21/11/2009 - 17:21h Pouso

*

adoro sentir calor

no inverno

fome na ceia

água na toalha

gelo no café

adoro sentir

que tudo é possível

na medida

do improvável.

onde

quero uma casa em Belo Horizonte,

c/ vista para Sabará,

1 corredor que dê em São Paulo

e porta dos fundos

para o mar.

caldo de mandioca

beba, coma, morda

a sopa no seu prato.

vou abrir pra você

a sardinha na lata.

”quero caldo de bar”

eu disse

”quero você”.

me beija que não amolo

nem a faca, nem a palavra.

branco no branco,

língua lambendo língua.

a narina no seu rosto,

superfície suave e áspera.

seus pêlos calados…

um, dois, 3, quatro,

cinco.
sua pele faz sentido(s)

quando me toca.

me cala a boba

e fabrique uma casa amarela

debaixo de nossas solas.

pro seu baile à fantasia

subo escadas pra cuspir do alto

do mais alto que puder

e não sou homem,

e não masco tabaco

escavo a descida escarrando alturas

até doer

até ser delícia

amarro meu pé em minhas meias

passo boca no meu batom

pra cair na sua piscina

de terra seca e azul

Detrás do traço

Quando começam, estou perdida. Quando acabam, já se perderam. Talvez seja o tempo ou as idéias. Ou a respeito dos dois, numa dimensão qualquer. Talvez seja sobre nada e eu não saiba o que digo. Corro o risco e assumo o fardo — ainda que fadado. O novo já envelheceu. Eu também. E é incrível quanta coisa cabe em um parágrafo. E como aspas podem ser tão mal fechadas. E como poesia pode virar prosa. E quanta coisa se perde entre o ponto e o traço. Inclusive o tempo. Até a graça. Voam aviões, traçam em vão. Que me diz dos riscos no céu? Digo que as coisas e eu somos um. E os riscos também. Nunca e a todo tempo. Agora já não sei onde foram parar. No fim? Ou no tempo. Quem sabe no ponto — frágil, único e mal traçado.

Paulo e o lago

À esquerda de Hilda, havia a água. Seus pés já tinham se libertado das sandálias e arriscavam mergulhos. O vento batia em seu vestido largo e a empurrava pra frente e pra trás, como se ela fosse um barco. Já à sua direita, havia gente, muita gente – rostos que tentava guardar, mas que escapavam tão rápidos quanto vinham. Dentre eles, apenas um era fixo: o de Paulo. Fixo até demais. Não sorria, não falava e, principalmente, não tirava os olhos de H.. Tanto que, diante dum pequeno tremor de queixo:

— Vamos sair daqui, essa água gelada…

— Quero ficar mais — respondeu, sublinhando o ponto final:

P. compreendeu que não deveria insistir, que não devia fazer nada além de olhar. Porém, se quando se equilibrava numa perna só, segurava o corpo inteiro fixando a vista num ponto, sabia que mirar H. era muito mais que um gesto à distância.

Sentindo a nuca arrepiada, H. se voltou para P. e se espantou com o despudor com que era observada. Conferiu, aliviada, que ao redor ninguém mais dava atenção à cena. Pouco depois, se achou uma boba. Não fazia nada de errado e não devia se importar com o que pensavam os rostos voláteis. Abaixando a cabeça, se viu refletida e envergonhada naquela poça enorme. Afinal, o lago não passava disso, como ela não passava de uma menina grande. Tinha a impressão de que, se o vento viesse mais forte, todo o seu disfarce de moça voaria. Pelos ares iria a postura, o vestido, as sandálias. Restaria, então, apenas ela e aquilo de que mais gostava.

neste lago, H.

hoje em dia não existe mais isso de lugar longe, H. e não sei porque sinto sua falta. você deveria estar sempre perto de mim, sua mão sempre ao meu alcance. mas é possível a distância, desde que se queira — e eu quis, jurando que a vontade não era minha. logo eu, que há poucos dias fui tão alegre e genuinamente feliz; logo eu, que aprendi que te olhar (como eu te olho) não é um gesto sem efeito. verdade que nosso afastamento é produto do meu desejo teimoso e da sua sonsice, des’seu jeito de barco de sem leme, e nada mais. e essa é toda a verdade que tenho debaixo das mangas, faltando apenas o que nenhum de nós pode esquecer: quero estar sempre ao seu lado.

A aranha

, de 78 patas, arranha 1900 vezes a minha jarra. Com suas agulhas, risca também o disco de vinil. Sombras tristes dançam sob o lustre de duas décadas. Tudo é esquecimento. Vestidos azuis tornaram-se peça de luto; peles douradas, grafite; olhos de ciúme, negros. O batom vermelho-vivo que borrava a boca de Roberta também não escapou — não passa agora de tinta escura.

Só das teias eu me lembro, sem perder detalhe, pois são as mesmas e sempre vão ser. Então perguntei à aranha: era isso que pretendia me mostrar? que vocês resistem? Não tive resposta. Claro, era uma aranha. Que podia fazer? Transformar-se em moça e me beijar pra dizer que sim? Bebi o último gole e brindei de taça vazia. Quis esmagar o bicho, mas correu às minhas mãos e me olhou com cara dócil: me diz o que faço, por onde começo. Devia ser digitadora. Tem muitas mãos e é capaz de ouvir indefinidamente sem entender. Estou brincando, sei que me compreende, só é tímida. Já é hora de ir. Grato pela companhia.

Não há de quê — respondeu-me, para meu espanto; mas a voz era de Roberta, que ouvia a conversa como se fosse com ela. De sobressalto, pediu que esperasse um segundo — o que já estava fazendo só de susto. Correu, pegou minha mão e disse: começa assim. E, antes que me desse conta, Roberta me dizia, 1987 vezes, que sim.

Arranha-céu

Quando estou brava, pinto minhas unhas de vermelho. Hoje não é o caso: estou à francesa, indisposta para despedidas. Infelizmente, lá vem a caçamba e tenho de dizer adeus à cidade miúda onde moro: mil ruas se desdobram nos cômodos de meu apartamento e cada porta é uma esquina. Toda manhã, no trânsito voraz da copa, minhas cadeiras colidem com a mesa. Em protesto, os sapatos organizam-se em passeata. Desesperado, o chuveiro chora sem cessar. Já a cama faz o que sempre fez: dorme com qualquer um, a qualquer hora. E eu, pelo espelho de meu esmalte, observo-os todos.

Quando escutei os pés do senhorio, no corredor do 20º andar, a chave já estava com os dentes cravados em minha mão. Sem nada a dizer, a entreguei. O homem também não mexeu os lábios. Em silêncio, desci as muitas escadas, fui até a porta giratória e a empurrei. Finalmente, dei de cara com a grande cidade, que há muito eu evitava encontrar. Pelas unhas, vi carros e meretrizes se juntarem a mim. Depois, homens de barba, velhos descalços, crianças de mochila, uma pessoa e mais outra e mais outra e mais outra. E o mundo, a partir de então imenso, não coube mais na ponta dos meus dedos.

Meu prato cheio

O que me atormenta é o não dito. Torturo o meu eu para depois escrever em primeira pessoa. A fuga é o mergulho. A água é azul, mas só enxergo o cinza. Não adianta praguejar contra as memórias em preto e branco. Não vejo cores agora. Maldito Almodóvar. Maldita atenção que presto, imprestável. Uma formiga cinza parece feliz com o suco cinza derramado. Uma formiga aparece morta. Ainda cinza. Inveja abastada. Persistência da daltonia psicológica, contudo. Com tudo pronto. Nem todos os feitos. Fiz o dito, mas não disse o ditado. Mas que importa tudo, todos, eu? Que importa a formiga, o cinza, o Almodóvar? Benditos sejam. Mas que sejam ditos.

(imagem ©tomooka)

Valquíria Rabelo (Belo Horizonte/MG). Editora do Jornal A Parada, ao lado de Daniel Bilac. Tem poemas publicados no jornal Dezfaces, na Revista Ato e no folheto Barkaça. Estuda Comunicação na UFMG e Design Gráfico na UEMG. Edita o blogue Formalguma. Fonte germina

17/11/2009 - 20:04h NO BALANÇO DO METRÔ

Lílian Maial

Roberto acordou bem cedo, como de costume. Tomou seu banho, barbeou-se, tudo de sempre – a rotina de um homem comum, beirando os 40 anos, já com algumas “entradas”, alguma barriguinha, na verdade, já gostou bem mais de sua imagem no espelho. Mas até que ainda estava conservado, para um funcionário burocrata de uma empresa de informática. Bem casado, com uma mulher adorável, bonita, culta, um casal de filhos adolescentes, uma vida estável e invejada pela maioria dos amigos.
Naquela manhã abafada, saiu de casa apenas com o suco de laranja – não quis comer – o calor o incomodava.
Foi à pé até o metrô, meio desligado, pensando na vida e no alívio do vagão refrigerado. A plataforma já estava cheia e o trem logo chegou, lotado, ocupado por ternos, bolsas, celulares… Não havia muita escolha, segurou no suporte de teto, num canto do vagão, espremido entre um jovem mascando chicletes (logo pela manhã?) e uma mulher de média altura, de costas pra ele, cabelos em seu rosto, cheirosa.
O trem saiu da estação e o ar condicionado mal dava a perceber que estava ligado.
Em seu terno impecável, Roberto era um belo homem, notado por algumas secretárias aqui e acolá.
Na parada da estação seguinte, devido a uma freada brusca, Roberto segurou a mulher à sua frente, que desequilibrou-se e soltou a pasta de executiva que carregava sob o braço. Ao abaixarem-se, entreolharam-se, e ele pôde observar o olhar alegremente surpreso, de aprovação, da mulher ao fitá-lo. Ela corou suavemente, agradeceu e voltou à posição inicial, para a partida do comboio.
Ele ficou embevecido com a delicadeza dos olhos amendoados, que o fitaram de relance, bem maquiados, adornados por longos cílios e uma cabeleira negra, que lhe caía aos ombros. Mulher de uma morenice discreta e elegante, com olhos de feiticeira.
Mais uma estação, o vagão não comportava mais ninguém, mas as pessoas continuavam a entrar. Aquele cheiro de flores que emanava dos cabelos morenos tornou-se mais intenso, e ele percebeu que a moça estava mais perto. Sentiu-se subitamente excitado com a proximidade e passou a observar seus contornos.
De súbito, a mulher deu um passo para trás e seu corpo roliço tocou o de Roberto e, silenciosamente, assim permaneceram no balanço do metrô.
Na estação seguinte, ninguém desceu e, ao contrário, vários entraram, diminuindo ainda mais o espaço entre ele e a mulher.
Ao partir o vagão, a mulher, inesperadamente, encosta-se completamente em Roberto, e acomoda a cabeça em seu peito, afastando os cabelos, deixando a nuca e o pescoço livres. Sem pudores, ela começa a roçar seu traseiro arredondado em Roberto que, entre surpreso e maravilhado, sente crescer o volume nas calças. O balanço do trem aumenta o atrito, e ninguém consegue perceber nada, de tão imóveis que estão todos.
Roberto atreve-se e beija aquele pescoço perfumado, sussurra naquela orelhinha delicada, perfurada por uma singela pérola. Introduz a língua naquele pequeno lóbulo e sente a respiração alterada da mulher, que aceita as carícias sem nada dizer.
Naquele balanço, com o sexo resvalando no traseiro provocante da executiva, sente a mão pequena, porém firme, tocar-lhe as partes mais íntimas, apertando e soltando.
Ele estava deliciado, sua estação ainda demoraria, e ela não fazia menção de saltar.
Num ímpeto de valentia e desejo, com sua mão livre acaricia as coxas da morena e foi subindo o quanto pudesse. Ela consente, afastando ligeiramente as pernas, e ele alcança, protegido pelo anonimato da multidão, a umidade abundante daquela desconhecida. Sente seu calor, sente seu pulsar, sente seu cheiro inebriante. Aproxima-se mais e, apoiando-se nela, solta a outra mão, para acarinhar discretamente aqueles seios de pêras suculentas.
E vão assim, nessa sofreguidão disfarçada e gostosa por toda a viagem.
Aquele corpo quente, junto ao seu, aquela mãozinha buscando seu sexo, aqueles seios… Ele podia ouvir seus suspiros calados, seus gemidos mudos, seu arfar contido, e isso o excitava ainda mais.
Chegava sua estação, teria que saltar, queria poder falar com ela, trocar telefones, marcar no outro dia, mas não teve coragem. Ajeitou-se como pôde, ela também e, curiosamente, saltaram na mesma estação, mas pegaram direções opostas. Ele pensou em segui-la, mas tinha horário rigoroso no trabalho… Assim, apenas ficou a observá-la afastar-se, saia justa, sapatos altos, bolsa, pastinha…
E ela nem olhou pra trás…

Fonte Blog de Lílian Maial

11/08/2009 - 18:42h A rotina do tempo

 márcia barbieri

A vida é uma máquina de triturar rancores e angústias, as alegrias são retiradas a fórceps. Você se diz cansado da repetição dos ponteiros do relógio, a verdade é que os meus dias também são longos e eu me arrasto. Carrego uma mochila de pedras nas costas, porque assim evito a tentação de apalpar a tristeza com as mãos.

Mas, diferentemente da maioria das pessoas, os dias sempre siameses não me incomodam. Nem me importa a previsibilidade dos matemáticos, porque apesar de toda lógica, eles não podem evitar a perfeição da medida áurea que esgana o tempo. Também diferente de alguns, jamais deixei de ler um livro porque conhecia o seu final, ninguém consegue retratar as minúcias e são exatamente elas que me atraem.

Quando me olhas e achas que tenho orgulho, não se engane. Minha cabeça erguida não é pretensão, é medo, é refúgio, é fuga dos vôos rasantes dos dragões que se desprendem de mim, dos trilhos e das máquinas que atravessam o meu corpo.

O amor são dedos vasculhando na ferida e dói. Às vezes, minha dor são pássaros negros, de olhos furados e canto triste. Eles são insanos e cavalgam sem piedade no meu corpo.

Sossegue querido, cada centímetro da minha pele conhece o seu desespero. Relaxe, hoje é terça, venha e povoe mundos dentro de mim, enquanto as crianças colhem pipas e ilusões na ventania.

Márcia Barbieri. Formada em Letras (Português/Francês) pela UNESP, participa do Curso de Mestrado em Literaturas Africanas na USP. É professora de Língua Portuguesa na Rede Estadual de Ensino. Ministra aulas particulares de Língua Francesa e faz revisão de textos. Edita o blogue Minha Vida Não Vale Um Conto. Fonte Escritoras Suicidas. 

10/08/2009 - 19:59h Erínias

Adriana Zapparoli

escrevendo pela pulsão da carne. apasionatta: o ato resulta da impotência duma mulher desgrenhada. seu pescoço para o almoço. aterrorizado pelas erínias… um trágico delírio. deuses-homens todos soterrados pela vingança. ela o persegue na fúria de seus cabelos ofídicos em caracóis de medusa e megera. gritando aos seus ouvidos… gritos vindos das profundezas ctônicas. empunhando os chicotes. suas mãos são tochas acesas.

 Adriana Zapparoli participou de antologias poéticas no período de 2002 a 2005. Colabora com o JP de Soares Feitosa. Escreveu o e-book de poesia: Erótica. Mais em seu blogue Zênite e no Jornal de Poesia. Fonte Escritoras Suicidas

31/07/2009 - 18:25h Diz

Blog Caminhar

Mini conto

RenéMagritte
No espelho

Olha o rosto no espelho, diferente, mais claro.
Levanta devagar o vestido observando o corpo.
A calcinha apertada marca a gordura, encolhe a barriga. Alonga-se, abaixa o tecido de algodão florido, observa a púbis, alisa os poucos pelos. O rosto se crispa. Levanta a calcinha nas ancas buscando um angulo melhor. A cabeça cai para o lado, volta para o centro, retesa-se.
É com os olhos dele que se vê agora.
Ainda sente o elástico a apertando, mas se reconhece naquele outro olhar e sorri.

Micro conto

Sentiu a mão subindo pelas pernas, mãos suadas, ásperas. Fechou os olhos.
Perdeu a parada. Quando ele levantou, ofegante, viu a boca desdentada sorrindo sarcástica.
Permaneceu ali até o cobrador dizer:
- Ponto final, dona.

http://1.bp.blogspot.com/_RCojEL9WAfQ/SLoQ1cr7OcI/AAAAAAAABk0/ze-YvsUVv4g/S220/sorrindo%2Bvertical-4%2Bmenor.JPGDiz