24/07/2008 - 08:55h Para valer, mesmo!

Para valer

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VERISSIMO - O Estado de São Paulo

verissimo1.jpgNuma carta ao Estado de S. Paulo, o sr. Cesário Ramalho da Silva, presidente da Sociedade Rural Brasileira, comentou um texto meu sobre a reforma agrária intitulado Injustiça e Desordem, publicado aqui há semanas. O sr. Cesário não gostou do texto. Nele eu lamentava a demora de uma reforma agrária para valer no País e o sr. Cesário pergunta: ”Que reforma agrária para valer seria essa que dilapidaria o setor do agronegócio, que segura as contas do País, com efeito multiplicador de gerar riqueza, emprego e renda para a indústria e os serviços?” Segue dizendo que toda a Nação já entendeu que o setor rural é o maior responsável pelo crescimento da economia brasileira, junto com a estabilização da moeda, salvo os que insistem num pensamento ”ideológico” e atrasado sobre a questão - como, suponho, o meu. E recorre a uma analogia curiosa: ”É como voltar ao tempo do Brasil-colônia, onde nós, colonizados, não podíamos acumular riqueza porque tudo pertencia à Coroa portuguesa.” Me parece que se a situação colonial evoca alguma coisa é a atual coexistência no Brasil do latifúndio sem proveito social ou econômico e as legiões de banidos da terra, com a Coroa portuguesa no papel do proprietário ausente. Não se quer a dilapidação de negócio algum e sim uma reforma agrária que inclua os milhões de hectares vazios mantidos no Brasil só pelo seu valor patrimonial - uma realidade notória que o sr. Cesário não cita - na cadeia produtiva, com colonização bem-feita e bem apoiada.

O sr. Cesário diz que não há exemplo de reforma agrária que deu certo. Eu tenho alguns. Li um relatório da ONU sobre os efeitos dramáticos na cidade de Calcutá, conhecida pela miséria e a extrema degradação urbana, da reforma agrária feita na sua região. Uma reforma agrária radical livrou o Japão de uma estrutura fundiária feudal e teve muito a ver com sua recuperação depois da guerra. A louca corrida para ocupar o Oeste americano não é modelo para nenhum tipo de colonização racional, mas não deu errado. E já que exemplos americanos legitimam qualquer argumento, mesmo os do pensamento ”ideológico”, recomendo que se informem sobre o Homestead Act, com o qual o governo dos Estados Unidos lançou, no século 19, o maior programa de distribuição de terra da História. Não surpreende a desinformação sobre reformas agrárias alheias que deram certo, ou só foram frustradas pela reação violenta. Os próprios sucessos da incipiente reforma agrária brasileira são ignorados. Sobre os assentamentos que estão funcionando em paz, e produzindo, e contribuindo para o efeito multiplicador que o sr. Cesário, muito justamente, exalta, só se tem silêncio.

O texto que desagradou ao sr. Cesário foi motivado por uma manifestação, depois atenuada, do Conselho Superior do Ministério Público do Rio Grande do Sul, que equiparava o movimento dos sem-terra à guerrilha e pedia sua dissolução. Diante da flagrante iniqüidade da situação fundiária brasileira, mostravam, como na frase de Goethe, que preferiam a ordem à justiça. A criminalização do movimento dos sem-terra seria a outra face da descriminalização, pela absolvição e o esquecimento, de atos como o massacre de Carajás. Acho que o sr. Cesário e seus pares concordam comigo que a escolha não precisaria ser feita, que ordem ideal seria a que advém da justiça, ou da ausência da injustiça. Mas isso, claro, pressupõe outro Brasil. Talvez outra humanidade.

03/07/2008 - 09:06h Injustiça e desordem

http://www.overmundo.com.br/_overblog/multiplas/1175392489_membros_do_mst.jpg
foto Sebastian Salgado

VERISSIMO - O Globo

Quando Goethe disse que preferia a injustiça à desordem, a Europa recém fora sacudida pela revolução francesa e enfrentava outro terremoto, o bonapartismo em marcha. Sua opção não era teórica, era pela específica velha ordem que os novos tempos ameaçavam. Por mais injusta que fosse, a velha ordem era melhor do que as paixões incontroláveis libertadas pela revolução.

Mas a frase de Goethe atravessou 200 anos, foi usada ou repudiada por muitos, na teoria ou na prática e em vários contextos, e chega aos nossos dias mais atual do que nunca. Você não pode pensar na questão agrária brasileira, por exemplo, sem cedo ou tarde ter que se perguntar se prefere a justiça ou a ordem.

A injustiça no caso é flagrante e escandalosa. Mesmo que se aceite todas as teses sobre o desvirtuamento do movimento dos sem-terra e se acate a demonização dos seus líderes, militantes e simpatizantes, a dimensão do movimento é uma evidência literalmente gritante do tamanho da iniqüidade fundiária no Brasil, que ou é uma ficção que milhares de pessoas resolveram adotar só para fazer barulho ou é uma vergonha nacional. A iniqüidade que criou essa multidão de deserdados no país com a maior extensão de terras aráveis do mundo é a mesma que expulsou outra multidão para as ruas e favelas das grandes cidades, deixando o campo despovoado para o latifúndio e o agronegócio predatório.

A demora de uma reforma agrária para valer, tão prometida e tão adiada, só agrava a exclusão e aumenta a revolta.

Quem acha que desordem é pior do que injustiça tem do que se queixar, e a que recorrer. As invasões e manifestações dos sem-terra se sucedem e assustam. Proprietários rurais se mobilizam e se armam, a violência e o medo aumentam, a reação se organiza. Agora mesmo no Rio Grande do Sul, enquanto endurece a repressão policial às ações do MST, um documento do Ministério Público estadual prega a criminalização de vez do movimento, caracterizando-o como uma guerrilha que ameaça a segurança nacional, com ajuda de fora. É improvável que uma maioria de promotores de justiça do estado, transformados em promotores de ordem acima de tudo, tivesse abonado o documento como estava redigido, com seu vocabulário evocativo de outra era. Mas ele dá uma idéia da força crescente do outro lado da opção definidora, dos que escolheram como Goethe.

02/07/2008 - 13:44h Fábio Konder Comparato critica alinhamento do MP gaúcho com latifundiários


Fábio Konder Comparato, professor titular aposentado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, enviou a seguinte mensagem ao Procurador-Geral de Justiça do Estado do RS, Mauro Renner:

“Tomei conhecimento, estarrecido, de que o Ministério Público do Estado pretende ingressar com ação judicial para obter a dissolução do MST. Aflige-me verificar que essa ilustre instituição, ao invés de abrir um inquérito civil público para apurar os atos de corrupção e de improbidade administrativa, que teriam ocorrido na esfera máxima do governo estadual, segundo ampla divulgação dada pelos meios de comunicação, prefira cerrar fileiras em defesa dos interesses de latifundiários e empresas transnacionais de agronegócio, com manifesto desprezo pelos direitos fundamentais declarados em nossa Constituição”.

do Blog RS Urgente por Marco Aurélio Weissheimer

15/02/2008 - 16:34h Jogando a toalha?: ‘Se Alckmin decidir ser candidato, ele será’, diz Serra

jose_serra_caricatura.jpgGovernador descarta elo entre José Aníbal para a liderança do PSDB na Câmara com a candidatura de Alckmin

GUSTAVO PORTO - Agencia Estado


RIBEIRÃO PRETO - O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), afirmou nesta sexta-feira, 15, que o ex-governador Geraldo Alckmin será o candidato a prefeito de São Paulo se assim o quiser. Serra descartou ainda uma ligação entre a eleição de José Aníbal para a liderança do PSDB na Câmara com a viabilização da candidatura de Alckmin à prefeitura paulista, já que Aníbal é do grupo de apoio ao ex-governador. “José Aníbal, homem experiente, já foi líder e vai saber conduzir a bancada”, disse Serra. “Com relação à Prefeitura de São Paulo, não tem nada a ver. Todos sabemos que se o Alckmin decidir ser candidato, ele será”, completou o governador.

Serra esteve nesta manhã na inauguração de uma escola estadual em Ribeirão Preto, em São Paulo, onde enfrentou protestos de representantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e de uma moradora no bairro do Ribeirão Verde. Os sem-terra do acampamento Mário Lago pediam a construção de uma escola no acampamento e a retirada do projeto de lei do governo paulista da Assembléia que regulariza terra no Pontal do Paranapanema. A presença de cerca de cem assentados obrigou a Polícia Militar a isolar o entorno da escola e a van em que o governador estava precisou ser colocada no estacionamento para que ele deixasse o local, sob vaias.

Já a dona de casa Raquel Farias por pouco não subiu no palanque em que Serra estava, mas foi impedida pelos seguranças. De acordo com ela, o motivo do protesto era a falta de atendimento médico integral no posto de saúde do bairro. “O posto fecha às 16 horas. Se quisermos atendimento à noite, vamos pegar dois ônibus para outro bairro”, afirmou a dona de casa. Ainda segundo ela, existe apenas um médico no posto de saúde, exceto hoje, quando o governador estava presente, quando “o posto estava cheio”. Serra deveria, pela agenda oficial, ir ao Aeroporto Leite Lopes, em Ribeirão Preto, antes de seguir para Cravinhos, cidade vizinha, onde deve inaugurar uma rotatória na via Anhangüera. No entanto, o governador seguiu direto para Cravinhos.