Expansão dos recursos é amparada no aumento do poder aquisitivo da baixa renda, público-alvo de quem toma esse tipo de empréstimo
Paula Pacheco – O Estado de S.Paulo
Os bancos nunca ofereceram tanto dinheiro para os interessados no microcrédito, voltado à baixa renda, como agora. Em abril, segundo o dado mais recente do Banco Central, o volume de recursos ofertados chegou a R$ 1,6 bilhão.
Segundo regulamentação do BC, os bancos têm de destinar 2% dos depósitos à vista para o microcrédito ou mantê-los “congelados”, sem uso. Em abril, desse montante, ou R$ 2,7 bilhões, as instituições financeiras emprestaram 62% – um recorde. Um ano antes, em abril de 2009, a oferta foi de 56%.
Por mês, são assinados cerca de 100 mil contratos de microcrédito no Brasil e o valor médio dos empréstimos é de R$ 1,3 mil.
O microcrédito não pode ser usado para tapar buracos nas finanças, mas no investimento em algum tipo de negócio. O brasileiro tem cada vez mais recorrido a esses recursos de olho na possibilidade de ser dono do próprio negócio e não depender do humor do mercado de trabalho. Uma das motivações é o crescimento do poder aquisitivo da baixa renda – público-alvo dos pequenos negócios que se proliferam pelas periferias das cidades.
Para a comerciante baiana Maria da Conceição Santos Silva, o principal problema está na inadimplência dos clientes. Também afetada pelo desemprego, Conceição começou a vender bijuterias e brinquedos num ponto improvisado ao lado da sua casa, no bairro do Lobato, em Salvador. Em conversa com vizinhos, soube que um banco emprestava dinheiro a juros baixos. Foi a uma das agências do Banco do Nordeste, se informou sobre os requisitos e assinou o primeiro contrato no valor de R$ 300.
Hoje, 9 anos depois, Conceição paga um empréstimo de R$ 10 mil e o negócio ganhou ares de loja. No armarinho Duas Irmãs, com balcões e prateleiras, ela vende de bijuterias a partir de R$ 2 a roupas de cama de R$ 150.
Conceição não quer saber de despesas para manter máquinas de cartão de crédito, por isso vende à vista, na base da caderneta e ainda com nota promissória. “Como tem gente caloteira”, reclama, em tom de ironia. Quando não consegue receber, o caminho é o juizado de pequenas causas. “Descobri minha vocação. Fico doida para pagar logo o empréstimo e poder pegar mais para investir na minha loja”, conta.
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Modalidade serve de escape para deixar a pobreza
O microcrédito é uma modalidade de empréstimo de valores baixos para a baixa renda. Por exemplo, aos desempregados, aos micro e pequenos empresários ou a pessoas que estejam vivendo em uma situação de pobreza e precisem de um “empurrão” para melhorar de vida. É o tipo de recurso usado por aqueles que normalmente não teriam acesso aos bancos, seja por viverem na informalidade ou porque não têm um perfil de renda ou patrimonial que atraia o mercado financeiro. O microcrédito, criado por Muhammad Yunus na década de 1970, é considerado pelos especialistas como uma espécie de passaporte para quem quer sair da miséria ou da pobreza. No Brasil, ele tem um perfil mais comercial, apesar da limitação para a taxa de juros.
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Empresas vão ao morro em busca de renda
Alexandre Rodrigues e Glauber Gonçalves / RIO – O Estado de S.Paulo
A chegada de obras de infraestrutura e de ocupações policiais está abrindo caminho para os negócios nas favelas do Rio. Empresas que até pouco tempo limitavam sua expansão ao asfalto estão subindo morros, alguns ainda sob o domínio de traficantes, de olho no crescimento da renda e na explosão de consumo que a base da pirâmide social do Brasil experimenta.
Censo realizado pelo governo fluminense em 2009 nas quatro favelas que são alvo das obras de urbanização do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no Rio mostrou que as empresas não são atraídas por caridade. Há nessas áreas um mercado pouco explorado e ávido por consumo.
No Alemão e na Rocinha, as duas maiores favelas da cidade, a renda mensal média de cada morador gira em torno de R$ 370 e a de cada domicílio ultrapassa R$ 700. Nas duas, cerca de 40% dos que declararam renda ganham entre meio e três salários mínimos.
Expansão. Recentemente, o Banco Santander abriu uma agência no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, cujas 12 favelas reúnem mais de 85 mil pessoas. Na zona sul, a Rocinha já conta três agências bancárias: Itaú, Bradesco e Caixa Econômica Federal. Os 75 mil moradores não precisam sair da comunidade para frequentar redes de fast food como Bob”s e Super Mate, que têm filiais lá.
Em várias comunidades, empresas como Natura, Vai Voando e Nestlé experimentam redes de venda domiciliar. No Alemão, uma loja da TIM é uma das recordistas de vendas de celular da cidade, à frente de unidades de shoppings.
O trabalho da Prefeitura mostra que essas comunidades já têm uma economia em funcionamento. O censo contou mais de 5 mil empreendimentos nas duas favelas. No entanto, mais de 90% deles são informais. No Alemão, 37,1% dos pequenos negócios são tocados nas próprias residências dos moradores. Quase 90% dos entrevistados recebe dos clientes à vista e 70% pagam da mesma forma aos fornecedores. E em 33% dos casos o capital inicial veio de poupança.
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Líderes comunitários evitam conflito entre capital e bandidos
Para ONGs e associações de moradores, a violência não deve ser motivo para retardar a presença das empresas nos morros
A chegada da economia formal aos morros ainda é uma operação muito delicada, que envolve a conquista da comunidade e o suporte de associações de moradores e organizações como o Grupo Cultural AfroReggae para não melindrar as quadrilhas, que ditam as regras em muitas áreas.
Para José Júnior, líder do AfroReggae, a entrada do Estado e do mercado nas favelas não pode esperar pela erradicação do crime. Ao contrário, é parte da solução. “As melhorias estão chegando e os bandidos sabem que não podem lutar contra o progresso.” Foi Júnior quem convenceu a direção do Santander, um dos patrocinadores do AfroReggae, a abrir a agência na favela considerada a mais armada do Rio. Fica no prédio do núcleo de projetos sociais da ONG na Grota, onde os funcionários ouviram orientações sobre como se relacionar com a comunidade.
“Eles não queriam colocar porta giratória, mas fomos a favor. Talvez um banco dentro da favela tenha até menos vulnerabilidade do que fora, mas é preciso tratar a comunidade como qualquer outro lugar da cidade”, conta Júnior, que gosta de levar empresários como André Skaf, Ivan Zurita e Nizan Guanaes para circular em favelas para desmistificá-las e atrair empresas. Uma rede de restaurantes já está prestes a capitular diante de seus argumentos.
Polícia. Paralelamente aos avanços das obras do PAC nas grandes favelas, onde o tráfico ainda governa, o governo fluminense já ocupa permanentemente dez comunidades com as chamadas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Ainda é pouco no universo de uma centena de áreas violentas da capital, mas a experiência já mostrou que segurança é um fator decisivo para o ambiente de negócios.
Na Cidade de Deus, na zona oeste, a ocupação da polícia abriu caminho para a formalização dos negócios locais. Com um posto na comunidade, o Sebrae-RJ já ajudou a emitir 80 alvarás e outros 150 estão a caminho, mas já identificou mais de 3 mil casos que se encaixam na Lei do Empreendedor Individual.
O censo estadual mostrou que no Alemão, por exemplo, quase 30% dos empreendedores informaram não ter buscado a formalização por falta de acesso a capital.
Para colocar mais um elemento nessa engrenagem econômica, a agência de fomento Investe Rio iniciará no segundo semestre um programa de microcrédito em Manguinhos. O piloto, com cerca de R$ 2 milhões para empréstimos de até R$ 20 mil, com 15 meses para pagar, poderá ser levado a outras favelas com intervenções do PAC ou das UPPs.
Para o vice-governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, responsável pelas obras de urbanização das favelas, a geração de renda é uma demanda das comunidades para superar o tráfico de drogas. “Com a pacificação chegando a outras favelas, os negócios vão crescer cada vez mais”, acredita. / A.R. e G.G.
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Jeito de administrar de Tuninho serve de inspiração para a TIM
Seu perfil comercial chamou a atenção da operadora de telefonia e rendeu ao empresário a abertura de mais lojas
Quando um funcionário da telefônica TIM ofereceu uma consultoria para que José Antonio Braz, de 49 anos, transformasse sua pequena loja de celulares no Complexo do Alemão em uma revenda autorizada, o comerciante quase não acreditou. Mas já naquele ano de 2007, a loja dele ganhou letreiros e vitrines com a marca da telefônica e turbinou as vendas.
O sucesso chamou a atenção da TIM, que resolveu levar o estilo dele para outras lojas. A loja de Tuninho, como é conhecido na comunidade da Grota, virou referência da rua Joaquim Queiroz, endereço de dezenas de empreendimentos, do comércio de vestuário às revendas de rações.
Na via, onde a decoração em verde e amarelo para a Copa ameniza a profusão de entulhos da demolição de casas para as obras de urbanização, uma ótica anuncia exames de visão grátis no alto-falante: “É neste domingo, ao lado da loja do Tuninho”.
Empregos. Como franqueada da TIM, a loja de Tuninho deu certo. Emprega quatro funcionários e tem três aprendizes, todos da comunidade. E ainda conta com a ajuda da mulher e de uma das três filhas do comerciante para dar conta do movimento intenso.
Além de vender celulares, telefones fixos e placas de acesso à internet, a loja também oferece assistência técnica. Toninho mostra orgulhoso uma pilha de notas fiscais de mercadorias de até R$ 10 mil.
Reconhecimento. Os bons resultados renderam prêmios ao empreendedor. “Fiz viagens para Manaus e Búzios (RJ) e um cruzeiro pelo litoral paulista”, conta. Mas os que ele mais valoriza são os outros pontos que lhe foram concedidas pela TIM, interessada em reproduzir os sucessivos recordes de vendas. Hoje, ele tem uma loja no bairro de São Cristóvão e se prepara para inaugurar mais duas em shoppings da capital e de Nilópolis, na Baixada Fluminense.
Tuninho, que nasceu no Alemão “quando tudo ainda era mato” e tem o ensino médio completo, não pretende mudar a base da empresa para uma das lojas fora da favela.
“Não tem shopping que desbanque essa loja. É o meu xodó”, diz ao mostrar uma das salas especialmente preparada para receber os amigos para uma visita. Na comunidade, onde quase todo mundo já tem celular, o produto mais vendido hoje é um telefone fixo que funciona com cartão pré-pago.
“Todo mundo quer ter um telefone convencional. Se você vai fazer um empréstimo, eles pedem um número fixo. E as pessoas podem comprar esse modelo mesmo com o nome sujo”, explica.
Também é muito procurado um celular gratuito atrelado a uma plano de R$ 30 por mês, que dá aos consumidores um comprovante de residência.
As tecnologias modernas disponíveis na loja como telefones VoIP, que permitem chamadas pela internet a baixo custo, contrastam com o velho caderninho de fiado. “As pessoas dão a metade do valor da compra e depois vão pagando o resto. Aqui, na comunidade, todo mundo paga”, conta Tuninho. Ele mostra os sinais no caderno que comprovam que as dívidas são honradas. Agora, o dinheiro pago vai chegar mais rápido à conta bancária da empresa dele.
Tuninho é o primeiro cliente pessoa jurídica da agência do Santander. / G.G.
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Ex-desempregado, Sergio virou dono de loja de bolos
Ao lado da mulher Ana, ele começou a vender a produção na calçada. Com o empréstimo, pôde expandir os negócios
No distrito de Perus, na Zona Norte de São Paulo, Sergio Luís Rodrigues Barbosa e a mulher Ana Conceição Lopes vivem da venda de bolos recheados. O casal tem um carrinho de rua e uma loja. Mas não foi sempre assim. Ex-metalúrgico, Sergio ficou desempregado e não conseguia mais uma recolocação no mercado de trabalho. Para ter algum dinheiro e sustentar a família, fazia bicos.
A situação precária preocupava Barbosa e Ana. Foi quando tiveram a ideia de aproveitar a “boa mão” de Ana na cozinha fazer bolos. Primeiro venderam os produtos, feitos em casa, numa banquinha improvisada instalada no centro de Perus. Depois viram num panfleto que poderiam pegar um empréstimo no programa São Paulo Confia, da prefeitura de São Paulo.
O primeiro empréstimo foi de cerca de R$ 400 e serviu para comprar matéria-prima e um carrinho com vitrine para vender os produtos. Há um ano, o casal abriu a loja Ana Bolos, especializada em bolos para festas. A cozinha é equipada com batedeiras e fornos industriais, tudo comprado com empréstimos do São Paulo Confia. O trabalho é dividido entre o casal e a nora. O quilo do produto sai por R$ 15, em média, e são confeitados cerca de 15 bolos por final de semana, fora os vendidos até hoje por Barbosa no carrinho. A renda mensal do casal é de R$ 2 mil, em média.
A maior dificuldade, segundo o microempresário, é ter a confiança do cliente. “As pessoas costumam ter receio de experimentar quando se trata de um produto alimentício”, explica.
Como funciona. Os programas de microcrédito costumam exigir a formação de grupos de tomadores de recursos, os chamados devedores solidários, que se responsabilizam pelos colegas. Assim que faz o pedido, o tomador do crédito recebe a visita de um agente da instituição que fará uma longa entrevista sobre os planos para os recursos. O propósito é fazer um levantamento sócio-econômico. Alguns bancos também orientam o cliente sobre o uso do dinheiro.
Para os bancos, montar uma estrutura de atendimento para este tipo de financiamento pode não ser tarefa fácil, por isso alguns têm optado por terceirizar a administração desses recursos.
O maior beneficiado com esse movimento é o Bando do Nordeste (BNB), que tem atendido a demanda dos concorrentes e hoje é responsável por 65% do microcrédito mapeado no Brasil, segundo Marcelo Azevedo, executivo da área na instituição.
A carteira de clientes do microcrédito do BNB tem crescido a uma taxa anual de 30% e o volume emprestado aumentou 40% do ano passado para cá. Em março, o desembolso foi de R$ 164,8 milhões e a inadimplência chegou a 1,13%.
Azevedo explica o motivo do crescimento: “A crise afetou mais as atividades formais e estruturadas. Já a economia real, da baixa renda, continuou no mesmo nível de consumo.” / P.P.