23/01/2009 - 20:27h Os dois povos devem viver juntos

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Muamar Kadafi*, The New York Times – O Estado de São Paulo


A chocante intensidade da última onda de violência entre israelenses e palestinos nos impele a considerar a extrema urgência de uma solução final para a crise do Oriente Médio. É vital não apenas romper este ciclo de destruição e injustiça, mas também negar aos radicais religiosos que se alimentam do conflito uma desculpa para promover suas próprias causas.

Mas para onde quer que olhemos, entre os discursos e as iniciativas da diplomacia, não há um caminho concreto para um avanço. Uma paz justa e duradoura entre Israel e palestinos é possível, mas deve ser procurada na história do povo dessa terra em constante conflito, e não na desgastada retórica das soluções que apontam para a criação de dois Estados.

Embora seja difícil de perceber, depois dos horrores que acabamos de testemunhar, entre judeus e palestinos nem sempre existiu um estado de guerra. Na realidade, muitas das rupturas ocorridas entre os dois povos são recentes. O próprio nome “Palestina” era usado comumente para definir toda a região, até mesmo pelos judeus que viviam ali, até 1948, quando começou a ser usado o nome “Israel”.

Judeus e muçulmanos são primos e descendem de Abraão. Ao longo dos séculos, ambos sofreram cruéis perseguições e, muitas vezes, se ajudaram mutuamente. Os árabes ofereceram guarida aos judeus e os protegeram quando estes sofriam sob o governo de Roma e quando foram expulsos da Espanha, na Idade Média.

A história da região é marcada por governos transmitidos entre tribos, nações e grupos étnicos, que resistiram a muitas guerras e a ondas migratórias de povos vindos de todas as direções. É por isso que a questão se torna tão complicada quando uma das partes reivindica o direito de ser dona dessa terra.

O cerne do moderno Estado de Israel é a inegável perseguição ao povo judeu, que foi escravizado, massacrado, perseguido por egípcios, romanos, ingleses, babilônios, cananeus e, mais recentemente, pelos nazistas. O povo judeu merece uma pátria, mas os palestinos também têm uma história de perseguições e consideram as cidades de Haifa, Acra, Jafa como a terra de seus ancestrais, transmitida de geração em geração, até pouco tempo atrás.

Portanto, os palestinos acreditam que o que agora se chama Israel é parte de sua nação, mesmo que fiquem com Cisjordânia e Gaza. E os judeus acreditam que a Cisjordânia é a Samaria e a Judeia, parte da sua pátria, mesmo que ali venha a estabelecer-se um Estado palestino.

Com o cessar-fogo em Gaza ressurgiram os apelos para uma solução de dois Estados, que nunca funcionará. Essa solução criará uma ameaça para a segurança de Israel. Um Estado árabe armado na Cisjordânia daria a Israel menos de 16 quilômetros de profundidade estratégica em seu ponto mais estreito. Além disso, um Estado palestino na Cisjordânia e em Gaza não solucionaria o problema dos refugiados. Qualquer situação que mantenha a maioria dos palestinos em campos de refugiados e não ofereça uma solução dentro de suas fronteiras históricas não é uma solução.

Pelas mesmas razões, a divisão da Cisjordânia em áreas judaicas e árabes, com zonas-tampão entre elas, não funcionará. As áreas palestinas não teriam condições de abrigar todos os refugiados e as zonas-tampão simbolizariam a exclusão e alimentariam tensões.

Em termos absolutos, os dois movimentos terão de permanecer em um perpétuo conflito ou chegar a um compromisso: o da criação de um Estado único para todos, uma “Isratina”, que permita que as pessoas de cada lado sintam que podem viver em toda a região.

Um requisito fundamental da paz é o direito dos palestinos refugiados de regressarem para as casas que suas famílias deixaram, em 1948. É uma injustiça que os judeus que não viviam originalmente na Palestina, nem seus antepassados, venham do exterior para se estabelecer ali, enquanto essa permissão é negada aos palestinos que foram obrigados a fugir dali há relativamente pouco tempo.

É um fato incontestável que, até recentemente, os palestinos viviam nessa terra, eram donos de fazendas e casas, mas tiveram de sair com medo da violência dos judeus após 1948. Por isso, somente o território total da Isratina poderá abrigar todos os refugiados e favorecer a justiça, que é o elemento fundamental da paz.

A assimilação é um fato concreto da vida em Israel. Mais de 1 milhão de árabes muçulmanos vivem no país. Eles têm nacionalidade israelense, participam da vida política e constituem partidos. Por outro lado, há assentamentos israelenses na Cisjordânia. As fábricas israelenses dependem da mão-de-obra palestina e há intercâmbio de produtos e serviços. Essa assimilação, por seu sucesso, pode ser um modelo para Isratina.

Se a atual interdependência e o fato histórico da coexistência de judeus e palestinos servirem de orientação a seus líderes, e se, na busca de uma solução de longo prazo, eles olharem além da violência recente e da sede de vingança, perceberão que a coexistência debaixo de um único teto é a única opção para uma paz duradoura.

*Muamar Kadafi é presidente da Líbia

19/01/2009 - 14:20h No que tenha a ver com Gaza, deixem a II Guerra Mundial fora disso

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Exercito de Israel bombardeia Gaza

Fonte vi o mundo – blog de Azenha

  Robert Fisk, 17/1/2009, The Independent, UK

  http://www.independent.co.uk/opinion/commentators/fisk/robert-fiskrsquos-world-when-it-comes-to-gaza-leave-the-second-world-war-out-of-it-1418270.html

Detesto exageros. Comecei a detestar há anos, nos anos 70s, quando o Provisional IRA (Provisional Irish Republican Army, grupo de ação armada ativo a partir de 1969, na Irlanda e na Inglaterra) declarou que a prisão de Long Kesh seria  “pior que Belsen[1]“. Não que houvesse algo de bom em Long Kesh – a prisão Maze, como depois foi rebatizada, polidamente. Simplesmente, não foi pior que Belsen. Agora, começou outra vez. Passando por Paris, essa semana, vi, numa manifestação pró-Palestina, cartazes em que se lia “Gaza é Guernica” e “Gaza-sur-Glane”.

Guernica, como se sabe, foi a cidade basca destruída pela Luftwaffe em 1937; Oradour-sur-Glane, a vila francesa cujos habitantes foram massacrados pela SS em 1944. A selvageria de Israel em Gaza também tem sido descrita como “genocídio” e – claro –, como um “holocausto”. A União Francesa das Organizações Islâmicas descreveu-a como “genocídio sem precedentes” –, o que vale uma medalha, quando até o Papa “ministro para paz e justiça entre os homens” comparou Gaza a um “grande campo de concentração”.

Antes de pôr-me a escrever o óbvio, gostaria, só, de que a União Francesa das Organizações Islâmicas chamasse o genocídio dos armênios de genocídio. Não chamam porque não têm coragem, de medo de ofender os turcos e, além disso, quero dizer… eh… o milhão e meio de armênios massacrados em 1915, eh… eram, quero dizer… cristãos.

Aliás, vejam só, o mesmo acontece com George Bush, porque também não pode ofender os generais turcos de cujas bases aéreas os EUA precisam muito para continuar em guerra no Iraque.  E nem Israel jamais chamou o genocídio dos armênios de genocídio, de medo de perder o único aliado muçulmano que ainda lhe resta no Oriente Médio. Não é estranho? Quando acontece um verdadeiro genocídio – o genocídio dos armênios – ninguém usa a palavra. Quando não há, imediatamente a palavra aparece em todas as bocas.

Sim, sim, sei o que tantos estão tentando fazer: construir uma conexão direta entre Israel e a Alemanha de Hitler. Muitas entrevistas por rádio, essa semana, ao mesmo tempo, já condenam tais comparações. Como sentem-se, sobreviventes do holocausto, ao ser chamados de nazistas? Ora. Como alguém tem coragem de comparar o exército de Israel à Wehrmacht? Fácil: porque a comparação é ato de anti-semitismo.

Já, várias vezes, estive sob fogo do exército de Israel. Nessa condição, não estou convencido de que o exército de Israel seja “exército nazista”. De fato, não entendo por que bombardear as estradas do norte da França em 1940 foi considerado crime de guerra… e bombardear as estradas do sul do Líbano não foi considerado crime de guerra.

O massacre de mais de 1.700 palestinenses nos campos de refugiados de Sabra e Chatila – perpetrado pela Falange Libanesa aliada de Israel, e assistido por soldados de Israel que nada fizeram – pode ser mais bem comparado à II Guerra Mundial. O número de mortos estimado por Israel – vergonhosos 460 – só perde por nove para o massacre nazista da cidade tcheca de Lidice, em 1942, quando quase 300 mulheres e crianças foram mandadas para Ravensbrück (esse, sim, verdadeiro campo de concentração). Lidice foi destruída por Reinhard Heydrich, para vingar a morte de agentes aliados.

Os palestinenses foram chacinados, em Sabra e Chatila, depois que Ariel Sharon disse ao mundo – de fato, mentiu ao mundo – que um palestinense havia assassinado o falangista libanês Bashir Gemayel.

E foi o valente Professor Yeshayahu Leibovitz, da Hebrew University (e editor da Encyclopaedia Hebraica) quem escreveu que o massacre de Sabra e Chatila “foi feito por nós. Os Falangistas são mercenários pagos por nós, exatamente como os ucranianos e os croatas e os eslovacos foram mercenários de Hitler, que os organizou em exército e como soldados, para trabalharem para ele.

Exatamente do mesmo modo, nós, os israelenses, organizamos os assassinos libaneses para assassinar palestinenses”. Lição que foi saudada por Yosef Burg, então ministro do Interior e Assuntos Religiosos, com uma pergunta inolvidável: “Cristãos matam muçulmanos… E a culpa é dos judeus?!”

Há muito tempo enfureço-me contra quaisquer comparações que envolvam a II Guerra Mundial – seja na vertente Arafat-é-Hitler, já encenada por Menachem Begin, seja na vertente “os pacifistas-estão-pacificando-os-anos-30″, encenada recentemente por George Bush & Lord Blair de Kut al-Amara[2].

Os manifestantes pró-Palestina bem poderiam pensar duas vezes antes de pôr-se a falar sobre genocídio, porque o Grande Mufti de Jerusalém apertou a mão de Hitler e disse – em Berlin, dia 2/11/1943, exatamente – “Os alemães sabem como livrar-se de judeus. Definitivamente, conseguiram resolver o problema judeu.” O Grande Mufti, para quem não saiba, era palestinense. Repousa hoje, num túmulo escuro, aqui, a poucos quilômetros do meu apartamento em Beirute.

Mas, de fato, a razão mais importante pela qual o paralelo “Gaza-Genocídio” é perigoso é porque é um falso paralelo.

O 1,5 milhão de refugiados de Gaza são tratados com brutalidade terrível, mas não estão sendo mandados para câmaras de gás ou empurrados para marchas da morte.

Que o exército de Israel é uma horda, é, não há dúvida – e achei engraçado que, semana passada, um dos correspondentes regulares da revista Newsweek o tenha descrito como “esplêndido exército” –, mas isso não implica dizer que todos os soldados israelenses sejam criminosos de guerra.

E tudo faz crer que, sim, cometeram-se crimes de guerra em Gaza. Bombardear escolas da ONU é ato criminoso, que fere todos os protocolos da Cruz Vermelha Internacional. Não há atenuante possível para o assassinato de tantas mulheres e crianças.

Devo acrescentar que fui tomado por sincera emoção de simpatia pelo ministro do Exterior sírio o qual, essa semana, perguntou por que já se organizara em Haia um tribunal internacional inteiro para investigar a morte de um único homem (o ex-primeiro ministro do Líbano, Rafiq Hariri)… mas ainda não se organizara nenhum tribunal em Haia para julgar a morte de mais de 1.000 palestinenses.

Contudo, devo acrescentar que bem pode acontecer de algum tribunal de Haia apontar o dedo para a Síria… e será minha vez de perguntar por que não se organiza nenhum tribunal em Haia para julgar os sírios responsáveis pelo massacre de Hama, em 1982, quando milhares de civis foram mortos a tiro, por soldados das forças especiais de Rifaat al-Assad. O retro-referido Rifaat, sou obrigado a acrescentar, vive hoje em perfeita segurança, dentro da União Européia.

E que tal outro tribunal internacional em Haia, para julgar os soldados da artilharia de Israel que massacraram 106 civis – mais da metade dos quais crianças – na base da ONU em Qana, em 1996?

O xis da questão é a legislação internacional. O xis da questão é a punibilidade. O xis da questão é a administração da justiça – justiça sempre inalteravelmente mal distribuída e que os cidadãos palestinenses jamais receberam – e trata-se de levar bandidos a julgamento. Todos os bandidos, sejam os criminosos de guerra árabes sejam os criminosos de guerra israelenses, o bando todo.

E que ninguém diga que é impossível. É possível – o que ficou bem demonstrado no tribunal ioguslavo. Vários assassinos não foram condenados? Foram. A II Guerra Mundial nada tem a ver com nada disso.

[1] Campo de concentração de prisioneiros dos nazistas, na Baixa Saxônia. Sobre Belsen, ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Bergen-Belsen.

[2] Sobre Kut-al-Amara, ver http://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&q=Kut+al-Amara&meta=

07/01/2009 - 11:15h Proposta de França e Egito ganha força

Chaque jour, les bombardements cesseront pendant trois heures à Gaza.

EUA e Autoridade Palestina apoiam plano para pôr fim a ofensiva em Gaza

 

Nova York – O Estado SP

 


Os presidentes da França e do Egito, Nicolas Sarkozy e Hosni Mubarak, apresentaram ontem um plano para obter uma trégua imediata e encerrar o conflito entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza. O chanceler francês, Bernard Kouchner, disse ontem à noite durante reunião do Conselho de Segurança da ONU em Nova York que o plano levará as principais partes, incluindo a Autoridade Palestina, a adotar “todas as medidas” para encerrar o conflito.

A proposta, apresentada por Mubarak e Sarkozy durante uma entrevista coletiva em Sharm el-Sheikh, pede um cessar-fogo por um período limitado destinado a permitir o envio de ajuda humanitária a Gaza, um encontro urgente entre israelenses e palestinos para discutir meios de impedir novas ações militares e motivos para o conflito, incluindo o fim do bloqueio de Gaza. Também pede a retomada de diálogo sobre uma reconciliação entre o Hamas e a Autoridade Palestina, que perdeu o controle de Gaza para o grupo em meados de 2007.

“Deter a violência é a prioridade. O Conselho de Segurança – que a França passará a presidir em fevereiro – precisa apoiar e encorajar esse esforço promissor”, declarou Kouchner. “Estamos esperando a resposta israelense e temos esperança de que será positiva”, disse. A embaixadora israelense na ONU, Gabriela Shalev, disse que Israel está analisando “seriamente” a proposta.

O presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, e os EUA apoiaram imediatamente o plano Mubarak-Sarkozy. Abbas pediu ao CS que pressione por uma trégua e o levantamento do “sítio sufocante” a Gaza.

“Precisamos urgentemente concluir um cessar-fogo que perdure a traga real segurança”, disse a secretária americana de Estado, Condoleezza Rice, ao CS da ONU. “Nesse sentido, estamos satisfeitos e desejamos elogiar o presidente do Egito e seguir sua iniciativa”, disse.

À tarde, durante um encontro em Damasco com o presidente sírio, Bashar Assad, Sarkozy afirmou que um acordo de cessar-fogo em Gaza entre Israel e o Hamas “não está distante”. Sarkozy pediu à Síria – um dos principais aliados do Hamas – que pressione os líderes do grupo radical palestino a firmar uma trégua com Israel. “É preciso simplesmente que um dos atores envolvidos comece a encaminhar as coisas na direção certa”, afirmou.

O otimismo sobre um cessar-fogo foi compartilhado pelo ex-premiê britânico e enviado especial à região, Tony Blair. A violência pode ser “freada rapidamente”, garantiu Blair, que representa o chamado “Quarteto” – grupo de negociação do conflito palestino-israelense formado pela ONU, EUA, União Europeia e Rússia.

Em entrevista ao jornal Haaretz, o premiê de Israel , Ehud Olmert, garantiu que não tem interesse em prolongar a ofensiva em Gaza. “O quanto antes, melhor”, disse Olmert em relação ao fim da ação. “Há diferentes ideias para um arranjo diplomático e estou em discussão com vários líderes sobre elas.” Pela primeira vez após 11 dias de ataque, Israel estaria considerando as propostas de trégua, admitiram funcionários do governo israelense à Reuters.

AL-QAEDA SOLIDÁRIA

O número 2 da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, convocou os muçulmanos do mundo a atacar alvos israelenses e ocidentais como resposta à ação de Israel contra o Hamas em Gaza. “Acerte os interesses dos sionistas e dos cruzados em qualquer lugar e de qualquer modo que você conseguir”, disse Zawahiri em um site jihadista. “Este ataque é o presente do presidente eleito Obama a vocês (palestinos).”
REUTERS E AP

06/11/2008 - 10:25h Equilíbrio entre negros e brancos

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Mestiço com raízes em vários continentes, Obama enfrentou acusações sem negar sua origem

Gilles Lapouge* – O Estado SP

O 44º presidente dos Estados Unidos é negro. E o planeta inteiro, das choupanas do Quênia e das favelas do Senegal, até os círculos mais seletos de Paris, está maravilhado.

Os rostos que desfilaram pelas telas no mundo inteiro eram belos, com risos e soluços ao mesmo tempo. Eram dos negros de Chicago, do Harlem, encantados e incrédulos ao mesmo tempo. Às vezes, os olhos de uma velha senhora negra que parecia recém-chegar dos campos de algodão do Alabama perdiam-se naquele mar de gente, como se sua memória revivesse o sofrimento de seu povo, desde os tempos do pelourinho até o momento da chegada de um negro à Casa Branca.

A fisionomia de outros negros, aqueles de Dacar ou do Quênia, dos subúrbios agressivos de Paris ou Londres, narra uma outra história. Eles estão orgulhosos e radiantes, como se o acesso desse homem negro ao topo do país mais poderoso do mundo fosse uma “redenção”, abrindo a porta da História a povos que jamais foram “sujeitos da História, mas objetos, vítimas, espectadores passivos e martirizados da História”.

Mas o verdadeiro triunfo de Obama é que sua vitória foi também a dos latinos e dos brancos dos Estados Unidos. Obama evitou, com elegância, com a leveza de uma borboleta, todas as armadilhas. Mestiço, teve de manter um equilíbrio quase impossível entre dois precipícios: o de ser um mestiço renegando sua parte branca ou um mestiço rejeitando sua parte negra.

O exercício não era simples. No início, ele quase caiu: os líderes negros históricos não viram com bons olhos o jovem elegante, ágil como um felino, um intelectual chique, formado nas melhores universidades brancas. Não era nem mesmo um descendente de escravos. Além do mais, ainda pretendia se tornar o primeiro negro presidente dos EUA. Que arrogância! No começo da campanha, ao final de uma reunião, e sem saber que o microfone ainda estava ligado, o reverendo Jesse Jackson, um personagem valioso, mas um veterano do “black power” e do “black is beautiful”, perguntou: “De onde saiu esse sujeito? Vamos cortar os seus colhões.”

Mas não cortaram. Primeiro, por causa de sua virtuosidade. Obama ziguezagueou como se estivesse num esqui, com essa agilidade de felino, entre os obstáculos colocados no seu caminho. E se definiu não como mestiço, mas como negro. Ao mesmo tempo, soube guardar os laços com as duas margens do seu destino e estabelecer uma ponte entre as duas.

Obama é uma genealogia da espécie humana. Sua família vem de quatro continentes. Filho de pai queniano e muçulmano, educado na Indonésia, depois no Havaí, seus avós estavam um pouco por toda a parte. Ele representa, tão somente pelo seu nascimento, um tipo humano inédito, da modernidade.

O planeta entrou na era da globalização não só no campo da economia, mas sobretudo no plano das mentalidades, das culturas. E caminha na direção da aldeia planetária profetizada por McLuhan. Nessa aldeia global, Obama ocupa um posto avançado. Ao mesmo tempo, permite que seu país, tão preso na sua “brancura agressiva”, volte a ocupar seu lugar no coração da modernidade. Essas são verdades que Barack Obama soube fazer americanos e o mundo compreenderem. O momento crucial da sua campanha foi em março, quando foi atacado pelo campo adversário, tentando apresentá-lo como o “candidato contrário aos brancos” e chamando atenção para suas relações com o pastor Jeremiah Wright, conhecido por suas posições racistas.

O ataque foi terrível. Atingido no ponto mais vulnerável, Obama reagiu de imediato. Em 18 de março, pronuncia um discurso na Pensilvânia e aborda o tema da raça, que até então tinha cuidadosamente evitado.

Nesse dia, vimos que Obama era um grande intelectual e, sem dúvida, o melhor orador político da história dos EUA. Ele condenou o “bloqueio racial” que paralisa e corrompe o país (e o mundo), dividido entre a agressividade branca e o “comunitarismo” das minorias negras e outras. Teria sido arrancado, nesse dia, o sinistro ferrolho que parecia fechar para sempre a livre circulação entre a comunidade negra e as outras? Seis meses depois, os brancos expressaram seu apoio entusiasmado ao negro Obama.

O desempenho impecável de Obama no campo minado do racismo não diz respeito apenas aos EUA. Foi ao povo negro em sua totalidade, e além das fronteiras americanas, que ele dirigiu seu discurso de 18 de março. Nada será mais terrível do que uma falsa interpretação, pelos negros fora dos EUA, da ascensão de um negro à Casa Branca.

Um novo capítulo da História se inicia. Mas não vamos nos iludir: o caminho será difícil, repleto de ardis, armadilhas e minas, muitas vezes prestes a se afundar. Será preciso muita prudência e talvez de um pouco de genialidade para Obama e os Estados Unidos não caírem no abismo. O fantástico salto dado pelos Estados Unidos que, depois de oito anos de descrédito, bobagens e vergonha, que foram os dois mandatos de George W. Bush, coloca um negro na sua presidência e deixa a porta aberta para a esperança.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris

25/10/2008 - 17:59h O racismo e a crise na Europa

La prima manifestazione nazionale del Pd a Roma (Ansa)
manifestantes italianos contra o racismo e contra Berlusconi

“Segundo uma nova pesquisa do instituto americano Pew Research Centre, a rejeição a judeus e muçulmanos cresceu em quase todos os países da Europa, exceto Reino Unido. Na Espanha, campeão de anti-semitismo, 46% das pessoas admitem ter opinião negativa dos judeus e 52% dos muçulmanos, o dobro de 2005.
Outros países também apresentaram altas, inclusive na Alemanha, onde a rejeição aos muçulmanos chegou a 50%, e aos judeus a 25%.
Na Áustria opiniões como esses fortaleceram a extrema direita, que ganhou 29% dos votos nas eleições gerais de setembro. O significado político do resultado foi ofuscado pela morte de seu líder mais conhecido, Jörg Haider. Mas a mensagem das urnas foi de que um terço dos austríacos quer dar um aperto nos imigrantes.
Em muitos sentidos, tais sentimentos já moldam o discurso e a ação dos políticos europeus. Sob a Presidência da França, a União Européia aprovou na semana passada um pacto que endurece a política migratória do bloco.” (Fonte Folha de São Paulo)

06/04/2008 - 15:29h França: os vermes nazistas em ação

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Túmulos de franceses muçulmanos “mortos pela França”, foram profanados, não longe de Paris, em Notre Dame de Lorette. O repudio é generalizado o que no impede a corja nazista e antisemita de agir na calada da noite, com uma certa impunidade.