02/06/2009 - 10:00h Meu próprio sentimento, na crônica de luto de Sandra Paulsen

Enviado por Sandra Paulsen -Blog de Noblat

1.6.2009

Cartas de Estocolmo

Uma crônica de luto

Na semana passada, estive em Paris, a trabalho. Viajei com a Air France. Estava contente, porque, afinal, pegava um voo com direito a almoço decente a bordo.

É que, nas frequentes viagens a Paris, nos últimos dois anos, fiquei sem almoço. A classe econômica da SAS inaugurou, há algum tempo, um novo conceito de serviço, para as viagens de curta duração: quem quiser comer, tem de pagar. E o menu disponível é, na melhor das hipóteses, um sanduíche. No pior dos casos, os sanduíches acabam antes de a equipe de bordo chegar com o carrinho à sua poltrona.

Por que conto tudo isso?

Porque havia escrito uma crônica para hoje, falando sobre minha curta viagem a Paris e as fofoquinhas relacionadas ao cancelamento da visita, há muito agendada, de Sarkozy a Estocolmo. Aparentemente, de bronca pelas opiniões diferentes que os dois países sustentam a respeito da entrada da Turquia na União Europeia.

Também contava sobre o show do Quinteto Novo, na sede da embaixada brasileira. Matei a saudade da bossa nova e ainda tomei algumas caipirinhas, em excelente companhia.

Tudo isso foi pras cucuias, com a leitura das notícias de hoje…

Porque publicar um texto sobre “dar um pulinho a Paris”, diante da dor pelo sumiço de um avião inteiro, cheio de brasileiros e franceses, adultos e crianças, justamente a caminho de Paris… não dá, né?

Aqui, como aí, todos os jornais online só falam do avião acidentado. O Ministério das Relações Exteriores da Suécia teme que também havia suecos no avião, ainda que poucos, três ou quatro.

Só que, quando cai um avião, além das dores individuais e coletivas das famílias envolvidas ou diretamente afetadas pelo acidente, um monte de gente fica de luto. Pelas notícias daqui, havia 228 brasileiros, franceses, alemães, marroquinos, portugueses, noruegueses, dinamarqueses, entre outras nacionalidades, a bordo.

O desaparecimento de 228 seres humanos assim, sem mais nem menos, vítimas de um raio ou de uma turbulência forte, deixa a todo mundo triste e assustado.

De repente, a tragédia afeta mais de duas centenas de pessoas que estão bem de saúde, contentes por um há muito desejado passeio à Europa, a caminho de uma reunião de negócios que promete, ou de volta para casa, para os braços dos seres queridos…

A identificação é inevitável. A tragédia chegou muito perto. Só nos resta nos recolher à nossa insignificância, à nossa incapacidade de controlar nossas vidas, à imprevisibilidade que rege nosso caminho neste mundo. Ou, para aqueles que creem, rezar…

Leitora do blog de Noblat, Sandra Paulsen, casada, mãe de dois filhos, é baiana de Itabuna. Fez mestrado em Economia na UnB. Morou em Santiago do Chile nos anos 90. Vive há quase uma década em Estocolmo, onde concluiu doutorado em Economia Ambiental. Escreve no Blog de Noblat sempre às segundas e sextas.

21/05/2009 - 10:27h Entre capitais, SP lidera em mortes ligadas à poluição

http://oglobo.globo.com/fotos/2007/05/18/18_MHG_sp_polu2.jpg

Fernanda Aranda – Jornal da Tarde

Os custos da poluição, pela primeira vez, foram mapeados fora das fronteiras de São Paulo. Estudo obtido pela reportagem mostra que são R$ 14 gastos por segundo (R$ 459,2 milhões anuais) para tratar sequelas respiratórias e cardiovasculares de vítimas do excesso de partícula fina – poluente da fumaça do óleo diesel . O valor é dispensado por unidades de saúde de saúde de 6 regiões metropolitanas do País.

A mesma pesquisa, produzida pelo Laboratório de Poluição da USP e seis universidades federais, mostra que além dos paulistas, também respiram ar reprovado pelos padrões seguros da Organização Mundial de Saúde (OMS), as regiões do Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba e Recife. Mas é na capital paulista que se concentram as mortes relacionadas à poluição.

Segundo o estudo, a cidade com a maior frota de veículos do Brasil também tem liderança na categoria “prejuízos”. São Paulo concentra 61% das mortes ligadas à poluição, apesar de responder por 57% da quantidade de carros que existe nos locais estudados.

Estudos feitos em São Paulo já mostraram que a poluição está associada tanto a doenças respiratórias – com asma, bronquite e sinusite – quanto ao sistema cardiovascular, atingindo ainda as funções metabólicas (diabetes, pressão alta) e chegando até ao sistema reprodutivo,com associação à infertilidade. A reportagem teve acesso ao estudo na ação civil pública que o Ministério Público de SP move contra a Petrobrás e 13 montadoras de veículos pedindo indenização para vítimas da poluição. Segundo o promotor do Meio Ambiente do MP, José Isamel Lutti, o valor indenizatório terá “como parâmetro” esta pesquisa.

24/03/2009 - 15:26h A máquina do ódio homofóbico não para de moer

Todos os dias, mais de um homossexual masculino é assassinado no País. Travestis são maiores vítimas

 

Vagner de Almeida* - O Estado de S.Paulo – Caderno Aliás

 

Desde que iniciei o trabalho sobre violências estruturais, no início dos anos 80, com o surgimento da aids e o crescente número de vítimas do ódio homofóbico, assassinatos praticados com altíssimo grau de violência contra homossexuais ainda crescem no Brasil. No Parque dos Paturis, em Carapicuíba (SP), um suposto serial killer matou, entre julho de 2007 e o último dia 15, nada menos do que 14 pessoas, a maioria homossexuais. Em 2009, também foram assassinados dois travestis de 20 anos no Altiplano Cabo Branco, em João Pessoa. Em todo o País, de janeiro a junho de 2008 foram registrados mais de 50 homicídios contra essa comunidade, tendo o número duplicado até o início de dezembro. Esses dados referem-se apenas aos casos registrados nas delegacias de polícia, nos laudos dos hospitais e por instituições como o Grupo Gay da Bahia, o qual, com tremenda dificuldade, consegue obter informações precárias. Estatísticas comprovam que, por dia, mais de um homossexual é morto em nosso território.

Perdido na noite: Parque dos Paturis, em SP: mortes por atacado

Muitas das vítimas nem sequer chegam a ser reconhecidas após a morte, pois seus corpos são mutilados, queimados e esquartejados, por vezes retirados com pás pelos bombeiros. Outras entram em coma ou ficam com sequelas como paralisia facial, das pernas ou dos braços para o resto de suas vidas.

Os travestis são as maiores vítimas dessa violência urbana. Estão mais expostos do que qualquer outro homossexual. Quando se ouve um pai dizer ao filho adolescente, remetendo-se a um travesti, “nesse tipo de viado você pode dar porrada”, entende-se onde esse ódio contra a comunidade LGBT costuma ser gerado.

Ao trabalhar em uma das regiões mais violentas do Estado do Rio de Janeiro, a Baixada Fluminense, foi possível constatar o descaso das políticas públicas em se tratando de descobrir e averiguar crimes frequentes contra essa população. Num cinturão de miséria, ignorância e racismo, os travestis viram alvos fáceis. Raramente a mídia traz esses crimes hediondos em suas manchetes e, quando o faz, muitas vezes os trata de forma desrespeitosa, como nesta manchete do jornal Hora H, da Baixada Fluminense, de 18/10/2006: “Uma quase mulher executada na Dutra”. Ou então nesta, do mesmo jornal: “Trava apedrejada até a morte”.

Em março de 2005, quando 30 pessoas sucumbiram à chacina em Queimados e em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, dois jovens travestis foram brutalmente assassinados nesse “pacote” e, ironicamente, tratados pela mídia de forma diferenciada. Escreveu-se: “L.H.S., 23 anos, seria travesti e ficava próximo ao Motel Las Vegas, enquanto A.M.V., 15 anos, também seria travesti”. Relatos posteriores contam como outros conseguiram sobreviver naquela noite escapando de balas, mas os jornais não se importaram com suas histórias de vida.

O crime ganhou destaque nos maiores veículos de comunicação do planeta, como o jornal The New York Times e a revista The Economist. O presidente Lula pediu apuração rápida do caso. No entanto, um dos travestis assassinados nem sequer passou pela autópsia, sendo enterrado com placas de sangue pelo corpo, o tronco retorcido e a face ainda suja de terra. O outro, apesar de autopsiado, só teve enterro menos indigno porque ativistas, pessoas simples da comunidade, conseguiram uma cova rasa em um cemitério de um bairro pobre da periferia da cidade do Rio de Janeiro. Tanto o poder público quanto os familiares não reconheceram o corpo do travesti como de um cidadão pleno. Mas ao menos os PMs envolvidos, homens que compõem o poder paralelo, não raro contratados para fazer “limpeza da área”, foram mais tarde presos e sentenciados a mais de 500 anos de prisão.

A questão é que, mesmo quando há crimes no atacado, como vem ocorrendo no Parque dos Paturis, a investigação, quando existe, é tardia. E os crimes no varejo, como se disse, passam despercebidos. Não existe apenas um único assassino matando pessoas da comunidade LGBT, mas um exército de intolerantes, que precisam ser punidos com leis severas. Projeto de lei da Câmara nº 122/2006, que criminaliza a homofobia e a iguala ao racismo, tramita pelo Congresso há dois anos. Está à espera de passar pelo corredor do conservadorismo, no qual a comunidade homossexual tem apenas obrigações e nenhum direito.

No filme Borboletas da Vida, concluído em 2004, procurei desvendar a realidade de jovens homossexuais que vivem na periferia tanto em capitais como São Paulo, Recife, Fortaleza, Salvador, Vitória, quanto em cidades menores. São meninos, transformistas, borboletas da vida brasileira que “carregam a mulher na bolsa”, expressão usada para poderem se transformar no gênero feminino longe de suas comunidades, pois lá seria impossível saírem na rua trajando roupas femininas. Testam as possibilidades da sexualidade, lutam pelo direito de serem diferentes e exigem, de diversas maneiras, que suas diferenças sejam respeitadas.

Já o documentário Basta um Dia, de 2006, aborda a vida de habitantes da Baixada Fluminense que enfrentam o preconceito, a agressão física e a morte social às margens da Rodovia Presidente Dutra, principal ligação entre as duas mais ricas metrópoles do País. O filme busca registrar o movimento entre a esperança e o desespero com os quais essas pessoas são obrigadas a organizar suas vidas individuais e coletivas. M., jovem travesti que levou um tiro nas costas após sair do carro de um cliente sem receber pagamento, conta ter passado cinco horas à beira da rodovia até alguém levá-lo para o Hospital da Posse, em Nova Iguaçu.

Finalizando a trilogia, Sexualidade e Crimes de Ódio, de 2008, recém-lançado no Brasil, busca resgatar a história de amigos e conhecidos, vários deles participantes dos filmes anteriores, que foram assassinados em todo o Brasil nos últimos anos e meses, cujos algozes se encontram livres. É o memorial de um quadro social que silenciosamente extirpa milhares de vidas de homens e mulheres homossexuais.

*Dirigiu os filmes Borboletas da Vida, Basta um Dia e Sexualidade e Crimes de Ódio. É assessor de projetos na Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia) e staff associate na Universidade Colúmbia, EUA

DOMINGO, 15 DE MARÇO
O morto número 14

O homossexual Ivanildo Sales Neto é encontrado morto, com sinais de pauladas, no Parque dos Paturis, em Carapicuíba, São Paulo. Foi o 14º crime ocorrido no local desde 2007 em circunstâncias semelhantes. A polícia cogita tratar-se de um serial killer de gays.

15/03/2009 - 15:16h de sonho, medo e felicidade

Maioridade

Marisa Cauduro/Folha Imagem

O músico Jurandir Bueno, 62, com sua namorada, Sônia Arakaki, 62, bailarina

O velho-novo

Em um de seus poemas, Paulo Leminski fazia uma pergunta reveladora: “Que podia um velho fazer / nos idos de 1916,/ a não ser pegar pneumonia, / deixar tudo para os filhos / e virar fotografia?”.
No Brasil do ínicio do século passado, os tais velhos eram muito mais moços; a expectativa de vida ao nascer era de 34 anos. Em 2007, último dado disponível no IBGE, havia saltado para 72,6 anos. Longevidade, anticoncepcional, liberação sexual, divórcio e avanços da medicina tornaram obsoleto aquele velho precoce. Mudou tudo, inclusive os termos. Em vez do sexagenário aposentado (alguém recolhido a seu aposento), expressões mais fiéis, como terceira e quarta idades, que indicam uma sequência natural e mais vida pela frente.
Há um velho-novo nas ruas, e a Folha foi a campo, em pesquisa nacional inédita, para responder quem ele é, como vive e o que pensa.

Sensibilidade


Saúde e casa própria são as aspirações mais citadas; violência é o grande medo; maioria se diz feliz, mas acha que os outros não são (nem os jovens)

Rafael Andrade/Folha Imagem

Pescador desde 1955, Fernando Barros, o Maricá, completa 80 anos em abril, mas quer continuar pescando até os cem, “se Deus permitir”

MÁRIO MAGALHÃES – FOLHA SP

EM SÃO PAULO E NO RIO

Até onde mergulha a memória de Fernando Barros, o mar já engolfou dois companheiros seus, da colônia de pescadores do posto 6, no cantinho direito da praia de Copacabana.
Por pouco ele não fez companhia a bagres e badejos embaixo d’água. “Durante um temporal, com muito vento, eu fui parar lá em Niterói”, recorda. “A canoa virou duas vezes, desvirou e veio embora.”
De susto em susto, ele não se assusta mais. Nem no mar, nem na terra. “Não tenho medo de morrer, de ficar doente, de nada. Se ali é um perigo, eu digo: vou passar é ali.”
Com uma dupla de colegas, ele embarca antes das 6h em uma canoa movida a motor e volta cinco horas depois. De domingo a domingo. Está nessa lida desde 1959. Sua função é puxar, no braço, as redes e linhas que outrora capturavam 150 kg, 200 kg de pescado e que hoje só emergem com pouco mais de uma dúzia de exemplares.
Numa quinta-feira ensolarada de fevereiro, ele pescou a sorte grande: atracou na areia com seis peixes-enxada, seis tamboris, quatro linguados, três pargos brancos e uma arraia. No mês que vem, Barros, conhecido na praia como Maricá, completa 80 anos.
De cada três brasileiros com 60 anos ou mais, dois (67%) se comportam como Maricá e dizem não temer a própria morte. Em contraste com os jovens, somente 11% identificam sua morte como o maior medo –são 23% entre os que têm de 16 a 25 anos, segundo outra pesquisa, entre jovens, realizada no ano passado.
“Na hora em que a morte chega não há opção”, diz a dona-de-casa Maria Dulce dos Santos Silva, 62, moradora do bairro de Ermelino Matarazzo, na zona leste de São Paulo. “Da morte Eu tenho medo é da vida”, emenda o metalúrgico aposentado Paulo Pecoraro, 64, colega de Maria Dulce em aulas de violão oferecidas pelo governo do Estado.
“Tenho medo de violência e de ficar doente, na dependência de outras pessoas, a coisa mais triste que existe”, conta Paulo. Temores associados à violência constituem o maior medo (25%) declarado pelos idosos do país. Seguem os medos com problemas de saúde (18%) e a morte -17%, incluindo a de parentes. Declaram não ter medo 22%.
O comerciante aposentado Szaja Frank, 89, polonês radicado no Brasil desde 1948, foi vítima de assalto em sua loja poucos anos atrás. Seu medo maior “Ser assaltado.” Sua mulher, a dona-de-casa brasileira Brana Rubinsky Frank, 81, teme as enfermidades: “A gente vai dormir bem e tem medo de acordar com dor”.
Em uma manifestação de longevidade do amor, são quase 60 anos de casamento, Brana passou a despertar de madrugada para confirmar que o coração do marido batia -como pais costumam fazer com bebês. “Eu ficava tocando nele para ver se ele se mexia.”
Brana diz que a mania já passou, mas Frank revela que nem tanto. “Hoje eu fico deitado, e ela vem ver se eu estou dormindo.” Encontrando-os no passeio diário na praça Buenos Aires, em Higienópolis, reduto de classe média para cima, a preocupação soa exagerada. Soldado do exército soviético na guerra (1939-45), Frank ostenta boa forma.
Em outra praça, a “do Forró”, no bairro proletário São Miguel Paulista (zona leste de São Paulo), o segurança aposentado João Raimundo da Silva, 69, constata: “Quando eu era jovem não tinha nada. Hoje também não tenho nada”.
O tom de conformidade não lhe roubou os sonhos. Nenhum supera o de “ter uma casa”. Ele mora de favor com uma família, ganha o mínimo, poupa R$ 200 por mês e ignora quanto custa uma casa.
Sonhos associados à moradia são os principais dos brasileiros mais velhos (19%), ao lado de ter saúde ou recuperá-la (18%) e à frente dos anseios ligados à família (12%) -11% não cultivam sonhos. Conforme o Datafolha, a aspiração de possuir uma casa própria é a número um para 10% dos idosos e 10% dos jovens.
Em outro banco da “praça do Forró”, o vaqueiro aposentado Jaime Benigno Ribeiro, 69, amaldiçoa o infarto que o apeou da vida mais saudável. Ainda assim, como 2% das pessoas da sua faixa etária, seu sonho supremo é arrumar trabalho. “O negócio era uma fazenda para eu tirar leite.”
Sem saúde, com dinheiro escasso e viúvo duas vezes, Ribeiro desencantou-se: “Não tenho felicidade, não”. Ele forma a minoria: meros 2% dos velhos se dizem infelizes -20% afirmam-se mais ou menos felizes, e 78%, felizes.
Indagados sobre a felicidade alheia, contudo, sustentam que apenas 32% dos idosos brasileiros são felizes. Isso é, infelizes são os outros.
De volta da pescaria, Maricá relaciona sua felicidade à saúde. “Comigo é o contrário: se ficar parado uma semana, sinto o corpo todo dolorido.” Descarta pendurar os anzóis: “Se Deus permitir, sigo até os cem anos pescando. É tempo brabo, é temporal, é mar brabo, e a gente vai embora”.

o sonho da casa própria é bem maior entre elas 12%

entre os homens, não passa de 7%

quando a pergunta é sobre bens materiais, a situação se inverte: 12% eles x 5% elas

28% é o índice dos que sonham com saúde na faixa acima dos 75

34% das mulheres têm medo da morte, contra 30% dos homens

67% dos separados se dizem felizes, abaixo da média geral, de 78%

Intimidade

sexygenários

47% fazem sexo regularmente e, destes, 91% dizem nunca ter usado remédio para disfunção erétil

PAULO SAMPAIO
DA REPORTAGEM LOCAL

Do bolso do microempresário Nélson Oliveira, 66, não sai um tostão para comprar Viagra. E ele garante que, desde que se casou, há 48 anos, transa diariamente com a mulher. Ao lado, Néia, 65, só confirma. “É sim, é sim.”
Quando o assunto é desempenho sexual, com frequência se apela a uma testemunha –ainda mais quando quem fala é alguém do sexo masculino e de terceira idade.
Feitas as contas, Oliveira teve com a mulher 17.540 relações nesses quase 50 anos, pontual como um relógio cuco e sem ajuda química.
Esse índice de “abstenção zero” pode gerar polêmica, mas, a julgar pelo Datafolha, a vida sexual após os 60 é mais movimentada do que prega a maledicência popular, que costuma enxergar na terceira idade o fim do erotismo.
Quase metade dos idosos ouvidos na pesquisa declara ter relações sexuais –um quarto deles, uma vez ou mais por semana. Mesmo na faixa dos maiores de 75, 24% se revelaram sexualmente ativos.
Os mais afoitos podem dizer que, com o advento das drogas para disfunção erétil, agora é fácil. Só que 88% dos homens entrevistados dizem nunca ter usado remédio, embora até admitam alguma mudança no desempenho.
Exemplo: o músico Jurandir Bueno, 62, retratado na capa deste caderno com a namorada, a bailarina Sônia Arakaki, 62, jura que nunca tomou nada e que vai transar até o fim da vida; confia no próprio corpo, diz. Só faz uma ressalva: “O processo é demorado”. “Gosto de conhecer bem a pessoa, preciso estar envolvido. Não sou uma máquina!”
Jurandir “pesquisou” a bailarina durante quatro meses, até irem para a cama. “Eu também não estava com pressa. Com a idade, as coisas ficam mais tranquilas”, conta Sônia, que foi casada durante 20 anos e tem três filhos.

Reféns do machismo
Em qualquer faixa etária, é previsível uma dose de exagero ou, digamos, de inverdades sobre o desempenho sexual, afirma o geriatra Wilson Jacob Filho, colunista da Folha. Ainda mais quando mexe com alguns tabus da masculinidade. “O que se espera deles é que se mantenham viris, e os que não são suficientemente esclarecidos associam a dificuldade sexual à incompetência, e não a doenças como diabetes, hipertensão, depressão ou problemas na próstata.”
Jacob dá um exemplo de como a imagem é fundamental. “Quando o HC tinha o Laboratório da Impotência, atendia dez pessoas. Mudaram o nome para Laboratório da Disfunção Erétil, e o número de pacientes foi para uns 10 mil”, conta, rindo.
Na pesquisa Datafolha, a diferença de visão do sexo entre homens e mulheres revela um dado paradoxal: 74% dos homens afirmam ter vida sexual ativa, enquanto 76% das mulheres dizem exatamente o contrário. Considerando que o índice de casados de terceira idade é 47%, com quem eles transam?
Existem várias possibilidades, dizem os especialistas: sozinho (masturbação), com companhias eventuais ou usando outras formas de atingir o orgasmo, sem penetração peniana.
E as esposas “Muitas mulheres consideram sua missão sexual cumprida depois da procriação e acabam consentindo tacitamente que o marido se mantenha ativo”, diz Dorli Kamkhagi, da USP.
Embora faça questão de sexo, a cabeleireira Sônia Maria Gonçalves, 63, casada três vezes, três filhos, conta que, com a menopausa, dispensou temporariamente os “serviços” do segundo marido.
“Acabou a euforia. Ele foi o homem que mais me ensinou coisas, mas mesmo assim eu não queria saber de sexo. Até disse: ‘Pode procurar outra, que comigo não rola’.”
Há seis meses, Sônia descobriu um câncer de mama e retirou o seio direito, mas diz que isso não atrapalhou em nada o relacionamento entre ela e o atual marido, que tem 54 anos. “No começo fiquei constrangida, mas ele disse que isso era bobagem e pediu para ver o curativo.”
A palavra-chave é compreensão, define o empresário Wanderlei Marques, 62, casado há 32 anos. “Quando você é recém-casado, toda hora é hora. É aquela loucura. Mas, como a gente faz muitas vezes, a qualidade fica pra depois.”
Ele conta que, em todos esses anos, o período sexual mais difícil foi quando nasceu o primeiro filho. “A mãe, ali, é só da criança. Se você estiver com vontade, vai continuar.”
Wanderlei não se incomoda em dizer que usa remédio. “Não adianta dizer que a disposição sexual não cai com a idade. Por sorte, a medicina está a nosso favor.”
E manda seu último recado: “Não existe Viagra pra mulher. Então, se você toma o comprimido, mas ela está fria, não adianta nada”.

Leia a integra da pesquisa no caderno especial da Folha de São Paulo

08/03/2009 - 13:22h Violência contra mulher explode na classe média

“Só procurei o posto de saúde uma vez. Foi quando precisei tomar seis pontos na cabeça. O restante nunca contei para ninguém”


Clarice, 34 anos

apanhou durante 13 anos calada

Levantamento feito pelo JT mostra que, na capital, os índices cresceram mais nos bairros de classe média, como Pinheiros, Vila Mariana, Lapa e Ipiranga


Mulheres que sofrem agressões na capital também moram em áreas nobres, 63% delas vítimas dos maridos

Fernanda Aranda, JT

fernanda.aranda@grupoestado.com.br

A violência contra a mulher rompeu o muro de silêncio que cercava as casas de classe média e alta em São Paulo. Levantamento feito pelo Jornal da Tarde, com base nas estatísticas de pacientes do sexo feminino atendidos em unidades de saúde paulistanas e tabulados pelo movimento Nossa São Paulo, mostra que bairros como Pinheiros, Vila Mariana, Lapa e Ipiranga aparecem como locais onde os índices de agressão mais cresceram na capital paulista no ano passado.

Ferida que ainda não cicatrizou na luta das mulheres, a rotina de tapas, socos, chutes e xingamentos enfrentada por muitas em pleno século 21 ainda reforça que nem todas as diferenças entre os sexos foram equilibradas, apesar da invasão delas no mercado de trabalho, universidades e cargos de chefia. “O fundamento da violência é o exercício de poder. Ainda está enraizado na cultura, de qualquer classe social, que os homens são superiores. Uma das formas de exercer a superioridade é pela violência”, afirma Sônia Coelho, integrante da SempreViva Organização Feminista.

Além de estar mais visível nos números dos distritos de situação econômica favorecida, as mulheres que apanham também moram em regiões onde a pobreza e a vulnerabilidade social reinam. Das 31 subprefeituras que formam a cidade, em 25 delas a incidência de maus-tratos foi ampliada (veja abaixo). A agressão democrática deixa aos poucos de ser secreta, ganha ferramentas para chegar a público (como a Lei Maria da Penha) e por isso está espalhada por todos os cantos, define Katia Guimarães, diretora da subsecretaria de enfrentamento da violência do governo federal. No entanto, na classe média, lembra ela, o fenômeno era ainda mais velado e só agora começa a ultrapassar as barreiras.

Jefferson Drezet, médico do hospital da mulher Pérola Byington, costuma dizer que as paredes das mansões são bem mais espessas do que as dos barracos. É preciso um trator de denúncia para que o problema seja visto, já que dentro das residências é onde acontecem 90% dos casos.

Ainda que o inimigo seja íntimo, as denúncias têm aumentado. A Central de Atendimento à Mulher (número180, serviço 24h vinculado à Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres) registrou 269.977 atendimentos de janeiro a dezembro de 2008, um aumento de 32% em relação ao ano de 2007 (204.978).

Quem estuda a violência ou quem sofre a agressão não fala em crescimento da quantidade de violentadores e violentadas na classe média. A expressão “estava debaixo do tapete e agora aparece” é a mais emblemática para explicar a ascensão numérica. Orkut, televisão e sites passaram a ser ferramentas de ecoar o problema, o que também repercute no índice.

Um câncer na alma

Para se ter uma ideia, por ano o câncer de mama tem incidência de 90 novos casos em cada 100 mil mulheres paulistanas, estimados pelo Inca. A violência, no mesmo universo de pessoas, faz 123 vítimas na capital. Os dados, ainda que pareçam elevados, podem estar subestimados. Nos números usados pela reportagem, apenas são computadas as mulheres que chegam ao hospital com sinais de agressão e admitem o espancamento aos funcionários de saúde.

Clarice, 34 anos, apanhou durante 13 anos calada. Se entrou na estatística, representou uma única agressão, apesar de ter perdido as contas dos hematomas e sangramentos que teve. “Só procurei o posto de saúde uma vez. Foi quando precisei tomar seis pontos na cabeça. O restante nunca contei para ninguém”, diz. Ela só rompeu o ciclo de violência quando o filho de apenas 4 anos aprendeu a falar grosso. Espectador da luta travada pelo pai, ele passou a mandar a mãe calar a boca igualzinho como o seu parâmetro de homem fazia. “Resolvi que era hora de colocar um breque.” Ela esconde a identidade por vergonha. Vergonha de ter se acostumado a apanhar desde que, quando ainda na fase do namoro, aceitava os puxões de cabelo que expressavam “só ciúme”.

Mandar o marido embora é expulsar o provedor da casa. Assim como para ela, a dependência financeira do agressor é comum para 47% das mulheres que sofrem violência, mostra pesquisa da Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres. E a autoria dos maus-tratos por parte dos companheiros é recorrente em 63,2% das notificações que acionaram o disque 180 em 2008. São Paulo foi o segundo Estado que mais acionou o serviço telefônico e para 37,1% das vítimas o maior risco de agressão era a ameaça de morte.

Muitos rostos

A violência contra a mulher pode ter muitas caras. Pode ser linda, loira, jovem, com diploma superior de enfermagem, português correto e roupas finas como Marina, 32 anos. Seu primeiro namorado, aos 12 anos, tornou-se o homem que acabou com seu rosto e seios de tanta pancada. Ou então, a violência pode ser representada pelas rugas, mãos calejadas de trabalhar na roça e cabelos grisalhos por causa dos 60 anos de Maria, que teve todas as unhas das mãos arrancadas por um canivete porque as coloriu de vermelho, o que não era permitido nas regras do pai do seu filho. Outra face do mesmo fenômeno pode ter madeixas tingidas de acaju, quatro filhos, ser coordenadora de um hospital, em plena forma para os 50 anos. Nair também é vítima. Do primeiro e do segundo marido, o que só aumenta a sua culpa por apanhar.

Ivone Dias, uma das assistentes do Núcleo de Defesa da Mulher Cidinha Kopcak, um dos mais importantes da capital, que é mantido em parceria com a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads), acredita que a violência ainda exista porque não faz muito tempo que deixou de ser olhada com naturalidade.

A própria Lei Maria da Penha foi criada só em 2006. “Alguns juízes e delegados de polícia são omissos e resistentes em aplicar a legislação. A violência vai continuar existindo enquanto a sensação de impunidade prevalecer.”


47%
Das vítimas de agressão e maus-tratos são dependentes economicamente dos agressores, o que dificulta a denúncia. A estatística é do 180, serviço telefônico do governo federal que recebe queixas

Bairros de São Paulo onde a violência contra a mulher cresceu entre 2006 e 2007. Clique na imagem para ampliar o quadro publicado pelo JT

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07/03/2009 - 18:38h É justo questionar dogmas católicos

A Igreja Católica é composta por homens e mulheres de carne e osso. Como toda instituição viva, seus dogmas merecem contestação de quem pertence aos seus quadros, de quem já pertenceu e de que não pertence. Os de fora têm o direito de opinar sobre as decisões de uma instituição poderosa e que influencia o debate público no mundo inteiro.

No Brasil, há separação entre Estado e igreja. Apesar disso, os religiosos se julgam no direito de criticar decisões legais, como o aborto de uma criança de 9 anos que foi estuprada. Ora, se podem meter o bedelho nas regras do Estado laico e democrático, podem também ouvir críticas a seus dogmas.

Nesse contexto, é absurda a excomunhão dos médicos e da mãe da menina estuprada pelo padrasto. Pior, o arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, disse que aborto é pior do que estupro. Os idiotas da subjetividade vão dizer que é assunto da Igreja Católica e ponto final. No direito canônico, o aborto é mais grave que o estupro. Quem é católico que se acomode, e os incomodados que se retirem.

Esse discurso serve a um conservadorismo anacrônico que afasta cada vez mais a Igreja Católica do cotidiano de seus seguidores. É um erro considerar um meio católico ou um mau católico quem apoia a decisão de abortar na circunstâncias em que se encontrava a menina de 9 anos. Ela pesa 30 quilos. Sua gravidez poderia matá-la. A lei brasileira permite aborto em caso de estupro e quando se coloca em risco a vida da gestante.

Há outro agravante: a menina é de um região pobre do Nordeste, na qual o peso dos valores religiosos é maior do que em outras partes do Brasil. Uma condenação da Igreja Católica soa a uma espécie de sentença de morte religiosa.

É uma pena que a Igreja Católica tenha abandonado a opção preferencial pelos pobres. O homem que deu início à caminhada dessa instituição milenar teria reparos a fazer à turma de Bento 16.

Mais debate

A briga é meio perdida, mas é preciso discutir a ampliação do direito ao aborto num país em que isso é questão de saúde pública. A mulher deve ter o direito de decisão. Legalizar mais amplamente o aborto, com limite até determinado tempo de gestação, não vai obrigar ninguém a tirar filho da barriga.

E-mail: kennedy.alencar@grupofolha.com.br


Kennedy Alencar, 41, colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre bastidores do poder, aos domingos. É comentarista do telejornal “RedeTVNews”, de segunda a sábado às 21h10, e apresentador do programa de entrevistas “É Notícia“, aos domingos à meia-noite.

04/03/2009 - 14:26h Beber todos os dias aumenta risco de câncer de pâncreas

Beber todos os dias aumenta risco de câncer de pâncreas Estudo com mais de 860 mil pessoas, o maior já realizado, mostra relação entre o consumo diário de álcool e o tumor

Um dos mais letais, o câncer pancreático representa 2% de todos os tipos de tumor no Brasil e responde por 4% das mortes por câncer

http://www.antidrogas.com.br/img_artigos/alcoolcancer.jpg

http://www.colegiosaofrancisco.com.br/alfa/cancer-de-pancreas/images/cance-de-pancreas.jpg

CLÁUDIA COLLUCCI E RACHEL BOTELHO – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

O consumo diário de duas ou mais doses de bebida alcoólica aumenta em 22% o risco de desenvolver câncer de pâncreas, revela uma revisão de 14 estudos científicos que envolveram 862.664 pessoas. Entre a mulheres, o risco cresce a partir de uma dose por dia.
O trabalho, publicado ontem em jornal da Associação Americana para Pesquisa do Câncer, é o maior já feito mostrando a relação entre dieta e câncer pancreático. O tabagismo é outro importante fator de risco. Fumantes têm o triplo de chances de desenvolver o tumor.
O câncer de pâncreas, um dos mais letais, é a quarta principal causa de morte por câncer no mundo. A sobrevida média, em cinco anos, é de apenas 5%. No Brasil, ele representa 2% de todos os tipos de tumor, sendo responsável por 4% do total de mortes por câncer.
Durante o estudo, os pesquisadores identificaram 2.187 pessoas que tiveram tumor no pâncreas. Elas foram comparadas com indivíduos que não bebiam. A conclusão foi que o risco de câncer aumenta a partir do consumo diário de 30 gramas ou mais de álcool (menos de duas latas de cerveja de 350 ml ou três taças de vinho). Não foi observada diferença quanto ao tipo de bebida consumida.
Na avaliação do médico Felipe Coimbra, diretor do departamento de cirurgia abdominal do Hospital A.C. Camargo, o estudo é muito importante no sentido de reforçar o perigo do consumo crônico de álcool, que já estava relacionado a outros tumores, como o de esôfago.
“Até então, não existia uma relação tão direta do consumo de álcool ao câncer de pâncreas. Assim como as pessoas devem evitar o fumo, diminuir o álcool pode ajudar na prevenção.”
O cirurgião gastroenterologista Antonio Luiz Macedo, do hospital Albert Einstein, diz que é comum as pessoas exagerarem no consumo do álcool sob alegação de que a substância faz bem ao coração. “Muitas ultrapassam facilmente os 30 gramas diários.”
O oncologista Antonio Carlos Buzaid, diretor-geral do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, afirma que o estudo corrobora uma forte suspeita de que o álcool esteja associado ao aparecimento de câncer, mas ele avalia que o aumento do risco seja pequeno. “O risco de câncer de pâncreas é tão pequeno que, se eu aumentar em 22% uma coisa pequena, ela continua pequena.”
O problema do câncer pancreático é que 90% dos pacientes descobrem a doença em estágio avançado. “É um órgão que está no retroperitônio, atrás do intestino e do estômago e que os exames habituais podem não visualizá-lo adequadamente”, afirma Coimbra.
Outro fator limitante, diz Buzaid, é que o tumor não manifesta sintomas iniciais. “Quando dá [sinais], está avançado.”

04/03/2009 - 12:20h Blog policial com críticas a José Serra é tirado do ar pela Justiça

MARINA LANG
colaboração para a Folha Online

A blogosfera policial, que vem aumentando sua popularidade com o surgimento de páginas como Segurança Pública, Cultcoolfreak e Diário de um PM, sofreu uma baixa. O flit-paralisante.blogspot.com saiu do ar.

O “Flit Paralisante” (referência a um antigo inseticida) ficou conhecido por abordar a rotina dos policiais civis no Estado de São Paulo. Em tom de denúncia, seus textos criticam as estruturas internas da corporação e o governador José Serra (PSDB).

“Não sei dizer por que, exatamente, o blog saiu do ar, mas foram em duas ocasiões: a primeira em 30 de outubro [de 2008] e essa de janeiro. A representação, da última vez, trouxe como vítimas o governador José Serra e outros”, diz o autor do blog, o delegado da Polícia Civil em São Vicente (65 km de São Paulo), Roberto Conde Guerra.

Com a derrubada do endereço eletrônico, ocorrida em janeiro, Guerra reativou seu espaço na rede pelo servidor Wordpress, no qual permanece em funcionamento (flitparalisante.wordpress.com).

“Quando apagaram o blog, deram a entender que eu era anônimo. Nunca escrevi escondendo minha identidade. Nada ali afeta a idoneidade do governador”, defende-se.

O blogueiro suspeita que a primeira retirada do ar (30 de outubro) tenha ocorrido pelos “desabafos” sobre o confronto entre polícias e a ação desastrada na morte de Eloá.

Um ofício judicial, ao qual a Folha Online teve acesso, foi enviado à Guerra pelo próprio Google, detentor do domínio blogspot.com. Entretanto, o documento não solicita a retirada do blog do ar –mas pede dados cadastrais do autor e endereços virtuais (IPs) utilizados por ele para a publicação.

O delegado José Mariano de Araújo Filho, da Delegacia de Crimes em Meios Eletrônicos, foi o responsável pelo inquérito contra o Flit Paralisante. Embora o nome do governador José Serra apareça no ofício judicial, Araújo Filho diz que o “governador de São Paulo não é parte”.

Procurado, o Palácio dos Bandeirantes não quis se pronunciar –tampouco o Google, que diz apenas cumprir um pedido da Justiça.


http://2.bp.blogspot.com/_eEOSD1Sb7cc/SQhxQrX95wI/AAAAAAAAKqM/VV_ZT5QwoG4/s400/greve+da+pol%C3%ADcia+civil+-+202C70BA27774B6C95813901B4C2D7CF.jpg
Policiais militares em confronto com tropa civil, em outubro; críticas ao Executivo seriam motivo da retirada do blog

Delegado X delegado

“[A retirada do blog] foi uma medida cautelar, pois se trata de um funcionário público, e o site foi usado como veículo de difusão de calúnia, injúria e difamação”, alega Araújo Filho. A medida cautelar é um ato preventivo, que é deferida pelo juiz quando há a comprovação de lesão de qualquer natureza ou motivo justo. Ela pode ser autorizada pelo juiz sem que a outra parte tome conhecimento. Também é provisória, ou seja, há um prazo para que o autor mova a ação principal.


http://www.estadao.com.br/fotos/serratv292.jpg
Governador José Serra é situado como uma das vítimas em inquérito policial que retirou endereço de blog “Flit Paralisante” do ar

O nome do governador está ali, segundo ele, para “justificar” a medida. “Caso ele se interesse, pode tomar parte na ação principal, pois ele é uma das partes”, diz.

O delegado confirma ainda que houve acusações de maneira genérica e dirigida a promotores e juízes. Serra foi chamado de “nazista”, de acordo com ele. “Não foi possível apagar apenas algumas das postagens porque o encadeamento dos posts e comentários era ofensivo. A internet maximiza isso”, observa Araújo Filho, afirmando que as supostas ofensas não partiram apenas do autor do blog, “mas também dos comentários nas postagens.”

Cicarelli

“Chega a ser amador e hilário. Com a censura, é claro que um blog se transfere para um servidor estrangeiro. De quebra, faz com que as pessoas se interessem mais ainda pelo assunto”, analisa o professor da Fundação Getúlio Vargas e advogado especialista em internet Marcel Leonardi.

Segundo ele, é possível que o governador José Serra saiba, informalmente, a respeito do inquérito. “Mas não dá para afirmar categoricamente que ele esteja envolvido”, afirma Leonardi. “Isso lembra até o caso da [Daniela] Cicarelli [e do bloqueio do YouTube], em que ela afirmou que o namorado era o responsável pelo processo, não ela.”

27/02/2009 - 15:02h Chuvas já mataram 23 pessoas em todo o Estado

http://blogdofavre.ig.com.br/wp-content/uploads/2008/07/kassab_serra2.jpg

Marcela Fonseca, Renato Santiago do Agora e Agência Folha

Desde o início do ano, os temporais que acometem o Estado já causaram a morte direta ou indireta de 23 pessoas. Até agora, a capital é a região que mais registra mortes, seis ao todo. Segundo a Prefeitura de São Paulo, 591 famílias foram afetadas e são assistidas pela administração. A Secretaria Municipal de Saúde aponta 40 pessoas com leptospirose decorrente do contato com enchentes.

A região de Campinas é a segunda mais atingida. Segundo dados Defesa Civil, quatro pessoas morreram e quase 4.000 estão desalojadas. Cidades do ABC também sofrem com os estragos.

Em São Paulo, o CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências) aponta a região do Butantã (zona oeste de SP) como a mais prejudicada. A segunda é São Mateus (zona leste de SP).

A Prefeitura de São Paulo trabalha com um mapa de áreas de risco desatualizado. Um novo estudo será providenciado, mas só depois da temporada de chuvas. O Jardim Esperança (zona norte), onde morreram os primos Maxwel Oliveira, 17 anos, e Ednaldo de Lima, 26, na noite de anteontem, está na lista dos novos pontos de risco.

15/02/2009 - 19:35h Sobre os prémios World Press Photo 2008


Yannis Kolesidis/Reuters, Grécia, 2º prémio People in the News

O crítico do Público Eduardo Cintra Torres é um espectador atento à criação fotográfica contemporânea e ao fotojornalismo em particular.
Eis o texto que escreveu para o Arte Photographica sobre os prémios World Press Photo 2008 ontem divulgados:

Não há luz ao fundo da porta do fundo das nossas casas

O Iraque e o Afeganistão desapareceram dos prémios World Press Photo relativos a 2008. Não há entre as fotografias premiadas nada da guerra no Iraque (mas ainda há guerra no Iraque? Esta semana, em Badgad, o movimento do anti-american radical cleric Al-Sadr, como lhe chama a imprensa americana, patrocinou uma boa exposição de pintura contemporânea iraquiana). Do Afeganistão, nada também. E do Médio Oriente, onde ocorreram duros combates entre Israel e o Hamas, chega apenas uma fotografia, anterior ao conflito. É uma imagem de perturbadora beleza: quatro manifestantes palestinos procuram abrigar-se debaixo de uma oliveira isolada enquanto pelo chão se espalha uma nuvem de gás lacrimogéneo; a mancha branca do gás é bela, igual aos farrapos de nuvens verdadeiras no céu azul com que parece misturar-se, o nevoeiro lacrimoéneo quer esconder o mal que alberga; e a oliveira, tão bonita, símbolo de paz, no meio da pequena clareira onde o gás ainda não chegou, parece o antídoto contra o gás venenoso, mas, na sua velhice, enrosca-se em si mesma, dando um movimento adicional à imagem que nos diz como a paz é torta e difícil naquele lugar. A fotografia não ganhou o primeiro prémio, nem as fotografias do conflito mais ilustrado deste ano, o da guerra na Geórgia, que aos tanques e militares preferiram gente que chora mortos: o fotojornalismo, como a pintura desde pelo menos a Segunda Guerra Mundial, não quer saber de vitórias militares, apenas vê derrotas humanas.

É o caso das guerras tribais no Quénia, que motivaram imagens premiadas, fotografias extraordinárias que mostram que não há ali diferença entre vencidos e vencedores, os que matam e os que morrem são intermutáveis, é terrivelmente difícil sentir pena, apenas se sente horror pelo grau zero a que chega o valor da vida: aquela criança que à porta de casa agita as mãos quando chega o assassino de cacete na mão tem o horror da morte espelhado no gesto.

Há ainda outras guerras destacadas pelos prémios deste ano. São as guerras da natureza contra o homem, a que chamamos catástrofes naturais: um terramoto na China premiou um instantâneo com o primeiro lugar nessa categoria e originou um outro segundo prémio para uma fotografia que parece caótica por nos transmitir o caos da destruição em Beichuan; um ciclone em Myanmar arrancou o terceiro prémio de reportagem; um vulcão no Chile transmitiu toda a beleza da explosão ao primeiro prémio na categoria Natureza. Há também as guerras nas favelas, as guerras de gangues, o terrorismo em Bombaim. E sobra sangue: sangue no desporto (no judo, no boxe), sangue nos chãos de zonas de conflito e sangue que escorre debaixo da manga dum manifestante em Atenas, numa fotografia de impressionante composição: em primeiro plano, à direita, a manga dum blaser, o sangue que escorre pela mão, a mão que segura um dossiê, mão de professor. À sua frente, os escudos da polícia de choque: o sangue é o índice da violência e da irredutibilidade das posições.

Todavia, dentre todas as imagens, o júri escolheu para fotografia do ano a imagem de um polícia dentro de uma casa desocupada. Ele está armado, aponta a arma para uma divisão da casa que não podemos ver. O chão da divisão em que nos encontramos com ele está caótico: caixotes espalhados, lixo, papéis, mobílias velhas. Na parede ao fundo, um aplique torto; na casa de banho pela porta aberta em frente, a mesma desarrumação. Só a legenda nos pode explicar esta imagem marcada por uma violência que já passou (a desarrumação) e por uma violência que poderá chegar (o polícia que se precavê de arma apontada). Esta guerra é outra, diz a legenda: “Economia dos EUA em Crise: depois dum despejo, o detective Robert Kole tem de garantir que os moradores saíram da sua casa. Cleveland, Ohio, 26 de Março”.

Esta guerra chegou ao interior dos Estados Unidos. É mesmo uma guerra, vê-se os indícios dela. E é um drama, vê-se pela composição: a parede do fundo é como um pano de teatro paralelo aos espectadores (nós que vemos a fotografia), há portas como no teatro, há um movimento subtil do polícia, como os dos actores no palco. Há suspense: que poderá acontecer na outra divisão da casa? Estará alguém lá? Imaginamos que a família saiu, de rastos pela miséria que sobre ela se abateu, e vingando-se, deixando o lixo para quem vier a seguir: mas será que a família desesperada se esconde ainda no quarto ao lado?

A composição como de um palco de teatro favorece a organização harmónica, fornecendo a compreensão estética que compensa o caos dos elementos soltos. E essa harmonia é reforçada por um elemento paradoxal: o polícia, que parece estar do lado direito da imagem, por já ter ultrapassado a porta do fundo, está afinal exactamente no centro geométrico da imagem: o colt que traz à cintura marca o ponto em que as diagonais se intersectam.

Lemos as imagens da esquerda para a direita, e aqui essa narrativa só nos promete incerteza e a hipótese de conflito e de medo. Como nos quadros, a luz vem da esquerda, do passado, dos tempos alegres em que a família viveu nesta casa; a escuridão está à frente do polícia e por isso à nossa frente, do lado direito, é o negro para lá da porta, o Adamastor da crise. É para lá que o polícia aponta a arma: para o futuro, para a crise, para uma guerra em potência dentro das nossas casas — aquele vazio negro é o túnel sem luz ao fundo que nos ameaça a todos. Esta fotografia é um ícone da crise que chegou, da crise que está, da guerra das famílias contra a crise, o Adamastor, o monstro negro. É o ícone do fim da era Bush e das suas guerras pelo mundo fora, é o ícone do início da era Obama, da guerra interior com que se vêem a braços milhares de milhões de famílias, empresas, polícias e policiados da América e de cada país do mundo.

Eduardo Cintra Torres

11/02/2009 - 12:05h O aumento dos assassinatos nos roubos

O JT dedica seu editorial ao aumento dos latrocínios no Estado de São Paulo. Apesar do esforço que o jornal faz para diminuir o fato e defender a politica de segurança do governo estadual, os dados são claros: os roubos seguidos de morte aumentaram na capital 64% em relação a 2007. O editorial destaca que os números absolutos dos latrocínios são pequenos, mas oculta quais são os números absolutos dos sequestros quando reivindica que diminuíram em 40%. É aquela história, o que é ruim para os tucanos a gente esconde e o que é bom, mostra.

O que é grave na questão do aumento dos roubos seguidos de morte é que são eles, junto com outras modalidades de crimes, os que requerem presença e ação da polícia para coibir e reprimir, assim como do trabalho de inteligência e prevenção para desmantelar as quadrilhas.

Os homicídios, na maioria dos casos, são produto de brigas familiares, incidentes entre vizinhos ou produto de altercações em bares. A diminuição dos homicídios é uma boa notícia e nesses dados é que se expressa com maior força o resultado do emprego e dos projetos sociais, na redução desse índices que pouco devem a ação estritamente policial. Não se trata de desmerecer os esforços nesse sentido das autoridades, pois a redução dos homicídios é também fruto da ação pelo desarmamento, da luta contra o tráfico de drogas, do combate ao alcoolismo e indiretamente da luta contra a criminalidade em geral.

Mas o que deve provocar um alerta de toda a sociedade e do poder público é esse aumento dos assassinatos ligados ao roubo, ou seja a ação organizada de profissionais do crime. Mais ainda que, como já foi denunciado pelos jornais, os BO nas delegacias teriam sofrido algumas formas de maquiagem visando a obter boas notas… nas estatísticas. O aumento de 64% no latrocínio, em apenas um ano, exige uma reação dos governos estadual e municipal que não seja limitada a uma melhor leitura estatística dos BO e sim ao policiamento, a inteligência policial e a repressão.

Desse ponto de vista é de lamentar que muitas das bases comunitárias na capital tenham sido desmanteladas, que a Guarda Civil Metropolitana esteja sucateada (leiam embaixo, após o editorial do JT, o artigo de hoje do jornal AGORA sobre a GCM) e dedicada a combater ambulantes e que a segurança das escolas seja “terceirizada”. LF

Editorial do JT

O aumento dos latrocínios

O crescimento do número de latrocínios (roubos seguidos de morte) na capital é sem dúvida preocupante, mas ele deve ser considerado dentro do contexto mais amplo dos vários tipos de crime, a maior parte dos quais vem diminuindo de forma sensível e consistente nos últimos anos.

O aumento no ano passado – como mostrou reportagem de Josmar Jozino, publicada pelo Jornal da Tarde – foi de 64% em relação a 2007, um salto de 42 para 69 ocorrências. Foram 15 latrocínios no primeiro trimestre de 2008, 14 no segundo, 22 no terceiro e 18 no quarto. No ano anterior, registraram-se 8 casos no primeiro trimestre, 8 no segundo, 11 no terceiro e 15 no quarto. O primeiro sinal de alarma com relação a esse tipo de crime foi dado em novembro do ano passado, quando a Secretaria da Segurança Pública apresentou dados mostrando que ele havia aumentado 88% nos nove primeiros meses de 2008 em relação a igual período de 2007.

É preciso observar em primeiro lugar, como diz o coronel da reserva da PM José Vicente da Silva, que em números absolutos o aumento é pequeno, acrescentando que para se ter uma ideia mais precisa sobre a tendência de crescimento em caso como esse é preciso uma perspectiva de cinco anos. Outro especialista na questão, o presidente do Instituto Sou da Paz, Denis Mizne, também chama a atenção para o fato de o número absoluto ser pequeno. Para ele, embora o aumento dos casos de latrocínio seja motivo de preocupação, é preciso levar em conta a redução dos índices de criminalidade nos últimos anos, com destaque para os homicídios, que caíram 70% entre 1999 e 2008.

Progressos foram obtidos também no caso dos sequestros com uso de cativeiro e pedido de resgate à família da vítima, um dos crimes que mais colaboraram para semear o medo e a insegurança na população da capital. Entre os crimes violentos, a queda mais significativa foi a dos sequestros, superando até mesmo a dos homicídios, porque ocorreu em espaço de tempo bem menor. Entre 2007 e 2008, a redução foi de 40%. No ano passado, em apenas um de cada quatro sequestros houve pagamento de resgate. Segundo estatísticas da Polícia, houve ainda avanço significativo na repressão a desmanches de carros roubados e na luta contra o contrabando e a falsificação.

Tudo indica, portanto, que pelo menos até agora o aumento dos latrocínios é um fato isolado. E, como diz Denis Mizne, um mapeamento das áreas de maior incidência, para promover melhor distribuição dos efetivos policiais, assim como um reforço de outras medidas já adotadas para prevenir com êxito os homicídios, podem produzir bons resultados. Já se sabe, por exemplo, como apurou o Jornal da Tarde, que é a zona sul que lidera os casos de latrocínio.

Falta de combustível deixa guardas a pé em São Paulo

Adriana Ferraz do Agora

Carros da Guarda Civil Metropolitana e de setores administrativos da Prefeitura de São Paulo estão parados por falta de combustível. Há uma semana, as bombas do posto de abastecimento da Mooca, que atende a frota da área central, estão sem gasolina. Desde sábado, também falta diesel e, segundo funcionários, o álcool acaba hoje.

Com o racionamento, muitos guardas-civis têm de fazer o patrulhamento a pé. A fiscalização dos camelôs do centro também não tem sido feita. Hoje, com a volta às aulas na rede municipal, a ronda escolar pode ser prejudicada.

O governo Gilberto Kassab (DEM) diz que houve um problema na gestão das cotas de combustível, mas não detalhou qual é a falha.

Ontem, na região central, não havia carros na praça do Patriarca, no viaduto do Chá nem na praça da Sé. O único veículo visto pela reportagem na área estava em frente à prefeitura. O guarda que trabalhava no local afirmou que estava sem retaguarda e que o tanque só estava cheio porque o carro fica parado.

A prefeitura não disse exatamente quantos carros são afetados. O Sindicato dos Guardas Civis Metropolitanos de São Paulo calcula que sejam 120 veículos e 300 guardas atingidos -a grande maioria no centro.

O restante atua na Mooca e na Vila Prudente, onde o posto de abastecimento reduziu a cota para economizar. São liberados 20 litros diários por carro. Antes, eram 30.

“Não temos falta de gasolina desde 1999, quando o prefeito era o [Celso] Pitta. O problema afeta diretamente a população, que fica sem atendimento completo, e também os guardas, que ficam sem segurança nas ruas”, disse o presidente do sindicato, Carlos Augusto Souza.

A diretoria da entidade diz ter avisado a gestão Kassab no final do ano passado, quando a cota foi alterada. “Eles não fizeram nada. No setor de fiscalização do comércio irregular [na Sé], contei mais de 40 carros sem uso”, diz uma guarda-civil que não quis se identificar por temer represálias. Os veículos só podem rodar até atingirem 1/4 do tanque; aí seguem para a Mooca, para o reabastecimento.

O Agora esteve ontem no setor de fiscalização e flagrou o pátio lotado, às 16h. Até os ônibus de transporte de guardas estavam parados, além de uma base móvel da GCM.

Cerca de três horas depois, parte dos carros seguiu, em comboio, para o posto da Barra Funda (zona oeste de SP), que emprestou 4.000 litros para amenizar o problema.

No final da tarde, um aviso passado pelo rádio avisava que o patrulhamento de hoje poderia enfrentar novas dificuldades. A notícia era de que o álcool acabaria até o meio-dia no posto da Mooca, deixando a frota flex -que representa 30% do total- também sem função.

10/02/2009 - 14:24h É hora de romper o círculo vicioso

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Amos Oz, International Herald Tribune* – O Estado SP

Ehud Olmert, premiê israelense, declarou que Israel dará uma resposta “desproporcional” a qualquer novo ataque do Hamas contra seus civis. Acho que uma resposta desproporcional é uma resposta imoral. Uma punição desproporcional é uma punição imoral.

Essa desproporcionalidade fortaleceria os candidatos extremistas nas eleições israelenses e atenderia aos objetivos dos fanáticos na Faixa de Gaza e no mundo árabe.

Operações militares desproporcionais nada mais são do que vingança. E vingança nada mais é do que a satisfação de instintos primitivos básicos.

Vejo o Hamas como um bando de criminosos que, há muito tempo, direciona sua ação contra civis israelenses. Nos últimos anos, nada menos do que 10.000 foguetes foram lançados pelo grupo contra cidades e povoados dentro de Israel.

O Hamas também é um bando de criminosos porque usa civis palestinos como escudos humanos e porque, cinicamente, esconde-se atrás de mulheres e crianças.

Mas matar mais civis palestinos não vai levar a nada, já que os radicais islâmicos não se importam absolutamente com essas mortes.

Como o líder do grupo na Síria, Khaled Meshal, disse recentemente, “a atual geração de palestinos pode ser sacrificada”.

A única resposta eficaz é um ataque bem calculado, proporcional, contra os criminosos do Hamas, que tente ao máximo poupar a vida de palestinos inocentes. O Egito está intermediando um cessar-fogo e Israel tem de dar uma chance a essa mediação.

Não devemos nos esquecer que o maior revés para o Hamas seria um eventual acordo de paz entre o governo de Israel e a Autoridade Palestina do presidente Mahmud Abbas. Um acerto desse tipo entre palestinos e israelenses é possível – e talvez até mesmo iminente.

* Amos Oz é escritor israelense

10/02/2009 - 10:40h Temporais já provocaram 12 mortes em SP desde dezembro, diz Defesa. Prefeitura de São Paulo não tem mapa de áreas em risco

Parece lógico que retornando de suas férias, o governador José Serra perceba que a situação provocada pelas chuvas exige um acompanhamento mais apurado e uma intervenção mais eficiente, colaborando com os prefeitos que enfrentam situações difíceis nas suas cidades. Particularmente quando, como é o caso na cidade de seu afilhado Kassab, a prefeitura não tomou as medidas necessárias para minimizar os estragos provocados pela chuva (nem mapa de áreas em risco Kassab tem. O último foi de 2003, feito na administração de Marta Suplicy). A revolta da população de Cidade Ademar, que ontem voltou a manifestar, alem de expressar o desespero, mostra a irritação com o sumiço de Kassab. Datena, no seu programa na TV, tem explorado esta indignação vociferando: “Kassab, cadê você?”. LF

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Adriana Ferraz do Agora

Os estragos causados pelas chuvas de verão já mataram 14 pessoas em todo o Estado de São Paulo e feriram outras 26. Dados da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil também mostram que o número de pessoas desalojadas (que não podem ficar em casa pelo risco de enchente), apenas neste ano, já chega a 5.127. A Região Metropolitana de Campinas é a mais atingida.

Para amenizar os prejuízos foram gastos, até ontem, R$ 88,9 mil em assistência às famílias prejudicadas. O governador José Serra (PSDB) afirmou que o serviço está sendo prestado da melhor forma e que, por isso, não há plano emergencial em discussão.

Na capital, as maiores ocorrências estão relacionadas a deslizamentos de terra, quedas de muros e barracos, segundo a Defesa Civil.

O órgão também informou que foram registradas 51 ocorrências de queda de árvore durante o final de semana.

Áreas de risco serão mapeadas só após as chuvas

Adriana Ferraz do Agora

A Prefeitura de São Paulo vai fazer um levantamento das áreas de risco da cidade no período pós-chuva. O edital para a contratação de uma nova análise só será lançado em março e, por isso, os resultados poderão ser usados apenas no verão de 2010.

A falta de planejamento vai impedir, por mais um ano, que o período crítico seja trabalhado com dados mais atualizados. Segundo o CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências), da própria prefeitura, o primeiro trimestre acumula 42% das chuvas registradas em um ano.

A previsão do tempo para esta semana confirma a necessidade de um trabalho direcionado para evitar tragédias em temporais.

“Amanhã [hoje], por exemplo, vai chover o dia inteiro, mas mesmo sem pancadas fortes é possível que aconteçam inundações, por conta do volume d’água”, afirmou o meteorologista da CGE Michael Rossini Pantera.
De acordo com a previsão do CGE, fevereiro deste ano deve superar a média histórica de 217 mm -cada milímetro representa um litro de água no espaço de um metro². Nos nove primeiros dias deste mês, já choveu o equivalente a 34% do esperado.

Mapeamento de 2003
A última pesquisa contratada pelo município para áreas de risco é de 2003, ainda na gestão Marta Suplicy. Na época, 57.500 pessoas viviam em 562 pontos que foram considerados perigosos por estarem próximos a encostas e margens de córregos. Quase a metade oferecia risco alto ou muito alto.

“De lá pra cá, solucionamos praticamente 70%. Sabemos, porém, que a cidade é dinâmica, que cresce com rapidez e, por isso, estamos contratando uma atualização”, disse o chefe-de-gabinete da Secretaria Municipal de Coordenação das Subprefeituras, Lacir Baldusco.

O atraso no planejamento é justificado por um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) assinado com o Ministério Público Estadual, em 2005. “O estudo estava previsto, mas foi estabelecido que a prefeitura fizesse outros serviços, como limpeza de boca de lobo e drenagem, por exemplo. Só no ano passado, investimos R$ 100 milhões em obras de intervenção.”

O prefeito Gilberto Kassab (DEM) assegurou que está tomando as providências para atender a população no período de chuvas. Disse que a prefeitura tem planos específicos para regiões prioritárias.

“Já fizemos bastante coisa nos primeiros quatro anos e continuaremos fazendo. Choveu muito na região [referindo-se a Americanópolis, onde uma mulher morreu afogada dentro de casa no último sábado], que já é complicada. Já melhorou, mas precisa melhorar ainda mais”, disse.

O programa de ações refere-se às mesmas obras citadas por Baldusco. Kassab não comentou a defasagem no mapeamento das áreas de risco de deslizamento.

A secretaria promete que, além de investir no estudo novo de encostas, pesquisará também as áreas de inundação.

09/02/2009 - 13:01h Kassab não dá a cara: enchentes provocam protestos contra Prefeitura na zona sul

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Bairro de morta na enchente vive dia de revolta

 

 

Bruno Ribeiro e Gabriela Gasparin do AGORA

Depois do temporal de sábado, ontem foi dia de contabilizar os prejuízos causados pela chuva e de limpar casas e ruas inundadas. No total, na Grande São Paulo, três pessoas morreram, casas foram inundadas, parte do teto do shopping Interlagos (zona sul) desabou e ruas da Pompeia ficaram inundadas, arrastando cerca de 30 carros.

Em Americanópolis (zona sul), onde houve uma morte, moradores protestaram queimando móveis e colchões avariados. Segundo eles, as enchentes pioraram após obra municipal em uma praça. A prefeitura nega.

Moradora do bairro, a servidora pública Jeovanice Marques de Carvalho, 52 anos, morreu afogada dentro da própria casa durante o temporal. Ela ficou prensada entre a parede e um armário que flutuou com a correnteza.

Jeovanice não foi a única vítima. Em Santo André (ABC), dois homens receberam descarga elétrica de um poste e morreram na tempestade.

Revoltados com o saldo da chuva, cerca de 50 moradores de Americanópolis fizeram uma grande fogueira com móveis, colchões e eletrodomésticos. Também impediram que agentes da Subprefeitura de Cidade Ademar retirassem o entulho ontem. A cada novo móvel lançado na fogueira, os manifestantes gritavam.

O fogo só foi dissipado uma hora depois, após negociação dos manifestantes com a PM. Só então o que foi destruído foi levado pela subprefeitura. Não houve prisões.

“Antes não alagava tanto assim aqui. Agora, com uma obra que a prefeitura fez na praça Lígia Salgado, a água sobe um metro em qualquer chuva. É a segunda vez que perdemos tudo em dois meses. A outra foi no Natal”, disse a vendedora Cláudia Aparecida Barcelos, 36 anos.

Uma moradora vizinha ao córrego do Cordeiro disse ter passado a noite ao relento. “Dormi sentada, com minha filha de um ano e meio no colo”, afirmou Kátia Alves da Silva, 24 anos. “Minha vizinha subiu no beliche e quebrou as telhas do teto de casa para escapar”, disse a estudante Roberta Matos.

Na zona oeste também houve estragos. Na Pompeia, lojas perderam mercadorias e ficaram fechadas para limpeza. A enxurrada também arrastou cerca de 30 carros anteontem na região.

01/02/2009 - 13:01h ”Do exílio ninguém regressa”

O argentino Tomás Eloy Martínez tenta com Purgatório recuperar o que o desterro lhe tirou

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Soledad Gallego-Diaz, EL PAÍS – O Estado SP

 


O purgatório, segundo a doutrina da Igreja Católica, é o processo de purificação necessário antes de se entrar no reino dos céus e passa pela dor de não desfrutar a presença de Deus, a ausência, a perda do bem extraordinário que é a contemplação do amor e do ente querido. Purgatorio é, nesse sentido, o melhor título possível para o mais recente romance do escritor argentino Tomás Eloy Martínez (Tucumán, 1934): a história de uma perda e de um exílio. Sua personagem, Emilia Dupuy, procura, durante 30 anos, seu marido detido pelos militares argentinos e desaparecido. Um dia ela o encontra num pub dos Estados Unidos: o tempo não passou para ele. “Quando você volta ao lar do qual partiu, pensa que fechou o círculo, mas percebe que sua viagem foi só de ida. Do exílio ninguém regressa”, escreve o narrador da história. Mas Emilia não acredita nele.

Seu romance é uma história terrível de perda.

Pensei muito na dor das pessoas que perderam alguém, mas, sobretudo, na dor maiúscula que significa não ver esse alguém morto. A constatação da morte é, pelo menos, uma forma de consolo. O limbo ou o purgatório de não saber o que foi feito do ser amado, onde ele está, se está morto, ou se está perguntando por você em outro lugar, é desesperador. De fato, já se fala disso na tragédia grega, quando Antígona não consegue enterrar seu irmão.

Durante a época da ditadura militar desapareceram cerca de 30 mil argentinos. Esse sentimento de perda, que é tão opressivo no romance, acomete qualquer argentino de sua geração?

Em meu caso, fui expulso de meu país pouco antes da ditadura. A motivação que me levou a escrever este livro é, precisamente, a interrupção de uma vida pelo exílio. Há dez anos de minha vida que se foram para sempre e que são irrecuperáveis. Pensei em recuperá-los mediante a escrita. A privação dos afetos é terrível. Por alguma razão, os gregos já pensavam no exílio como um castigo equivalente à morte. Eles o arrancam de seus afetos, de seus filhos, de sua vida profissional. Eles o obrigam a ser outro. E nessa “alteridade” você se perde.

Chama a atenção que suas duas personagens, Emilia e Simón, sejam precisamente cartógrafos.

Não sei bem por que, mas me preocupa há algum tempo a ideia do mapa e da semelhança entre o mapa e o romance. A escrita do romance e a realização dos mapas são, ambas, invenções da realidade, imaginações. No princípio, os seres humanos, quando não sabiam em que terra estavam pisando, imaginavam o mundo e lhe punham nomes a seu critério.

Mas, ao mesmo tempo, os mapas existem para que as pessoas não se percam, para que alguém não desapareça.

Exatamente.

A personagem de Emilia está perdida, mas encontra Simón pela formidável intensidade de seu amor. O amor é o único sentimento capaz de desencadear tanta força?

É sobretudo a ansiedade de recuperar o amor que não se viveu, que nos converte em outro ser. Como eu digo, o impulso inicial que me moveu a escrever este livro foi tratar de recuperar, mediante a escrita e a imaginação, o que o exílio me tirou. A escrita e a imaginação têm um poder maiúsculo, um poder que tratei de medir com a escrita deste romance. A ideia original era narrar a vida cotidiana dos argentinos, não os campos de concentração, não os tormentos, não as mortes horrendas, e sim a mediocridade da vida cotidiana. Sobretudo, algo que me perturbava, estando fora por tanto tempo, como não se reage, como se olha para outro lado? As ditaduras não são possíveis sem uma cumplicidade coletiva; uma certa forma de resignação ou de cumplicidade coletiva. A fonte dessa cumplicidade, acredito, é a ignorância. O grande recurso dos autoritarismos é obrigá-lo a ignorar, a que só saiba o que eles querem que saiba.

A primeira coisa que as autoridades israelenses fizeram antes de invadir Gaza foi impedir a presença de jornalistas.

Sim. E outra coisa importante. Aqui, se você denunciava o que via, o regime o denegria imediatamente como “antiargentino” e como tal o condenava. Agora, se você publica fora de Israel alguma coisa sobre o que sucede em Israel, podem muito bem chamá-lo de antissemita. Quando Israel levantou o muro, que me pareceu contrário a toda tradição da perseguição aos judeus, publiquei um artigo em La Nación, dizendo que era uma barbaridade, uma forma lenta de morte, e você não imagina a quantidade de vozes que se ergueram aqui para me acusar de antissemita.

Uma personagem que me parece interessante é a de Dupuy, o pai de Emilia. Ele não é um homem que está louco, mas que é, basicamente, um sem-vergonha.

Isso mesmo. Um canalha. Ele tem um ideal de extrema direita, militar, a ideia de construir um país sobre a ideia de “Deus, Pátria e Lar”, a espada e a Igreja, a união das armas com a fé e tudo isso misturado com a corrupção que afeta os pressupostamente incorruptíveis e se revela avassaladora. É esse também o tema de outro romance meu, O Voo da Rainha. Neste caso, é um jornalista incorruptível, que, em seu empenho em lutar contra a corrupção, se corrompe.

É tão fácil se corromper?

Se você não tem uma estrutura moral muito sólida e a corrupção não o repugna por princípio ou por vergonha, então, sim, suponho que a corrupção é uma tentação muito importante. Ela assume formas às vezes imprevisíveis. Aqui se veem infinitas formas de corrupção, inclusive você pode se converter em um corrupto sem ter consciência disso. A corrupção não é somente corrupção do dinheiro. A corrupção no jornalismo, por exemplo, é a sedução do poder, fazê-lo acreditar que você pode derrubar um ministro ou ter alguma influência maior.

Um episódio curioso no romance é o momento em que Dupuy pai visita Orson Welles para lhe propor que faça um documentário sobre os campeonatos mundiais de futebol. Cheguei a acreditar que fosse uma história possível.

Assim se criam as personagens. Conheci Orson Welles tal como Dupuy o conhece, na última tourada de Antonio Bievenida, em Toledo. Eu era um jornalista e ele estava muito envolvido na cerimônia de apartar os touros, opinando como se fosse um especialista. Eu me contive e não lhe perguntei sobre o Quixote, que ele havia deixado pelo meio. Admiro muito Welles, para mim ele é eticamente muito valioso. Pareceu-me que se o episódio não tivesse verossimilhança não poderia ter força e pus-me a estudar Welles, de modo que quando Dupuy o visita, eu sabia onde ele estava, o que fazia. Descobri que nessa época Orson Welles emprestou sua voz a um filme que se chama Genocídio, e me pareceu interessante devolver-lhe a homenagem.

Com relação à personagem de Emilia, às vezes é desesperador o tempo que ela demora para se dar conta do que se passou com seu marido, apesar das muitas pessoas que lhe contam.

Ela o explica num dado momento: “Se Simón está morto, então meu pai é um assassino e minha mãe, uma cúmplice.” E sobre a morte de seu marido, que já seria uma carga suficiente para ela, pois é a esperança que a mantém viva, teria que somar a culpa por esses antepassados assombrosos. Emilia é um reflexo, ou uma metáfora, embora a palavra me pareça um pouco presunçosa, da sociedade argentina em geral, à qual estão ocorrendo as coisas diante de seus olhos e ela não os vê. Prefere esperar que ocorram milagres. Mas Emilia não espera passivamente, porque procura de todos os modos.

A história de amor, que é tão importante no romance, seria possível pensá-la igual se a desaparecida fosse ela e Simón quem a procura?

Creio que o gênero masculino não tem, em geral, a mesma força passional e a mesma tenacidade que as mulheres têm. Por algum motivo, são As Mães da Plaza de Mayo e não Os Pais da Plaza de Mayo. Embora os maridos acompanhem o símbolo da busca e da espera, foram as mulheres que bateram de frente com a ditadura.

Seu romance tem muitas leituras possíveis: é uma história de amor, mas também um romance político, mas também um romance metafísico… É um romance sem medo.

Sem medo das consequências. Caminhar sobre uma corda bamba sem cair. Nesses temas a gente pensa qual é o limite e até onde posso avançar, e quanto mais livre você se sente, mais seguro se sente e melhor avança. De todos os meus livros, este foi o que escrevi mais rapidamente, me deixando levar.

O senhor acredita que algo que existiu um dia existe para sempre?

Um ser que existiu persiste por intermédio da memória. Por isso, o livro insiste em que a identidade de cada um de nós está nas recordações. Não só nas recordações que se tem, mas nas recordações que se deixa. Por isso o céu e o inferno são suas boas e suas más ações, aquilo que você deixou e o que permanece na memória dos outros.

TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIK

FLUÊNCIA NARRATIVA E BASES HISTÓRICAS MARCAM SUA FICÇÃO

CONTRA O PODER: A experiência com a ditadura militar argentina resultou em marca na militância e na ficção de Tomás Eloy Martínez, nascido na província de Tucumán, em 1934. Formado em literatura e especializado em Jorge Luis Borges, Eloy Martínez atuou como repórter na Argentina e na França, tendo iniciado a carreira jornalística como crítico de cinema. Durante o seu exílio, ele ajudou a fundar periódicos importantes como El Diario (Venezuela) e Siglo 21 (México). Ele criou o suplemento literário Primer Plano para o jornal Página/12, de Buenos Aires. Desde 1995, ele dirige o Programa de Estudos Latino-americanos da Rutgers University, em Nova Jersey. Marcados pela fluência narrativa e tramados em bases históricas, seus romances abordam, de modo geral, os efeitos do exercício do poder, visto sob um olhar cético, por vezes cáustico. Cinco de seus livros estão em catálogo: O Voo da Rainha (Objetiva), O Cantor de Tango, A Mão do Amo, O Romance de Perón, Santa Evita (todos Companhia das Letras).

31/01/2009 - 11:23h Cresce nº de estupros no Estado. Roubo seguido de morte teve aumento de 21% em 2008

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Cresce nº de estupros no Estado

Roubo seguido de morte teve aumento de 21% em 2008, segundo Secretaria da Segurança

Fernanda Aranda e Camilla Haddad – O Estado SP

O estupro está na lista dos três crimes que mais cresceram no Estado de São Paulo em 2008. Foram 3.387 casos ante 3.223 no ano anterior, um acréscimo de 5%. Os dados foram divulgados ontem pela Secretaria da Segurança Pública (SSP). A violência sexual só perde em aumento para o latrocínio – roubo seguido de morte -, crime que subiu 21% em igual período (veja mais no quadro ao lado).

Para o capitão e assistente militar da Coordenadoria de Assistência e Planejamento (CAP), Márcio da Silva, os estupros são mais difíceis de combater por serem comuns em residências. “É um crime que acontece em ambiente familiar e não depende tanto da segurança pública”, diz. O oficial observou que a Lei Maria da Penha fez com que as vítimas passassem a comunicar as agressões. “A lei estimulou as mulheres a denunciar.”

As pesquisas científicas sobre estupro endossam que os autores das agressões, no geral, conhecem as vítimas. E apesar da SSP não separar os registros por faixa etária nem por bairro, os estudos mostram que são as crianças o alvo preferencial deste tipo de criminoso.

No Hospital Pérola Byington, no centro de São Paulo – referência nacional para atendimento de violentados -, meninas entre 0 e 11 anos são maioria entre os atendidos. Um perfil realizado com 1.926 pacientes recebidos em 2007 mostrou que, antes de completar o 12º aniversário, elas respondem por 43% dos casos.

Levantamento semelhante feito pelo Ministério da Saúde com base em registros de atendimento em hospitais públicos de 27 municípios do País também constatou que a violência sexual é predominante entre os meninos e meninas que dão entrada nas unidades vítimas de maus-tratos. Em 2007, 4.309 prontuários foram analisados e a proporção de estupro foi de 43,7% dos casos. Na parcela acima de 10 anos, o índice chegou a 56,3%.

O capitão Silva justificou que, em comparação com outros anos, o crime de estupro vem caindo. Segundo ele, a taxa de queda em 1999 foi de 28,7% e de 3,2% em 2006.

LATROCÍNIO

Reportagem na quinta-feira mostrou, com exclusividade, que o latrocínio (roubo seguido de morte), crime hediondo, aumentou 64% na capital no ano passado, em relação a 2007. Para o delegado-geral adjunto da Polícia Civil, Paulo Bicudo, o crime, na maioria das vezes, ocorre porque a vítima esboça alguma tipo de reação. “No latrocínio não é intenção do bandido provocar a morte, é um roubo que não deu certo”, diz. Segundo o delegado, a arma no bandido está cada vez mais sofisticada por se tratar de peças automáticas que são disparadas com mais facilidade.

Ele diz que o porcentual de esclarecimento desses crimes cresceu 47,2% em 2008 em relação ao ano anterior. A polícia, que pede para as pessoas nunca reagirem ao assalto, não divulga os bairros com maior índice de latrocínio nem o perfil das vítimas. Em 2008, foram registradas 69 ocorrências desse tipo de crime na capital, ante 42 no ano anterior. No total, foram 69 ocorrências – em 2007, foram 42. Em todo o Estado, o número foi de 267 no ano passado e 218 em 2007.

Houve redução na ocorrência de outros crimes

Os dados divulgados pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) mostram que houve redução na soma dos outros crimes durante o comparativo com os anos de 2007 e 2008 por 100 mil habitantes.

A maior queda foi a de roubo de carros: 13,41%, seguido por lesão corporal com intenção, 12,5%. As tentativas de homicídio caíram 11,57% e lesão corporal sem intenção, 6,07%. Furtos de carros foram reduzidos em 7,52%, enquanto furto caiu 7,46%. Homicídio sem intenção caiu 10,05% e com intenção, 3,63%. Roubos a banco reduziram em 1,05% e roubo, 0,06%.

A SSP informou que a redução nos índices de criminalidade se deve ao trabalho conjunto das polícias civil e militar. Entre as atribuições para a queda a pasta destacou ainda o reforço do policiamento feito com a Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicleta (Rocam) e também o policiamento de trânsito, realizado pelo 34.º Batalhão da Polícia Militar. Policiais ficam em viaturas nos cruzamentos considerados perigosos da cidade. Outros cruzamentos recebem a visita frequente de viaturas que fazem ronda de dia e de noite. Os endereços desses locais não são informados por questão estratégicas.

28/01/2009 - 12:53h Dia Internacional em memória das vitimas do Holocausto

Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante solenidade do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto
São Paulo-SP, 27 de janeiro de 2009

 Foto Ricardo Stuckert / PR
Presidente Lula participa de cerimônia do Dia Internacional de Lembrança das Vítimas do Holocausto _(São Paulo, SP, 27/01/2009) _Foto: Ricardo Stuckert/PR

Meus amigos e minhas amigas,

Agradeço o convite para participar, pelo quarto ano consecutivo, do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Eu posso dizer que me sinto pessoalmente envolvido com a instituição desta data. Em agosto de 2004, recebi de uma comitiva do Congresso Judaico Mundial e de líderes comunitários brasileiros – certamente alguns deles estão aqui presentes – uma petição à ONU solicitando medidas mais concretas na luta contra o anti-semitismo. Assinei de imediato o documento, afinal, o Estado brasileiro foi co-patrocinador de diversas resoluções da ONU afirmando a importância de rememorar aquela tragédia. Mais tarde, eu soube que o Brasil foi o primeiro país a subscrever aquela petição. Soube também que ela serviu de base para consagrar 27 de janeiro como o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.
Hoje, como em todos os dias, devemos nos empenhar na luta da memória contra o esquecimento. É preciso manter viva a lembrança, para que nunca mais se repita o assassinato em massa, o genocídio como ideologia e a limpeza étnica como razão de Estado.
O regime nazista promoveu a mutilação espiritual, a humilhação moral, a ruína material e a eliminação física de milhões de homens, mulheres e crianças. Vitimou judeus, comunistas, homossexuais, negros, ciganos, testemunhas de Jeová e todos que considerou inferiores na raça, no credo e na cor. O holocausto marcou o auge da crueldade humana e configurou o maior episódio de violência e covardia de nossa história, um episódio que não deveria ter ocorrido e que não pode nunca mais voltar a ocorrer.
É certo que a intolerância e a xenofobia ainda não foram totalmente extintas. No entanto, em todo o mundo a sociedade vem dando importantes passos na superação dos preconceitos. Um grande exemplo acaba de se concretizar nos Estados Unidos. Lá, há poucas décadas, negros e brancos não tinham os mesmos direitos. E hoje, pela primeira vez, um negro é presidente dos Estados Unidos. O combate ao ódio e à discriminação já não é um grito isolado, mas integra o ideário das sociedades dos mais diferentes países.
Minhas amigas e meus amigos,
Ao participar deste evento, ano após ano, busco demonstrar o profundo respeito que eu e todo o governo nutrimos pelas comunidades que compõem a grande nação brasileira. Eu me orgulho de ser presidente de um país marcado pela diversidade, onde a tolerância garante o respeito mútuo a todos. Temos uma legislação clara e rigorosa no que se refere a todas as formas de intolerância. Somos uma das poucas democracias do mundo, talvez a única, em que a Constituição garante que para crime de racismo não deve existir nem fiança, nem prescrição.
O Brasil não aceita discriminação. Judeus e árabes, sejam religiosos ou não, convivem pacífica e harmoniosamente em nossas cidades, dividem espaços e compartilham a construção e o desenvolvimento do Brasil. Por isso, o conflito entre Israel e Palestina, no Oriente Médio, atinge os corações e as mentes de todos, e nos obriga a evitar que o ódio contamine o nosso país. Mais do que tudo, o Brasil pode se valer dessa convivência pacífica para colaborar para a construção da paz.
Minhas amigas e meus amigos,
A diplomacia brasileira tem uma larga tradição de atuar de forma conciliatória na solução de conflitos, e no que se refere aos povos israelense e palestino, nosso Estado vem ao longo de seis décadas ratificando as resoluções internacionais que têm por objetivo garantir a coexistência pacífica e segura de dois Estados soberanos. Esse tem sido o sentido de todas as nossas manifestações, pois só assim alcançaremos a paz naquela região. Eu tenho me esforçado pessoalmente para impedir que o ódio mútuo, acumulado ao longo de décadas, acabe sufocando ainda mais as alternativas de paz.
Como vocês sabem, recentemente determinei ao chanceler Celso Amorim que viajasse à região com o objetivo de apoiar os esforços para o cessar-fogo, o alívio da situação humanitária e o estabelecimento de uma paz reguladora. Na ocasião, a diplomacia brasileira reiterou às autoridades sírias, israelenses, palestinas, jordanianas e egípcias, a necessidade de se evitar mais mortes e sofrimento na população civil de ambos os lados.
Lembramos às partes envolvidas que há outros atores interessados em agir a favor de um entendimento, e a paz só tem a ganhar com a participação de países como o Brasil. Todos sabem que o Brasil não está interessado nos resultados políticos e nos dividendos econômicos que podem ser obtidos na região. Nosso interesse exclusivo é o de contribuir para a paz duradoura e definitiva na região.
O Brasil tem condições e credenciais para participar, junto com outros países, de iniciativas que conduzam a um consenso para superar a violência e a irracionalidade. Por isso mesmo, apoiamos a realização de uma conferência internacional em seguimento à reunião de Annapolis, ocorrida em novembro de 2007, como um passo importante para o restabelecimento da paz na região, com base no reconhecimento do direito de constituição do Estado palestino viável, e da existência de Israel em condições de segurança e de soberania. O Brasil não aceita a escalada da violência como solução para os conflitos.
Lamentamos profundamente a morte de civis, mulheres e crianças. Conclamamos o pronto estabelecimento das condições que permitam a plena retomada da assistência humanitária à população de Gaza e a tranquilidade para a população de Israel. Guardo uma profunda esperança na construção do diálogo e continuarei empenhado para que, o mais rápido possível, aquela região viva uma trégua consistente que seja prenúncio de uma paz duradoura.
Minhas amigas e meus amigos,
Que este Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto ajude a todos os homens e mulheres a se recordarem das iniquidades que tanto macularam a trajetória da Humanidade. Que ele fale à consciência coletiva sobre a necessidade de se reparar os danos sofridos no passado, de se interromper as injustiças do presente e de se evitar tragédias no futuro.
Espero, sobretudo, que este dia nos convide a olhar para as novas gerações, que não podem ser hostilizadas pelos erros cometidos por seus antepassados. Devemos garantir que as crianças e jovens se desenvolvam em um ambiente onde a desconfiança mútua seja substituída pelo preceito bíblico, quando diz: “Ama teu próximo como a ti mesmo”.
Shalom. Muito obrigado.

18/01/2009 - 15:50h NÃO MATEM O LEITOR

Como um romance, de Daniel Pennac, pode ser um grande aliado na dura tarefa de formar bons leitores

Antonio Carlos Viana • Aracaju – SE (Fonte Rascunho)

Como um romance
Daniel Pennac
Trad.: Leny Werneck
Rocco / L&PM
150 págs.

Nenhuma leitura deve ser obrigatória, salvo uma, a de Como um romance, de Daniel Pennac, que sai agora em edição de bolso pela L&PM, em associação com a Rocco, que o publicou pela primeira vez quinze anos atrás. Todas as comissões de vestibular deviam ser obrigadas a ler esse pequeno grande livro de apenas 150 páginas. Depois de sua leitura, talvez deixassem de se preocupar com as tão temidas listas de livros que os vestibulandos devem ler para responder àquelas perguntinhas muitas vezes sem sentido. Prestariam, assim, um grande serviço à formação de leitores no Brasil.

Pennac abre seu livro com uma afirmação que não nos abandonará mais:

O verbo ler não suporta o imperativo. Aversão que partilha com alguns outros: o verbo “amar”… o verbo “sonhar”…

Bem, é sempre possível tentar, é claro. Vamos lá: “Me ame!” “Sonhe!” “Leia!” “Leia logo, que diabo, eu estou mandando você ler!”

 - Vá para o seu quarto e leia!

Resultado?

Nulo.

Assim começam os problemas de um ex-futuro leitor. Leitura obrigatória não cria leitores. Pelo contrário, afasta-os dos livros. Quantos alunos continuarão lendo com voracidade poesia e ficção depois do vestibular?

Para evitar a incidência no erro, nada melhor do que ler esse livro de título tão intrigante: Como um romance. De que romance fala Pennac? Logo, logo, o entenderemos. Sua linguagem aliciadora nada tem da monotonia dos livros de intenção pedagógica. Ele nos pega desde o primeiro instante, pois logo entendemos que ele fala da relação entre a criança que se inicia na leitura e a de seus iniciadores, os pais. Desde as primeiras historinhas, cria-se entre eles uma relação amorosa, que cresce a cada noite, antes do sono. O primeiro contato do menino com o livro se dá através dessas leituras que o deixam em permanente estado de excitação:

Sejamos justos. Nós não havíamos pensado, logo no começo, em impor a ele a leitura como dever. Havíamos pensado, a princípio, apenas no seu prazer. Os primeiros anos dele nos haviam deixado em estado de graça. O deslumbramento absoluto diante dessa vida nova nos deu uma espécie de inspiração. Para ele, nos transformamos em contador de histórias. (…) Na fronteira entre o dia e a noite, nos transformávamos em romancista, só dele.

Os pais, a criança e o livro, a trindade perfeita. Não há criança que não espere com ansiedade a hora em que os pais sentam ou deitam com ela na cama e começam a desfiar histórias, algumas lidas, outras inventadas. É um tempo de prazer, sem compromisso outro que o de viajar nas palavras. E ela quer mais, sempre mais, até que o pai ou a mãe, exaustos, a convencem a dormir. Até esse momento somos pedadogos, mas sem nenhuma preocupação com a pedagogia.

Eis que chega o dia em que a trindade se desfaz. O menino vai para a escola. Ele se entusiasma com aprender as letras, é quase um milagre juntá-las e dali sair um nome de seu mundo concreto. A primeira palavra escrita: Mamãe! “Esse grito de alegria celebra o resultado da mais gigantesca viagem intelectual que se possa conceber, uma espécie de primeiro passo na lua, a passagem da mais total arbitrariedade gráfica à significação mais carregada de emoção!“. Mas, eis que de repente…

Luta solitária
Sim, não mais que de repente, parece que tudo se esfuma: a alegria de aprender, a alegria de ler. O que todo pai ou professor observa é que a relação do menino com os livros vai se enfraquecendo. Onde foi parar aquele que gostava tanto de ouvir histórias? A leitura, que fora até então fonte de prazer, sofre uma mutação rápida, começa a se transformar num peso a carregar. Uma vez desfeita a trindade, ele terá agora de lutar solitário com um livro que parece rejeitá-lo.

Jogado o menino na escola, os pais se sentem liberados da obrigação de ler para ele como sempre faziam. Que alívio! Mal sabem que perderam seu ouvinte mais atento. Nessa hora é que deviam estar por perto, mas não estão, pois o menino cresceu, não precisa mais de sua ajuda. Finalmente, ele é capaz de se virar sozinho. Até que notam que alguma coisa não vai bem, algo está acontecendo com aquele que foi um dia leitor tão exigente. Vêm os diagnósticos: um desatento, um preguiçoso que não consegue ler um livro em quinze dias. Nunca levam em conta que o que o torna preguiçoso, desatento, é a obrigação de ler, e ler para responder a fichas de leitura, que são a morte do livro. De seu lado, os professores cobram, e caro, uma leitura que não é do interesse daquele leitor e que só faz perdê-lo. Pennac mostra o caminho:

Ele é, desde o começo, o bom leitor que continuará a ser se os adultos que o circundam alimentarem seu entusiasmo em lugar de pôr à prova sua competência, estimularem seu desejo de aprender, antes de lhe impor o dever de recitar, acompanharem seus esforços, sem se contentar de esperar na virada, consentirem em perder noites, em lugar de procurar ganhar tempo, fizerem vibrar o presente, sem brandir a ameaça do futuro, se recusarem a transformar em obrigação aquilo que era prazer, entretendo esse prazer até que ele se faça um dever, fundindo esse dever na gratuidade de toda aprendizagem cultural, e fazendo com que encontrem eles mesmos o prazer nessa gratuidade.

O que antes era prazer vira obrigação. O menino não vê mais o livro, vê o número de páginas que tem de enfrentar, sempre num prazo curto demais para ele e, o pior de tudo, para fazer uma prova. Um temor o assalta: “Como se sair bem se não o entender?” Ele está só, sente-se mais só que nunca, não há ninguém para salvá-lo. O livro passa a ser visto com inquietação, um antagonista do qual ele tem de se livrar o mais rápido possível.

Um livro não pode ser escolhido por outrem, a escolha devia ser sempre nossa. Mas há o cânone. Parece que, sem ele, as portas do futuro não se abrirão. O menino terá de ler o que professor acha que ele deve ler. O mais comum, então, é vê-lo adormecer com o livro aberto sobre o peito e, perto da prova, pedir a alguém um resumo ou, mais fácil ainda, percorrer a internet. Algo está errado. Não, não pode ser assim. Ler por obrigação nunca dará certo. Ou se chega ao livro espontaneamente ou ele será logo abandonado.

A leitura para ser boa tem de ser gratuita. Deve servir de “trégua ao combate entre os homens”, mas a escola a transforma numa guerra em que o perdedor é sempre o leitor forçado e, por conseguinte, a própria literatura. Ler devia ser sempre um presente, “um momento fora dos momentos”, um hiato de distensão dentro de um cotidiano tedioso. Quem sabe o valor da leitura não força ninguém a ler. O melhor caminho é o incentivo, ter lido e motivar o outro a procurar o livro que tanto nos entusiasmou e encheu nossas horas por dias e meses.

Daniel Pennac parte do pressuposto de que é o prazer de ler que preside todo ato de leitura e que, se ele existe, “não teme imagem, mesmo televisual e mesmo sob a forma de avalanches cotidianas”. Não adianta culpar a vida moderna, a televisão, a internet. Nada disso é empecilho para quem se habituou naturalmente à leitura. O que devemos sempre nos perguntar é : “O que fizemos daquele leitor ideal que ele (o menino) era?”. Não foi gratuitamente que o livro mágico da infância cedeu lugar ao livro hostil.

Qual a saída?
Pais, não se desesperem! Daniel Pennac traz um pouco de alento àqueles que já perderam a esperança de ver de novo o filho com um livro nas mãos, não os didáticos, mas o de um Thomas Mann, de um Dostoiévski, de um Flaubert. Se seu filho gostava de ler e não lê mais, o prazer de ler não desapareceu assim, de uma hora para outra, não se perdeu, apenas desgarrou-se e um dia será reencontrado.

Uma criança não fica muito interessada em aperfeiçoar o instrumento com o qual é atormentada; mas façais com que esse instrumento sirva a seus prazeres e ela irá logo se aplicar, apesar de vós.

A leitura deve ser algo que se oferece como ato liberador da vida insípida. Uma viagem em que não se exige nada. “A gratuidade, a única moeda da arte.”

Estimular o desejo de aprender, o entusiasmo pelo saber, seria esse o papel da escola. Ler sem cobranças, nos contentarmos em ler apenas. Abandonemos o dogma do “é preciso ler”. Ler sem alegria é não ler. As palavras pesam, o livro em breve estará fechado e, só fato de vê-lo sobre a mesa, assusta. Quando se sugere um livro é para partilhá-lo, é uma prova de amor, você quer que o outro leia aquilo que foi importante para você em certo momento da vida. A gente dá a ler aquilo que nos é mais caro. Antes de tudo, reconciliar o jovem com a leitura. Jamais fazê-lo sentir-se um pária dela.

A escola parece proscrever o prazer de seu espaço. Como se todo conhecimento fosse feito de sofrimento. Há uma dissociação entre vida e escola. “A vida está em outro lugar”, relembrando Rimbaud. Para contrariar isso, Daniel Pennac conta a história de um professor que nunca mandou um aluno ler um livro. O que ele fazia? Todo dia chegava e lia um trecho de alguma obra importante. A turma inteira ficava em suspenso, envolvida por sua leitura. Foi assim que ele despertou aqueles adolescentes para os livros. Nunca a mais leve sugestão de que fossem correndo à biblioteca, mas eles iam, voluntariamente, em busca do autor que mais os tinha tocado.

Uma aluna desse professor assim o descreve:

Ele chegava desgrenhado pelo vento e pelo frio, em sua moto azul e enferrujada. Encurvado, numa japona azul-marinho, cachimbo na boca ou na mão. Esvaziava uma sacola de livros sobre a mesa. E era a vida. (…) Ele caminhava, lendo, uma das mãos no bolso e, a outra, a que segurava o livro, estendida como se, lendo-o, ele o oferecesse a nós. Todas as suas leituras eram como dádivas. Não nos pedia nada em troca.

Ao final do ano, os alunos somavam: Shakespeare, Kafka, Beckett, Cervantes, Cioran, Valéry, Tchecov, Bataille, Strindberg. A lista era imensa. E ela continua no seu depoimento emocionado:

Quando ele se calava, esvaziávamos as livrarias de Renner e de Quimper. E quanto mais líamos, mais, em verdade, nos sentíamos ignorantes, sós sobre as praias de nossa ignorância, e face ao mar. Com ele, no entanto, não tínhamos medo de nos molhar. Mergulhávamos nos livros, sem perder tempo em braçadas friorentas.

O gosto pela leitura – é o que se depreende de Como um romance – depende do professor. Antes de tudo, ele tem de ser um apaixonado por livros. Falar que os jovens não gostam de ler é simplificar demais. Então se parte para o oposto: obrigam-nos a ler o que não querem. O resultado não podia ser outro: distância dos livros.

Então alguém se pergunta: o que fazer para colocar o livro na mão dos jovens? Se for para continuar fazendo o que estamos habituados a fazer, a melhor resposta é: NADA. Pelo grau de rejeição que eles desenvolvem em relação à leitura, vemos que as estratégias postas em prática até agora não deram resultado. Insistir nisso é burrice. O que se pode fazer é preparar melhor os professores para que transmitam sua paixão pelos livros de forma natural. Professor que não tem nos livros sua forma de viver não deveria ensinar. Professor que não tem paixão pela escrita não deveria ensinar a escrever. É preciso que sua fala transmita uma verdade que vem de dentro, nunca de fora. Sobre aquele professor do qual falei mais acima, Pennac diz:

(Ele) não inculcava o saber, ele oferecia o que sabia. Era menos um professor do que um mestre trovador (…) Ele abria os olhos. Acendia lanternas. Engajava sua gente numa estrada de livros, peregrinações sem fim nem certeza, caminhada do homem na direção do homem.

O papel do professor é o de alcoviteira. É ele que vai fazer o elo entre o aluno e o livro, casá-los para sempre. Facilitar o ato de ler, contabilizar páginas, convencê-lo de que lendo cinco páginas por dia, ao final da semana são 30 (dispensemos o domingo); no final do mês, são 120. Que lucro para quem não conseguia ler nada! O professor se transforma, assim, num estrategista da leitura.

Daniel Pennac termina seu livro listando os “direitos imprescritíveis” do leitor. Um deles é o de não ler. Não obstante, os professores de literatura e as comissões dos vestibulares ficam proibidos de exercê-lo em relação a Como um romance. Só assim será possível evitar a morte de mais leitores.

O AUTOR
Daniel Pennac
nasceu em Casablanca, Marrocos, em 1944, a bordo de um navio, filho de um oficial francês servindo nas colônias do país. É professor de língua francesa, em Paris, e um apaixonado pela pedagogia. O sucesso na literatura chegou com a série de romances sobre o personagem Benjamim Malaussène – O paraíso dos ogros, A pequena vendedora de prosa, Senhor Malaussène e Frutos da Paixão. Na década de 1980, Pennac morou por dois anos em Fortaleza (CE).

07/01/2009 - 23:02h “Peu de gens en dehors de Gaza mesurent l’horreur de la situation”

John Ging, chef des opérations de l'UNRWA à Gaza, visite une école dirigée par l'Onu où ont trouvé refuge des familles palestiniennes, le 7 janvier.
AFP/Thair al-Hasny – John Ging, chef des opé,rations de l’UNRWA à Gaza, visite une école dirigée par l’ONU où ont trouvé refuge des familles palestiniennes, le 7 janvier.

LE MONDE

John Ging est responsable des opérations de l’UNRWA (agence de l’ONU chargée des réfugiés palestiniens) à Gaza depuis trois ans. Pour les victimes du bombardement mardi d’une école gérée par l’ONU, comme pour l’ensemble des victimes civiles de ce conflit, il espère qu’une enquête indépendante permettra d’établir les responsabilités.

Pouvez-vous décrire la situation à Gaza ?

La situation est atroce. Les habitants viennent de vivre douze jours de bombardements incessants. Personne n’est en sécurité, nulle part. Plus de 600 personnes sont mortes et 3 000 ont été blessées, et ça continue. Sans compter que la population manque de tous les produits de première nécessité, comme la nourriture ou l’eau. Les hôpitaux sont débordés, les médicaments manquent. La situation est vraiment désespérée. Mais les gens font preuve d’une grande dignité dans une situation des plus indignes.

Israël a commencé mercredi à ouvrir des corridors humanitaires trois heures par jour. Cela a-t-il amélioré la situation ?

Les points de passage étaient ouverts aujourd’hui comme ils l’étaient hier et avant-hier. Ce qui a changé, c’est qu’ils ont interrompu leurs opérations militaires pendant trois heures, pour permettre aux gens de sortir de leurs maisons chercher de l’eau et de la nourriture.

Cela ne vous a donc pas permis de répondre aux besoins les plus urgents de la population?

Notre travail ici n’a pas cessé pendant les bombardements. Mais que voulez-vous faire en si peu de temps ? Nous avons donc trois heures pour faire ce qui nous prend normalement douze heures par jour, six jours par semaine, et que nous n’avons pu faire depuis douze jours. Les camions qui acheminent les biens de première nécessité doivent être chargés, conduits, déchargés… Pour faire venir ces camions à Gaza aujourd’hui nous avons commencé à 7 heures du matin, et l’opération vient seulement de finir ce soir, douze heures plus tard. C’est une opération logistique très importante. Il ne faut pas se laisser distraire par ce joli mot de “corridor”, ces belles images de convois, ce n’est pas ainsi que cela se passe. Les soldats israéliens arrêtent leurs opérations pendant trois heures, c’est tout, rien de plus.

Un communiqué de votre agence rapporte les propos de médecins selon lesquels 50 % des blessés depuis le début du conflit sont des civils. Confirmez-vous ce chiffre ?

Je ne peux pas confirmer les chiffres avancés. Il faudra mener une enquête indépendante pour établir les faits, puis nous aurons les bilans exacts. Mais il est évident que beaucoup de civils sont tués à l’heure qu’il est. Il faudra que les responsabilités soient établies, parce que si la guerre n’est pas régulée par la loi, comme le détermine la convention de Genève, c’est la loi du fusil, et ça c’est la manière dont les extrémistes et les terroristes mènent leurs opérations. Nous devons donc nous assurer que même en temps de guerre la loi est respectée. La loi dit que les civils doivent être protégés. S’ils meurent, c’est qu’il y a un problème. Il faudra déterminer qui en porte la responsabilité.

Vous avez demandé l’ouverture d’une enquête internationale après le bombardement d’une école gérée par l’ONU. Que s’est-il passé exactement ?

Il y avait 350 familles de réfugiés à l’intérieur, et des tirs tout autour de l’école. Quarante personnes ont trouvé la mort, cinquante-cinq ont été blessées, presque exclusivement des civils. Il faut déterminer ce qui s’est passé. Israël affirme que des militants tiraient depuis l’école. Mais nous, aux Nations unies, sommes convaincus que ce n’est pas le cas car ces écoles sont sous notre contrôle. Notre personnel est chargé de vérifier qu’aucun combattant ne s’y abrite et qu’il n’y a aucun tir depuis l’école. Je fais confiance à notre personnel, mais si ceux qui nous accusent ont des preuves de ce qu’ils avancent, qu’ils les montrent et nous agirons en conséquence.

Israël va dépêcher jeudi un émissaire au Caire pour discuter d’une trêve des combats. Un cessez-le-feu vous paraît-il possible dans les jours qui viennent ?

Nous devons garder espoir qu’il interviendra le plus tôt possible. Le problème, c’est que peu de gens en dehors de Gaza mesurent l’horreur de la situation ici. Vu de l’extérieur, il peut sembler raisonnable d’attendre deux ou trois jours de plus, mais ici, des gens meurent pour rien toutes les heures. Puisque nous savons que tout cela aura une conclusion politique, et non militaire, pourquoi ne pas cesser les violences immédiatement ?

Propos recueillis par Soren Seelow

13/12/2008 - 15:42h FDA pode banir drogas para asma

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Serevent e Foradil, broncodilatadores aprovados pela Anvisa, são amplamente usados no Brasil

Recomendação é de painel de especialistas da agência, que avaliam que remédios aumentam risco de morte; posição não é definitiva

FERNANDA BASSETTE – FOLHA SP

Especialistas da FDA (agência norte-americana que regulamenta a aprovação de alimentos e fármacos) sugeriram a proibição do uso dos medicamentos Serevent e Foradil para tratar pacientes com asma sob a justificativa de que eles aumentam os riscos de morte. No Brasil, os dois remédios são aprovados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e são amplamente prescritos pelos médicos.
A recomendação foi feita durante uma reunião realizada anteontem nos Estados Unidos e ainda não é a posição definitiva da FDA, que costuma seguir a mesma linha de decisão.
A discussão envolvendo os riscos dos medicamentos para asma incluía outros dois remédios: Advair (que ainda não é aprovado no Brasil) e Symbicort. Esses não tiveram associação direta com o aumento do número de mortes e continuam indicados para tratar asma.
Segundo o alergista Celso Henrique de Oliveira, professor da pós-graduação em pediatria da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Foradil e Serevent são medicamentos broncodilatadores de ação prolongada, indicados apenas quando associados a um corticóide inalatório. Já Advair e Symbicort possuem corticóide na formulação. “O broncodilatador abre os brônquios e ajuda o paciente a respirar, enquanto o corticóide tem ação antiinflamatória e age no tratamento da doença.”
O problema, explica Oliveira, é que muitos pacientes usam os broncodilatadores por conta própria e para alívio imediato da crise, sem associar com um corticóide -o que não é recomendado. Em tese, esses remédios deveriam ser vendidos apenas com receita médica.
“A gente sabe que no Brasil a venda acontece indiscriminadamente. O remédio é indicado para uso duas vezes por dia, mas o paciente usa cinco, seis, até dez vezes. Isso causa uma sobrecarga mesmo. Além disso, as causas das mortes ainda estão sendo investigadas”, afirmou o alergista.
Segundo Oliveira, Serevent e Foradil são medicamentos “primos” dos broncodilatadores Aerolin e Berotec, de ação curta e que são usados no tratamento de asma há mais de 30 anos. “Serevent e Foradil são melhores, melhoram a qualidade de vida do paciente e têm uma indicação específica. Em vez de proibir o uso, as agências reguladoras deveriam controlar a venda, feita de maneira indiscriminada, pois qualquer remédio ingerido em excesso pode aumentar o risco de morte.”
Na opinião da alergista Yara Mello, diretora da Associação Brasileira de Asmáticos (Abra), os dois medicamentos possuem ação comprovada, demonstrada em inúmeros estudos clínicos, então ainda não há motivo para pânico.
“O que a FDA está apresentando agora são evidências estatísticas de que há mais casos de morte de pacientes que usaram os remédios sem o corticóide, mas eles ainda não comprovaram qual mecanismo está envolvido nisso. Por isso, acho complicado associar o medicamento à morte”, ponderou.

Nenhum caso grave

A assessoria de imprensa da Anvisa informou que a agência está acompanhando as discussões internacionais sobre a indicação de Serevent e Foradil para tratar asma, mas avisou que, por enquanto, não há indícios suficientes de riscos para proibir os medicamentos no Brasil e também não há nenhum registro de reação adversa ou efeito colateral grave associados aos medicamentos.
Tatiana Matozo, da Novartis (fabricante do Foradil) e Robson Lima, da GlaxoSmithKline (que fabrica o Serevent) informaram que as empresas acreditam na segurança dos produtos, quando usados de acordo com o que está previsto na bula -uso do remédio associado a um corticóide inalatório. As duas informaram também que a decisão não é definitiva.
(Colaborou RACHEL BOTELHO)