19/11/2009 - 11:47h Brasil se torna 4º maior credor dos EUA

Brasil se torna 4º maior credor dos EUA

Investimento brasileiro em títulos americanos alcançou em setembro US$ 145 bilhões, o seu maior nível em 12 meses

Aumento das reservas e busca por aplicações mais seguras incentivam compra; China, Japão e Reino Unido são maiores credores dos EUA

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EDUARDO CUCOLO – FOLHA SP


DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O aumento no fluxo de dólares para o Brasil tem ajudado o país a reforçar a sua posição como um dos maiores credores do governo norte-americano.
De acordo com o Tesouro dos EUA, o investimento do governo brasileiro em títulos do país alcançou em setembro o maior nível em 12 meses. São US$ 145 bilhões que estão hoje financiando a dívida do país, o equivalente a quase dois terços das reservas internacionais. Esse valor coloca o Brasil como o quarto maior credor dos EUA, atrás apenas de China, Japão e Reino Unido.
No final do ano passado, o governo brasileiro havia reduzido a aplicação nesses títulos, que ficaram muito valorizados durante a fase mais aguda da crise, quando investidores buscaram proteção naquele que é considerado o investimento mais seguro do mundo.
Ao vender esses papéis, e embolsar algum lucro, o país migrou para outras aplicações, também consideradas seguras, mas que pagavam juros maiores. É o caso de papéis de organismos multilaterais, como o KfW (o BNDES alemão) e o BIS (o BC dos bancos centrais).
Apesar do aumento em termos absolutos, percentualmente, o país ainda está distante do recorde alcançado em junho de 2008. Na época, o Brasil aplicava 80% das suas reservas em títulos dos EUA. O governo buscava, naquele momento, tirar o dinheiro dos bancos internacionais, que já enfrentavam problemas de solvência.
Uma das explicações para esse aumento nas compras é o crescimento das reservas internacionais, que estão hoje no patamar recorde de US$ 235 bilhões. As reservas funcionam como uma garantia para o país em momentos de crise. Graças a esse dinheiro, o Brasil deixou de ser um devedor e é hoje credor em moeda estrangeira.
Além dos papéis dos EUA, o BC -que administra as reservas internacionais- mantém esse dinheiro aplicado em bancos estrangeiros e em ativos como o ouro. Há ainda os recursos que estão no FMI -hoje o país é credor do Fundo em mais de US$ 5 bilhões.
Ao contrário do Brasil, outros grandes credores mantiveram, e até aumentaram, essas aplicações em papéis dos EUA no momento mais agudo da crise. O Reino Unido, por exemplo, mais que dobrou sua participação nos últimos 12 meses. Ultrapassou a posição brasileira em março deste ano, quando o Brasil chegou a ficar atrás da Rússia também. O Japão também aumenta gradativamente suas aplicações.
A China, maior credor dos EUA, tem mantido o seu nível de investimento estável nos últimos meses. O país asiático possui hoje cerca de US$ 800 bilhões nos papéis, o que representa quase 25% da dívida americana em títulos nas mãos de países estrangeiros.

16/11/2009 - 09:34h Novas ameaças às exportações brasileiras nos maiores mercados do mundo

Americanos e europeus estudam regulação mais dura com base em problemas climáticos, trabalhistas e de segurança

Raquel Landim – O Estado SP

Estão surgindo novas ameaças às exportações brasileiras nos maiores mercados do mundo, Estados Unidos e União Europeia. Três grupos de barreiras preocupam: ambientais, trabalhistas e de segurança. Deputados americanos e europeus debatem novas legislações sobre esses temas, que são foco da agenda comercial.

Estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) aponta que por ano 15,4% das exportações brasileiras para os EUA – o equivalente a US$ 5 bilhões – estão na mira da nova legislação americana de mudanças climáticas. A lei pode atingir as vendas brasileiras de aço, celulose, papel e alumínio.

O aquecimento global tornou o tema ambiental urgente. O presidente Barack Obama deu sinais de que está disposto a assumir compromissos na reunião de Copenhague. Preocupadas em ficar em desvantagem com outros países, as empresas americanas exigem compensações.

Existem dois projetos sobre o tema no Congresso americano. O mais provável é que sejam aprovadas medidas que obriguem os importadores a comprar licenças para emissão de carbono. “Isso joga o ônus da adaptação nos países em desenvolvimento”, disse o diretor de relações internacionais da Fiesp, Mário Marconini.

A União Europeia também estuda a adoção de uma “taxa de carbono” contra produtos importados, caso os países emergentes não se disponham a assumir compromissos equiparáveis aos ricos de redução de emissões em Copenhague.

Segundo a consultora da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Sandra Rios, essas tarifas distorcem a negociação climática, que reconhece que os países ricos e em desenvolvimento têm responsabilidades diferentes pelo aquecimento global. “O problema é que essas tarifas vão equiparar os esforços. As nações emergentes têm de manter seu crescimento.”

Nas discussões trabalhistas, os sindicatos ganharam força para defender regras rígidas em acordos comerciais, depois do desemprego causado pela crise e do apoio decisivo a Obama. A maior preocupação é com o trabalho escravo e infantil.

Tramita no Congresso dos EUA um projeto para reformar a lei de aduanas. Segundo o diretor executivo da Coalização das Indústrias Brasileiras, com sede em Washington, Diego Bonomo, pode entrar em vigor uma nova lista de produtos feitos com trabalho escravo e infantil, que ficariam impedidos de entrar no país. A lista inclui 13 itens brasileiros, como algodão, calçados e tabaco.

A segurança também ganhou relevância desde os ataques de 11 de setembro de 2001. O Congresso concedeu um mandato para o Executivo americano escanear 100% dos contêineres que chegam ao país. Existe um projeto-piloto, mas a administração federal argumenta que não há condições de colocar a lei em prática.

Barreira ambiental vai afetar mais os setores intensivos de energia

Estudo da Fiesp mostra que maiores prejuízos recairão na venda de ferro e aço, celulose, argila, papel e alumínio

Raquel Landim – O Estado SP


As exportações brasileiras dos setores intensivos em energia serão as mais afetadas pelas novas barreiras ambientais dos Estados Unidos. Os prejuízos podem ser maiores nas vendas de ferro e aço, celulose, argila, papel e alumínio, conforme estudo elaborado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

A Câmara dos Deputados dos Estados Unidos aprovou no mês de junho a Lei Waxman-Markey, que estabelece metas de redução de emissões para os Estados Unidos pela primeira vez. Segundo cálculos do Departamento Governamental de Contabilidade americano, os setores que terão mais gastos para se adaptar às novas regras serão metais primários, metais não-metálicos e químicos.

Ainda não foi definido pelo Congresso, mas crescem as chances de que, para compensar os fabricantes locais e evitar a fuga de empresas para países com padrões ambientais menos rígidos, os americanos estabeleçam medidas de fronteira, como exigir que os importadores comprem licenças de emissões de carbono.

No caso do Brasil, o setor siderúrgico deve ser o mais prejudicado, já que quase 27% das exportações de ferro e aço são destinadas ao mercado americano, o que significou US$ 3,4 bilhões em 2008.

“A Conferência de Copenhague é essencialmente econômica. Não podemos ter a ingenuidade de chegar a essa discussão como se fosse apenas ambiental”, argumenta o presidente executivo do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes.

“Se a indústria siderúrgica americana vai fazer investimentos, é legítimo que queiram compensações. O problema é que, depois da crise, o mercado está sobre ofertado. As questões ambientais podem ser um pretexto para o protecionismo”, observa. Ele afirma que existe um excedente de aço de 600 milhões de toneladas no mundo.

A indústria siderúrgica brasileira defende que as metas de redução de emissões sejam diferentes para países com consumo per capita inferior e superior a 300 quilos de aço por habitante por ano. Na avaliação do setor, o consumo de aço é um indicador de crescimento econômico e as metas ambientais não podem brecar o desenvolvimento. O Brasil consome 100 quilos por habitante/ano, enquanto a China chega a 340.

Para o presidente da Associação Brasileira do Alumínio (Abal), Adjarma Azevedo, “as barreiras ambientais são inevitáveis”. O executivo afirma que o Brasil tem de se empenhar para influenciar na implementação dessas leis. Ele diz que, dependendo dos critérios, pode ser um benefício para o Brasil, cuja matriz energética é 47% de energia renovável.

Azevedo acredita que as medidas de fronteira dos Estados Unidos vão acabar levando em consideração o conteúdo de emissão de carbono de cada país. Segundo ele, a indústria brasileira de alumínio contribui com 0,2% das emissões do País, que, por sua vez, representa apenas 4% das emissões globais.

Já a fabricação mundial de alumínio equivale a 1% das emissões do planeta.

QUÍMICO

A maior preocupação do setor químico hoje não está nos Estados Unidos, mas na Europa. A União Europeia implementou no ano passado um novo registro para as substâncias químicas que entram no bloco, conhecido pela sigla Reach. O objetivo é garantir a qualidade dos produtos químicos para não afetar a saúde da população e o meio ambiente.

Por enquanto, a regulamentação ainda não está sendo rigidamente implementada. “Mas pode ser utilizado como uma barreira se os europeus quiserem, porque impõe uma série de dificuldades para as empresas”, explica o diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), Nelson Pereira dos Reis.

OUTRO LADO DA MOEDA

Para alguns setores, novas barreiras comerciais podem se transformar em oportunidades. O presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), Aguinaldo Diniz Filho, disse que é “absolutamente favorável” a cláusulas sociais no comércio internacional. “É uma evolução natural da globalização.”

Para o setor têxtil brasileiro, que já opera com uma legislação trabalhista forte, novas regras são vantajosas, porque prejudicariam seu principal concorrente, a China.

Os novos temas do comércio internacional, como meio ambiente e trabalho, são causas defensáveis e não chegam a ir diretamente contra a Organização Mundial de Comércio (OMC), que prevê que os países abram exceções para proteger os recursos naturais ou para fins sociais.

A questão, alertam os especialistas, é que esses temas podem ser utilizados como barreiras protecionistas.

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Discussão sobre o etanol ganha novas proporções

Raquel Landim – O Estado SP

Símbolo do sucesso brasileiro em energia renovável, o etanol também pode ser alvo de barreiras ambientais. O setor enfrenta um momento crítico nos próximos meses, que é a regulamentação dos combustíveis de baixo carbono.

“É a nossa maior preocupação”, disse o presidente da União da Indústria Canavieira de São Paulo (Unica), Marcos Jank. O assunto está sendo debatido nos Estados Unidos e na União Europeia. Nos Estados Unidos, a discussão não é apenas federal, mas também estadual.

Não existem dúvidas de que o etanol polui menos que a gasolina. Também está claro que o etanol brasileiro, produzido com cana-de-açúcar, é menos poluente que produto americano, feito a partir do milho. A questão é qual é o tamanho da vantagem.

Segundo Jank, as discussões nos Estados Unidos e na União Europeia consideram o uso indireto da terra. Ou seja, o efeito que a expansão da produção de cana tem no desmatamento da Amazônia. A área de cana cresce no Centro-Sul, mas, teoricamente, empurra outras culturas em direção à floresta.

“São cálculos muito difíceis de fazer. E estão sendo utilizadas premissas erradas, porque há desconhecimento do álcool de cana”, disse o presidente da Unica. Jank ressalta que apenas 1% da expansão da cana-de-açúcar ocorre por meio de desmatamento, enquanto 60% é feito em áreas de pastagens.

Para as usinas, a discussão sobre o padrão do combustível se tornou mais importante que a queda da tarifa cobrada pelos Estados Unidos para a importação de etanol, de US$ 0,54 por galão, que vence em 2010.

Segundo Jank, a indústria vai fazer um forte lobby para o Congresso Nacional não renovar a tarifa. “Mas se garantirmos uma boa qualificação para o etanol brasileiro como combustível avançado ganharemos aliados nessa briga.”

09/11/2009 - 09:22h ”Não deixem mercado ditar o câmbio”

Ganhador do Nobel em 2001, Spence defende controle de capital e fala do novo documento da Comissão do Crescimento

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Fernando Dantas – O Estado SP

Para Michael Spence, Prêmio Nobel de Economia, o Brasil não deveria deixar os mercados, “como o seu histórico recente de fazer tudo errado”, determinar livremente o valor do real. Ele defende mecanismos de controle de entradas de capital para evitar a sobrevalorização cambial.

Spence, que ganhou seu Nobel em 2001, junto com Joseph Stiglitz e George Akerlof, está à frente da chamada Comissão do Crescimento (Growth Commission), um painel de economistas do mundo todo (incluindo o brasileiro Edmar Bacha) que elaborou um relatório de recomendações para países emergentes sobre como obter o crescimento rápido e sustentado por longos períodos. O relatório foi divulgado em junho de 2008, logo antes da crise, e foi visto como uma versão flexibilizada do Consenso de Washington, combinando crença nos mercados com maior destaque ao papel do Estado.

Agora, a Comissão acaba de divulgar um novo documento, que atualiza o relatório à luz das lições da crise global. O novo relatório recomenda que os países emergentes garantam parte do mercado financeiro para as instituições nacionais, e que sejam restritivos em relação aos produtos financeiros complexos que deflagraram a crise no mundo desenvolvido. A seguir, a entrevista:

Como o sr. vê a questão da sobrevalorização cambial em alguns países, como o Brasil, na saída da crise?

Todos os países em desenvolvimento que tiveram alto crescimento, sustentado por um longo período, administraram as suas moedas em alguma medida. Especialmente num ambiente volátil como o atual, faz todo o sentido fazer algum julgamento sobre quais são os níveis razoáveis. É claro que se pode exagerar, mas não acho que a coisa mais sensata a se fazer seja apenas ficar sentado e deixar os mercados de capitais, com o seu histórico recente de fazer tudo errado, valorizarem a sua moeda. Há várias formas de se intervir: pode-se tributar os fluxos de capital, com taxas que caiam se o dinheiro permanecer algum tempo, e pode-se aumentar as reservas e investir no exterior, invertendo o fluxo de capitais, como a China faz.

E o que há de ruim na valorização?

Basicamente, reduz-se o crescimento. No caso brasileiro, acho que um dos maiores desafios é manter os recentes avanços no mercado de trabalho para pessoas que são pobres. Uma boa parte do crescimento dos países em desenvolvimento deriva de empregar em melhores postos de trabalho pessoas que estão em atividades de produtividade muito baixa. Num país com a renda do Brasil, boa parte disso se dá em setores que atendem o mercado doméstico, mas o setor exportador ainda é suficientemente importante para que se deva tomar cuidado com oscilações muito fortes da moeda. Porque, se os investidores tiverem a sensação de que o câmbio é muito volátil, adiciona-se mais um risco e se desincentiva o investimento.

Quais são as novas recomendações para o setor financeiro dos países emergentes?

Em primeiro lugar, apesar de ser bom que um país tenha instituições estrangeiras no seu setor financeiro, o que se viu nessa crise é que essas instituições basicamente obedecem ao governo e ao banco central dos seus próprios países. Assim, se tiverem uma presença grande demais num determinado país, elas não atuarão como parceiras do governo local, da mesma forma que as instituições nacionais o farão, na hora em que o país implementa sua estratégia para lidar com a crise. A segunda recomendação é que nós realmente não conhecemos aqueles ativos complexos que levaram à crise nos países ricos, e que deve-se ir devagar com eles. Uma fator positivo dos países em desenvolvimento nessa crise é que a presença desses ativos complicados era quase nenhuma, desprezível. Foi uma coisa boa que eu manteria.

O sr. teme que a crise leve à rejeição do modelo de crescimento baseado na abertura para os mercados globais, defendido nos relatórios da Comissão do Crescimento?

Bem, a nossa visão foi de que houve uma enorme falha nos sistemas financeiros dos países avançados. De fato, ela poderia ser interpretada como uma falha mais ampla dos mercados e do capitalismo, e nos preocupamos com isso. Mas eu não acho que, entre os maiores e mais bem-sucedidos países em desenvolvimento, vá haver uma grande mudança na orientação da política econômica. Esses países hoje têm um entendimento bem profundo sobre a importância do dinamismo do setor privado para puxar o crescimento, e sobre o papel do governo de garantir um ambiente estável para que aquilo ocorra. Eu suspeito que, se houver erros desse tipo, é mais provável que eles aconteçam em países pobres, nos quais o modelo de crescimento não está muito bem estabelecido ainda e onde a política e a economia política são menos estáveis.

Por que esses países são mais vulneráveis?

Porque eles realmente não têm os mecanismos de defesa e as vantagens que países como o Brasil têm, como um governo que pode gastar mais dinheiro, esquemas de redistribuição de renda, um banco central altamente competente, um setor privado vibrante. Eu acho que Brasil, China e Índia terão uma recuperação muito boa, mas estou mais preocupado com alguns dos países menores e mais pobres.

Qual o risco de um retorno do protecionismo no mundo pós-crise?

É uma reação compreensível. Quando você diz aos cidadãos de um país que vai haver um grande déficit público, e que os filhos deles vão pagar no futuro por isso, as pessoas podem até concordar, mas desde que os benefícios do impulso fiscal retornem para o próprio país, e não se transformem em importações. Um dos grandes desafios pós-crise, portanto, é o de evitar que isso aconteça. O G-20, que se tornou uma grande voz de coordenação de políticas econômicas, posicionou-se contra o protecionismo, o que é muito bom. Outro problema é que os países vão disputar “market-share” (parcelas de mercado) nessa saída da crise. Há um déficit muito grande na demanda agregada global, porque o consumidor americano está poupando mais, por causa das finanças familiares deterioradas. Assim, as estratégias de crescimento de todo mundo não podem dar resultado ao mesmo tempo. Nesse jogo de ganhar market-share, Brasil, China e Índia devem se dar muito bem. Mas outros países, menos bem sucedidos, podem apelar para o protecionismo. Dessa forma, recuperar a demanda agregada global também evita o protecionismo.

09/10/2009 - 12:39h Foreign Policy: Amorim, “o melhor chanceler do mundo”

Fonte VIOMUNDO

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The world’s best foreign minister, Wed, 10/07/2009 – 12:35pm,

David Rothkofp, no blog da revista Foreign Policy

Esse pode ter sido o melhor mês do Brasil desde cerca de junho de 1494. Foi quando o Tratado de Tordesilhas foi assinado, dando a Portugal tudo no mundo a leste de uma linha imaginária que foi declarada existir 379 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde. Isso garantiu que o que viria a se tornar Brasil seria português e, portanto, desenvolveria uma cultura e identidade diferentes do resto da América Latina hispânica. Isso garantiu que o mundo teria samba, churrasco, Garota de Ipanema e, através de uma incrível e tortuosa corrente de eventos, a Gisele Bundchen.
Embora o Brasil tenha levado algum tempo dando razão à máxima de que “é o país do futuro e sempre será”, há poucas dúvidas de que o amanhã chegou para o país, ainda que muito tenha de ser feito para superar sérios desafios sociais e aproveitar o extraordinário potencial econômico do país.
A prova de que algo novo e importante está acontecendo no Brasil começou alguns anos atrás, quando o presidente [Fernando Henrique] Cardoso gerenciou uma mudança para a ortodoxia econômica que estabilizou o país-vítima de ciclos de crescimento e crise e inflação de tirar do sério. Ganhou força, no entanto, durante o extraordinário governo do atual presidente, Luis Inacio “Lula” da Silva.
Algum desse impulso se deve ao compromisso de Lula de preservar as fundações econômicas assentadas por Cardoso, uma decisão política corajosa para um líder sindical de oposição do Partido dos Trabalhadores. Parte do impulso se deve a sorte, uma mudança do paradigma energético que ajudou o investimento de 30 anos do Brasil em biocombustíveis dar retorno importante, as descobertas maciças de petróleo na costa do Brasil e a crescente demanda da Ásia que permitiu ao Brasil se tornar o líder exportador da agricultura mundial, assumindo o papel de “celeiro da Ásia”. Mas muito do impulso se deve à grande capacidade dos líderes brasileiros de aproveitar o momento que muitos dos predecessores provavelmente teriam perdido.
Desses líderes, muito do crédito vai para o presidente Lula, que se tornou uma espécie de estrela de rock na cena internacional, juntando a energia, a disposição, o carisma, a intuição e o senso comum tão eficazmente que a falta de educação formal não se tornou empecilho. Algum crédito vai para outros membros de sua equipe, como a chefe da Casa Civil Dilma Rousseff, a ex-ministra da Energia que se tornou uma ministra dura e possível sucessora de Lula. Mas eu acredito que uma grande parte do crédito deve ir para Celso Amorim, que planejou a transformação do papel mundial do Brasil de forma sem precedentes na história moderna. Ele é o ministro das Relações Exteriores de Lula desde 2003 (também serviu nos anos 90), mas penso que se pode argumentar que é atualmente o chanceler mais bem sucedido do mundo.

É impossível apontar um único momento de mudança nas tentativas de Amorim de transformar o Brasil de um poder regional com influência int ernacional duvidosa em um dos países mais importantes no mundo, reconhecido por consenso global para jogar um papel de liderança sem precedentes.
Pode ter sido quando ele teve um papel central na engenharia do “empurrão” dado pelos países emergentes contra o “poder-de-sempre” dos Estados Unidos e da Europa durante as negociações comerciais de Cancun em 2003.
Pode ter sido o jeito que o Brasil adotou para usar questões como a dos biocombustíveis para forjar novos diálogos e influência, com os Estados Unidos ou com outros poderes emergentes.
Com certeza envolveu a decisão de Amorim de abraçar a idéia de transformar os BRICs de uma sigla em uma importante colaboração geopolítica, trabalhando com seus colegas da Rússia, da Índia e da China para institucionalizar o diálogo entre os países e coordenar sua mensagens. (Dos BRICs quem se deu melhor nesse arranjo foi o Brasil. Rússia, China e Índia todos conquistaram seus lugares na mesa através de capacidade militar, tamanho de população, influência econômica ou recursos naturais. O Brasil tem tudo isso, mas menos que os outros).
Também envolveu muitas outras coisas, como o aprofundamento das relações com países como a China, a promoção do Brasil como destino de investimentos, a reputação do Brasil como comparativamente seguro diante de problemas econômicos globais, o conforto que o presidente dos Estados Unidos sente em relação a seu colega brasileiro — a ponto de encorajar o Brasil a jogar um papel como intermediário junto, por exemplo, aos iranianos. Concorde ou não com todas as decisões de Amorim, como em Honduras ou em relação a Cuba na Organização dos Estados Americanos, o Brasil tem continuado a jogar um papel regional importante ainda que seu foco tenha claramente mudado para o palco global.

Nada ilustra quanto evoluiu o Brasil ou quão eficaz é o time Lula-Amorim quanto os eventos das últimas semanas. Primeiro, os países do mundo largaram o G8 e abraçaram o G20, garantindo ao Brasil um lugar permanente na mesa mais importante do mundo. Em seguida, o Brasil se tornou o primeiro país da América Latina a ganhar o direito de sediar as Olimpíadas. Ontem o Financial Times noticiou que a “Ásia e o Brasil lideram na confiança do consumidor”, um reflexo da reputação que o governo vendeu eficazmente (com a maior parte do crédito indo para o ressurgente setor privado brasileiro). E nesta semana as notícias sobre o encontro do FMI-Banco Mundial em Istambul mostraram a institucionalização do novo papel do Brasil com um acordo para mudar a estrutura do FMI. De acordo com o Washington Post de hoje: “As nações também concordaram preliminarmente em reestruturar a estrutura de votação do Fundo, prometendo dar mais poder aos gigantes emergentes como o Brasil e a China até janeiro de 2011″.

Nada mal para alguns dias de trabalho. E embora seja o ministro da Fazenda que representa o Brasil nos encontros do FMI-Banco Mundial, o arquiteto dessa marcante transformação no papel do Brasil foi Amorim.
Muito ainda precisa ser feito, com certeza. Parte tem a ver com o novo papel desejado. O Brasil quer uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU e mais liderança nas instituições internacionais. Pode conquistar isso, mas terá de manter o crescimento e a estabilidade para chegar lá. Além disso, o Brasil parece inclinado a minimizar ameaças regionais como a representada pela Venezuela (Os brasileiros tendem a olhar com desprezo para seus vizinhos do norte tanto quanto o fazem para os argentinos, vizinhos do sul… e, portanto, subestimam a habilidade de homens como Hugo Chávez de causar danos). E o Brasil tem diante de si uma eleição que pode mudar o elenco de jogadores e, naturalmente, pode mudar a atual trajetória de uma série de maneiras — boas e ruins.
Mas é difícil pensar em outro chanceler que tenha tão eficazmente orquestrado uma mudança tão significativa no papel internacional de seu país. E se alguem pedisse hoje que eu votasse no melhor chanceler do mundo, meu voto provavelmente iria para o filho de Santos, Celso Amorim.

David Rothkopf é autor de Superclass: The Global Power Elite and the World They are Making (Superclasse: A elite do poder global e o mundo que ela está construindo) e Running the World: The Inside Story of the National Security Council and the Architects of American Power (Governando o Mundo: A história do Conselho de Segurança Nacional e os Arquitetos do Poder Americano).

07/10/2009 - 14:48h Estudo aponta inovação como saída para setor têxtil

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Chico Santos, do Rio – VALOR

“O crescimento exponencial” dos produtores asiáticos de têxteis e confecções, liderados pela China, causou a desestabilização dos demais produtores, inclusive o Brasil, e tornou fundamental para estes “desenvolver estratégias competitivas diferenciadas, baseadas na utilização da inovação tecnológica como um instrumento relevante para inserção no mercado mundial”.

A conclusão é do estudo “Panorama da Cadeia Produtiva Têxtil e de Confecções e a Questão da Inovação”, recém-divulgado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O trabalho foi realizado por Ana Cristina Rodrigues da Costa, gerente do departamento de bens de consumo, comércio e serviços da área industrial do banco e por Érico Rial Pinto da Rocha, estagiário do setor.

Passados mais de oito anos desde que o BNDES realizou um estudo setorial detalhado da cadeia têxtil e de confecções (setembro/2000), o novo trabalho constatou que os mesmos gargalos detectados na versão anterior permanecem válidos.

Entre esse gargalos apontados pelo estudo estão a crescente entrada de bens importados, “muitas vezes contrabandeados”, participação “insignificante” nas exportações mundiais e concentrada nos elos de menor valor agregado da cadeia, especialização em fibras naturais – apesar de o consumo mundial crescer mais para o lado das fibras químicas e dos tecidos mistos -, parque de máquinas com idade média elevada, falta de ações coordenadas na cadeia produtiva, alta informalidade, baixa capacidade técnica e gerencial e dificuldade de acesso ao crédito.

Neste contexto, e diante da ofensiva asiática, não é estranhável que a participação brasileira nas exportações mundiais do setor tenha recuado de 0,7% para incipiente 0,3% em 2007, em um contexto no qual o valor do comércio mundial da cadeia cresceu 50% de 2000 a 2006, atingindo a soma de US$ 530 bilhões, 27,2% dos quais abocanhados pela China.

Apesar dos reveses, os técnicos do BNDES constatam que a importância da indústria têxtil e de confecção para a economia brasileira permanece intacta. Essa relevância é facilmente percebida quando se sabe que em 2007 o setor empregava 1,56 milhão de pessoas, número equivalente a 17,3% de todos os empregos gerados pela indústria de transformação no país.

As oscilações cambiais tiveram papel decisivo no comportamento das importações e exportações brasileiras, mas o crescimento do comércio mundial também foi um agente importante, tanto que em 2004 e 2005 – já em pleno ciclo de valorização do câmbio, só quebrado em setembro de 2008 – houve crescimento das exportações.

O estudo constata que, historicamente, a indústria têxtil e de confecções brasileira tem o foco voltado para o mercado interno. O Brasil é o sexto maior produtor mundial, responsável por 2,5% da produção total, mas ocupava em 2006 apenas o 46º lugar entre os maiores exportadores.

Para Carlos Eduardo Castello Branco, chefe do departamento ao qual estão subordinados os autores do estudo, o atual ciclo de valorização do real é novamente um obstáculo à conquista do mercado externo pelo setor têxtil brasileiro, mas representa também uma janela de oportunidade para que as empresas renovem seus parques fabris a custos favoráveis. Isto porque a quase totalidade das máquinas usadas no setor tem origem externa, principalmente da Alemanha, Itália e, mais recentemente, da China.

Renovar o maquinário, um tipo de inovação de fora para dentro, é apenas um dos requisitos apontados pelo BNDES para que a indústria têxtil e de confecções brasileira seja capaz de defender seu próprio mercado e disputar a demanda global. Desenvolver produtos de maior valor agregados diferenciados por estilo – “tribos”, como a do surfe, a da música eletrônica e outras-, faixa etária e gênero, além de ser capaz de dar resposta rápidas às tendências do mercado consumidor, são caminhos considerados essenciais para a sobrevivência do setor.

Paralelamente à oferta de crédito, o BNDES está trabalhando em conjunto com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit) e a Associação Brasileira de Estilistas (Abest) no esforço para combinar o desenvolvimento de tecidos inovadores com a “reconhecida força do design brasileiro”, explica Ana Cristina.

De 1999 a 2007, o setor têxtil e de confecções, um dos prioritários na atual política industrial brasileira , batizada de política de desenvolvimento produtivo (PDP), captou anualmente no BNDES valores que foram de R$ 485,9 milhões, em 1999, a R$ 220,4 milhões, em 2004. Em 2008, com a economia pisando no acelerador, um ponto fora da curva: R$ 1,35 bilhão. De janeiro a junho deste ano, o valor foi de R$ 208,7 milhões, indicando que o fluxo deverá retornar à média histórica.

Os técnicos do BNDES destacaram que, apesar da queda dos valores, o número de operações saltou de 1.852 nos primeiros sete meses do ano passado para 5.206 no mesmo período deste ano. No subsetor de confecções, principal gerador de empregos, o total de operações passou de 1.323 para 4.294 (mais 224,6%).

19/09/2009 - 10:07h ”Comércio externo é a saída da crise”

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Nelson Barbosa: secretário de Política Econômica; secretário afirma que a palavra que entra na agenda do País agora, após a freada global, é competitividade

 

Adriana Fernandes e Fabio Graner, BRASÍLIA – O Estado SP

 

 

O governo pretende atuar com medidas pontuais e objetivas para aumentar a competitividade da economia brasileira no mercado internacional e enfrentar o problema cambial. A informação é do secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, que avaliou que, no futuro próximo, não há risco de uma nova crise cambial no País. Competitividade, disse ele, é o nome da nova agenda na fase atual de saída da crise e retomada econômica.

A volatilidade da taxa de câmbio, afirmou, está associada ao fato de o real ser bastante sensível aos preços das commodities. O dólar, admitiu, pode cair ainda mais. Leia os principais trechos da entrevista, concedida esta semana ao Estado:

Qual é agenda econômica a partir de agora, com a saída da crise?

A competitividade externa do Brasil, que já era uma questão antes da crise. O desafio é direcionar os ganhos das atividades de commodities para toda a economia, para que isto aumente a competitividade das empresas e da mão de obra e para que se tenha crescimento para todo o País.

Há o risco de uma crise cambial logo mais a frente?

Não há risco no futuro próximo. Temos alto volume de reservas e entrada de investimentos diretos que cobre o déficit em conta corrente. O câmbio é um problema mais de desenvolvimento produtivo do que de instabilidade cambial. O desafio agora é aumentar a competitividade dos outros setores.

Os exportadores reclamam da volatilidade cambial. É um problema para o curto prazo?

Essa volatilidade está associada ao fato de o real ter a sua cotação muito sensível aos preços de commodities. Como o Brasil exporta muito commodities, quando os preços delas flutuam, o real também flutua. O governo tem tomado medidas para atenuar essa volatilidade, operando no mercado cambial de compra e venda. O governo vende dólares quando a taxa sobe muito, como foi no final do ano passado. Não neutraliza completamente, mas atenua. Quando o real se aprecia demais, como está acontecendo agora, o governo compra dólares. Essa é a maneira.

Então, não há medidas mágicas?

É um problema da estrutura da economia. As nossas receitas de exportações de commodities flutuam bastante. Há ainda o fato de que, por ser um dos países que melhor atravessou a crise, o Brasil é um candidato natural para receber investimentos. Temos dois fatores que estão fora do controle: a maior demanda mundial por nossos produtos e maior confiança no mundo na nossa economia. Isso faz com que haja o movimento de maior apreciação do real.

A queda do dólar pode se acentuar se houver um rali de aplicações de estrangeiros?

Pode. A política do governo para lidar com isso são operações no mercado de câmbio. O volume dessas operações vai depender do fluxo do mercado cambial. Em 2007, o Brasil fazendo isso acumulou US$ 80 bilhões. E teve anos em que as reservas ficaram estáveis. A mesma política às vezes dá resultados diferentes. No ano em que entrou muito dinheiro, essa política de atenuar a valorização resultou numa acumulação bem forte de reservas. Em 2008, num ano de crise, resultou numa estabilização ou ligeira queda das reservas.

Qual é o tamanho do problema cambial?

Essa é uma questão central para a evolução da economia brasileira nos próximos anos. E agora, nos próximos anos, principalmente com a descoberta do pré-sal, a questão é como vamos lidar com os efeitos dos fluxos externos sobre a estrutura produtiva. O novo Fundo Social, que está sendo criado com o marco regulatório do pré-sal, está mais capacitado para fazer essa parte externa a partir das receitas do petróleo. Na sua implementação, pode atuar como um instrumento de estabilização financeira e cambial, evitando a volatilidade excessiva, porque permite internalizar só as receitas que o Brasil precisar no momento. Não mais do que isso.

Será preciso um choque de competitividade?

Este governo não gosta de choques. Choque é outro governo. Adotamos medidas graduais. No grupo de acompanhamento da crise (GAC), temos visto nitidamente agora que a grande preocupação é a competitividade. Primeiro porque está entrando muita importação, por que a competição no mundo está mais acirrada. Segundo porque podemos perder mercado externo. O governo tem vários fóruns de competitividade, a estratégia é articulá-los. Não falo de agenda perdida ou achada. Nem falo de reformas. Isso é importante. Mas não é só isso.

É justa a reclamação dos exportadores de que o governo não deu atenção a eles na crise?

Não vejo isso. O governo teve uma atuação no mercado de dólares, o que teve benefícios para todos. A atividade de exportação é uma das preocupações estratégicas do governo.

Não está faltando maior abertura às importações para diminuir a volatilidade do câmbio?

Com essa taxa de câmbio já temos uma grande abertura para as importações, já barateia os produtos importados. Não vejo serem necessárias medidas de curto. prazo nessa direção.

Por que o Brasil saiu relativamente bem da crise?

Porque o governo brasileiro teve uma atuação decisiva para evitar o agravamento da crise no Brasil. Também teve papel crucial em garantir a rápida retomada do crescimento através de medidas expansionistas de política econômica.

O senhor apontaria alguma outra razão para a resistência do Brasil?

O Brasil vinha com um bom ciclo de crescimento antes da crise, puxado pelo investimento. Temos uma grande capacidade produtiva, o que possibilita que, após o efeito de desaceleração do crescimento, se tenha bastante capacidade produtiva ociosa para atender a retomada sem pressão inflacionária. O. Brasil hoje está bem posicionado como produtor de bens que têm alta demanda nos próximos anos. Falo principalmente da demanda da Ásia por alimentos, minérios e combustível. Isso dá ao Brasil uma janela de oportunidade em que ele vai ter altas receitas de exportação.

Mas esse modelo de exportação de baixo valor não é uma vulnerabilidade?

Temos possibilidade de receitas pela exportação desses produtos. Não aproveitá-las não seria economicamente defensável. O Brasil já teve fases com alta exportação de bens primários, que viabilizaram a industrialização do País, nos anos 40, 50 e 60. Temos recursos naturais abundantes. Isso nos dá capacidade de exportar o que o mundo hoje demanda e usar essa receita para promover o desenvolvimento tecnológico, a diversificação maior da base produtiva brasileira e investir, principalmente, em capital humano.

18/09/2009 - 14:14h Brasil atrai mais investimentos

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País sobe de 14.º para 10.º destino preferido dos investidores, segundo levantamento da Unctad

Anne Warth e Francisco Carlos de Assis – O Estado SP

Ao contrário do que aconteceu no resto do mundo, o fluxo de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) para o Brasil aumentou 30,3% em 2008 na comparação com 2007, para US$ 45,1 bilhões. O País subiu quatro posições no ranking dos principais destinos de investimentos no ano passado, chegando ao 10º lugar, tornando-se a economia mais internacionalizada dos Brics, grupo de países emergentes que inclui também a Rússia, Índia e China.

No ano passado, o volume mundial de IED teve uma queda de 14,2%, para US$ 1,697 trilhão. Entre as economias desenvolvidas, o fluxo teve retração de 29,2%, para US$ 962,3 bilhões. O crescimento do investimento no Brasil superou a média dos países em desenvolvimento e dos países da América Latina. Para as economias em desenvolvimento, o fluxo de investimentos aumentou 17,3% para US$ 620,7 bilhões e, para a América Latina, o crescimento foi de 13,2% para US$ 144,4 bilhões.

A conclusão é do relatório sobre o volume de Investimento Estrangeiro Direto (IED) no mundo em 2008, elaborado pela Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet) a partir de dados da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad).

Na proporção entre o estoque de IED realizado e o Produto Interno Bruto (PIB) de cada país dos Brics, o Brasil apresentou a melhor relação, de 18,3%. Foi a primeira vez que o País superou a Rússia na atração de investimentos comparativamente ao seu PIB. A Rússia, que até então liderava esse ranking, recebeu a título de investimentos o equivalente a 12,7% do seu produto interno bruto em 2008. Os investimentos na Índia corresponderam à proporção de 9,9% de seu PIB e na China, de 8,7%. Segundo a Unctad, o fluxo de IED no mundo em relação ao PIB global é de 26,9%, o que indica que há um potencial de crescimento considerável para o Brasil e os demais Brics.

“Nunca a percepção do investidor estrangeiro foi tão positiva em relação ao Brasil quanto agora”, avalia o presidente da Sobeet, Luís Afonso Lima. De acordo com ele, essa melhora na avaliação dos estrangeiros deve-se aos bons fundamentos da economia brasileira, que se mantiveram sólidos mesmo em meio à crise econômica global. Ele citou como exemplos o controle da inflação, a política fiscal e, principalmente, o setor externo.

Essa visão das empresas estrangeiras em relação ao Brasil fez com que o País subisse da 14ª para a 10ª posição no ranking dos principais destinos de investimentos no ano passado. Economias sólidas como as da Alemanha, Canadá e Itália, por exemplo, perderam posições e ficaram atrás do Brasil em 2008. E de acordo com a Unctad, o Brasil deve melhorar ainda mais nesse ranking e atingir o 4º lugar até 2011.

Para Lima, o Brasil deve encerrar este ano recebendo um fluxo de US$ 25 bilhões. “O valor é menor que os dos dois últimos anos, mas superior aos de outros países, que estão caindo tanto ou mais que nós”, explicou o presidente da Sobeet.

Uma outra característica do Brasil ressaltada no estudo é que o aumento do IED em 2008 superou o crescimento dos investimentos das empresas nacionais no País, ao contrário do que ocorreu no restante do mundo. No Brasil, enquanto o IED aumentou 30,3% de 2007 para 2008, o investimento de empresas nacionais na Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) cresceu 13,8%. “Os outros estão vendo o Brasil com um olhar mais favorável que os próprios brasileiros e, além disso, para o resto do mundo, a previsão de crescimento não é tão boa”, analisou o presidente da Sobeet.

25/08/2009 - 11:21h China supera a Alemanha como maior exportador

Comércio: Dados do 1º semestre mostram pequena vantagem chinesa

Ralph Atkins, Financial Times, de Frankfurt – VALOR

As exportações chinesas abriram uma ligeira dianteira em relação às da Alemanha no primeiro semestre deste ano, segundo novos dados divulgados ontem, em mais uma indicação de que a posição da Alemanha, de principal país exportador do mundo, está ameaçada.

A China exportou mercadorias em valor equivalente a US$ 521,7 bilhões no primeiro semestre do ano, enquanto o total da Alemanha foi US$ 521,6 bilhões, conforme anunciou a Organização Mundial do Comércio (OMC), com sede em Genebra.

Estes números de exportação são acompanhados de perto na Alemanha, a maior economia da Europa, que terá eleições nacionais no próximo mês. As vendas dos seus produtos industriais têm impulsionado em grande parte o crescimento econômico nos últimos anos e, durante toda a crise econômica, o governo da premiê conservadora Angela Merkel tem defendido firmemente o modelo econômico do país, voltado às exportações.

Foto Destaque

A Alemanha há muito tempo vem se preparando para que a economia chinesa, de crescimento muito mais acelerado, assuma o seu título de “campeã mundial de exportações”.

O valor provável das exportações alemãs e chinesas para o ano cheio continua, porém, incerto e dependerá decisivamente das oscilações das taxas de câmbio nos próximos meses.

Um euro forte poderia ajudar a reduzir as vendas da Alemanha. Os setores exportadores do país mostraram sinais de recuperação nos meses recentes.

“Está apertado demais para podermos extrapolar para o ano todo e, quem dirá, para o próximo ano”, afirmou Patrick Low, economista-chefe da OMC.

As exportações alemãs foram duramente abaladas pela queda na confiança mundial que se seguiu à derrocada do banco de investimentos americano Lehman Brothers, no ano passado.

Mas surgiram sólidos sinais de uma sólida retomada no crescimento. Em junho, mês mais recente para o qual há dados disponíveis, as exportações alemãs deram um salto de 7% na comparação com o mês anterior. Apesar disso, elas ainda ficaram 22,3% abaixo do nível do ano anterior. As exportações chinesas seguiram um padrão semelhante.

O aumento repentino nas exportações ajudou a explicar porque a Alemanha conseguiu registrar um aumento no PIB no segundo trimestre, na comparação com o trimestre anterior – dando a entender que o país teria saído da recessão antes dos EUA, Reino Unido e da maioria das demais grandes economias da UE.

Por sua vez, a recuperação na Alemanha está ajudando a elevar o desempenho global da zona do euro. As encomendas à indústria na zona do euro dispararam, numa alta de 3,1% em junho, na comparação com o mês anterior (leia texto ao lado), segundo dados da Eurostat, a agência oficial de estatísticas da União Europeia.

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Para Pequim, estímulo ainda é necessário

Agências internacionais – VALOR

O primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, disse que a economia de seu país “ainda enfrenta muitas novas dificuldades e problemas” e que o governo manterá suas políticas de estímulo uma vez que recuperação ainda carece de bases sólidas.

Wen disse que apesar de melhoras nas condições da economia chinesa, não se pode ser “cegamente otimista”. As declarações foram feitas ontem durante visita ao sul do país e veiculadas pelo site do gabinete do premiê.

“Ainda há muitos fatores de instabilidade e de incerteza pela frente e a situação econômica futura é ainda muito grave, embora tanto a economia mundial quanto a economia nacional estejam passando por mudanças positivas neste momento.”

O premiê advertiu também que os efeitos de algumas das medidas do governo podem começar a perder força enquanto outras levarão algum tempo até apresentarem resultados. No comunicado do gabinete com as declarações de Wen não há mais detalhes dos problemas mencionados por ele.

A cautela do líder chinês contrasta com um otimismo crescente entre muitos analistas que dizem que a China está fazendo progressos impressionantes para deixar para trás os efeitos da crise. Muitos têm repetido que a China será a primeira grande economia a sair da maior retração mundial desde os anos 30.

Wen prometeu que Pequim continuará aplicando suas políticas para incrementar a demanda doméstica, ampliar o crédito e melhorar eficiência. O país está pondo em prática a um plano de estímulo de US$ 586 bilhões previsto para durar dois anos. O objetivo é injetar recursos do Estado na economia para estimular o consumo doméstico por meio de maiores gastos públicos em obras e ampliação de crédito.

O Banco da Construção da China afirmou ontem, no entanto, que há o excesso de recursos no sistema bancário está criando uma bolhas do mercado, o que deu asas a temores de que autoridades chinesas estejam preparando – ao contrário da promessa de Wen – um aperto no crédito.

“Há incerteza na economia e bolhas no mercado de capitais”, disse Guo Shuqing, presidente do banco, o segundo maior do país. “O sistema bancário chinês ainda tem excesso de liquidez.”

No primeiro trimestre, bancos do país concederam um valor recorde de US$ 1,1 trilhão em novos empréstimos para ajudar a por em prática o pacote de estímulo do governo.

Foi o pacote que contribuiu para que a economia chinesa tivesse um crescimento de 7,9% no último trimestre – ante os 6,1% do trimestre anterior. O premiê e outras autoridades chinesas têm alertado, no entanto, que muitas empresas no país ainda registram resultados ruins e que outras áreas mostram que a fase de recuperação ainda não está bem fundada.

“A fundação da recuperação econômica não está estável, não está firme, não está equilibrada e certamente não podemos ser cegamente otimistas”, disse Wen.

A meta de crescimento do governo para este ano é de 8%. Estimativas de analistas privados variam de 7% a 9,4%.

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Demanda chinesa puxa o Japão

Bloomberg – VALOR

A demanda da China, a economia que mais cresce entre as principais do mundo, está contribuindo para tirar o Japão de sua mais grave recessão do pós-guerra, disse uma destacada economista do governo japonês.

“Não há dúvida de que a recuperação econômica da China está contribuindo para uma reação no Japão e em outras economias da região”, disse Tomoko Hayashi, diretora para economias externas da Secretaria de Governo em Tóquio.

Indústrias, da Honda à Komatsu, se beneficiaram no trimestre passado com o pacote de incentivo econômico da China, de 4 trilhões de iuan (US$ 585 bilhões), o que ajudou a economia do Japão a crescer pela primeira vez em mais de um ano. As exportações para a China superaram as vendas para os Estados Unidos e fizeram com que o país se tornasse o maior mercado externo do Japão este ano. O mercado chinês está compensando a fragilidade dos gastos do consumidor e das empresas no mercado japonês.

A “recuperação [do Japão] seguirá dependendo muito da demanda externa e do pacotes de estímulo no segundo semestre de 2009 e início de 2010″, disse Tetsufumi Yamakawa, economista-chefe para Japão do Goldman Sachs.

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Imóvel comercial dispara na China

Bloomberg – VALOR

A China superou os EUA e o Reino Unido juntos em vendas de imóveis comerciais no primeiro semestre do ano, disse a empresa de pesquisa Real Capital Analytics, sediada em Nova York.

As transações chinesas totalizaram US$ 31,2 bilhões, depois da disparada de vendas propiciada pelo boom de crédito patrocinado pelo governo chinês. As vendas nos EUA somaram US$ 16,2 bilhões no primeiro semestre, segundo o relatório, e as do Reino Unido, US$ 13,7 bilhões.

“Não há dúvida que de a China será um participante mais significativo no cenário mundial de transações de imóveis comerciais”, disse Dan Fasulo, diretor-executivo da Real Capital.

Cerca de US$ 62,8 bilhões em imóveis comerciais foram negociados mundialmente no segundo trimestre, 17% a mais que nos três meses anteriores, o que representa o primeiro aumento em 18 meses, disse a Real Capital.

Esse crescimento indica uma recuperação mundial. O total mundial de vendas no primeiro semestre foi de US$ 116,4 bilhões, 65% a menos que no mesmo período do ano passado e US$ 500 bilhões a menos que no pico no primeiro semestre de 2007. Espera-se que as vendas cresçam neste semestre.

24/08/2009 - 09:07h Risco-Brasil fica entre os menores

Dívida externa: Spread brasileiro cai 19,6% e se consolida abaixo do mexicano e do russo

Cristiane Perini Lucchesi, de São Paulo – VALOR

O Brasil teve destaque entre os emergentes no mercado internacional de crédito no período pós-quebra da Lehman Brothers e se consolidou como o de menor prêmio de risco entre os países mais negociados. O risco-Brasil está 19,6% abaixo do que era um dia antes de estourar a fase mais aguda da crise, em 15 de setembro, na comparação com o aumento de 12,9% na média de 14 países do índice CDX.

“A despeito de todos os problemas e desafios, o Brasil é percebido como mais disciplinado e previsível”, diz Octavio de Barros, diretor do Departamento de Economia do Bradesco. “Mesmo o cenário eleitoral do ano que vem, ainda que possa suscitar alguma volatilidade mais adiante, não tira o sono de ninguém, pois o mercado não identifica incentivos a se andar para trás”, diz ele. No seu entender, o risco-Brasil tende a seguir uma trajetória de queda, fechando nos níveis de 100 pontos básicos no final deste ano, na comparação com os 124,915 pontos básicos na sexta-feira do prêmio do swap de crédito (CDS) de vencimento em cinco anos da dívida externa brasileira.

“A performance relativa do risco-Brasil foi excelente durante a crise, superando a dos demais emergentes, o que já esperávamos”, diz Daniel Tenengauzer, diretor-gerente e chefe de estratégia global para juros e moedas do Bank of America Merrill Lynch. “O que é surpreendente é que o risco-Brasil está agora mais baixo inclusive do que o spread do México”, afirma o estrategista.

Enquanto o risco-Brasil está em 124,915 pontos básicos, o spread de crédito do México está em 163,695 pontos básicos, apesar de a dívida externa do governo mexicano ter rating dois degraus acima da dívida do governo brasileiro pela Standard & Poor’s e pela Fitch Ratings e três degraus acima pela Moody’s. De acordo com a Fitch e a S&P, o Brasil tem a nota “BBB” para sua dívida externa, o primeiro degrau do grau de investimento. O México é “BBB+”. Já a Moody’s considera o Brasil ainda investimento especulativo e dá a nota “Ba1″ para o país, na comparação com a classificação “Baa1″ da dívida externa do México. Antes de a crise explodir, no dia 12 de setembro, o prêmio de risco do México era de 134,1 pontos básicos, na comparação com os 155,30 pontos do Brasil. Enquanto o risco-México subiu 22,1% desde então, o risco-Brasil teve queda de 19,6%.

“O Brasil foi um dos primeiros países a sair da recessão e as perspectivas de crescimento para o ano que vem são ainda mais animadoras, dado o ciclo de investimentos nas áreas de petróleo e gás”, diz Octavio de Barros, que prevê crescimento de 2,1% no Produto Interno Bruto no segundo trimestre de 2009 na comparação com o primeiro. No terceiro trimestre, haverá estabilidade e no quarto, novo crescimento de 2%, prevê.

Enquanto isso, o México, que tem uma economia mais dependente das importações dos Estados Unidos e menos diversificada, está em situação mais difícil, diz Ernesto Meyer, coordenador de financiamento para aquisições e operações sindicalizadas para a América Latina do BNP Paribas. O governo mexicano acaba de anunciar uma queda de 1,1% no PIB no segundo trimestre na comparação com o primeiro e um tombo de 10,3% na comparação com 2008, o maior em 25 anos.

A Rússia também tem rating melhor do que o Brasil – um degrau pela S&P e pela Fitch Ratings e três degraus pela Moody’s, mas está com risco-país de 272,72 pontos básicos, mais do que o dobro do brasileiro. O PIB da Rússia também continuou em contração no segundo trimestre -tombo de 10,9% na comparação com o trimestre em 2008, o maior da história – e seu risco-país subiu 62,5% desde a quebra da Lehman Brothers.

A queda maior no prêmio de risco-Brasil na comparação com outros emergentes tem ajudado a derrubar ainda mais os spreads pagos “por uma elite de empresas brasileiras”, pois grande parte da liquidez antes destinada a outros países da América Latina foi direcionada para o Brasil, diz Meyer. Hoje, entre os latino-americanos, o Chile é o único que tem risco de crédito menor do que o do Brasil pelo CDS, de 81,9 pontos percentuais. Mas, apesar disso, segundo Meyer, as grandes empresas brasileiras já pagam menos do que qualquer empresa da região em empréstimos, inclusive as chilenas. A China tem prêmio de risco de 82,25 pontos, mas tem US$ 2,13 trilhões em reservas, contra US$ 213,956 bilhões do Brasil.

17/08/2009 - 11:08h ”Brasil é o mais irresistível dos Brics”

James Quigley: presidente do Bank of America Merrill Lynch na América Latina; em visita ao País, ele diz que oportunidades estão espalhadas em vários setores, não apenas na área de commodities

 Leandro Modé – O Estado SP

 


Quando o Lehman Brothers quebrou, provocando o maior terremoto do sistema financeiro mundial desde os anos 30, muitos analistas decretaram o fim dos bancos de investimento. Essas instituições, em vez de atenderem ao cidadão comum, são especialistas em intermediar grandes operações, como fusões e aquisições, ou cuidar da fortuna de investidores endinheirados. Para os críticos, havia duas saídas para esses bancos: ou iriam à falência, como o próprio Lehman Brothers, ou seriam absorvidos pelos gigantes do varejo.

Foi o que aconteceu com o Merrill Lynch, vendido para o Bank of America (maior banco dos EUA hoje) no mesmo dia em que o Lehman sucumbiu.

Na América Latina, a empresa comprada assumiu o comando da instituição resultante da fusão. “O Bank of America não tinha uma estratégia bem definida para a América Latina. Em compensação, o Merrill Lynch tinha um negócio amplo, diversificado”, explica o presidente do Bank of America Merrill Lynch na região, James Quigley. Com 27 anos de experiência, ele não tem dúvidas: “O Brasil é hoje o mais irresistível entre todos os mercados emergentes do mundo”, disse ao Estado.

Quigley tem feito uma série de visitas rápidas ao País, com objetivo de entrevistar candidatos para vagas que o banco está abrindo aqui. “Temos de ser disciplinados. Contratar muita gente rapidamente pode fazer com que não consigamos trazer os melhores.”

Por que o mundo tem essa visão hoje sobre o Brasil?

Sempre é conveniente para homens de negócio como eu virem ao Brasil, encontrarmos jornalistas brasileiros e dizer apenas boas coisas sobre o País. Mas o fato é que o Brasil não é apenas o principal responsável pelo nosso crescimento na América Latina e nossa maior oportunidade na região. Eu diria que o Brasil é hoje o mais irresistível entre todos os mercados emergentes do mundo, considerando os outros Brics (Índia, Rússia e China) e países como Turquia e África do Sul. As razões são várias. O Brasil tem uma grande população jovem e diversificada, sistema bancário que funciona bem, instituições críveis (que gerenciaram a crise de forma hábil) e é um exportador diversificado – não é visto só como vendedor de commodities. Os negócios em que temos trabalhado não são só na área de commodities. O segmento de consumo é mais atrativo do que o de commodities. Há vários eventos que trouxeram excitação sobre o País. Em qualquer lugar que vou, uma conversa sobre a América Latina se volta para o Brasil. O Brasil está se transformando em destino preferencial do capital.

Em que áreas de negócio vocês veem as maiores oportunidades?

Em todas. Um dos pontos altos é o fato de ser um país diversificado. Nossas áreas ligadas a commodities, câmbio e ações são muito fortes, bem como o banco de investimentos, o corporate banking e o segmento de empréstimos comerciais. Para se tornar um competidor ainda mais forte, precisamos ser capazes de oferecer um portfólio de produtos mais amplo: financiamento de comércio exterior, gestão de caixa, financiamento da cadeia de suprimentos, etc. Em todas essas áreas, o Bank of America tem conhecimento global. Então, na América Latina, as sinergias possíveis entre as duas companhias pode provar que um mais um é igual a três. Quando se olha o Brasil, é impossível não pensar no crescimento do mercado imobiliário e na consequente necessidade de hipotecas. As perspectivas de consumo são grandes, portanto, o negócio de cartão de crédito é promissor não só no Brasil, mas na América Latina. Todas essas são oportunidades de longo prazo. Devemos ser disciplinados. Se quisermos fazer tudo muito rapidamente, pode dar errado. Contratar muita gente rapidamente pode fazer com que não consigamos trazer os melhores profissionais.

As eleições do ano que vem preocupam o investidor?

Eleições sempre preocupam. Neste caso, tudo o que se deve fazer é voltar duas eleições atrás, quando Lula foi eleito pela primeira vez. O dólar disparou, os títulos da dívida despencaram, mas, no fim, o que prevaleceu foi a democracia, foi o fato de que as instituições funcionam muito bem no Brasil. Lula acabou demonstrando ser capaz de fazer o País mover-se para frente. O medo se converteu em aplauso. Não acho que haja grandes temores sobre a eleição de 2010.

Hoje a percepção dos investidores é positiva sobre a América Latina. Mas, no auge da crise, moedas da região, como o real, estiveram entre as que mais se desvalorizaram. O que houve?

Se voltarmos 20, 30, 40 anos no tempo, em todas as crises os mercados emergentes tiveram má performance. Desta vez, a crise atingiu todos os países. Foi aos poucos que as pessoas se deram conta de que muitos tinham feito sua lição de casa e, portanto, o Brasil não estava sujeito aos problemas do passado. Isso não significa que não seria atingido. Mas, se pensássemos em sete anos atrás, o efeito seria muito pior. As pessoas reconhecem que, se o País tiver uma crise, será por fatores exógenos.

Essa retomada dos mercados é sustentável?

Eu preferiria, nos próximos anos, ter na carteira ações de grandes companhias do que bônus governamentais de longo prazo. A política dos governos – de despejar trilhões de dólares na economia e a atuação dos bancos centrais para evitar uma crise pior – é inflacionária no longo prazo. Provavelmente, esses riscos não vão se concretizar em 2010, mas em 2011. Inflação é bom para ativos reais, como ações e commodities. Nesse aspecto, o Brasil está numa ótima posição.

Qual a visão de vocês sobre a crise? O pior ficou mesmo para trás?

Não falo sobre o Bank of America Merrill Lynch, mas por mim mesmo. Acho que o pior está atrás de nós. O Bank of America alterou há algumas semanas a projeção de crescimento em 2010 dos Estados Unidos de 1,8% para 2,6%. Os estoques nos EUA já estão em nível relativamente baixo, a taxa de poupança subiu. Uma coisa que as pessoas sempre subestimaram é a flexibilidade e a agilidade de a economia americana se ajustar mais rapidamente do que a maioria das economias do mundo. Não é uma economia rígida. Não sou preparado o suficiente para dizer que o mercado acionário continuará na tendência de alta. Pode ser até que vejamos alguma correção. Mas, olhando a longo prazo, não acho que os EUA sejam um problema.

Alguns críticos dizem que há excesso de liquidez nos mercados e isso pode provocar novas bolhas.

No início de 2007, não encontrávamos um único cliente que não achasse que o mundo continuaria a ser bem sucedido. A maioria dizia: “Jim, há um excesso de liquidez no mundo. É preciso continuar investindo.” Em um curtíssimo prazo, fomos de uma enorme liquidez para zero. Hoje, há liquidez. Mas sempre há. Eu acho que a questão a se perguntar não é quanta liquidez há, mas como mobilizá-la de forma eficiente. Durante a crise, a liquidez não foi alocada. Todos colocaram o dinheiro em títulos americanos, praticamente sem remuneração. A mobilização eficiente da liquidez é função da confiança. A confiança está voltando e, à medida que aumente, a alocação da liquidez será cada vez mais bem feita.

Há muito capital entrando no Brasil, o que valoriza o real. Como lidar com o risco desse movimento?

Ter uma moeda forte será bom para o Brasil, porque forçará as empresas a ter disciplina, a gerir seus negócios de forma consistente com o aumento da produtividade. Se um país tem moeda fraca, dá à indústria uma desculpa conveniente para não ter foco no aumento da produtividade. Ter uma moeda forte no longo prazo vai ajudar o País. É claro que, no curto prazo, há toda a questão política, os editoriais que tratarão do enfraquecimento da indústria, etc. Mas será só no curto prazo. O real forte deixará a indústria brasileira muito mais produtiva. Isso ajudou os EUA nos anos 90.

Alguns governantes de países latino-americanos são considerados populistas. Como isso influencia a visão geral sobre a região?

Eu acho que a América Latina vai seguir o exemplo bem sucedido do Brasil. A Merrill Lynch liderou a entrada da Petrobrás no mercado de capitais. Naquela época, gastamos o mesmo tempo para preparar a operação e para reuniões com os sindicatos, para deixar claro que era algo de interesse do País. No México, não houve isso com a Pemex. São Paulo emergiu como a capital financeira da América Latina. Na Argentina, nós encontramos um caminho para sermos bem sucedidos. Hoje, não temos gente na Bolívia nem na Venezuela. Temos parceria com uma empresa de Caracas que tem sido muito boa. Há um potencial tremendo na Venezuela, mas não nas circunstâncias atuais. O Chile tem um sistema financeiro sofisticado, com margens muito difíceis. Então, não é fácil fazer dinheiro lá. É preciso ser inovador. Ainda que não estejamos fisicamente lá, o Peru é um lugar onde vemos muitas oportunidades.

O juro está no menor nível da história do Brasil. Que tipo de oportunidade esse cenário abre? O sr. espera, por exemplo, muitas aberturas de capital (IPOs)?

Eu não acho que os investidores institucionais estão convencidos da melhora do mercado. Há ainda dúvidas sobre a sustentabilidade da recuperação e medo de que haja uma recuperação em W, que incluiria outra recessão no ano que vem. Não vejo muitas oportunidades para IPOs, apesar do interesse dos investidores pela América Latina. Vejo, sim, oportunidades para empresas que abriram recentemente o capital fazerem ofertas secundárias e aumentarem o free float (quantidade de ações em circulação no mercado).

No início da crise, muitos diziam que o modelo de banco de investimentos ia acabar. Como o sr. analisa essa previsão hoje?

Bancos de investimento nunca morrem, eles só voltam de maneiras diferentes. Há um foco crescente em transparência e controle de risco. Todos reduziram seus níveis de alavancagem. Os ciclos mudam. Uma das coisas notáveis que percebi nos meus 27 anos de carreira é o ?curto prazismo? das pessoas. Depois da crise Tequila, do México, em 1994, e da crise russa, em 1998, muitos investidores me disseram: ?Nunca mais tente me vender produto relacionado a países emergentes.” Nos próximos 18 meses, as pessoas vão se lembrar da dor provocada pela crise. Mas os ciclos mudam. Não me preocupo por hoje, mas pelos próximos três ou quatro anos. É preciso ser disciplinado em todos os negócios, não só nos bancos de investimento.

13/08/2009 - 10:02h Brasil pode gastar mais se for responsável

 

Alberto Tamer* – O Estado SP

 


Por que a economia mundial está saindo da recessão mais cedo do que se previa? Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia, responde refletindo o pensamento de quase todos: basicamente por causa da grande intervenção governamental. Os países em que ela foi mais intensa, Estados Unidos, China, Brasil, estão se livrando antes. Os que tardaram ou foram tímidos, todos na União Europeia, vão demorar e sofrer ainda muito. Esse é um fato insofismável. Foi isso que evitou a segunda grande depressão da história, afirma Krugman.

HÁ UM LIMITE. QUAL?

O Brasil antecipou-se ao lançar uma política fiscal ousada e consistente que está funcionando bem, mas chegou a hora de perguntar: qual foi o custo e até quando o governo poderá mantê-la sem pôr em risco o equilíbrio fiscal e a sua credibilidade externa? Esse tema tem provocado discussões acaloradas entre economistas e a equipe econômica. Até o sempre tranquilo ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, perdeu a calma e chamou de especuladores os que condenam a política anticíclica e a acusam de pouco responsável por seus efeitos negativos na estabilidade fiscal.

A resposta mais consistente e bem documentada veio, em artigo de Affonso Celso Pastore e Maria Cristina Pinotti, no Valor desta segunda-feira. “Há espaço ainda para manter o estímulo, mas há riscos de gastos permanentes de difícil reversão”, como vem ocorrendo, afirmam.

O estímulo do governo à economia foi significativo. Em 12 meses, o superávit fiscal primário situava-se pouco acima de 4% do Produto Interno Bruto (PIB). Em julho, recuou para 2% e a projeção é que feche o ano entre 1,5% e 1,8%.

“Há, assim, um estímulo fiscal superior a 2% do PIB.”

Comparando com o esforço de outros países para impedir uma recessão profunda, poder-se-ia argumentar que o estímulo fiscal brasileiro é até modesto. Nos Estados Unidos, o déficit – não superávit – passou de 3% do PIB em 2008 para 13% neste ano; a dívida pública, que era de 41% do PIB em 2008, está perto de 55% neste ano, segundo o Congresso. Estima-se que, se nada for feito, poderá chegar a 85% do PIB em 2019.

“Os EUA podem elevar até fortemente a dívida pública porque têm uma reputação de disciplina fiscal e nunca tiveram um default. As mudanças macroeconômicas dos últimos anos permitem ao Brasil realizar uma política fiscal contracíclica (a atual), mas nosso passado nos obriga a fazê-lo em dimensões muito mais modestas”, afirmaram Pastore e Pinotti.

Para eles, o fantasma do crescimento explosivo da dívida pública não é mais tão aterrador como no passado. Hoje, a dívida pública consolidada é apenas um pouco acima de 40% do PIB mas as taxas de juros, que incidem sobre ela, vêm caindo continuamente, reduzindo seu peso.

Eles estimam que se for deduzida a inflação, de 4,5%, dos juros e um crescimento mesmo modesto de 3,5% no próximo ano, “serão necessários superávits fiscais inferiores a 2% do PIB para estabilizar a dívida líquida. Conclusão: não se ressuscita o fantasma do default, que já tivemos, “mas aumenta a tentação de elevar os gastos e reduzir mais o superávit primário”. Isto é, o risco não está em manter a atual política de estímulo fiscal, mas de usá-la mal com gastos permanentes. E essa tentação de gastar mais e com menos responsabilidade é ainda maior num ano eleitoral em que o governo já tem um candidato. Gastar mais aumenta a demanda, ajuda sair da recessão, mas a eleger o novo presidente também. Este é o risco. Gastar mais em áreas que dão mais resultado eleitoral, mas tem retorno pouco sustentável e efeitos fiscais danosos.

ENTÃO É MUDAR TUDO?

Não. Nem aqui nem nos Estados Unidos, onde só há notícias positivas. Graças aos benefícios fiscais e tributários a economia americana que estava caindo 6%, recuou apenas 1% no segundo trimestre. Está saindo do fundo do poço. Na China, o enorme pacote de estímulo essencialmente à demanda interna e, mais ainda, empréstimos bancários de mais de US$ 1 trilhão em alguns meses, estão fazendo que a economia cresça 7% neste ano. Em ambos, o objetivo que está sendo alcançado, é restabelecer a confiança do consumidor e reanimar o mercado interno. No Brasil, também. Poucos duvidam que o PIB será positivo neste trimestre e poderemos terminar um ano com um índice pelo menos de estabilização após dois trimestres negativos.

Por isso, não há como condenar a política fiscal, mesmo que ela reduza o superávit. É o preço que estamos pagando para evitar que o desemprego aumente e a recessão se prolongue. Todos os indicadores econômicos de consumo, emprego, construção civil são positivos. Essa política deve ser mantida.

O risco, alertam Pastore e Pinotti, com muita propriedade e comprometer-se com gastos permanentes que não podem ser desfeitos quando a situação voltar à normalidade; o risco é acreditar que simplesmente o aumento do consumo, mesmo ao custo de uma redução do superávit e do equilíbrio fiscal, representa uma solução permanente para voltar a crescer.

O governo está acertando com política anticíclica mas precisa resistir à enorme tentação de gastar mais já que o superávit fiscal ainda permite. Mas será isso possível num ano eleitoral? O que acha o leitor?

*E-mail: at@attglobal.net

13/08/2009 - 09:12h Lula tinha razão, foi uma “marolinha”

Bem na foto

http://www.rnnoticias.com.br/SPN/bancoimagem/Cultura/lula-e-marolinha-surf-obama.bmp

Celso Ming – O Estado SP

À medida que se consolida a percepção de que a crise global não foi tão destruidora como parecia e que, afinal, a virada está a caminho, é preciso perguntar quais as consequências de tudo isso para o Brasil.

Sortudo ou o que for, o presidente Lula ficou com a razão. Comparada com as projeções feitas pelo Morgan Stanley e seu economista-chefe, Marcelo Carvalho, de que o PIB do Brasil mergulharia 4,5% neste ano, a afirmação de Lula de que isso não passaria de “marolinha” estava bem mais correta.

Terça-feira, o presidente executivo do Itaú Unibanco, Roberto Setubal, avisava que o PIB brasileiro no segundo semestre avança ao ritmo de 4% ou 5%. Assim, ainda que o resultado líquido do ano fique perto de zero por cento, para 2010 já se pode esperar números próximos dos 4%.

Como esta coluna já fez em outras oportunidades, não dá para fechar os olhos para a atual deterioração das contas públicas. Em apenas nove meses, o déficit do setor público saltou de 1,8% do PIB para 3,2%. E o enorme despejo de recursos na economia, que o governo alardeia como sendo política anticíclica, baseou-se em despesas de má qualidade, na medida em que se concentraram não em investimentos, que trariam retorno, mas em despesas correntes, com o funcionalismo público e aposentadorias, que ficam nisso.

Mas não se pode negar a qualidade do resto. Fato inédito, a economia brasileira sai dessa crise com reservas externas superiores às que tinha no seu início. Os juros básicos (Selic) estão em seu nível mais baixo desde 1999. A inflação ficou enquadrada na meta (e em queda). O desemprego está mais baixo do que nos países ricos. E o crédito segue em expansão e já permite o esticamento dos financiamentos habitacionais para além de 20 anos. São condições que, por si sós, constituem credenciais de grande validade para novas decolagens.

A crise e as circunstâncias trouxeram outros benefícios de longo prazo. Acabou, por exemplo, o risco de apagão no sistema de energia elétrica, um pouco porque a derrubada da atividade industrial reduziu o consumo e outro pouco porque o extraordinário período de chuvas encheu os reservatórios e ficou afastada a ameaça de insuficiência de energia elétrica por pelo menos mais três anos.

É provável que o crescimento do PIB deste ano seja alguma coisa acima de zero por cento, como novas projeções estão indicando. Mas, mesmo que seja zero, será o quinto ou o sexto melhor desempenho do planeta, atrás apenas da China, Índia, Indonésia, África do Sul e, talvez, Colômbia.

Assim como o governo americano terá de enfrentar a estratégia de saída da crise, o governo brasileiro terá de normalizar o regime tributário dos setores que foram beneficiados com isenção de IPI.

A queda das vendas da indústria automobilística em julho, de 4,9% em relação a junho, parece comprovar que os benefícios se limitaram a antecipar as compras; não criaram mercado novo. E, se foi assim, a indústria voltará a ter dificuldades nos próximos meses.

Em todo o caso, se o governo Lula não fizer nenhuma grande besteira, a economia brasileira tem tudo para mostrar bom resultado no ano que vem.

CONFIRA

Como o mercado esperava, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) manteve os juros básicos entre 0% e 0,25% ao ano. O que surpreendeu muitos analistas foi o tom brando com que o Fed tratou da recuperação da economia.

Muitos acreditavam que a recente melhora da atividade levaria o BC americano a acabar com o afrouxamento no primeiro semestre de 2010.

No entanto, o Fed fala em garantir um nível excepcionalmente baixo para os juros por um período prolongado. Uma das prováveis consequências disso é a desvalorização do dólar ante outras moedas, como o real.

13/08/2009 - 08:52h Recessão nos EUA chegou ao fim, dizem economistas


criseusa.jpgDe 52 economistas ouvidos pelo WSJ, 38 dizem que país está saindo da crise

O Estado SP

A recessão nos Estados Unidos iniciada em dezembro de 2007 já terminou, segundo a maioria dos economistas consultados em um levantamento do Wall Street Journal publicado ontem. Na pesquisa, que entrevistou 52 economistas, 27 disseram que a crise já acabou e outros 11 acreditam que chegará ao fim neste mês ou no próximo.

Eles também são quase unânimes na aprovação de Ben Bernanke como presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e desejam que ele seja nomeado para mais um mandato. Para os economistas americanos, há 71% de chance de o presidente dos EUA, Barack Obama, pedir que ele continue no posto.

O combate à desaceleração da economia definiu boa parte do mandato de Bernanke, que começou no início de 2006 e termina em janeiro de 2010, segundo os economistas. Eles disseram que a forma com que Bernanke lidou com a crise o faz merecer mais quatro anos no comando do Fed.

“Ele merece bastante crédito por estabilizar os mercados financeiros”, disse Joseph Carson, da AllianceBernstein. “A confiança na recuperação seria prejudicada se ele não fosse renomeado.” Muitos dos economistas consultados acreditam que há pouco a se ganhar com uma mudança no comando do Fed, especialmente considerando a tarefa maciça nas mãos do banco central, conforme a economia sai da recessão.

“Uma continuidade é crítica conforme emergimos desta crise. Do contrário, podemos cair nela de novo”, disse Diane Swonk, economista da Mesirow Financial. “O Bernanke é o melhor indicado para desfazer o que foi feito quando chegar a hora.” O Fed tomou medidas sem precedentes para evitar outra Grande Depressão e a estratégia de saída continua sendo uma questão-chave.

A taxa básica de juros não deve ser alterada tão cedo. Apenas seis economistas esperam que o Fed eleve este ano o juro – hoje na faixa entre zero e 0,25%. Muitos preveem um aumento em algum momento em 2010, mas mais de um quarto não vê mudança até 2011 ou mais.

“A estratégia de saída será muito, muito lenta e cautelosa”, disse John Silvia, do Wells Fargo. “O Fed vai desmontar o balanço antes de elevar o juro”, acrescentou. O balanço do Fed – o valor total dos empréstimos e títulos que possui – mais que dobrou durante a crise, para mais de US$ 2 trilhões, em meio à expansão das linhas de crédito, na tentativa de descongelar os mercados de crédito.

AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

09/08/2009 - 11:45h O conto do vigário

http://y-sonoda.asablo.jp/blog/img/2008/09/30/7974d.jpg

Kenneth Rogoff * – O Estado SP

 


No próximo mês, o colapso do venerável banco de investimentos americano Lehman Brothers completará um ano. A queda do Lehman marcou o início de uma recessão global e uma crise financeira que o mundo não observava desde a Grande Depressão, nos anos 30. Depois de um ano, de trilhões de dólares de dinheiro público utilizados e muita autoanálise dentro da comunidade política do mundo, aprendemos as lições certas? Temo que não.

O consenso geral é de que, se o governo tivesse socorrido financeiramente o Lehman, tudo teria sido apenas um soluço e não um enfarte. Famosos investidores e políticos influentes opinaram que, nessa nossa economia global interconectada, nunca se poderia deixar uma grande instituição financeira como o Lehman ir à falência.

Independentemente do quão péssima foi a sua administração – o Lehman basicamente transformou-se numa holding imobiliária totalmente independente dentro da bolha formada no setor de habitação -, os credores de uma grande instituição financeira sempre teriam de ser reembolsados. Do contrário, a confiança no sistema ficaria corroída e o caos se implantaria.

Tendo chegado à brilhante conclusão de que uma reestruturação financeira devia ser evitada a todo custo, os governos mundiais decidiram criar uma enorme rede de proteção para os bancos (e todos os países na Europa Oriental), tecida pelos dólares dos contribuintes.

Infelizmente, essa autópsia do Lehman era uma utopia. Ela basicamente dizia que, independentemente do tamanho da bolha imobiliária, do quão profundo era o buraco do crédito cavado pelos Estados Unidos (e outros países) e o quão enredado estivesse o sistema financeiro global, nós podíamos ter encontrado um caminho de saída. Se tivéssemos solucionado o problema do Lehman, ido em frente e continuássemos aproveitando o vigor da energia da China, nada de ruim jamais ocorreria.

O fato é que os desequilíbrios globais em termos de dívidas e preços de ativos aumentou tanto, atingindo seu clímax nos últimos anos , a ponto de não haver saída. Os EUA estavam dando sinais de alerta de uma profunda crise financeira bem antes de estourar o problema do Lehman Brothers, como Carmen Reinhardt e eu documentamos em nosso próximo livro This Time is Different: Eight Centuries of Financial Folly (Desta vez é diferente: oito séculos de loucura financeira).

Os preços dos imóveis residenciais dobraram num curto período, levando os consumidores americanos a não pensar mais em fazer poupança. Os órgãos de decisão política, incluindo o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), permitiram que essa festa de crescimento dos anos 2000 continuasse por muito mais tempo.

Embriagados com os lucros, os setores bancários e de segurança se endividaram como nunca. Os bancos de investimento transformaram seus negócios de tal forma que seus administradores e conselhos claramente não entenderam.

Não foi somente o Lehman Brothers. O sistema financeiro todo estava despreparado para lidar com o inevitável estouro das bolhas do crédito e imobiliária. O sistema chegou a um ponto em que precisou ser socorrido e reestruturado. E não há cenário legal ou político realista em que tal socorro poderia ter sido oferecido sem que um pouco de sangue ficasse nas ruas.

Portanto, o colapso de uma grande instituição bancária ou de um banco de investimento foi inevitável como catalisador para a ação. O problema do Lehman Brothers afundar não foi o conceito, mas a execução. O governo devia ter agido agressivamente para proteger a complexa carteira de derivativos do Lehman, mesmo que isso significasse interpretações criativas da lei ou a aprovação de novas leis de controle do sistema financeiro.

A verdade é que é difícil fazer tudo isso da noite para o dia, mas os alertas eram muitos. Nos seis meses anteriores ao colapso do Lehman, houve um congelamento lento do crédito global e recessões incipientes nos Estados Unidos e na Europa. Mas quase nada foi feito em preparação.

Então, qual é o plano de jogo, agora? Fala-se de regulamentar o setor financeiro, mas os governos temem que isso possa abalar a confiança. Admite-se que o estouro da bolha imobiliária precisa ser absorvido, mas não há disposição para reconhecer que isso implicará anos de lento crescimento do consumo.

Reconhece-se que as relações entre China e Estados Unidos têm de ser reequilibradas, mas não se sabe bem como proceder. Nossos líderes e legisladores se convenceram de que, apesar de todas as falhas, o velho sistema é melhor do que qualquer outro que se possa imaginar, e que restaurar a confiança vai resolver tudo, ao menos enquanto eles estiverem no comando.

A lição correta a se tirar o colapso do Lehman Brothers deve ser a de que o sistema financeiro necessita de importantes mudanças tanto em termos de regulamentação como de governança. O enfoque atual de uma rede de proteção pode funcionar a curto prazo, mas acabará resultando em dívidas governamentais enormes e insustentáveis, especialmente nos Estados Unidos e na Europa.

A Ásia pode estar disposta a patrocinar o Ocidente agora, mas não perpetuamente. No fim, ela encontrará alternativas, em parte aprofundando seus próprios mercados de dívida. Dentro de alguns anos, os governos ocidentais precisarão elevar drasticamente os impostos, permitir o aumento da inflação, ficar em parte inadimplentes, ou uma combinação dos três. Por mais doloroso que possa ser, é muito melhor começar a colocar os fundamentos da economia em ordem agora. Restaurar a fé é útil e importante. Mas, em última instância, precisamos de um sistema de regulamentação e governança financeira que mereça a nossa confiança.

*Kenneth Rogoff é professor de Economia e Políticas Públicas na Universidade Harvard e chefiou a equipe de economistas do Fundo Monetário Internacional

28/07/2009 - 10:55h Grupos brasileiros crescem em ranking dos maiores do mundo. Petrobras avança do 37º para o 8º lugar

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Para consultoria, números mostram que empresas do País estão se recuperando mais rápido

Renato Cruz – O Estado SP

As grandes empresas brasileiras estão entre as que mais se valorizaram no mundo no primeiro semestre, avançando no ranking das 300 maiores empresas globais, por valor de mercado, elaborado pela consultoria Ernst & Young. O levantamento mostrou a recuperação das empresas depois do ponto mais crítico da crise mundial, no final do ano passado.

O número de empresas brasileiras na lista passou de cinco, em dezembro, para oito, em janeiro, com três delas entre as 100 maiores: Petrobrás (8º lugar), Vale (46º) e Itaú Unibanco (76º). Entre as 300 maiores, ainda aparecem o Bradesco (120º), a AmBev (147º), o Banco do Brasil (204º) e o Banco Santander do Brasil (254º). O estudo tem como base o valor das ações das empresas ao fim do semestre.

“A recuperação está muito alinhada com os Brics”, disse Paulo Sérgio Dortas, sócio da área de transações corporativas da Ernst & Young, referindo-se ao grupo de países formado por Brasil, Rússia, Índia e China. “A Rússia e a China também se recuperaram.”

O total de empresas chinesas na lista das 100 maiores passou de oito no fim de 2009 para 11 em junho. No entanto, as três brasileiras entre as 100 maiores foram as que apresentaram a maior valorização, com valor conjunto de US$ 313,8 bilhões. Elas subiram 101%, ficando muito à frente das russas, que acumularam um aumento de 42%, com o segundo melhor resultado entre os países.

A China tem três empresas entre as dez maiores: Petrochina (1º), Industrial and Commercial Bank of China (ICBC) (3º) e China Construction Bank (6º). A operadora de telecomunicações China Mobile (5º) tem sede em Hong Kong. A Petrochina ultrapassou a americana Exxon Mobil, que ocupava o topo da lista no fim do ano passado e passou para o segundo lugar.

A Petrobrás é a única empresa brasileira entre as 10 maiores. Seu valor de mercado passou de US$ 95,895 bilhões para US$ 164,818 bilhões, avançando do 37º para o 8º lugar no ranking. A Vale subiu do 68º para o 46º lugar, com um valor de mercado de US$ 89,317 bilhões, o que equivale a um crescimento de 48% no trimestre. “A valorização da Petrobrás e da Vale reflete, em grande parte, a recuperação do mercado de commodities”, destacou Dortas.

A alta dos bancos brasileiros, com a entrada de dois deles na lista das 300 maiores empresas, mostra como eles foram pouco afetados pela crise, quando comparados com as instituições de países desenvolvidos. “Uma notícia muito boa foi o avanço da AmBev, que está muito mais ligada à situação do País que ao mercado internacional”, disse o consultor. “É uma empresa que depende mais do mercado interno, e sua recuperação mostra que as classes C, D e E continuam consumindo.”

Com base nos dados do estudo, Dortas apontou que já existem sinais de que a retomada do crescimento começa a acontecer mais rápido que o esperado, puxada pelos Brics. “O Brasil e a China são os carros-chefe, e estão surpreendendo quem só esperava uma recuperação para 2010.”

As empresas americanas e europeias perderam espaço na lista das 300 maiores do primeiro semestre, com um crescimento da Ásia. “Apesar de ainda estarem em primeiro lugar, essas economias têm perdido pujança”, apontou. O total de empresas americanas entre as 300 maiores manteve-se estável, com perdas de posições para muitas delas, enquanto o número de empresas europeias caiu de 110 para 95. Entre as 100 maiores, a presença europeia passou de 46 para 35 companhias.

Depois de cair 22% no primeiro semestre de 2008 e 33% no segundo, o valor das 300 maiores empresas voltou a crescer, com expansão de 8%, ou US$ 1,1 trilhão. No ano passado, perderam US$ 11,3 trilhões.

27/07/2009 - 10:49h Jim O’Neill, criador do Bric, diz que crise foi boa para alguns países

Dominic Elliott, especial para The Wall Street Journal* – VALOR

Siglas podem poluir a linguagem de negócios com jargões complicados. Mas algumas conseguem transformar algo desajeitado em um sonho de marketing.

Foi assim com “Bric”, a sigla criada em 2001 por uma equipe de Jim O’Neill, o economista-chefe do Goldman Sachs Group, em referência a Brasil, Rússia, Índia e China. O banco criou a sigla quando fazia uma previsão sobre o crescimento dos quatro grandes mercados emergentes.

O Goldman Sachs previu que o produto interno bruto coletivo do quarteto iria representar mais de 10% da economia mundial no fim desta década. Eles já ultrapassaram isso, chegando a 15% no ano passado.

O’Neill discutiu nesta entrevista como os Brics têm se recuperado da crise financeira, se eles já superaram sua classificação e que países podem ocupar o lugar deles. Trechos:

George Soros dizia em março que os mercados emergentes corriam o risco de ser os mais prejudicados pela crise, mas os chamados países periféricos têm sido os mais fortes até agora na recuperação. Por quê?

A recuperação se deveu à força dos fundamentos econômicos. Quando a China lançou seu pacote de estímulo, no ano passado, o Goldman Sachs recomendou: “compre ações chinesas”. Muitos acharam que estávamos loucos, já que elas haviam desabado nos meses anteriores. Agora elas têm alta de 80%.

Em parte isso se deve ao crescimento do mercado interno. O declínio das vendas no varejo americano foi equiparado por um aumento na China. As vendas no varejo chinês subiram 18% ante igual período do ano passado, segundo os números mais recentes. O aumento nos volumes de carros, de 48% em junho em comparação com o mesmo mês um ano antes, também é significativo e não se deve apenas ao estímulo.

Como o sr. acha que a crise mudou a economia mundial?

Estou ficando mais convencido de que a crise foi de fato uma coisa boa para alguns países. É certamente o caso da China, onde a demanda interna melhorou e houve crescimento de base mais ampla, menos dependente das exportações.

Os países do Bric parecem ter se saído particularmente bem. Um dos motivos de eles terem se recuperado tão bem é o forte controle sobre os sistemas bancários?

Bem, antes de tudo, eu deveria dizer que não considero realmente os Brics como mercados emergentes. Eles são grandes demais para isso. Mas o controle estatal de bancos foi decididamente um fator e isso é algo que muitos dos países ricos tendem agora a fazer. Talvez haja um reconhecimento de que deveria haver mais responsabilidade social para o setor financeiro e que o controle estatal do sistema bancário é uma boa coisa.

Há alguns mercados emergentes que ainda sejam uma grande preocupação?

Os Estados do Báltico e outras partes da Europa Central e Oriental continuam com problemas, mas mesmo lá temos diversidade. Quando estive em Tóquio recentemente, todo mundo perguntava sobre a Letônia. Mas a economia letã é um décimo do tamanho da de Tóquio. Em contraste, a Polônia é a menos exposta e tem a maior economia e a menos dependente de exportações.

Sua equipe no Goldman Sachs identificou “os próximos 11″ países que poderiam pegar o bastão do Bric. O sr. disse recentemente que Turquia, México, Nigéria, Irã e Indonésia eram os líderes entre esses. Esses cinco são os que o sr. escolheria como os destaques para o segundo semestre?

Esses cinco só são similares no que diz respeito a terem grandes populações. A Indonésia parece estar num caminho para o desenvolvimento com base na demanda interna, apesar da ameaça do terrorismo. Sinais iniciais são de que o PIB do segundo trimestre mostrará que o país cresceu, o que é um feito significativo no contexto do acesso (à União Europeia), considerando os problemas que a Europa desenvolvida enfrenta. O Irã é uma sociedade altamente adepta da tecnologia com uma enorme população. A Nigéria é o maior país do continente africano em população e seus líderes estão dispostos a engajar-se internacionalmente.

Por isso esses quatro – Nigéria, Irã, Turquia e Indonésia – estão bastante no nosso radar. Vietnã e México também são interessantes.

O sr. acha que esses países ou os Brics serão capazes de descolar do mundo desenvolvido?

Não tenho certeza sobre o desacoplamento. As relações preço/lucro futuro (das ações) da China e da Índia estão mais altas que nos Estados Unidos, mas nos níveis atuais eu não encorajaria quem nunca investiu na China ou na Índia a aplicar lá; espere uma correção. É mais barato atualmente fazer isso via multinacionais ocidentais.

Como o sr. acha que os investidores deveriam olhar para os mercados emergentes?

Mercados emergentes são um conjunto diverso de países. Por isso não faz muito sentido investir num índice amplo de mercados emergentes. O tamanho dos países é um dos fatores mais importantes (…). Se um país é capaz de criar demanda interna sustentável, tem melhor chance de ser resistente.

*Dominic Elliott é editor do Financial News, publicação da Dow Jones, editora do Wall Street Journal

18/07/2009 - 09:09h ”Brasil enfrenta bem a crise porque fez o dever de casa”

Para vice-presidente do Banco Mundial, alguns países da América Latina adotaram políticas adequadas

Fernando Dantas – O Estado de SP

A América Latina está resistindo melhor a esta crise do que resistiu às do passado porque se preparou adequadamente durante os anos que a precederam, segundo Pamela Cox, vice-presidente para a América Latina e o Caribe do Banco Mundial. O Brasil, para ela, “é um dos países que fizeram o dever de casa”, com sólida política fiscal, redução de pobreza e acúmulo de reservas.

Ela acha, entretanto, que a região é dependente do comércio mundial e, portanto, precisa da recuperação do mundo desenvolvido para manter um ritmo satisfatório de crescimento no médio e longo prazos. Pamela esteve no Brasil esta semana, onde participou, no Rio, na segunda-feira, de um seminário sobre investimentos públicos na sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Ela conversou com o Estado no Rio.

A economista elogiou o Bolsa-Família e a sua expansão em plena crise, o que dá aos pobres uma rede de segurança social. O Banco Mundial prevê que a crise levará ao aumento de 8 milhões a 13 milhões no número de pobres na América Latina e no Caribe, depois de uma queda de 60 milhões de 2002 a 2006.

A economista notou que, diferentemente do Leste Europeu, a América Latina não foi atingida pela crise por meio do setor financeiro, mas da economia real, afetada pela contração do comércio internacional e pela queda do preço das commodities. “A América Latina foi atingida não porque tenha aplicado as políticas econômicas erradas, mas por causa da abertura para o resto do mundo.”

Ela observou que, entre 2002 e 2006, a América Latina foi beneficiada com um crescimento médio de 5% ao ano e diversos países da região aproveitaram para implementar políticas econômicas adequadas, como superávits fiscais, redução da dívida pública e taxas de câmbio flexíveis.

Para Pamela, há, dentro da América Latina, diferenças entre o desempenho dos países na crise. Ela cita fatores como a dependência dos Estados Unidos em termos de comércio, muito forte no caso do México e de vários países centro-americanos, como um fator que aumentou o impacto da crise. Países como Venezuela e Equador, por outro lado, são muito dependentes das receitas do petróleo e prejudicados pela queda no seu preço.

Quanto ao fato de Venezuela, Equador e Argentina, por exemplo, terem executado políticas econômicas bem distintas de países como Brasil, Chile e Peru, ela é mais cautelosa. Evitando críticas específicas, diz apenas que os que “têm determinado tipo de política econômica – não têm dívida alta, não gastam mais do que podem e gastam sabiamente em investimentos de alto retorno – são os que crescem mais no longo prazo”.

13/07/2009 - 10:16h Participação do PIB do Brasil na AL deve crescer

http://www.forumdesalternatives.org/PG/images/articles/cumbre_america_latina.jpg

Conjuntura: Peso da economia do país na região aumentou 4,4 pontos percentuais entre os anos 2000 e 2008

Cibelle Bouças, de São Paulo – VALOR

Mesmo na crise, o Brasil segue a tendência verificada ao longo da década de aumento da participação sobre o Produto Interno Bruto (PIB) da América Latina, devendo encerrar a década com avanço de 5 pontos percentuais em sua participação na economia regional. Entre 2000 e 2008, o peso da economia brasileira na região cresceu 4,4 pontos percentuais, passando de 30,9% para 35,3%, conforme levantamento da Comissão Econômica para América Latina (Cepal).

Em 2009, segundo cálculo do BNP Paribas e do JP Morgan, a participação brasileira aumentará entre 0,6 e 0,7 ponto percentual e em 2010, terá incremento menor, de 0,1 a 0,3 ponto percentual. Vizinhos como Chile e Venezuela, que também ganharam importância na economia latino-americana, devem encerrar a década com avanços inferiores a dois pontos.

Em termos globais, a economia brasileira também deve apresentar resultados acima da média mundial, mas inferiores ao desempenho previsto para outros países emergentes. “As projeções para a economia brasileira são de queda no PIB de até 0,5%, que ainda é um desempenho positivo em comparação com outras economias. Esse resultado aumentará o peso relativo da economia brasileira na região”, avalia o representante da Cepal para América Latina, Renato Baumann. O organismo divulga na próxima semana as projeções de PIB para 2009.

Baumann ratifica as previsões já divulgadas por organismos como o Banco Mundial (Bird) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) de recuperação da economia global a partir do segundo semestre, mas em nível insuficiente para reverter a tendência de queda neste ano. O Bird projeta queda de 2,9% no PIB global em 2009 e expansão de 2% no próximo ano.

Para a América Latina, a previsão é de queda de 2,2% neste ano e alta de 2% no próximo. O Brasil, segundo o Bird, deve apresentar retração de 1,1% na economia em 2009 e expansão de 2,5% em 2010.

O BNP Paribas projeta para este ano queda de 1,2% no PIB brasileiro e de 2,7% na América Latina. “É uma das projeções mais pessimistas do mercado, porque o banco considera que haverá desaceleração do consumo no mercado interno por conta do aumento na taxa de desemprego. O banco também aposta em uma melhora na taxa de investimento e do setor de bens de capital apenas em 2010. Há quem espere uma recuperação já no quarto trimestre”, afirma o estrategista-chefe do BNP Paribas, Alexandre Lintz. Se for confirmado esse desempenho, o país encerrará o ano com 35,8% de participação no PIB regional, o que representa um avanço de 0,5 ponto percentual sobre a participação verificada no ano passado.

Para o Chile, que em 2008 representava 4,17% do PIB latino-americano, o banco prevê queda de 2% no PIB, levando a economia desse país a representar 4,17% da região. Para a Argentina, a previsão é de queda de 3,1% na economia e recuo na participação de 8,12% para 8,09%. O México terá a retração mais significativa da América Latina, com queda de 6,7% no PIB e redução da participação de 26,6% para 25,8%. “O ponto chave do desempenho econômico nos próximos trimestres será a recuperação da demanda doméstica. Países como o Chile e o México, cujas economias estão mais expostas, tendem a sofrer mais. Economias mais fechadas, como a brasileira, sofrerão menos”, afirma Lintz.

Outro diferencial apontado por Lintz que garantirá ao Brasil um desempenho acima da média é a capacidade do governo de estimular a economia. “A taxa de juros e os juros compulsórios são muito altos, as outras economias latino-americanas não têm tanta margem para baixar os juros e estimular o crescimento”, avalia. Outro ponto citado por ele é a possibilidade de o Brasil abrir mão de parte do superávit primário para investimento. No Chile, compara, o governo utilizou parte da poupança externa adquirida nos últimos anos com a expansão das exportações de commodities. “O Brasil fez a política anticíclica utilizando gastos correntes e não com fundo soberano, como foi feito no Chile.”

Para 2010, o BNP prevê expansão de 2,7% no PIB da América Latina, pouco acima dos 2,4% previstos para a economia global. O desempenho será puxado pelo crescimento do Brasil (3,5%), do Chile (3,2%), da Colômbia e do México (ambos com 3,1%). Argentina e Venezuela ainda registrarão quedas, de 1,5% e 2,7%, respectivamente.

Se tais estimativas forem confirmadas, a participação do Brasil no PIB da região chegará a 36,1% – avanço de 5,2 pontos percentuais na década. O Chile alcançará 4,24% de participação e também superará o nível de 2008 e o patamar do início da década, de 3,62%. O México ganhará peso na economia latino-americana, com participação de 26,07%, mas não recuperará o nível de 2008. Na década, perderá 4,47 pontos percentuais de participação no PIB regional. A Argentina ganhará participação, passando a representar 8,04% da economia da região (nível similar ao de 2008). Ainda assim, o país encerrará a década com perda de 5,6 pontos percentuais de participação.

O JP Morgan projeta para este ano queda de 1% do PIB brasileiro e de 2,9% na América Latina, com elevação da participação brasileira na economia da região para 35,9%. Para 2010, o banco projeta crescimento de 3,5% da economia brasileira e de 3,3% da economia latino-americana, elevando o peso do Brasil no PIB regional para 36,04%. Tanto o resultado brasileiro como o da região se manterão acima da média global. O JP Morgan prevê queda na economia global de 2,7% neste ano e incremento de 2,9% em 2010. “O resultado será superior à média global, mas inferior ao desempenho dos países emergentes, que devem crescer 5,2% no próximo ano, principalmente os países asiáticos”, estima o economista-chefe do JP Morgan, Fábio Akira.

Na sua avaliação, o fato de os preços internacionais das commodities haverem recuado menos do que se esperava durante a crise contribuiu para que o desempenho do Brasil e da América Latina se mantivesse acima da média mundial, já que a região é exportadora líquida de commodities.

Ainda de acordo com os cálculos do banco, a economia chilena registrará queda de 1,5% neste ano e crescimento de 3,2% em 2010, mantendo a mesma participação na economia da América Latina verificada no ano passado, de 4,2%. Na década, o ganho será de 0,58 ponto percentual. O México terá queda de 5,5% neste ano e expansão de 3,8% no próximo ano. A participação no PIB da América Latina ficará em 25,47%, abaixo dos 26,56% de 2008.

13/07/2009 - 09:11h País avança no investimento estrangeiro global

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Participação do Brasil saiu de 1,9% para 2,4% do total no 1.º trimestre, segundo a Unctad

Márcia De Chiara e Paulo Justus – O Estado SP

O Brasil ampliou sua participação no total de Investimento Estrangeiro Direto (IED) mundial. No primeiro trimestre, o País absorveu 2,4% do investimento externo, ante 1,9% em igual período de 2007, apontam os dados da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad, na sigla em inglês).

A maior participação brasileira entre os destinos de investimentos está relacionada a uma nova ordem mundial, em que há menor disposição para investir nos Estados Unidos, o epicentro da crise financeira, observa o economista do Itaú-Unibanco Darwin Dib.

“Daqui para a frente, vamos viver um período em que os Estados Unidos vão ter de aumentar a sua poupança interna, porque haverá menor disponibilidade de recursos para serem aplicados no país”, observa.

Segundo o economista, isso provoca um rearranjo nos fluxos de capitais no mundo. O investimento, antes destinado para a economia americana, vai para países emergentes. Entre esses destinos, Dib diz que o Brasil se diferencia por ter mercado consumidor forte, política macroeconômica sustentável e ainda uma grande presença das commodities que, continuam bastante demandadas em nível mundial.

“A grande fatia do consumo, antes concentrada nos Estados Unidos, migra agora para os países emergentes”, afirma.

Um estudo da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet) com base em dados da Unctad mostra que o Brasil se destaca na atração de investimentos estrangeiros pelo tamanho do mercado local e seu potencial de crescimento.

Nesses dois quesitos, sua pontuação está acima da média mundial. Em compensação, o País perde pontos nos quesitos alto custo de contratação da mão de obra e na falta de regulação para os investimentos. Além disso, os hábitos do consumo do brasileiro são ocidentais, o que dá mais segurança aos investidores dos países desenvolvidos para fazer grandes aportes de capital.

AQUISIÇÕES

Outro dado que reforça a tendência de avanço dos recursos externos no País é a sua presença nas aquisições de controle ou participação do capital da empresa presentes no País. Um levantamento feito pela PricewaterhouseCoopers, com base nas transações anunciadas, revela que a fatia do capital estrangeiro nos negócios aumentou neste ano. No primeiro semestre, o investimento estrangeiro teve participação de 39% dos negócios concluídos, ante 27% no fim do ano passado.

“No contexto de turbulência do fim do ano passado, a participação do capital estrangeiro diminuiu”, constata o sócio de Fusões e Aquisições da consultoria, Alexandre Pierantoni. Agora, com a perspectiva de recuperação da economia mundial e o fato de o Brasil ter se mostrado menos sensível à crise, os investimentos estrangeiros tendem a migrar para o País. Além disso, observa, há muitos setores que passam hoje por processo de consolidação.

13/07/2009 - 08:41h Investimento estrangeiro é o 2º maior da década

dinheirocorrendo.gifEnquanto o investimento geral da economia recua, aplicações de multinacionais no País já superam US$ 11 bi

Márcia De Chiara e Paulo Justus – O Estado SP

O grande potencial do mercado consumidor brasileiro virou alvo do Investimento Estrangeiro Direto (IED), enquanto o investimento total na economia do País encolhe. Entre janeiro e maio deste ano, os estrangeiros aplicaram aqui US$ 11,2 bilhões na ampliação da capacidade das fábricas, no comércio, na agricultura e nos serviços.

“É a segunda maior cifra de IED da década para o período”, afirma o presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Luís Afonso Lima. Ele destaca que os recursos equivalem ao volume total que entrou no País nos cinco primeiros meses de 1999, um ano de privatizações que atraiu grandes quantias de capital externo.

A perspectiva para 2009 é de que o IED atinja US$ 25 bilhões, no levantamento com o mercado financeiro feito pelo Banco Central (BC). Essa cifra deve ficar abaixo do recorde de US$ 45 bilhões alcançado em 2008. No entanto, se a projeção para 2009 se confirmar, o investimento estrangeiro deste ano será o sexto maior desde 1947, quando o BC iniciou a coleta de dados, e o quarto mais robusto desta década, apesar da crise.

O que se vê no mês a mês é uma forte reação nos investimentos estrangeiros. Em janeiro, por exemplo, a entrada de IED estava 60% abaixo da registrada no mesmo mês de 2008. Essa diferença caiu para menos de 20% no acumulado até maio. “Se esse ritmo continuar, o IED poderá superar US$ 25 bilhões este ano”, prevê Lima.

No início do ano, houve uma “parada tática” no investimento estrangeiro porque as multinacionais remeteram dinheiro às matrizes, que estavam em situação difícil por causa da crise global. Passada a fase mais aguda da crise, agora essas companhias retomaram os investimentos no País em busca do potencial do mercado brasileiro. “As multinacionais estão olhando para o longo prazo, já que as margens de rentabilidade estão cada vez mais apertadas nos mercados desenvolvidos.”

Animada com o potencial do mercado brasileiro, a coreana LG, por exemplo, começou a investir na produção de notebooks no País em meados do ano passado na fábrica de Taubaté (SP). Inicialmente, a produção era de 3 mil unidades no mês de junho, volume que saltou para 15 mil em dezembro. “Nossa previsão é fechar este ano com 200 mil notebooks fabricados. Isso vai colocar o mercado brasileiro como o segundo maior para a companhia no mundo, atrás apenas da Coreia do Sul”, diz o gerente de produtos de notebooks da empresa, Fernando Fraga.

Também a italiana Pirelli, fabricante de pneus, elegeu o Brasil como o principal destino de seus investimentos até 2011. A empresa vai aplicar US$ 200 milhões na ampliação da capacidade das três fábricas que tem no País e em pesquisa e desenvolvimento. “Até poucos anos atrás, as duas grandes economias da América Latina eram Brasil e México. Hoje é claro que o Brasil assumiu a liderança”, diz o presidente mundial da Pirelli Pneus, Francesco Gori.

Até mesmo entre as empresas mexicanas o Brasil virou um polo de atração de investimentos. Diante da forte ligação comercial com os EUA, o epicentro da crise, as companhias mexicanas estão direcionando investimentos para o País.

“Elas estão empolgadas porque os efeitos da crise no Brasil não se têm mostrado tão pesados quanto em outros países”, afirma Patricio Mendizábal, presidente da Associação Empresarial Mexicana no Brasil e da Mabe, fabricante mexicana de eletrodomésticos.

Neste mês, a Mabe comprou a operação brasileira da BSH Continental por US$ 35 milhões. Além desses recursos, a companhia vai investir aqui US$ 30 milhões em produtos e US$ 35 milhões nas fábricas.

24/06/2009 - 12:08h “O Brasil, mesmo em um mundo em declínio, terá expansão mais forte”

”Parou de piorar. Mas a crise não acabou”

Principal executivo do banco de investimentos americano diz que Brasil é um dos países em que a recuperação já começou

 

Leandro Modé – O Estado SP

 


http://johnbatchelorshow.com/images/lloyd_blankfein.jpgPela primeira vez em seus 140 anos de história, o banco de investimentos americano Goldman Sachs realizou no Brasil a reunião anual do Conselho de Administração. O encontro, realizado durante o último fim de semana em São Paulo, é prova real do aumento da importância dos países emergentes na economia global. “O Brasil, mesmo em um mundo em declínio, terá expansão mais forte. Por isso, em termos relativos, vamos crescer mais aqui”, diz o presidente-executivo e do Conselho de Administração do banco, Lloyd Blankfein, de 54 anos. Blankfein também falou sobre temas como aperto da regulação, causas da crise e futuro dos bancos de investimento – que muitos acreditavam estar fadados ao fracasso, depois da quebra do Lehman Brothers e da absorção do Bear Stearns e do Merrill Lynch por outras instituições.

O presidente dos EUA, Barack Obama, anunciou o que classificou de “maior reforma do sistema financeiro desde os anos 30″. O sr. acredita que mais regulação pode evitar crises como a atual?

Se há um acidente de avião, qual a primeira coisa que se faz? Os reguladores tentam entender o que houve e, a partir daí, implementam mudanças. Alteram, por exemplo, a maneira de fabricar as aeronaves. É por isso que é tão seguro viajar de avião. Mas isso significa que não haverá acidentes de avião nunca mais? É claro que não. Há determinadas situações, circunstâncias… É o mesmo aqui (no mercado financeiro). A ideia é fazermos o sistema melhorar e ser mais seguro, mas a perfeição está além da nossa capacidade.

O sr. vê risco de regulação excessiva?

Sempre há um ‘trade-off’ (troca) entre segurança e agilidade. Se você faz as coisas muito seguras, pode-se perder inovação. A experiência recente foi muito mais guiada pela falta de segurança do que pela falta de inovação. É um pêndulo. Claramente, estamos levando-o em direção à segurança. Se for bem feito, não perderemos em termos de inovação. Mas, se fizermos de maneira pobre, pode haver perda. O plano apresentado é muito sensível a esse assunto. Isso não quer dizer que será bem executado, até porque ainda não sabemos como será executado. De qualquer forma, o ponto de virada parece muito bom.

O que essas mudanças significam para o seu negócio?

Haverá alterações para todos os negócios, não apenas para o nosso. Haverá um regulador sistêmico, maior necessidade de transparência, mais regras afetando alavancagem, liquidez e a segurança dos produtos. Mas, francamente, tudo isso está no foco porque a experiência recente nos fez mais sensíveis a esses temas. Vivemos um momento que assustou a todos. Daqui para frente, seremos mais líquidos, menos alavancados, mais focados em tocar nosso negócio de forma mais prudente. Haverá mais transparência porque nossos clientes e as pessoas que nos financiam estão mais desconfiadas. Temos de responder a todos os nossos medos e preocupações – e os do público. A regulação está no topo.

Por que tudo isso aconteceu?

Havia muito capital no mundo, muito dinheiro em circulação. Não houve problemas por muito tempo e as pessoas ficaram complacentes e se alavancaram. As taxas de juros ficaram baixas no mundo por muito tempo. Um monte de capital foi acumulado por meio de ‘pools’, como fundos de investimento, fundos hedge (os mais arriscados do mercado), fundos de private equity (participação em empresas), etc. Esse capital foi investido ao redor do mundo. Quando as coisas ocorrem facilmente, as pessoas dão como certo (os retornos) e se tornam complacentes. Com isso, o mundo ficou menos disciplinado. Algumas práticas negligentes deram resultado durante um período e, quando aconteceu (a crise), tudo se deu muito rápida e violentamente. Muitas instituições não estavam preparadas. Por isso, não reagiram suficientemente rápido aos problemas e não protegeram os clientes.

Alguns críticos culpam os bancos centrais, em especial Alan Greenspan, ex-presidente do Fed (o BC dos EUA).

Não estou em posição de culpar ninguém. Olhando em retrospectiva, vejo muitas práticas que deveriam ser diferentes. Estou certo de que, com o benefício do tempo, Alan Greenspan teria feito as coisas de forma diferente, bem como os reguladores e o Congresso. Não acho justo avaliar as coisas depois que já aconteceram. Não se pode esquecer que tínhamos pressões deflacionistas há alguns anos. Acho que o ponto mais importante é: que lições aprenderemos para o futuro? Quais as verdadeiras lições a aprender e quais as falsas? Temos de estar seguros de que aprenderemos com as boas lições, não com as más.

O sr. acredita que as pessoas estão aprendendo as boas lições? Já há quem diga que a recente alta das bolsas, sobretudo em mercados emergentes, é uma bolha.

É possível, mas acho que bolhas só são identificadas depois que estouram. Quando Greenspan fez o discurso em que falava da exuberância irracional dos mercados, o Índice Dow Jones (o mais tradicional da Bolsa de Nova York) estava abaixo de 6.000 pontos. Não era um nível em que se identificava exuberância. Em uma onda de alta, é possível ver isso com mais clareza, mas, honestamente, não sei se é uma bolha ou não. Quando se olham os fundamentos do mundo, a situação de países emergentes como o Brasil, pode ser real. Pode ser cedo demais? Pode, mas pode estar certo também. Estou calmo porque as pessoas estão questionando se é ou não exuberância irracional. Alguns acham que sim, outros, não. Esse é o bom mercado. Quando todos vão para a mesma direção, fico com medo.

Qual a percepção do Goldman Sachs para a economia mundial e, em especial, para o Brasil?

Nas economias desenvolvidas, a situação estava tão ruim que uma recuperação era inevitável. A economia real está indo na direção correta, mas devagar. O melhor que se pode afirmar, neste momento, é que a taxa de declínio desacelerou e não que já chegamos ao final (da crise). O que já vemos é o fim da deterioração. Quando se acredita que parou de piorar, é possível projetar o ponto de virada. Acreditamos que esse ponto se dará no fim deste ano. A economia real está atrás do mercado porque os valores dos ativos estavam tão baixos que uma alta das cotações era inevitável. Isso porque, no início do ano, um dos cenários para 2009 era de uma total catástrofe. Esse está fora da mesa hoje. A economia real vai se recuperar lentamente. Provavelmente sentiremos os efeitos dessa virada no início do ano que vem. Os mercados normalmente antecipam esses movimentos. Com relação aos emergentes, tudo o que acontecer nos mercados desenvolvidos será potencializado. Ou seja, mesmo um um mercado ruim, os Brics sentirão menos. Quando houver a recuperação, esses países vão senti-la mais fortemente. Na nossa opinião, o Brasil já está se recuperando. O crescimento no ano poderá ser negativo – talvez 1% – por causa do primeiro trimestre muito ruim. Mas veremos crescimento positivo no País na segunda metade do ano.

É isso que explica sua visita?

Não há correlação. Queremos ajudar as pessoas que usam nossos serviços em um ambiente de perspectiva de crescimento. Se as pessoas estão procurando financiamento, estão investindo… É isso que fazemos. Se as pessoas estão deprimidas, não acreditam no crescimento, não fazem essas coisas. O que elas querem de nós? Querem nossos conselhos, nosso ponto de vista. Claramente, nossa expansão será maior em mercados que crescem mais. E o Brasil, mesmo em um mundo em declínio, terá expansão mais forte. Por isso vamos crescer nossos negócios aqui mais em termos relativos.

O Goldman Sachs devolveu US$ 10 bilhões que pegou do governo americano no Tarp (Programa de Recuperação de Ativos Problemáticos). Não foi cedo demais?

Não. O dinheiro do governo ajudou o sistema e nos ajudou também. Sinceramente, somos gratos por isso. Uma semana antes de o governo lançar o Tarp, levantamos dinheiro no mercado e com (o megainvestidor) Warren Buffett. Ou seja, procuramos cuidar de nosso capital àquela época. Depois, conseguimos capital adicional com o regulador. Mas éramos tão líquidos que não precisamos de mais. Elementos do programa foram importantes para o sistema em geral, mas nunca quisemos que se tornasse permanente.

Os bancos, entre eles o Goldman Sachs, ganharam muito dinheiro nos últimos anos. Como manter a alta lucratividade em um ambiente bem mais desafiador?

Faremos como nos últimos 140 anos. Nosso negócio não é fazer dinheiro, mas financiar pessoas, levantar capital, investir por elas, aconselhá-las… Em diferentes momentos, esse negócio é mais ou menos lucrativo. Temos ido bem nos diferentes ciclos. Estou há 27 anos neste negócio e os clientes precisam de nós. Na verdade, não sei se a hipótese de sua pergunta está correta. Não estou dizendo que você esteja errado, mas eu não sei se está certo. Minha opinião pessoal, com segurança, é que não tenho ideia. E admito isso. Não sei, mas, com base em minha experiência, sei também que ninguém sabe.

No pior momento da crise, o modelo de bancos de investimento foi dado como morto por alguns.

Não achei que essa análise estivesse certa naquele momento e continuo achando que não está. O que é esse modelo? Ajudamos empresas a levantar capital, fazemos fusões e aquisições, levantamos financiamento no mercado de dívidas, gerenciamos seu dinheiro… Qual dessas atividades está fora de moda? Qual delas não é um bom negócio hoje?

15/06/2009 - 11:01h Emergentes vivenciam novo boom. Será exuberância irracional ou sinais de crescimento forte?

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Ming Uong/The New York Times

Há sinais de uma retomada econômica global, com pouca ajuda da Europa e dos EUA

Por VIKAS BAJAJ e KEITH BRADSHER   newyorktimes_folha2.gif

Mumbai, Índia
Investidores em Londres e Nova York têm testemunhado primeiros sinais de uma tênue retomada, mas seus colegas nos países em desenvolvimento dizem estar assistindo a uma recuperação plena.
Após uma queda esmagadora, os mercados de ações nos países emergentes navegam numa onda de otimismo de que a recuperação da economia global seja iminente e estaria sendo liderada pelo mundo em desenvolvimento, especialmente a China. Embora os mercados emergentes ainda estejam muito abaixo dos picos que alcançaram há mais de um ano, os investidores estão novamente vendo suas chances de crescimento como melhores que as de EUA ou Europa.
O resultado disso é que o índice acionário Nifty, da Índia, deu um salto de mais de 60% nos últimos três meses. O índice acionário chinês CSI 300, de Xangai e Shenzehen, e a brasileira Bovespa tiveram alta de cerca de 35% cada durante o mesmo período. Comparada com isso, a alta de cerca de 25% do índice Standard & Poor’s 500 parece modesta.
“Houve uma corrida para a porta de saída no quarto trimestre”, disse Gonzalo Pangaro, gerente de portfólio no Fundo de Ações de Mercados Emergentes T. Rowe Price. “O mercado está começando a perceber que, embora esses mercados enfrentem problemas, os problemas são administráveis.”
A produção industrial vem se recuperando na China, e o mesmo ocorre com as vendas de carros na Índia e o varejo no Brasil.
Pode tudo isso ser exuberância irracional? As avaliações atuais são extremamente fortes: os preços das ações no Nifty indiano e na Bovespa estão cerca de 20 vezes maiores que os rendimentos. No CSI 300, os preços estão 29 vezes maiores que os rendimentos (os analistas se guiam pelo axioma de que ações de uma empresa vendidas por cerca de 15 vezes os rendimentos são corretamente precificadas).
A visão otimista é que esses índices preço/rendimento altos refletem o retorno do interesse pelo risco nos mercados, algo que normalmente acompanha uma perspectiva mais positiva, e a crença de que esses países estariam preparados para retomar um crescimento econômico forte.
A visão cética diz que as economias teriam de saltar para índices de crescimento de dois algarismos para justificar essas avaliações e que isso só pode indicar a formação de uma bolha.
Os mercados emergentes normalmente apresentam oscilações maiores que os países desenvolvidos. Cada uma das grandes economias em desenvolvimento -os países Bric, ou seja, Brasil, Rússia, Índia e China- enfrenta fraquezas que podem prejudicar sua recuperação.
Os fluxos de exportações e investimento estrangeiro, cruciais para muitos países em desenvolvimento, continuam anêmicos. Os gastos governamentais vêm tomando parte do lugar deles, mas os déficits fiscais crescentes em países como a Índia podem limitar o que os governos podem fazer para estimular suas economias.
Por enquanto, fala-se pouco em cautela. Na Índia, o mercado acionário subiu ainda mais quando o governo saiu vitorioso das eleições nacionais, no mês passado.
Madhabi Puri-Buch, executiva-chefe da Icici Securities, em Mumbai, disse que a Índia tem condições melhores que outros países de superar a crise porque o consumo interno continua a crescer. As vendas da maior montadora de automóveis do país, por exemplo, a Maruti Suzuki, cresceram mais de 10% em maio. “Os conselhos de direção da maioria das empresas estão dizendo que precisamos traçar planos de crescimento futuro, e não tanto que deveríamos estar nos preparando para um inverno prolongado”, disse ela.
Outros analistas afirmam que os fundamentos da economia indiana não melhoraram suficientemente para justificar o grande crescimento.
Na China, a produção industrial começou a se recuperar, e as importações de commodities vêm aumentando. Mas a recuperação se concentra em setores domésticos que se beneficiam do programa de estímulo do governo. As exportações ainda sofrem dificuldades.
“Prevemos que a atividade manufatureira continue a se ampliar nos próximos meses, auxiliada pelos estímulos oferecidos pelo governo”, disse Jing Ulrich, diretor do JPMorgan Chase na China.
Mercados emergentes da Ásia oriental também dão sinais de recuperação. A economia de Taiwan, por exemplo, encolheu 10,2% no primeiro trimestre em comparação com o mesmo período do ano passado, mas a aproximação com a China continental elevou a confiança dos investidores.
Bancos centrais em toda a região têm mantido os juros baixos, e alguns, como o das Filipinas, têm reduzido os índices para contrabalançar as exportações fracas.
A Indonésia esteve protegida contra a recessão global por seu grande mercado doméstico e sua dependência limitada das exportações. E o país está se beneficiando do aumento da demanda internacional por seus recursos naturais.
No Brasil, prejudicado pela queda nos preços de commodities, a produção industrial tem crescido a cada mês desde janeiro, embora ainda esteja muito mais baixa que no período correspondente de 2008.
Apesar da recessão, o mercado acionário brasileiro vem subindo. “Quando houve pânico, os investidores fugiram para os EUA para comprar títulos do Tesouro”, comentou Alessandra Ribeiro, economista da consultoria Tendências. “Agora estão diversificando outra vez. O Brasil é claramente um dos escolhidos.”

Vikas Bajaj reportou desde Mumbai, e Keith Bradsher desde Dongguan, China. Colaborou Andrew Downie, em São Paulo

11/06/2009 - 13:51h A atual política anticrise do governo Lula está dando certo e a recessão começa a passar


A recessão começa a passar no mundo

Alberto Tamer* – O Estado SP

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Já existe um consenso entre os economistas e instituições internacionais: a recessão deve terminar neste ano e a recuperação se iniciará em 2010. Mas será uma recuperação lenta e desigual, maior nos EUA e nos países emergentes e irrisória na Europa. Até mesmo um economista sempre severo em suas análises, como Paul Krugman, afirmou nesta semana que a recessão nos EUA deve terminar no segundo semestre. O crescimento do PIB deve fechar o ano em torno de 0%. Pouco interessa se for um pouco mais ou menos, o importante são os sinais de que a economia americana e grande parte da mundial deixou de afundar.Não se devem repetir PIBs de 6%. A confirmar-se isso, teremos passado por uma recessão profunda, mas curta. Ou, podemos dizer, uma recessão grande, mas não uma grande recessão.

BRASIL NA LINHA DE FRENTE

brasil_olho.jpgO resultado menos negativo do PIB no primeiro trimestre mostra que isso é ainda mais válido no Brasil. Previa-se uma retração de até 2% e foi de 0,8%. Tendo em vista a queda de 3,6% no último trimestre de 2008, é difícil ver algum crescimento significativo nos próximos meses, mas está claro que estamos saindo da recessão. Insisto, porém, em reafirmar que não há muita diferença entre recuar 1% ou crescer 1%; ambos resultados significam uma economia frágil,ainda exposta a crises externas, o que exige do governo intensificar a atual política anticrise, que está dando certo. É a ela que devemos esse desempenho menos negativo do PIB e à perspectiva de que estamos em condições de superar tudo ainda neste ano.

Vejam, somente as medidas de estímulo ao consumo estão injetando na economia cerca de R$ 100 bilhões neste ano. E, mais acertadamente ainda, o governo anuncia que estuda redução do imposto sobre salários para aumentar o poder de compra do consumidor.

NEM TUDO É MENOS MAU

minhacasa1.jpgO resultado do IBGE apresenta pontos altamente negativos, como a queda de 12,6% nos investimentos, a forte e resistente retração da produção industrial e o recuo das exportações. Isso certamente vai afetar o crescimento nos próximos meses.

Cabe ao governo insistir em três pontos básicos: intensificar as medidas de incentivo ao consumo, pôr em pratica uma política de comércio exterior por meio de impostos sobre a produção e incentivos diretos às exportações; e, finalmente, continuar estimulando o setor de construção civil, grande gerador de demanda de emprego. Cumpre, assim, a meta social, de oferecer casa à população, e econômica, de reativar o crescimento. Felizmente, já vem fazendo uma boa parte disso.

DÁ PARA CONFIAR NELES?

dinheirocorrendo.gifMas, de qualquer forma, continuamos na dependência do que vier a acontecer lá fora. Será que as economias desenvolvidas e outras emergentes, que representam a maior parte do PIB mundial, não vão desandar novamente, impedindo que voltemos a crescer?

Pode ser, mas, pelo menos no momento não parece muito provável, principalmente em países que têm hoje um papel decisivo na recuperação mundial, como os EUA e a China.

E o que estamos vendo? Nos EUA, dez grandes bancos devolveram ao Tesouro US$ 68 bilhões recebidos em momento de extrema urgência. E insinuam que é só o começo. Levantaram recursos no mercado, até mesmo vendendo ativos, para livrar-se da fiscalização direta e da intervenção do governo em suas atividades e decisões. Mas o Tesouro mostrou que continua vigilante: só aceitou o pagamento depois de analisar as contas e ver se não iria enfraquecê-los, expondo-os a novos problemas. Não quer que comece tudo de novo… Assim, até ontem recusavam receber devoluções de grandes bancos. Entre estes, o Citi e o Bank of American, que pretendia repagar US$ 90 bilhões. O fato de o sistema financeiro começar a buscar soluções de mercado é um indício de mudança em relação ao pânico de há alguns meses.

OBAMA CAUTELOSO

obama_caricatura.gifO presidente americano, a cuja política anticrise devemos tudo isso, mostrou-se cauteloso diante desses fatos. “Não é sinal de que nossos problemas passaram. Muito longe disso. A crise que esta administração herdou ainda está criando efeitos dolorosos nas empresas e nas famílias. Mas é um sinal positivo.”

Foi esse também o tom do seu secretário do Tesouro, para quem há ainda um longo e difícil caminho pela frente. Haverá avanços e recuos, mas o caminho de saída está sendo aberto.

VEJAM OS NÚMEROS!

A coluna concorda, e aproveita para responder a leitores que nos criticam por estarmos sendo otimistas demais. Não. Estamos apenas confrontando situações de há algumas semanas com a atual e registrando os sinais não para o futuro distante, mas para os próximos meses, a curto prazo. Para mim, isso é realismo, é não se deixar impressionar e influenciar por fatores altamente negativos do passado, desde que eles não estejam se repetindo no presente. Bastam duas estatística do IBGE: o PIB do último trimestre de 2008 despencou catastróficos 3,6% e no primeiro trimestre deste ano apenas 0,8%. Será que isso não significa nada? Não é sinal de recuperação? Não há como negar.

No cenário externo, a economia americana recua menos e a da China – o grande mercado – não deverá crescer neste ano apenas 5%, como o governo previa, mas 7,5%, pela estimativa oficial divulgada ontem. Estão injetando trilhões na economia. Ambos são nossos mercados preferenciais e projetam um cenário de relativa esperança.

Só resta a Europa, o “Continente Perdido”, onde o BC recusa-se a baixar o juro mesmo com inflação 0. Mas isso não afetará nosso crescimento. Ele vai depender ainda por algum tempo do mercado interno, que hoje representa 60% do PIB. Ele vai bem. E o governo tem ainda espaço para continuar intensificando a política anticíclica de incentivo ao consumo.

*E-mail: at@attglobal.net

09/06/2009 - 09:20h Cenário global: Para analista, país vai crescer mais que média do mundo


Tamanho do governo tira PIB do Brasil, diz Rogoff

Ana Paula Paiva/Valor

Kenneth Rogoff: “Se você olha o que ocorreu com o Brasil na crise, vê que houve apenas uma recessão normal”

 

Sergio Lamucci, de São Paulo – VALOR

Pessimista em relação ao desempenho dos EUA nos próximos anos e cético quanto à capacidade da China de crescer a taxas tão robustas quanto no passado recente, o economista Kenneth Rogofff mostra otimismo ao falar sobre a economia brasileira. Para o ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), o Brasil, ao lado de emergentes como a Índia, deve ter um crescimento superior ao da economia global na próxima década. Rogoff acredita que o Brasil pode voltar a crescer a um ritmo de 5% nos próximos anos, quando o mundo tiver saído do período “doloroso” em que se encontra.

Professor da Universidade de Harvard, Rogoff destaca o fato de o Brasil ter resistido bem a uma crise violentíssima. “Se você olha o que ocorreu com o Brasil, vê que houve apenas uma recessão normal, e está saindo dela normalmente. Isso é fantástico.” Ao destacar os pontos positivos do país, Rogoff aponta o fortalecimento das instituições e a melhora gradual do ambiente de negócios.

A vasta extensão de terras aráveis e os recursos naturais abundantes também são trunfos importantes num cenário em que os países da Ásia – grandes consumidores de commodities – continuarão a crescer. “Há muitas oportunidades. Não me parece exagero dizer que o Brasil pode crescer acima da média global nos próximos anos”, afirma ele. “Se vocês estivessem fazendo tudo certo, poderiam crescer até 10%.”

O maior problema do país, segundo Rogoff, é o aumento do tamanho do governo, que ocorre há muitos anos sem ter como contrapartida uma melhora dos serviços oferecidos pelo Estado. No entanto, é algo que não representa o risco de uma crise imediata, diz ele. Trata-se de um problema com implicações mais significativas no longo prazo. A infraestrutura continua bastante deficiente, a despeito do forte aumento dos gastos públicos ao longo dos últimos anos.

Rogoff diz ainda que o Brasil pode receber um volume crescente de capitais externos. “À medida que a confiança aumentar, é mais provável que o fluxo de recursos externos volte a crescer” , afirma ele, acrescentando que os investidores tendem a buscar retornos maiores, como os oferecidos pelo Brasil, um país que enfrentou a crise e não entrou em colapso.

E há como prever o que deve ocorrer com o câmbio, depois da recente onda de valorização de moedas em relação ao dólar? “O câmbio é algo muito difícil de projetar, mas o real não parece estar num valor maluco no momento”, responde Rogoff, embora reconheça que a taxa atual pode prejudicar alguns setores exportadores. Cauteloso, Rogoff também aponta fatores que podem levar a uma depreciação da taxa num cenário global extremamente volátil, como uma queda abruta dos preços de commodities ou uma forte desaceleração da China.

Rogoff considera possível que os juros no Brasil continuem em trajetória de queda nos próximos cinco anos. “Eu já li muitos ‘papers’ e estudos sobre as causas dos juros altos no Brasil, mas nunca vi uma resposta clara a essa questão. Provavelmente isso está ligado ao legado de tremenda instabilidade financeira desconfiança do público no governo, ao histórico de calotes, à hiperinflação”, diz o economista, que elogia a condução da política monetária pelo Banco Central (BC) brasileiro.

Ao falar dos EUA e da China, Rogoff exibe uma visão bem menos rósea. Ele é pessimista quanto às perspectivas de crescimento nos próximos anos dos EUA e, em certa medida, também da China. As duas principais locomotivas da economia global nos cinco anos que antecederam a eclosão da crise deverão crescer a um ritmo bem mais fraco que nos próximos cinco. Para ele, os EUA terão tempos difíceis pela frente. “Os preços de imóveis deverão ficar baixos por uma década, o desemprego ainda está em alta e o sistema financeiro não será o mesmo de antes da crise”, diz ele, enumerando fatores que afetam as perspectivas para o consumo, por anos o grande motor do PIB americano. Além disso, com os crescentes déficits fiscais e agenda do presidente Barack Obama, com preocupações com o sistema de saúde, o ambiente e a desigualdade de renda, será necessário aumentar impostos em algum momento, para financiar um Estado maior. “São questões importantes para serem abordadas, mas isso vai resultar em mais impostos e mais regulação, o que deve levar a menos crescimento e a lucros menores das empresas.”

Rogoff diz que a China, por sua vez, teria de reduzir o ritmo de crescimento mesmo sem a crise. “Há problemas como a poluição e o país estava ficando grande demais. Não é possível exportar tanto. Além disso, o consumidor americano não vai vai comprar tanto quanto no passado, e isso será um grande ajuste para a China”, diz ele, que falou ontem a um grupo de jornalistas pela manhã. À tarde fez uma palestra a líderes políticos de oposição – o economista esteve em São Paulo a convite da Fundação Liberdade e Cidadania, ligada ao DEM.

08/06/2009 - 11:12h ”Butiques de planejamento” buscam mudança de conceitos

Pequenos escritórios focados em inovação ganham espaço na área de marketing das empresas

 

Marili Ribeiro – O Estado SP

 


Para entender um tipo de prestação de serviço que ganha espaço na área de marketing das empresas – oferecido por espécies de “butiques de planejamento”, contratadas por projeto -, é preciso aceitar que cresce a necessidade de novas ideias sob medida para fazer as mensagens publicitárias chegarem ao consumidor. É uma situação provocada principalmente pelo excesso de informações e conteúdos da era digital.

Se, por um lado, as estruturas conhecidas das agências de propaganda tendem a oferecer pacotes que envolvam os anunciantes em várias atividades de suas redes de serviços, por outro, os pequenos escritórios focados em inovação, com operação enxuta, abrem espaço propondo ações exclusivas.

“Há bem pouco tempo, tudo era diferente no mundo das marcas. O ritmo era mais lento na vida do consumidor e ele era apenas um receptor de mensagens. Trabalhar com marcas era mais simples: a gente estudava o ?target?, entendia quais necessidades poderia preencher e criava uma estratégia de posicionamento, benefícios e valores que iria durar por um período e dar origem a uma campanha publicitária nos meios tradicionais”, diz a publicitária Mariane Maciel, da equipe da agência CO.R, criada nesses novos padrões pela profissional da área de planejamento Rita Almeida.

A CO.R não faz anúncios, eventos ou qualquer outra peça de comunicação tradicional. Desenvolve propostas a partir do cruzamento de informações levantadas em pesquisas e estudos do universo do cliente, sugerindo um caminho inovador.

A trilha escolhida por Rita para vender seu trabalho não difere da opção apresentada ao mercado por outras duas planejadoras com mais de 20 anos de estrada, Denise Bayeux e Cecília Novaes. Ao começarem a empresa Arte da Marca, resolveram oferecer projetos personalizados de pesquisa e arquitetura de marca. “Percebemos que havia demanda para interpretar o negócio do cliente e achar necessidades que pudessem inspirar suas campanhas de comunicação com o mercado”, diz Cecília.

Um exemplo que ela gosta de contar sobre a atividade de planejamento, que ganhou relevância dentro das agências há pouco mais de dez anos, é o trabalho do qual participou para tornar a marca de amaciante de roupas Mon Bijoux uma concorrente efetiva da líder Comfort.

“As pesquisas indicavam que os atributos de produto eram iguais entre ambos, mas o Comfort oferecia uma promessa de maciez que impregnou o inconsciente do consumidor”, lembra Cecília. “Durante o processo de avaliação, levantamos que o perfume era um canal inexplorado na categoria. Partimos então para uma campanha cujo jingle pegou: me aperta, me cheira, me chama de Mon Bijoux. A disputa das marcas se equilibrou, o que parecia impossível.”

Com o consumidor sendo bombardeado por propostas em diferentes meios e que se renovam em um ritmo acelerado, surgiu uma nova demanda para os profissionais que se dedicam à gestão de marcas. “É preciso construir uma estratégia, mas logo em seguida atualizá-la, reformá-la e, às vezes, desconstruí-la para inovar em seguida. Para falar a verdade, todo mundo ainda está aprendendo a operar assim”, diz Mariane, da CO.R.

A dona da empresa Rita, que passou por agências renomadas como AlmapBBDO, Loducca e Talent, enxergou a oportunidade de negócio e, em dois anos de existência, a CO.R já realizou 60 projetos. “A proposta é partir do zero para poder renovar os conceitos existentes e a forma com que a empresa se relacionar com os seus consumidores”, diz Rita.

Foi assim que surgiram projetos como, por exemplo, achar a melhor forma de processar a transição da marca de telefonia BrT para a Oi, nas regiões Sul e Centro-Oeste. Depois de dois meses viajando pelas áreas onde a mudança de marca se daria, a CO.R levantou os valores que precisariam ser mantidos, assim como detectou as cinco cidades que, pela forte influência que exercem, poderiam abrir as portas de toda a região para a marca Oi, que comprou a BrT.

FRASES

Rita Almeida
Dona da CO.R

“A proposta é partir do zero para poder renovar os conceitos existentes e a forma com que a empresa se relaciona com seus consumidores”

Cecília Almeida
Sócia da Arte da Marca

“Percebemos que havia demanda para interpretar o negócio do cliente e achar necessidades que pudessem inspirar suas campanhas de comunicação”