Sucessão de erros marca escalada que deixou 11 mortos após avalanche
Graham Bowley e Andrea Kannapell - O Estado de São Paulo
Durante dois meses, dezenas de escaladores lotaram os campos abaixo do pico de 8.611 metros situado próximo da fronteira do Paquistão com a China, para aclimatar-se ao ar rarefeito, exercitar-se na subida e esperar pacientemente o momento propício para a subida.
O momento chegou na madrugada de 1º de agosto. Os integrantes de pelo menos cinco expedições começaram o último trecho da subida para a conquista da montanha irmã do Monte Everest, ligeiramente menor, mas muito mais perigosa - o K2, um gigantesco pico resplandecente no formato de pirâmide -, coberta pela neve das recentes tempestades.

Gerard McDonnell, 37, um engenheiro irlandês que integrava uma equipe holandesa, escreveu em seu blog quando foi fixada a data do início da subida: “Que a sorte e a boa fortuna prevaleçam! Cruzemos os dedos.”
Mas a sorte não ajudou. Na subida dos últimos 609 metros, um escalador sérvio caiu e morreu, e um carregador paquistanês também morreu na tentativa de recuperar seu corpo. Na volta, um pedaço enorme de gelo despencou do alto arrastando pelo menos quatro escaladores amarrados, que morreram, e deixou alguns outros presos na zona da morte, acima dos 7.924 metros, onde acabaram perecendo, no frio mais intenso, sem oxigênio e sem cordas.
Nas horas e nos dias seguintes, alguns dos que ficaram no K2 conseguiram encontrar o caminho para a salvação com um esforço imenso; alguns caíram e morreram e outros desapareceram para sempre nas imensidões geladas da montanha.
Os boletins divulgados no site da expedição holandesa acompanharam o desenrolar-se da tragédia: “Gerard McDonnell: situação ignorada. Não ouvimos nem vimos nada de Gerard”. Na terça-feira, provavelmente o último dos alpinistas sobreviventes, o italiano Marco Confortola, chegou cambaleando no campo-base com os pés congelados já enegrecidos.
“Ouvi falar que muitos morreram e só alguns conseguiram chegar em baixo”, ele disse ao telefone, em uma conversa reportada por um cientista italiano, enquanto esperava um helicóptero militar paquistanês de resgate para apanhá-lo na encosta da montanha. “Estou feliz por ser um deles.” Ao todo, 11 vidas se perderam no mais grave episódio ocorrido no K2 desde que 13 alpinistas morreram no prazo de duas semanas, em 1986, em um dos piores desastres da história do alpinismo.
Depois disso, as críticas não pararam sobre os preparativos mal feitos e os atrasos provocados pelos escaladores que não fixaram as cordas adequadamente no Gargalo da Garrafa, a subida mais íngreme pouco abaixo do cume.
Também foram levantadas duas questões, quanto ao fato de a tentativa de resgatar um escalador que havia caído ter exigido um custo extremamente alto, e ao motivo pelo qual alguns não regressaram quando ficou evidente que não conseguiriam voltar à luz do dia.
A presença de carregadores contratados para as grandes altitudes em algumas das equipes suscitou indagações quanto à possibilidade de algumas das expedições serem iniciativas comerciais guiadas, com escaladores inexperientes - lembrando a desastrosa escalada do Everest, em 1996, quando oito alpinistas morreram.
No entanto, para a maioria, as mortes foram apenas as mais recentes numa montanha notoriamente perigosa, na qual muitos perderam a vida desde que foi conquistada pela primeira vez em 1954. O pico K2 é a montanha mais difícil e a mais perigosa para os alpinistas, até mesmo mais difícil do que o Everest. Mais ao norte e a 2.400 quilômetros do Everest, ela recebe normalmente nevascas e tempestades pesadas, e os escaladores têm apenas alguns dias, em cada ano, para tentar chegar ao cume, em geral no início de agosto. “Para um montanhista experiente, equivale mais ao Santo Graal do que o próprio Everest”, disse o alpinista Ed Viesturs. “Não há uma subida fácil no pico K2.” Na manhã do dia 1º, o “tempo estava perfeito”, disse Nicholas Rice, americano de Los Angeles, que voltou antes de alcançar o Gargalo da Garrafa por causa das ulcerações provocadas pelo gelo. Ele acabou registrando, em blogs, grande parte do que foi divulgado a respeito dos erros, de quem morreu, quando e por quê.
As várias expedições - com participantes de vários países, como Coréia do Sul, Holanda, Noruega, Sérvia, Itália, EUA e França - partiram do Campo 4, o último antes do cume, entre a meia-noite e as 3h00 da manhã, disse Rice. Ninguém sabe ao certo quantos alpinistas havia naquele momento, pois ninguém coordenou as expedições. Há muitos outros detalhes que não foram esclarecidos.
Para chegar ao topo, é necessário escalar o Gargalo da Garrafa, e atravessar pela esquerda, por de baixo da saliência gigantesca da geleira. A primeira fatalidade ocorreu pouco depois, quando o sérvio, Dren Mandic, encontrou a morte ao cair no Gargalo, seguido pelo carregador paquistanês.
Mas alguns do grupo dos que esperaram para tentar resgatá-los, resolveram seguir adiante. Alguns só chegaram ao topo por volta das 20 horas, cerca de 16 horas depois de terem deixado o campo, um tempo enorme em termos de temperaturas baixas e com tão pouco oxigênio.Qualquer que tenha sido a sensação de triunfo, logo desapareceu. Metros abaixo do cume, enquanto os alpinistas desciam com cordas fixas em baixo do Gargalo, um bloco de gelo se desprendeu acima deles.
Um escalador holandês, Wilco van Rooijen, descreveu o caos. Falando do leito de um hospital na segunda-feira, na cidade de Skardu, no norte do Paquistão, ele disse à Reuters: “Todo mundo lutava para salvar a própria pele e eu ainda não entendo por que todos estavam abandonando os outros. As pessoas correram para baixo, mas não sabiam para onde ir, então, muitos se perderam do lado errado da montanha.”
O bloco de gelo carregou consigo as cordas e quando a noite caiu e a temperatura despencou, os alpinistas enfrentaram uma escolha terrível: esperar por socorro nessa zona da morte ou descer sem as cordas fixadas. As temperaturas no topo do K2 durante a noite podem chegar a 40 graus negativos, disse Rice.