, devastando a estabilidade financeira norte-americana.
Mas, se o governo federal tiver de incorporar as dívidas das duas empresas às suas contas, seu passivo financeiro bruto passaria a exceder os 100% do PIB. Felizmente, as coisas ainda não se agravaram a esse ponto, já que os ativos das duas instituições continuam a ter valor.
O verdadeiro problema, demonstrado pela queda vertiginosa nos preços de suas ações, é que o capital de que dispõem parece insuficiente para sustentar seus passivos, dada a escala dos possíveis prejuízos.
William Poole, ex-presidente do Federal Reserve de St. Louis, argumentou nesta semana que a Freddie Mac teria de ser considerada insolvente caso o valor de seus ativos fosse estimado a preços de mercado.
Se for acatada a suposição de que manter a capacidade das duas gigantes para emprestar é fundamental, existam apenas duas saídas: as duas teriam de levantar imensos montantes em capital adicional ou o governo teria de garantir seus passivos de maneira explícita.
Em seu depoimento ao Congresso nesta semana, Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve, encorajou as duas instituições a levantar dinheiro.
Isso certamente seria dispendioso para os acionistas existentes e arriscado para os novos. O governo mesmo poderia investir nessa operação de aumento de capital. Alternativamente, o governo poderia assumir controle direto sobre uma ou ambas as empresas, presumivelmente zerando o valor das ações em circulação.
O nome do processo, aparentemente, seria “conservadoria”. Do lado oposto do Atlântico, o termo usado seria “nacionalização”. E a decisão faria com que a nacionalização do Northern Rock pelo governo britânico parecesse não mais do que uma bagatela.
Os problemas da Fannie Mae e Freddie Mac são importantes em si. Mas são ainda mais importantes pelo que nos dizem sobre a crise em curso: ela continua a se expandir. Os preços das casas continuam a cair nos Estados Unidos, os prejuízos do setor financeiro devem aumentar, o crédito continua apertado, a economia norte-americana continua fraca, o consumo domiciliar está sob pressão cada vez mais intensa e os preços do petróleo estão subindo ainda mais.
Enquanto isso, o Departamento do Tesouro e o banco central estão improvisando desesperadamente. Os mercados de ações ao menos perceberam até que ponto as coisas estão difíceis. Apenas os mais otimistas acreditariam que o pior está por vir. A crise, na verdade, está se agravando.


Tradução de PAULO MIGLIACCI

10/07/2008 - 09:52h Eles agora consomem

Celso Ming - O Estado de São Paulo

A cúpula das duas cúpulas (G-8 + G-5) que terminou ontem no Japão mostrou, como se esperava, mais palavrório do que determinação no ataque aos grandes problemas globais.

Essa impotência ou, melhor expressado, essa falta de vontade política de fazer algo mais consistente talvez mostre que os problemas ainda precisem piorar para então começarem a melhorar.

Subjacente aos grandes temas há um fato inegável. Enquanto apenas os ricos consumiam, a poluição ambiental aumentava e os suprimentos eram desperdiçados, mas o processo não produzia escassez. As crises do capitalismo eram de superprodução. O problema era escoar as montanhas de estoques.

A partir do momento em que duas dezenas de países pobres passaram à condição de emergentes e iniciaram o processo de consumo com o objetivo de alcançar o padrão dos ricos, a escassez se acentuou. Passaram a faltar energia, matérias-primas e alimentos. E os preços dispararam.

Em conseqüência da falta de alimentos (e de outras matérias-primas), um grande número de países acionou seu arsenal de medidas defensivas, como a imposição de restrições a exportações ou o aumento das posições compradas nos mercados futuros. Isso, por sua vez, acentuou a escassez e a alta de preços. E, é claro, há os especuladores, que sempre puxam a corda mais esticada.

No caso da escassez de alimentos, os comunicados oficiais não evitam troca de acusações. Os países pobres, carregados de razão, argumentam que ela é, em grande parte, conseqüência da política protecionista dos países ricos, que há décadas despejam subsídios na produção de grãos e, assim, tiram competitividade da agricultura em países pobres.

Os países ricos, por sua vez, argumentam que o crescimento do consumo nos emergentes vem acontecendo rapidamente demais e que por isso precisa ser contido por meio de políticas macroeconômicas, como a valorização das moedas nacionais, o aumento dos juros e a adoção de critérios trabalhistas que, na prática, aumentam os custos de produção dos países emergentes.

Em apenas dez anos, cerca de 400 milhões de asiáticos, antes excluídos dos mercados de trabalho e de consumo, foram incorporados ao sistema global. No momento, seu objetivo é alcançar uma fração do padrão de consumo dos ricos, o que é suficiente para acentuar os desequilíbrios.

Um tanto dispersas e pouco sistematizadas, há pelo menos três posições que tentam a superação da escassez.

Há aqueles para os quais é preciso atacar os sintomas. Sugerem mais controles nos mercados futuros ou mais supervisão por parte de instituições estatais para coibir a especulação.

A segunda posição é a dos otimistas, que entendem que este é o jeito pelo qual a economia mundial avança, aos trancos, a partir da superação natural dos desequilíbrios. É a posição dos que desprezam a limitações dos recursos naturais e entendem que tudo se resolve com mais investimentos e mais produtividade.

E, em terceiro lugar, há aqueles para os quais não há saída senão mudar o padrão global de consumo. Se o povão espalhado pelas grotas do planeta passar a consumir, não haverá o que chegue e a vida, tal como conhecemos hoje, ficará impossível.

Talvez a saída seja uma mistura dessas duas últimas posições. Mas, decididamente, não é coisa para já.

30/06/2008 - 12:56h O maior choque desde os anos 70

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Ribamar Oliveira, email: ribamar.oliveira@grupoestado.com.br

O preço do petróleo em dólar, descontada a inflação americana, já está acima daquele praticado após o segundo choque do petróleo, em 1979. E não há sinal de que os preços possam cair no curto prazo. Ao contrário, o prognóstico feito na semana passada pelo presidente da Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep), Chakib Khelil, é o de que, neste verão do Hemisfério Norte, o barril fique entre US$ 150 e US$ 170. Na última sexta-feira, bateu em US$ 143.

Pressionados pela demanda crescente dos países emergentes, principalmente China e Índia, os preços reais das commodities agrícolas (milho, soja, trigo, arroz e café, entre outros) não param de subir desde 2006. Mas os especialistas advertem que os preços ainda não retornaram ao nível praticado na década de 1970. Ou seja, é muito provável que continuem em alta, em decorrência também do crescente uso dos óleos vegetais para fins carburantes.

O consumo de óleos vegetais para fins carburantes na União Européia (UE) cresceu 141,5% no período de 2003/04 a 2007/08, segundo estudo feito pelo Instituto de Economia Agrícola (IEA), órgão do governo do Estado de São Paulo. Isso ocorreu por força do compromisso da UE, signatária do Protocolo de Kyoto, em reduzir as emissões de gases de efeito estufa até 2012, com relação aos níveis de 1990.

A elevação dos preços dos minérios é ainda mais vertiginosa do que a dos alimentos, segundo outro estudo do IEA, que comparou os preços das commodities agrícolas com o preço das commodities minerais. O preço do níquel estava 548% mais alto no primeiro semestre de 2007 em relação à média do triênio 1999-2000, enquanto o preço do zinco tinha subido 247%, o dos metais não ferrosos 251%, o do estanho, 162% e o do minério de ferro, 195%.

Não há sinal de mudança nessa trajetória, pois a mineradora australiana Rio Tinto acaba de fechar contrato com a siderúrgica chinesa Baosteel que prevê aumento de 85% para o minério de ferro. Com a siderúrgica japonesa Nippon Steel o aumento acertado foi ainda maior, de 100%.

Esses dados mostram que o mundo está diante do maior choque de preços de commodities desde os anos de 1970. O ex-ministro da Fazenda Delfim Netto, que administrou a economia brasileira durante o segundo choque do petróleo, não tem dúvidas sobre isso. Para ele, no entanto, o quadro atual é mais delicado porque tem um componente especulativo que era inimaginável naquela época.

Hoje, disse Delfim em conversa com este colunista, os investidores - principalmente os fundos hedge - estão fazendo pesadas compras nos mercados futuros de commodities, o que ajuda a elevar os preços desses produtos. Essas aplicações são estimuladas pela queda dos juros americanos e pela desvalorização do dólar, que não pára de cair ante as outras moedas. “Naquela época, o que pressionava o preço do petróleo era a demanda e a formação de estoques”, lembrou Delfim. “Agora, além do problema do aumento da demanda e dos estoques, há a especulação”.

Em recente depoimento no Senado dos Estados Unidos, Michael Masters, administrador do Master Capital Management, um importante fundo hedge, estimou que a demanda dos especuladores aumentou em 848 milhões de barris anuais de petróleo nos últimos cinco anos. Essa quantidade seria quase igual ao acréscimo anual da demanda chinesa. O forte crescimento da demanda não está sendo acompanhado por igual aumento da oferta.

A elevação do preço do petróleo impacta os custos de produção de todos os setores da economia, observou Delfim. Sobem os preços dos alimentos porque aumentam os custos dos fertilizantes e dos transportes. Há uma correlação muito forte entre os preços das commodities agrícolas e os preços do petróleo, principalmente depois que as oleaginosas passaram a ser usadas para fins carburantes.

O resultado desse choque de preços das commodities é o aumento da inflação em quase todos os países do mundo. A inflação da China ficou em 8,5% nos 12 meses terminados em abril. No mesmo período, a inflação da Índia ficou em 7,8%. A Rússia registrou elevação de preços de 15,1% no período de 12 meses até maio. Em maio, o núcleo da inflação no Japão (que exclui os preços de alimentos frescos) registrou alta de 1,5%, maior avanço desde março de 1998. Na Alemanha, os preços ao consumidor subiram 3,3% nos últimos 12 meses, a maior alta desde 1993.

Delfim está convencido de que essas pressões inflacionárias só serão reduzidas com o corte da demanda global. Os bancos centrais de vários países do mundo já promoveram aumento dos juros e outros estão sinalizando nessa direção. “Está caindo a ficha no mundo inteiro”, disse o ex-ministro. Mas Delfim acha que o quadro só ficará mais claro com a posse do novo presidente dos Estados Unidos, que definirá o que fazer com a maior economia do planeta.

No caso do Brasil, observou Delfim, é muito provável que o Comitê de Política Monetária do Banco Central aumente o juro em 0,75 ponto porcentual em sua próxima reunião. Essa rodada de elevação dos juros em todo o mundo aponta para a redução do ritmo do crescimento econômico. E, desta vez, tudo indica que os países emergentes não conseguirão se “descolar” das economias centrais.

15/06/2008 - 22:03h 2008, o ano em que tudo mudou

A política macroeconômica tem o desafio de sustentar as oportunidades

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ANTÔNIO PALOCCI - O GLOBO

O ano em curso deve ficar na História. São tão grandes os desafios, as surpresas e as oportunidades que já é quase impossível termos um ano “normal”. A economia mais importante do planeta tenta lidar com seus enormes desarranjos acumulados, que tem levado o dólar a se enfraquecer frente às principais moedas do mundo. Nesses mesmos Estados Unidos — e talvez por causa da própria economia — ocorre o furacão Obama, com o slogan, quem diria, “CHANGE”. Se ele ganhar, é bem capaz de alguém sair com uma frase meio conhecida entre nós: A Esperança Venceu o Medo.O petróleo ultrapassa 130 dólares.Achávamos caro aos 50 ou 60.Achávamos caríssimo aos 100. Agora, já achamos melhor não achar nada e tratar de encontrar alternativas.O etanol poderia ajudar muito, mas os americanos resolveram produzilo com seu milho, o que ajudou a encarecer as commodities agrícolas, gerando uma grita geral contra ele. O Brasil tenta explicar que o nosso etanol é de cana-de-açúcar e não pressiona preços agrícolas, dada sua alta produtividade energética, fruto de mais de três décadas de avanço sem tecnologia agrícola e industrial.Mas aí surgem novos ataques, sempre partindo dos países mais ricos e mais protecionistas, muitas vezes puxados também por petroleiras dos mais diversos matizes.Responder aos grandes desafios postos na atualidade com mais protecionismo comercial é o pior dos caminhos. Fechar mercados, principalmente agrícolas, é condenar as nações pobres ao mais absoluto isolamento.Os grandes países emergentes até agora vão salvando a lavoura, mostrando o poder da industrialização e do progresso tecnológico, inclusive no campo. Há uma grande mobilidade de forças produtivas em curso. O PIB dos países emergentes, em termos de paridade de poder de compra, já é igual ao do chamado mundo desenvolvido e a renda disponível dos asiáticos continua a crescer.Como milhões de famílias subitamente passaram a consumir mais, os preços dominam a cena; é aquilo que os economistas chamam de choque de oferta. Há inflação pipocando no mundo todo. Os bancos centrais, que durante anos surfaram na desinflação produzida pela indústria barata na China, agora correm atrás do prejuízo.Afinal, se a inflação está em todo lugar, todos terão de combatê-la.A curto prazo tudo indica que este será o maior dos desafios.No Brasil, a alta do petróleo veio junto com a revelação dos campos do pré-sal, que representam reservas de bilhões de barris de petróleo e gás. Somada ao etanol e às hidrelétricas, a descoberta faz com que o Brasil comece a ser visto como potência energética em ascensão. O que já estimula um amplo e saudável debate sobre o que deve ser feito com todo este potencial petrolífero: gastar no presente ou investir no futuro das novas gerações? (vamos ter que reler “O Valor do Amanhã”, o belo livro do Eduardo Giannetti da Fonseca).Neste ano turbulento, o país também cresce nos minérios e na siderurgia; lidera os mercados mundiais de cítricos, carnes vermelhas e brancas, café, açúcar e soja. Principalmente, em uma economia saudável e livre, o Brasil vai reafirmando a diversidade da sua base produtiva, ganhando força nos mercados da moda, marcas, desenho, aeronáutica, software, petroquímica e mesmo no da mecânica, ajudado por uma política industrial responsável, com ênfase na inovação. As oportunidades são muitas e a política macroeconômica tem o desafio de sustentá-las, sem deixar a euforia criar armadilhas para mais adiante.Se cuidarmos bem das nossas coisas e da nossa gente, é provável que 2008 seja visto, daqui a quarenta anos, como o ano em que, em meio a grandes mudanças ao redor do mundo, o Brasil mostrou que uma sociedade aberta, inclusiva e diversificada como a nossa pode crescer e aproveitar as oportunidades com democracia e competência. Seria o melhor presente que daríamos às novas gerações.ANTÔNIO PALOCCI é deputado federal (PT-SP) e foi ministro da Fazenda

15/06/2008 - 19:00h Verissimo

Crônica

O Globo

Rir ou não rir

verissimo.jpgCasal de judeus americanos em visita a Israel entra num clube noturno de Tel Aviv onde se apresenta um cômico local. As piadas do cômico fazem grande sucesso com o público e quem ri mais do que todos é o americano.

Sua mulher estranha. As piadas são em hebraico. O marido não sabe hebraico. Por que está rindo tanto?

— Por que não? — responde o marido. — Eu confio nesta gente!

Dependendo do jornal que você lê, e às vezes do analista num mesmo jornal, o otimismo com a situação do Brasil se justifica, é um delírio ou é um embuste. Poucas vezes na nossa história recente entender o que se passa dependeu tanto da predisposição, ou do preconceito, de cada um. A economia do país raramente esteve tão bem, nunca se comprou tanto carro e casa própria, estamos finalmente a caminho de ter um bendito mercado para sustentar nosso desenvolvimento — ou a caminho do caos. Você decide. Os números não provam nada, ou provam tudo, o que dá no mesmo. Uma correta avaliação é improvável, já que os profissionais da avaliação se contradizem. Os fatos não influem muito na decisão de ser otimista ou catastrófico.

Ou seja: saber hebraico é secundário. Para rir ou não rir das piadas, basta confiar ou não confiar em quem está rindo.

FOFOCA

Com Barack Obama definido como candidato dos democratas à Casa Branca, espera-se para qualquer momento não um atentado contra ele mas uma fofoca sexual, que nos Estados Unidos também costuma ser uma arma. Em países latinos as revelações sexuais não têm o mesmo efeito, portanto não têm o mesmo risco político.

A filha que o Mitterrand tinha com sua amante foi motivo apenas de curiosidade, e de afetuosa surpresa com um pecado menor do velho, e não prejudicaria sua carreira política mesmo se tivesse aparecido antes. E o boato de que o Chirac era amante da Claudia Cardinale só aumentou sua reputação. No Brasil existe um imenso lençol subterrâneo, se este é o termo, de indiscrições conhecidas do poder que nunca vêm à superfície. Tipo todo o mundo sabe mas ninguém publica.

O que é saudável, já que a vida particular do político só é relevante quando surgem falhas de caráter que afetarão o nosso bolso, como uma tara por dinheiro público, e qual é o problema de namorar um pouco se ajuda a relaxar e até a governar e legislar melhor, desde que a patroa não fique sabendo? Mas há quem diga que a falta de inconfidências no mercado se deve a uma insuficiência do nosso setor editorial, que ainda não pôde fazer ofertas convincentes.

Quando morreu Buddy, o labrador dos Clinton, talvez o cachorro com mais histórias para contar do mundo, suspeitou-se que o atropelamento se devesse aos rumores de um contrato milionário para publicar um livro seu, título provável “Memórias da Casa Branca, ou Babando no tapete do Salão Oval”. Buddy, presumivelmente, estava presente nos encontros de Clinton com estagiárias para fins não reprodutivos. Inconfidências de assessores, empregados, amantes etc. são um risco constante para dirigentes americanos e ingleses, incluindo até a família real — no caso dos Estados Unidos, os Kennedy.

As revelações podem ser moderadamente embaraçosas (como a da atriz Angie Dickenson, que descreveu seu caso com John Kennedy como “os quinze segundos mais memoráveis da minha vida”) ou podem acabar com reputações para sempre. Do Bush nunca se soube nada, salvo os atos antinaturais que praticou com o país. Do Barack Obama, devem estar catando.

12/06/2008 - 11:50h Novo Consenso de Washington?

Por Dani Rodrik - VALOR

Há dois anos e meio, altos integrantes do Banco Mundial abordaram o prêmio Nobel Michael Spence para pedir-lhe que encabeçasse uma comissão de notáveis sobre a questão do crescimento econômico. A dúvida em questão não poderia ser mais importante. O Consenso de Washington - a infame lista que apontava a autoridades monetárias de países em desenvolvimento o que fazer e o que não fazer - havia se dilapidado em grande parte. Então, o que o substituiria?

Spence não tinha certeza se era a pessoa ideal para o trabalho. Afinal, sua pesquisa era focada em questões teóricas em economias avançadas, havia sido reitor de uma faculdade de administração e não tinha muita experiência em desenvolvimento econômico. No entanto, ficou fascinado com a tarefa. E foi encorajado pela resposta entusiasta e positiva que recebeu dos possíveis membros da comissão. Nascia, então, a Comissão Spence de Crescimento e Desenvolvimento, um grupo de estrategistas políticos recheado de estrelas - incluía outro Nobel - cujo relatório definitivo foi lançado no fim de maio.

O relatório Spence representa um divisor de águas para as políticas de desenvolvimento, tanto pelo que apresenta como pelo que exclui. Ficaram de fora as asseverações confiantes sobre as virtudes da liberalização, desregulamentação, privatização e livres mercados. Também desapareceram as recomendações homogêneas, independente das diferenças de contexto. Em vez disso, o informe de Spence adota uma abordagem que reconhece os limites de nossos conhecimentos, enfatiza o pragmatismo e gradualismo e encoraja os governos a serem experimentais.

Sim, economias bem-sucedidas possuem muitas coisas em comum: todas estão inseridas na economia global, mantêm estabilidade macroeconômica, estimulam a poupança e o investimento, oferecem incentivos voltados ao mercado e são razoavelmente bem governadas. É útil ficar de olho nesses pontos em comum, porque compõem a conduta de políticas econômicas apropriadas. Dizer que o contexto importa não significa que vale tudo. Não há, contudo, um livro de regras universal: países diferentes atingem esses fins de formas diferentes.

O relatório Spence reflete uma mudança intelectual mais ampla entre os que trabalham na questão do desenvolvimento, uma mudança que abrange não apenas as estratégias de crescimento, mas também a saúde, educação e outras políticas sociais. A estrutura política tradicional que o novo raciocínio substitui gradualmente é de suposição, em vez de diagnóstica.

Começa com fortes pressuposições sobre a natureza do problema: regulamentação excessiva (ou insuficiente), governança muito fraca, investimentos públicos baixos demais em saúde e educação e assim por diante. Além disso, suas recomendações assumem a forma de uma lista de lavanderia, enumerando instruções item a item, e enfatizam sua natureza complementar - a necessidade de serem adotadas simultaneamente, sem ordenar e atribuir prioridades. A estrutura também se inclina a receitas universais - o “modelo” de disposição institucional, “boas práticas”, princípios básicos e assim por diante.

Ficaram de fora as afirmações confiantes sobre as virtudes da desregulamentação,
da liberalização, privatização e livres mercados, sem contexto.

Em contraste, a mentalidade da nova política começa com certo agnosticismo sobre o que pode funcionar ou não. Sua hipótese é a de que há grandes doses de “descuido” nos países pobres, portanto mudanças simples podem trazer grande diferença. Como resultado, é explicitamente diagnóstica e foca-se nos gargalos e limitações econômicas mais significativas. Em vez de uma reforma abrangente, enfatiza a experimentação política e iniciativas de alcance relativamente estreito, de forma a descobrir soluções locais. Também prega a monitoração e avaliação para que se aprenda quais experimentos funcionam bem.

A nova abordagem desconfia de antídotos universais. Em vez disso, busca inovações políticas que tragam atalhos contornando a economia local ou complicações políticas. A tática é influenciada fortemente pelo gradualismo experimental da China, em prática desde 1978 - o episódio mais espetacular de crescimento econômico e redução da pobreza já visto pelo mundo.

O relatório Spence é um documento consensual e, portanto, alvo fácil para ataques gratuitos. Não traz “grandes idéias” próprias e, às vezes, tenta demasiadamente agradar a todos e cobrir todos os ângulos possíveis. Mas, como Spence coloca ao comentar a própria questão da reforma econômica, são necessários pequenos passos para fazer uma grande diferença no longo prazo. É um feito e tanto ter alcançado o grau de consenso que ele conseguiu em torno a um conjunto de idéias que se desvia tão marcadamente da abordagem tradicional.

É de creditar-se a Spence o fato de o informe conseguir evitar tanto o fundamentalismo de mercado como o fundamentalismo institucional. Em vez de oferecer respostas fáceis, como “apenas deixe os mercados funcionarem” ou “simplesmente corrija a governança”, destaca acertadamente que cada país precisa elaborar seu próprio conjunto de soluções. Economistas estrangeiros e agências de auxílio financeiro podem fornecer alguns dos ingredientes, mas apenas o próprio país pode dar a receita.

Se há um novo Consenso de Washington, é que o livro de regras precisa ser escrito em casa, não em Washington. E isso é um verdadeiro progresso.

Dani Rodrik é professor de Economia Política da Escola de Governo John F. Kennedy na Universidade Harvard, foi o primeiro agraciado com o Prêmio Albert O. Hirschman do Conselho de Pesquisa de Ciências Sociais. Seu mais recente livro é “One Economics, Many Recipes: Globalization, Institutions, and Economic Growth”. © Project Syndicate/Europe´s World, 2008. www.project-syndicate.org

04/06/2008 - 12:12h “Un mundo nuevo ha empezado a comer y no hay para todos”

ENTREVISTA

La crisis alimentaria JOSÉ MARÍA SUMPSI Subdirector general de la FAO

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M. M. / M. G. - Roma - El País

El número dos de la FAO, el catalán José María Sumpsi, cree que el mundo será un poco menos desigual en unos pocos años. El colapso de la agricultura ha devuelto a la FAO al primer plano y Sumpsi vio ayer señales de un cambio histórico. “Francia y España ya se han despertado, la ONU también, Ban Ki-moon va a liderar este proyecto y en unos años se notará el cambio”.

Pregunta. Hay 820 millones de hambrientos. Como hace 15 años. ¿Han fracasado ustedes?

Respuesta. Lo ha dicho Sarkozy, nos hemos equivocado. Pensábamos que la agricultura era un asunto resuelto, había excedentes hace 15 años, y ahora vemos que no. La demanda ha crecido y el sistema no ha aguantado.

P. ¿Un tema clásico de oferta y demanda?

R. Sí. No se esperaba que los países emergentes -China, India, Indonesia, Brasil- creciesen tanto, y han crecido a un ritmo anual del 10%-12%. Eso ha producido una explosión de la demanda. No estábamos listos. Ese mundo nuevo ha empezado a comer y de repente no hay comida para todos.

P. ¿Así que los factores que explican el aumento de los precios son una fábula?

R. En una situación de oferta y de demanda muy ajustada, cualquier circunstancia (un ciclón, el precio del petróleo) produce un cataclismo. Lo primero que hay que hacer es salvar la vida de la gente. Repartir comida. Lo segundo, crear reglas internacionales de comercio agrícola que eviten que cada país haga lo que quiera.

P. Pero acabar con el proteccionismo no será fácil.

R. Ésa es la clave. Si el Primer Mundo empieza a quitar los subsidios agrícolas será el principio de un mundo distinto. Francia y España ya han abogado por la regulación y esa idea se debe imponer. Algunos países dan signos de levantar las barreras a la exportación. Si China, Japón y Vietnam exportaran sus reservas de arroz, gran parte del problema se resolvería. De Roma no saldrá un gran acuerdo, pero sentará las bases para el futuro inmediato.

P. La estructura de la ayuda internacional debe cambiar.

R. Y lo va a hacer. Ban Ki-moon está liderando un plan de acción y en abril puso firmes a las agencias. No va a permitir solapamientos ni descoordinación. La ONU trabajará de forma coordinada con el Banco Mundial, el Fondo Monetario y la Organización Mundial de Comercio.

P. ¿Y las ONG?

R. Se hará un plan global de acción y en los 45 o 50 países prioritarios se formarán equipos entre Gobiernos, sector privado y ONG para llevar la ayuda.

P. Así que estamos ante una revolución de la cooperación.

R. En unos meses se verá. Estamos en el revulsivo. En poco tiempo habrá menos hambrientos.

P. ¿Lula tiene razón en su defensa del etanol?

R. En buena parte. Y su hallazgo del etanol bueno y el etanol malo, como el colesterol, es genial. El bueno es el suyo, claro. Pero es verdad; es innovador y parece que realmente ecológico.