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A depender das estimativas oficiais e dos analistas independentes, o tombo da safra 2008/2009 não será tão grande quanto se esperava há apenas um mês. É mais um elemento que parece mostrar que as condições da economia brasileira não estão tão ruins como pareciam há dois meses.
Terça-feira, tanto o IBGE como a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) reviram suas expectativas de produção para cima. Passaram de uma queda de 7,3%, estimada em março, para 6,5%, no caso do IBGE, e de 6,1% para 4,5%, nos números da Conab.
Isso parece indicar que a economia do interior deve se recuperar mais rapidamente do que se esperava, o que também deverá reanimar tantas administrações municipais afundadas na redução da arrecadação.
Para o analista de mercado da Agroconsult, Marcos Rubin, o pico das projeções mais pessimistas se deu nos primeiros dois meses do ano porque havia muita incerteza sobre os efeitos da forte estiagem que atingiu as plantações em novembro e dezembro passados, principalmente na Região Sul do País. Calculadas as perdas das safras de verão, o produtor pode ter visto nas culturas de inverno (milho e trigo) uma oportunidade de recuperação.
No caso do milho, que possui importante ciclo de inverno, a soma de preços melhores e de uma redução nos custos incentivou os produtores a aumentar a área de plantio, mas que, ainda assim, é inferior à registrada na safra passada. “O cenário geral, em comparação ao que se viu no início deste ano, está melhor”, diz Rubin.
E há outro fator positivo: os custos médios de produção, que, no caso da soja cultivada na região de Mato Grosso, tiveram um aumento de 82% na safra 2008/2009 em relação à anterior, já começam a cair.
O analista da Agroconsult calcula que, para a próxima safra, a redução do custo médio dos fertilizantes para a soja será de 13% e a do custo total de produção, de 8%. O milho, cujo aumento médio nos custos de produção nesta safra foi de 25%, terá queda de 11% na próxima.
Os dados da Associação Nacional para a Difusão de Adubos (Anda) mostram que a relação de troca do milho (quantidade de sacas de 60 quilos do produto necessária para a compra de uma tonelada de fertilizante) caiu de 51,0 em 2008 para 47,7 no primeiro bimestre deste ano, e a da soja, de 26,3 para 24,6.
O analista Pedro Collussi, da AgraFNP, aponta outros motivos para o otimismo: “Em março, os produtores, influenciados por um relatório mais otimista de estimativa de produção de milho nos Estados Unidos, resolveram plantar de última hora.” A estimativa da redução de área cultivada, que era de 18%, passou a 9,5%.
Em relação ao trigo, cujo plantio se inicia agora, poucas mudanças devem ocorrer. Rubin explica que, por se tratar de uma cultura de rotação, sua decisão de plantio é técnica, também por causa da antecipação dos contratos de venda. “Mesmo com a quebra de produção na Argentina, os preços não mudaram aqui. Pode ser que, no período de colheita, que deve ocorrer no terceiro trimestre, eles estejam mais altos.”
Apesar da queda desta safra, ela ainda deverá ser a segunda maior da história, perdendo apenas para a 2007/2008, que somou 144,1 milhões de toneladas.
COLABOROU NÍVEA TERUMI
Confira
Melhora – Ainda é cedo para afirmar que a crise já passou. Mas esta já é uma boa aposta, com base em alguns indícios. Aqui vão três:
As vendas de produtos que não dependem de crédito parecem bem melhores. Os supermercados, por exemplo, faturaram 1,7% a mais nos dois últimos meses. E o consumo físico de energia elétrica cresceu 3,3% no mesmo período.
E, anteontem, a Associação Brasileira de Papelão Ondulado comunicou que as vendas do produto, muito usado em embalagens, cresceram 16,4% em março, quando comparadas com os números de fevereiro.
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Patrick Brock, The Wall Street Journal, de Nova York – VALOR
Numa reunião na Câmara de Comércio de Nova York, em 2 de novembro de 1863, o pastor James Cooley Fletcher se desdobrou para convencer os empresários locais sobre a importância de estreitar os laços com o Brasil, segundo registro de um jornal da época. Acompanhado dos diplomatas brasileiros Joaquim de Azambuja e Luis Fleury, que traziam uma elogiosa carta da Câmara de Comércio do Rio de Janeiro, Fletcher, um entusiasmado brasilianista, celebrava o início da primeira rota direta de vapores entre as duas principais cidades das jovens nações, Rio de Janeiro e Nova York.
Da pequena frota de vapores subsidiados pelos governos dos dois países, as relações comerciais entre o Brasil e os Estados Unidos evoluíram desde então para uma balança comercial de pouco mais US$ 53 bilhões em 2008, com saldo positivo de US$ 1,8 bilhão para o Brasil. O diálogo transnacional também passou para esferas muito mais altas e hoje o Brasil é considerado pelos EUA como um importante parceiro no desenvolvimento de relações multilaterais, dizem especialistas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi apenas o terceiro chefe de Estado a ser recebido pelo presidente americano Barack Obama, e o primeiro da América Latina, em um encontro sábado na Casa Branca.
Não há nenhum Fletcher hoje pressionando o governo americano a melhorar o relacionamento com o Brasil, mas o momento atual é favorável, segundo vários especialistas. Embora ainda ocorram embates sobre questões comerciais, há boas perspectivas de cooperação em áreas como combate ao tráfico de drogas, mudanças climáticas e relações multilaterais. O governo Obama também tem sinalizado um posicionamento mais flexível em relação a Cuba, o que provavelmente agradaria o governo Lula. Além disso, o Brasil é visto como um país que desfruta de boas relações na América Latina de maneira geral, o que pode ajudá-lo a servir de ponte para um novo diálogo entre os EUA e a região, dizem os especialistas. Após uma reunião com Lula sábado, Obama disse que pretende usar o relacionamento com o Brasil para reforçar os laços com a América Latina.
É claro que a grandiosidade da crise econômica nos EUA e no mundo, e os conflitos no Iraque e no Afeganistão podem dificultar que o governo de Obama dê prioridade à América Latina em sua agenda internacional num futuro próximo, diz o cientista político Riordan Roett, da Universidade Johns Hopkins. “A atitude atual é benigna, mas a escalada da violência no México, fruto da guerra contra o narcotráfico, o policiamento da fronteira com esse país e os efeitos da queda nas remessas de imigrantes devem ganhar mais destaque na agenda do governo Obama” em se tratando de relações com a América Latina, diz Roett, que recebeu em 2000 a medalha da Ordem de Rio Branco das mãos de Fernando Henrique Cardoso.
O convite de Obama para Lula visitar Washington também é um bom sinal, diz Roett, para quem a cooperação entre os dois países no contexto atual é muito mais abrangente do que as questões bilaterais, especialmente com o papel preponderante do Brasil na construção de mecanismos multilaterais. “Se Obama quiser ativar a Rodada Doha, vai precisar do Brasil.” Brasil e EUA se reúnem novamente no início de abril, na conferência do G-20 em Londres, e em 17 de abril para a V Cúpula das Américas, em Port of Spain, Trinidad e Tobago.
Segundo Luiz Alberto Moniz Bandeira, professor aposentado de política exterior do Brasil da Universidade de Brasília, os dois países “não podem deixar de se considerar, (pois) são as duas maiores massas geográficas, demográficas e econômicas do continente”. Moniz aponta também a diminuição na importância dos EUA para as exportações brasileiras, que passaram a ser dominadas pela União Europeia e países emergentes. “O Brasil quer se aproximar dos EUA apenas na medida em que os EUA queiram se aproximar do Brasil”, diz Moniz.
Em entrevista coletiva em 25 de fevereiro, logo após se reunir em Washington com Hillary Clinton, o chanceler Celso Amorim disse que uma prioridade para reativar as negociações multilaterais para o comércio mundial é a confirmação pelo Congresso do indicado para o cargo de representante comercial dos EUA, Ron Kirk. A nomeação ainda está pendente, enquanto pesam sobre Kirk questões relativas a sua declaração de renda.
“O diálogo entre os dois governos realmente evoluiu nos últimos anos e acredito que o governo Obama continuará desenvolvendo isso”, diz Julia E. Sweig, diretora de estudos latino-americanos do Council on Foreign Relations, um centro de pesquisas que tem sede em Nova York e se descreve como não-partidário e independente. A política comercial entre os dois países, contudo, ainda “não foi bem resolvida”. Embora haja muito interesse no Brasil, diz Sweig, especialmente em relação às recentes descobertas petrolíferas e à indústria do etanol, a falta de conhecimento aprofundado sobre o país pode ser um obstáculo para as relações entre os dois países. “O pessoal da política exterior (do governo Obama) está preocupado com México, Cuba e, em terceiro lugar, o Brasil. Mas ainda existe um grande déficit de conhecimento sobre o Brasil e como dialogar com o país em meio à classe política em Washington”, diz.
Questões comerciais também se interpõem entre os dois países. Um dos pontos de debate é a tarifa de US$ 0,14 por litro de álcool combustível importado do Brasil nos EUA. Ela foi mantida na legislação agrícola aprovada em 2008 e está em vigor até o fim de 2010. A demanda por álcool combustível nos EUA vem crescendo, mas o país tem sua própria produção, à base de milho, e os produtores locais têm bastante influência em Washington.
“Barack Obama quer expandir a produção de energia renovável na América Latina de uma maneira que promova a auto-suficiência e crie mais mercados para fabricantes e produtores americanos de biocombustíveis”, diz o plano para a América Latina divulgado ano passado pelo então candidato. Obama reafirmou sua posição ao dizer após a reunião com Lula que o etanol é um “tema tenso” entre os dois países, que não vai mudar de um dia para o outro.
Joel Velasco, representante-chefe para a América do Norte da União da Indústria de Cana-de-Açúcar do Brasil (Unica), tem esperança de que políticos contrários à tarifação apresentem novas emendas que modifiquem a legislação agrícola. Velasco diz que os senadores e deputados das regiões costeiras tendem a apoiar a redução da tarifa, já que não produzem etanol e geralmente são obrigados a pagar mais caro pelo produto. Ele cita como favoráveis à redução da tarifa os senadores republicanos Richard Lugar e Judd Gregg.
Representantes dos senadores confirmaram que eles apoiam a redução da tarifa, mas disseram que no momento não há planos de introduzir nova legislação. Gregg chegou a apresentar em junho do ano passado um projeto de lei para reduzir a tarifa para US$ 0,12 por litro, sob o argumento de que a medida baixaria o preço da gasolina – na época o barril de petróleo estava acima de US$ 140, enquanto agora flutua na casa dos US$ 40. O projeto acabou morrendo no Congresso.
Gregg tinha sido indicado para ocupar a Secretaria de Comércio, um cargo que vem rendendo dor de cabeça a Obama, mas acabou desistindo sob a alegação de que havia “diferenças irresolúveis” com a política do novo presidente. O cargo em questão ainda está vago e Obama indicou recentemente o ex-governador do Estado de Washington Gary Locke, que aguarda confirmação.
Tags: agrícola, Amorim, Biocombustíveis, crise, Cuba, Cúpula, Doha, drogas, emergentes, energia, Etanol, EUA, exportações, fronteiras, hillary, imigrantes, Indústria, Internacional, Lula, Mercados, milho, negociações, Obama, petróleo, Republicanos, tarifas, tráfico, violência
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País volta a questionar subsídios dos EUA ao produto
Jamil Chade, GENEBRA – O Estado SP
Um levantamento feito pelo próprio governo americano coloca em dúvida a capacidade dos Estados Unidos de cumprirem sua meta de expandir a produção de etanol no país na próxima década. O resultado veio no mesmo momento em que o Brasil cobrou uma explicação dos EUA na Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre seus subsídios ao etanol. A diplomacia americana rejeitou classificar os programas de ajuda como incentivos ilegais e ignorou o pedido de esclarecimentos.
Na quinta-feira, o Itamaraty questionou os americanos e pediu um esclarecimento sobre o apoio financeiro dado ao setor de biocombustíveis. O Brasil queria saber se um programa de incentivo fiscal não seria um subsídio agrícola ilegal, que estaria contribuindo para distorcer o mercado. Os incentivos seriam de US$ 100 milhões por ano em redução de impostos.
Em resposta ao pedido de esclarecimento do Brasil, o governo americano alegou que já havia dado explicações e alertou que “não concordava” com a interpretação de que os incentivos pudessem ser classificados como subsídios agrícolas. Para os diplomatas americanos, o assunto nem sequer é um debate agrícola e os programas já teriam sido notificados como incentivos numa área industrial.
O questionamento do Brasil na OMC ainda não é uma disputa legal. O tema foi apenas levantado em um comitê regular da OMC. No ano passado, Brasil e Canadá iniciaram consultas para questionar a política de subsídios dos EUA na OMC, incluindo três programas de apoio à produção de etanol.
META
Estudo feito pelo Departamento de Energia americano indicou que o país dificilmente conseguirá atingir sua meta de 36 bilhões de galões de etanol até 2022, como foi estipulado em 2007. No mundo, a produção de etanol dobraria até 2020, com 50 bilhões de galões. Em 2030, esse volume chegaria a 80 bilhões. Mas, os americanos não conseguiriam atingir sua meta diante das dificuldades em produzir milho suficiente para ser transformado em etanol.
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Ricardo Balthazar, de Washington – VALOR
Usineiros brasileiros sugeriram ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que proponha ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a criação de mecanismos capazes de aprofundar a cooperação entre os dois países na área energética e aumentar as vendas de etanol do Brasil para o cobiçado mercado americano, onde o produto enfrenta barreiras para entrar.
Representantes do setor estiveram nos últimos dias com ministros e o próprio Lula, num esforço para assegurar que o tema entre na conversa que ele terá com Obama sábado, na Casa Branca. Diplomatas envolvidos com os preparativos da reunião esperam que o assunto seja discutido, mas duvidam que o encontro, que será o primeiro contato pessoal dos dois presidentes, produza avanços nessa área.
O Brasil e os EUA assinaram há dois anos um memorando de entendimentos para promover o uso de combustíveis alternativos como o etanol em alguns países do Caribe e ampliar a demanda mundial pelo produto. Mas o acordo não produziu até hoje benefícios para os usineiros brasileiros e isso acabou gerando enorme frustração na indústria.
O Brasil vendeu no ano passado 1,7 bilhão de litros de álcool para os EUA, o equivalente a pouco mais de 5% do consumo americano e 7% da capacidade de produção brasileira. Os usineiros acham que teriam condições de dobrar suas exportações para os EUA se fossem removidas as tarifas que o país cobra do etanol importado atualmente.
“Tem álcool sobrando no mundo inteiro hoje e o Brasil poderia ajudar os americanos a aumentar o consumo de biocombustíveis, complementando a produção das usinas americanas”, disse o presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Marcos Jank, que chegou a Washington na terça-feira para manter contatos com o governo e o Congresso.
A crise econômica internacional atingiu em cheio a indústria de etanol dos EUA. Pelo menos 23 usinas fecharam nos últimos meses e investimentos na expansão do setor foram suspensos, gerando dúvidas sobre sua capacidade de aumentar a produção de combustível no ritmo necessário para cumprir metas de consumo estabelecidas pela legislação para os próximos anos.
Muitas usinas brasileiras também estão enfrentando dificuldades financeiras, mas o álcool do Brasil, onde o combustível é extraído da cana-de-açúcar, é mais competitivo do que o produzido nos EUA, onde as usinas usam o milho como matéria-prima. A principal tarifa cobrada pelos americanos nas importações de álcool do Brasil vence em dezembro de 2010, mas pode ser renovada pelo Congresso.
Na campanha eleitoral do ano passado, Obama defendeu em várias ocasiões a manutenção dos incentivos que protegem a indústria americana. Mas de lá para cá o setor perdeu parte do apoio que tinha no Congresso por causa da preocupação crescente com o impacto da expansão dos biocombustíveis sobre o meio ambiente e os preços dos alimentos no mundo inteiro.
Paralelamente, empresários do Fórum Brasil-EUA de Altos Executivos, grupo que representa vários setores com negócios nos dois países, planejam enviar a Lula e Obama até amanhã uma carta para cobrar seu empenho nas negociações de um acordo que elimine a dupla tributação das empresas que têm atividades nos dois países, uma antiga reivindicação do setor privado.
Brasil e EUA discutem esse assunto há vários anos e recentemente assinaram um acordo para troca de informações na área tributária, considerado um passo preliminar para a discussão de um tratado mais abrangente. Mas o acordo empacou no Congresso brasileiro, por causa do incômodo gerado em setores da indústria nacional pelo grau de acesso exigido pelas autoridades americanas às informações que o fisco brasileiro tem sobre elas.
Tags: alimentos, bio, crise, demanda, Etanol, EUA, exportações, importações, Indústria, investimentos, Lula, Mercados, milho, negócios, Obama, preços, tarifas, tratados
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Alta do PIB em 2008 ficou atrás apenas de 2005 e 2007, com 5,7%
Fernando Dantas, RIO – O Estado SP
Apesar da forte queda no último trimestre, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 5,1% em 2008, o terceiro melhor resultado do governo Lula, abaixo apenas de 2005 e 2007 (ambos com 5,7%). Com o desempenho do ano passado, o PIB per capita cresceu 4%, depois de ter se expandido 4,5% em 2007. Esse é um ótimo resultado, já que a média anual de crescimento do PIB per capita nos últimos dez anos é de 2% e, nos últimos cinco anos, de 3,5%.
O PIB de 2008 teve como destaques, pelo lado da produção, a agropecuária, que cresceu 5,8%, e a construção civil, que teve expansão de 8%. Pelo lado da demanda, as estrelas foram os investimentos, que cresceram 13,8%, apesar do tombo no último trimestre.
Mesmo com o aumento médio da Selic (taxa básica de juros) de 11,9% para 12,5% de 2007 para 2008, a expansão nominal do crédito bancário para empresas (42,2%) e das operações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) (23,4%) contribuiu para o salto dos investimentos.
Os consumos das famílias e do governo cresceram, respectivamente, 5,4% e 5,6%. No caso das famílias, foi o quinto aumento anual seguido, puxado pelo crescimento de 7,9% na massa salarial e pelo crescimento nominal de 30,3% nas operações de crédito com recursos livres para pessoas físicas.
As importações de bens e serviços se expandiram em 18,5% e as exportações recuaram 0,6%. Na agropecuária, os desempenhos principais foram do café, com alta de 25%, cana (19,2%) e milho (13,3%). A construção civil foi impulsionada pelo crédito à habitação, que cresceu 30,4% em termos nominais.
INDÚSTRIA
A indústria de transformação cresceu apenas 3,2% em 2008, o pior desempenho na indústria como um todo. Alguns dos melhores desempenhos na indústria de transformação foram segmentos como “outros equipamentos de transporte” (exclui automóveis) e produtos farmacêuticos. E algumas das piores quedas foram em produtos de madeira e produtos químicos, materiais elétricos e equipamentos de comunicação.
A indústria extrativa mineral cresceu 4,3% em 2008 e a de produção e distribuição de eletricidade, gás e água se expandiu 4,5%.
Os melhores desempenhos entre todos setores industriais e de serviços ficaram com a intermediação financeira e previdência complementar (9,1%, puxada pelo crédito e seguros) e os serviços de informação, impulsionados pela telefonia celular. O comércio cresceu 6,1%.
TRIBUTOS
Os impostos sobre produtos cresceram 7,4% em 2008, mais que o valor agregado a preços básicos, que cresceu 4,7% (juntos, valor agregado e impostos compõem o PIB, que cresceu 5,1%). Os maiores aumentos de tributos foram os das importações – 23,4%, acompanhando o salto das compras externas -, Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), com 7,9%) e Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), com 6,9%.
REAÇÕES
Antonio Delfim Netto
Ex-ministro da Fazenda
“Como a atividade está fraca, o que demonstrou o PIB no quarto trimestre do ano passado, eu acredito que o BC deveria cortar os juros em 2 pontos porcentuais amanhã. Mas isso não deve ocorrer. Se o Copom diminuir a Selic em 1,5 ponto porcentual, mando rezar uma missa ecumênica”
Alexandre Schwartzman
Economista-chefe do banco Santander
“A queda de 3,6% do PIB no quarto trimestre de 2008 vai provocar um efeito carregamento (carry over) negativo da ordem de 1,5% a 1,7% para o PIB em 2009. Essa é uma conta grosseira, já que ainda não refizemos os cálculos com base nos novos números do IBGE”
José Serra
Governador de São Paulo “Infelizmente, não me surpreendeu (a queda do PIB).Isso sugere uma ação rápida dos governos nas três esferas e, principalmente, do governo federal, que tem nas mãos a política monetária. Depois de seis meses, ainda pratica a política monetária mais equivocada de todos os países do mundo”
Pedro Malan
Economista e ex-ministro da Fazenda
Existe um amplo espaço para se reduzir os juros nominais e reais e podemos chegar até o fim do ano a um dígito. O resultado do PIB (queda de 3,6% no quarto trimestre de 2008) é uma das razões que me levam a pensar que há mais espaço para reduzir os juros”
Gustavo Franco
Ex-presidente do Banco Central
“Nunca faltou coragem aos definidores da política monetária de subir os juros, resistindo a pressões políticas para que não o fizessem. Existe uma oportunidade inédita de se baixar os juros de maneira agressiva. O movimento tem que ser abrupto daqui para frente”
Rodrigo Maia
Deputado federal pelo RJ e presidente do DEM
“A queda do PIB mostra incompetência e irresponsabilidade do governo. O presidente Lula continuou tratando a crise como marola e não se antecipou tomando medidas no momento adequado, quando a economia estava bem”
Sem crise, a economia teria crescido 6,1%
Sérgio Gobetti – O Estado SP
A economia teria fechado 2008 com crescimento de pelo menos 6,1%, a maior taxa desde o Plano Cruzado, em 1986, se não fosse a guinada provocada pela crise mundial. Nos três primeiros trimestres do ano passado, o Produto Interno Bruto (PIB) vinha crescendo acima de 6% em relação ao mesmo período de 2007 e, de um trimestre para outro, vinha se expandindo cerca de 1,7% a cada três meses. Se, em vez de cair 3,6% no último trimestre, o PIB tivesse ficado simplesmente parado, o crescimento no final do ano teria sido 1% maior do que o registrado pelo IBGE.
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Alysson Paulinelli e Antonio Licio – O Estado SP
O mundo parece finalmente reconhecer o fenômeno do aquecimento global, embora ainda discuta as proporções de suas origens, entre antrópicas e naturais, e suas reais dimensões. A Agência Internacional de Energia (AIE) estima em 28 bilhões de toneladas as emissões de gases de efeito estufa – GEE – em 2006, enquanto o Departamento de Energia dos EUA (DoE) mensura de 11 bilhões a 12 bilhões. A primeira diz que o Brasil emite 303 milhões de toneladas, o DoE estima em 294 milhões e nosso Ministério do Meio Ambiente fala em 1,02 bilhão, diferença supostamente atribuída às queimadas de matas. Provavelmente as primeiras não consideram os GEE derivados de queimadas porque esses vegetais já sequestraram CO2 quando em crescimento, e a queimada simplesmente zera a contabilidade das emissões.
Se as origens e dimensões do fenômeno mostram-se tão controvertidas, maior ainda é a confusão sobre como atacar o problema que poderá, nas hipóteses mais pessimistas, aquecer a Terra em até 3°C, com consequências imprevisíveis. Ninguém aponta perspectivas concretas de solução, nem mesmo o respeitado Al Gore. Somente agora os EUA concordam em fazer algo, não se sabe exatamente o quê. A União Europeia anunciou uma política de 3 vezes “20%?s”: 20% de aumento de eficiência da matriz energética, 20% de redução de emissões de CO2 e 20% de participação de energia limpa até 2020. Será isso possível?
A matriz energética mundial tem a seguinte distribuição, em termos de energia primária: 34% de petróleo, 26% de carvão mineral, 21% de gás natural, somando 81% de combustíveis fósseis, ou “sujos”. Os demais 19% “limpos” originam-se em nuclear (6,2%), hidrelétrica (2,2%), 10,1% de combustíveis renováveis (lenha e biocombustíveis) e somente 0,6% de “outras limpas” (eólica, solar, geotérmica, etc.). Na geração de eletricidade, 41% advêm do carvão; 20% do gás natural; 15% de hidráulica; 15% de nuclear; 6% do petróleo; e 2% de outras fontes, segundo a mesma AIE.
A simples observação desses dados revela a enorme rigidez para se alterar esta matriz, de “suja” para “limpa”. Mais: nos grandes países emergentes – Índia e China – e nos EUA só restarão fontes sujíssimas de carvão mineral no futuro. As fontes hidráulicas já estão comprometidas em 70% de seu potencial, o restante é inviável econômica e ambientalmente. Em suma, a perspectiva concreta de geração elétrica virá, infelizmente, de usinas nucleares e a carvão mineral, cujas fontes ainda serão abundantes por mais de uma centena de anos, e do gás natural, menos sujo, mas fóssil e finito.
Por sua vez, o petróleo, principal fonte de energia para transportes, nos oferece o seguinte dilema: ou se extingue na metade deste século – e nesse caso sua contribuição para o aquecimento global é um falso problema – ou continuará “sujando” a matriz. Em qualquer situação há que se viabilizar substitutos.
Despontam aqui os biocombustíveis, curiosamente pouco estudados, tratados mesmo por alguns como inviáveis como solução de larga escala, tal como foi no início do Pro-álcool há 34 anos. Achamos que falta conhecimento agrícola-econômico sobre o assunto, pois a partir do preço do petróleo de US$ 40 a US$ 50 o barril, os biocombustíveis, álcool de cana e biodiesel de dendê são absolutamente viáveis mesmo sem programas ambientais de governo de utilização compulsória.
O mundo consome hoje 1,2 trilhão de litros de gasolina e 1,3 trilhão de litros de diesel anualmente (DoE, 2005), que requereriam, respectivamente, ao redor de 180 milhões e 220 milhões de hectares de cana-de-açúcar e dendê, únicas plantas atualmente com tecnologias capazes de produzir álcool e biodiesel em volumes significativos e competitivamente. Existiriam essas áreas disponíveis no mundo?
No caso da cana, grosso modo, somente com substituição de atuais áreas de pastagens ou de grãos, considerando seu especial requerimento de clima: tropical, sem excessos nem déficits hídricos. No Brasil há mais de 100 milhões de hectares neste clima, inclusive áreas impróprias, como Pantanal, e montanhosas. Parte desses pastos poderá ser empurrada para regiões mais secas. Internacionalmente, a exceção fica por conta de regiões da África Meridional onde ainda há terras ociosas com clima adequado (savanas), mas de difícil mobilização empresarial.
Não se considerou aqui o uso do etanol de milho nem a biomassa de capim para queima e geração termoelétrica, dado o alto custo de oportunidade em desviar áreas alimentícias, nem as perspectivas de etanol de celulose, incógnita bioquímica e econômica, que uma vez equacionada resolverá também o problema alimentar mundial: folhas, galhos e capins poderão ser comidos pelo homem.
No caso do dendê, as perspectivas são bem mais promissoras, pois o clima exigido é o equatorial superúmido (latitudes 10° norte e sul) onde a produção mecanizada de grãos é inviável e sobram áreas com baixo ou nenhum aproveitamento agrícola (somente na Amazônia brasileira há 73 milhões de hectares desmatados, 17 dos quais degradados). Enquadram-se aí toda a Amazônia (450 milhões de hectares), a África úmida (350 milhões de hectares) e partes da Ásia (Indonésia, Filipinas, Bornéu e Papua-Nova Guiné, com 300 milhões hectares), onde certamente os atuais subaproveitamentos agrícolas darão lugar a florestas energéticas. Milhões de empregos poderão ser gerados em áreas pobres.
Dessas regiões virão os necessários combustíveis líquidos do futuro, além de ser a única perspectiva concreta para ajudar a “limpar” a atual matriz energética mundial, alterando ainda profundamente a geografia econômica e a geopolítica mundial.
*Alysson Paulinelli, engenheiro agrônomo, foi ministro da Agricultura e Antonio Licio, economista, foi diretor do Ministério da Agricultura. Ambos participaram da concepção e implantação do Proálcool entre 1975-79
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Ricardo Balthazar, de San Antonio (EUA) – VALOR
A crise econômica internacional atirou a indústria de etanol dos Estados Unidos numa encruzilhada, interrompendo a expansão vertiginosa observada nos últimos três anos e alimentando dúvidas sobre sua capacidade de sobrevivência sem mudanças nas políticas governamentais que estimulam a produção de biocombustíveis no país.
Pelo menos 23 usinas americanas fecharam as portas nos últimos meses. Instalações capazes de processar 6,4 bilhões de litros de álcool por ano tornaram-se ociosas, o equivalente a um quarto da produção anual das destilarias brasileiras. Uma das maiores empresas do setor, a VeraSun, pediu concordata e pôs à venda cinco das suas 16 usinas.
O consumo de combustíveis está caindo nos EUA, porque as pessoas estão dirigindo seus carros com menos frequência para economizar e enfrentar a recessão. Isso reduziu a demanda por etanol, que as refinarias americanas usam principalmente como aditivo na composição da gasolina. A capacidade instalada nas usinas do país é hoje mais do que suficiente para atender às necessidades das refinarias.
A desaceleração da economia mundial também causou uma queda acentuada dos preços do petróleo no mercado internacional, tornando a gasolina mais barata que o etanol nos EUA e reduzindo o interesse das refinarias pelo combustível alternativo. As refinarias agora têm adquirido apenas o volume mínimo de álcool necessário para cumprir exigências da legislação.
As cotações do etanol no mercado americano caíram 46% desde o pico alcançado em meados do ano passado, de acordo com o economista John Urbanchuk, um veterano consultor da indústria. O milho usado como matéria-prima para fazer etanol nos EUA também ficou mais barato, mas seus preços continuam em níveis historicamente elevados, encarecendo os custos das usinas.
Isso tem comprimido as margens de lucro da indústria, tornando especialmente vulneráveis empresas como a VeraSun, que se endividaram bastante nos últimos anos para aumentar sua capacidade de produção. Investidores que no passado recente apostaram alto no setor agora pensam duas vezes antes de sacar o talão de cheques.
Até grandes grupos como a Archer Daniels Midland (ADM) foram afetados. Suas usinas têm condições de produzir 4 bilhões de litros de etanol por ano e tiveram um prejuízo de US$ 111 milhões no último trimestre. A perda anulou quase todos os ganhos obtidos pela ADM com adoçantes e outros produtos derivados do milho que ela também vende.
“Fomos golpeados por uma tempestade perfeita, uma combinação perversa de fatores adversos”, diz Bob Dinneen, presidente da Associação dos Combustíveis Renováveis (RFA, na sigla em inglês), organização que defende os interesses das usinas americanas e realizou na semana passada uma conferência para avaliar o estado da indústria.
Os Estados Unidos produziram 34 bilhões de litros de etanol no ano passado. As metas fixadas pela legislação americana determinam que as refinarias ampliem o consumo para 40 bilhões de litros neste ano, o dobro do que elas consumiram em 2006. Será difícil cumprir a meta se a economia demorar para se recuperar e os motoristas mantiverem seus carros parados nas garagens.
Ao contrário do que ocorre no Brasil, onde os postos de distribuição vendem álcool e gasolina separadamente e boa parte da frota de automóveis foi projetada para rodar com os dois tipos de combustível, nos EUA não existe a infraestrutura necessária para fazer isso e poucos carros têm motores bicombustíveis, o que restringe o potencial de expansão das usinas americanas.
A indústria está pressionando o governo e o Congresso a autorizar a venda de gasolina com concentrações de álcool maiores do que a permitida pela legislação atual, o que poderia ampliar rapidamente a demanda por etanol no mercado americano. Hoje, a mistura do álcool à gasolina é limitada a 10% nos EUA. As usinas gostariam de ver o limite elevado para perto de 15%.
O problema é que as montadoras de automóveis e os fabricantes de motores resistem a essa mudança. O governo tem feito testes para avaliar o desempenho de vários motores com diferentes misturas de gasolina e álcool. Resultados preliminares sugerem que alguns motores funcionariam mal com concentrações de álcool superiores a 10% e outros romperiam limites estabelecidos pelas leis ambientais para emissão de poluentes.
As montadoras temem ser soterradas por uma avalanche de processos judiciais se a mudança for aprovada. “Precisamos nos proteger contra as ações que virão se os consumidores forem forçados a usar um combustível para o qual os motores de seus carros não foram projetados”, afirma Mark Maher, um executivo da General Motors que acompanha os testes em andamento.
As dificuldades da indústria dos EUA sugerem que o Brasil continuará enfrentando barreiras se quiser exportar volumes maiores de álcool para o cobiçado mercado americano. As tarifas que protegem o setor nos EUA encarecem o etanol importado das usinas brasileiras, que extraem o combustível da cana-de-açúcar e são mais competitivas que as destilarias americanas.
O Brasil vendeu mais de 2 bilhões de litros de etanol para os EUA em 2006. Como o petróleo estava em alta nessa época e as usinas americanas ainda não conseguiam suprir sozinhas a demanda interna, os produtores brasileiros conseguiram fazer bons negócios mesmo pagando as tarifas. No ano passado, os americanos consumiram muito mais etanol do que em 2006, mas o Brasil exportou para os EUA apenas 1,7 bilhão de litros.
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Javier Blas, Financial Times, de Washington – VALOR
As cotações das commodities alimentícias deverão permanecerão acima de níveis históricos em 2009, afetando os países pobres pelo terceiro ano consecutivo, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
A previsão da conferência anual do USDA em Washington aponta para preços mais baixos do que no primeiro semestre do ano passado, quando commodities como milho, trigo, soja e arroz atingiram máximas históricas. Joseph Glauber, economista-chefe do USDA, disse que o impacto da crise econômica sobre o consumo de alimentos deprimiu temporariamente os preços das commoditie agrícolas, mas advertiu que os preços deverão permanecer bem acima da média nos oito anos desde 2000.
Glauber disse que as perspectivas são “de um retorno de preços mais altos”, pois algumas das pressões que motivaram os aumentos no ano passado e um crescimento relativamente forte em mercados emergentes “voltarão a desempenhar um papel importante” neste ano ou no início de 2010. “Este será novamente um ano difícil [para países pobres]“, disse ele.
O USDA prevê que os preços do trigo na porteira, nos EUA, ficarão abaixo do nível recorde em 2008, mas acima da média do biênio 2006-2007, quando as cotações começaram a subir e chegaram a desencadear uma crise alimentícia mundial.
A perspectiva de preços mais altos era uma particular preocupação para países em desenvolvimento exatamente no momento em que a crise econômica impactou suas perspectivas, foi dito à conferência. Os comerciantes de alimentos advertiram que alguns países africanos estão defrontando-se com dificuldades para garantir suas importações de commodities alimentícias em meio a um crédito apertado.
Christopher Delgado, um consultor para políticas agrícolas no Banco Mundial, advertiu a conferência que, apesar de uma queda nos preços dos alimentos, os preços do milho estão pelo menos 40% acima da média do período 2003-2006, e os preços do arroz estão 100% mais altos. “A crise de alimentos não foi embora”, disse ele. “Na realidade, ela está voltando”.
O número de pessoas famintas no mundo, no ano passado, saltou para quase 1 bilhão, devido ao impacto da crise mundial de alimentos, quando foram registrados preços recordes para commodities agrícolas e manifestações de protesto nas ruas contra a falta de alimentos em vários países – do Haiti a Bangladesh. O impacto de longo prazo da crise de alimentos deverá induzir os países a adotarem políticas alimentícias mais protecionistas.
Uma preocupação central continua a ser com as proibições a exportações que alguns grandes vendedores de commodities agrícolas impuseram nos últimos 18 meses. O Vietnã, segundo maior exportador de arroz do mundo, anunciou na na semana passada uma proibição de quatro meses à vendas de arroz no exterior. Na Argentina, cresceram as especulações de que o governo poderá criar um “diretoria de comércio” para grãos e sementes oleaginosas, visando assumir maior controle sobre um setor da economia crucial na geração de receitas e permitir ao governo estabelecer pisos para os preços.
Wayne Jones, diretor de mercados agrícolas e alimentícios na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCED), disse que os países em desenvolvimento estão migrando “de importação para terceirização” da produção em terras agrícolas, e de “intervenções privadas para públicas nos mercados”. “Para países de baixa renda e importadores de alimentos, essa [transição rumo a preços mais altos de produtos agrícolas] é assustador”, disse ele.
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Fernando Lopes e Mônica Scaramuzzo, de São Paulo – VALOR
Com forte influência dos chamados fundamentos, todas as oito principais commodities agrícolas negociadas pelo Brasil no mercado internacional encerraram o mês de janeiro com preços médios superiores aos de dezembro de 2009.
Tal “alinhamento positivo”, exposto por cálculos do Valor Data baseados nas médias mensais dos contratos futuros de segunda posição de entrega (normalmente os de maior liquidez) transacionados nas bolsas de Chicago (soja, milho e trigo) e Nova York (açúcar, café, cacau, suco de laranja e algodão), não era visto desde junho de 2008, em plena inflação global dos alimentos.
Ainda que o nervosismo nos mercados mundiais tenha sido muitas vezes exacerbado pelas notícias de desaceleração econômica tanto em países desenvolvidos quanto em emergentes em janeiro, provocando movimentações financeiras que ajudaram a influenciar as commodities, o resultado não foi negativo para as cotações como muitos analistas temiam no fim de dezembro, em meio a um cenário de muitas incertezas.
Tragadas pelo aprofundamento da crise americana a partir de setembro, as cotações internacionais dos produtos agrícolas registraram queda ab-rupta até o fim do ano passado. Especialistas já alertavam que as relações de oferta e demanda não justificavam tamanha desvalorização, apesar da tendência de desaceleração. Com os fundamentos em geral “altistas” do mês passado, houve espaço para correções.
Vinícius Ito, analista da Newedge, corretora baseada em Nova York, lembra que um forte movimento de desova de posições por parte de investidores até o fim de 2008 colaborou sobremaneira para as fortes quedas observadas. Em janeiro, diz, muitos deles renovaram as apostas, fortalecidas pelos fundamentos.
No caso dos grãos negociados em Chicago, pesaram as quedas de produção na América do Sul por causa da seca, principalmente na Argentina, e o aquecimento da demanda de países consumidores importantes como a China, que decidiu recompor seus estoques com os preços mais em conta do que nos três primeiros trimestres do ano passado.
Nesse cenário, as cotações da soja foram as que mais subiram. Segundo o Valor Data, a média de janeiro atingiu US$ 9,9745 por bushel, 14,29% acima que a média de dezembro. A valorização do trigo, por sua vez, chegou a 9,49% na mesma comparação, e o bushel foi negociado, em média, por US$ 6,0168. O preço médio do milho subiu 7,11%, para US$ 4,0179 por bushel.
Ito acredita que, se depender apenas dos fundamentos, as cotações dos grãos poderão se estabilizar em torno desses patamares. Pelo critério dos preços médios, soja e milho estavam em baixa em Chicago desde julho de 2008; o trigo, desde agosto.
Não foram muito diferentes as equações que definiram as cotações das chamadas “soft commodities” em Nova York em janeiro. Os fundamentos prevaleceram também para esses produtos. “Se fizermos uma análise do mercado, nada efetivamente mudou muito. O mercado de crédito continua limitado, ainda sem fluir como deveria. A volatilidade também se manteve em janeiro e o dólar ficou mais firme, o que ajuda a pressionar as cotações”, explicou Rodrigo Costa, da Newedge.
No entanto, os preços das commodities fecharam firmes em janeiro, respaldados pelos fundamentos já conhecidos de cada commodity. Nenhum fator novo modificou o rumo do açúcar, café, suco, algodão e cacau. Para o açúcar, os preços refletem o primeiro déficit global depois de três anos de superávit mundial. A média de janeiro atingiu 12,62 centavos de dólar por libra-peso, 6,41% acima que a média de dezembro.
No café, a menor colheita no Brasil em 2009, resultado da bianualidade da safra (produtividade baixa a cada dois anos) também tem dado sustentação aos preços. O grão acumulou valorização de 7,22% em janeiro, com preços médios de US$ 1,1871 por libra-peso. A queda da produtividade dos países da América Central também tem ajudado a dar suporte às cotações.
As previsões de geadas sobre os pomares da Flórida, segundo maior produtor mundial de suco de laranja, embora não tenham ainda provocado danos às regiões produtoras dos EUA, deram sustentação ao produto no mês passado. Os riscos de estragos não se concretizaram, mas foram suficientes para elevar os preços do suco, que em janeiro acumularam alta de 2,61%, com preços médios de 76,88 centavos de dólar por libra-peso.
O algodão também subiu, apesar da baixa demanda global por têxteis. Segundo Fernando Martins, da Newedge, a menor área plantada para a pluma nos EUA sustentou as cotações. No mês o produto acumula alta de 8,68%, com preço médio de 49,57 centavos de dólar. O cacau subiu 6,06% no mês, negociado a US$ 2.591,20 a tonelada, por conta dos problemas na produção na Costa do Marfim e Gana e atraso da chegada da amêndoa até os portos.
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Lauren Etter, The Wall Street Journal – VALOR
Num momento em que o mundo precisa de mais comida, os efeitos da crise global do crédito sobre o Brasil aumentam o risco de falta de alimentos.
Muitos produtores brasileiros tinham a esperança de que a alta no mercado de grãos os ajudaria a pagar as dívidas e se tornarem mais competitivos em relação aos produtores americanos, que há muito são os líderes mundiais em produtividade agrícola. Agora, porém, com falta de capital, os brasileiros estão reduzindo o tamanho das plantações e até deixando de pagar dívidas. A acentuada a queda nos preços de diversos produtos no mercado mundial e o aumento no custo dos suprimentos agrícolas, combinados com o aperto no crédito, estão reduzindo o ritmo de um dos fornecedores de alimentos que mais cresce no mundo.
O desaquecimento do cinturão agrícola brasileiro pode afetar toda a economia do país, a maior da América Latina e que vinha, ao lado de Rússia, China e Índia, puxando o crescimento do mundo emergente.
Nos últimos anos, com o aumento da demanda global por grãos, os produtores brasileiros cultivaram a terra a um ritmo febril para plantar soja; estradas foram abertas no interior do país para transportar a produção. O aumento no preço dos grãos em todo o primeiro semestre de 2008 acelerou essa expansão.
Agora, os produtores estão tendo dificuldade de conseguir empréstimos para cobrir o alto custo dos fertilizantes, pesticidas e sementes. Para esses empréstimos, eles sempre dependeram muito de um punhado de cerealistas multinacionais, como Archer-Daniels-Midland Co., Bunge Ltd. e Cargill Inc.
Ao contrário dos Estados Unidos, onde os fazendeiros dependem de empréstimos do governo e de bancos privados, no Brasil até 40% do financiamento vêm de empresas agrícolas. Essa porcentagem pode cair para até 25% este ano, segundo o ex-ministro da Agricultura Marcus Vinicius Pratini de Moraes, hoje conselheiro independente do JBS SA.
Agora que a volatilidade no mercado de commodities e a crise financeira global aumentaram os riscos e os custos de fazer negócios no Brasil, as grandes empresas cerealistas estão freando o os empréstimos.
“Cada empresa está tentando garantir o máximo possível de capital (para suportar) os efeitos de longo prazo da crise do crédito”, diz Stefano Rettore, gerente-geral da CHS Brasil. “Isso está deixando menos capital disponível para financiar a agricultura brasileira.”
Esse aperto deve contribuir para uma queda de 2% na produção brasileira de soja para a safra de 2008-2009, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA.
Na última quarta-feira, a fabricante americana de equipamentos agrícolas Deere & Co. divulgou sua previsão de que as vendas desses equipamentos na América do Sul cairão em até 20% no ano que vem, em parte devido à “difícil situação do crédito no Brasil”, diz Susan Karlix, diretora de comunicações, em uma teleconferência com os investidores.
A Bunge, um dos maiores processadores mundiais de soja, cortou em 70% os pagamentos adiantados em dinheiro aos produtores agrícolas brasileiros desde o final do ano passado, segundo informes da empresa. A Bunge, tal como outras cerealistas, concede empréstimos e pagamentos adiantados em dinheiro aos produtores, em troca de entregas futuras de cereais.
“Basicamente, estamos sendo mais seletivos”, disse Stewart Lindsay, porta-voz da Bunge, “a fim de gerir melhor nosso capital de giro em um nível global, e sermos prudentes em termos de risco, em um ambiente de preços que já demonstrou ser volátil”.
As americanas ADM e Cargill informam que aumentaram o volume total de crédito disponível para os produtores brasileiros. Mesmo assim, os fazendeiros dizem que os empréstimos não bastam para cobrir seus custos cada vez maiores.
Na última década, o financiamento privado para os fazendeiros incentivou o rápido crescimento da agricultura e da infra-estrutura na região Centro-Oeste, ajudando o país a tornar-se um dos maiores produtores agrícolas mundiais. Hoje o Brasil é o maior produtor de soja depois dos EUA, respondendo por uma quarta parte da produção mundial desse grão.
Ao longo dos anos, os fazendeiros brasileiros acumularam vultosas dívidas depois de uma série de colheitas fracas e de taxas de câmbio desfavoráveis, no início da década. Essas dívidas estão fazendo com que muitos encontrem dificuldade para tomar novos empréstimos.
O custo total da produção das três principais lavouras de Mato Grosso – soja, milho e algodão – deve aumentar 42% este ano em relação ao ano passado diz Michael Cordonnier, presidente da consultoria americana Soybean & Corn Advisor.
Agora, além de economizar com fertilizantes e insumos – o que aumenta o risco de redução da safra -, muitos produtores estão deixando de pagar dívidas e equipamentos importantes para garantir produtividade estão sendo retomados pelos bancos. Mais de cem máquinas como tratores e colheitadeiras confiscadas nos últimos dias no Mato Grosso, o campeão nacional da produção de soja, diz Glauber Silveira, presidente da Aprosoja, Associação dos Produtores de Soja do Mato Grosso.
(Colaborou Tony Danby)
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VALOR
As medidas adotadas pelo governo para garantir liquidez ao sistema de crédito rural brasileiro começam a surtir efeito. Foram até agora meia dúzia de ações pontuais, que garantiram cerca de R$ 20 bilhões em antecipação e financiamentos adicionais para suprir a saída dos tradicionais financiadores como as tradings, agroindústrias e fornecedores de insumos, notadamente na região Centro-Oeste.
A elevação dos percentuais sobre os depósitos à vista e de caderneta de poupança com aplicação obrigatória no setor, as chamadas exigibilidades bancárias, ampliaram em R$ 8 bilhões a oferta de dinheiro ao setor. A redução “carimbada” dos depósitos compulsórios e a antecipação da equalização de recursos para o Banco do Brasil agregaram outros R$ 9 bilhões ao crédito disponível. Para suprir parte da demanda por linhas de auxílio à exportação, o Conselho Monetário Nacional (CMN) abriu espaço para crédito de até R$ 2,5 bilhões para financiar capital de giro de agroindústrias com lastro em Cédulas de Produto Rural (CPRs), emitidas por produtores para antecipar recursos de custeio das lavouras.
A reação do mercado tem sido positiva. Um exemplo do efeito é o próprio Banco do Brasil, maior operador de financiamentos ao campo, que estima chegar ao fim da primeira metade desta nova safra, cujo plantio começou em outubro, com um volume de empréstimos de custeio próximo de R$ 14 bilhões. Em quatro meses do atual ano-safra, iniciado em julho, o banco emprestou R$ 9,4 bilhões. Se confirmadas a projeções, o desempenho do BB no custeio da safra em 2008 será 32,5% superior ao mesmo período de 2007.
Mesmo assim, a taxa média de juros ficou maior porque aumentou a demanda e o riscos associados ao setor, já que vários dos tradicionais financiadores do campo recuaram em razão de problemas de caixa provocados pela forte instabilidade dos preços na safra passada. A raiz da falta de crédito para o plantio da próxima safra antecede, assim, o agravamento da crise financeira global. De fato, a escassez de crédito começou com o pacote de R$ 75 bilhões de renegociação de dívidas rurais, que limitou a concessão de empréstimos aos produtores que optaram pela rolagem. E, também, porque os bancos ficaram mais seletivos, se esquivando de conceder empréstimos a quem repactuasse seus débitos.
O governo precisa agora garantir renda ao setor através da sustentação de preços e aquisições diretas para formação de estoques públicos durante a comercialização da safra. O orçamento para 2009 prevê apenas R$ 3,8 bilhões para isso. Produtores, bancos e setores do próprio governo estimam a necessidade de até R$ 10 bilhões para honrar a Política de Garantia de Preços Mínimos, prevista em lei e poucas vezes cumprida integralmente.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, garantiram, há poucos dias, que o governo cumprirá seu papel de evitar que as cotações agrícolas fiquem abaixo dos preços mínimos.
Da ação do governo também dependerá o plantio no próximo ano-safra 2009/2010 em condições adequadas de crédito para atender ao volume da produção e garantir a produtividade das principais lavouras. Para isso, é preciso modernizar as regras do crédito rural e ampliar as fontes de financiamento para além dos escassos recursos oficiais subsidiados pelo Tesouro. Só com produção, produtividade e renda é que será possível evitar novos acúmulos de dívidas e os intermináveis calotes de parcela minoritária, porém barulhenta, dos agricultores.
Um passo importante na modernização da política agrícola seria, por exemplo, a ampliação do alcance do seguro rural, hoje pouco difundido e caro. Outra iniciativa poderia ser a redução do risco de crédito dos produtores por mecanismos de incentivo à proteção de preços nos mercados futuros.
Cabe ao governo estar alerta para impedir que eventuais desarranjos no setor rural produzam efeitos perversos sobre o abastecimento, a inflação e as exportações. Como se viu no primeiro semestre, a baixa oferta de produtos básicos como feijão, arroz, trigo e milho, pode ter efeito devastador sobre os preços. O pior que pode acontecer é um repique inflacionário em 2009, provocado por redução da oferta de alimentos.
Tags: ações, agrícola, agricultores, agroindústria, alimentos, Bancos, crédito, crise, estoque, exportações, inflação, Lula, mantega, Mercados, milho, Orçamento, poupança, preços, produção, Produtividade, Renda, safra, Tesouro, Trade
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Mauro Zanatta – VALOR, de Brasília
Empurrado pela boa performance das vendas do complexo soja, complexo carnes, produtos florestais, açúcar, álcool e café, o agronegócio brasileiro embarcou US$ 62 bilhões ao exterior nos primeiros dez meses de 2008, um resultado 26,8% superior ao período entre janeiro e outubro de 2007. Como as importações cresceram 41,8% neste intervalo, para US$ 9,9 bilhões, o superávit comercial do setor atingiu US$ 52,1 bilhões.
Os mercados que mais contribuíram para o crescimento das exportações do agronegócio estão situados na América Latina, Ásia, Europa Oriental, Mercosul e União Européia. Os maiores compradores foram os europeus ocidentais (33%), asiáticos (24%), norte-americanos (10%) e europeus orientais (8%).
A forte elevação das vendas para China (78%) colocou o país asiático no topo do ranking de destinos nos primeiros dez meses do ano com uma fatia de 12,2% de participação. A China ultrapassou os 9% dos Países Baixos e os 8,6% dos Estados Unidos. As vendas tiveram forte aumento para Venezuela (129%), Tailândia (71%), Arábia Saudita (51%), Japão (41%) e Rússia (41%).
Em outubro, as exportações do agronegócio brasileiro totalizaram US$ 6,6 bilhões, um crescimento de 9,8% em relação a outubro de 2007. Como resultado, houve superávit de US$ 5,5 bilhões. Em soja, foram vendidos US$ 1,1 bilhão. As vendas externas de carnes cresceram 31,4%, somando US$ 1,4 bilhão. As exportações do complexo sucroalcooleiro chegaram a US$ 870 milhões, 40,5% acima de outubro do ano passado.
As vendas de fumo cresceram 56,2%, chegando a US$ 406 milhões. As exportações de café cresceram 29,7%, para US$ 524 milhões. As importações de outubro cresceram 27,5%, para US$ 1,1 bilhão. Os mais importados foram trigo e borracha natural, mas as compras de milho (- 43%) e arroz (- 55,5%) recuaram bastante na comparação com igual período do ano passado.
Nos últimos 12 meses encerrados em outubro, as exportações do agronegócio alcançaram a marca histórica de US$ 71,5 bilhões, ou 24,6% acima dos 12 meses anteriores. O superávit comercial acumulado bateu em US$ 59,8 bilhões. Nesse caso, os setores mais dinâmicos foram: carnes (+37%), produtos florestais (+11%), café (+19%), fumo (+25,5%) e lácteos (+162%).
Tags: agricultura, agro-indústria, Ásia, café, carne, China, Crescimento, Europa, exportações, fumo, importações, Japão, Mercados, Mercosul, milho, soja
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Mauro Zanatta, de Brasília – Valor
O pacote de medidas do governo para auxiliar o setor rural será reforçado nesta semana com ações para irrigar o caixa de tradings, agroindústrias e fornecedores de insumos aos produtores. O Banco do Brasil deve anunciar uma nova linha de crédito de até R$ 2,5 bilhões para financiar o capital de giro dessas empresas com recursos da poupança rural, apurou o Valor.
A preocupação do governo é suprir com crédito adicional a demanda por Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC), cujo principal objetivo é incentivar as exportações. O crédito para ACC, usado no pré-embarque das mercadorias, está bastante restrito desde o aprofundamento da crise financeira global, iniciada nos Estados Unidos. Por isso, as tradings e agroindústrias têm reclamado por uma medida específica do governo de auxílio ao segmento.
A nova linha deve ter um custo mais baixo do que os empréstimos contratados a juros livres. Para manter o estímulo ao exportador, a linha de crédito deverá ter alíquota de IOF reduzida, à semelhança do crédito para ACC.
Os empréstimos do BB, que também poderiam ser operados pelos demais bancos federais (BNB e Basa), além das instituições financeiras ligadas a cooperativas, devem ter os juros reduzidos, já que a fonte de recursos será a poupança rural. Estima-se uma taxa final semelhante à Selic – hoje em 13,75% ao ano.
O desenho da nova linha de crédito prevê o repasse, com o compromisso de recompra, de parte das carteiras de recebíveis de tradings e agroindústrias, como as Cédulas de Produto Rural (CPR), em garantia das operações. As CPRs são um título emitido pelos produtores como forma de antecipar os recursos necessários ao custeio ou comercialização da safra.
Os empréstimos dessa linha estarão lastreados nesses papéis e as empresas continuarão com os riscos das operações. Ao fim do contratado, que pode ter prazo de seis a 12 meses, as empresas serão obrigadas a recomprar os papéis. As tradings e agroindústrias precisam desses papéis para resgatar a produção física em mãos do produto rural.
A criação da nova linha foi permitida pela elevação da parcela de aplicação obrigatória em crédito rural pelos bancos (exigibilidades) sobre os depósitos da caderneta de poupança. Na semana passada, o Conselho Monetário Nacional (CMN) aumentou de 65% para 70% as exigibilidades da “poupança rural” e permitiu o financiamento de tradings, agroindústrias e fornecedores de insumos com até 40% desses recursos. Até então, apenas cooperativas podiam ser financiadas, e até o limite de 5% dessas exigibilidades.
As tradings vinham sofrendo um estrangulamento na concessão de crédito de suas matrizes desde antes do início do atual ano-safra. Na safra passada, elas tiveram que usar boa parte de seu caixa para cobrir as chamadas “margens” na Bolsa de Chicago. Como as cotações das commodities dispararam por causa de uma corrida dos fundos e especuladores, as empresas precisaram cobrir a diferença entre o preço contratado (”hedge”) e as cotações efetivas de produtos como soja, milho e trigo.
O reforço no pacote rural soma-se à prévia autorização da antecipação de R$ 5 bilhões em recursos operados pelo BB para o plantio da atual safra. Também potencializa os efeitos da elevação de 25% para 30% das exigibilidades sobre os depósitos à vista e da redução, de 45% para 42%, nos depósitos compulsórios, que devem antecipar outros R$ 9,1 bilhões para a safra.
O governo federal ainda estuda a adoção de novas medidas, como a criação de uma linha de R$ 1 bilhão para a capitalização das cooperativas e a realização de leilões específicos de US$ 1 bilhão em recursos para a contratação de ACCs ao campo.
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Investimento e consumo dão ritmo chinês ao PIB
Ana Paula Grabois – VALOR
Apoiada nos investimentos recordes das empresas e do governo em máquinas, equipamentos e construção, a economia brasileira cresceu acima das estimativas no segundo trimestre e fechou o semestre em alta de 6%. Na comparação com o segundo trimestre de 2007, a taxa chegou a 6,1%. Em relação ao primeiro trimestre, o PIB apresentou expansão de 1,6%. “O PIB vem crescendo ao ritmo de 6% há um ano”, disse a gerente das Contas Trimestrais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Rebeca Palis. Ela ressalta que o efeito do novo ciclo de alta dos juros iniciado em abril pelo Banco Central não foi sentido no segundo trimestre.
Sem considerar o efeito negativo do setor externo (importações e exportações de bens e serviços) sobre o PIB, de 2,5 pontos percentuais, o ritmo da expansão doméstica é comparável ao chinês. Segundo cálculos do economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, a demanda interna cresceu 8,5% no primeiro semestre. “É o investimento que está segurando o crescimento do PIB. Sem investimento, o PIB estaria em 4% ao ano”, disse Borges.
Os investimentos registraram alta de 16,2% no segundo trimestre, a 18ª alta consecutiva na comparação com igual período do ano anterior e recorde da série histórica do IBGE, iniciada em 1996. A taxa de investimento sobre o PIB, de 18,7%, foi a maior já registrada para um segundo trimestre desde 2000, quando foi iniciada a série do indicador. No semestre, o nível da alta do investimento também foi recorde e chegou a 15,7%. Segundo cálculos da LCA, em termos dessazonalizados, a taxa de investimento ficou em 19%, a maior desde o primeiro trimestre de 1998 na comparação com todos os trimestres do período analisado.
Dentro dos investimentos, o destaque foram os gastos na construção civil, cuja alta de 9,9% foi favorecida pelas obras públicas e pela alta de 26,7% no crédito habitacional. Para a gerente do IBGE, o período eleitoral contribuiu para esse resultado. “Em anos eleitorais, historicamente, há mais obras públicas”, afirmou.
Os investimentos subiram também sob efeito da expansão de 41,3% do crédito para empresas e do fim da greve na Receita Federal no segundo trimestre. Muitos equipamentos e máquinas importadas que chegaram no início do ano só foram registrados no trimestre seguinte. A greve também foi responsável pela reversão da queda de 2,1% das exportações de bens e serviços apurada no primeiro trimestre. No segundo trimestre, as exportações cresceram 5,1%.
“As empresas estão investindo para atender à demanda interna, que cresce há vários trimestres. O câmbio também ajuda a importar bens de capital e ainda houve aumento das empresas no mercado de capitais, onde elas conseguiram mais recursos para investir”, destacou Giovanna Rocca, economista do Unibanco .
Ela ressalta que o bom resultado dos investimentos aponta para o aumento do PIB potencial, uma vez que o crescimento do consumo das famílias está em desaceleração, ainda que em patamar elevado, indicando que o país pode ter mais oferta disponível para atender à demanda de consumo da população.
Bráulio Borges, da LCA, lembra que, apesar do forte ritmo de investimento registrado desde o fim de 2006, o nível de utilização da capacidade instalada não cede porque a maior parte dos investimentos tem sido dirigida a ampliações de capacidade, o que exige maior prazo de maturação em comparação a investimentos de modernização. Além disso, as diversas obras em andamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal são da área de infra-estrutura, cujos prazos também são mais longos. “Temos um cenário apertado por demanda, mas olhando para frente, o horizonte é favorável. Nunca se investiu tanto em ampliação”, diz.
Outro destaque do PIB foi o gasto elevado da administração pública no período devido às eleições municipais. Como a lei eleitoral proíbe gastos e contratações três meses antes das eleições, o IBGE apurou a antecipação desses gastos, especialmente nas contratações feitas por Estados e municípios. O consumo do governo cresceu 5,3% no segundo trimestre, com alta de 5,6% no semestre. Segundo a LCA, os governos (municípios, Estados e União) responderam por 1,1 ponto percentual dos 6% de alta do PIB no primeiro semestre, o que reflete o próprio crescimento econômico do país. “O governo está arrecadando mais e está fazendo mais superávit primário”, diz Borges.
O consumo das famílias, com peso de cerca de 60% do PIB, continuou em patamar elevado, mas desacelerou ligeiramente e passou de 6,9% para 6,7% do primeiro para o segundo trimestre na comparação com igual período do ano anterior. “A evolução do consumo das famílias continuou em patamar alto, mas não assusta mais como a alta de 8,6% registrada no quarto trimestre de 2007″, disse Bráulio Borges.
Para o IBGE, a expansão do consumo foi motivada principalmente pelo aumento da massa salarial. No segundo trimestre, a massa salarial dos brasileiros teve alta de 8,1%. Além disso, o crédito farto e os prazos longos de pagamento dos empréstimos contribuíram para a expansão. Houve crescimento de 32,9% no saldo de operações de crédito com recursos livres para pessoas físicas. Na avaliação do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, os dados mostram que o consumo “conserva uma evolução que, sem ser explosiva, é alimentadora das decisões de investimento dos empresários”.
Giovanna lembra que o ritmo de crescimento visto ao longo de 2007 já perdeu força em 2008. A taxa de crescimento do consumo das famílias em termos dessazonalizados ficou em 2,1% no segundo semestre de 2007 e desacelerou para 0,7% até junho de 2008.
Pela ótica da produção, o PIB teve como destaque a agropecuária, cuja expansão foi de 4,8% em relação ao segundo trimestre de 2007 em razão das boas safras de café e milho e ainda a ganhos de produtividade que passaram a ser contabilizados pelo IBGE a partir de 2008. A indústria também ficou em patamar elevado, de 5,7%, puxada pela construção civil. (Com Folhapress)
Tags: agropecuária, Bancos, café, Câmbio, construção, consumo, crédito, Crescimento, desenvolvimento, empresas, exportações, IBGE, importações, Indústria, infra-estrutura, investimentos, Juros, LCA, Mercados, milho, PAC, PIB, Produtividade, safra
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Amartya Sem * – O Estado de São Paulo
A crise dos alimentos que está ameaçando as vidas de milhões de pessoas vai abrandar-se ou se agravará com o passar do tempo? A resposta é: ambas as coisas. A alta recente dos preços dos alimentos foi causada em grande parte por problemas temporários, como seca na Austrália, na Ucrânia e em outros países. Embora a necessidade de vultosas operações de ajuda seja algo da maior urgência, a crise profunda dos dias de hoje deve chegar ao fim.
Entretanto, subjacente a essa crise se encontra um problema fundamental que só poderá intensificar-se, a não ser que nos conscientizemos dele e procuremos solucioná-lo.
É a história de dois povos. Segundo uma versão da história, um país onde os pobres são muito numerosos registra repentinamente uma expansão econômica, mas apenas a metade da população participa dessa nova prosperidade. Os que se beneficiam com ela gastam grande parte da renda recém-adquirida em alimentos e, se a oferta não aumentar com bastante rapidez, os preços poderão disparar. O restante dos pobres agora enfrenta uma alta dos preços dos alimentos, mas não da renda, e começa a morrer de fome. Tragédias como esta ocorrem repetidamente no mundo.
O exemplo mais devastador é a fome no Bengala, em 1943, nos últimos dias do governo britânico na Índia. Os pobres que viviam em centros urbanos experimentaram um aumento acelerado da renda, principalmente em Calcutá, onde os enormes gastos com a guerra contra o Japão provocaram uma explosão que quadruplicou os preços dos alimentos. Os pobres que moravam na zona rural experimentaram esses aumentos vertiginosos dos preços com um aumento mínimo da renda.
Uma equivocada política do governo acentuou essa divisão. As autoridades britânicas tentaram evitar o descontentamento urbano durante a guerra, e o governo passou a adquirir alimentos nas aldeias e a vendê-los nas cidades, a preços altamente subsidiados, numa medida que contribuiu para uma alta ainda maior dos alimentos na zona rural.
Nas aldeias, as pessoas que ganhavam remunerações mínimas começaram a morrer de fome. Na carestia que se seguiu, assim como na esteira dela, morreram de 2 milhões a 3 milhões de pessoas.
Neste momento, discute-se intensamente, como não poderia deixar de ser, a divisão entre a população afluente e a não afluente na economia global, mas os pobres do mundo também estão divididos entre os que registram uma elevada expansão e os que não se beneficiam dela. O rápido crescimento econômico em países como China, Índia e Vietnã tende a aumentar acentuadamente a demanda de alimentos. Evidentemente, isto é excelente em si, e se esses países conseguirem reduzir a desigualdade da divisão interna do crescimento, mesmo os que não são beneficiados comerão muito melhor.
Mas esse crescimento também pressiona os mercados globais de alimentos – às vezes mediante o aumento das importações, outras vezes, por meio de restrições ou proibições das exportações, como ocorreu recentemente em países como Índia, China, Vietnã e Argentina. Os mais particularmente afetados foram os pobres, principalmente na África.
Há também uma versão da história dos dois povos que tem a ver com a alta tecnologia. Produtos agrícolas como milho e soja podem ser usados para produzir o etanol utilizado como combustível automotivo. Portanto, os estômagos dos famintos também precisam competir com os tanques de combustível.
Nesse caso, também influi uma equivocada política governamental. Em 2005, o Congresso americano começou a exigir que se aumentasse o uso do etanol nos veículos. Prevendo um subsídio para a utilização desse produto, a lei criou um florescente mercado de milho nos EUA, mas ao mesmo tempo fez com que recursos agrícolas fossem desviados dos alimentos para a produção do combustível, o que torna ainda mais difícil a concorrência para os estômagos famintos.
O uso do etanol pouco contribui para evitar o aquecimento global e a deterioração ambiental, e, se os políticos americanos permitissem, deveriam ser implementadas com urgência reformas muito claras na política. O uso do etanol poderia ser restringido, em vez de ser incentivado e subsidiado.
O problema global dos alimentos não é provocado por uma tendência de queda da produção mundial, ou da produção de alimentos per capita (o que tem sido muitas vezes afirmado sem muitas evidências). Ele é o resultado da aceleração da demanda. Entretanto, um problema induzido pela demanda também exige a rápida expansão da produção de alimentos, o que pode ser feito mediante uma maior cooperação global.
Embora se deva atribuir ao crescimento populacional apenas uma modesta parcela da crescente demanda de alimentos, ele pode contribuir para o aquecimento global, e, no longo prazo, as mudanças climáticas podem ameaçar a agricultura. Felizmente, o crescimento populacional já está diminuindo, e existem provas esmagadoras de que o aumento do número de mulheres capacitadas para exercer funções de responsabilidade (bem como a ampliação da educação para as jovens) poderá rapidamente reduzi-lo ainda mais.
O problema maior é elaborar políticas eficientes para tratar das conseqüências de uma expansão extremamente assimétrica da economia global. Há uma crucial necessidade de reformas nacionais no âmbito da economia em muitos países que apresentam um lento crescimento, mas há também uma grande necessidade de uma maior cooperação e assistência globais. A primeira tarefa consiste em compreender a natureza do problema.
*Amartya Sem, que leciona economia e filosofia em Harvard, recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 1998. Mais recentemente, escreveu “Identity and Violence: The Ilusion of Destiny”. Ele escreveu este artigo para o ‘The New York Times’
Tags: agricultura, alimentos, Amartya Sem, Crescimento, demanda, desigualdade, Etanol, Fome, milho, Renda, soja, tecnologia
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Davilym Dourado/Valor
Reichstul: ataques contra o etanol não afetarão os planos de investimentos da Brenco, de R$ 5,5 bilhões até 2015
Eugênio Melloni – VALOR
O álcool combustível produzido a partir da cana-de-açúcar virou, recentemente, alvo de intensos ataques de autoridades européias, que vêem na expansão da produção de biocombustíveis ao redor do mundo a razão de uma elevação da inflação dos alimentos. A própria Organização das Nações Unidas (ONU) deu o tom da condenação aos biocombustíveis, com as declarações do relator especial da organização para o Alto Comissariado de Direitos Humanos, Jean Ziegler, de que a sua produção em massa representa um crime contra a humanidade por seu impacto nos preços mundiais dos alimentos.
O presidente da Companhia Brasileira de Energia Renovável (Brenco), Philippe Reichstul, afirma que os ataques desferidos contra o etanol não afetarão os planos de investimentos da empresa, de R$ 5,5 bilhões até 2015 – dos quais R$ 4,5 bilhões serão aplicados na construção de usinas e R$ 1 bilhão para logística e comercialização. “O foco dos ataques é o etanol produzido a partir de grãos”, diz Reichstul. “O etanol é cada vez mais uma idéia acertada, se se levar em conta que o preço do barril do petróleo já atingiu o patamar de US$ 129″, diz.
A expectativa da Brenco – que conta além de Reichstul com acionistas do porte do ex-presidente americano Bill Clinton, Steve Case, ex-AOL Time Warner, o investidor Vinod Khosla, um dos fundadores da Sun Microsystems, o empresário Ricardo Semler e James D. Wolfensohn, o ex-presidente do Banco Mundial – é erguer oito novas usinas dedicadas à produção de etanol, com o objetivo de atingir uma capacidade de processamento de 44 milhões de toneladas de cana por ano em 2015. Com tal capacidade, a Brenco produzirá cerca de 3,8 bilhões de litros de etanol por ano, 15% da produção nacional e 4% da produção mundial.
Para o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, há de tudo nesses ataques ao etanol: interesses comerciais, desinformação e má-fé. Segundo ele, “estão misturando o etanol produzido no Brasil com o etanol fabricado nos Estados Unidos sem considerar que um é feito de cana, que não afeta a produção de alimentos, e o outro, de milho, que afeta”.
Geraldine Kutas, assessora internacional da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), afirma que as pressões que ocorrem na Europa poderão influenciar a legislação relativa a energias renováveis que está sendo discutida pela União Européia, que deverá ser definida até o fim. As discussões envolvem, por exemplo, a definição da obrigatoriedade da mistura de 10% do etanol à gasolina até 2020. “Se, por exemplo, não for obrigatória a mistura, o mercado para o álcool brasileiro tende a crescer pouco”, diz Geraldine.
Segundo a assessora, o álcool brasileiro desfruta de grande competitividade no mercado europeu, suprindo 30% do consumo mesmo pagando uma taxa de importação de ? 0,19 centavos de euros por litro. Atualmente, são exportados para o continente cerca de 800 milhões de litros de álcool combustível.
“Esse movimento na Europa não afetará o ímpeto do álcool brasileiro, mesmo porque o grande mercado para o álcool combustível produzido no Brasil é o doméstico”, diz o diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE), Adriano Pires. Segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), estatal que cuida do planejamento do setor energético, o consumo doméstico de álcool hidratado teve aumento de 46,1%, chegando a 10,4 bilhões de litros em 2007.
Pires considera que as pressões, que ele julga terem embasamento mais político que técnico, tendem a ser superadas com o passar do tempo. “São as barreiras típicas de quem ainda não tem uma tecnologia e deseja barrar ou retardar a entrada no mercado de quem tem”, avalia Pires. “Mas os biocombustíveis vieram para ficar”, acrescenta.
Segundo o Balanço Energético Nacional (BEN) 2008, publicado pela EPE em maio, os produtos derivados de cana apresentaram participação de 16% na composição das fontes primárias usadas no país em 2007, superando pela primeira vez a energia hidráulica, que teve participação de 14,7%. A cana só foi superada na matriz energética pelo petróleo e seus derivados, com participação de 36,7%.
Também no exterior, a escalada dos preços do petróleo e a manutenção de elevados índices de crescimento de economias importantes, influenciaram para que biocombustíveis conquistarem espaço. Segundo dados da Renewable Energy Network for the 21th Century e WorldWatch Institute, a produção de biocombustíveis ao redor do mundo ultrapassou 53 bilhões de litros em 2007, aumento de 43% frente a 2005. A produção mundial de etanol representou cerca de 4% dos 1,3 trilhão de litros de gasolina consumidos no planeta no mesmo ano.
Tags: agricultura, alimentos, Biocombustíveis, Cana, Competitividade, consumo, Crescimento, energia, EPE, Etanol, Euro, Europa, grãos, inflação, investimentos, legislação, Mercados, milho, ONU, petróleo, tecnologia, Ziegler
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De Paris – VALOR
Decisões agrícolas adotadas pela União Européia, como redução de subsídios para etanol e outra utilização de áreas antes destinadas só para produção de biodiesel, não terão efeito sobre o Brasil, na avaliação de fontes em Bruxelas.
Ao mesmo tempo, autoridades brasileiras se inquietam com o retardo da diretiva européia tornando obrigatória a meta de 10% de biocombustíveis até 2020 no transporte terrestre, considerada essencial para a criação de um mercado mundial para o etanol.
A decisão final sobre a diretiva deverá ser arrastada para a presidência francesa da UE, no segundo semestre, em meio ao confronto entre os 27 países comunitários.
A eliminação do subsídio de ? 45 euros por hectare na produção de etanol, confirmada na semana passada, já tinha sido anunciada em novembro e não pegou os produtores de surpresa. A medida é considerada por eles de pouca ou nenhuma relevância. O montante, já pequeno, iria diminuir com a repartição do pacote também para a Romênia, um dos novos membros.
Outra medida agrícola anunciada pela comissária de agricultura, Marian Fischer Boel, foi sobre as áreas de reserva, destinadas à produção de biodiesel. Com a crise alimentar, a UE decidiu liberar a produção para alimentos. Segundo as fontes, que tiveram contatos com produtores, tampouco há preocupação, porque o preço do biodiesel está alto e continuará sendo produzido. Além disso, há suficiente trigo na Europa, sem necessidade de aumentar sua produção.
Em Bruxelas, também não há indicação de que a UE rebaixará as tarifas de importação de etanol, o que beneficiaria o Brasil. Na verdade, a UE quer incluir o etanol na lista de produtos sensíveis na Rodada Doha, na Organização Mundial do Comércio (OMC). Isso significa cortar a tarifa em percentual menor do que a de outros produtos.
A questão essencial é se Bruxelas deve ou não abandonar sua meta obrigatória de utilização de biocombustiveis, diante da alta de preços dos alimentos.
A Comissão Européia, o braço executivo da União Européia, defende o etanol e joga a culpa na produção americana feita a partir do milho. A Comissão reafirmou seu objetivo, descrevendo o etanol como uma das poucas medidas “realisticamente capazes de ter um impacto significativo na redução dos gases de efeito estufa nos transportes terrestres”.
Mas analistas notaram uma mudança no tom da mensagem européia. Agora, a Comissão diz que a meta nunca foi de alcançar 10% de biocombustíveis a qualquer preço. Os 10% devem ser obtidos sob estritas condições, incluindo esquema de produção sustentável e viabilidade comercial para a segunda geração. Bruxelas coloca mais ênfase na sustentabilidade. Isso vai exigir acordo bilateral com o Brasil, para o país se comprometer com o esquema delineado pela UE. (AM)
Tags: agricultura, alimentos, Biocombustíveis, biodiesel, cana de açúcar, Doha, energia, Etanol, Euro, Europa, Mercados, milho, OMC
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Diretor-geral da OMC afirma que solução para a alta de preços alimentícios passa pela abertura do comércio
O GLOBO ENTREVISTA
Pascal Lamy
GENEBRA. Se as atuais regras do comércio internacional forem aplicadas ao pé da letra, o Brasil pode taxar suas exportações de alimentos à vontade, como fez recentemente a Índia com sua produção de arroz. E pelo tempo que quiser, afirma o diretor-geral da Organização Mundial de Comércio (OMC), o francês Pascal Lamy. Porém, quando tira o chapéu de diretor da OMC e coloca o de economista, ele é categórico no sentido inverso. Limitar exportações, isto é, a oferta de produtos no mercado internacional, justamente num momento em que os preços das commodities estão em disparada, só vai ter um efeito: piorar a crise. Em entrevista exclusiva ao GLOBO, Lamy analisa a atual crise e defende que abertura do comércio internacional é parte da solução do problema. Ele também defende abertamente o etanol brasileiro, dizendo que, pelos números que tem, “o etanol não está competindo com alimentos”.
Deborah Berlinck – O Globo
Correspondente
O GLOBO: A crise dos alimentos fez voltar o debate sobre segurança alimentar, com críticos dizendo que é a prova de que países não podem depender de comércio internacional para alimentar sua população.
O que o senhor acha?

PASCAL LAMY: Esta crise dos alimentos é multidimensional.
Há seca e um nível de estoque de alimentos historicamente baixo. Em alguns países, há competição de alimentos com combustíveis. Há preço da energia e mudança na dinâmica dos países em desenvolvimento que levaram a um aumento de consumo de cereais, já que as pessoas estão ficando menos pobres. Parte da crise está relacionada ao comércio, pois, pelas regras atuais, tem sido possível distorcer o comércio agrícola.Um dos objetivos da Rodada de Doha é dar um passo maior (para reduzir as distorções).
Para mim, o problema fundamental da crise é o desajuste entre oferta e demanda.
Qual é a solução?
LAMY: É preciso aumentar a produção. E a linha de transmissão entre oferta e demanda é o comércio.
O comércio resolveria esta crise completamente?
LAMY: Claro que não. Uma das razões é que a capacidade de produção nos países em desenvolvimento é insuficiente.
Não se investiu em agricultura. Não se exploraram as vantagens comparativas.
Poderiam ter explorado se o jogo das regras do comércio internacional fosse justo. É preciso atualizar os sistemas de armazenamento para produzir alimentos. Isso talvez deva ser feito com ajuda do Banco Mundial e da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentos e Agricultura). Comércio é apenas parte do problema e parte da solução. O problema não é muito comércio agrícola: é termos muito pouco comércio.
Voltando à segurança alimentar, essa noção de que cada país deve assegurar, mesmo com subsídios, alimento para sua população…
LAMY: Se países em desenvolvimento precisam de apoio e subsídios para aumentar a capacidade de sua produção agrícola, a OMC permite isso. Os países em desenvolvimento têm amplo espaço dentro das regras do comércio para subsidiar em agricultura.
O senhor está dizendo que é o que eles têm que fazer agora?
LAMY: As regras da OMC não impedem os países em desenvolvimento de aumentarem sua produção com subsídios à irrigação, por exemplo, ou pesquisa, treinamento, ou esquemas para melhorar capacidade.
Se eles começarem a subsidiar agora, isso pode atrapalhar as negociações para abertura do comércio agrícola?
LAMY: Desde que se respeitem as regras da OMC, está bom para mim! O problema das negociações são os subsídios às exportações agrícolas e os subsídios domésticos. E quem está sob foco dos holofotes? EUA, União Européia, Japão, Suíça, Noruega. Não é Índia, China, Brasil ou Senegal.
Vários países, como Brasil, Argentina, Vietnã e Índia, bloquearam ou limitaram suas exportações, para assegurar comida às suas populações. O que o senhor acha?
LAMY: Meu cérebro tem três partes. A maior parte, do diretorgeral da OMC, vai olhar as regras. E elas dizem que cotas à exportação são proibidas, com exceção de emergência com crise alimentar. Não há menção de restrições à taxas de exportações.
Então o Brasil poderia aplicar taxas de exportação o tempo que quisesse?
LAMY: No momento, não há regra alguma na OMC que proíbe taxar exportações. Mas paísesmembros estão extremamente divididos. Importadores de alimentos querem menos restrições às exportações, para assegurar que poderão contar com os mercados internacionais (de alimentos). Já os países exportadores de alimentos não concordam.
E as outras partes do seu cérebro?
LAMY: Uma pequena parte do meu cérebro é o economista, que tem como reação racional o seguinte: se tem um problema com preço dos alimentos, melhor aumentar a oferta que restringila. Caso contrário, você está fazendo o problema piorar.
Estão restringindo as exportações, mas estão garantindo ofertas para suas populações, não?
LAMY: Mas estão restringindo oferta internacional. Isso explica por que o mercado internacional é tão volátil: porque o mercado de oferta é pequeno.
Há outra parte do meu cérebro, que é a política, que está preocupada com seu eleitorado. Se o meu povo está nas ruas protestando por causa do aumento dos preços dos alimentos, eu tenho que responder a ele e não à população do vizinho.
Tudo isso não alimenta quem diz que agricultura não pode ser tratada como comércio qualquer?
LAMY: Três quartos dos membros da OMC são países em desenvolvimento. Eles têm lutado muito nos últimos 20 anos para assegurar que as regras que são aplicadas para carros, sapatos, pneus podem ser de alguma forma aplicáveis à agricultura.
Francamente, dado o peso dos países em desenvolvimento, não vejo como mudar isso.
Especulação nos mercados agrícolas tem sido uma das razões para elevação dos preços.
Qual é a solução?
LAMY: Onde há mercado, há especulação. É engraçado: só se ouve sobre especulação quando o preço aumenta. Nos últimos 20 anos os preços baixaram também por conta de especulação. Sempre se busca um bode expiatório quando se tem problema.
O senhor então concorda com o presidente Lula, que diz que a razão da crise é que há mais pobre comendo?
LAMY: Claro! Por definição, são os pobres que gastam a maior parte de seu dinheiro com comida. Quando os preços aumentam, são os mais atingidos.
Um economista americano argumenta que a maioria dos pobres não usa alimentos obtidos no mercado internacional. Então, o aumento do preço dos alimentos estaria afetando mais pessoas nos países ricos.
LAMY: Não concordo com esta noção de que os países pobres estão desconectados dos mercados internacionais. Eles estão cada vez mais conectados.
Compare com a situação há 30 anos, quando grande parte das populações dos países em desenvolvimento estava em zonas rurais. Eles plantavam, produziam para seu próprio consumo e podiam mudar de um tipo de plantação para outra. Hoje a maioria da população está em zonas urbanas. É uma das razões pelas quais a volatilidade nos preços dos alimentos vai aumentar no futuro. Volatilidade é o que acontece quando o tamanho do mercado aumenta e o ajuste é mais difícil.
Como evitar alta volatilidade nos preços?
LAMY: Isso é muito difícil. Estoques e armazenamento são uma das soluções, desde que você não perca mais alimentos por causa de armazéns precários. A longo prazo, a única solução é ajustar oferta e demanda. Há um potencial para aumentar capacidade de produção nos países em desenvolvimento. Mas isso só vai acontecer se o aumento dos preços levar fazendeiros a produzirem mais.
Esta crise acontece num mal momento para o senhor, que está desesperado para fechar o acordo da Rodada de Doha?
LAMY: Pelo contrário. A produção insuficiente nos países em desenvolvimento é, em parte, resultado de políticas que distorcem o comércio internacional.
Isso mostra que subsídios e tarifas que distorcem o comércio precisam ser reduzidas.
O Brasil quer incluir o etanol na lista de produtos ambientais na OMC, sujeita à maior redução de tarifas. O que o senhor acha?
LAMY: É uma questão para negociação.
Como diretor-geral, preciso ser neutro. Na questão alimentos versus petróleo, estou impressionado como as pessoas são sistemáticas: ou é tudo bom, ou alguns meses depois, tudo ruim. Olhei os números do Brasil, que mostram claramente que etanol não está competindo com alimentos. Mas é preciso olhar toda a cadeia para ver se o etanol tem mesmo sentido sob o ponto de vista ambiental. E isso não é algo que se pode decidir assim.
O Brasil, então, está sendo injustamente criticado pelos que dizem que o etanol está provocando aumento de preços?
LAMY: Os críticos que fazem uma condenação geral estão errados, como também os entusiastas, que antes diziam que tudo isso era formidável.
O Brasil tem ambição de ser grande exportador de etanol…
LAMY: Se a questão é se o etanol brasileiro baseado em cana-de-açúcar é mais respeitoso ao meio ambiente que o etanol à base de milho dos EUA ou União Européia, eu digo: provavelmente sim. Mas meu negócio é comércio.
Negociadores na OMC fracassaram em cumprir vários prazos para chegar a um acordo da Rodada de Doha. Segundo o embaixador uruguaio, se um acordo não for fechado este ano, pode-se levar outros 20 anos. É um exagero?
LAMY: Uma negociação como esta é um processo de acumulação: 152 membros com vários grupos de interesses têm que chegar a um acordo em 20 tópicos.
Então não há chance de se chegar a um acordo este ano?
LAMY: Acho que é possível. Há intenção, um processo com condições políticas e técnicas. É um processo muito complexo. Estamos chegando lá.
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Le Monde
Le Brésil est parti en croisade. Avec, en première ligne, son président, Luiz Inacio Lula da Silva. Et, flottant au vent, la bannière fièrement levée d’une nouvelle grande cause nationale : l’éthanol. Chaque jour ou presque, Lula monte au front. Il défend avec ardeur son biocarburant favori, dont la production, en hausse spectaculaire, représente depuis trente ans un axe majeur de la politique énergétique du Brésil.
Cette croisade est d’abord une contre-attaque. La crise alimentaire a poussé le Brésil, second producteur mondial d’éthanol (à base de canne à sucre), vers le banc des accusés, au côté des Etats-Unis, premier producteur d’agrocarburant (à base de maïs). La fabrication d’éthanol, affirment ses contempteurs, entraîne une réduction des surfaces allouées aux cultures vivrières et contribue ainsi, au moins partiellement, à la hausse des produits agricoles.
Dominique Strauss-Kahn, directeur général du FMI, estime que les biocombustibles posent un “vrai problème moral”. L’ex-rapporteur de l’ONU pour le droit à l’alimentation Jean Ziegler, un rien outrancier, les tient pour responsables d’un possible “crime contre l’humanité”. Nicolas Sarkozy fustige le “dumping fiscal sans précédent” pratiqué par le Brésil et les Etats-Unis pour stimuler l’essor “de certains biocarburants”.
Ces reproches en cascade ont pris de court le Brésil. Hier encore, le monde, et notamment l’Europe, le félicitait pour avoir fait oeuvre de pionnier en choisissant de développer massivement une source d’énergie “propre” qui rejette cinq fois moins de gaz à effet de serre que le pétrole. Aujourd’hui, on met en doute la justesse écologique et éthique de ce choix. Pire, on ferait presque du Brésil un “affameur”.
Résolu à contrer ce qu’il tient pour une campagne de désinformation, le Brésil se pose en victime collatérale des griefs, selon lui légitimes, adressés aux Etats-Unis. Il distingue, jusqu’à les opposer, le “bon” éthanol – le sien – du “mauvais” – l’américain. Le premier est le seul moins coûteux à fabriquer que l’essence. Un hectare de canne produit plus du double d’éthanol qu’un hectare de maïs. La culture et la transformation du maïs consomment sept fois plus d’énergie que celles de la canne.

Surtout, la canne, à l’inverse du maïs, n’est pas un aliment noble. Sa transformation ne prive pas l’humanité d’une nourriture potentielle. Le Brésil se targue d’avoir fait progresser, en parallèle, les céréales et la canne, qui occupe 12 % des surfaces cultivées. “Nous remplissons sans problème les estomacs et les réservoirs des voitures”, résume Lula. La culture de la canne s’étend, pour l’essentiel, sur des pâturages abandonnés. Conclusion du président brésilien : accuser l’éthanol de menacer la sécurité alimentaire est “un mensonge éhonté”.
Face au “bombardement” contre son pays, Lula riposte en invoquant les arguments admis du plus grand nombre. Si les prix flambent, c’est, au-delà des aléas climatiques et parfois à cause d’eux, parce que la consommation s’emballe et que la demande rattrape ou dépasse l’offre : “Il y a davantage de gens qui mangent trois fois par jour. Les Chinois mangent, les Indiens mangent, les Brésiliens mangent, et les gens vivent plus longtemps.” C’est aussi parce que la hausse du prix du pétrole renchérit le transport des denrées et le coût des engrais. C’est encore parce que la crise immobilière et financière incite les spéculateurs à placer leurs fonds sur un marché agricole prometteur.
Mais le Brésil va plus loin. Il condamne le protectionnisme des pays riches, et ses deux outils privilégiés : les subventions agricoles, qui protègent les fermiers et satisfont les consommateurs locaux, mais découragent les producteurs des pays pauvres ; les droits de douane qui pèsent sur les produits venus du Sud. L’éthanol est concerné au premier chef puisque l’Europe lui impose une taxe de 60 %. Le Brésil, qui lui vend tout de même déjà 30 % de l’éthanol qu’elle consomme, dénonce “cette taxe absurde” et négocie avec l’UE à ce sujet depuis octobre 2007. En vain jusqu’à présent. Prompt à blâmer le “lobby pétrolier”, il reproche aussi aux Etats-Unis de ne pas lui acheter son éthanol.
LE PROTECTIONNISME DES PAYS RICHES
L’Europe intéresse au plus haut point le Brésil depuis qu’elle a décidé que les biocarburants, éthanol et biodiesel, devraient, en 2020, composer 10 % – contre 2 % aujourd’hui – du liquide englouti par ses véhicules. Cela représentera un marché annuel d’environ 20 milliards de litres dont le Brésil, premier exportateur mondial, espère recueillir une bonne part. Dans ce domaine comme dans d’autres, le Brésil pense avoir rendez-vous avec l’Histoire. “Tout le monde sait, observe Lula, que notre pays sera un concurrent imbattable, car nous avons la terre, l’eau, les connaissances, la technologie et trente ans d’expérience.” Cette confiance en l’avenir lui autorise quelques accents glorieux : “Le Brésil n’est plus un figurant. C’est un artiste de premier plan”, ou l’incite à l’ironie à l’adresse de ceux qui critiquent l’éthanol : “Bientôt, on va dire que la viande de nos zébus n’est pas bonne et que le café du Brésil est de mauvaise qualité.”
L’éthanol n’a pourtant pas que des vertus. La canne à sucre est gourmande en eau. Sa culture, rentable, conduit les paysans à en délaisser d’autres. Comme toute monoculture, elle use les sols. Elle intensifie la spéculation et la concentration foncière. Les Brésiliens répondent que la canne, culture semi-permanente, cohabite en partie avec des produits alimentaires : soja, arachide ou haricots. Ils rappellent que l’éthanol a enrichi les campagnes, créé un million d’emplois et freiné l’exode rural.
Les pétroliers européens et américains font, eux-mêmes, le pari de l’éthanol brésilien. BP vient d’annoncer de gros investissements. A l’inverse, la première compagnie sucrière brésilienne, Cosan, a racheté la filiale locale du distributeur de carburant Esso. Elle contrôlera ainsi toute la chaîne de l’éthanol, de la plantation jusqu’à l’automobiliste. Quelque 90 % des voitures neuves mises en vente au Brésil fonctionnent à l’éthanol ou à l’essence, mais pour la première fois, en avril, le premier a été plus consommé que la seconde. Le Brésil attend que d’autres grands pays émergents, comme la Chine ou l’Inde, imitent ses choix énergétiques. Ce jour-là, sans doute encore lointain, l’éthanol sera une “commodity” cotée en Bourse sur un marché global, dont le Brésil espère bien être le leader incontesté.
Courriel : langellier@lemonde.fr
Jean-Pierre Langellier
Tags: , agricultura, alimento, biocarburante, Biocombustíveis, cana de açúcar, Etanol, FAO, Fome, governo Lula, Lula, milho, ONU, protecionismo, UE, USA
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Coluna Ciencia em Dia
Folha de S.Paulo
A fundação norte-americana Pew Charitable Trusts é conhecida por apostar fundo na produção de conhecimento e ferramentas de análise para resolver problemas contemporâneos e aperfeiçoar políticas públicas. Na semana passada, publicou um relatório duro da comissão que trabalhou dois anos e meio sobre o sistema industrial de produção de carne (bois, porcos e aves). É de tirar o apetite.
O estudo de 124 páginas recebeu o título de “Pondo a Carne na Mesa” e pode ser baixado da página da Pew na internet (www.pewtrusts.org). Vai direto ao ponto: “O sistema atual para produção de alimentos de origem animal nos Estados Unidos não é sustentável e representa um inaceitável nível de risco para a saúde pública e de dano ao ambiente, assim como traz malefício desnecessário aos animais que criamos para comer”.
O relatório lista “n” fatores em apoio a essa conclusão. Um dos preponderantes, que acabou se tornando muito atual, é a dependência da agropecuária americana dos preços baixos do milho, base da ração usada para o animal ganhar peso em confinamento. A demanda pelo grão para produzir álcool combustível está pulverizando essa fonte barata de proteína, justamente no momento em que o preço do petróleo – de onde saem combustíveis para máquinas e matérias-primas para fertilizantes e defensivos – também bate recordes.
No quesito água, o estudo fornece uma informação preocupante: metade do aqüífero Ogallala já foi exaurida. Com mais de 450 mil quilômetros quadrados, o reservatório debaixo dos Estados de Nebraska, Kansas, Colorado, Oklahoma, Novo México e Texas fornece 20% de toda a água usada em irrigação nos EUA. Não demora em acabar, pois está baixando cerca de um metro por ano.
Chocantes, mesmo, são as conclusões na área dos efeitos sobre a saúde pública. Das 12 recomendações do capítulo, metade diz respeito ao abuso de antibióticos na agropecuária. Além de prevenir e tratar infecções nos animais, antibióticos também são empregados como aditivos na ração, para aumentar o ganho de peso.
Quanto mais se usam antibióticos, em humanos ou animais, pior se torna o problema da resistência. A maior parte das bactérias expostas a esses remédios morre. As poucas que tiverem resistência ao composto, porém, ganham uma enorme vantagem competitiva e se reproduzem rapidamente, passando a infectar os organismos sem que o antibiótico em questão possa eliminá-las. Com o tempo, surgem cepas terríveis de micróbios, que deixam os médicos sem ação.
O relatório diz que o fenômeno da resistência já se tornou “epidêmico”. Propõe, por isso, uma medida radical: banir todo uso não-terapêutico de antibióticos na pecuária. Ou seja, essas drogas só poderiam ser empregadas para tratar animais com infecção ou para prevenir infecções naqueles que comprovadamente tenham sido expostos a elas. Quanto ao uso terapêutico, propõe tornar obrigatória a regra de excluir do tratamento de animais aqueles antibióticos classificados como importantes para a saúde humana.
A Suécia baniu os antibióticos não-terapêuticos em 1986. A Dinamarca, em 1998. A União Européia, em 2006. Como resultado, vem diminuindo o reservatório de genes para resistência que poderia armar os germes capazes de atacar humanos (bactérias trocam material genético a torto e a direito).
E você, já ingeriu a sua ração diária de antibióticos?
Escrito por Marcelo Leite
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Jean Ziegler envia carta ao Itamaraty dizendo que país não deve ser criticado


Eliane Oliveira e José Meirelles Passos – O Gliobo
BRASÍLIA e WASHINGTON. O mesmo relator para Direito à Alimentação da Organização das Nações Unidas (ONU), Jean Ziegler, que pediu ontem a suspensão temporária da produção de biocombustíveis, elogiou, há menos de dez dias, o programa de etanol e biodiesel brasileiro. Em carta encaminhada ao Itamaraty no último dia 21, Ziegler reconheceu que o caso do Brasil é diferente e, por isso, o país não pode ser acusado de usar alimentos para produzir essa fonte de energia.
“O caso brasileiro é realmente específico”, diz um trecho da carta.
A intenção do funcionário da ONU era reparar o que chamou de “mal-entendido”. Ele afirmou que houve má interpretação de um jornal francês a respeito de um relatório que apresentou nos dias 13 e 14 deste mês, em Nova York, sobre o direito à alimentação.
Ziegler também se mostrou preocupado com a resposta dada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva a uma declaração sua de que a produção em massa de biocombustíveis seria um crime contra a humanidade.
Na carta, Ziegler disse ter conversado com autoridades brasileiras sobre o programa de biocombustíveis do Brasil. Ele afirmou ter ficado “particularmente impressionado” com os programas sociais elaborados pela Petrobras, para ajudar os pequenos produtores que cultivam mamona e outros frutos de baixo valor de mercado. E citou ainda o fato de o Brasil extrair essencialmente o açúcar da cana, e não de outros alimentos básicos, numa referência indireta a países que utilizam, por exemplo, a beterraba, como os europeus.
Dilma defende etanol a empresários nos EUA
Ziegler reafirmou sua posição de que está preocupado com as grandes quantidades de biocombustíveis são produzidas a partir de alimentos. Ele mencionou os Estados Unidos, que vêm usando milho para produzir etanol. Sobre o Brasil, o relator da ONU disse que vê aspectos “fortemente positivos” na estratégia brasileira. Ele finaliza a carta citando a reação de Lula às suas declarações e a defesa da produção dos biocombustíveis em países em desenvolvimento pelo presidente brasileiro. Ziegler pede ao Itamaraty que transmita sua posição a Lula.
Já a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, aproveitou a sua ida à Casa Branca, ontem, onde participou da segunda reunião do Fórum de Altos Executivos de Empresas Brasil-EUA, para fazer uma apaixonada defesa do etanol brasileiro — que, como disse, vem sendo vítima de “afirmações tendenciosas” em todo o mundo, apontado como culpado pelo aumento de preços dos alimentos.
Dilma disse que a culpa, na verdade, é do petróleo: — A participação do etanol na matriz energética internacional de combustíveis deve ser algo próximo do zero. Então o efeito dos combustíveis sobre o alimento se deve ao preço do petróleo.
Isso é um fato — disse ela, após a reunião.
A ministra disse que, na verdade, o que está causando a alta dos alimentos é o impacto do preço dos fertilizantes, da irrigação e do transporte: — Não me consta que os biocombustíveis participem de forma expressiva na matriz energética, na matriz de combustíveis internacional. Eles têm uma participação residual — insistiu a ministra.
Depois de dizer que repetira essa defesa do etanol tanto em sua recente viagem ao Japão, quanto à Coréia e, ontem, nos EUA, ele aproveitou a oportunidade para criticar os países ricos por continuarem subsidiando os seus produtores de alimentos e, no caso dos EUA, também os de etanol (através do milho): — Neste momento em que há toda essa pressão a respeito dos alimentos, é bom que os países desenvolvidos pensem a respeito de todos os mecanismos de proteção que fazem sobre a sua própria agricultura e que impede que a agricultura dos países em desenvolvimento, principalmente dos mais pobres, cresça e se expanda de forma sustentável.
Em Berna, na Suíça, o secretáriogeral da ONU, Ban Kimoon, reuniu as 27 agências internacionais da organização, para alinhavar uma posição conjunta contra o aumento dos preços dos alimentos, inclusive a FAO. Na reunião, Ziegler defendeu uma moratória na produção de biocombustíveis.
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Produção americana de biocombustível de milho é o que causa a alta no preço dos grãos, e não o etanol de cana, diz economista
Lourival Sant’Anna – O Estado de São Paulo
Roma – O secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, prometeu criar um grupo de estudos sobre a crise dos alimentos. Na ONU, a pessoa a ouvir sobre isso é o economista Abdolreza Abbassian, secretário do Grupo Intergovernamental sobre Grãos da Organização das Nações Unidas para Alimentos e Agricultura (FAO): “Quando falamos da influência dos biocombustíveis na economia dos grãos, estamos falando do milho dos Estados Unidos, não da cana-de-açúcar do Brasil”, diz Abbassian, um iraniano de 49 anos, há 17 na FAO.
“Não temos nada contra o etanol brasileiro”, garante o economista, que antes trabalhou na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e no Fundo Monetário Internacional (FMI). Entretanto, pondera, isso não quer dizer que, no futuro, não possa haver relação, ainda que indireta, entre a produção de etanol no Brasil e a redução de terras para a criação de gado e, com ela, o avanço dos pastos na Amazônia.
Em entrevista ao Estado, na sede da FAO em Roma, Abbassian reconhece que os subsídios nos EUA e na Europa inviabilizam projetos de biocombustíveis em países pobres. Mas estima que, independentemente dos subsídios, com exceção do Brasil e outros poucos que podem produzir álcool da cana, é “discutível” que países da África ou a Índia venham a ter produção comercialmente viável de biocombustíveis, como quer o presidente Lula.
A partir da revolução verde, há 30 anos, dizia-se que o mundo passou a produzir alimentos mais que suficientes para a população mundial, e o problema era de distribuição e de renda. Isso deixou de ser verdade?
Não. O problema principal, seja no Haiti ou no Egito, continua sendo o mesmo: acesso. A fome existia antes do boom de biocombustíveis e segue existindo com ele.
O fato de os asiáticos estarem comendo mais não mudou isso?
Não. A produção mais do que triplicou nesses 30 anos, acompanhando o crescimento da população e da renda e a mudança na dieta tanto na Ásia quanto no resto do mundo.
A produção de biocombustíveis pode prejudicar a de alimentos?
Pode. Os biocombustíveis introduzem uma nova demanda. Mas nossas afirmações têm sido tiradas do contexto e por isso estamos nessa confusão. Em junho, quando expusemos nossa posição sobre a influência dos biocombustíveis na economia dos grãos, não mencionamos açúcar. Quando citamos etanol, estávamos falando do derivado do milho.
Mas fomos alvo de um bombardeio do Brasil: “O que vocês têm contra o nosso etanol?”
Nada. Leiam o relatório. Não falávamos do Brasil, que tem uma história de 30 anos de produção sustentável de álcool de cana-de-açúcar. Quando falamos de grãos, estamos falando dos Estados Unidos – o maior produtor, consumidor e exportador de milho. É lógico que, quando uma demanda tão forte de grãos emerge tão depressa, terá de ter implicações. Quem disser que não, deve morar em Marte. No ano passado, 84 milhões de toneladas de milho foram destinadas ao etanol. O comércio mundial de milho é de cerca de 90 milhões de toneladas. Em quatro anos, a produção dobrou. Os fazendeiros americanos foram capazes de aumentar a produção tão rapidamente que não só houve milho suficiente para a expansão dos biocombustíveis, mas os EUA ainda exportaram mais, destinaram mais milho à ração de animais e aumentaram ligeiramente seu estoque.
Então, qual o problema?
Os EUA tiveram de reduzir sua produção de soja e de trigo na mesma proporção em que aumentaram a de milho. A partir de março do ano passado, há um gargalo de suprimento de soja. A produção de trigo dos EUA e de outros países também caiu. Resultado: os preços dos dois grãos subiram. E o milho, apesar da produção recorde nos EUA, começou a subir também. Na safra 2007-2008, os biocombustíveis foram um dos principais fatores, não o único. Houve seca também. Na próxima safra, os biocombustíveis podem ser o fator determinante, se os preços continuarem altos.
A soja brasileira pode entrar substituindo o milho para alimentar rebanhos?
O aumento da demanda do milho para o etanol (nos EUA) pressionará o preço da soja. O Brasil é um dos poucos países com potencial de crescimento da produção de praticamente qualquer coisa, e talvez aumente a produção de soja, para atender à demanda da China e dos EUA, que têm capacidade limitada de expandir o uso da terra. O que acontecerá com as terras destinadas ao pasto? Se elas se deslocarem, irão para onde? Muitos ambientalistas têm nos dito que terão de avançar na floresta. Sabemos que o desmatamento não é para plantar cana. Essa é a cadeia que torna o biocombustível responsável. O grau de influência dele é assunto para futuras pesquisas. É um fenômeno recente demais para fazermos análises estatísticas. O que não se pode dizer é que o biocombustível é irrelevante.
No Brasil se argumenta que há terras improdutivas suficientes para a expansão da produção.
É possível. Mas, com o crescimento da demanda por grãos, as terras para pasto vão encolher, o preço da terra vai subir e a fronteira agrícola subirá para o norte. Não será do dia para a noite, não há relação direta e depende de quanto crescerá a demanda por soja e biocombustível no mundo.
O governo brasileiro se defende dizendo que os subsídios e barreiras americanos e europeus prejudicam muito mais o acesso dos pobres aos alimentos do que o biocombustível, porque impede a venda de produtos agrícolas aos seus mercados, que aumentaria a renda dos países em desenvolvimento. O que o senhor acha desse argumento?
Os subsídios foram a causa dos preços baixos no passado. De repente, o mundo está tentando ver esses preços baixos com simpatia, mas é uma falácia. Eram preços artificialmente baixos, que prejudicaram os países em desenvolvimento, que não puderam aumentar sua produção por causa desse dumping. Seus preços eram sempre mais altos. Mas isso tem mudado sob a Rodada Doha (da Organização Mundial do Comércio) nos últimos dez anos. Não vamos chegar a nenhum lugar discutindo o que é pior: subsídios ou biocombustíveis. Ambos são prejudiciais.
E quanto à possibilidade de os países pobres gerarem renda produzindo biocombustíveis?
Há cerca de um ano, a FAO recebeu propostas de projetos nesse sentido. Isso nunca foi adiante porque os EUA, a União Européia e mais alguns países desenvolvidos começaram a dar enormes subsídios para seus fazendeiros produzirem grãos. Se não fosse isso, seria válido pensar em estimular a produção de grãos na África e na Índia, que fixaria o homem no campo e geraria renda. Quando começou esse boom, houve muita discussão sobre o volume de recursos necessário para criar as condições de os países pobres produzirem biocombustíveis para os EUA e a Europa. Eu mesmo tenho três pequenos projetos de sorgo na Ásia, mas o que existe são projetos-piloto para fixar agricultores aqui e ali. Nada na escala do Brasil ou dos EUA. E provavelmente continuará assim, porque os subsídios e todos os mecanismos de dedução de impostos que os EUA colocam na produção de milho tornam impossível para esses países competir. Se é a isso que o presidente Lula se refere, faz sentido. Mas há outra questão: faz sentido para os africanos e indianos destinar a sua terra e água à produção exclusiva de matéria-prima para biocombustíveis? Isso tem implicações econômicas e ambientais, e ainda está em estudos. A economia terá a palavra final, e não a emoção ou o interesse nacional.
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Antônio Márcio Buainain* – O Estado de São Paulo
Nesta temporada de final de campeonatos estaduais vem à mente aquela imagem da bola roubada quando o gol já estava praticamente feito para caracterizar a polêmica global sobre inflação de alimentos, que coloca o biocombustível – visto até então como uma virtuosa contribuição para reduzir o aquecimento global e como alternativa para a escassez do petróleo – no papel de vilão. As declarações de personalidades mundiais (“o biocombustível é crime contra a humanidade”, Jean Ziegler, consultor da ONU; “é problema moral”, Strauss-Khan, diretor-geral do FMI) indicam o potencial explosivo do debate, cujos efeitos sobre o futuro deste promissor segmento não podem ser negligenciados.
É possível contra-atacar afirmando que “problema moral” é manter o “bolsa-vaca”, que distribui em média US$ 3,50 por dia às vacas européias, enquanto 75% da população africana vive com menos de US$ 2 por dia, e que “crime contra a humanidade” é praticar políticas protecionistas que impedem o desenvolvimento dos países mais pobres, ou destinar bilhões de dólares a guerras com pretextos mentirosos. Ainda que válidos, é provável que esses argumentos encontrem ouvidos de mercador pelo mundo afora e não sejam suficientes para evitar os efeitos negativos imediatos sobre o negócio do biocombustível.
Os fatos são relativamente claros. Os preços das commodities já se vinham elevando desde 2002, em resposta, antes de tudo, à elevação da demanda associada às mudanças estruturais na geografia comercial, à conjuntura favorável da economia mundial e ao crescimento da renda nos países em desenvolvimento. Outros fatores, como a elevação do preço do petróleo – insumo básico para a cadeia da produção e comercialização de alimentos – e a instabilidade financeira, também contribuíram. Só a partir de em 2006, e de forma mais forte em 2007, a demanda de grãos para a produção de biocombustível nos EUA e na Europa entra para reforçar a tendência de alta.
Tradicionalmente a oferta agrícola responde quase de imediato aos estímulos de mercado. A evolução recente da oferta mundial não acompanhou o ritmo da demanda, devido, entre outras razões, à incerteza que caracteriza o mercado agrícola mundial, sujeito a forte protecionismo e suscetível à influência das políticas americana e européia. Uma simples decisão da política agrícola dos EUA ou da União Européia pode mudar radicalmente o mercado, a favor ou contra, como comprova a decisão de produzir biocombustível de grãos. A agricultura moderna exige investimentos relevantes dos produtores e dos países. Como investir sem garantias de acesso aos mercados, sem recursos fiscais e sem financiamento internacional? O economista brasileiro Otaviano Canuto, vice-presidente executivo do BID, já tinha chamado a atenção para a seriedade da agflation e da assimetria dos impactos sobre a balança comercial, inflação doméstica e pobreza dos países da América Latina e do mundo (Global agflation, energy security and bio-fuels, in www.rgemonitor.com).
Também é fato claro que o vínculo entre aginflação e biocombustível se deve à decisão americana de produzir etanol a partir de grãos, e que pouco ou nada tem que ver com a produção brasileira à base de cana-de-açúcar. Ao contrário do que ocorre no EUA, a produção do etanol no Brasil vem crescendo juntamente com a de grãos e alimentos em geral. O dinamismo do agronegócio brasileiro contribuiu para conter a elevação de preços, que teria sido maior sem soja, carne, milho, açúcar, algodão e frutas brasileiros.
Os fatos precisam ser analisados e discutidos exaustivamente. Mas não é suficiente. Aqui estamos diante da “dimensão político-cultural dos mercados”, cuja importância o sociólogo Ricardo Abramovay, professor da USP, ressalta ao analisar o papel da ciência e das inovações tecnológicas (Bem-vindo ao mundo da polêmica, jornal Valor, 1º/11/2007). A racionalidade econômica e verdades científicas precisam ser sancionadas pela sociedade para se afirmarem como inovações e romperem paradigmas. E para isso uma comunicação adequada – não confundir com propaganda – é muito importante. O estrago está feito. Basta ver a imprensa européia ou a opinião cética ou contrária do cidadão nas principais capitais do mundo. Sem presunção, será preciso reconquistar corações e mentes para o biocombustível e para isso não podemos fechar os olhos para a questão alimentar. Nossa melhor resposta terá de vir do dinamismo do nosso agronegócio.
*Antônio Márcio Buainain é professor do Instituto de Economia da Unicamp. E-mail: buainain@eco.unicamp.br
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ANTONIO PALOCCI – O GLOBO
O relator especial da ONU para o direito à alimentação, o suíço Jean Ziegler, encontrou uma inusitada explicação para a alta do preço dos alimentos: é culpa da produção de biocombustíveis, “um crime contra a humanidade”.
Outras autoridades européias se ocuparam, nas últimas semanas, num violento tiroteio contra o etanol. O argumento básico utilizado por eles é que a produção do etanol está ocupando áreas de plantio dos alimentos e de pastagens, encarecendo os produtos alimentícios.
Se estivessem seriamente preocupados com as reais razões para a onda altista dos alimentos eles poderiam se perguntar por que o Brasil, maior produtor mundial de etanol de cana-de-açúcar nas últimas três décadas, se tornou, ao mesmo tempo, o maior exportador de soja, açúcar, café, milho, laranja e carne bovina e de frango. Não se fazem tal pergunta porque ela desmontaria suas apressadas conclusões.
A bem da verdade, os únicos casos em que os biocombustíveis pressionam preços acontecem exatamente nos países onde eles recebem fortes subsídios, inclusive na Zona do Euro, por decisões das próprias autoridades que agora atacam o etanol.
Mas mesmo se considerarmos a produção americana de etanol, com altos subsídios e baixa produtividade energética, e tendo como insumo o milho, causando alguma pressão sobre o preço dos grãos, ainda assim teríamos apenas uma explicação parcial. Serviria mais para demonstrar um claro exemplo de alocação ineficiente de recursos do que para justificar o comportamento do preço dos alimentos.
Mais recentemente verifica-se um movimento de caráter mais especulativo em direção aos mercados de futuros das commodities, com investidores financeiros buscando ativos aparentemente mais robustos diante da crise financeira em curso. Mas se esse movimento colabora com a alta de preços, também não é suficiente para justificá-la.
Parece claro que o principal fator explicativo para a alta dos alimentos é um desequilíbrio entre uma oferta que cresceu pouco nos últimos anos e uma demanda que tem crescido exponencialmente nos países emergentes, principalmente naqueles com grandes populações.
Como disse o presidente Lula de forma simples e direta, o fato é que o povo pobre dos países emergentes está comendo mais e a produção não está acompanhando.
Outro fator importante é a escalada do preço do petróleo, cujo patamar mais que dobrou nos últimos cinco anos. É bastante conhecido o efeito do preço dos combustíveis para produtos de baixo valor agregado, que têm no transporte uma parte importante de seu custo.
Mas ainda há, além desses fatores conjunturais, problemas crônicos, estruturais, que têm contribuído com o baixo crescimento na produção de alimentos: o protecionismo e os subsídios praticados pelos países ricos contra os alimentos produzidos nos países em desenvolvimento.
Essa prática anticoncorrencial tem desestimulado os países emergentes a investir mais na produção de alimentos, tendo em vista as fortes barreiras que encontram nas exportações.
E é exatamente essa questão que as autoridades européias tentam camuflar com seus insistentes ataques ao etanol.
É a velha arma do diversionismo.
Enfim, é de se esperar que os inimigos de ocasião dos biocombustíveis continuem sua cruzada, pois o protecionismo, quando posto em questão, sempre é sustentado por argumentos dramáticos. Mas pelo menos seria recomendável que estas autoridades não acreditassem na sua própria mentira. Se continuarmos aceitando diagnósticos pobres, interessados e simplistas sobre tendências de preços, talvez acordemos tarde demais para buscar soluções efetivas para a ampliação na produção de alimentos. Soluções que dependem de ações coordenadas dos países e das instituições multilaterais.
Sem isso sobrará aos Bancos Centrais a triste tarefa de aumentar juros e compulsórios para conter as pressões inflacionárias já presentes em todos os continentes. O preço dos alimentos é, antes de tudo, o preço da omissão.
Biocombustíveis só pressionam preços nos países onde recebem fortes subsídios
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O Estado de São Paulo
Para o governo, maioria das objeções se aplica ao etanol de milho americano, mas atingem por tabela o produto nacional, feito de cana
Ao fim de duas semanas ouvindo críticas generalizadas de europeus, de líderes do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Mundial e de movimentos sociais à produção de etanol, o governo Lula admite que foi surpreendido pela escalada do ataque, mas avalia que o Brasil está apanhando por tabela no ricochete de uma condenação aos Estados Unidos.
Mapeando os cinco grupos de críticas básicas aos biocombustíveis, o governo concluiu que a maioria das objeções se aplica ao etanol de milho, genuíno produto americano.
O Planalto começou na semana passada a organizar os argumentos do seu contra-ataque. “Não estávamos preparados”, admitiu o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge.
Uma das medidas do contra-ataque é acelerar o certificado do Inmetro ( Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial) que vai assegurar ao importador que o etanol não foi produzido usando trabalho escravo ou à custa de prejuízos ao meio ambiente. Assim, são esvaziados dois dos principais problemas identificados pelos críticos dos biocombustíveis.
Em junho ou julho, deverá ficar pronto o zoneamento da produção de cana-de-açúcar, segundo informou ao Estado o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes. O trabalho vai dizer onde é possível plantá-la, onde o governo quer que seja cultivada e onde será barrada a entrada dos canaviais.
A Bacia Amazônica e o Pantanal serão preservados do avanço da cana-de-açúcar, numa sinalização importante aos ambientalistas. A prioridade será o cultivo em áreas de pastagens.
Outra iniciativa é contratar uma empresa internacional de relações públicas, já que se trava uma batalha no campo das opiniões. Trabalhos de especialistas brasileiros serão divulgados em publicações e encontros internacionais, onde hoje a maioria esmagadora é contra os biocombustíveis.
O governo aposta suas fichas também na realização de uma conferência internacional sobre o tema, em novembro, em São Paulo. Ao anunciá-la, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que será uma oportunidade para discutir os prós e contras dos biocombustíveis “de forma racional”.
O entendimento é que o etanol e o biodiesel têm sofrido ataques irracionais, principalmente da Europa. Desde que a União Européia decidiu adicionar 10% de biocombustíveis até 2015, começou a pressão dos agricultores do bloco para garantir esse mercado para si. E alguns governantes viram nessa decisão uma forma de tornar mais eficiente o custoso programa europeu de subsídios ao setor agrícola.
O ponto alto dos ataques ocorreu no início deste mês, quando o relator especial das Nações Unidas para o Direito à Alimentação, o suíço Jean Ziegler, classificou os biocombustíveis de “crime contra a humanidade”, pois utilizam terras que deveriam produzir comida. No Brasil, a produção de alimentos cresceu 6,8% na última safra, apesar do avanço do etanol.
Irritado, o presidente Lula chamou os críticos de “palpiteiros”. “É muito fácil ficar sentado num banco na Suíça e dar palpite aqui ou na África”. Não satisfeito, acrescentou: “O verdadeiro ‘crime contra a humanidade’ será descartar a priori os biocombustíveis e relegar os países estrangulados pela falta de alimentos e de energia à dependência e à insegurança”.
CRÍTICAS
O governo identificou, até agora, cinco grupos de críticas aos biocombustíveis: 1) que não reduzem a emissão de gases que provocam o efeito estufa; 2) que causam desmatamento; 3) que a produção envolve um consumo elevado de petróleo; 4) que é utilizado trabalho escravo e 5) que os biocombustíveis “roubam” a terra que produziria alimentos.
O governo não concorda com nenhuma dessas críticas, embora admita casos isolados de trabalho degradante na lavoura, contra a lei.
Na maior parte, as críticas se aplicam ao etanol de milho, produzido nos Estados Unidos. Mas, admitem fontes do governo, o etanol brasileiro produzido a partir da cana-de-açúcar “apanha junto”.
No mês que vem, Lula vai defender os biocombustíveis na Europa. Participará da reunião da Organização para Agricultura e Alimentação (FAO), órgão das Nações Unidas para o combate à fome, em Roma. “Vou com a disposição de fazer o debate com a seriedade que precisa ter.”
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