02/01/2009 - 11:12h ”Economista produz crise, mas não sabe resolvê-la”

Antônio Delfim Netto: economista; para Delfim, a crise está fora da economia: ‘Seria uma crise de expectativa, de crença, de confiança’

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Roberval Angelo Schincariol e Roger Marzochi, AGÊNCIA ESTADO

Para o economista Antônio Delfim Netto, o que fará a diferença na economia do tão temido ano de 2009 é a sensibilidade do brasileiro. E, para ele, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é a encarnação do otimismo. “Lula é o maior economista do Brasil”, diz Delfim, na seguinte entrevista, concedida no dia 10 de dezembro, em seu escritório, em São Paulo.

Qual a avaliação que o sr. faz sobre os impactos da crise financeira no Brasil em 2009?

Você está em um ambiente complicado e é claro que o Brasil vai pagar o preço de fazer parte do mundo, como tem os benefícios. O Brasil usou a expansão que houve no mundo. E eu estou convencido de que essa crise é, simplesmente, a própria crise de 2001 consertada pelos economistas. Teve a crise em 2001, que foi a crise do pontocom, que explodiu, e apareceu aquela patifaria da Enron. E como é que os economistas resolveram essa crise? Fornecendo liquidez e permitindo que toda a imaginação do sistema financeiro se exercitasse plenamente, com a ideia de que o sistema tinha em si uma moralidade ínsita. Portanto, ninguém precisa se preocupar porque é tudo gente correta, que não vai fazer nada de patifaria…

O sr. avalia que hoje, então, houve o estouro da bolha da moralidade?

Não, a moralidade já explodiu na Enron. E o que o governo foi fazendo? O Fed e o Tesouro americano passando a grosa, permitindo que você fizesse um curto-circuito aqui, outro lá. Quando o (Henry) Paulson (secretário do Tesouro) tomou posse, em 2006, ele declarou: “Eu vim para acabar com o resto de regulação que está perturbando o crescimento.” Em 2006! A crise já estava explodindo! Então, você está diante de um fato: os economistas são capazes de produzir uma crise, mas não podem resolvê-la. A crise está fora da economia.

Seria uma crise de expectativa?

Seria uma crise de expectativa, de crença, de confiança. Qual é a origem da sociedade? Está no velho Platão, antes do Aristóteles. Para a coisa funcionar, tem de ter possibilidade de trocar o meu trabalho com outro. E tem de ter uma moeda. Nós estávamos produzindo milho. Eu vivia pobre, você também. Mas eu produzia o meu, você produzia o teu. Mas chegamos a um acordo. Eu vou produzir o milho e você vai fazer um buraco aí até conseguir água, depois a gente irriga o milho, vai dobrar a produção e vamos viver melhor. Esse é o progresso. Está no Adam Smith. Divisão do trabalho. Isso exige que eu confie que, enquanto eu estiver produzindo o milho, você esteja fazendo o buraco. Então, a confiança precede a sociedade. Ela é o cimento, o fator catalítico que faz funcionar a sociedade.

Na atual crise, o BC agiu no tempo certo?

A ação do BC foi no tempo próprio, com alguns pecadilhos. Em lugar nenhum do mundo o BC diz: “Eu vou dar dinheiro para banco grande comprar banco pequeno.” Muito menos vou dar dinheiro para banco público, porque aqui você tem dois problemas graves: a higidez de um banco não depende nem da sua propriedade nem do seu tamanho. O banco público não é muito mais seguro que nenhum banco privado. Mas por uma simples razão: porque banco, por definição, é quebrável.

Quando o sr. diz que o BC não deveria ter dito que o dinheiro era para comprar bancos pequenos, deveria ter dado o dinheiro sem dizer…

Não, deveria ter feito as coisas já de uma vez! Não deveria usar a técnica do conta-gotas. Quando se faz um sistema no qual eu compro a carteira do outro, estou levantando dúvidas sobre essa carteira. É como ter um dinossauro Rex de boca aberta e tem uma galinha que eu estou espantando para a boca do dinossauro.

Mas o sr. não avalia que a crise financeira será tão forte no Brasil como está sendo para o resto do mundo?

A crise americana vem vindo desde o começo de 2007. No Brasil, não. É uma crise datada. Vinha se desarrumando e, quando o Paulson faz a barbeiragem no Lehman, desaba tudo. Ou seja, ele matou o fator catalítico, que era a confiança. E no Brasil ocorreu uma função descontínua. É uma crise de confiança que atingiu os bancos lá fora.

Mas houve uma queda na concessão de crédito no Brasil.

Você imagina uma coisa. Chega um grande banqueiro brasileiro no Waldorf-Astoria e encontra com o homem do Citi, na sua importância, para dizer: “Eu ainda não cortei o crédito lá.” O homem do Citi diz: “Esse sujeito não faz parte do nosso clube.” Agora, nenhum deles fez patifaria aqui, nem sei se por virtude. É que aqui tinha formas de ter retorno muito mais seguro e mais alto que com a patifaria.

Com juros?

Então, nós já tínhamos a mais alta taxa e fizemos o maior aumento do mundo. Quando o mundo inteiro reduziu, nós continuamos insistindo na mesma política. Isso tudo, que era um defeito enorme, agora as pessoas dizem que foi uma clarividência. É como aquele francês, para quem ofereceram a Brigitte Bardot. Só que hoje ela está com 80 anos!

Se o senhor fosse o presidente do BC, qual seria a taxa ideal de juros?

O Brasil não tem nenhuma razão para ter a maior taxa de juro do mundo. A taxa de equilíbrio é 3%, 3,5%, como é no mundo todo. Com inflação de 5%, poderíamos rodar com 8% nominal. Mas tudo isso é absolutamente irrelevante porque o BC nem tem mecanismo para fazer esse negócio. Então, vamos pensar onde paramos. Paramos por uma questão psicológica. O Lula é o único economista que presta no Brasil porque é o único que está falando a verdade. A intuição dele mostra o seguinte: nós estamos interrompendo o circuito econômico porque, se você não comprar o carro, porque tem medo de ficar desempregado, é certo que você vai ficar desempregado, porque a Volkswagen não faz o carro por medo que não vai ter demanda. E o banqueiro, no final, que pensa que está salvo, ele também vai morrer junto com o sistema.

É como o sr. já comentou que, ao pregar a morte do crédito, os banqueiros acabam se “suicidando”?

Eles se suicidam porque não têm outro remédio. Porque nenhum banco é seguro! E aqui é que vem a segunda crítica à política do BC. Quando ele diz que está dando dinheiro para o Banco do Brasil, para a Caixa Econômica pra fazer isso ou aquilo, está dizendo o quê? Esses bancos são mais seguros. Isso tudo é um equívoco monumental.

Como o sr. mede a expectativa hoje?

O Lula, com todas as críticas… As pessoas ficam furiosas com o Lula. Porque há, na verdade, um preconceito enorme. A vantagem do Lula é não ter um curso superior.

É uma vantagem?

Sim, não é um prejuízo. Senão ele estava igualzinho aos de curso superior aí dizendo “tá tudo perdido!”, “estamos perdidos!”, ” ’sifu’ para todos nós!”. Então, o que acontece? É uma atitude ingênua, mas que corresponde a uma realidade. O fator principal é restabelecer aquilo que é o cimento da sociedade, que é a confiança.

E quanto disso pode se refletir no crescimento do Brasil?

Qualquer número é um chute. A minha convicção é a seguinte: quando o Brasil cresce? Cresce quando cresce mais que o mundo.

27/11/2008 - 08:07h Déficit público tem menor nível em 17 anos

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Sob influência do aumento da arrecadação, saldo negativo de conta que inclui gasto com juros recua 94% até outubro

Economia para pagar juros supera meta do ano e atinge R$ 133 bi; relação dívida/PIB recua a 36,6%, sob efeito da alta do dólar

NEY HAYASHI DA CRUZ - FOLHA SP

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Sob influência do forte aperto fiscal promovido pelo governo, o déficit público alcançou no mês passado o nível mais baixo já registrado no Brasil desde 1991, quando o Banco Central começou a calcular essa estatística com a atual metodologia.

Entre janeiro e outubro, as despesas do setor público -que inclui governo federal, Estados, municípios e estatais- superaram as receitas em R$ 1,835 bilhão.

Esse saldo negativo, também chamado tecnicamente de déficit nominal, inclui ainda os gastos com os juros da dívida pública e é 94% menor do que o apurado no mesmo período de 2007.

Nos últimos 12 meses, o déficit nominal acumulado corresponde a 1,1% do PIB (Produto Interno Bruto), também o mais baixo em 17 anos.

No ano fechado de 2007, essa proporção ficou em 2,3%. Quanto menor esse déficit, maior é o equilíbrio entre as receitas e as despesas do setor público.

Entre os fatores que ajudam a explicar esse resultado, está o crescimento da economia, que colabora para o aumento na arrecadação de tributos, tanto por parte da União quanto de Estados e municípios.

A receita apurada por Minas Gerais e São Paulo com a cobrança de ICMS (Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços), por exemplo, cresceu, respectivamente, 10,5% e 8,6% entre janeiro e setembro deste ano, quando comparada com o mesmo período de 2007.

O governo federal também segue na mesma linha, com um crescimento de 10,3% na arrecadação de tributos entre janeiro e outubro deste ano. Além disso, a União também conta com uma queda no déficit da Previdência, reflexo do aumento na oferta de empregos com carteira assinada. Entre 2007 e 2008, segundo dados fechados no mês passado, esse déficit caiu de R$ 44,9 bilhões para R$ 33,7 bilhões.

Economia

Graças a tudo isso, o setor público economizou R$ 132,9 bilhões nos primeiros dez meses do ano para pagar os juros de sua dívida, 24,7% a mais do que em 2007.

Essa economia feita até agora, chamada de superávit primário, já supera a meta estabelecida para todo o ano de 2008, que é de aproximadamente R$ 124 bilhões.

Os pagamentos de juros da dívida, por sua vez, estão praticamente estáveis. Entre janeiro e outubro deste ano, os gastos com esses encargos somaram R$ 134,7 bilhões, 0,4% a menos do que em 2007.

O resultado se explica pela redução ocorrida, até o primeiro semestre, na taxa Selic, um dos principais indexadores da dívida pública.

Além disso, a recente alta do dólar também aumenta a lucratividade das operações feitas pelo BC no mercado de câmbio, e essa receita ajuda a compensar parte dos gastos públicos com juros.

A valorização da moeda dos EUA também ajuda a reduzir o próprio saldo do endividamento público, pois leva a uma alta, em reais, do valor das reservas em moeda estrangeira mantidas pelo BC.

No mês passado, a dívida somava R$ 1,088 trilhão, valor R$ 61,8 bilhões menor do que o saldo apurado no fim de 2007.

Quando comparada com o PIB, a dívida pública atingiu, em outubro, o nível mais baixo desde setembro de 1998. O endividamento registrado no mês passado corresponde a 36,6% de todas as riquezas produzidas no país nos últimos 12 meses.

20/11/2008 - 10:48h Governo vai propor adiamento por 60 dias de pagamento do Simples

Como os tucanos não tem nada a dizer ou a propor de diferente das medidas que o governo Lula vem adotando para enfrentar a crise global, ficam na crítica reacionária de condenar os gastos com o funcionalismo. É bom lembrar que não só os servidores públicos federais ou estaduais sofreram arrocho durante o reinado tucano, mas o conjunto dos assalariados conheceu após os dois primeiros anos do Real uma combinação de perda de poder aquisitivo com desemprego. Por sua vez os empresários viram cair as exportações por conta do “populismo cambial” e um mercado interno raquítico. O resultado para o Brasil foi um crescimento bem medíocre durante o governo FHC. Agora eles posam de… bons administradores. LF

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Paulo de Tarso Lyra, de Brasília - VALOR

O governo federal vai propor o adiamento, por 60 dias, do recolhimento do Simples das pequenas empresas. A sugestão será levada ao Conselho de Gestão do Simples, da qual fazem parte a União, os Estados e os municípios. Segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, se adotada, a medida representará uma injeção de capital de giro de R$ 23 bilhões/ano para cerca de 3 milhões de micro e pequenas empresas.

A intenção é que o conselho delibere e aprove a medida ainda este mês, para que possa ser implementada já no recolhimento do tributo de dezembro. “Com isso, os empresários só precisariam pagar o Simples em fevereiro, permanecendo com dinheiro para investimentos e outros pagamentos neste fim de ano”, disse o ministro. O governo federal quer uma prorrogação por dois meses, mas já se contentaria com um adiamento por apenas um.

O assunto foi um dos principais pontos discutidos ontem em uma reunião do Palácio do Planalto, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de Mantega, do governador de São Paulo, José Serra, e do seu secretário de Fazenda, Mauro Ricardo. Serra disse que a medida é positiva, pois vem no sentido de atenuar o impacto da crise econômica internacional em um setor sensível para a economia. “É uma medida anticíclica e não pró-cíclica”, afirmou.

Serra, que nos últimos meses tem se especializado em criticar a política monetária do Banco Central - especialmente a decisão de aumentar a taxa de juros em um momento de crise de liquidez mundial - foi mais polido ontem. Brincou que não “ficava bem criticar a política macro-econômica brasileira ao lado de um dos principais responsáveis por sua condução, o ministro da Fazenda, Guido Mantega”.

Mantega disse que, no encontro, foram analisados os indicadores macroeconômicos brasileiros e tanto os petistas como os tucanos teriam chegado à conclusão de que o Brasil tem condições de enfrentar a crise. Que as questões de crédito, baixa liquidez e câmbio começavam a se normalizar, fazendo com o que o Brasil possa manter o ritmo de crescimento de 4% no próximo ano, “ao contrário dos países europeus e dos Estados Unidos, que deverão permanecer em recessão”.

No PSDB, as coisas são vistas com mais cautela. O partido reconhece que todas as medidas tomadas ao longo desses anos - Plano Real, que estabilizou a moeda, Lei de Responsabilidade Fiscal e manutenção dos parâmetros macroeconômicos - permitiram o Brasil chegar ao atual momento com menos solavancos do que em crises anteriores.

Na análise dos tucanos, é possível um crescimento entre 2,5% e 3% em 2009. Um número bem menor do que o estimado pelo governo, mas ainda bom para o país, pois estaria abaixo do crescimento vegetativo da população. “Tudo isso apesar do aumento de gastos com o funcionalismo que vem sendo autorizada pelo atual governo”, criticou o líder do PSDB na Câmara, José Aníbal (SP).

18/11/2008 - 12:45h Juros ficarão mais altos depois da reação à crise, diz Nouriel Roubini

Alex Ribeiro, da Cidade do Panamá - VALOR

http://www.abacate.net/images/juro%20alto.jpgO mundo terá que conviver com taxas de juros mais altas assim que as economias reagirem aos maciços estímulos fiscais e monetários feitos por países desenvolvidos, disse ontem o professor Nouriel Roubini, da Universidade de Nova York, que ganhou projeção depois que previu a crise financeira atual e seus desdobramentos.

O diagnóstico dominante entre os economistas reunidos ontem em debates do encontro da Federação Latino-Americana de Bancos (Felaban) é que as ações firmes tomadas por economias desenvolvidas e em desenvolvimento são suficientes para evitar uma crise financeira ainda mais profunda.

As discussões, agora, se voltam para a duração e a intensidade da crise financeira sobre a economia real - e sobre as repercussões mais permanentes que ela terá sobre variáveis como contas fiscais, taxas de câmbio e taxas de juros.

Roubini, que se notabilizou nos últimos anos pelo pessimismo que observava a evolução dos mercados financeiros, também tem visão bastante negativa sobre como a economia real irá ser afetada. “Não será a crise de 1929, mas será a crise mais séria desde então”, afirmou Roubini, que falou em videoconferência para executivos de bancos. “Não espero recuperação em 2009. A economia só começa a reagir em 2010.”

Disse que todos os números que saíram sobre a atividade econômica, tais como emprego, crédito e consumo, são piores que os previstos. Ele espera uma queda adicional entre 20% e 30% no índice S&P500 de Nova York, em virtude da divulgação de resultados corporativos abaixo do esperado. Roubini acha também que perdas de seguradoras e com empréstimos serão fonte de estresse no mercado financeiro.

E a recuperação esperada pela 2010, afirmou, irá ocorrer de forma débil, em parte porque o socorro às economia criará novos desequilíbrios. A projeção, disse, é que a expansão fiscal faça com que o déficit americano fique em US$ 1 trilhão nos próximos dois anos. O custo, segundo ele, virá de políticas não-ortodoxas tanto no campo monetário quanto fiscal, as quais, disse, eram absolutamente necessárias diante de um cenário mais negativo que seria causado por uma depressão.

No campo monetário, os bancos centrais de países tiveram que ir além de corte de juros, e isso terá conseqüências também. “Ficamos presos a uma armadilha monetária, que obrigou os países a lançar mão de outras medidas”, disse Marco Fernández, da consultoria Investigación y Desarrollo, do Panamá.

“Será difícil financiar essas dívidas”, disse o economista Jorge Suárez-Velez, da Global Plus Management. “Com isso, a taxa de juros de curto prazo vai baixar, mas as de longo prazo ficarão altas”. Os déficits públicos também significam, na leitura dos economistas, que o dólar irá voltar a perder valor ante outras moedas.

15/11/2008 - 10:28h A França e a reunião do G-20

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Gilles Lapouge* - O Estado SP

Sarkozy seguiu para Washington. A tarefa que tem pela frente é árdua: tirar o mundo da crise. De passagem, aproveitará a ocasião para “reformular o capitalismo”.

Os membros do G-20 que participarão dessa reunião, imposta por Sarkozy a Bush em 18 de outubro, têm interesse em iniciar logo o trabalho. Em julho de 1944, em Bretton Woods, os vencedores da guerra tiveram 15 dias para reformar o sistema monetário. Este ano, Sarkozy terá apenas algumas horas para reorganizar o planeta.

Talvez por isso o presidente Lula “não espere muita coisa desse G-20″, mesmo que seja “algo promissor”. O ministro francês das Relações Exteriores, Bernard Kouchner, já mostrou seu desânimo: “Essa reunião não vai levar a nada”.

A falta de tempo para realizar essa façanha não é a única desvantagem do G-20. Há outra. Que idéia conceber tal projeto quando o novo presidente Obama ainda não assumiu! Será com um Bush decadente que Sarkozy pretende construir sua catedral. Além do que, é o cúmulo tentar refazer o capitalismo com um presidente Bush que não conhece nada de mais belo do que o capitalismo.

Obama não seria mais cooperativo? Nada permite pensar que o presidente eleito se converteu à moda “anticapitalista” que a crise fez irromper na Europa e Sarkozy, o bardo do liberalismo desenfreado de um ano atrás, agora pretende regulamentar e cortar as asas.

A equipe que chegará ao poder com Obama não é considerada “intervencionista” nem “estatista”: os principais conselheiros (Summers e Volcker), ex-assessores de Clinton, são “velhas raposas de Wall Street”. Jamais sonharam com um “capitalismo ao molho europeu”.

É por isso que Sarkozy não hesitou em deixar Paris para explicar ao seu amigo Bush que, em 1944, só podia existir uma única moeda de reserva, o dólar, o que hoje não é mais o caso.

Sarkozy tem razão: o reinado absoluto do dólar acabou. É preciso planejar uma nova paisagem. Além disso, o tempo em que o Estado era considerado uma calamidade na economia chegou ao fim com o incêndio dos bancos. O novo papel do Estado, seus deveres e poderes, devem ser examinados.

Outro ponto de interesse desse encontro: só o fato de reunir esse grupo já é prova de que todos reconhecem que a solução só pode ser global. Podemos até supor que a reunião terá como resultado a preparação do fim do G-8, símbolo de um mundo esclerosado e injusto. Ninguém vai chorar a morte do G-8.

Podemos esperar algo melhor? Claro que seria loucura imaginar que, em algumas horas, os 20 conseguirão redigir uma nova estrutura financeira planetária. Ficaremos felizes se eles conseguirem adotar algumas medidas de urgência.

*Gilles Lapouge é jornalista

14/11/2008 - 10:15h Pouco a esperar

Celso Ming, O Estado SP

celso.ming@grupoestado.com.br

celso_ming.jpgO presidente da França, Nicolas Sarkozy, é, no mínimo, um forçador de barra. Ou não tem lá muito compromisso com os fatos.

Ao embarcar ontem em Paris para Washington, onde participará da reunião dos chefes de Estado do Grupo dos 20 (G-20) que se realizará neste fim de semana, declarou aos jornalistas que vai demonstrar que 2008 não é 1945 e que o dólar deixou de ser a principal moeda do mundo. E não era o Berlusconi falando; era mesmo Sarkozy.

Ele não vai passar da primeira parte do objetivo declarado à imprensa. Nem precisa insistir; ninguém acha que 2008 repete 1945. Mas está errado no principal. O dólar continua, sim, reconhecidamente a principal moeda do mundo.

O país mais encrencado pela crise são os Estados Unidos. E, no entanto, na pior hora e apesar de tudo, quando é preciso encontrar um porto seguro, todos correm para o dólar e para os títulos do Tesouro americano (T-Bonds). Como negar isso, presidente Sarkozy?

Declarações assim parecem sugerir que a reunião de cúpula, que se imaginava destinada a traçar as diretrizes para a reformatação do sistema financeiro global, não vai passar de um congraçamento, se chegar a tanto.

Três obstáculos hoje aparentemente intransponíveis impedem que se espere mais do que isso desse encontro. O primeiro deles é que não há muito o que negociar com o presidente George Bush, que ainda representa a maior potência econômica da atualidade.

Bush não tem mais o que dizer. Não está em condições de decidir nada com quem quer que seja, porque o balcão atrás do qual está hoje terá outra administração em questão de semanas. A hora é mais de uma festa de adeus do que de reformatação das pilastras da economia. E Barack Obama, o novo chefe, não quer se meter antes da hora.

O segundo obstáculo é que o momento não é de confronto, por maior que sejam as divergências entre Estados Unidos e Europa. Os mercados estão especialmente vulneráveis a cabos-de-guerra entre os senhores do mundo. Se virem meia dúzia de chefes de Estado apontando para direções opostas, o risco é que se desmanchem.

E, finalmente, com Bush e depois de Bush, os Estados Unidos não querem mudanças. Ao contrário do que vai trombeteando Sarkozy, o mundo adora o dólar, confia nele muito mais do que se imaginava até agora e confia muito mais do que no euro ou na libra esterlina. E confia no título mais cobiçado, que ainda são as promissórias emitidas pelo Tesouro americano. Além disso, quem controla as máquinas que emitem os ativos mais cobiçados do planeta não quer mudar nada.

Para não decepcionar as platéias, os mais ansiosos líderes do G-20 provavelmente encaminharão alguns temas para análise de comissões de trabalho encarregadas de examinar as bases para a reestruturação dos fundamentos do capitalismo.

Se isso se confirmar, vai ser difícil obter dessas comissões mais do que estratagemas para ganhar tempo, sabe-se lá até quando e com que objetivo.

Enfim, não dá para esperar demais desse encontro. O que precisa ser perguntado é até quando a crise espera.

Confira

Disparada - O dólar deu ontem mais um salto, de 3,8%, fechando nos R$ 2,38. A volatilidade ainda é enorme. Basta dizer que, há apenas 43 dias, o dólar estava abaixo de R$ 2.

O Banco Central decididamente não quer esses níveis porque sabe o impacto que provocam na inflação, a partir da alta dos produtos importados.

Mas as intervenções que tem feito, por meio de leilões de dólares e de leilões de títulos amarrados à correção cambial, não estão nem segurando as cotações nem revertendo a tendência de alta. O Banco Central parece sem estratégia na sua política cambial.

14/11/2008 - 09:50h Alemanha não resiste à crise e entra em recessão

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Maior economia européia vive seu pior momento desde o pós-Guerra; OCDE prevê contração nos EUA, Japão e UE

Jamil Chade, Genebra; Andrei Netto - O Estado SP

A maior economia da Europa não resiste e entra em recessão. A Alemanha, conhecida como a locomotiva do Velho Continente, anunciou ontem que sua economia se contraiu pelo segundo trimestre consecutivo. A queda no crescimento coloca o país em sua pior situação nos últimos 12 anos, o que deve ter repercussões em toda a Europa e mesmo para as exportações brasileiras. Para o Deutsche Bank, 2009 pode ainda registrar o pior desempenho econômico da Alemanha desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Segundo os dados oficiais, o PIB foi reduzido em 0,5% entre agosto e outubro. No segundo trimestre, a queda já havia sido de 0,4%. Tecnicamente a recessão é declarada quando uma economia registra contração por dois trimestres consecutivos. França, Reino Unido e Irlanda já estão na mesma situação da Alemanha, mas a esperança era de que a maior economia do bloco resistisse.

O cenário é bem diferente do que os políticos alemães previam. No início da crise, a chanceler Angela Merkel deixou claro que a Alemanha “não entraria em recessão”. Agora, a queda é superior até mesmo às previsões mais negativas dos analistas. A última recessão foi registrada em 1996.

Desta vez, o temor é de que a crise seja prolongada. A Bolsa de Frankfurt já perdeu mais de 40% neste ano e a falta de confiança dos empresários bate recorde. O consumo também caiu e o país deve perder o posto de maior exportador do mundo, posição que ocupava havia quatro anos.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) já havia alertado que 2009 verá uma contração da economia alemã de 0,8%.

Todo o bloco europeu também deve sofrer com a recessão. Em meados da semana passada, foi a Inglaterra que admitiu estar em recessão.

OCDE PESSIMISTA

Estados Unidos, Japão e os 15 países da zona euro, cujas economias já enfrentam a estagnação, também devem sofrer recessão severa em 2009. A estimativa é do relatório de previsões econômicas da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento (OCDE), divulgado ontem, em Paris.

Segundo os especialistas, os 30 países-membros da entidade crescerão 1,4% em 2008, mas enfrentarão queda de 0,3% no PIB em 2009. Em 2010, vem a retomada. O maior decréscimo no próximo ano se dará nos Estados Unidos: -0,9%.

Os Estados Unidos devem enfrentar quatro trimestres de contração. A crise se agrava de forma progressiva no país: no terceiro trimestre, a retração será de 0,3%, chegando no fim do ano ao fundo do poço, com 2,8% negativos. Em 2009, a previsão é de decréscimo de 2% no primeiro trimestre e de 0,8% no segundo. A queda brusca na primeira metade do ano levará à retração do PIBdo país a valores próximos de 1%.

Só no segundo semestre de 2009, conforme os experts da OCDE, começa o reaquecimento nos EUA. Em 2010 a previsão é de 1,6% de crescimento.

O relatório da OCDE confirma o recuo também na União Européia. No grupo de 15 países que adotam a moeda única - entre os quais Alemanha, França, Itália e Espanha -, também deve viver quatro trimestres consecutivos de contração: -0,5% no terceiro trimestre de 2008, -1% no quarto, -0,8% no início de 2009 e -0,4% no segundo trimestre do próximo ano.

Jorgen Elmeskov, diretor de Estudos Econômicos da entidade, disse que os 30 países que integram a OCDE - Brasil não incluso - entram em recessão, com perspectivas de desaceleração prolongada da atividade.

O relatório também reitera a convicção de que os grandes países emergentes, como China, Índia e Brasil, embora em desaceleração, sustentarão o crescimento internacional durante a recessão no G-7. “O crescimento em países não-membros da OCDE também se desacelera”, diz Elmeskov, “mas é claro que o nível de elevação do PIB destes emergentes ajuda os países desenvolvidos a enfrentar a crise”. Questionado pelo Estado sobre quando China, Índia e Brasil voltarão a acelerar, o economista não respondeu. “Vamos divulgar um relatório exclusivo sobre o tema em 25 de novembro.”

14/11/2008 - 09:34h Para Soros, EUA correm risco de depressão

Agências Internacionais - O Estado SP

http://images.businessweek.com/ss/06/11/1117_phil_top20/image/g_soros.jpgUma recessão profunda nos Estados Unidos é inevitável e não se pode descartar a possibilidade de uma longa depressão, na avaliação do megainvestidor George Soros. Ele participou de uma audiência no Comitê de Supervisão e Reforma na Câmara de Representantes dos Estados Unidos. Segundo Soros, a crise financeira “dizimou” os fundos de alto risco (hedge), que foram obrigados a reduzir suas carteiras entre 50% e 75%.

Ele preside o Soros Management Fund e fez fortuna com a especulação de moedas. Soros afirmou que o Departamento do Tesouro, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e a Comissão de Valores Mobiliários (SEC, na sigla em inglês) devem “aceitar a responsabilidade de impedir que as borbulhas dos mercados se inflem muito no futuro”.

13/11/2008 - 10:42h Os impactos diferenciados da crise

Antônio Palocci - O Estado SP

http://www.estadao.com.br/fotos/apalocci.jpgNo debate sobre as ações dos governos ante a crise financeira atual vale a pena observar uma questão de fundo: o impacto da crise nos países não ocorre de maneira idêntica e simultânea. Ele é diferenciado, atingindo economias de diferentes maneiras e exigindo, assim, múltiplas e adequadas respostas. A simples transferência de medidas de um país para outro não é boa conselheira nessa situação.

É verdade que há efeitos comuns e globais na turbulência e o principal deles é um extraordinário aumento da aversão ao risco, com redução da liquidez e um quase congelamento do crédito.

Fora essa questão geral, porque sistêmica, que tem sido tratada pela garantia às instituições bancárias onde ela se apresentou de forma mais intensa, a situação em cada país varia bastante, em função dos fundamentos de suas economias. Uma estratégia para evitar o pior da crise exige, portanto, ações específicas, diferenciadas e adequadas no espaço, na forma e no tempo.

Um exemplo das distinções fundamentais entre países é a evolução do consumo do varejo nos EUA e no Brasil. Lá, o consumo está em queda generalizada e consistente, porque se reconhece a inevitabilidade do ajuste macroeconômico, postergado por anos de política monetária folgada e expansão fiscal. O consumidor, ao pensar no futuro, não reagiu sequer ao pacote de devolução de impostos iniciado em abril. Na crise das torres gêmeas, o governo Bush já havia utilizado o expediente da devolução de impostos, obtendo algum efeito no aumento do consumo de bens duráveis, já que a percepção na época era de um choque de curto prazo. Agora, o cidadão americano resolveu guardar o dinheiro ou utilizá-lo para saldar dívidas, porque vê dias difíceis pela frente.

No Brasil, o consumo no varejo ainda segue forte porque, apesar do aumento do crédito nos anos recentes, as famílias não estão endividadas e o País não tem grandes gargalos no balanço externo que pudessem precipitar uma crise. Há sinais, claro, de queda no caso de bens duráveis, mas pela falta aguda de crédito. Nos serviços e bens não-duráveis, no entanto, o consumo se mantém a taxas elevadas.

Um indicador dos motivos da diferença de tendências aqui e nos EUA é a evolução recente do emprego nas duas economias. Enquanto o Brasil gerou mais de 2 milhões de empregos formais neste ano, nos EUA houve queda de 1,2 milhão de empregos no mesmo período.

Outra diferença está nas conseqüências das variações cambiais sobre a dívida externa. Na Europa do Leste, o impacto do câmbio tem levado a um forte aumento da dívida líquida, como ocorreu no Brasil em crises passadas. Aqui, no entanto, houve uma diminuição líquida, dada a posição atual do País de credor em moeda estrangeira. Talvez por isso é que eles tiveram de buscar apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI) e nós não precisamos fazê-lo.

No Brasil, o primeiro impacto importante da crise também se deu sob a forma de drástica redução das linhas de financiamento. As respostas do governo a esse problema têm sido enérgicas e diretas, aliviando muito a situação, embora o crédito ainda não se tenha restabelecido plenamente.

Mas o stress financeiro é apenas a primeira onda. Mesmo que ele arrefeça, inclusive nos países desenvolvidos, deverá haver marcada desaceleração da economia real, afetando a vida das empresas, os empregos e os salários por algum tempo. Isso acontecerá nos países desenvolvidos, ainda que eles adotem políticas de estímulo fiscal.

Também é certo que o crescimento no Brasil vai desacelerar. É realmente lamentável que isso ocorra, mas lamentar de nada adianta. É preciso cuidar para que o impacto seja, tanto quanto possível, suavizado no tamanho e no tempo. É natural, por exemplo, que haja alguma queda nas vendas de bens duráveis. Mas não é natural que as vendas sejam paralisadas abruptamente por absoluta falta de crédito. No curto prazo, portanto, o crédito público tem um papel importante, que vai além das medidas de política monetária já tomadas.

Sua expansão pode ser necessária até que a situação de obstrução das artérias do crédito seja superada nos planos mundial e nacional. A extensão do prazo de recolhimento de impostos e contribuições é uma resposta positiva e que vai direto ao ponto. Mas o fornecimento de novas linhas de crédito continuará sendo uma necessidade para se evitarem contrações traumáticas no curto prazo.

Mas para que as empresas realmente planejem sua produção e suas vendas, acomodem seus procedimentos e se preparem para um período mais difícil é indispensável que o governo faça alguma sinalização que vá além de medidas de apoio emergencial, por maiores que elas sejam.

Medidas de melhoria do funcionamento da economia continuam necessárias e terão papel fundamental para vencermos a crise. Na medida em que o mundo nos vai ajudar muito menos nos próximos anos, temos de nos ajudar muito mais, continuando o trabalho das reformas estruturais e microeconômicas. Melhorar o ambiente de negócios e fortalecer as instituições reguladoras é um trabalho que deve ser permanentemente valorizado.

Igualmente importante é evitar, neste momento, a eclosão de problemas internos que impactem negativamente a estabilidade econômica. Temas em tramitação no Poder Judiciário, como os relativos aos planos econômicos do passado ou a legislação de capitalização de juros de poupança e empréstimos, precisam do melhor tratamento, seja no próprio Judiciário ou no aperfeiçoamento da legislação no Congresso. Qualquer legislação que traga riscos à Previdência Social também deve ser evitada.

Encarar com tranqüilidade e sabedoria um processo de desaceleração é a melhor maneira de encurtar o tempo para o início de uma retomada vigorosa do crescimento.

Antônio Palocci, deputado federal (PT-SP), foi ministro da Fazenda

12/11/2008 - 10:35h O Brasil e a parada brusca sistêmica

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Cristiano Romero - VALOR

Vítima do que especialistas estão chamando de “parada brusca sistêmica”, o Brasil está conseguindo enfrentar a crise internacional graças a políticas que vem adotando há dez anos, nos mandatos de dois presidentes, e que, agora, o diferenciam de outros países. Não raro, essas políticas, que combinam disciplina fiscal, metas para inflação e câmbio flutuante (com acumulação de reservas), são alvos de críticas ferozes, inclusive, dentro da equipe econômica do governo Lula. É muito cedo para comemorar, até porque não há indicações de que a crise esteja perto do fim, mas já é certo que o o país figura no grupo de nações que o jornal britânico “Financial Times” chamou, ironicamente, de “círculo mágico”.

Duas decisões tomadas lá fora confirmam o novo status: o acesso do Brasil, ao lado de México, Cingapura e Coréia do Sul, a recursos do Federal Reserve (Fed), que se dispôs a liberar até US$ 30 bilhões para cada um; e a criação, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), de uma linha de crédito especial, com desembolso rápido e sem grandes condicionalidades. O Fed alegou que o Brasil e os outros países do “círculo mágico” são bem administrados e importantes do ponto de vista sistêmico.

No caso do FMI, a adoção de uma linha contingente, célere, para países vítimas de contágio era uma velha reivindicação brasileira. A medida só foi aprovada agora porque o epicentro da turbulência está na economia americana, a maior acionista do Fundo. Os recursos da nova linha - cerca de US$ 100 bilhões - serão liberados, em caso de necessidade, às nações do “círculo mágico” e possivelmente a países como Chile, República Tcheca, Polônia e algumas economias asiáticas, todos elegíveis graças à reputação de possuírem políticas econômicas sólidas.

Num artigo instigante, publicado no site criado pelo economista Nouriel Roubini (RGE Monitor), Otaviano Canuto, vice-presidente do BID, discute a situação brasileira frente à “parada brusca sistêmica”. O fenômeno, deflagrado em meados de setembro, com a falência do banco Lehman Brothers, caracterizou-se pela fuga repentina de capitais em todo o mundo, em direção justamente ao país central da crise - os EUA.

Os impactos desse movimento já são história - bolsas de valores desabando em todo lugar; congelamento súbito do crédito, inclusive ao comércio exterior; explosão dos spreads de risco; paralisia dos mercados de capitais internacionais. Os efeitos mais fortes sobre os emergentes ocorreram não apenas nas bolsas, mas também na taxa de câmbio, criando problemas de liquidez no setor bancário e de solvência em alguns setores da economia real.

No Brasil, a forte desvalorização do real teve pelo menos um efeito positivo - a redução da dívida pública como proporção do PIB. Mas isto só aconteceu por causa de decisões corretas tomadas nos últimos anos, quando o governo, aproveitando os tempos de bonança, reduziu drasticamente a dívida interna atrelada ao dólar e acumulou reservas cambiais a um nível que tornou o país credor na moeda americana. O desafio passou a ser debelar a crise que se instalava no setor privado, com o crédito paralisado e empresas encalacradas com derivativos cambiais aqui e fora do país.

A reação do Banco Central (BC) até o momento foi vigorosa. A instituição, como bem observa Canuto, vendeu 2,6% das reservas (US$ 5,2 bilhões) no mercado à vista; fez contratos de swap de US$ 28,5 bilhões; promoveu vendas de dólar temporárias (com cláusula de recompra) no valor de US$ 8,1 bilhões. O resultado: 50% das linhas de crédito ao comércio exterior voltaram; a taxa de câmbio se afastou do pico a que chegou no auge do nervosismo e, hoje, gira em torno de níveis não-dramáticos.

Em outra frente, para desempoçar a liquidez e tentar mover o crédito, o BC flexibilizou os depósitos compulsórios num montante equivalente a 5,7% do PIB. O Ministério da Fazenda, por sua vez, adotou medidas para sustentar setores vitais ao crescimento da economia, como o da construção civil. Apesar dos esforços, já se sabe que a economia crescerá pouco no próximo ano. O mercado está apostando em algo entre 2% e 3%. O governo ainda fala em 3,8%, 4%, mas está difícil acreditar nisso.

Em entrevista à repórter Sheila D’Amorim, da “Folha de S. Paulo”, o presidente da Febraban, Fábio Barbosa, deu a dimensão do problema do crédito: “Os reais não são suficientes para atender a essa nova demanda de pessoas que migraram de dólar para reais”. Troque-se a palavra pessoas por empresas (principalmente, exportadoras) e tem-se a situação verdadeira: a encrenca cambial está drenando o crédito na economia.

“A desalavancagem global em curso ainda está afetando os mercados de ativos locais e a conta de capitais do balanço de pagamentos. Junto com uma demanda estrangeira menor por exportações, preços menores das commodities e termos de troca comercial menos favoráveis, isso vai implicar num ambiente externo mais apertado no futuro próximo”, prevê Canuto, acrescentando que há dúvidas se a desaceleração do consumo e do investimento será suficiente para compensar os efeitos inflacionários de níveis agora mais desvalorizados do real frente ao dólar.

Canuto lembra que a crise no coração das economias avançadas afetou de maneira surpreendente países emergentes como o Brasil e o México, que são casos de sucesso da integração financeira com o mundo, processo que trouxe benesses nos bons tempos, como a atração de significativos fluxos de capitais, e riscos em momentos de estresse (inovações como os derivativos cambiais vieram no mesmo pacote).

O que diferencia o Brasil neste momento, sustenta Canuto, é que o país dispõe de arsenal nas áreas monetária, fiscal e externa. É esse arsenal que está salvando o país dos efeitos mais negativos daquela que é considerada a mais grave crise global desde 1929. “A verdade é que é muito cedo para saber onde as economias emergentes, tanto individualmente quanto como um todo, vão parar, na medida em que a atual crise global se desenrola. No entanto, a qualidade das políticas domésticas vai certamente estar entre os fatores de diferenciação”, assinala Canuto.

Cristiano Romero é repórter especial e escreve às quartas-feiras.

11/11/2008 - 13:22h Considerações sobre Bretton Woods II

Luiz Gonzaga Belluzzo - VALOR

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Desde o século XVIII os teóricos e praticantes da moderna economia política debatem os conflitos e contradições entre a moeda universal (e seu caráter mercantil) e o exercício da soberania monetária pelos Estados nacionais.

No final do século XIX, a metástase da Revolução Industrial para os Estados Unidos e para a Europa Continental foi acompanhada pela constituição de um sistema monetário global, amparado na hegemonia da Inglaterra. Essa construção política e econômica do capitalismo suscitou, no imaginário social e na prática dos negócios, a “ilusão necessária” acerca da naturalidade e impessoalidade do padrão-ouro e de suas virtudes na promoção do ajustamento suave e automático dos balanços de pagamentos.

Ao promover a ampliação do comércio internacional, o padrão-ouro impôs a reiteração e a habitualidade da mensuração da riqueza e da produção de mercadorias por uma unidade de conta abstrata. Assim, para escândalo de muitos, a confiança na moeda universal em sua roupagem dourada promoveu a expansão da moeda bancária, suscitando a progressiva absorção das determinações funcionais do dinheiro - unidade de conta, meio de pagamento e reserva de valor - por uma representação, um signo desmaterializado garantido pelas finanças do Estado.

Nos anos 20 do século passado, o declínio da Inglaterra coabitou com incapacidade política do poderio econômico americano em afirmar sua hegemonia. Isso tornou problemática, após o hiato de moedas inconversíveis da Primeira Guerra, a restauração do padrão-ouro, mesmo sob a forma atenuada do Gold Exchange Standard que permitia a acumulação de reservas em dólares e libras. Em sua ressurreição, o padrão-ouro foi incapaz de reanimar as convenções e de reproduzir os processos de ajustamento e as formas de coordenação responsáveis pelo sucesso anterior. Os déficits e os superávits tendiam a se tornarem crônicos. Os países superavitários - sobretudo França e EUA - se empenharam em “esterilizar” o aumento das reservas em ouro para impedir os efeitos indesejáveis sobre os preços domésticos.

Nos trabalhos elaborados para as reuniões que precederam as reformas de Bretton Woods, Keynes formulou uma proposta mais avançada e internacionalista de gestão da moeda fiduciária. Ela previa a “administração” centralizada, pública e supranacional do sistema mundial de pagamentos e de provimento de liquidez. O Plano Keynes visava, sobretudo, eliminar o papel perturbador exercido pelo ouro - ou por qualquer moeda-chave - enquanto último ativo de reserva do sistema. Tratava-se não só de contornar o inconveniente de submeter o dinheiro universal às políticas econômicas do país emissor, mas também de evitar que assumisse a função de um perigoso agente da “fuga para a liquidez”.

Na verdade, os países trocariam mercadoria por mercadoria e o dinheiro internacional, o Bancor, seria reduzido à função de moeda de conta. Os déficits e superávits seriam registrados em uma espécie de conta corrente que os países manteriam junto à Clearing Union, a câmara de compensação encarregada de vigiar o sistema de taxas fixas, mas ajustáveis e de promover os ajustamentos entre deficitários e superavitários. No novo arranjo institucional não haveria lugar para a livre movimentação de capitais em busca de arbitragem ou de ganhos especulativos.

Em 1944, nos salões do hotel Mount Washington, na acanhada Bretton Woods, a utopia monetária de Keynes capitulou diante da afirmação da hegemonia americana que impôs o dólar - ancorado no ouro - como moeda universal. Talvez por isso, o segundo pós-guerra conte a história conflituosa da reafirmação do dólar como moeda-reserva e narre as desditas da reprodução dos desequilíbrios globais e da sucessão de ajustamentos traumáticos dos balanços de pagamentos na periferia.

Essas características do arranjo monetário realmente adotado em Bretton Woods sobreviveram ao gesto de 1971 - a desvinculação do dólar ao ouro - e à posterior flutuação das moedas em 1973. Na esteira da desvalorização continuada dos anos 70, a elevação brutal do juro básico americano em 1979 derrubou os devedores do Terceiro Mundo, lançou os europeus na “desinflação competitiva” e culminou na crise japonesa dos anos 90. Na posteridade dos episódios críticos, o dólar se fortaleceu, agora obedecendo ao papel dos Estados Unidos como “demandante e devedor de última instância”.

A crise dos empréstimos hipotecários e seus derivativos, que hoje nos aflige, nasceu e se desenvolveu nos mercados financeiros dos Estados Unidos. Na contramão do senso comum, os investidores globais empreendem uma fuga desesperada para os títulos do governo americano. Assim como nas crises cambiais dos anos 90, protagonizadas pela periferia (México, Ásia, Rússia, Brasil e Argentina), os papéis do governo dos Estados Unidos oferecem repouso para os capitais cansados das aventuras em praças exóticas e reservam os tormentos da volatilidade cambial para os incautos que acreditaram nas promessas de recompensa pelo bom comportamento.

Bretton Woods II, ou coisa assemelhada, não vai enfrentar conturbações geradas pela decadência americana. Vai sim acertar contas com os desafios engendrados pelo dinamismo da globalização impulsionada pela grande empresa e ancorada na generosidade da finança privada dos Estados Unidos. O processo de integração produtiva e financeira das últimas duas décadas deixou como legado o endividamento sem precedentes das famílias “consumistas” americanas, causa e efeito da migração da indústria manufatureira para a Ásia “produtivista” e da acumulação de mais de US$ 5 trilhões de reservas nos cofres dos emergentes.

Na posteridade da crise asiática, os governos e o Fundo Monetário Internacional ensaiaram a convocação de reuniões destinadas a imaginar remédios para “as assimetrias e riscos implícitos” no atual regime monetário internacional e nas práticas da finança globalizada. Clamavam por uma reforma da arquitetura financeira internacional. A reação do governo Clinton - aconselhado pelos conselheiros de Barack Obama, Robert Rubin e Lawrence Summers - foi negativa. Os reformistas enfiaram a viola no saco. Mesmo depois da queda do subprime, não vai ser fácil convencer os americanos a partilhar os benefícios implícitos na gestão da moeda reserva.

Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, e professor titular do Instituto de Economia da Unicamp, escreve mensalmente às terças-feiras. BelluzzoP@aol.com

09/11/2008 - 12:40h Brasil foi premiado pela prudência, diz especialista

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Para estudioso do acúmulo de reservas pelos emergentes, ‘swap’ do Fed mostra que a imagem do País mudou

Fernando Dantas - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Economista do Council on Foreign Relations (Conselho de Relações Exteriores, think-thank americano), Brad Setser já passou pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e trabalhou com o agora famoso Nouriel Roubini, o economista que previu mais acuradamente a atual crise financeira global. Estudioso do gigantesco acúmulo de reservas internacionais pelos países emergentes nos últimos anos, Setser acha que o Brasil tem dólares suficientes para se defender da crise, e só poderia ter problemas se a turbulência se agravasse ainda mais e perdurasse por muito tempo.Para Setser, um observador atento dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China), a linha de swap de US$ 30 bilhões estendida pelo Fed (Federal Reserve, banco central americano) ao Brasil é “um prêmio” pela prudência da política econômica brasileira, e significa uma mudança na forma pela qual o País é visto pela comunidade financeira internacional.Setser considera que a tão propalada mudança da arquitetura financeira internacional já começou, e diz que mais foi feito nessa direção nas últimas três semanas do que no longo período de discussão do assunto que sucedeu as crises financeiras do fim dos anos 90. Ele cita como mudanças profundas, que o deixaram surpreendido, a extensão ilimitada pelo Fed de linhas de dólares (”swaps”) para países europeus, e também (de forma limitada) para Brasil, Coréia, México e Cingapura.

A seguir, a entrevista:

Como a crise financeira vai afetar os Brics?

A crise tem três impactos amplos, que afetam todo mundo, mas em graus diferentes. O primeiro é uma significativa desaceleração no crescimento da demanda por produtos manufaturados, notadamente nos Estados Unidos e na Europa, e isso vai ter um forte impacto na China. O segundo efeito, que afetou a Rússia de forma particularmente forte, mas também atingiu o Brasil, é que a crise financeira e bancária levou a uma forte redução do crédito para as economias emergentes. Isso gerou uma pressão para baixo nas moedas da maioria destes países, e quase todos tiveram de gastar suas reservas para compensar a retirada de financiamento bancário internacional. A Rússia ficou numa situação particularmente ruim, por causa da extensão em que o setor privado russo tomou emprestado do sistema financeiro internacional. E, finalmente, há a grande oscilação do ciclo econômico global, que causou uma significativa correção no preço das commodities. Isso terá impacto na Rússia, por causa do petróleo, e no Brasil, por causa do minério de ferro e muitas outras commodities que o País exporta.

As reservas brasileiras são suficientes para enfrentar esta crise?

As reservas brasileiras são substancialmente maiores do que suas dívidas de curto prazo. O Brasil tem a vantagem de, adicionalmente às reservas, dispor agora de acesso a US$ 30 bilhões do Fed na linha de swap, e provavelmente poderia sacar no novo instrumento de financiamento de curto prazo do FMI. Então o Brasil tem pelo menos US$ 30 bilhões, e talvez até US$ 50 bilhões, em crédito adicional. O único cenário no qual poderia haver mais pressão do que o Brasil poderia agüentar seria aquele em que qualquer um com exposição ao real tentaria fazer um hedge dessa posição. Para isso, seria preciso um choque ainda mais forte do que o que vimos até agora, um longo período no qual o País financiaria com as suas reservas não apenas uma queda de curto prazo no crédito bancário, mas teria de gastá-las também para suprir o déficit em conta corrente. Não subestimo o risco para o Brasil, mas ainda acho que está em melhor situação do que muitas outras economias emergentes.

As economias emergentes sofrerão um impacto na economia real tão forte quanto aquele que já começa a afetar os países ricos?

Estou cada vez mais preocupado com a possibilidade de que a desaceleração dos emergentes, de forma agregada, seja comparável em escala àquela experimentada pelos países ricos. A Rússia vai ter uma desaceleração bem aguda, que também ocorrerá em muitos países do Leste europeu. Bem, no caso da China pode-se dizer que um crescimento de 6%, que muitos já acham que possa ocorrer no início de 2009, é mais rápido do que o de muitos países num ano bom. Mas é uma significativa desaceleração a partir do nível de 11%, 12%. Quanto ao Brasil, minha esperança é de que, com a medidas tomadas para reduzir a vulnerabilidade, o País possa ajustar-se gradualmente, e a parada súbita seja apenas dos fluxos de capital, mas não da economia.

O mundo está caminhando para uma nova arquitetura financeira internacional, o chamado “novo Bretton Woods”?

Minha visão provavelmente é influenciada pelo fato de ter trabalhado no Departamento do Tesouro durante o último esforço para reforma da arquitetura financeira internacional. E confesso que fiquei chocado com o fato de que as mudanças acordadas nas últimas três semanas sejam, em certo sentido, muito maiores e muito mais significativas do que as que foram acordadas depois das crises de 1997, 1998 e 1999, quando houve um período muito mais longo de debate e reflexão sobre a reforma da arquitetura. O fato de que o Fed forneceu US$ 500 bilhões em crédito para os bancos europeus é indicativo da escala da mudança. É impactante que o Fed concorde em emprestar para os bancos centrais europeus literalmente sem limites, com o instrumento do “swap” (troca de dólares por euros), para que estes possam cumprir o papel de emprestadores de última instância de dólares para o sistema bancário europeu. E há também o novo instrumento de financiamento de curto prazo do FMI. Olhando para a frente, ainda há alguns pontos necessários sobre os quais ainda não se chegou a um acordo, como tornar o FMI substancialmente maior do que ele é hoje, e recalibrar o peso dos votos no Fundo para refletir a crescente importância dos países emergentes na economia global.

O Brasil foi um dos quatro países emergentes que também teve acesso à linha de swap do Fed, como o sr. mencionou, embora de forma limitada. Qual o significado disso?

Acho que é o reconhecimento de que o Brasil fez muitas coisas para reduzir a sua vulnerabilidade a crises financeiras. Foi um prêmio para as políticas econômicas prudentes que o Brasil praticou nos últimos poucos anos. Se você é gestor de política econômica nos Estados Unidos, com experiência de crises em mercados emergentes, é difícil não ficar impressionado com o fato de que o governo do Brasil saiu de uma posição de devedor líquido internacional para a de credor líquido internacional. Houve uma mudança na maneira pela qual o Brasil é visto na comunidade financeira internacional. Por outro lado, a concessão do swap também reflete o fato de que o Brasil é sistemicamente importante, e deixá-lo de fora poderia ser um sinal para que os investidores fizessem ainda mais hedge da sua exposição ao País, o que poderia acabar criando uma situação ruim.

Qual será o papel do presidente Obama na montagem dessa nova arquitetura?

Teremos uma noção muito melhor quando ele escolher o seu secretário do Tesouro e sua equipe econômica. Minha suposição é de que o governo Obama terá mais inclinação do que o governo Bush para contemplar a hipótese de um FMI maior como parte da solução para os problemas financeiros dos mercados emergentes. Certamente, um governo Obama será mais favorável do que o de Bush a propostas que aumentem o nível de regulação no sistema financeiro americano. Por outro lado, nos últimos três meses Bush abriu mão de muitas posições ideológicas, e reagiu de forma muito pragmática à crise. Várias mudanças importantes, como o instrumento de financiamento de curto prazo do FMI, e a extensão do swap do Fed para países emergentes, já ocorreram sob o comando do Bush, porque os eventos assim exigiram. De alguma forma, a administração do Bush já abraçou algumas das idéias que estavam circulando entre os assessores do Obama.

05/11/2008 - 10:49h “Bretton Woods II”: vital e dificílimo

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Martin Wolf - VALOR

Chegamos ao ponto de uma crise em que líderes ambiciosos pedem um “novo Bretton Woods”. É fácil ironizar tal discurso. Mas é também fácil ver porque esta crise faria tais pessoas pensarem em termos tão heróicos.

Em primeiro lugar, a economia mundial está de volta à condição que motivou o acordo original de Bretton Woods - uma gigantesca crise financeira proveniente dos EUA -, então, e ainda hoje, a potência financeira dominante no mundo. A Grande Depressão da década de 30 foi acompanhada - e agravada - por malogros de cooperação econômica, desintegração da economia mundial e ressurgimento de nacionalismo. Mas também produziu uma revolução no pensamento econômico. “Nunca mais” foi o objetivo dos negociadores em Bretton Woods, no Estado de New Hampshire. Atolados na pior crise financeira desde os anos 30, temos boas razões para dizer o mesmo.

Em segundo lugar, é desnecessário aguardar momentos mais calmos para repensar o sistema econômico. A conferência de Bretton Woods culminou em julho de 1944, enquanto a Segunda Guerra Mundial estava longe de terminar. Se então puderam combater uma guerra e reestruturar uma economia mundial simultaneamente, também podemos combater uma crise e, ao mesmo tempo, reestruturar as instituições mundiais.

Terceiro, o sistema financeiro mundial atual é disfuncional. O que está em jogo para uma reforma é a manutenção da economia mundial aberta que oferece oportunidades a tantos. Está também em jogo a cooperação sustentada entre países. Nada é menos provável do que cooperação efetiva entre governos “ensimesmados” administrando sociedades atemorizadas, ou mesmo xenofóbicas.

Finalmente, o que está acontecendo está na intersecção entre macroeconomia mundial - dinheiro, câmbio e balança de pagamentos - e o sistema financeiro mundial: fluxos de capital, fragilidade financeira e contágio. O imperativo de cooperação permanece. Mas como disse Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, em 6 de outubro: “precisamos modernizar o multilateralismo e os mercados para uma economia mundial em mutação”.

Então, como fazê-lo? Precisamos partir dos desafios fundamentais.

O primeiro é a impossibilidade de influenciar as políticas de países que registram enormes e persistentes superávits em conta corrente. Essa foi uma preocupação dominante de John Maynard Keynes em 1944. Ironicamente, o problema naquele momento eram os superávits americanos. Hoje, o problema é o colapso da capacidade das famílias americanas e em um punhado de outros países de alta renda de contrabalançar os enormes superávits em conta corrente gerados pela China, Alemanha, Japão e pelos países exportadores de petróleo. Os países superavitários adoram criticar aqueles que gastam o que os primeiros desejam conceder como empréstimos. Aqueles logo descobrirão que não podem dispensar a prodigalidade destes.

O segundo é o financiamento a países sujeitos a “paralizações repentinas” dos afluxos de capital, do tipo que estamos testemunhando, à medida que bancos e outros emprestadores de moeda estrangeira sustam o financiamento a um amplo leque de tomadores de empréstimos, especialmente a países emergentes. Muitos destes fizeram um imenso e oneroso esforço para reduzir a vulnerabilidade acumulando reservas em moeda estrangeira. Em agosto deste ano, o total de reservas em moeda estrangeira dos países emergentes tinha chegado a US$ 5,5 trilhões, muitíssimo maior do que os US$ 260 bilhões disponíveis ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Entretanto, auto-seguro é algo ineficiente e também, conforme comprovado, distribuído desigualmente.

O terceiro desafio é o de tornar o sistema financeiro menos instável e, acima de tudo, menos vulnerável a tais enormes oscilações no apetite por riscos - de financiar qualquer coisa, por mais ridícula, a financiar nada, por mais meritória. Além disso, neste momento, como enfatizou Stephen King, do HSBC, no fórum dos economistas do FT, os esforços dos governos no sentido de obrigar os bancos socorridos a financiar tomadores de empréstimos domésticos tendem a sacrificar seus empréstimos a países emergentes.

O último desafio da lista é o de tornar a arquitetura institucional mundial menos ilegítima do que hoje. As instituições criadas por Bretton Woods - o FMI e o Banco Mundial - são dominadas pelas potências ocidentais: no caso do Fundo, os EUA ainda detêm 17,1 % das quotas (que em larga medida determinam os votos) e a União Européia outros 32,4% (em maio de 2007). Por seu turno, a China tinha apenas 3,7% e a Índia 1,9%. Trata-se, simplesmente, de uma anomalia. Também é anômala a persistência do G-7 como grupo coordenador da economia mundial, especialmente na medida em que três deles - Alemanha, França e Itália - não têm moedas independentes. O Grupo dos 20, cuja cúpula acontecerá em Washington em 15 de novembro, parece grande demais. Zoellick sugere um G-14, com Brasil, China, Índia, México, Rússia, Arábia Saudita e África do Sul.

O interessante sobre essa agenda é em que medida grande parte dela poderia parecer familiar aos olhos dos participantes de Bretton Woods, com uma exceção. Keynes ficaria horrorizado com o fato de o mundo ter deixado escapar da lâmpada o gênio dos livres fluxos de capital. É por isso, assinalaria ele, que mais financiamento externo é necessário do que em qualquer momento anterior, porque enormes reservas em moeda estrangeira foram acumuladas e porque crises financeiras são novamente mundiais, em vez de locais. Ele acrescentaria que “um banqueiro sensato, infelizmente, não é aquele que antevê o perigo e o evita, mas aquele que, quando está arruinado, fica arruinado de uma maneira convencional e ortodoxa juntamente com seus semelhantes, de modo que ninguém pode realmente culpá-lo”. Temos um número excessivo desses banqueiros. Keynes certamente acrescentaria que essas instituições subcapitalizadas e ilíqüidas são praticamente bombas-relógios financeiras.

Mas, poderá algo de proveitoso ser feito para enfrentar tais desafios? É, certamente, possível - e, em verdade, necessário - mudar a arquitetura mundial, particularmente em resposta a mudanças nos pesos econômicos. É igualmente necessário prover o FMI de mais recursos financeiros para sustentar sua nova linha de financiamento de curto prazo. Mas é, sem dúvida, otimismo excessivo acreditar que o Fundo possa emitir advertências confiáveis de ameaças de crises. Mesmo se o fizesse, é ainda menos provável que os países relevantes viriam a fazer algo em resposta.

Também não sou otimista quanto a que possamos romper os vínculos que conectam a atividade bancária como burocracia monótona que presta serviços essenciais à economia à atividade bancária como cassino que cria a possibilidade de fazer apostas enormes. Os banqueiros receberam autorização para jogar com o dinheiro dos contribuintes. Para quem está por dentro do negócio, é maravilhoso. É também uma atividade que parecemos incapazes de conter.

Mas eu gostaria que os fatos me provassem errado. Espero que a cúpula do G-20 defina a agenda para uma reforma séria, mediante a criação de grupos de trabalho que comprovem sua capacidade para produzir propostas radicais e eficazes. Pois o que está acontecendo agora pode ser a última oportunidade para uma economia mundial aberta e dinâmica. Em primeiro lugar, temos de atravessar a crise atual. Depois, precisaremos tornar esses catastróficos colapsos financeiros tremendamente menos prováveis. Se não nós, quem? E se não agora, quando?

04/11/2008 - 15:17h Itaú leva o Unibanco

Novo banco será o maior do país, com R$ 575 bi em ativos, e a 4ª maior empresa da AL

Ronaldo D’Ercole SÃO PAULO e RIO - O GLOBO

Dois dos maiores bancos privados do país, Itaú e Unibanco anunciaram ontem a fusão de suas operações, numa transação que resultará no maior banco do Brasil e da América Latina, com ativos totais de R$ 575,1 bilhões.

Ou, nas palavras do presidente do Unibanco, Pedro Moreira Salles, a 17ª maior empresa financeira do mundo.

Pelo acordo, a família Moreira Salles, que controla o Unibanco, será sócia em partes iguais dos controladores do Itaú numa holding, que controlará 51% das ações com direito a voto da nova instituição, a Itaú Unibanco Holding.

O valor de mercado do novo banco, pelos números de 31 de outubro de 2008, seria de US$ 41,3 bilhões, o que o põe na quarta posição no ranking de empresas latinoamericanas, atrás de Petrobras, Vale e América Móvil (México).

— Nós estamos fazendo história hoje no Brasil — disse o presidente do Itaú, Roberto Setubal, ao iniciar a apresentação do negócio aos jornalistas, no MAM de São Paulo.

Diferentemente da interpretação de alguns analistas de mercado, Moreira Salles e Setubal negaram tratarse de uma aquisição, afirmando ser uma parceria, uma sociedade.

— Não se trata de uma compra, trata-se de uma fusão. Se não, eu estaria aqui sozinho. Nós, dos dois lados, criamos uma holding e estamos abrindo mão de coisas para formar algo maior — disse Setubal.

A criação do novo gigante bancário começou a ser negociada em agosto de 2007 entre Moreira Salles e Setubal, ganhando força com a concretização, dois meses depois, da compra do Real ABN Amro pelo espanhol Santander. Moreira Salles lembrou que a existência de um banco com escala global criava uma situação nova para o mercado local.

— Os (bancos) estrangeiros sempre tiveram no Brasil uma dimensão menor que os maiores bancos brasileiros — disse Moreira Salles. — A questão do Santander nos mostrou que devíamos dar um salto de escala.

A crise financeira global foi outro elemento que ajudou no desfecho das negociações, mas não foi determinante, segundo os dois executivos.

— A crise talvez tenha criado uma oportunidade, uma vontade de acelerar e fazer o projeto acontecer — argumentou Setubal.

Embora a meta seja constituir uma instituição para atuar nos mercados globais, a prioridade no momento será a integração dos dois bancos. A idéia, segundo os executivos, é preservar o maior número de agências (total em torno de 4.200) e de funcionários (cerca de 107 mil).

— Estamos olhando para o crescimento.

É óbvio que existem superposições (de agências e postos de trabalho), mas a empresa que está sendo criada terá, daqui a dois ou três anos, mais funcionários do que tem hoje — disse Moreira Salles.

Eles disseram não saber quanto o novo banco ganhará em sinergias com a união de Itaú e Unibanco.

— Acreditamos que haverá ganhos, mas não calculamos — disse Moreira Salles. — Numa operação de troca de ações, essas contas não se fazem.

Num primeiro momento, haverá poucas mudanças para clientes e correntistas. Os detalhes do processo de integração começam a ser tratados agora e não há prazo para sua conclusão. Segundo Moreira Salles, até a última quinta-feira, somente ele e Setubal vinham trabalhando no projeto. Só então seu desenho foi apresentado aos técnicos e advogados das duas partes.

O projeto de ampliar a internacionalização do novo banco só deve ser colocado em marcha daqui a alguns anos. No início, serão visados mercados latinos, como México e Colômbia.

Internamente, o novo banco pode fazer frente às investidas do Santander. Pelo fato de sua participação não ser diluída, não poderá ser alvo de ofertas hostis. Externamente, poderá fazer aquisições em América Latina, África, EUA e Europa. Também se reforça o peso do setor privado na área financeira, num momento em que o governo tenta fortalecer Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.

Itaú teve maior alta da Bolsa: 16,32%

A fusão foi o grande propulsor do mercado ontem. A Bolsa de Valores de São Paulo avançou 2,66%, aos 38.249 pontos, enquanto o índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, ficou estável. A operação foi muito bem recebida e vista como prenúncio de que novas aquisições virão, por parte dos concorrentes.

As ações do Itaú fecharam em alta de 16,32%, a maior valorização do dia, seguida pelos papéis da Itaúsa (holding do grupo), com 13,04%. Já as do Unibanco subiram 8,95%.

Já o dólar teve alta de apenas 0,37%, a R$ 2,168, acompanhando a valorização internacional da moeda americana. O Banco Central vendeu dólares no mercado à vista, em torno de US$ 500 milhões, e cerca de US$ 800 milhões em swaps cambiais (contratos em que paga a variação do dólar e recebe uma taxa de juros).

Ninho de tucanos

Unibanco abriga muitos nomes do ex-governo FH

O Globo

O ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central (BC) Pedro Malan foi o primeiro tucano do governo Fernando Henrique Cardoso a ocupar um assento na cúpula do Unibanco. Pouco a pouco, outros auxiliares de FH foram migrando para o setor privado, até que o banco da família Moreira Salles transformou-se num ninho de tucanos.

Apontado como o ministro da estabilidade econômica — ele ocupou o cargo de ministro por oito anos — Malan foi para o Unibanco logo que cumpriu a quarentena imposta a quem deixa cargos de alto escalão.

Ele ocupou a vice-presidência do Conselho de Administração do banco, em 2003, e no ano seguinte, assumiu a presidência. O cargo agora, pela nova estrutura, será ocupado por Pedro Moreira Salles.

Apesar dos nomes de peso na direção do Unibanco, o presidente da Austin Rating, Erivelto Rodrigues, avalia que o banco nunca conseguiu capitalizar o potencial de tantas cabeças pensantes juntas: — O Unibanco vivia um eterno choque de vaidades.

O primeiro a seguir os passos de Malan foi seu ex-colaborador Demosthenes Madureira de Pinho Neto. Ele foi coordenador-geral de Política Monetária e Financeira do Ministério da Fazenda, no primeiro mandato de FH, e depois diretor BC. Muito próximo a Malan, ele assumiu o cargo de diretor vice-presidente do Unibanco, responsável pelo Atacado e pela área de Gestão de Patrimônios, e depois foi alçado à presidente da Unibanco Asset Management.

Em 2004, além de Pinho, Daniel Luiz Gleizer também acompanhou o ex-colega de governo. Gleizer, que trabalhou com Malan no BC como diretor-adjunto da Diretoria de Assuntos Internacionais, passou a ser diretor-executivo das áreas de Tesouraria e Pesquisa Macroeconômica do Unibanco. Com larga experiência no setor financeiro, ele foi do FMI, do Deutsche Bank e do Credit Suisse First Boston.

O último tucano a migrar para o banco foi Eleazar de Carvalho Filho, ex-presidente do BNDES. Com mais de 25 anos de experiência no setor financeiro, ele foi convocado pelo amigo Malan para comandar a nova estrutura do Unibanco Banco de Investimento, em abril último.

O Itaú abriga dois pais do Plano Real, mas que também participaram do Cruzado de José Sarney: Pérsio Arida (do Conselho de Administração) e Edmar Bacha (economista sênior do Itaú BBA). (Liana Melo)

01/11/2008 - 10:31h Conta de juros do setor público cai à metade com alta do dólar e dívida é a menor em 10 anos em relação ao PIB

Conta de juros do setor público cai à metade com alta do dólar

Despesa passa de R$ 12,5 bi para R$ 6,1 bi em setembro e resultado é o melhor para o mês

Lu Aiko Otta - O Estado SP

A alta do dólar provocada pela crise financeira internacional fez com que a conta de juros paga pelo setor público no mês de setembro atingisse seu menor nível em sete anos: R$ 6,142 bilhões. Para se ter uma idéia, no mês anterior essa mesma conta havia ficado em R$ 12,527 bilhões.

A queda na despesa de juros e a forte arrecadação tributária fizeram com que as contas públicas tivessem o melhor setembro da história, segundo os registros do Banco Central, iniciados em 1991: superávit de R$ 3,863 bilhões no conceito nominal, que considera inclusive as despesas com juros. Sem contar com os juros, o saldo (chamado primário) chega a R$ 10,005 bilhões.

A explicação para o efeito positivo do câmbio sobre as contas públicas está numa operação feita pelo Banco Central, chamada swap cambial reverso.

“É uma operação em que o Banco Central aposta com o mercado que a taxa de câmbio vai se desvalorizar, ou seja, que o dólar vai subir”, disse o chefe-adjunto do Departamento Econômico, Túlio Maciel. “No final do contrato, paga-se a diferença entre a variação do juro e do câmbio.” O juro usado nessas operações é o Depósito Interfinanceiro (DI), que funciona como uma referência para o custo do dinheiro no mercado.

Segundo Maciel, até agosto o governo tinha perdas com o swap cambial reverso, porque o dólar estava em queda. Com a crise, o comportamento do câmbio se inverteu e o Banco Central passou a ter ganhos expressivos, estimados em R$ 6,5 bilhões no mês, na forma de juros.

Assim, caiu a despesa global de juros e as contas do setor público tiveram bom desempenho. No final de setembro, o estoque de operações de swap estava em R$ 39,9 bilhões.

Esse efeito do dólar sobre os juros tende a ser menor nos próximos meses, porque com a crise o governo inverteu a mão das operações de swap. Assim, passou a apostar na queda do dólar. Essa medida tem por objetivo dar ao mercado liquidez em dólares, garantindo a moeda no mercado futuro a uma determinada cotação.

RUMO AO DÉFICIT ZERO

O efeito do câmbio, porém, não explica sozinho o comportamento das contas do setor público em setembro. O governo central (Tesouro, Previdência e Banco Central) teve um resultado primário positivo de R$ 5,173 bilhões, explicado pelo bom nível de arrecadação. Os Estados e municípios também fecharam a conta com saldo positivo de R$ 1,59 bilhão. A surpresa ficou por conta das empresas estatais, que apresentaram um superávit de R$ 3,242 bilhões, um recorde para os meses de setembro.

Nos 12 meses encerrados em setembro, o resultado primário acumulado é de R$ 128,798 bilhões. No mesmo período, os gastos com juros somaram R$ 165,641 bilhões. Assim, em 12 meses existe um déficit nominal de R$ 36,843 bilhões. Medido como proporção do Produto Interno Bruto (PIB), é o menor déficit para 12 meses já registrado pelo Banco Central: 1,32% do PIB. A meta do governo é chegar ao déficit nominal zero.


Dívida é a menor em 10 anos em relação ao PIB

A dívida líquida do setor público atingiu R$ 1,127 trilhão em setembro, equivalente a 38,3% do Produto Interno Bruto (PIB). Em agosto, estava em 40,4% do PIB. Como proporção do PIB, é o menor resultado em dez anos. A última vez que a dívida esteve tão baixa foi em outubro de 1998, de 37,58% do PIB.

Esse é outro reflexo positivo da valorização do dólar. Em setembro, a moeda ficou 17% mais cara. Com o dólar em alta, as reservas internacionais crescem quando convertidas em reais. O mesmo ocorre com outros ativos em moeda estrangeira. “A valorização do dólar impacta favoravelmente os ativos cambiais, principalmente as reservas”, disse o chefe-adjunto do Departamento Econômico do Banco Central, Túlio Maciel.

Quando comparados com as dívidas do setor público, os ativos mais valorizados ajudam a diminuir o saldo líquido. O efeito cambial foi responsável pela redução de 1,6 ponto porcentual da dívida líquida em setembro, de uma queda total de 2,1 pontos. No ano, a contribuição da alta do dólar é ainda maior: 4 pontos, em uma queda total de 4,3 pontos.

Além do efeito do câmbio, a dívida líquida caiu em setembro por causa do desempenho das contas públicas. O fato de terem encerrado o mês com superávit nominal respondeu pela queda de 0,1 ponto na dívida medida como proporção do PIB.

A expectativa do governo é que a dívida continue em queda este mês. Anteontem, em depoimento no Senado, o presidente do BC, Henrique Meirelles, apresentou uma projeção na qual a dívida cairia para 37% do PIB em outubro. Se confirmado, será o melhor resultado desde setembro de 1998.