15/06/2009 - 16:32h Amor e dor

“Papai, se os passageiros [do voo AF 447] estão todos mortos, por que estão tirando os corpos do mar?” A pergunta foi feita por meu filho David, de sete anos, ao bater o olho numa das manchetes do jornal. Como eu não sabia a resposta, embrenhei-me em frenética pesquisa. As fontes ordinárias (enciclopédias, google scholar etc.) mal abordavam a questão. Decidi, então, lançar mão de um recurso extremo: fui à Amazon e, em meu Kindle, adquiri e baixei o livro “The Nature of Grief” (a natureza do luto), de John Archer, professor de psicologia da Universidade de Lancashire. Bem, vocês já podem adivinhar qual foi meu programa no fim de semana…

A pergunta de David é boa porque revela a pouca racionalidade por trás de alguns aspectos da operação de busca. Todos os nossos conhecimentos de física e medicina nos asseguram, para além de qualquer dúvida razoável, que nenhum dos ocupantes do Airbus pode ter sobrevivido à queda da aeronave. Eles estão irremediavelmente mortos. Não precisamos de cadáveres para prová-lo e, espero, nem para expedir os certificados legais necessários. Ainda assim, sempre que tragédias desse tipo acontecem, dedicamos enorme parte de nossas energias e recursos à localização, resgate e identificação dos corpos.

É verdade que o estado dos cadáveres, ao lado de partes da fuselagem, é um dos elementos a ser analisado na investigação do acidente, que tem como meta a prevenção de novos desastres –uma atitude definitivamente racional. Mas o zelo para com a recuperação dos corpos é um fenômeno que se verifica mesmo em situações em que as causas da tragédia já são conhecidas e nada há a investigar, como o 11 de Setembro.

Essa preocupação com os restos mortais pode assumir contornos surrealistas. Na última troca de “prisioneiros” entre Israel e a milícia libanesa Hizbullah, em julho do ano passado, o Estado judeu libertou cinco membros do grupo xiita e devolveu os cadáveres de 199 combatentes libaneses e palestinos como contrapartida pelo retorno dos corpos de dois soldados. Não há teoria dos jogos que justifique a racionalidade desses números. A única explicação reside no enorme peso que o Exército israelense dispensa aos restos mortais de seus homens.

E não são apenas os israelenses. É a humanidade como um todo. Não se trata de mero acaso que a Ilíada, a peça fundadora da literatura ocidental, possa ser descrita como uma história de lutos: o ciclotímico herói grego Aquiles, para vingar-se da morte de seu amigo (para alguns amante) Pátroclo, derrota em combate o troiano Heitor e lhe desfigura o corpo; tomado pelo horror diante dessa atitude, Príamo, rei de Tróia e pai de Heitor, encontra coma ajuda do deus Hermes uma forma de encontrar-se com Aquiles e, juntos, eles choram suas respectivas perdas. O épico termina na celebração de jogos fúnebres em honra a Heitor.

Homero não é um caso isolado. O luto é um tema constante na obra de Shakespeare (Hamlet, Romeu e Julieta), Dostoiévski (Irmãos Karamázov) e milhares de outros autores de diversos calibres.

Não há dúvida, portanto, de que se trata de um sentimento forte. Nem ao menos pestanejamos antes de enviar para buscas no meio do Atlântico seis belonaves da Marinha do Brasil e 12 aviões. Os franceses mandaram para a área duas embarcações e dois aeroplanos militares. Um submarino nuclear já deve ter chegado ao local. Os norte-americanos também estão ajudando.

É o caso, portanto, de perguntar de onde vem tal sentimento. É mais ou menos isso a que se propõe Archer em seu “The Nature of Grief”, uma ampla revisão sobre o tema, com abordagens psicológicas, etnográficas, etológicas e evolucionistas.

Embora outros animais, particularmente aves e mamíferos sociais, também demonstrem pesar quando algum parente morre, parece haver uma diferença fundamental entre o luto humano e o de diferentes espécies. Até onde sabemos, nossos vizinhos cladísticos não têm lá muita consciência da morte como algo definitivo e irrevogável. Neles, a angústia provocada pelo óbito não é muito diversa daquela engendrada por uma separação temporária. O luto animal seria como o de crianças até a faixa dos sete a nove anos, para as quais a morte ainda é um estado reversível, como pintada nos desenhos animados.

Essa consciência da situação especial da morte parece ter surgido tarde no desenvolvimento do Homo sapiens. Enquanto a inumação (o tratamento especial dado aos despojos mortais de parentes) é um universal humano, nada parecido jamais foi observado entre primatas. O máximo que nossos primos peludos fazem é seguir cuidando do cadáver por algumas horas, dias no máximo, até abandoná-lo em algum canto da floresta. Tal diferença permite datar a prática do sepultamento (sugestiva de um luto mais sofisticado) em algum momento posterior à marca de 5 milhões de anos atrás, quando nos separamos dos chimpanzés, nossos parentes mais próximos.

Qual seria a utilidade das emoções ligadas ao luto? Afinal, se ela evoluiu conosco, deve haver alguma razão para isso. Alguns autores de fato apostam numa presumida utilidade do luto. Não há muita dúvida de que ele pode ajudar a solidificar os laços entre os membros da espécie. Essa, entretanto, parece uma explicação improvável. A seleção natural dificilmente atua no nível da espécie. Ela normalmente o faz na esfera dos genes e dos indivíduos (na maioria das situações, esses dois níveis coincidem).

Assim, se o luto é um fenômeno que prejudica o indivíduo –e ele o faz, na forma de depressão que resulta em apatia, desatenção e baixa imunológica, entre outras condições indesejáveis–, por mais útil que ele possa ser para a espécie, não teria sido preservado ao longo de sucessivas gerações. Ao contrário, indivíduos mais propensos a exacerbar esse sentimento teriam maiores chances de morrer sem passar os genes do pesar para seus descendentes.

Soam mais verossímeis, portanto, as explicações que colocam o luto como um sentimento mal adaptado, uma espécie de dano colateral. Mais interessante ainda, ele seria o efeito indesejável do amor –este sim uma emoção “útil” para genes, indivíduos e espécies. Sofremos o pesar com a morte porque amamos. É a certeza de que a angústia da separação é permanente que nos leva às raias do desespero.

Outras espécies, como gralhas e gansos, põem-se a chamar pelo companheiro(a) quando ele(a) morre (quem o assegura é o grande cientista Konrad Lorenz, fundador da etologia). Não sabem que a morte é para sempre. E, de toda maneira, sair gritando é um comportamento útil nas muitas situações em que o animal não morreu, mas apenas se afastou por um motivo qualquer do amado(a). Algo semelhante a essa herança biológica, somada à consciência da mortalidade, é que produz o nosso luto –além, suspeito, de outros efeitos colaterais como a superstição e a religião.

Isto posto, resta-nos agora tentar entender por que damos tanta importância à recuperação do cadáver. Receio que aqui não possamos muito mais do que especular. Estudos empíricos mostram que mortes violentas e inesperadas, em que o corpo é desfigurado ou em que não é encontrado, ou que pareçam especialmente difíceis de “explicar” tendem a produzir lutos mais difíceis. Ao que parece, essa era uma situação mais ou menos comum em nosso passado evolutivo, em especial para representantes do sexo masculino, que saíam para caçar e frequentemente não retornavam. Nestes casos, encontrar o corpo era senha necessária para certificar-se da morte e seguir com a vida, contraindo novo matrimônio ou seja lá o que se fazia naqueles tempos. A quase certeza pode ser mais torturante que a certeza, especialmente quando parte de nós (e a parte mais forte, a dos sentimentos) se recusa a acreditar na perda –por menos razoável que seja essa possibilidade.

Não é uma conclusão brilhante, mas pelo menos me permite rejeitar a mais cruel hipótese levantada pelo David: “Já sei, é para os corpos não apodrecerem e envenenarem os peixes”.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou “Aquilae Titicans – O Segredo de Avicena – Uma Aventura no Afeganistão” em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

E-mail: helio@folhasp.com.br

15/03/2009 - 15:58h Poesia da dor

Um dos principais poetas italianos, Cesare Pavese revela, em Trabalhar Cansa, sua fixação pela solidão, amor e morte

 

Ubiratan Brasil – O Estado SP

 

 

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A solidão, o amor e a morte sempre acompanharam o escritor italiano Cesare Pavese, deixando marcas profundas em sua obra. Quando ele se suicidou, em 1950, próximo dos 42 anos, terminava, em um quarto de hotel de Turim, uma vida cuja escrita se abriu com sinceridade trágica para o fracasso, a intolerância, a não realização sexual, a fraqueza, a mulher como mediadora da existência. Vivência encontrada nos poucos livros de Pavese publicados no Brasil, pecado agora remediado com a poesia de Trabalhar Cansa, edição bilíngue com bela tradução de Maurício Santana Dias, lançada na semana passada em conjunto pela Cosac Naify e 7Letras (400 páginas, R$ 59).

Trata-se de sua estreia na literatura, reunião de 70 poemas escritos entre 1930 e 1940, período em que a poesia vivia a efervescência do verso livre, inflamada pelo modernismo. A dicção de Pavese, no entanto, destoava dessa linha de construção. Inspirado em temas rurais e urbanos, como camponeses, adolescentes e bêbados que transitavam pela sua região natal (Piemonte), ele adotava uma forma mais próxima da narrativa que da poética. “O que o escritor piemontês estava propondo a seus leitores era, em primeiro lugar, uma poética sem impostação retórica, sem grandiloquência e sobretudo sem aquele inefável da poesia pura, de matriz marcadamente francesa”, observa Dias, autor ainda de um precioso guia apresentado como prefácio do livro.

Segundo o tradutor, o modernismo da poesia de Pavese estava em um projeto ao mesmo tempo modesto e ambicioso: construir uma poesia mais próxima da vida cotidiana. “Ele queria tentar fazer a poesia aderir à experiência e buscar romper o cerco de alienação que teria apartado a arte da vida, restituindo à experiência moderna um sentido pleno, uma fundamentação última ou totalidade perdida, mas, note-se, sem recorrer a nenhum tipo de transcendência.”

Nascido em uma pequena aldeia de Piemonte em 1908, Pavese recebeu educação rústica, mas sem maldade, que o levou a conhecer campos e colinas da região de Santo Stefano Belbo. Lá, em contato com a natureza, descobriu um fascínio que também o aniquilaria, provocando a impressão de se dissolver no universo, fundindo-se inteiramente à terra: “Eis-me pedra, umidade, fumaça, sumo de fruta, vento…”

Quando conheceu uma cidade grande, Turim, aos 12 anos, sofreu novo conflito: embora rodeado pela civilização, como integrar suas particularidades e seus desejos ao movimento histórico? Foi a primeira incerteza entre várias que marcaram sua curta vida. Nessa fase, descobriu também a sexualidade, que ele tentou desfrutar a partir das reminiscências de infância no campo. Sua timidez, no entanto, transformou o sexo em um estranho complexo de imobilidade, não conseguindo realizar o sonho de ser amado e ter uma família. Estabeleceu, enfim, uma solidão que se tornou tão insuportável a ponto de minar as defesas que ele sempre opôs à tentação do suicídio.

Na poesia se realizou, mas não no amor – daí a proximidade desses dois sentimentos, a frustração amorosa e a tendência suicida. “Não nos matamos pelo amor de uma mulher”, escreveu ele em seu famoso diário, O Ofício de Viver. “Matamo-nos porque um amor, qualquer amor, nos revela em nossa nudez, miséria, inermidade, nada.”

“Se existe, com efeito, um escritor que habitou fundo e de forma integral uma ambiguidade sem saída, este foi com certeza Pavese”, observa Ettore Finazzi-Agrò, professor de Literatura Portuguesa e Brasileira na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade de Roma La Sapienza. “Entre a sua pequena aldeia natal (Santo Stefano Belbo) e a grande cidade industrial (Turim), entre tempos díspares e ambos marcados pela incerteza (o antes e o depois em relação à 2ª Guerra, período, este, que ficou, apesar de tudo, um tempo de certezas ferozes e de incontroversas experiências), entre o empenho político e o anarquismo ideológico, entre o amor pela literatura norte-americana e a devoção à cultura nacional, entre, enfim, a opção pelo realismo e a atração inconfessada pelo decadentismo.”

Trabalhar Cansa compõe-se de três diferentes fases. Na primeira, estão poemas narrativos tradicionais de 1930 a 1933, que registram a união das paisagens e figuras do Piemonte rural e urbano com a influência da cultura americana que Pavese absorvia dos livros. São esses poemas iniciais que revelam seu projeto literário: uma poesia radicalmente objetiva e narrativa, antilírica.

A fase seguinte é marcada pela incorporação de imagens, que vão inspirar a série Paisagem. Os poemas finais de Trabalhar Cansa, de Paternidade (1935) a Noturno (1940), apresentam uma poética mais subjetiva, que traz para o primeiro plano temas como a solidão e a inutilidade das ações. Apesar de distintos, os poemas apresentam praticamente o mesmo ritmo, ainda que a escrita compreenda o longo período de dez anos. “É óbvio que essa regularidade extrema, longe de mimetizar o real, funciona mais como uma negação da realidade em que o escritor está imerso; ou seja, quanto mais o mundo à sua volta se tornava turbulento, excessivo, veloz, caótico, mais Pavese lhe impunha uma ordem clara e precisa”, observa Santana Dias, na introdução.

Trabalhar Cansa foi inicialmente publicado em 1936, pela revista Solaria, com poemas compostos até 1935; em 1942, o próprio Pavese fez, pela editora Einaudi, uma edição excluindo sete poemas da publicação anterior. Esses poemas foram também traduzidos por Santana Dias e incluídos em sua tese de doutorado – um deles, Disciplina Antiga, o Estado publica aqui com exclusividade.

Apesar do espírito arredio, Pavese cultivou amigos fraternos como os escritores Elio Vittorini e Natalia Ginzburg. Escreveu também uma obra que impressionou o cineasta Michelangelo Antonioni, que adaptou Mulheres Sós em As Amigas – o diretor dizia que fora atraído pelos personagens femininos.

O fim trágico de Pavese, aliás, foi anunciado nesse Mulheres Sós, escrito em 1949: ali, a protagonista morre da mesma forma, em um quarto de hotel, tomando uma dose letal de soníferos. O ato já inspirara uma anotação em seu diário: “A dificuldade de praticar o suicídio está nisto: é um ato de ambição que só pode ser realizado depois de superada toda a espécie de ambição”.

Poema Exclusivo

DISCIPLINA ANTIGA*

Os que bebem não sabem falar às mulheres,

se perderam de tudo, e ninguém os aceita.

Andam lentos na rua, e as ruas e postes

não têm fim. Alguns deles dão giros mais longos,

mas não há o que temer: amanhã eles voltam pra casa.

O que bebe imagina que está com mulheres

- como os postes à noite são sempre os mesmos, assim

as mulheres são sempre as mesmas -; nenhuma o escuta.

Mas o bêbado tenta, e as mulheres não o querem.

As mulheres, que riem, conhecem de cor suas palavras.

Por que riem assim as mulheres ou gritam, se choram?

O homem bêbado quer e deseja uma bêbada

que o ouvisse calada. Mas elas o atiçam:

“Para ter esse filho, é preciso contar com a gente.”

O homem bêbado abraça-se ao bêbado amigo

que esta noite é seu filho, nascido sem elas.

Como pode umazinha que chora e que grita

dar-lhe um filho amigo? Se aquele é um bêbado,

não recorda as mulheres no andar inseguro,

e esses dois perambulam em paz. O filhinho que conta

não nasceu de mulher – pois seria mulher

também ele. Caminha com o pai e conversa:

toda a noite iluminam-lhe os passos os postes.

*Poema cortado pelo autor na edição final

06/02/2009 - 11:35h MST: nota de pesar por morte de Adão Pretto


O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) manifesta publicamente seu pesar pelo falecimento do companheiro deputado federal Adão Pretto, soma-se e se solidariza com a família neste momento de perda para a sociedade brasileira.

Desde o início de sua militância social nas Comunidades Eclesiais de Base e no Sindicalismo Rural, Adão Pretto caracterizou-se pela defesa intransigente da reforma agrária, tendo papel destacado na articulação das famílias de trabalhadores sem terras e de apoiadores desde as primeiras ocupações de terra no Rio Grande do Sul, ainda durante o Regime Militar. Esteve presente na organização e fundação do MST, do Partido dos Trabalhadores e do Departamento Rural da Central Única dos Trabalhadores.

No Congresso Nacional, denunciou e combateu as ações da bancada ruralista, e tornou-se um dos pilares do Núcleo Agrário do Partidos dos Trabalhadores. Apresentou Projetos de Lei que buscavam acelerar o processo de reforma agrária, permitir o acesso à educação para os camponeses e melhorar a qualidade de vida no campo. No último ano, esteve empenhado em denunciar a alteração da faixa de fronteira para beneficiar a instalação de empresas transnacionais da celulose no Rio Grande do Sul.

Mais que um parlamentar, Adão sempre foi um camponês, com seu jeito simples, honesto e contundente, mas acima de tudo um lutador. Sempre presente nas lutas dos movimentos sociais, sempre levando as reivindicações e bandeiras populares para o parlamento, denunciando a criminalização e a repressão da luta do povo.

No ano em que completamos 25 anos, perdemos um de nossos fundadores e um de nossos mais valorosos companheiros. Em sua homenagem, seguiremos fazendo aquilo que Adão Pretto sempre fez em vida: lutar sempre.