01/06/2008 - 20:14h Pauta para uma nova atitude da mídia

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Postado por Luiz Weis - Blog Verbo Solto

Rogo ao eventual leitor que faça a si próprio o favor de ler o esplêndido artigo “Endereço de prepotências”, transcrito a seguir, do sociólogo José de Souza Martins, da Universidade de São Paulo, publicado neste domingo no caderno Aliás, do Estado.

É um dos mais agudos comentários saídos na imprensa em muito tempo sobre a barbárie cotidiana nas ruas das grandes cidades brasileiras. Pega no nervo de um horror que a mídia inexplicavelmente ignora quando cobre e comenta a violência - a profusão de crimes cometidos por aqueles que não são delinquentes profissionais, ou seja, pelos que não vivem da bandidagem, como assaltantes, sequestradores, traficantes de drogas, contrabandistas…

O artigo do sociólogo deveria servir de pauta não para uma matéria daquelas chamadas especiais e ponto final, mas para uma nova atitude dos jornais em relação à brutalidade impune, por isso mesmo rotineira, a que estamos todos expostos nas metrópoles brasileiras, num pesadelo recorrente.

Não basta a cobertura dos casos extremos, como se fossem exceções patológicas à regra da normalidade civilizada, a exemplo do motorista que agrediu um inocente com uma barra de ferro na cabeça, em São Paulo, ou do outro que matou a tiros um cidadão que reclamou de ter ele furado o sinal, no Rio.

Se os editores quiserem, os cadernos locais dos grandes diários terão o que publicar, a cada dia, relatos sobre a prepotência nos espaços públicos urbanos, revoltante mesmo quando não termina com feridos graves ou mortos.

O texto de Martins:

“Era a tarde de um calmo domingo. A Avenida Juscelino Kubitschek, em São Paulo, quase sem carros. Eu estava no carro com a família. Ultrapassou-me, pela pista à esquerda, um automóvel vistoso dirigido por um jovem franzino de feições orientais. Atrás dele, um fusca velho com um casal jovem, cujo motorista impaciente buzinou duas ou três vezes, pedindo passagem, apesar de as duas pistas à sua esquerda estarem completamente livres. Paramos todos no sinal vermelho pouco adiante. O motorista do fusca, um sujeito entroncado, saiu do carro, dirigiu-se ao motorista que estava adiante e desfechou-lhe violento murro no rosto. Recuou para ganhar impulso e desfechou um segundo murro contra o vidro, que o rapaz prudentemente fechara. A vítima arrancou e atravessou o cruzamento com o sinal ainda vermelho para escapar de violência maior. No fusca quase ao meu lado, a acompanhante do agressor gemia, envergonhada, um deixa- disso, vamos embora. O agressor estava completamente embriagado.

Londres, num domingo à tarde. Estou num ônibus especial, daqueles grandes e confortáveis, com outros bolsistas do Conselho Britânico rumo a Brighton para um seminário internacional na Universidade de Sussex. O motorista, um senhor de cabelos brancos, dirigia calmamente. Num certo momento parou, desceu e foi conversar com o motorista do automóvel da frente. A maioria de nós vinha de países da América Latina, da Ásia e da África. “Briga!”, disse alguém. Na verdade, o nosso motorista desculpava-se com o outro por ter parado excessivamente perto de seu carro, a cerca de 1 metro, num semáforo fechado.

Do primeiro caso, tenho uma coleção de todo tipo de insulto, ofensa e agressão em cidades brasileiras, não só São Paulo e Rio de Janeiro, como as desses dias, que resultaram em ferimentos e morte de suas vítimas nas duas cidades. Do segundo caso, em Londres, não me lembro de ter visto por aqui nada parecido. Há várias explicações para diferenças tão importantes como essas. Uma delas é a de que as populações dos países desenvolvidos conviveram com as inovações no transporte moderno desde sua origem e aprenderam a obedecer a duríssimas regras de trânsito, com punição severa aos transgressores. Nós só recebemos essas inovações residual e tardiamente, não raro de sopetão, sem tempo para sua assimilação. Aqui muita gente se torna motorista sem ter aprendido antes a ser pedestre e até mesmo sem saber qual é a distinção entre rua e calçada. Gente que não sabe andar na rua dirige carro, e muita gente dirige carro como se fosse pedestre ou como se o carro fosse um animal de montaria.

Há um segundo fator de violência no trânsito. A cultura brasileira nunca distinguiu na devida extensão, e com a devida clareza, público e privado, herança do escravismo. O privado se apossa descaradamente dos espaços públicos. Temos espaços públicos sem termos uma cultura do espaço público. A rua e a praça são lugares em que se cospe, se urina, se defeca, se dorme, se cozinha, se consomem drogas, se joga lixo, se atravessa fora da faixa, não se respeita o semáforo. A rua não se institucionalizou entre nós como bem comum, que só tem sentido quando compartilhado. Pedestres, motoristas, ricos e pobres, se orientam agressiva ou autodefensivamente pelo pressuposto de que a rua é um lugar de prepotências, onde a lei não vale, até porque quem deveria vigiar por seu cumprimento raramente o faz. É proibido telefonar e dirigir ao mesmo tempo, mas aqui se fica com a impressão de que é proibido dirigir sem falar ao telefone celular.

São freqüentes as indicações de que a violência no trânsito decorre da mentalidade de que o carro é um refúgio do privado, uma extensão da casa, e não meio de circulação que trafega por concessão do Estado. Muitos, no carro, acham que podem tudo porque estão no que é seu. É freqüente ver motoristas e motoqueiros inventando regras de trânsito ad-hoc para burlar e mesmo “corrigir” as regras oficiais, conforme sua própria conveniência. Já vi motorista tentando passar de uma via a outra, em cruzamento, dando ré em alça de acesso, imaginando que com isso não trafegava na contra-mão, já que a frente de seu carro estava voltada para a mesma direção dos que vinham em sentido contrário. Sem mencionar os que contam com a velocidade do carro para transgredir e fugir. Já houve caso em São Paulo em que o motorista passou de propósito em velocidade sobre poça d´água, perto de um ponto de ônibus em dia de chuva, molhando e sujando as pessoas que ali estavam. Foi perseguido e quase linchado.

A privatização da rua no Brasil é fato generalizado. Ainda há imobiliárias que vendem apartamentos pressupondo o direito do comprador a um pedaço da rua para estacionar seu carro, não obstante isso estreite a via utilizável e provoque congestionamentos, tensão e violência. Motoboys e motoqueiros já consideram seu direito trafegar pelas linhas demarcatórias das pistas e não nas próprias pistas, como deveria ser, provocando acidentes e acidentando-se. Basta um episódio desses para que se forme ameaçadora aglomeração de motoboys, como se estivessem acima da lei e das regras de trânsito. Criou-se, aliás, uma cultura política do motoboy. Recentemente, vimos massiva demonstração de hostilidade à imposição de regras a eles, uma delas a identificação no capacete. Tratou-se de um movimento pelo direito de transgressão. As empresas já os contratam justamente porque contam com a transgressão que tornará mais rápida a entrega de documentos e mercadorias. Poupam custos inviabilizando a cidade.

A violência no trânsito, entre nós, é em boa parte contrapartida da combinação de retardamento cultural quanto às mudanças necessárias de comportamento numa sociedade em que muitos agentes do moderno são pessoas imodernas, não importa se ricas ou pobres. Está também na leniência tão própria de um País que faz leis e regras duras para que sejam abrandadas pela praga do paternalismo na própria ação dos agentes da lei, do policial de rua aos tribunais.”

28/01/2008 - 10:36h Factóide Kassab


ROGÉRIO GENTILE

Engenheiro do ano

SÃO PAULO - Recém-homenageado com o título de “engenheiro do ano” pelo tradicional Instituto de Engenharia, o prefeito paulistano Gilberto Kassab (DEM) demonstrou na semana passada um profundo desconhecimento do problema do trânsito na cidade.
Com 900 novos veículos por dia, São Paulo tem um sistema de circulação semelhante a uma rede de esgoto cuja tubulação está praticamente entupida. Se nada for feito, vai implodir mesmo. É o que os técnicos em transporte chamam de “bomba-relógio”.
E a única forma de evitar isso é convencer o motorista de que pode ser mais barato e rápido usar ônibus, metrô ou trem. Ou seja, todo investimento público no setor deve ser direcionado no sentido de dar mais amplitude, eficiência, qualidade, segurança e velocidade ao transporte coletivo. O resto é paliativo.
Ao testar a tal faixa exclusiva para motos na avenida 23 de Maio, Kassab, com o perdão do trocadilho, pegou a contramão. Fez campanha para o transporte individual. Puniu os 10 mil passageiros que passam de ônibus por hora na avenida em favor de cerca de 2.000 motoqueiros/hora.
Nem mesmo o argumento oficial de que a medida serviria para aumentar a segurança dos motoboys se sustenta. Pelas estatísticas da prefeitura, a 23 de Maio está bem longe de ser a mais perigosa. Em 2006, último dado disponível, houve uma morte de motoqueiro ali contra, por exemplo, 35 nas marginais, 11 na avenida Teotônio Vilela e 11 na Aricanduva.
Ademais, se a questão é reduzir a violência, faz-se necessário lembrar que, das 1.500 pessoas que morrem no trânsito por ano na cidade, metade é pedestre (contra 25,6% de motoqueiros, 19,4% de ocupantes de demais veículos e 5,6% de ciclistas). Pela lógica kassabiana, então, a saída é transformar a 23 de Maio numa via exclusiva para pedestre…

23/01/2008 - 14:17h Kassab é teste


Nem incompetência, nem factóide, nem chilique. A palavra mágica quando se trata da administração Kassab é teste.

Kassab anuncia o fim do rodízio e perante os engarrafamentos monstruosos, volta a trás. Era um teste.

Kassab anuncia faixa exclusiva para motos na 23 de maio e novamente engarrafamento e foi teste, pode voltar para trás.

Kassab anuncia inspeção veicular e depois disse que fica para a próxima administração, recuando de novo.

Kassab disse que vai construir cinco corredores de ônibus, depois disse que serão dois, depois um e até agora… nenhum.

Kassab proíbe garupa nas motos, mas pensando melhor, decide que é urgente voltar para trás.

De aqui a pouco vem o Serra é disse: deixei Kassab como prefeito para fazer um teste. Os paulistanos são cobaias e não sabiam. Os caras estão testando a paciência de todo mundo.

Et pourtant, porém, não tem um único artigo na mídia falando de improvisação, falta de planejamento, incompetência, factóides ou chiliques.

Chega a ser comico, como esta manchete da Folha Online:

Número de acidentes diminui com engarrafamento

Será que pensam que leitor é burro? ou que ninguém presta atenção ao partidarismo de uma certa mídia?

Porque será? ou serra? nunca sei como se escreve.


FOTO: VAGNER MAGALHÃES/TERRA

Kassab já admite desistir de faixa para motos

Prefeito disse ontem que os resultados parciais do teste realizado desde segunda na avenida 23 de Maio “não são favoráveis”

Secretário dos Transportes reconheceu “desconforto” causado aos motoristas e disse que a experiência vai continuar até amanhã

RICARDO SANGIOVANNI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

CATIA SEABRA
DA REPORTAGEM LOCAL

Após dois dias de trânsito carregado na avenida 23 de Maio, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) já admite desistir do corredor exclusivo para motos, em teste desde segunda.
Kassab disse ontem que os dados parciais sobre o teste “não são favoráveis” e que a experiência “muito possivelmente não terá seqüência”. “As simulações e os dados analisados pela CET não favorecem a manutenção dessa exclusividade para as motos na 23 de maio.”

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