14/10/2007 - 23:52h Prazeres expressos

POLÊMICAS EM TORNO DO ROUBO DO RELÓGIO DO APRESENTADOR LUCIANO HUCK NAS RUAS DE SÃO PAULO E ENSAIO FOTOGRÁFICO COM A JORNALISTA MÔNICA VELOSO SUGEREM EXIBICIONISMO E VOYEURISMO COMO TRAÇOS CONSTITUTIVOS DA SOCIEDADE


RENATO MEZAN
COLUNISTA DA FOLHA

O artigo em que o apresentador Luciano Huck protesta contra a insegurança nas cidades brasileiras [publicado na Folha em 1º/10] desencadeou uma polêmica considerável.
Nela, porém, uma pergunta brilha pela ausência: por que um povo conhecido por sua impontualidade dá tanto valor a um relógio? E não se diga que é apenas a “elite” que o cobiça: os ladrões provavelmente o venderam a um receptador, mas nada impede que ele venha a adornar o pulso de um chefão da periferia.
O Rolex foi o primeiro relógio de pulso de precisão, fabricado na Inglaterra por um alemão chamado Wilsdorf; somente depois da Primeira Guerra é que a empresa se transferiu para Genebra.
Wilsdorf era um ótimo artesão, e também um gênio da publicidade. Tendo aperfeiçoado um sistema à prova d’água, colocou um aquário na vitrina e ali deixava suas máquinas funcionando; num golpe de audácia, ofereceu uma delas a uma nadadora que iria cruzar o canal da Mancha -e o mecanismo agüentou firme as muitas horas no mar.

Função e imaginário
Desde o início, portanto, a marca ficou associada à excelência, mas igualmente à resistência, à elegância e à aventura. O curioso é que a mesma combinação de realidade e imaginário aderiu ao bisavô do Rolex: o relógio de bolso, inventado no século 18.
Bárbara Soalheiro (”Como Fazíamos sem…”, Panda Books, 2006), explica que os primeiros a ser fabricados custavam pequenas fortunas: assim, chegar na hora a um compromisso se tornou símbolo de status, já que indicava que o cidadão pontual era rico o suficiente para possuir um “watch”.
A autora conta que era comum as pessoas comprarem um em sociedade, reservando um dia da semana para cada proprietário: nos outros, na ponta da corrente não havia nada -mas ninguém precisava saber disso…
Assim, no simples ato de usar um relógio coexistiram desde sempre funcionalidade e imaginário. Os meios de comunicação -pinturas e gravuras, depois romances e jornais- se encarregaram de o transformar num objeto de desejo. Mas o que, exatamente, se deseja nesse desejo?
A palavra “griffe” significa garra: é o leão que deixa na presa morta a marca do seu poder.
Como os poderosos são em pequeno número, usar um objeto de marca prestigiosa é também sugerir que pertencemos ao conjunto seleto dos que “podem” -e mandam. Eis por que, além de servir a fantasias de exibição fálica, a roupa, a caneta, o carro (e o relógio) se tornaram ícones identificatórios, indicando que seu portador faz parte de um grupo valorizado, do qual a maioria está excluída.
Nesse sentido, cumprem a mesma função que as marcas tribais, a circuncisão, os símbolos religiosos e políticos etc.
Ora, aquilo que começa nas altas rodas é rapidamente imitado pelas outras camadas da sociedade. Pense-se no terno de linho branco em voga no início do século passado: pouco importava que fosse leve e confortável. Tornou-se rapidamente símbolo de ócio -quem o usava não se sujava trabalhando-, e era esse o recado que passava quando vestido por um boêmio carioca.
Curiosamente, no Brasil, a mensagem “sou importante” não é veiculada pela pontualidade, mas pelo seu oposto. Bárbara Soalheiro explica por quê: como aqui o tempo não era marcado por relógios particulares, mas pelos sinos da igreja, chegar atrasado (à missa ou a um encontro) era sinal de desprezo pelas obrigações -portanto, privilégio senhorial.

Episódio revelador
Se o Rolex está do lado do que a psicanálise chama exibicionismo (termo que não tem caráter pejorativo, apenas designando um dos destinos possíveis da libido), outro “fait-divers” da semana parece ligar-se ao seu par complementar: o voyeurismo. As fotos de Mônica Veloso despida excitaram a imaginação de muitos brasileiros (e talvez a inveja de muitas brasileiras). Mais uma vez, funcionalidade e aura se entrelaçam num episódio revelador.
À primeira vista, o que torna a jornalista desejável são as curvas sedutoras do seu corpo, que inspiram fantasias nas quais se oferece a quem a contempla. Mas inúmeras modelos adornam as páginas das publicações masculinas: por que então o auê em torno dessa?
Talvez haja aqui outro fator: ao nos entregarmos ao deleite de a olhar, colocamo-nos na mesma posição daqueles com quem ela teve relações. Ora, Mônica Veloso certamente teve outros namorados, mas é com o enlameado senador Calheiros que se identifica quem compra a “Playboy” ou acessa o site da revista.
E que benefício nos traz essa identificação com Sua Excrescência? A resposta não é difícil: todos gostaríamos de poder exibir impunemente aquela postura arrogante, de poder pisotear impunemente as regras do convívio civilizado e de impor nossa vontade aos outros com a mesma truculência que o representante de Alagoas.
Ao comer com os olhos a mulher que foi dele, usufruímos por um instante dos prazeres que ele desfrutou. Mas apenas vicariamente: para nossa frustração, o superego, a polícia e o olhar reprovador dos outros limitam a realização desses desejos à esfera do devaneio.
Muitas outras questões, é claro, podem ser levantadas a partir de cada um desses episódios. Mas não deixa de ser interessante a perspectiva que eles abrem sobre nosso inconsciente. Ali, não nos basta ser amigos do rei: somos o próprio rei, o herói, o caubói -e nosso cavalo nem precisa falar inglês.


RENATO MEZAN é psicanalista e professor titular da Pontifícia Universidade Católica de SP. Escreve na seção “Autores”, do Mais! .

14/10/2007 - 23:49h Jogo dos incluídos

DESEJOS COBIÇADOS PELA PARCERIA CALHEIROS/VELOSO E PELA SIMETRIA HUCK/ASSALTANTES PERDERAM SUA SINGULARIDADE E CAÍRAM NA VALA COMUM DAS BANALIDADES


ELIANE ROBERT MORAES
ESPECIAL PARA A FOLHA

Há alguma simetria entre os protagonistas das duas notícias que mobilizaram a imprensa brasileira nas últimas semanas.
De um lado, o casal Renan Calheiros e Mônica Veloso, que vem disputando a atenção dos leitores com o escandaloso thriller no qual sexo e política se fundem em prol da corrupção. De outro, o embate entre o apresentador Luciano Huck e dois ladrões de rua, que vem semeando dúvidas sobre quem é o mocinho e quem é o bandido da história.
Aparentemente, o que aproxima todos esses personagens é a disputa por um objeto do desejo. No caso dos assaltantes de Huck, por estar no pulso de um “bacana”, mais que um relógio, o objeto em questão aparece como um equivalente geral que pode dar acesso a outros objetos, cuja demanda pode ser motivada tanto pela necessidade quanto pelo desejo.

Crack ou remédios?
Armas ou alimentos? Pedras de crack ou remédios? Tênis de grife ou aluguel de barraco? Não se sabe, pois aos que estão à margem do tecido social não é dada a oportunidade de se manifestar.
No caso do famoso apresentador, o objeto também parece ser mais que um simples relógio, já que se trata de um caríssimo Rolex. Presente de sua mulher, a igualmente famosa apresentadora global Angélica, um relógio desse calibre é sinal de prestígio, indicando um lugar social que, no Brasil, costuma “abrir portas” raras vezes franqueadas à maior parte da população.
Como não recordar, por exemplo, que Luciano Huck é proprietário de uma pousada cinematográfica num parque nacional como Fernando de Noronha, cuja legislação é tão restrita para a hotelaria?
Mais afinado com as tradições patriarcais de seu Estado natal, Renan aparece nos noticiários por conta de um objeto tradicional, bem de acordo com a chamada “preferência nacional” dos anúncios de cerveja.
Escolha por certo incentivada pelo reconhecimento de que, desde a época dos coronéis, os velhos políticos gozam junto ao público machista quando exibem seus casos extraconjugais.
Ora, em perfeita simetria com o desejo do senador alagoano, Mônica Veloso também parece desejar exatamente o que Renan podia lhe dar, a saber: dinheiro no bolso e um lugar ao sol no mundo das celebridades.
Daí que não seja possível, em ambos os episódios, associar os casos em questão àquele “obscuro objeto do desejo” que dá título a um dos mais instigantes filmes de Luís Buñuel. Tratava-se, para o cineasta, de mostrar como um desejo singular, único, podia engendrar um objeto de grande opacidade.
Em direção oposta, tanto na parceria Calheiros/Veloso quanto no confronto Huck/assaltantes, há uma espécie de exibição ostensiva dos objetos em jogo, como que marcando a coincidência de desejos que perderam sua singularidade para cair na vala comum das banalidades.
Nascidos um para o outro, Renan Calheiros e Mônica Veloso formam um par perfeito. Político experiente, o senador de Alagoas não poupou manobras para conseguir a presidência da casa.
Da mesma forma, Mônica mostrou-se ambiciosa o bastante para desistir da volumosa pensão alimentícia de R$ 12 mil -fora o aluguel no valor de R$ 4.500- para sair da sombra do senador e conquistar um espaço próprio, não sem antes mostrar seus dotes na habitual sessão de fotos para uma revista “masculina”.

As duas mônicas
Com efeito, comparada a ela, talvez a colega americana Monica Lewinsky não passe mesmo de uma estagiária. Ora, o que chama a atenção, em todo esse processo, é o insistente desejo de exposição.
Figurinha carimbada, Renan faz questão de tornar públicas as ameaças aos adversários e aliados, visando a salvar sua pele mais uma vez. Enquanto isso, a Mônica tupiniquim faz de tudo para conseguir o almejado emprego como apresentadora, não poupando esforços de qualquer ordem.
Assim também, as reiteradas manifestações de Luciano Huck desde a ocorrência do assalto não fazem outra coisa senão reforçar seu espaço, já nada desprezível, na mídia.
Nessa economia, ser sujeito significa antes de tudo ser visto.
Ganha quem consegue aparecer. Perde quem fica fora do jogo. Já não é possível estabelecer nenhuma simetria entre os pólos das duas histórias. Diante das ostensivas figuras de Renan, Mônica e Huck, os dois anônimos assaltantes sem nome nem voz próprios não podem mesmo ser outra coisa senão excluídos.


ELIANE ROBERT MORAES é professora de estética e literatura na Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e no Centro Universitário Senac-SP. É autora de “Lições de Sade” (Iluminuras), entre outros livros.

11/10/2007 - 19:27h A mais lida no Clarín de Argentina: El poder desnudo

Protagonizó el escándalo político del año en Brasil y ahora posó para Playboy. Es la ex amante del presidente del Senado, a quien acusaron de recibir coimas de una empresa para mantener a la hija extramatrimonial que tuvo con ella.

Por: Leonardo Bachanian. De la Redacción de Clarín.com.

RECORD. El dueño del puesto de revistas del Congreso contó que el primer día que salió a la venta volaron 100 ejemplares, cuando el promedio es de 40 por mes.

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En Brasil, todos los escándalos conducen a Playboy. Esa parece ser la lógica que domina la actualidad de ese país, durante este año. “Las mejores tapas son las periodísticas, las que nacen de alguna noticia. La polémica vende“, asegura Edson Aran, editor general de la revista. Primero fue la juez de línea Ana Paula Oliveira la que levantó la bandera del desnudo, después de que la Confederación Brasileña de Fútbol (CBF) la retirara del torneo de primera división por su mal desempeño. Ahora fue el turno de la periodista Mónica Veloso (38), la ex amante del cuestionado líder del Senado, Renan Calheiros.

La mujer que chocó a la República“, es el título que adorna la tapa de la edición de octubre. El ejemplar, que salió a la venta el lunes, batió el record de venta en el kiosko de revistas del Congreso. José Erinaldo, dueño del puesto, contó que volaron 100 ejemplares en un día, cuando el promedio es de 40 por mes. “Es un suceso absoluto, en Brasilia estamos vendiendo una revista cada seis minutos”, exagera, eufórico, Aran. Y agrega: “Está la curiosidad de todos por descubrir cómo es la mujer que casi derriba al presidente del Senado brasileño”.

Veloso, que trabajó varios años en la cadena Globo de televisión, expandió su presencia mediática cuando se acusó a Calheiros, miembro del Partido de Movimiento Democrático (PMDB) –aliado del presidente Lula Da Silva- de financiar sus gastos personales, incluso los relacionados con la manutención de la hija extramatrimonial que tuvo con ella, con coimas que le acercaba Claudio Gontijo, el lobbysta de una empresa constructora. Por ese hecho, el senador enfrentó un proceso de desafuero, pero fue absuelto.

Como si fuera poco, el escándalo también tuvo eco en la ficción: una telenovela, “Paraíso Tropical”, se ocupó, aunque en su último capítulo, del tema. Mónica habló de Camila Pitanga, la protagonista y marcó diferencias. “No me siento identificada con la prostituta que interpreta ella. La historia no tiene nada que ver con la mía”, dijo. Rápido de reflejos, Aran invitó a Pitanga a posar para Playboy. “Lamentablemente no aceptó”, soltó sin resignarse.

Mientras prepara el lanzamiento de un libro para noviembre, Veloso está de gira por diversos programas de radio y televisión. Durante el stop de uno de ellos dialogó con Clarín.com.

-¿Cuánto la afectó la polémica de los últimos meses?
Viví un momento muy difícil de manera involuntaria. Ahora estoy mejor. Con el tiempo, una va estando más tranquila y entiende mejor las cosas que pasaron. Tengo el apoyo de mi familia, estoy buscando trabajar y ser feliz. Quiero que todo eso quede en el pasado.

-¿Es cierto que pidió no hacer las fotos en Brasilia?
Sí, pedí eso porque se iba a crear mucha más polémica todavía si las hacía ahí. Además, Brasil tiene muchos lugares hermosos para realizar una producción así.

-Desde su lugar de periodista, ¿cómo hubiera tratado un caso como el suyo?
De manera diferente a como lo hicieron. Porque una cosa es dar una noticia, buscar las fuentes y otra cosa es meterse con la persona. Fue feo verme en ese episodio, en este escándalo. Fue un momento de mucha angustia. Opté por estar en silencio y cuidar de mis hijos. Muchas cosas que se decían no eran verdaderas. Hablaban de cosas muy íntimas y estuve triste. Ahora pasó el tiempo y puedo explicar toda esa historia mejor. Por suerte, mis hijos están bien y mi familia también. Ellos saben cuánto sufrí en los últimos meses. Ellos vieron las fotos y dijeron que eran de muy buen gusto.

-¿Cuándo le llegó la propuesta de Playboy?
Me llamaron en abril. Al principio estaba asustada, no tenía nada que ver conmigo: yo soy periodista, trabajé en televisión muchos años, tengo una productora… Pero después comencé a analizar a otras actrices, modelos, cantantes que ya posaron y que tienen una carrera hecha.

-¿Se preparó de una manera especial?
Me cuidé. Tenía que aparecer bien natural. Bajé cuatro kilos, fui al gimnasio, me cuidé en la alimentación, hice una dieta con un nutricionista y los resultados fueron óptimos.

-¿Usted escogió las fotos?
Sí, estaba esa cláusula en el contrato. Pude escoger el fotógrafo también, cómo serían producidas, la locación… Fueron finalmente lo que busqué.

-¿Qué le dice la gente?
Que las fotos estuvieron muy bien. La expectativa, acá en Brasil, era muy grande.

-¿Va a volver a retomar su trabajo de periodista?
Nunca abandoné esa tarea. Cuando creé mi productora seguí trabajando como periodista, ahí dentro. Mi idea, ahora, es en noviembre volver a la televisión con un programa de talk show, un programa de variedades. Ya tengo varias propuestas.

-¿Volvería a hacer una producción para Playboy?
No es mi intención. Puedo hacer algo para alguna otra revista, pero en otro contexto.