03/05/2009 - 09:44h China vira principal comprador do Brasil

Com alta de 61% nas compras, China passa os EUA na lista de importadores

Márcia De Chiara – O Estado SP

A China está salvando as exportações brasileiras em meio à recessão global. Em março, pela primeira vez o país foi o principal destino dos produtos nacionais, desbancando a liderança histórica dos Estados Unidos. As exportações para China no primeiro trimestre cresceram 62,67% em valor e 41,47% em quantidade na comparação com o mesmo período de 2008.

Os principais beneficiados foram os produtores de soja, celulose, minério de ferro e petróleo. Essas quatro commodities respondem por 76,6% da receita de exportações brasileiras para o país, aponta a Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex).

“No pior dos mundos, o Brasil está melhor”, afirma Miguel Daoud, economista-chefe da consultoria Global Financial Advisor e especialista em China. Com a crise global, o governo chinês decidiu injetar quase US$ 600 bilhões na economia. O objetivo é estimular os negócios e mudar o modelo de economia exportadora para outro, voltado para o mercado interno. Esse pacote já começou a fazer efeito, com repercussões diretas no Brasil.

Daoud observa que o pacote está concentrado na construção civil. Isso significa maior consumo de aço e, consequentemente, de minério de ferro, a matéria-prima básica da siderurgia. Além disso, o governo chinês traçou um plano para tornar o país autossuficiente em cerca de uma dúzia de produtos agrícolas. Como apenas 10% do território são próprios para a agricultura, a China está aumentando as importações dos produtos que não são prioridade no plano de autossuficiência. É o caso da soja, o principal produto de exportação das lavouras brasileiras.

O salto chinês nas compras do Brasil chama ainda mais atenção pelo fato de as exportações brasileiras terem registrado no primeiro trimestre do ano um recuo de mais de 19% em relação ao mesmo período de 2008. As importações também caíram, mas um pouco mais: 21,6%. Apesar das quedas, a balança comercial brasileira registrou superávit de 9% no trimestre.

Estrela do comércio exterior, a China importou US$ 3,395 bilhões do Brasil no primeiro trimestre e foi praticamente o único país que ampliou significativamente as compras de produtos brasileiros, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). A China respondeu por 47% das exportações para a Ásia, que ultrapassou a América Latina como bloco comercial no primeiro trimestre, segundo o secretário de Comércio Exterior do MDIC, Welber Barral.

“As exportações para a Ásia vêm aumentando, apesar da crise. Tirando o Japão, o bloco tem um potencial comercial muito grande a ser explorado”, diz Barral.

Sem o robusto crescimento das vendas para a China, o superávit da balança comercial brasileira de US$ 3 bilhões no trimestre encolheria US$ 1,8 bilhão, calcula o vice-presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro.

A liderança da China nas compras brasileiras não é transitória e deve se repetir nos próximos meses, prevê Daoud. Ele diz, no entanto, que com uma taxa de crescimento do PIB de 6% para este ano, o país não vai puxar o crescimento mundial, mas será “importantíssimo” para o Brasil.

“A China tem um papel muito importante em relação ao Brasil como um grande demandante de commodities”, diz o economista-chefe da Funcex, Fernando Ribeiro. Mas ele discorda de Daoud sobre o impacto da economia chinesa como motor do crescimento global e sobre a manutenção da liderança das compras de produtos brasileiros.

Ribeiro diz que não tem dúvida de que a China exerce um papel crucial na recuperação mundial, mesmo crescendo 6% em 2009. Ele prevê que o país continue ganhando importância nas exportações brasileiras nos próximos meses. Mas, para o ano como um todo, deve encostar nos EUA, que, na sua opinião, vai continuar liderando as compras do Brasil.

Castro, da AEB, lembra que o governo brasileiro temia o déficit na balança comercial no primeiro trimestre. Tanto que chegou a baixar medidas de licença não automática para importações, depois revogadas. “Mas o cenário mudou completamente e a balança comercial registrou déficit apenas em janeiro.”

O vice-presidente executivo da AEB se diz surpreso com as taxas de crescimento dos volumes exportados para a China. A quantidade vendida de celulose, por exemplo, aumentou 650% no primeiro trimestre ante o mesmo período de 2008. No caso do ferro fundido, da soja e do minério de ferro, houve crescimento de 700%, 120% e 40%, respectivamente, nas quantidades exportadas entre janeiro e março.

“Essas taxas de crescimento são desproporcionais”, diz o economista. Na análise de Castro, esse ritmo de crescimento de compras não deve se manter, mesmo com a China crescendo 6% ao ano.

17/03/2008 - 09:40h Rumo a US$ 10 mil

GEORGE VIDOR – O GLOBO

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RENDA 

Em meados da década de 70, uma renda média anual por habitante de US$ 10 mil era considerada a linha que separava os países subdesenvolvidos das economias desenvolvidas. Outros parâmetros são hoje também considerados (expectativa de vida, educação, acesso a serviços básicos etc.) e, no caso da renda per capita, a barreira de transposição saltou para cerca de US$ 20 mil.

Mantido um ritmo de crescimento de 4,5% a 5% ao ano, a economia brasileira possivelmente alcançará o patamar de uma renda média por habitante de US$ 10 mil no fim desta década. E poderia deixar o rol das nações não desenvolvidas na década de 2020, objetivo que a China somente deverá alcançar após 2030.

Esse processo se aceleraria caso a taxa de expansão demográfica no Brasil venha a cair para menos de 1% ao ano. Isso será possível se os programas de planejamento familiar em curso derem os resultados desejados, com os índices de fecundidade das mulheres bem humildes se aproximando dos que são usuais na classe média brasileira.

FORNOS 

Os fornos já estão na fase de preaquecimento e em poucos dias (provavelmente com a presença do presidente Lula) a Samarco dará partida à sua terceira usina de pelotização de minério de ferro em Ubu, no município de Anchieta (Espírito Santo), elevando sua capacidade de produção para 21 milhões de toneladas anuais.

Junto com o segundo mineroduto da companhia, a obra, iniciada há três anos, representou um investimento de R$ 3 bilhões. Em contrapartida, a receita da empresa — proveniente 100% de exportações — aumentará de US$ 1,9 bilhão para a casa de US$ 3 bilhões.

A pelotização adiciona valor ao minério de ferro. As pelotas são usadas em proporção de 15% nos altosfornos das siderúrgicas para dar mais rendimento a esses equipamentos.

No caso da Samarco, o minério extraído das minas em Mariana e Ouro Preto é transportado agora até o Espírito Santo por dois minerodutos, cada qual de 400 quilômetros (o primeiro deles completou 30 anos). O minério, muito fino, é carregado pela água, dentro dos tubos, a seu destino, onde acaba separado por grandes “coadores” e sugadores.

A água depurada do minério é quase totalmente reaproveitada na usina de pelotização.

Essa terceira usina da Samarco queimará óleo inicialmente, mas está preparada para funcionar em breve com o gás natural que começou a ser produzido no Norte do Espírito Santo.

A obra chegou a empregar mais de dez mil pessoas, com o cuidado de se aproveitar 70% de mão-de-obra local (os 30% restantes eram basicamente compostos de profissionais que têm como rotina o trabalho itinerante, deslocando-se de um grande projeto para outro dentro do país). Assim evitou-se uma imigração indesejável, que poderia provocar sérios problemas sociais na região após a conclusão do investimento.

A faixa de domínio usada pela Samarco ainda tem espaço para mais dois outros minerodutos. Será que virão novos investimentos por aí?

EMPREGO

O Ipea destrincha os dados do IBGE sobre a situação do emprego nas principais regiões metropolitanas do país e edita interessante boletim trimestral com uma radiografia do mercado de trabalho. A mais recente análise mostra que no ano passado, nas seis maiores regiões metropolitanas, foram criados 690 mil novos empregos para pessoas com 11 ou mais anos de estudo (entre oito e 11 anos de estudo, foram gerados 76 mil empregos), mas o número de empregos entre as pessoas com até sete anos de instrução diminuiu 160 mil. Desse modo, no total a geração de empregos foi de 623 mil nessas regiões metropolitanas, com destaque para a de São Paulo (289 mil, representando 46% dos postos de trabalho gerados), em termos absolutos, e as RM de Salvador e Belo Horizonte, em termos relativos. A região metropolitana de Recife foi a que menos gerou empregos: apenas oito mil em 2007.

As pessoas entre 25 e 49 anos ocuparam 59% desses novos empregos. E a faixa etária de 50 anos ou mais ficou com 30%. A população ocupada na faixa de 15 a 17 anos diminuiu, o que é um bom sinal: pode significar que a moçada está preferindo permanecer mais tempo na escola porque somente assim encontrará depois boa colocação no mercado de trabalho. Sem ensino médio completo, a possibilidade de contratação é pequena.

O crescimento dos empregos nas regiões metropolitanas foi de 3%, puxado pelas contratações com carteira assinada (mais 5,2%). Os empregos sem carteira diminuíram 1,5%.

JUROS 

O mercado já tinha se convencido de que dava para segurar a inflação com o atual nível de taxas de juros, o que seria meio caminho andado para se atingir os objetivos de política monetária este ano. Como, sob qualquer parâmetro de análise, os juros no Brasil terão de ser ajustados algum dia para que a economia se torne mais eficiente, com o propósito de evitar pressões nesse sentido o Banco Central resolveu enfiar um bode na sala, dramatizando a recente reunião do Copom. As expectativas se voltaram novamente para uma alta dos juros básicos, que seria uma medida precipitada e carregada de tantos efeitos colaterais negativos que possivelmente anulariam o objetivo principal.