27/07/2012 - 09:48h Eleições locais com impacto nacional

Por Alberto Carlos Almeida | Para o Valor, de São Paulo

Eleições municipais são regidas por questões municipais. Todavia, é comum vermos discussões sobre o grau de nacionalização de uma eleição municipal. No momento, não são poucos os analistas que afirmam que a eleição em São Paulo será uma disputa nacionalizada. Afirmações dessa natureza desconsideram inteiramente o que leva o eleitor médio a escolher seu candidato.

Na grande maioria dos municípios brasileiros, agora em 2012 e também na eleição municipal passada, o principal problema que o eleitor deseja ver resolvido (se é que isso é possível) é o atendimento da saúde pública. A decisão do voto é bastante simples. O eleitor vai avaliar qual dos candidatos transmite maior credibilidade para melhorar a situação do atendimento de saúde.

Quando se coloca uma lupa na saúde pública brasileira, perguntando diretamente ao usuário o que é preciso melhorar, a resposta é clara e unânime: tempo de espera de consultas e exames. A verbalização dessa demanda vem associada à palavra “dignidade”. É muito comum que as pessoas esperem pelo menos três meses para serem recebidas por um médico especialista. Eu mesmo tive a oportunidade de constatar que o tempo de espera para uma consulta com um cardiologista ou oftalmologista em vários municípios brasileiros atingia a marca de nove meses.

No caso de uma consulta com um cardiologista, não são poucas as situações nas quais a longa espera resulta em morte. Com um oftalmologista, a longa espera pode resultar em cegueira ou na simples humilhação de, para aqueles que são atingidos pelo mal da vista cansada, passar quase um ano sem ter condições de ler. Depois da consulta, há uma nova e igualmente longa espera pelo exame. Todo esse processo pode levar, facilmente, mais de um ano. É exatamente por isso que as emergências dos hospitais públicos estão lotadas. Como as pessoas não conseguem ser recebidas por um médico em uma ou duas semanas, elas vão para as emergências, que têm que atender naquele mesmo dia.

É uma experiência antropológica, para dizer o melhor, conversar com alguém que esteja em uma fila de atendimento de um posto de saúde da rede pública. A grande maioria das pessoas, na maior parte dos municípios, está há muitas horas na fila, esperando por atendimento. Chegam de madrugada, antes de a unidade de saúde abrir, para que fiquem no início da fila. Chegar nesse horário não significa ser atendido antes da hora do almoço. A percepção do usuário, com razão, é de um serviço que o humilha, que o trata sem dignidade alguma.

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Há uma enorme proporção de prefeitos que são médicos. Disputar e vencer uma eleição municipal a partir da atividade médica é muito comum no Brasil. Por exemplo, na eleição de 2000 no segundo mais populoso município do Estado do Rio de Janeiro, São Gonçalo, o candidato vencedor, que era médico, teve um lema de campanha tão genial quanto simples: “Chame o doutor”. Não é preciso um lema tão eloquente para vencer. O médico que transmitir credibilidade na promessa de melhoria do tempo de espera para consultas e exames acaba tendo um bom desempenho eleitoral que muitas vezes é coroado com a vitória.

Não vai ser diferente em 2012. Eleições tão importantes quanto as de São Paulo, Belo Horizonte e Recife serão decididas por questões exclusivamente municipais. Saúde será a mais importante, acompanhada de outras questões, como pavimentação e saneamento. Há uma agenda local no Brasil que envolve também fazer com que todos os brasileiros vivam em ruas pavimentadas. O atendimento dessa demanda está em andamento.

Prometer resolver os maiores problemas do município e fazer isso com credibilidade é o que assegura a vitória eleitoral. O eleitor não é bobo, vota em quem resolver o problema dele, alguém que resolva um ou dois problemas, desde que sejam os principais, já está de bom tamanho. É preciso prometer com credibilidade e é agora que entram vários elementos importantíssimos da comunicação política. Um candidato do PT ou do PSDB tem mais credibilidade para prometer tais melhorias do que candidatos de partidos nanicos. O eleitor considera que estes não têm apoio político suficiente para cumprir o que prometem.

Um candidato que tenha uma boa articulação política com o governo estadual e federal também tem mais credibilidade para cumprir suas promessas do que alguém que seja de oposição a ambos. O eleitor acredita que a união dos três níveis de governo acaba resultando em mais recursos para o município. Um prefeito bem avaliado tem mais condições de dar credibilidade a suas propostas de melhorias para o futuro do que um prefeito mal avaliado. A lista de atributos para transmitir credibilidade é longa e as campanhas se utilizam dela da melhor maneira possível.

O resultado final das eleições em São Paulo, Belo Horizonte e Recife estará relacionado a tudo o que foi dito anteriormente. As três eleições, como qualquer eleição em qualquer município brasileiro, serão regidas pelos problemas mais imediatos que afetam o eleitor, serão eleições inteiramente locais. Contudo, os resultados terão impacto na política nacional.

O PT é o único partido que disputa as três eleições. Em cada uma delas enfrenta uma ambição política diferente. Em São Paulo, enfrenta a eterna candidatura a presidente de Serra, em Belo Horizonte enfrenta a candidatura de Aécio pelo PSDB e em Recife enfrenta Eduardo Campos do PSB e seus competentes passos rumo a uma disputa nacional em, pelo menos, 2018. Se o PT vencer nas três cidades, será o grande vitorioso de 2012, porque prejudicará esses três líderes políticos.

A outra situação extrema é a derrota dos candidatos petistas nas três cidades. Isso resultaria no fortalecimento do projeto conjunto de Serra, Kassab e Eduardo Campos e também da candidatura de Aécio pelo PSDB. Não é algo fora de cogitação a aliança entre Kassab e Eduardo Campos em 2018. Serra seria útil para os dois porque poderia ser candidato a presidente em 2014, ajudando a montar palanques fortes em todos os Estados, além de prejudicar as pretensões de Aécio como único candidato de oposição. Esse cenário é ruim para o PT porque aumenta a incerteza ao fortalecer os projetos não petistas em suas diferentes versões.

Entre os dois cenários extremos há uma miríade de variações. Vencendo somente em São Paulo, o PT acabaria de sepultar politicamente Serra e traria Kassab em definitivo para os braços de Dilma. Aécio ficaria como candidato único da oposição em 2014 e Eduardo Campos ficaria fortalecido para continuar tocando seu projeto presidencial de 2018. Vencendo somente em Belo Horizonte, o PT prejudicaria Aécio e fortaleceria a aliança Serra, Kassab, Eduardo Campos. Vencendo somente em Recife, travaria temporariamente o entusiasmo e a eficácia política da movimentação de Campos.

Há ainda as três possibilidades de duas vitórias do PT: São Paulo e Belo Horizonte, São Paulo e Recife ou Belo Horizonte e Recife. No primeiro caso, Kassab ficaria em definitivo próximo do PT e Aécio seria temporariamente prejudicado quanto às expectativas do mundo político acerca de sua efetividade como candidato de oposição. Temporariamente, porque em 2013 o principal líder tucano poderia se recuperar desse eventual resultado eleitoral, colocando-se com clareza como o principal projeto de oposição. Ou seja, a pressão sobre Aécio aumentaria no que tange a fazer oposição. Isso seria mais facilmente atendido por Aécio em função da crescente proximidade de 2014.

Caso o PT vença apenas em Recife e Belo Horizonte, o principal vencedor da eleição terá sido Serra. Opa, o pseudo-líder tucano terá pela frente uma campanha dura em vários aspectos, inclusive no que diz respeito aos concorrentes dentro de sua faixa eleitoral. O PT perder em São Paulo não significa necessariamente vitória de Serra. Chalita é um candidato bom de televisão, que pode surpreender. O simples fato de Celso Russomano estar colado em Serra nas pesquisas de intenção de voto mostra a dificuldade que Serra tem. Ainda assim, pode ocorrer a vitória isolada de Serra nas três cidades-chave desta eleição. Isso criaria uma situação politicamente esdrúxula: o prefeito da capital no mesmo PSDB do governador, mas ambos em campos políticos totalmente opostos. Serra aliado preferencial de Kassab, mas Kassab agindo para estar cada vez mais próximo do governo federal. Aécio com controle nacional do PSDB, mas Serra com uma máquina política formidável em suas mãos, para prejudicar no que for possível as pretensões de Aécio. É isso que ocorre quando figuras politicamente mortas acabam tendo uma sobrevida artificial.

Alberto Carlos Almeida, sociólogo e professor universitário, é autor de “A Cabeça do Brasileiro” e “O Dedo na Ferida: Menos Imposto, Mais Consumo”. E-mail: Alberto.almeida@institutoanalise.com

www.twitter.com/albertocalmeida

25/07/2012 - 09:23h Saúde é prioridade para os eleitores


Datafolha mede os temas que os eleitores querem que o próximo prefeito de São Paulo, Rio, BH, Recife, Curitiba e Porto Alegre deem prioridade

Por Raphael Di Cunto | VALOR

De São Paulo

O principal problema e a maior prioridade para o próximo prefeito na visão dos eleitores de seis capitais brasileiras é o sistema de saúde da cidade, mostra pesquisa do Instituto Datafolha realizada entre 19 e 20 de julho.

O problema é, de longe, o mais citado em Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo nesta campanha. Só rivaliza com outro tema em Curitiba, onde o prefeito Luciano Ducci (PSB), candidato à reeleição, tem a segurança como maior problema para 31% da população – próximos dos 37% que citaram saúde.

Entre as seis cidades pesquisadas, aquela em que os entrevistados dão maior prioridade à melhoria na rede de hospitais e postos de atendimento é o Rio, do prefeito e também candidato à reeleição Eduardo Paes (PMDB). Favorito na disputa, o pemedebista, que já chamou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha (PT), de “incompetente” devido ao resultado de uma avaliação da Pasta sobre a eficiência do Sistema Único de Saúde (SUS) que deu ao Rio a menor nota entre as capitais, vê 54% dos eleitores colocarem a área como prioridade.

Como é a primeira vez que o Datafolha faz o levantamento das prioridades e problemas na visão dos eleitores de seis capitais, não é possível comparar com anos anteriores. O percentual de moradores preocupados com a Saúde, porém, aumentou nas duas cidades que mediram este índice: São Paulo e Recife.

Em novembro de 2007, 45% dos recifenses diziam que a falta de segurança e criminalidade eram os principais problema da cidade, que era a terceira capital mais violenta do país. Saúde, na época, era apenas o terceiro item mais lembrado, com 6% das respostas, atrás de saneamento básico, que tinha 11%.

A cinco meses do fim da gestão do prefeito João da Costa (PT), o índice mudou. Agora, os moradores da capital pernambucana acreditam que a saúde é o maior problema, lembrado por 19% dos recifenses. A violência ficou com 11% das citações, em quarto lugar, atrás de calçamento (16%) e saneamento básico (14%).

Situação semelhante ocorreu com os paulistas. Em agosto de 2007, a preocupação com saúde rivalizava com a falta de segurança – cada uma era citado por 16% dos eleitores como maior problema. Desde então, a cidade registrou um aumento no número de moradores preocupados com a rede de hospitais e postos de saúde, que chegou a 29% na pesquisa do fim de semana. A violência manteve-se estável como o principal problema para 14% dos paulistanos.

O resultado pode mostrar uma insatisfação não apenas com a rede pública, mas também com os hospitais privados. Na capital paulista, o número de conveniados a planos de saúde cresceu 13% desde 2009, enquanto a rede de atendimento privado diminuiu no período com o fechamento de oito hospitais. Na avaliação dos eleitores, seria prioridade para o novo prefeito, então, dar incentivos ou estímulos à instalação de novas unidades.

12/07/2012 - 09:11h Disputa se acirra na capital do pré-sal

Por Fernanda Pires | Para o Valor, de Santos

Santos, no litoral de São Paulo, vive nova onda de desenvolvimento econômico. Alçada à capital futura do pré-sal e sede do maior porto da América Latina, o município tem pela frente seu maior desafio na década: capacitar a população para acessar a riqueza.

Trata-se da chance de redenção da cidade com seu povo, evitando o que ocorreu na década de 90. A privatização de parte do polo siderúrgico em Cubatão e dos serviços portuários extinguiu cerca de 20 mil postos de trabalho. Em poucos meses, a cidade ganhou uma massa de desempregados equivalente a 23% da população da época, conforme números do Núcleo de Pesquisas e Estudos Socioeconômicos (Nese) da Universidade Santa Cecília. Em março deste ano, o índice fechou em 10,1%.

Será essa a pedra de toque das eleições de outubro, que promete ser uma das mais disputadas da história da cidade. São nove candidatos, atrás somente da eleição de 1984, que teve 11 postulantes ao Palácio José Bonifácio, sede do governo que tem o nome do patrono da Independência, nascido na cidade.

“É preciso compartilhar essa riqueza com o cidadão. O maior desafio é a qualificação”, afirma o candidato Paulo Alexandre Barbosa (PSDB), que lidera a última pesquisa realizada na cidade até o fechamento desta edição (antes da oficialização das candidaturas). Ele credita na sua conta dois feitos: a transferência do curso de engenharia de petróleo da Universidade de São Paulo (USP) para Santos, já em funcionamento com dez vagas; e uma nova Faculdade de Tecnologia (Fatec) com cursos de petróleo e gás, ainda inativa. E promete que o Via Rápida Emprego, programa estadual de qualificação, atenderá mais de 5 mil pessoas quando ficar pronto, na zona noroeste da cidade.

Mas os problemas vão além. Os empreendedores que poderiam aproveitar as oportunidades da cadeia do pré-sal não têm aderência a esse mercado. Até o ano passado, somente 5% das compras corriqueiras da Petrobras para a Bacia de Santos e Refinaria Presidente Bernardes (em Cubatão) – avaliadas em R$ 200 milhões anuais – eram oriundas de empresas da região.

De acordo com o Sebrae-SP, 85,2% dos empresários da região têm interesse em fornecer bens e serviços para a cadeia de petróleo e gás. Apenas 14%, contudo, buscam informações sobre como fazê-lo. O levantamento foi feito com 600 micro e pequenas empresas das nove cidades que compõem a Baixada Santista (Santos, Guarujá, São Vicente, Cubatão, Praia Grande, Mongaguá, Itanhaém, Peruíbe e Bertioga) com potencial de fornecimento.

“Avalio que uma geração foi perdida. Até hoje ainda não temos este preparo. Isso significa menos postos de trabalho e menos arrecadação. É preciso corrigir este cenário, com urgência, fazendo do poder público um indutor do desenvolvimento de Santos e da nossa região metropolitana”, afirma a ex-prefeita Telma de Souza (PT).

Concorrendo pela sexta vez ao cargo (que ocupou de 1989 a 1992), ela foi alvo de deboche pelo então adversário Beto Mansur (PP) nas eleições de 2000, quando disse que havia petróleo na Bacia de Santos. “Fui desqualificada injustamente e perdi a eleição. Não exclusivamente, mas principalmente por causa disso. O resultado está aí: o pré-sal é uma realidade e nós não temos jovens suficientemente capacitados para ocupar os principais postos de trabalho que estão sendo gerados”.

Mansur, também concorrendo, recusa o mea culpa. “Eu disse que não ia ter petróleo em Santos e não tem. O que existe é a escolha de Santos para ser o centro logístico, a base desse pré-sal todo, que ainda levará tempo para ser prospectado e produzido”. E engrossa o coro da capacitação. “O grande mote é procurar integrar a sociedade que vive na zona noroeste, nos morros, para usufruir dessa riqueza”.

Hoje, o pré-sal está em fase inicial de exploração. “Os resultados são coisa para dez anos”, avalia Alcindo Gonçalves, do Instituto de Pesquisas A Tribuna (IPAT).

Daí a percepção de que, até agora, a exploração e produção nas camadas mais profundas da Bacia de Santos lograram mais ônus do que bônus ao cidadão. A começar pelo boom imobiliário e pelo aumento do custo de vida verificado na região. O Índice de Preço do Consumidor da Cidade de Santos (IPC-Nese) apresentou inflação de 3,15% neste ano até junho. No mesmo período, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede o efeito dos preços sobre o orçamento das famílias brasileiras, apontou alta menor, de 2,24%. Em 2011, a mesma coisa. O custo de vida em Santos aumentou 7,04% contra alta de 5,97% do IPCA. O coordenador de pesquisas do Nese, Jorge Ferreira, avalia que em 2011 houve recuperação de alguns indicativos, como aluguéis.

“É controversa essa avaliação de que o custo de vida é caro em Santos. O que é caro é o preço do imóvel. Como a cidade é uma ilha e não tem para onde expandir, a tendência é que o metro quadrado se valorize a cada dia”, afirma Ferreira.

Sérgio Aquino (PMDB), candidato da situação, avalia que o atual momento é – mais uma vez – uma oportunidade resultante da posição estratégica de Santos, facilitada pelo estuário. “A decisão da Petrobras de instalar a sede em Santos foi em função da experiência da cidade com a atividade logística. A Bacia precisará de apoio logístico entre terra e mar e as plataformas ficam a 400 km da costa, não é pouca coisa”. Aquino avalia que reside aí a grande oportunidade econômica e de geração de empregos qualificados.

De olho no futuro, a Prefeitura gravou na revisão do plano diretor uma área para criação de um parque tecnológico. São pouco mais de 3 milhões de metros quadrados a serem destinados à instalação de empresas de produção de ciência e tecnologia. Na mesma revisão, duplicou a região apta a receber empreendimentos portuários e retroportuários na área continental.

Atualmente a Petrobras estuda como desenvolver sua base logística no porto de Santos. Junto com a de Itaguaí (RJ), a unidade alimentará as plataformas da Bacia em alto-mar.

Fala-se em investimentos nos próximos dez anos de R$ 200 bilhões para a região em razão do binômio petróleo-porto. “Hoje ainda não é possível mensurar o retorno efetivo deste processo na massa salarial, na geração de empregos, inclusive em função do cenário econômico internacional e das restrições de ordem ambiental”, afirma Rodolfo Amaral, da RAmaral & Associados.

De qualquer forma, não se deve esperar, para Santos, ampliação significativa na receita de royalties, que hoje está em torno de R$ 2,5 milhões anuais, decorrente do corte do subsolo por dutos e do terminal da Petrobras. Grande parte dos volumes de óleo do pré-sal de Santos deverá ser escoada por refinarias em outros estados, especialmente no Nordeste.

Onde a cidade tem mais ganhar é na arrecadação de impostos advindos da chegada de empresas. Multinacionais como Halliburton, Modec, Schlumberger, para citar algumas, inauguraram recentemente escritórios comerciais para ficar perto do raio de atuação da petrolífera.

De investimento concreto em andamento em solo santista existe a construção da sede da Petrobras para a Bacia de Santos, que recebe este nome mas vai de Santa Catarina ao Rio de Janeiro. O investimento é de R$ 380 milhões e compreende um complexo de três torres com capacidade para mais de 6 mil funcionários a ser entregue até 2018. Elas serão erguidas em fases – apenas as obras da primeira já começaram e devem terminar no próximo ano.

Hoje, o porto de Santos e as atividades correlatas (despacho aduaneiro, agência de navegação, entre outros) ainda são a maior fonte de arrecadação municipal, respondendo por quase 62% de toda a receita do Imposto Sobre Serviços (ISS). Em 2011, o ISS cresceu 21,6%, chegando a R$ 301,5 milhões, o equivalente a 46,4% das receitas tributárias.

A ampliação da capacidade de movimentação de contêineres até o fim de 2013 deverá ter impacto mais direto tanto na arrecadação de impostos quando na geração de empregos. Juntos, os novos terminais da BTP e Embraport quase duplicarão a atual oferta de contêineres do porto. Com alto grau de automação no embarque e desembarque de cargas, as empresas buscam mão de obra especializada.

Fábio Nunes (PSB), o professor Fabião, defende o que chama de visão ‘holística’ do desenvolvimento. Forjado no bojo da militância ambiental, aderiu ao governo atual, de João Paulo Papa (PMDB), para ocupar a cadeira de Meio Ambiente. “Costumo dizer que fui gerador de conflito, hoje sou gestor”, afirma. “A cidade está se preparando para atacar o potencial dessa cadeia do pré-sal. O desafio é ter arranjos produtivos locais e economia inclusiva”.

O vencedor das eleições em Santos administrará orçamento de R$ 1,5 bilhão; PIB de R$ 22,5 bilhões (a 7ª economia do Estado); e terá a tarefa de integrar a zona leste, mais rica, e a zona noroeste e morros, mais pobre, onde moram 100 mil habitantes – quase 24% da população.

“Hoje existem duas cidades totalmente opostas. Mais de 7.500 famílias vivem em condições sub-humanas de habitação, com menos de três salários”, aponta Barbosa.

O novo prefeito tem de efetivar o programa da prefeitura que conta com recursos das três esferas da federação para macrodrenagem, habitação e infraestrutura, diz Fábio Nunes. Ao todo, serão investidos R$ 549 milhões entre 2011 e 2015

“Não podemos fazer um centro de excelência financeira e técnica em detrimento de outras cidades”, diz Telma. Segundo ela, há problemas comuns de educação, saúde e mobilidade urbana.

Quarenta e dois por cento dos moradores apontam que a saúde deve ser prioridade do próximo prefeito. Santos tem hoje 1.915 leitos hospitalares, média de 4,5 leitos para cada mil habitantes. É mais do que recomenda o Ministério da Saúde, que estabelece a relação mínima ideal de 2,5 a 3 leitos para cada mil habitantes. Mas Santos recebe o fluxo de moradores das cidades vizinhas, o que joga para baixo essa relação.

O dispêndio global do município para o setor, em 2010, foi de R$ 261,6 milhões, dos quais R$ 169,5 milhões com recursos próprios. A legislação impõe investimento mínimo em saúde de 15%, mas Santos cumpre um índice de 18,05%. O grande desafio do setor, em 2013, será a manutenção do novo Hospital dos Estivadores, recém-adquirido pela Prefeitura e em fase de aparelhamento para entrar em funcionamento. “A maior parte dos problemas é metropolitana, então as soluções têm de ser metropolitanas”, afirma Barbosa.

Liderança de tucano deve unir rivais no segundo turno

De Santos

Esta será uma eleição atípica, avalia o sócio da Enfoque Comunicação, Fernando de Maria dos Santos. Ao aparecer em primeiro lugar nas intenções de votos, Paulo Alexandre Barbosa (PSDB) tende a assumir uma polarização contra o restante dos candidatos. Unindo num eventual segundo turno, por exemplo, os outrora arquirrivais Beto Mansur (PP) e Telma de Souza (PT), cujos partidos são aliados em âmbito federal.

“Pela primeira vez desde que se candidata Telma não está na frente. É um fato novo”, afirma o consultor. Mas pondera. “Deve se levar em conta que a pesquisa foi feita uma semana após a ida do governador Geraldo Alckmin a Santos”. Na ocasião, Alckmin anunciou uma série de investimentos para a região e a figura do tucano foi muito exposta. O último cargo de Barbosa no Executivo foi como secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia, um dos maiores orçamentos do Estado.

O fato novo, porém, é a entrada de Sérgio Aquino (PMDB) lastreada pelo prefeito João Paulo Papa, cujo governo tem mais de 70% de aprovação popular.

Não foi à toa que Papa indicou Aquino como sucessor. Neófito em política partidária, o ex-secretário de Assuntos Portuários e Marítimos fez sua história na atividade portuária. Foi escolhido para assumir a pasta criada em 2005 por, entre outros, conseguir transitar com facilidade entre trabalhadores e empresários, mediando situações complicadas, especialmente em decorrência dos efeitos da Lei dos Portos. Promulgada em 1993, a nova legislação determinou a privatização dos serviços de operação de cargas e quebrou o monopólio dos sindicatos na escalação do trabalho, que passou a ser concentrada em um órgão gestor. Os portuários perderam postos de trabalho e poder de barganha frente ao capital. E tinham, agora, de se modernizar para funções cada vez mais automatizadas nos terminais.

Para capacitá-los, Aquino ajudou a tirar do papel o Centro de Excelência Portuária (Cenep) Ainda, o modelo de integração porto-cidade desenvolvido pelo município foi adotado pelo governo federal como parâmetro de revitalização, no Decreto 6.620/08. Seu maior desafio será convencer o cidadão de que consegue replicar nas áreas mais caras, como saúde e educação, a eficiência que desempenhou no setor portuário.

Mansur e Telma têm os maiores índices de rejeição do eleitorado, o que pode ser em parte explicado por já terem sido prefeitos. Mas a candidata do PT tem um eleitorado fiel. “Ela é mais forte do que o PT em Santos”, afirma Fernando. O desafio é avançar para além dos 30% de intenção numa disputa que, com nove candidatos, tende a pulverizar votos. Nesse contexto, Mansur pode ser o fiel da balança na decisão em um segundo turno.

Nos bastidores, comenta-se que a candidatura do pepista tem como objetivo final capturar votos para 2014, quando ele tentaria se reeleger deputado para não perder o foro privilegiado. Mansur é réu em duas ações penais no Supremo Tribunal Federal. Em uma delas é acusado de ter mantido trabalhadores em condição análoga à de escravo em fazenda no interior de Goiás. Em outra, o objeto é crime de responsabilidade quando era prefeito, por dispensa de licitação. O deputado nega a tese. “Isso é besteira. Vou entrar na disputa e ganhar a eleição em Santos”.

Além de Barbosa, Telma, Mansur, Aquino, Fabião, Jama e Eneida, oficializaram candidatura Luiz Xavier (PSTU) e Nelson Rodrigues (PSL). (FP)

Cidade tornou-se o 3ª mercado imobiliário de SP

Para o Valor, de Santos

Um dos principais temas da disputa é o modelo de urbanização escolhido pelo atual governo, que não criou formas de fixar o cidadão na cidade diante do boom imobiliário.

Atraídas pelo anúncio da sede da Petrobras na região, uma enxurrada de construtoras desembarcou em Santos nos últimos anos. Com dinheiro em mão depois de abrirem capital, as empresas apostaram suas fichas na cidade que tem um dos maiores níveis de poupança per capita do país. Hoje Santos é a terceira cidade em lançamentos imobiliários no Estado. Nos últimos sete anos 84 novos empreendimentos foram construídos; 86 estão em processo de aprovação na Prefeitura; e 132 projetos foram aprovados para execução de obra.

O problema é que a pouca oferta de terrenos (Santos é uma ilha) aliada ao alto custo da fundação do solo ajudaram a turbinar o preço do metro quadrado. Segundo levantamento do Secovi-SP (sindicato da habitação), o preço médio do metro quadrado de um apartamento de um dormitório saltou 139,6% entre agosto de 2007 e abril deste ano. O valor mais alto da categoria chegou a R$ 15.736,00 o metro quadrado.

No caso dos de dois quartos, o valor médio dobrou. Já a valorização média dos apartamentos de três e quatro dormitórios foi de 77,1% e 76%, respectivamente.

Sem área disponível, as construtoras passaram a focar – primeiramente – em lançamentos de alto padrão, acima de R$ 500 mil. O novo cenário obrigou o santista menos abastado a morar nas cidades vizinhas, conforme mostrou o Valor (16/06/2011). O que seria natural em uma região metropolitana – se essa região tivesse mobilidade interurbana, já que as pessoas moram fora mas continuam a trabalhar em Santos. Hoje, são 251 mil veículos (incluindo motos e carros) emplacados na cidade, o que dá uma das maiores médias por habitante do país: 1,6 pessoa por máquina.

Somente agora, com o estoque elevado de apartamentos de alto padrão, o mercado está ampliando a oferta de unidades na faixa abaixo de R$ 400 mil. “Fico pensando se o setor imobiliário não passou um pouco à frente do pré-sal”, disse Celso Petrucci, economista-chefe do Secovi em evento realizado neste ano.

O atual modelo de ocupação urbana é resultado do plano de uso e ocupação do solo aprovado na gestão de Beto Mansur (PP), no fim dos anos 90. “Ampliamos o gabarito das construções, o que acabou gerando esse boom imobiliário. Com 39 km quadrados, Santos só tem como crescer para cima”, afirma. O modelo foi praticamente mantido na revisão do ano passado. “Precisamos revegetar a cidade, recuperar áreas impermeabilizadas para equilibrar esse processo de verticalização”, afirma Fábio Nunes (PSB).

Paulo Alexandre Barbosa (PSDB) afirma que, se eleito, encaminhará proposta de mudança da lei, criando compensações para fixar o cidadão. “Hoje Santos não tem lançamentos abaixo de R$ 130 mil”, pontua. Apesar de ter uma das maiores médias do país de depósito em poupança por habitante (de R$ 7.642,06 em abril, segundo o Banco Central, 43% acima da média da capital São Paulo), Santos tem uma massa salarial menor que R$ 1.500,00. (FP)

06/12/2008 - 09:40h Kassab encerra 1º mandato com 56% de aprovação, segundo Datafolha

Resultado é só 1 ponto percentual abaixo do de Maluf, o melhor já registrado por um prefeito ao deixar o governo, diz Datafolha

O prefeito com pior avaliação ao deixar administração foi, segundo o Datafolha, Celso Pitta, com 81% de reprovação

Luiz Carlos Murauskas/Folha Imagem

O prefeito Gilberto Kassab posa para fotos no viaduto do Chá

EVANDRO SPINELLI – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

Um mês após a reeleição para prefeito de São Paulo, a aprovação à gestão de Gilberto Kassab (DEM) atinge 56% na última pesquisa Datafolha do ano.
É um índice positivo, pois representa uma estabilidade em relação ao que ele vinha apresentando na campanha eleitoral, mas fica um ponto percentual abaixo do melhor índice registrado por um prefeito ao deixar o governo: Paulo Maluf (PP), em 1996.
Para o Datafolha, a aprovação de ambos está em empate técnico, mas Kassab tem maior rejeição (17% contra 11% de Maluf), o que desempata o jogo em favor do ex-prefeito.
Maluf disputou a prefeitura e foi o quarto colocado na eleição, com 6% dos votos. Já Kassab tornou-se o primeiro prefeito reeleito da história da cidade, com 34% no primeiro turno e 61% no segundo.
O Datafolha completa 25 anos em 2008 e mede a avaliação dos governos municipais desde a volta da eleição direta para prefeito da capital, em 1985. O primeiro avaliado foi Jânio Quadros, prefeito de 1986 a 1988, que deixou o governo com 30% de aprovação.
O pior prefeito desse período, segundo o Datafolha, foi Celso Pitta, que deixou o governo em 2000 com 81% de reprovação e aprovação de apenas 4% dos eleitores.

Estabilidade
A avaliação da gestão Kassab se estabilizou no mesmo patamar do segundo turno da campanha eleitoral. O prefeito fechou a eleição com 59% de aprovação à sua gestão e 15% de rejeição. Chegou agora a 56% e 17%, respectivamente.
Nos dois casos, há uma variação dentro da margem de erro de dois pontos percentuais para cima ou para baixo. O levantamento foi feito entre os dias 25 e 28 de novembro com 1.103 eleitores da capital.
Kassab tinha 49% de aprovação na semana que antecedeu o primeiro turno, no qual ele surpreendeu e apareceu na frente da então favorita Marta Suplicy (PT). Começou o segundo turno com 61% de ótimo ou bom, o maior índice registrado em todo o seu governo, e registrou 59% nas duas outras pesquisas anteriores à eleição.
A nota média do governo também apresenta estabilidade. Kassab tinha nota 6,6 logo após o primeiro turno, manteve a nota na pesquisa seguinte e fechou a campanha com 6,5. Agora, chega a 6,4.
Doze por cento dos entrevistados deram nota dez ao prefeito e 8% disseram que ele merece nota zero.
Para Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha, o resultado é positivo para Kassab. Segundo ele, terminada a campanha há uma tendência natural de que o prefeito tenha queda em sua avaliação devido ao fim da exposição de mídia. Com Kassab não foi assim.
“Kassab foi o grande personagem da eleição. Ele tinha o maior tempo de TV e muita mídia. É comum a avaliação dos prefeitos caírem depois da eleição, mas Kassab conseguiu manter, o que é positivo para ele”, afirmou Paulino.

Mulheres
A estabilidade, no entanto, não vale para todas as camadas sociais. A reprovação do governo subiu seis pontos percentuais entre as mulheres (de 13% para 19%) e dez pontos na faixa etária de 35 a 44 anos (passou de 14% para 24%), para citar apenas dois exemplos.
A aprovação também caiu em algumas áreas, como entre os eleitores de nível superior (cinco pontos percentuais, de 68% para 63%) e aqueles com renda de 5 a 10 salários mínimos (dez pontos, de 65% para 55%).

05/12/2008 - 10:45h Relembrar II

O Metrô e a cidade

TENDÊNCIAS/DEBATES

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

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JORGE WILHEIM


Não se pode imaginar que um transporte de massa tão vital para os cidadãos quanto o metrô seja implantado sem diálogo


APÓS O período eleitoral, em que não houve espaço para esclarecimentos suficientes sobre propostas para a rede de metrô em São Paulo, volto ao tema, urgente diante do grau de congestionamento de tráfego que prejudica todos.
Para a circulação de pessoas, há dois paradigmas a considerar: a) transporte é um sistema, do qual participam o pedestre, a bicicleta, o automóvel, o veículo coletivo, o trem -donde a importância de considerar em conjunto as vias por que cada um transita e os estacionamentos em estações e terminais; b) o desenho do transporte de massa deve constituir uma rede, uma malha em que se busca maximizar o número de nós, isto é, das estações de transbordo entre uma linha e outra, pois somente assim cada um escolherá seu itinerário e o total de usuários se distribuirá, diluindo a concentração por linha que ocorre quando a rede ainda não se encontra estabelecida.
A rede de metrô, um verdadeiro reticulado, deveria cobrir toda a cidade e estender-se para municípios vizinhos: Guarulhos, São Bernardo, Taboão, Osasco. Esse desenho tem sido debatido pelos técnicos do Metrô, ocorrendo por vezes legítima divisão de opiniões.
Assim é que, enquanto um grupo, que prevaleceu quando o engenheiro Claudio de Senna era secretário estadual de Transportes Metropolitanos, defendia uma rede aberta, como a acima descrita, denominada Pitu – 2020, outros técnicos, em data mais recente, defendem a implantação de uma rede mais concentrada, no centro expandido, não chegando a constituir claramente uma rede nem tendo um alcance metropolitano, à qual se deu o nome de rede essencial, parcialmente coincidente com um Pitu – 2025.
Essa era, e é, a divergência entre as teses enunciadas durante a recente campanha eleitoral. Enquanto Marta Suplicy defendia a rede aberta, de caráter metropolitano, Kassab a acusava de ter “inventado” uma malha diferente da que se estava implantando, defendendo implicitamente outra tese, a da rede essencial.
Há, contudo, algumas modificações em ambos os esquemas gerados pelos técnicos do Metrô. A candidata Marta propunha algumas extensões a fim de alcançar Freguesia do Ó, Cerro Corá, Taboão, Vila Maria e Sapopemba a partir de linhas existentes ou em construção. Enquanto à rede essencial o governo do Estado está acrescentando uma linha nova, ligando Freguesia do Ó à estação São Joaquim (da linha norte-sul), paralela e próxima a duas linhas existentes (a leste-oeste e a que passa pela av. Paulista).
Uma divergência técnica seria normal, porém, conviria que o debate fosse ampliado, incluindo de algum modo a opinião dos usuários, além de ser imprescindível o diálogo entre a secretaria estadual e o Metrô com os responsáveis pela cidade de São Paulo e pelos municípios contíguos.
Não se pode imaginar que um transporte de massa tão vital para os cidadãos seja implantado sem diálogo com a prefeitura, sem contemplar o Plano Diretor, as operações urbanas, a política de uso do solo, o planejamento, as ações estratégicas previstas e sem debate público.
Para definir o desenho final das linhas, além do conceito de rede, deve-se considerar tanto a população que demanda o transporte quanto a força de indução que o metrô acarreta, adensando e diversificando o uso do solo.
Por isso, uma pesquisa de origem e destino, retratando as demandas atuais, não é suficiente para a determinação da malha. Essa pesquisa resulta numa redundância das tendências atuais, recaindo na articulação no centro e em sua rótula, e exclui a função indutora do metrô, bem conhecida e valorizada pelo setor imobiliário.
Embora com décadas de atraso, é urgente definir o desenho final da rede de metrô. Essa definição terá que resultar de franco e transparente debate técnico entre especialistas do Metrô e urbanistas das prefeituras pertinentes e terá que ser convalidada por uma consulta aos usuários.
Finalmente, em nível político-administrativo, o desenho da malha final e o resultante cronograma de elaboração de projetos, assim como de investimentos, deverão constituir a pauta de um acordo entre os três níveis de governo, cada um assumindo suas responsabilidades, à semelhança da divisão de encargos financeiros proposta pela então ministra do Turismo destinada a fazer face ao aumento de turistas durante o ano de 2014, ano da Copa.
O metrô de São Paulo é tão vital para a cidade e para o país que nenhum governante se furtará de buscar tal acordo, ansiosamente aguardado pela população metropolitana.

JORGE , ,  ,, 80, é arquiteto e urbanista. Foi secretário de Planejamento Urbano do município de São Paulo (gestão Marta Suplicy).

05/12/2008 - 10:15h Relembrar I

Secretário de Serra rechaça trajeto de Marta para metrô

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Para titular dos Transportes Metropolitanos, proposta “é um risco no mapa, que não tem base em estudos”

Clarissa Oliveira e Silvia Amorim – O Estado de São Paulo

O governo estadual descartou ontem qualquer possibilidade de adotar o trajeto proposto por Marta Suplicy (PT) para expandir o metrô, apresentado pela candidata à prefeitura junto com a promessa de investir na rede se eleita. O secretário dos Transportes Metropolitanos do Estado, José Luiz Portella, classificou a idéia de Marta de “inadequada e insuficiente”.

“É um risco num mapa, que não leva em consideração nenhum tipo de estudo”, afirmou Portella. “Nós já temos nosso projeto, que considera uma série de estudos fundamentais, como os de desapropriação.”

O time de Marta começou a distribuir novos panfletos pela cidade, em que a petista reitera a promessa de aplicar R$ 490 milhões ao ano no metrô, por quatro anos. O material traz um mapa com proposta própria do trajeto a ser criado, que contraria o plano de expansão da Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô). A principal diferença está na futura linha 6. O Metrô quer que ela vá da Freguesia do Ó à atual estação São Joaquim da linha 1. Marta propõe um percurso da Vila Nova Cachoeirinha à estação Conceição da linha 1.

Segundo Portella, a proposta de Marta – que considera ainda mais R$ 490 milhões ao ano do governo federal e outros R$ 980 milhões do Estado – é modesta diante das necessidades da rede. O Estado, segundo ele, planeja investimentos de R$ 19 bilhões em metrô e trem, para criar uma rede integrada com o mesmo padrão de qualidade. Somente no metrô, seriam mais de R$ 11 bilhões.

O plano de Marta também voltou a alimentar ontem a briga da petista com o rival Geraldo Alckmin (PSDB). O tucano disse que proposta da adversária “não pára em pé”. “Esse projeto que é colocado na televisão não pára em pé, não tem o menor sentido”, reagiu. Marta respondeu com ironia. “É o dele que pára de pé?”

Ontem, a petista admitiu que quer rever o trajeto. Questionada se sua disposição de investir só será levada adiante se sua proposta for acatada, ela disse apenas que se comprometeu a aplicar o dinheiro e que vai discutir após a eleição.

Apesar das críticas, a proposta de Marta foi bem recebida entre especialistas. Para o engenheiro Luiz Célio Bottura e o consultor Horácio Figueira, o trajeto ajudaria a desafogar a linha 1, que hoje corta a cidade de norte a sul. “A linha norte-sul está prestes a implodir”, disse Figueira. Dizendo se tratar de uma análise técnica, Bottura destacou que a proposta de Marta dá uma distribuição melhor à rede. “Ela é muito mais adequada”, afirmou.

19/11/2008 - 13:44h Esquerda: uma armação limitada

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Rosângela Bittar – VALOR

Numa rápida conversa, ontem, em seu gabinete, minutos antes de discursar em sessão solene de registro dos 100 anos da morte do escritor Machado de Assis, o que fez sem preparação prévia pois é assunto que conhece profundamente, o deputado Aldo Rebelo, um dos principais políticos do bloco de esquerda que integra a aliança do governo Lula, traçou o perfil da ação que deve orientar os passos do seu grupo a caminho da sucessão presidencial. Ou seja, como serão ensaiados os passos de um bom número de partidos que já vinham marcando seus sinais particulares, desde três anos atrás, tendo como último fato as eleições municipais de 2008.

Estas eleições não significaram, ao contrário de avaliações que podem ter se precipitado a partir da experiência em São Paulo, uma rasteira para o bloquinho, em geral, e para Aldo, em particular. Ele vinha construindo uma candidatura a prefeito da capital, a partir de uma concepção de fortalecimento político da esquerda e do bloco que reúne PCdoB, PSB, PDT e PRB. Teve que recuar, por instâncias do presidente Lula, para uma candidatura a vice-prefeito, na chapa derrotada de Marta Suplicy, numa campanha em que acabou aparecendo pouco e os partidos que o apoiaram menos ainda. Ele próprio não achava esta a melhor solução, mas as quatro legendas a que estava ligado, na pré-candidatura a prefeito, evoluíram para a composição com o PT, que acabara isolado depois de recusar estas históricas parcerias.

Fora São Paulo, e até mesmo neste caso específico, porque permaneceu unido e não se fragmentou como outros partidos, o bloquinho, segundo a análise de Aldo, saiu-se muito bem. As eleições municipais levaram estes partidos a serem o segundo grupo em número de vereadores, só perdendo para o PMDB, mesmo assim por pouco. O bloco conseguiu ainda cerca de 15 milhões de votos, mais de 700 prefeitos, e prestígio em regiões inteiras, como no Nordeste.

“A eleição para prefeito é necessariamente fragmentária, ela impõe um movimento de dispersão”, afirma Aldo. E foi, ao seu ver, o que aconteceu, com praticamente todos os partidos. O PMDB saiu forte da disputa, se for considerado isoladamente, mas viu naufragar, inclusive, a principal aposta política que fez pós- 2006, que foi a aliança de centro-esquerda com o PT, que resultou na eleição de um petista para a presidência da Câmara, em troca do revezamento com os pemedebistas, ano que vem. Esta aposta incluía a união interna do PMDB para ampliação dos seus espaços no governo Lula. Tudo combinado para dar frutos em 2008, mas o fracasso da empreitada foi total, em todo o Brasil, havendo uma ou outra exceção, muito sofrida, a confirmar a regra, como foi o caso da capital de Goiás, Goiânia, onde a aliança PT-PMDB subsistiu por apenas um voto.

O PSDB, na avaliação de Aldo, saiu das municipais com menos prefeitos do que entrou e, em São Paulo, ficou fora das mais importantes cidades. O DEM, praticamente desapareceu do país, opina. Assim, crê que o desempenho da esquerda nas eleições de 2008, na comparação, foi muito bom.

Agora cuidam os partidos do bloco de armar o futuro, porque até sob este ponto de vista as eleições municipais não foram pródigas para muitos. José Serra, governador de São Paulo, saiu delas como um candidato forte de partidos frágeis, no ponto de vista que Aldo, hoje, traduz. “É um candidato das forças de oposição à espera de um adversário”, resume. Aécio Neves, nesta análise, saiu enfraquecido, a não ser que vá para o PMDB, transferência que continua claramente nas suas cogitações. A ministra Dilma Rousseff, apontada como candidata do presidente Lula e do PT é, até o momento, “uma incógnita”.

Isto porque, na opinião do líder de esquerda, o candidato se revela a partir do momento que as pessoas o percebem como candidato, em que deixa notar os traços de sua personalidade, suas aptidões, que vão se revelar na campanha. “O que era o Obama? Foi a campanha que o revelou”, afirma, sobre o presidente eleito dos Estados Unidos.

O candidato a suceder Lula, nesta perspectiva da esquerda, pode, sim, ser do PT. Mas também pode não ser, pode ser do próprio bloquinho. Ciro Gomes, por exemplo, é um nome, que já demonstrou suas potencialidades e limites, está afastado da política no momento, levou uma refrega nas municipais, mas se tiver uma oportunidade, volta à cena. Outra hipótese para a esquerda é construir uma alternativa de unificação do PT e do bloco, “mas não podemos transformar isto em cláusula pétrea”, diz Aldo, provando que tudo está, de novo, em aberto.

O tempo certo de engajar-se nesta construção será determinado, na sua opinião, por dois fatos concretos. “A esquerda tem que se armar na apreciação da crise, e é o que está fazendo, em estudos e seminários internos. O bloco tem uma posição segundo a qual a crise não pode ser enfrentada com a redução de investimentos e desprezo pelo mercado interno”, assinala.

Para Aldo Rebelo, a crise é que vai definir o que será 2010 para Lula, para a base do governo, para os governadores dos partidos aliados. O segundo aspecto desta armação do futuro é a posição a ser adotada diante da eleição para a Mesa da Câmara. O bloco tem o compromisso de ter posição conjunta, mas também aqui não há cláusula pétrea nem sinal ainda de decisão, o que só deverá ocorrer em meados de janeiro.

Tanto pode a esquerda lançar candidatura própria – o nome do deputado Miro Teixeira, que se revela um especialista em legislação eleitoral e em Legislativo, entrou na roda – ou definir apoio a Ciro Nogueira, ou até ficar com orientação de Lula, embora, pessoalmente, ele vá apoiar Ciro Nogueira (PP), por quem foi apoiado quando disputou contra a aliança PT-PMDB.

A única real dificuldade que se coloca para a opção dos partidos, na avaliação de Aldo, será uma solução que entregue ao PMDB o comando das duas Casas, Câmara e Senado. “Fechar o círculo nas duas pontas, ficando tudo com o PMDB, das decisões sobre Medidas Provisórias, sobre crédito, às emendas à Constituição, ensejará uma insegurança muito forte entre os deputados e os partidos”.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

E-mail rosangela.bittar@valor.com.br

18/11/2008 - 13:09h Estudo indica receita recorde nos municípios

Em 2007, prefeituras tiveram para gastar R$ 30 bi a mais em relação ao ano anterior, mostra ONG

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Wilson Tosta – O Estado SP

Dois estudos da organização não-governamental Transparência Municipal mostram que os municípios brasileiros viveram, em 2007, recordes de receitas, mas também de concentração de arrecadação na Região Sudeste e em duas cidades, São Paulo e Rio de Janeiro. No ano de melhor desempenho econômico do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, anterior às eleições municipais de 2008, as prefeituras tiveram para gastar R$ 217 bilhões, R$ 30 bilhões a mais que em 2006 – supostamente, uma arma preciosa para os prefeitos candidatos à reeleição. A desigualdade ficou patente na divisão dos recursos per capita: cada R$ 1 de dinheiro público municipal captado pelos cofres públicos no Nordeste no ano passado correspondeu a R$ 1,47 no Sudeste.

“O problema é a pobreza, a má distribuição de renda”, diz o economista e geógrafo François Bremaeker, consultor da ONG, gestor do Observatório de Informações Municipais e autor das pesquisas. “A concentração é muito forte, principalmente em termos de Sudeste, de Estado de São Paulo e em São Paulo capital, que pega quase metade da receita tributária (própria) dos municípios paulistas.” A alta de recursos nas prefeituras no ano pré-eleitoral pode ajudar a explicar o alto índice de reeleição. Segundo a Confederação Nacional dos Municípios, de 3.357 prefeitos que tentaram um segundo mandato em 2008, 66,88% tiveram sucesso. Do total de eleitos, 40,36% já estavam no cargo este ano, ante 23,6% em 2004 e 37,1% em 2000.

Um dos trabalhos, As Finanças Municipais em 2007, afirma que as cidades brasileiras tiveram, no ano passado, receitas 16,19% maiores que em 2006. Foi um crescimento de 11,73% reais, considerando-se a inflação pelo IPCA, ou de 8,3%, se usada a correção do IGP-DI. Em 2006, os municípios receberam R$ 186,8 bilhões. A participação das prefeituras na arrecadação do setor público também atingiu seu pico no ano passado, quando as cidades chegaram a 17,06% de participação, contra 16,97% em 2006 e 16,38% em 2005. O estudo mostra que a receita orçamentária dos municípios, no ano passado, foi constituída por 67% de transferências, 17,1% de receitas tributárias e 15,9% de outras receitas.

O outro estudo, As Receitas Tributárias Municipais em 2007, dá exemplos da extrema concentração de receitas municipais. O Sudeste teve mais, R$ 110.161.460.773 – 50,75% da receita orçamentária de todos os municípios. Na outra ponta, o Centro-Oeste somou apenas R$ 13.033.062.038. Na distribuição per capita, segundo Bremaeker constatou no trabalho anterior, o Sudeste permaneceu na liderança com R$ 1.414,62 por habitante, mas a região com pior colocação foi o Nordeste, que, no geral, somara R$ 45.430.192.280, mas ficou com R$ 881,52 por pessoa. O Centro-Oeste, menos habitado, apresentou receitas maiores por pessoa, R$ 1.209.89, à frente de Norte e Nordeste.

Bremaeker, que fez a pesquisa com base em números da Secretaria do Tesouro Nacional, destaca a extrema dependência de verbas federais apresentada pela maioria dos 5.562 municípios pesquisados. “Em 81% das cidades, o Fundo de Participação dos Municípios é a principal fonte da arrecadação.” A maior participação no bolo das transferências está nos 994 municípios com entre 20 mil e 50 mil habitantes, que receberam 17,1% do total, seguidos pelas cidades entre 10 mil e 20 mil, com 12,8%. Na receita tributária municipal, São Paulo e Rio, somados, tiveram 32,3% de tudo em 2007.

AVALIAÇÃO

O cientista político Jairo Marconi Nicolau, do Iuperj, chama a atenção para a variação de apenas 10% na proporção de prefeitos reeleitos de 2004 para 2008 e relativiza o peso do uso da máquina, que, supostamente, seria mais forte em prefeituras com mais dinheiro em caixa, como em 2007. Ressalta, porém, o peso da avaliação do prefeito nas taxas de reeleição que, avalia, tem sido decisivo. “É claro que os prefeitos usam a máquina, mas quando o prefeito está em baixa, não tem jeito. O prefeito com boa aprovação faz um esforço para tornar a eleição plebiscitária. Se ele vai bem, por que vão querer mudar?”

10/11/2008 - 18:10h Rio: Zona Sul, curral

Fernando Gabeira (PV) votou na zona sul do Rio de Janeiro
Gabeira votou na zona sul, onde obteve 70% dos votos


O que o Rio precisa é de um movimento a favor das idéias divergentes

OCTAVIO GUEDES – O GLOBO

A definição é clara: curral eleitoral era um lugar nas cidades onde se mantinham eleitores do campo incomunicáveis até a hora da votação. Dali, guiados pelo chefe político, eles saíam levando a cédula já preenchida para depositar na urna. O resultado não trazia surpresa: o candidato abençoado recebia quase a unanimidade dos votos.

Se existe uma região na cidade do Rio que se aproxima desta descrição, ela se chama Zona Sul.

Quem afirma isso são os números objetivos dos mapas eleitorais. Foi ali que um dos candidatos a prefeito obteve 70% dos votos contra 30% do adversário.

Ou seja, de cada dez pessoas, sete seguiram a mesma orientação política. Em nenhuma outra parte da capital essa mesmice bovina ocorreu em tamanha proporção.

Nos currais, os eleitores tinham hospedagem, alimentação e recreação.

Uma agenda tão movimentada que não havia brecha para se discutir política. O objetivo era este mesmo: ficavam todos incomunicáveis.
O que isso tem a ver com a Zona Sul? Tudo.

O eleitor incomunicável é aquele que se encerra em si mesmo, não é afável, nem sociável quando o assunto é escolha eleitoral. Ele não quer ouvir. Está sempre aberto ao monólogo. Ele vê a eleição como uma disputa entre o bem e o mal; as luzes e as trevas, o progresso e o atraso. Não tem meio-termo, nem argumentos. Está decidido e ponto.

Quem pensa o contrário está errado.

Surge, então, o discurso mais perverso: a batalha eleitoral deve ser travada em outras bandas, sempre acima da linha do equador: na Zona Oeste e no subúrbio. Como se fosse necessária uma cruzada para levar esclarecimento a eleitores que, por puro preconceito, são considerados mais suscetíveis ao abuso do poder econômico, à corrupção e ao jogo sujo da política. Gente com pouca capacidade de reflexão, capaz de se impressionar com panfletos apócrifos de apelo moralista.

Este artigo, acreditem, não é contra a Zona Sul.

Mas a favor da diversidade do pensamento político que, nas últimas eleições, se expressou, principalmente, nas urnas da Zona Oeste (onde um candidato teve 57% dos votos e o outro, 42%) e do subúrbio (onde a divisão do bolo eleitoral ficou em 54% contra 45%). Nessas regiões, o equilíbrio eleitoral, muito distante da diferença de 70% x 30% da Zona Sul, prova que ali houve o debate, o confronto de idéias, o contraditório. Pode-se até não gostar do resultado, mas não dá para negar que a democracia foi exercida em sua plenitude.

E quando isso ocorre, não existem eleitores melhores ou piores. Existem escolhas, que devem ser respeitadas. O sambista Mauro Diniz tem uma tese que ajuda muito a explicar o Brasil: “Crioulo com fome é um país em guerra.” E são justamente esses eleitores com fome de saúde, transporte e educação os que votam com mais consciência. Não porque são melhores, mas por instinto de sobrevivência. Para eles, uma promessa não cumprida significa um filho numa escola que não ensina, um posto de saúde fechado na hora em que mais se precisa ou um transporte que, de tanto atraso, ameaça seu emprego. Durante quatro anos ele vai testar no seu dia-a-dia todas as promessas que ouviu. Mas, curiosamente, no discurso das milícias ideológicas e das passeatas que hoje clamam por revisão do resultado eleitoral esses eleitores são justamente os acusados de se deixarem levar pelo lado negro da política.

E mais: até quando o cidadão escolhe um candidato que oferece serviços públicos em seu centro social, ele está fazendo política. Seu voto é um recado claro do eleitor ao Estado ausente.

Se olharmos pelas lentes de Robin Hood, podemos radicalizar: os centros socais dos ricos são a escola particular, o plano de saúde e seu carro.
Afinal, somos todos crioulos com fome de bons serviços públicos. E cada um busca as alternativas a seu alcance para compensar o vazio do Estado. Se a saída pode ser o contracheque, por que não pode o voto? O que o Rio precisa é de um movimento a favor do respeito à idéia divergente. O resto é puro preconceito. Ou paixão política. Ou curral eleitoral mesmo!

OCTAVIO GUEDES é jornalista

09/11/2008 - 14:46h As preocupações do Estadão

Um artigo no jornal O Estado de São Paulo me incita a fazer um comentário.

Uma página com grandes mapas e um título destacado proclama:

“Recuo nas capitais preocupa petistas”

“Sigla teve 1 milhão a menos de votos este ano em relação a 2004″

Como teve um aumento no número de brasileiros aptos a votar, essa cifra é um pouco maior, disse o artigo, mostrando a preocupação dos petistas com o fenômeno.

Mas, quando se lê o artigo, percebe-se que em Belo Horizonte o PT não apresentou candidato em 2008, onde em 2004 tinha obtido quase 900 mil votos. O PT tampouco apresentou candidato desta vez em Aracaju, o que deve cobrir o suposto milhão perdido e que “preocupa” o Estadão.

Em verdade, o PT recuou nas votações de São Paulo e Porto Alegre, proporcionalmente bem mais nesta última (Marta teve no primeiro turno 120 mil votos a menos que em 2004 e o PT de Porto Alegre com Maria do Rosário 124 mil a menos).

Não deixa de ser preocupante, mas em ambos os casos a prefeitura já estava nas mãos dos que acabaram reeleitos, ou seja o PT não ganhou, mas não perdeu nenhuma dessas prefeituras.

A situação é preocupante para além das cifras e concerne os problemas políticos encontrados junto a setores do eleitorado no Sudeste.

Quem não parece manifestar preocupação, e o Estadão aparentemente não vê motivo para preocupação mesmo, são os demo-tucanos. Porém, poucos dias atrás o quadro a seguir publicado pelo próprio Estadão deveria motivar alguma reflexão.

Mas, ninguém pergunta nada para os que são tratados pela mídia unânime como os “vitoriosos” do pleito municipal. Veja se alguma preocupação se justifica:

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Este outro quadro é da Folha (clique na imagem para ampliar e ler)

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Evidentemente que o drama de uns, não implica a felicidade de outros. Cada um deverá aportar respostas aos problemas encontrados e nada seria pior para o PT que ignorar as dificuldades encontradas. Mas é conveniente fazer isto a partir da realidade e não da fantasia que a mídia procura vender: a vitória de José Serra e a derrota de Lula, como balanço das eleições municipais.

LF

08/11/2008 - 12:27h Elementar, minha querida Carta Capital

Carta Capital é uma revista que faz um jornalismo sério e que por isso merece meu respeito e apoio.

Três semanas atrás um artigo sobre as eleições municipais afirmava, erradamente, que o comercial polêmico da campanha da Marta tinha contado com minha participação.

Enviei uma carta para indicar que a informação era inverídica (ver novamente minha carta embaixo), ressaltando que o autor da matéria não tinha sequer me contatado para checar a informação. Minha carta recebeu como resposta a afirmação que o jornalista “conversou com fontes que têm posição privilegiada na equipe de campanha da ex-prefeita” que teriam informado o repórter sobre minha participação e responsabilidade. Curioso a revista não considerar que, mesmo contando com essas “fontes”, foi um erro não ter checado a “informação” comigo.

O dever da revista é tentar oferecer ao leitor veracidade. Amparado em “fonte anônima” e sem incluir minha própria versão, o jornalista se presta em verdade a ser manipulado por interesses que em princípio não o concernem. Ou sim?

Em todo caso, os membros da coordenação da campanha enviaram conjuntamente uma carta à revista e obtiveram como resposta uma grosseria (vejam aqui embaixo).

No fundo pouco importa se o jornalista inventou o fato a mim atribuído, ou se alguém da própria campanha mentiu para ele. O que sim importa é que a revista errou. Transmitiu uma falsa “informação” e persiste em querer se esconder perante as “fontes” para justificar ter publicado uma informação que não procede.

Fico perguntando para meus botões (não é só Mino que tem botões). Porque a revista não me procurou antes de publicar essa “informação”, para ouvir minha versão?

Evidentemente não estou nem aí sobre quem possa ter transmitido a mentira para o repórter de Carta Capital. A falta de coragem e de ética me parecem duas características muito presentes nos meios políticos e jornalísticos. Pensava que com Carta Capital era um pouco diferente.

A revista tem o direito evidente de preservar uma fonte mentirosa. O que ela não pode é publicar uma mentira e fazer de conta que a responsabilidade não é dela e sim da “fonte” anônima que a enganou. Não fui eu quem fui “traido”, foram a verdade dos fatos nas páginas de Carta Capital e a vítima foram seus leitores.

Luis Favre

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Carta a Carta Capital publicada na edição de hoje da revista (edição 521 com data 12/11/2008)

Em sua edição de número 519, Carta Capital publicou correspondência de Luis Favre, em que ele negava informação publicada pela revista de que teria sido um dos responsáveis por comercial da campanha de Marta Suplicy. Em nota de resposta, Carta Capital afirmou que “conversou com fontes que têm posição privilegiada na equipe de campanha da ex-prefeita”, que teriam fornecido a “informação”. Somos coordenadores da campanha de Marta Suplicy, responsabilidade que exercemos publicamente e, em face da nota de Carta Capital, escrevemos para afirmar que Luis Favre não teve nenhuma participação na elaboração de programas e comerciais da campanha, tampouco opinou sobre eles. E o fazemos sem nos esconder sob o manto conveniente do anonimato, que encobre propósitos e interesses.

Carlos Zarattini
Rui Falcão

Simão Pedro
Valdemir Garreta
Jilmar Tatto
Antonio Carlos Gambarini
Luciano Barbosa
Tadeu Dias Paes
Glauco Piai

Resposta da Redação
Sugerimos ao Sr. Luis Favre que reúna os acima-assinados para uma partida do famoso Detetive. Talvez ele descubra quem são os “culpados” e se eles o apunhalaram na cozinha ou na sala de estar.

Carta enviada sábado 18/10/2008 para o correio dos leitores da revista “Carta Capital”

“O artigo “É pau, é pedra”, de Rodrigo Martins traz uma menção a minha pessoa, a partir de uma fonte anônima, como um dos responsável pelo comercial da campanha da Marta, objeto do artigo. O anonimato da fonte guarda estreita relação com o calíbre da mentira.

Não fui contatado pelo jornalista para checar a veracidade da suposta “informação”. Os que me conhecem sabem que, diferentemente de aqueles que se escondem no anonimato para apunhalar companheiros pelas costas, não sou dos que escondem suas responsabilidades no que fazem.

Não tenho participado desta campanha eleitoral, não dei nenhuma opinião sobre nenhum programa o comercial; programas e comerciais que vi, como o resto dos paulistanos, quando transmitidos na TV.

Tenho publicamente opinado sobre a campanha no meu blog, Leituras Favre, assim como sobre outros assuntos da política. Rejeito qualquer insinuação de homofobia ou preconceito dirigidos contra Marta e contra minha pessoa, pois sempre identificamos nossa luta com o combate a toda discriminação.

Gostaria de acrescentar que Marta Suplicy não é dos políticos que “transferem” para outros suas próprias responsabilidades. Talvez acostumados a políticos que praticam isto com desinvoltura, alguns se permitem duvidar da palavra dos que sempre agiram com autenticidade e transparência.”

Luis Favre
18/10/2008

07/11/2008 - 16:16h Gotas

Pre-sal

lula_petroleo2.jpgO diretor-geral da ANP (Agência Nacional de Petróleo), Haroldo Lima, estimou nesta sexta-feira que as reservas dos blocos já leiloados na área do pré-sal têm, no mínimo, 50 bilhões de barris de petróleo e gás, podendo chegar a 80 bilhões. As reservas conhecidas atualmente no Brasil somam cerca de 14 bilhões de barris de petróleo e gás.

O custo da exploração também é salgado, mas compensa de longe; passada a crise atual a demanda por energia levará novamente os preços para as alturas.

“Sair das reservas atuais, que passam dos 14 bilhões de barris, para este volume, é uma mudança tão grande e tão profunda que não só modifica o panorama da geopolítica mundial do petróleo como coloca o Brasil numa perspectiva completamente nova do ponto de vista de serviço e de base industrial”, afirmou Haroldo Lima. (Fonte Folha Online).

Desafios

obama_caricatura.gifA eleição de Obama alavancou uma grande representação do seu partido, os Democratas, que agora controlam o Senado e a Câmara de Representantes. Ou seja o enfrentamento à crise poderá contar com o apoio do Congresso o que facilitará a tarefa do futuro presidente.

Obama deverá responder de imediato ao desafio de evitar uma depressão, estabilizar o sistema financeiro, estabelecer as bases para uma retomada da economia hoje em recessão e confortar as famílias que perderam suas casas na crise do “subprime” e que estão também perdendo o emprego.

Como se isto fosse pouco, ao mesmo tempo Obama deverá tomar iniciativas importante na questão do Iraque e do Médio-oriente, sem afetar a indústria bélica que é um dos principais motores da atividade econômica americana.

Apesar de “inexperiente” Obama conta com quadros formados na administração Clinton e que acumularam bagagem importante nas questões da economia, o governo Clinton foi bem nesse quesito.


A união é um combate

sarney_caricatura.jpgComo Lula não teve, como Obama, uma maioria no Congresso para seu partido e teve que assegurar a governabilidade costurando uma ampla aliança com forças diversas, não adianta invocar princípios ou equilíbrio quando as escolhas não deixam maiores alternativas. No PMDB existem lideranças provadas no apoio ao presidente que podem assumir responsabilidades nas mais diversas esferas do poder público, sem implicar em desprezo para os demais partidos, incluso o partido do presidente.

Mas quando se invoca o crescimento eleitoral verificado nas eleições municipais, convém não esquecer que o PT foi o partido que obteve maior número de votos, assim como em crescimento de prefeituras conquistadas.

Mexidas

http://vejasaopaulo.abril.com.br/arquivos/capas/2043m.jpgParecem contados os dias do xerife Matarazzo na prefeitura de São Paulo. Mesmo com o apoio entusiasta da Veja ou da invocação do “padrinho” poderoso, o apetite pelo cargo e pelos “carguinhos” nas subprefeituras parece que pesa mais.

O subprefeito da Mooca, onde a Máfia dos fiscais foi descoberta, vai acompanhar o xerife a caminho dos vestiários, com uma diferença. O governador Serra não pode deixar Matarazzo ao sereno, onde sapos e lobos cantam quando é lua cheia.

Cinema

baby_love.jpgAssisti ao filme Baby Love (Comme les autres) (agora só no cine Gemini). Uma deliciosa comédia francesa sobre um casal gay em que um dos parceiros decide adotar uma criança. O filme acerta ao equilibrar o bom humor e o tom justo da problemática provocada pelo desejo paterno de um homossexual feliz da vida. Bons atores, boa direção e um filme francês muito pertinente.

fatal_elegy.jpgAproveito para voltar a aconselhar Fatal (Elegy). O trailer já foi postado aqui na semana passada. Os atores, Ben Kingsley e Penelope Cruz. A temática: o amor, o desejo, a juventude e a velhice. Eu adorei, mas você pode não gostar, quem sou eu para dar dicas de cinema? Só que para você saber, vai ter que ver.

 

 

 

Gotas, por Luis Favre

03/11/2008 - 18:02h Mistificação

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http://www.fguimaraes.com/blog/wp-content/uploads/2007/01/gabeira_presidente.jpgkassabinho2.JPG

Em entrevista publicada hoje no Correio Braziliense, Gilberto Kassab voltou a criticar a campanha de Marta Suplicy. Os argumentos da crítica merecem uma reflexão política e põe luz sobre um aspecto muito escamoteado no debate político hoje.

Segundo Kassab: “A adversária perdeu tempo em não fazer campanha. Dizer que eu sou da turma do Pitta não é fazer campanha e não sei porque usaram isso se tentaram em 2004 e já não havia dado certo. Porque essas coisas não funcionam quando não são verdade. Fazer campanha é comparar o que ela fez com o que eu fiz para ver quem fez mais e melhor. Comparar as propostas dela com as minhas, é isso que o eleitor quer saber. Na medida em que ela ficou preocupada com outras questões, ela deixou de fazer campanha. Foi uma campanha errática, totalmente equivocada.”

“Quando fui vereador, deputado estadual, federal, a imprensa me acompanhava. Não tinha muita visibilidade na opinião pública, mas as pessoas conversam entre si e sabem o que é verdade. O PT perdeu tempo com uma campanha equivocada. Eu sou eu. Minha única missão é ser um bom prefeito. Eu não consigo enxergar nada além de ser bom prefeito. Não consigo. Porque, se eu for um bom prefeito, tenho um rumo na minha vida. Se eu não for, tenho outro rumo. O bom prefeito é o caminho do respeito, da credibilidade, da estima que as pessoas vão ter por mim. Se eu for um mau prefeito, vai ser um caminho contrário a todos esses adjetivos. Se daqui a quatro anos estiver na mesma posição, e eu gosto da vida pública, gosto do que faço, evidentemente vou ter oportunidade de começar outras missões com o mesmo respeito.” (Correio Braziliense 3/11/2008).

Vou deixar de lado a apresentação inverídica feita por Kassab. Marta defendeu propostas e o balanço de sua gestão. Foi a primeira e a única candidata a apresentar uma plataforma de governo com metas e proposta orçamentária. Kassab atacou Marta e defendeu seu balanço. A situação geral favoreceu a reeleição dos atuais prefeitos.

Mas, na afirmação de Kassab tem mais. Perceba-se que para Kassab é um erro insistir na trajetória partidária e política do adversário. O adequado é comparar administração e o resumo: “ser um bom prefeito” é o supra-sumo do lugar comum.

Mas para que servem então os partidos, os programas, os militantes e as idéias?

Esta abordagem me relembrou um artigo escrito recentemente por Idelber Avilar (A Onda Verde e a substituição da política pela moral) abordando as eleições municipais de Rio de Janeiro e a campanha de Gabeira.

Para Idelber: “Os partidos políticos estão tão estraçalhados no Rio de Janeiro que foi possível que um candidato apresentasse como virtude ética o plano de costurar o segundo turno e depois governar sem conversar com os partidos (entendendo-se aqui suas lideranças, candidatos a prefeito no primeiro turno, vereadores eleitos etc.). A proposta não era inédita, mas a compreensão dela como superioridade moral o era. Gabeira se propôs a conversar “com o eleitorado” dos outros candidatos diretamente, sem mediação.”

O comum denominador de Kassab e Gabeira, além de serem ambos candidatos apoiados por José Serra, é de fornecer um discurso que procura expressar a vontade dos cidadãos por fora e acima dos partidos. Trata-se da “ética”, no caso uma ética da mentira, para cavalgar no sentimento reacionário da classe média, escamoteando do público que ele está sendo objeto de uma manipulação partidária.

Não se trata de invenção ou novidade brasileira, mas de uma longa tradição reacionária da direita e, na Europa, da direita mais extrema. Nos dias de hoje é o discurso e a postura típica de Berlusconi, por exemplo.

O sistema da democracia parlamentar, da representação dos cidadãos nas instituições do poder público, por médio de partidos políticos, comportou inúmeros “inconvenientes”. Um deles é a “lentidão” do trabalho legislativo com suas negociações e barganhas, as vezes com negociatas escusas. A política, os partidos e até o sistema de representação democrática aparecem, para certos setores sociais, como expressão de impotência e de divisão, onde deveria prevalecer o interesse comum e a união.

Os “escândalos” políticos e a procura da ética acima dos interesses sociais, servem de para-vento a ação política dos fariseus e encontram eco na aspiração pequeno-burguesa ao reconhecimento “individual”, oposto ao coletivo. Ele percebe sua situação como fruto legitimo de seu esforço e trabalho, não como produto dos interesses sociais em disputa na sociedade e seus desdobramentos em conquistas econômicas e sociais.

Este sentimento é que é explorado e manipulado por aqueles que procuram esconder seus interesses e seus objetivos políticos por trás do “mantra” reacionário e udenista que a mídia estimula como expressão do progresso.

O escândalo chamado de “mensalão” foi instrumentalizado para atiçar esse movimento político nas classes médias, procurando encaminhá-lo contra o governo Lula, além do próprio PT. Um esquema irregular de financiamento partidário utilizado por todos os partidos políticos no Brasil e no mundo, no vácuo de uma legislação que não assume plenamente a função dos partidos como decorrentes do orçamento nacional, foi utilizado para tentar questionar a validade da existência de um único partido: o PT. De golpe, os outros como que ganharam uma certa “virgindade”, à condição de ficarem fantasiados e pouco visíveis.

O passo atual é erigir em “novidade” velhas raposas e pseudos vestais mídiaticos e travestir-los de renovação da política acima dos partidarismos, pois os partidos “todos se valem”. Eis a “moda” que traduz o sentimento de certos setores das classes médias e que procuram nos apresentar como avanço. Ela será o porta-estandarte do centro-direita na sua tentativa de reconquistar o governo em 2010.

03/11/2008 - 08:27h ”Campanha do meu adversário teve apoio forte vindo de São Paulo”

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Márcio Lacerda: prefeito eleito de Belo Horizonte;

segundo ele, ajuda financeira para Quintão veio de correntes que não queriam o sucesso de Aécio na eleição

 

 

Eduardo Kattah, BELO HORIZONTE – O Estado SP

O prefeito eleito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), afirma que a campanha de Leonardo Quintão (PMDB), seu adversário no segundo turno, recebeu forte apoio financeiro “vindo de São Paulo”. Em entrevista ao Estado, o prefeito disse que esse apoio veio de correntes “que não queriam o sucesso do governador (Aécio Neves)”, em alusão velada ao governador José Serra (PSDB).

Lacerda disse que seus padrinhos Aécio e o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) trabalham por um projeto de centro-esquerda, em contraponto à aliança de centro-direita de PSDB e DEM, simbolizada pela eleição de Gilberto Kassab (DEM) em São Paulo. Aécio e Ciro, diz, não demonstram “aquela fome de ser presidente que Serra tem”.

Não ganhar no primeiro turno comprometeu a aliança que o elegeu?

A vitória no primeiro turno aconteceu por falhas da nossa estratégia, não por falhas de concepção da aliança. Mas no Sudeste eu tive a maior votação (no primeiro turno) entre os candidatos mais bem colocados. Dizer que houve vitórias do Serra e do Sérgio Cabral (governador do Rio), porque os seus candidatos foram para o segundo turno, e uma derrota porque eu não fui (eleito no primeiro turno), é forçar um pouco a barra. Não houve derrota da aliança.

Que influência a eleição de Belo Horizonte teve sobre 2010?

Ela sinalizou que é possível tendências social-democratas dentro do PT e dentro do PSDB se unirem. E se uniram num projeto eleitoral para uma cidade. Não significa que isso aconteceria em outras eleições. Pode acontecer. O mínimo que deveria acontecer é os social-democratas dos grandes partidos se unirem para ter um projeto para o País. Qualquer que seja o novo presidente, o ideal seria que ele tivesse uma ampla coalizão de forças de centro-esquerda o apoiando, tanto na eleição quanto no governo.

O sr. classificou a vitória de Gilberto Kassab em São Paulo como uma aliança de centro-direita…

E é.

Ela não ajudou a desgastar a aliança do governador Aécio e do prefeito Pimentel, de PSDB com PT?

Não estou dizendo que (a aliança) tenha essa importância toda. Estou dizendo que ela sinaliza algo novo na política nacional, pelo ineditismo. O papel do Kassab será municipal, embora a máquina de uma prefeitura como a de São Paulo – Belo Horizonte muito menos – seja importante no apoio para eleição de governador e presidente. Mas eu digo que é de centro-direita na medida em que reflete uma aliança que o PSDB de São Paulo já tinha com o PFL (atual DEM) há mais tempo. O governador (Aécio) falou isso para ele. Ele disse: “Já falei para o meu amigo Serra que se ele quiser ser presidente tem de criar uma ampla coalizão, um movimento de opinião.”

Como assim, um movimento de opinião?

Para que ele possa governar com a base social-política necessária capaz de gerar as transformações de que o País precisa. Ele precisa ganhar essa base ampla de opinião. Mostrar que é capaz de aglutinar. Ninguém pode ser candidato de si mesmo ou de um partido. Se você pensar bem, o Lula não foi eleito pelo PT. A votação dele foi o dobro da capacidade do PT de gerar votos. Acho que o centro do debate é este: que projeto o novo presidente terá para o País e qual a ampla coligação de forças e movimento de opinião que vai ajudá-lo a governar depois.

O sr. disse que a sua aliança enfrentou resistências vindas de fora, de São Paulo. De onde partiram essas resistências?

A cúpula do PT foi amplamente contrária, isso é conhecido. O PSDB nacional apoiou. Mas a gente tem notícias de que a campanha do meu adversário teve um apoio muito forte vindo de São Paulo.

Que tipo de apoio? Dado por quem?

Prefiro não dizer, porque eu tenho notícias de que o apoio financeiro vindo de São Paulo foi muito forte. Apoios ao candidato do PMDB e de correntes que não queriam o sucesso do governador (Aécio) nessa empreitada.

Qual a participação de Ciro na escolha do seu nome? Que tal a dobradinha Aécio-Ciro para 2010?

Ele participou da articulação aqui. Eu soube da participação dele nas articulações em outubro de 2007. Eu não vejo nem Ciro nem Aécio com aquela fome de ser presidente. Eles são até desapegados da idéia. Não têm aquela gana de ser presidente que parece que o governador José Serra tem. Eles querem um projeto para o País. Os dois querem um projeto de centro-esquerda.

02/11/2008 - 14:14h A ética ao gosto do cliente

“quando decidiu explorar a vida privada do adversário na TV -acreditando que pudesse despertar o preconceito de parcela da sociedade a partir de uma insinuação velada, mas óbvia, de homossexualismo-, Marta rompeu uma barreira e fez uma aposta de risco -ou baixa, a depender do ângulo.”

É assim que escreve Fernando de Barros, editor da Folha. Atribuindo a Marta não só a responsabilidade genérica pelo comercial da campanha eleitoral, mas a intencionalidade própria para “despertar o preconceito”. O “jornalista” precisa atribuir a Marta a responsabilidade, não em geral, mas especifica e individual para poder atingi-la politicamente. Por isso o “jornalista” ignora as explicações dadas no próprio jornal pelo marqueteiro Joào Santana e ignora também as declarações de Marta sobre o fato que só viu o dito comercial depois que a polêmica fora lançada.

A manipulação do “jornalista” visa a atingir a figura da Marta, pouco importa os fatos. Por isso ele não escreve sobre a “intenção” do marqueteiro, ou dos petistas, ou da campanha e sim de Marta Suplicy.

A falta de escrúpulos do “jornalista” mal esconde seu objetivo. Faz anos que ele senta em cima dos “métodos válidos e os limites éticos de uma campanha eleitoral”, como prova o fato que nada diz, nem seu jornal, sobre os ataques à vida privada de Marta nas eleições de 2004, por exemplo.

Vale lembrar que foi a Folha SP a que em 2001 publicou o ataque mais vil e violento contra Marta e minha pessoa, lançando assim a campanha de ataques pessoais sobre a vida afetiva da Marta. Como eu tenho vergonha na cara, jamais me permitiria escrever que quando “Fernando de Barros decidiu explorar a vida privada da Marta no seu jornal, o fez para levantar o preconceito contra ela”. Mesmo que Fernando de Barros esteja longe de desempenhar um papel marginal na repetição destes ataques (ele é o autor recente de uma crônica falando a vontade do meu casamento, por exemplo), seria injusto atribuir a ele o que foi uma decisão do próprio jornal. A verdade exige respeito.

O objetivo de seu artigo hoje é evitar que os petistas possam utilizar os argumentos do ombudsman da Folha condenando a parcialidade do jornal. O argumento já tinha sido invocado quando o predecessor do atual ombudsman se demitiu, pois os donos do jornal não queriam que sua crônica diária na internet pudesse ser utilizada por membros do governo federal para criticar a Folha.

Fernando de Barros considera a opinião do ombudsman respeitável, já a dos petistas não. Mesmo quando a dos petistas coincide com a emitida pelo próprio ombudsman, ou seja que a Folha favoreceu Kassab contra Marta não permitindo nenhum equilibro no segundo turno no tratamento dispensado a cada candidato.

Vindo de petistas ou do ombudsman da Folha, os fatos são os mesmos: a Folha pegou gancho no comercial, atribuiu a ele um conteúdo homofóbico, depois fez uma campanha em defesa de Kassab e contra o preconceito da Marta e completou sua campanha publicando na capa declarações de Kassab sobre assédio das mulheres e negando homossexualidade. Não respeitou qualquer equilibro no tratamento e as explicações de Marta ou do seu marqueteiro cumpriram só o papel de registro. Foram publicadas para justificar um suposto equilibro que o ombudsman mostrou inexistente.

Luis Favre

31/10/2008 - 13:41h Eleições municipais

Agrupei as três notas que escrevi sobre as eleições municipais, para facilitar a leitura e agrupá-las no arquivo.

27/10/2008 – 09:42h

Ir além da aritmética eleitoral (I)

Concluídas as eleições municipais corresponde avaliar a situação política e as novas relações de força que emergiram do escrutínio.

Com a mesma ênfase com que pretendia que as eleições municipais eram essencialmente locais e não tinham qualquer relação com o plano federal, os jornais hoje procuram projetar os resultados em sentido inverso, procurando destacar uma suposta derrota eleitoral do governo e uma vitória da oposição.

Essencialmente os resultados das eleições municipais de 2008 (os números, tanto de votos, como de prefeituras) repetem o mapa das eleições de 2004, mas amplificando a votação e as conquistas dos partidos da base do governo, em detrimento dos partidos da oposição (DEM-PSDB-PPS).

Sem desprezar as vitórias obtidas pela oposição, sua força simbólica e seus desdobramentos políticos, a aritmética eleitoral mostra uma diminuição de sua influência e dos municípios por ela governados, particularmente nas cidades acima de 200 mil habitantes e nas capitais.

As eleições municipais confirmaram o quase desaparecimento do DEM-PFL das prefeituras. Perdeu Rio de Janeiro, onde contrariando a tendência que favoreceu a continuidade, Cesar Maia não fez seu sucessor. Afastou o “carlismo” de um retorno com ACM Neto em Salvador e ganhou sobrevida com a vitória de Kassab, porem estreitamente limitada as decisões de José Serra. O PPS virou pó e o PSDB conseguiu manter sua força, diminuída de muitas prefeituras, em cidades já governadas por eles. No plano nacional, a oposição e a mídia não podem sustentar na aritmética eleitoral uma vitória, de fato inexistente, ou uma derrota de Lula e do governo federal. O PT foi o segundo partido mais votado no país e passou a governar 566 prefeituras, 143 a mais que em 2004 . O PMDB, por sua vez, cresceu 54% em termos eleitorais em relação a 2004 (Fonte jornal VALOR).

Mas entre a aritmética eleitoral e a política, as percepções e suas repercussões nos partidos, não existe automaticamente equivalência ou identidade. Por isso não é suficiente constatar os ganhos e perdas, requer-se ir além e aprofundar a analise política sobre as projeções dos resultados eleitorais.

Vou tentar aportar minha opinião em várias notas sobre diversos elementos destas eleições, sem a pretensão de aportar respostas a uma série de problemas revelados nesta campanha. Em outras notas tratarei especificamente das eleições em São Paulo.

Se no plano geral do cômputo municipal, os partidos da base do governo federal obtiveram as maiores vitórias, um analise pormenorizado mostra que destes partidos, é o PMDB quem mais se fortalece e o crescimento dos municípios conquistados pelo PT não compensa este fato, diminuído assim o peso do partido do presidente, na disputa política no campo da base aliada.

A diminuição do voto e dos municípios controlados pela oposição, não deve ocultar a importância política da vitória de Serra na cidade de São Paulo. Não só por ter conseguido a reeleição de Kassab, mas por ter obtido este resultado derrotando ao mesmo tempo seu principal adversário no PSDB, o ex-governador Alckmin e impedido assim o crescimento em São Paulo de seu rival Aécio Neves. A vitória de Serra é por isso uma vitória política muito significativa, reforçada mais ainda pela derrota de Marta e do PT, por uma margem grande e significativa.

Ao mesmo tempo, os limites desta vitória inegável de José Serra é que ela não conseguiu se projetar fora do Estado, na vitória de Gabeira no Rio, candidato do Serra e maior esperança deste segundo turno, após Kassab, para a oposição e a mídia. A vitória do candidato de Aécio em BH também constituí um limitador da vitória do paulista e de suas pretensões para 2010.

O PT deverá proceder a uma avaliação aprofundada sobre sua situação. Ele não pode limitar sua avaliação dos resultados a constatar o simples crescimento em prefeituras e em votos obtido pela legenda, ou no crescimento dos partidos da base do governo. Em primeiro lugar porque o PMDB é um aliado muito dividido nos diferentes Estados (em São Paulo está na oposição). Em segundo lugar, porque o PT, como partido, não conseguiu resolver o divorcio com uma parte significativa do eleitorado, particularmente da região sudoeste e sul e nestas regiões, de seu afastamento de contingentes significativos de eleitores da classe média urbanizada. Isto é particularmente válido nas capitais, como em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre.

27/10/2008 – 14:52h

Ir além da aritmética eleitoral (II)

Quando os dirigentes do PT, os senadores Mercadante e Suplicy, os deputados federais e estaduais de São Paulo e os vereadores do partido, foram a Brasília pedir para Marta ser novamente candidata à prefeitura, as pesquisas e as analises eleitorais indicavam uma vitória quase certa para o ex-governador Geraldo Alckmin. Mesmo assim era impossível para Marta recusar esta convocatória unânime do seu partido, na medida em que só ela podia assegurar um resultado eleitoral expressivo em São Paulo.

O curso dos acontecimentos mudaram em parte esta analise, tirando Alckmin do segundo turno, mas não o favoritismo do centro-direita que acabou vitorioso na cidade.

A vitória de Serra se reveste de uma força maior, pois conseguiu ao mesmo tempo eliminar seu adversário tucano e derrotar a candidata petista com uma avalanche de votos.

Esta vitória de Kassab e Serra na cidade de São Paulo foi contundente. Ela só tem equivalente na vitória de Pitta e Maluf em 1996. O paralelo não é só numérico, mas político e social.

A estrutura econômica, social, política e midiática que tem como eixo e expressão partidária o tucanato, conseguiu uma importante vitória, preservando assim seu projeto de recuperar o poder, perdido para Lula e o PT em 2002.

A decadência do malufismo foi substituída pela emergência e consolidação do PSDB na cidade. A evolução do PSDB para o centro-direita permitiu que ele incorporasse as bases de sustentação social e política do malufismo, o conservadorismo e o anti-petismo.

Esta substituição foi facilitada pela ação militante da mídia, que no passado foi reticente ao malufismo e que hoje faz corpo e alma com o tucanato contra o PT.

Mas este processo que hoje manifesta com força sua consolidação, só foi possivel pela incapacidade do PT em conquistar a hegemonia na cidade a partir da vitória de Marta em 2000. Evidentemente que intervém nesta dificuldade a sadia recusa do PT a virar um partido do conservadorismo e do status quo, mas também sua dificuldade a superar suas limitações programáticas e administrativas, em favor de uma visão mais moderna da esquerda e da luta contra a desigualdade social.

A hegemonia da direita em São Paulo tem uma longa tradição e história. As vitórias eleitorais da esquerda foram exceção, só duas, e diretamente ligadas à conjunturas eleitorais (divisão da direita e modo de escrutínio que permitiu a eleição de Erundina em 1988; experiência Pitta e declínio do malufismo, combinado com apoio eleitoral do centro-esquerda tucano em favor da Marta em 2000). A divisão também se fez presente nesta eleição, mas com carateristicas diferentes, é suas conseqüencias podiam ter pesado no resultado do pleito se tivessem servido para ampliar a base social de apoio da candidata petista o que não foi conseguido pela campanha e pela candidata.

Romper esta hegemonia exige muito mais que uma vitória eleitoral como foi a de 2000, requer a consolidação de um governo com ampla base de sustentação social e política, além de uma disputa de valores com muito peso numa cidade conservadora como São Paulo.

Ter governado São Paulo na difícil situação econômica e financeira deixada por Pitta na cidade, e de FHC no país, permitiu que o PT consolidasse seu cacife eleitoral no patamar de 40%, mas não permitiu ir além. Ele fincou firme sua força e sua inserção na periferia e entre os mais pobres, porém não conseguiu mudar suas relações com setores médios arrastados pelos conservadorismo para um anti-petismo reacionário.

A incapacidade do PT aqui mencionada, combinou-se com as conseqüências dos erros cometidos por quadros e dirigentes do PT com relação as questões de financiamento irregular dos partidos, amplamente explorados pela mídia e a direita nos últimos anos contra o PT.

Um fator importante em São Paulo é o peso do poder da mídia aqui, diferente do resto do Brasil. Esse peso está a serviço do PSDB contra o PT e quando os demo-tucanos ficam inaudíveis a mídia os substitui como partido de oposição, visando a desestabilizar o governo federal. Mas este peso é maior em São Paulo porque o discurso de direita encontra respaldo no conservadorismo das classes médias que são diretamente influenciadas pela mídia em um processo no qual um alimenta o outro dialeticamente.

Penso que é a partir de esta reflexão que deverá ser elaborado um balanço específico do processo eleitoral, de seus erros e acertos. Evidentemente isto inclui o papel da política eleitoral, do marketing, dos dirigentes e da candidata.

Neste aspecto reproduzo como conclusão desta nota um parágrafo de um e-mail que recebi hoje de um jornalista conhecido que prefere ficar no anonimato: “Oi Luis, poucas certezas foram tão repetidas ontem à noite na TV quanto o encolhimento político da Marta. Blá-blá-Blá, não vou perder tempo. Bem, essa mesma turma disse que Marta estava morta ao perder a reeleição em 2004. E depois quando não foi escolhida candidata ao governo em 2006. E ainda quando disse o famoso ‘relaxa e goza’ no ano passado. É estranho que tantos analistas tão inteligentes, tão isentos, tão preocupados com a correção de suas previsões errem tanto. Talvez seja o fato de que 40% dos paulistanos não estão nem aí para o que eles dizem. Quem consegue a confiança de 2,5 milhões de paulistanos apenas com a sua militância…”

30/10/2008 – 12:34h

Ir além da aritmética eleitoral (III)

No começo do segundo turno da eleição municipal em São Paulo, em ato que contou com a participação de 11 ministros, Marta lançou um manifesto “Compromisso com São Paulo”.

Relendo esse manifesto percebo agora que ele não ocupou nenhum lugar na campanha e que provavelmente ele tenha chegado tarde demais. O manifesto, que reproduzo novamente aqui embaixo, deveria ter ocupado um lugar central no momento em que Marta aparecia com crescimento nas pesquisas no primeiro turno, enquanto o noticiário estava ocupado pela disputa brava entre Alckmin e Kassab.

Esse manifesto poderia ter balizado uma série de iniciativas em direção à sociedade civil e também em direção à setores das classes médias. O conjunto teria ampliado a base de apoio e o diálogo da candidata do PT, com provável desdobramento na queda da taxa de “rejeição”. As referências nesse documento à Carta ao povo brasileiro do então candidato Lula põe em evidência, na minha opinião, o erro de “timing” no lançamento deste manifesto e o lugar marginal que acabou ocupando esta orientação na própria campanha.

Esse erro político ma parece importante, porque a orientação do manifesto teria dado substância à linha de conquistar a maioria, intervindo assim na crise dos adversários. Ao contrário me parece que ficamos simplesmente aguardando que o eleitorado decidisse qual dos dois passaria para o segundo turno, sem apresentar uma alternativa aos eleitores de ambos e à franja de eleitores indecisos.

A questão da “rejeição” ao PT ou a seus candidatos não será resolvida com iniciativas só de marketing e sim por iniciativas políticas que rompam o “isolamento” (utilizo “isolamento” em relação a um percentual maior de eleitores, que a nossa base eleitoral de 30-40% que está longe de ser pouca coisa ou isolada).

Outro elemento crítico foram as conseqüências políticas do comercial que foi transformado pela mídia e nossos adversários em instrumento de paralisia e crise. O erro reconhecido por João Santana, de não ter detectado nenhuma carga particular nos grupos “qualis” e de não ter previsto o significado que a mídia colaria no mesmo, provém de uma subestimação do papel da mídia paulista como força política organizada em favor da direita. Basta pensar qual teria sido a opinião da própria candidata, se tivesse sido consultada antes, para perceber que as “qualis” não podem ter a palavra final quando as decisões incumbem à política.

Pensar que a mídia, tendo permanentemente feito campanha sobre a vida privada da Marta, não sairia em defesa de Kassab, é atribuir a ela “princípios éticos ou deontológicos”, que evidentemente ela não tem. Como duvido que alguém na campanha tenha esta ilusão, penso que o questionamento válido -ninguém sabe qual é a trajetória de Kassab-, levou à perguntas que serviram de pretexto para uma campanha anti-Marta. O erro é grave, paralisou a agenda da candidata durante vários dias e mesmo se não teve maior conseqüência no plano eleitoral, reforçou os argumentos contra o PT no curso final do pleito.

O conteúdo da famosa “rejeição” ao PT deve ser avaliado corretamente, recusando a manipulação da mídia. Esta manipulação se apóia no termo rejeição e sua ambigüidade. A pergunta que os institutos fazem é: “em quem o senhor (a) não votaria de jeito nenhum?”. Alguns institutos a formulam perguntando sobre o nome de cada candidato: “votaria, poderia votar, não votaria de jeito nenhum” seguido de cada nome; ou apresentando a tabela inteira com os nomes dos candidatos.

Nenhuma pergunta sobre a motivação é feita. O Datafolha não formulou esta questão no segundo turno, pois é pouco relevante na medida em que só tem dois candidatos e a “rejeição” é mais ou menos equivalente à decisão do voto (está determinado em votar em fulano).

A mídia e seus articulistas, anos a fio construíram em parte essa “rejeição” e, em relação a “rejeição” dos principais líderes do PT, forneceram e fornecem em permanência seus desejos, como conteúdo desta rejeição. Sem nenhuma base em pesquisas, anos a fio atribuíram à falta de diploma de Lula sua rejeição, ou ao fato de ser operário. Não que estes argumentos não existissem, mas eles eram reiterados e propagados com o intuito de serem transformados em barreira intransponível. Agindo assim a mídia procura destruir os dirigentes do PT, pois ela sabe que eles não se improvisam do dia para a noite. Se o fato dele ser operário, falar português com erros e não ter diploma motivou as três derrotas seguidas de Lula (1989-1994-1998), logicamente o PT deveria trocar de líder ou transformá-lo em alguém  ‘diplomado” (as duas coisas aconteceram, em 1999 alguns petistas começaram a organizar outro candidato e Eduardo Suplicy aconselhou Lula a fazer um curso nos Estados-Unidos).

Como Marta é “rejeitada” por ser mulher ou arrogante, divorciada de “senador querido”, casada com argentino, defender os gay’s, ser do PT, ser rica, ou defender os pobres…

Luis Favre

A seguir o documento Compromisso com São Paulo que foi publicado aqui no blog com o título “A palavra de Marta”

A palavra de Marta

 Compromisso com São Paulo

Quero agradecer de todo o coração a cada um dos mais de dois milhões de paulistanos que me deram sua confiança no primeiro turno destas eleições. E de tudo vou fazer para estar à altura deste apoio firme e caloroso.

Tenho certeza de que cada um desses votos vai se confirmar no próximo dia 26. Mas peço ainda um pouco mais a todos vocês: vamos trabalhar juntos, com garra e vitalidade, para que novos votos venham se somar aos nossos, no caminho para a vitória.

Nesses poucos dias que faltam para o momento decisivo, quero me comprometer com a população de São Paulo de que continuarei a fazer uma campanha sem ataques pessoais. Meu propósito é apresentar e debater propostas capazes de melhorar a vida de nosso povo.

Minha agenda vem desde o meu primeiro mandato. Com as coisas boas que fizemos na educação, nos transportes, na habitação, na saúde, na cultura e em nossas demais áreas de atuação. Até mesmo nossos tropeços, que reconheço com humildade, nos deram ensinamentos.

Depois da desastrosa experiência que atormentou São Paulo, ao longo da gestão de Celso Pitta, entendi que, para enfrentar o imenso desafio de reconstruir São Paulo, era necessária a união de todas as forças vivas da cidade. O apoio que recebi de Mário Covas e do PSDB, no segundo turno das eleições municipais de 2000, me fez ver que a união era possível e que poderíamos realizar um governo de reconstrução com a participação de todos. Isso só não se concretizou, na dimensão pretendida, por atropelos do processo das eleições presidenciais que se avizinhavam.

Mas em 2002, em sua Carta ao Povo Brasileiro, o então candidato Lula convocou o espírito da parceria e do consenso, assumindo compromissos que respondiam com clareza à vontade de união e mudança. Espírito e compromissos que dariam, em seguida, a marca de sua ação governamental. De que foi exemplo maior, desde logo, a criação do Conselho Econômico e Social, reunindo representantes de todos os setores sociais – para começarem juntos, sob a presidência de Lula, a construção de um novo caminho nacional.

Por esse caminho, o Brasil reencontrou o rumo do crescimento, da superação da dependência do FMI, da diminuição da pobreza, da geração de emprego e renda, da promoção da ascensão social e da ampliação de oportunidades educacionais para jovens de baixa renda. O avanço foi possível – e sensível – porque a disposição do presidente, no combate à desigualdade, se firmou na convergência do esforço de todos.

Não estou na disputa política para dividir. Mas, sim, para unir e construir. Não virão de mim apelos ao ódio, à destruição ou à rejeição de adversários. O que farei será mostrar com firmeza, ao povo de São Paulo, a alternativa que represento para a cidade. Seu voto indicará o destino que se deseja. E vou me empenhar para que tal destino coincida com o caminho que o presidente Lula traçou para o país.

Como primeiro passo no sentido da união de São Paulo, assumo aqui o compromisso de, se eleita, constituir um Conselho da Cidade. Um conselho de representantes de todos os segmentos da população. Das entidades representativas da sociedade civil, dos empresários e dos sindicalistas, do comércio e da universidade, das igrejas, da cultura, do esporte e dos usuários dos serviços públicos. Com um só objetivo: realizar uma cruzada – e canalizar o esforço de todos, a fim de enfrentar as questões mais cruciais do município, a começar pelo transporte coletivo.

Tenho apoio do presidente Lula para, na articulação das três instâncias de governo, construir 228 km de corredores de ônibus e 47 km de metrô, nos próximos quatro anos. Para, assim, dar um salto de qualidade na vida paulistana, superando um problema crítico que vem prejudicando fortemente a economia urbana e a saúde da cidade e do cidadão. E assim como, para combater a segregação dos mais carentes, o metrô deve chegar a mais lugares da periferia, me comprometo a não criar qualquer pedágio urbano, que atingiria em cheio os menos privilegiados, sem resolver o problema do trânsito, como já ficou demonstrado em grandes cidades do mundo.

Quero também assumir uma nova atitude na questão tributária. Os níveis recordes de arrecadação da prefeitura permitem um amplo programa de incentivos à produção e ao empreendedorismo, tão forte em nossa capital, com desoneração dos impostos municipais e desburocratização dos procedimentos. E reafirmar meu compromisso de isentar os profissionais liberais autônomos do pagamento do ISS.

Com a união de todos os setores sociais, poderemos projetar São Paulo na era digital. Segmentos empresariais da área de informática já manifestaram interesse em participar do programa de acesso gratuito à internet banda larga em nossa cidade. O governo federal assinou convênio para equipar, com esse fim, 800 escolas municipais. E pretendo combinar esta ação com investimento em qualificação profissional no espaço dos CEUs, que, com a construção de mais 20 unidades, irão configurar a Rede-CEU.

Uma outra ofensiva do governo de união por São Paulo deverá se desenvolver no campo da saúde, diante da realidade da falta de médicos e de atendimento em especialidades. Venho propondo a criação de 31 policlínicas na cidade, uma em cada subprefeitura. E quero agora incorporar, ao desenho dessa rede, a proposta de criação de centros de atendimento aos idosos, apresentada pelo candidato Geraldo Alckmin.

Para finalizar, quero dizer que, para governar São Paulo e superar a crise que estamos vivendo, será fundamental a mobilização de nossas melhores energias. A coragem de ousar e inovar, combinando planejamento e imaginação. Generosidade e rigor.

São Paulo precisa crescer. Mas crescer com inclusão social. Crescer em benefício de todos. E é para isso que a todos convoco, no sentido da construção de um governo de união por São Paulo. Um governo voltado para construir uma cidade melhor, mais forte e mais justa.

31/10/2008 - 11:22h Por trás do sorriso

Por Gustavo Krieger – coluna Nas Entrelinhas do Correio Braziliense (30/10/2008)

Até que ponto dá para confiar nos discursos da ressaca eleitoral? É bom ficar de pé atrás, especialmente no caso do PMDB


gustavokrieger.df@diariosassociados.com.br

A quarta-feira foi dia de fotografias no Palácio do Planalto. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou o seu melhor sorriso para receber um pequeno desfile de vencedores das eleições municipais. E seus padrinhos. O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), levou o candidato que elegeu na capital, o companheiro de partido Eduardo Paes. Os três posaram de mãos dadas, num gesto pensado para dar uma demonstração de união. Na saída, Cabral deu uma entrevista na qual verbalizou o alinhamento. “Em 2010, eu espero que PT e PMDB estejam unidos com o presidente Lula e em uma candidatura única à Presidência da República”, declarou. Bonito, mas até que ponto dá para confiar nesses discursos da ressaca eleitoral? É sempre bom ficar de pé atrás, especialmente no caso do PMDB.

Ao mesmo tempo em que Eduardo Paes dedicava sua vitória ao presidente Lula, o prefeito reeleito pelo PMDB em Porto Alegre, José Fogaça, adotou um discurso diferente. Questionado sobre o possível apoio do partido a um candidato do PT à sucessão de Lula, desconversou: “O PMDB não pode ficar a reboque de ninguém em 2010”, disse. Quando lhe perguntaram o que ele achava da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, que vem sendo preparada pelo presidente como sua sucessora, foi irônico. “Dilma é uma excelente candidata”, disse. “Mas a deputada Maria do Rosário (candidata do PT à prefeitura de Porto Alegre) também era e eu concorri contra ela. E votei em mim”, provocou.

Qual o PMDB que sai fortalecido das urnas? O de Fogaça ou de Paes e Sérgio Cabral? A resposta não é simples. Os dois ganharam, mas é cedo para saber qual será a cara do partido em 2010. Até porque será necessário incluir na conta outros PMDBs. Como o de Geddel Vieira Lima, que pilotou a reeleição de João Henrique em Salvador. E cada seção regional tem seus próprios enigmas.

Geddel sintetiza essa metamorfose ambulante. No primeiro mandato de Lula, foi um dos principais críticos do governo no Congresso. Dirigiu ao presidente adjetivos que não fica bem lembrar. No segundo mandato é ministro. E ministro importante. A conversão de Geddel ao lulismo se deu por razões locais. Em 2006, alinhou-se ao PT para eleger Jaques Wagner ao governo do estado e derrotar seu arquiinimigo, Antônio Carlos Magalhães (DEM). “A Bahia é meu mundo”, costuma dizer. Valorizado pela aliança e em lua-de-mel com Wagner, ganhou o Ministério da Integração Nacional. No comando da pasta, foi fundamental para atrair os deputados do PMDB para a sombra do governo.

Mas o mundo mudou na Bahia. O PT, que havia entrado na administração de João Henrique em Salvador como um efeito colateral do acordo de 2006, rompeu com o prefeito e lançou candidatura própria. Geddel ficou fulo. Passou a xingar os petistas em geral e o governador em particular. Os dois partidos se enfrentaram no segundo turno. O PMDB venceu, com o apoio do DEM do deputado ACM Neto, herdeiro político do grande rival da eleição anterior. Agora, passada a briga, Geddel e Wagner ensaiam uma reaproximação.

Que apito Geddel tocará em 2010? Pela lógica, um ministro deveria fechar com as articulações do presidente. Mas Lula deixará de ser presidente após as eleições e o peemedebista é conhecido por pensar no futuro. Ele nunca interrompeu as boas conversas com o governador de São Paulo, José Serra, que deve ser o candidato tucano à Presidência. Como estarão as relações políticas na Bahia em dois anos? Tudo está em aberto.

Sérgio Cabral disse ontem que o PMDB nunca esteve tão bem como partido e associou o momento positivo à aproximação com o governo Lula. É verdade. O partido vinha perdendo prefeituras a cada eleição. Este ano reverteu a tendência, cresceu e se reafirmou como a maior legenda do país. É claro que na lista de eleitos há nomes como Fogaça, que venceu mesmo com o presidente Lula tendo gravado uma mensagem pedindo votos para sua adversária. Mas há centenas de outros, eleitos ou reeleitos nos grotões do país, impulsionados pelo Bolsa Família ou pelo crescimento da economia.

O governo Lula fez bem ao PMDB. Mais bem a alguns como Cabral que, alinhados publicamente ao Planalto, foram bem aquinhoados com verbas e projetos federais. Mas o partido como um todo beneficiou-se da popularidade do governo que apóia. O problema, como já disse, é que o governo Lula tem prazo de validade e esse prazo se encerra com as eleições de 2010. Se quiser manter o PMDB unido e a seu lado, Lula terá de oferecer à legenda mais do que fatias do poder. Terá de garantir a possibilidade de continuar no poder depois das eleições.

30/10/2008 - 12:34h Ir além da aritmética eleitoral (III)

No começo do segundo turno da eleição municipal em São Paulo, em ato que contou com a participação de 11 ministros, Marta lançou um manifesto “Compromisso com São Paulo”.

Relendo esse manifesto percebo agora que ele não ocupou nenhum lugar na campanha e que provavelmente ele tenha chegado tarde demais. O manifesto, que reproduzo novamente aqui embaixo, deveria ter ocupado um lugar central no momento em que Marta aparecia com crescimento nas pesquisas no primeiro turno, enquanto o noticiário estava ocupado pela disputa brava entre Alckmin e Kassab.

Esse manifesto poderia ter balizado uma série de iniciativas em direção à sociedade civil e também em direção à setores das classes médias. O conjunto teria ampliado a base de apoio e o diálogo da candidata do PT, com provável desdobramento na queda da taxa de “rejeição”. As referências nesse documento à Carta ao povo brasileiro do então candidato Lula põe em evidência, na minha opinião, o erro de “timing” no lançamento deste manifesto e o lugar marginal que acabou ocupando esta orientação na própria campanha.

Esse erro político ma parece importante, porque a orientação do manifesto teria dado substância à linha de conquistar a maioria, intervindo assim na crise dos adversários. Ao contrário me parece que ficamos simplesmente aguardando que o eleitorado decidisse qual dos dois passaria para o segundo turno, sem apresentar uma alternativa aos eleitores de ambos e à franja de eleitores indecisos.

A questão da “rejeição” ao PT ou a seus candidatos não será resolvida com iniciativas só de marketing e sim por iniciativas políticas que rompam o “isolamento” (utilizo “isolamento” em relação a um percentual maior de eleitores, que a nossa base eleitoral de 30-40% que está longe de ser pouca coisa ou isolada).

Outro elemento crítico foram as conseqüências políticas do comercial que foi transformado pela mídia e nossos adversários em instrumento de paralisia e crise. O erro reconhecido por João Santana, de não ter detectado nenhuma carga particular nos grupos “qualis” e de não ter previsto o significado que a mídia colaria no mesmo, provém de uma subestimação do papel da mídia paulista como força política organizada em favor da direita. Basta pensar qual teria sido a opinião da própria candidata, se tivesse sido consultada antes, para perceber que as “qualis” não podem ter a palavra final quando as decisões incumbem à política.

Pensar que a mídia, tendo permanentemente feito campanha sobre a vida privada da Marta, não sairia em defesa de Kassab, é atribuir a ela “princípios éticos ou deontológicos”, que evidentemente ela não tem. Como duvido que alguém na campanha tenha esta ilusão, penso que o questionamento válido -ninguém sabe qual é a trajetória de Kassab-, levou à perguntas que serviram de pretexto para uma campanha anti-Marta. O erro é grave, paralisou a agenda da candidata durante vários dias e mesmo se não teve maior conseqüência no plano eleitoral, reforçou os argumentos contra o PT no curso final do pleito.

O conteúdo da famosa “rejeição” ao PT deve ser avaliado corretamente, recusando a manipulação da mídia. Esta manipulação se apóia no termo rejeição e sua ambigüidade. A pergunta que os institutos fazem é: “em quem o senhor (a) não votaria de jeito nenhum?”. Alguns institutos a formulam perguntando sobre o nome de cada candidato: “votaria, poderia votar, não votaria de jeito nenhum” seguido de cada nome; ou apresentando a tabela inteira com os nomes dos candidatos.

Nenhuma pergunta sobre a motivação é feita. O Datafolha não formulou esta questão no segundo turno, pois é pouco relevante na medida em que só tem dois candidatos e a “rejeição” é mais ou menos equivalente à decisão do voto (está determinado em votar em fulano).

A mídia e seus articulistas, anos a fio construíram em parte essa “rejeição” e, em relação a “rejeição” dos principais líderes do PT, forneceram e fornecem em permanência seus desejos, como conteúdo desta rejeição. Sem nenhuma base em pesquisas, anos a fio atribuíram à falta de diploma de Lula sua rejeição, ou ao fato de ser operário. Não que estes argumentos não existissem, mas eles eram reiterados e propagados com o intuito de serem transformados em barreira intransponível. Agindo assim a mídia procura destruir os dirigentes do PT, pois ela sabe que eles não se improvisam do dia para a noite. Se o fato dele ser operário, falar português com erros e não ter diploma motivou as três derrotas seguidas de Lula (1989-1994-1998), logicamente o PT deveria trocar de líder ou transformá-lo em alguém  ‘diplomado” (as duas coisas aconteceram, em 1999 alguns petistas começaram a organizar outro candidato e Eduardo Suplicy aconselhou Lula a fazer um curso nos Estados-Unidos).

Como Marta é “rejeitada” por ser mulher ou arrogante, divorciada de “senador querido”, casada com argentino, defender os gay’s, ser do PT, ser rica, ou defender os pobres…

Luis Favre

A seguir o documento Compromisso com São Paulo que foi publicado aqui no blog com o título “A palavra de Marta”

A palavra de Marta

 Compromisso com São Paulo

Quero agradecer de todo o coração a cada um dos mais de dois milhões de paulistanos que me deram sua confiança no primeiro turno destas eleições. E de tudo vou fazer para estar à altura deste apoio firme e caloroso.

Tenho certeza de que cada um desses votos vai se confirmar no próximo dia 26. Mas peço ainda um pouco mais a todos vocês: vamos trabalhar juntos, com garra e vitalidade, para que novos votos venham se somar aos nossos, no caminho para a vitória.

Nesses poucos dias que faltam para o momento decisivo, quero me comprometer com a população de São Paulo de que continuarei a fazer uma campanha sem ataques pessoais. Meu propósito é apresentar e debater propostas capazes de melhorar a vida de nosso povo.

Minha agenda vem desde o meu primeiro mandato. Com as coisas boas que fizemos na educação, nos transportes, na habitação, na saúde, na cultura e em nossas demais áreas de atuação. Até mesmo nossos tropeços, que reconheço com humildade, nos deram ensinamentos.

Depois da desastrosa experiência que atormentou São Paulo, ao longo da gestão de Celso Pitta, entendi que, para enfrentar o imenso desafio de reconstruir São Paulo, era necessária a união de todas as forças vivas da cidade. O apoio que recebi de Mário Covas e do PSDB, no segundo turno das eleições municipais de 2000, me fez ver que a união era possível e que poderíamos realizar um governo de reconstrução com a participação de todos. Isso só não se concretizou, na dimensão pretendida, por atropelos do processo das eleições presidenciais que se avizinhavam.

Mas em 2002, em sua Carta ao Povo Brasileiro, o então candidato Lula convocou o espírito da parceria e do consenso, assumindo compromissos que respondiam com clareza à vontade de união e mudança. Espírito e compromissos que dariam, em seguida, a marca de sua ação governamental. De que foi exemplo maior, desde logo, a criação do Conselho Econômico e Social, reunindo representantes de todos os setores sociais – para começarem juntos, sob a presidência de Lula, a construção de um novo caminho nacional.

Por esse caminho, o Brasil reencontrou o rumo do crescimento, da superação da dependência do FMI, da diminuição da pobreza, da geração de emprego e renda, da promoção da ascensão social e da ampliação de oportunidades educacionais para jovens de baixa renda. O avanço foi possível – e sensível – porque a disposição do presidente, no combate à desigualdade, se firmou na convergência do esforço de todos.

Não estou na disputa política para dividir. Mas, sim, para unir e construir. Não virão de mim apelos ao ódio, à destruição ou à rejeição de adversários. O que farei será mostrar com firmeza, ao povo de São Paulo, a alternativa que represento para a cidade. Seu voto indicará o destino que se deseja. E vou me empenhar para que tal destino coincida com o caminho que o presidente Lula traçou para o país.

Como primeiro passo no sentido da união de São Paulo, assumo aqui o compromisso de, se eleita, constituir um Conselho da Cidade. Um conselho de representantes de todos os segmentos da população. Das entidades representativas da sociedade civil, dos empresários e dos sindicalistas, do comércio e da universidade, das igrejas, da cultura, do esporte e dos usuários dos serviços públicos. Com um só objetivo: realizar uma cruzada – e canalizar o esforço de todos, a fim de enfrentar as questões mais cruciais do município, a começar pelo transporte coletivo.

Tenho apoio do presidente Lula para, na articulação das três instâncias de governo, construir 228 km de corredores de ônibus e 47 km de metrô, nos próximos quatro anos. Para, assim, dar um salto de qualidade na vida paulistana, superando um problema crítico que vem prejudicando fortemente a economia urbana e a saúde da cidade e do cidadão. E assim como, para combater a segregação dos mais carentes, o metrô deve chegar a mais lugares da periferia, me comprometo a não criar qualquer pedágio urbano, que atingiria em cheio os menos privilegiados, sem resolver o problema do trânsito, como já ficou demonstrado em grandes cidades do mundo.

Quero também assumir uma nova atitude na questão tributária. Os níveis recordes de arrecadação da prefeitura permitem um amplo programa de incentivos à produção e ao empreendedorismo, tão forte em nossa capital, com desoneração dos impostos municipais e desburocratização dos procedimentos. E reafirmar meu compromisso de isentar os profissionais liberais autônomos do pagamento do ISS.

Com a união de todos os setores sociais, poderemos projetar São Paulo na era digital. Segmentos empresariais da área de informática já manifestaram interesse em participar do programa de acesso gratuito à internet banda larga em nossa cidade. O governo federal assinou convênio para equipar, com esse fim, 800 escolas municipais. E pretendo combinar esta ação com investimento em qualificação profissional no espaço dos CEUs, que, com a construção de mais 20 unidades, irão configurar a Rede-CEU.

Uma outra ofensiva do governo de união por São Paulo deverá se desenvolver no campo da saúde, diante da realidade da falta de médicos e de atendimento em especialidades. Venho propondo a criação de 31 policlínicas na cidade, uma em cada subprefeitura. E quero agora incorporar, ao desenho dessa rede, a proposta de criação de centros de atendimento aos idosos, apresentada pelo candidato Geraldo Alckmin.

Para finalizar, quero dizer que, para governar São Paulo e superar a crise que estamos vivendo, será fundamental a mobilização de nossas melhores energias. A coragem de ousar e inovar, combinando planejamento e imaginação. Generosidade e rigor.

São Paulo precisa crescer. Mas crescer com inclusão social. Crescer em benefício de todos. E é para isso que a todos convoco, no sentido da construção de um governo de união por São Paulo. Um governo voltado para construir uma cidade melhor, mais forte e mais justa.

29/10/2008 - 12:30h PMDB quer de Kassab a CET, que controla R$ 700 milhões

Getúlio Hanashiro, ex-secretário de Pitta e Maluf, é sugerido para estatal ou SPTrans

Silvia Amorim, Ricardo Brandt e Roberto Almeida – O Estado SP

http://oglobo.globo.com/fotos/2008/01/04/04_MVG_sp_motocet.jpg

O PMDB, peça decisiva na reeleição do prefeito Gilberto Kassab (DEM), está de olho no comando de duas grandes empresas da prefeitura na próxima gestão: a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) ou a São Paulo Transporte (SPTrans), que terão orçamentos de R$ 700 milhões ou R$ 1,3 bilhões, respectivamente, em 2009. Os peemedebistas já apontam Getúlio Hanashiro, ex-secretário de Transporte nas gestões Celso Pitta e Paulo Maluf, como um indicado a assumir qualquer uma delas.

A aliança com o PMDB, que indicou a vice Alda Marco Antônio na chapa, garantiu a Kassab o maior tempo de propaganda no rádio e na TV no primeiro turno, 8 minutos e 44 segundos, o que facilitou o trabalho do marketing na tarefa de transformar a aprovação de governo em votos.

Apesar do acordo feito com o ex-governador Orestes Quércia, de que a aliança seria condicionada ao apoio a seu nome como candidato ao Senado em 2010, o plano inicial do PMDB era conseguir a Secretaria de Transportes. Mas após a declaração de anteontem de Kassab confirmando a permanência do titular, Alexandre de Moraes, na pasta os peemedebistas já pensam num plano B.

Ontem, uma das lideranças da sigla procurou agendar uma primeira conversa oficial com o prefeito sobre a participação do PMDB no governo. A expectativa é de que a reunião seja marcada para esta semana.

O presidente municipal do PMDB em São Paulo, Bebeto Haddad, disse que “nada foi pedido e nem será” a Kassab, mas não escondeu o interesse do partido em atuar em áreas onde possam pensar “políticas para a cidade”. “Claro que o partido tem expectativas. Ninguém entra para uma eleição sem vontade de estar junto numa administração”, afirmou. “Não vinculamos nosso acordo de aliança a isso. Mas temos, sim, expectativas de sermos convidados para alguma coisa.”

O nome da vice de Kassab também tem sido mencionado para a pasta de Assistência e Desenvolvimento Social, mas Alda, que comandou a mesma secretaria no governo Pitta, teria dito ao partido que não tem interesse em reassumi-la.

MAIS FATURAS

Outro aliado, o PV, também apresentará a fatura da eleição quando for chamado por Kassab. O partido, que já tem a Secretaria do Meio Ambiente, pede agora a pasta de Esportes, hoje comandada pelo tucano Walter Feldman.

Quer ainda maior controle na Subprefeitura da Lapa, com a troca do subprefeito, uma vez que perderá a Subprefeitura de Parelheiros. Mira também a Subprefeitura da Mooca. Kassab teria ficado descontente com o desempenho do atual subprefeito de Parelheiros, Walter Tesch, filiado ao PV, por causa da inexpressiva votação que teve na região. Marta Suplicy (PT) recebeu 76% dos votos válidos e ele, 23%. Essa é a primeira movimentação dada como certa para a próxima administração. Vereadores que atuam na zona sul, como Goulart (PMDB) e Milton Leite (DEM), esperavam a mudança.

O PPS, que já integra o governo comandando a Secretaria de Serviços e ocupando cargos no segundo escalão, espera uma posição de Kassab sobre a entrada da candidata derrotada à prefeitura Soninha Francine no governo. Vereadora, ela ficará sem cargo público a partir de janeiro.

O presidente municipal do PPS, Carlos Fernandes, espera um movimento do prefeito, mas não apresentará pedidos específicos de pastas. “Ainda não fomos procurados por ninguém, mas acreditamos que, até a próxima semana, seja marcada uma conversa.”

Kassab nega que tenha acertado qualquer mudança em seu secretariado. Mas sabe que terá um desafio pela frente para acomodar os aliados que embarcam agora na prefeitura (PMDB e PR) e os antigos parceiros (PV e PPS) que esperam uma maior participação.

Para abrigar todos, Kassab terá que trocar algumas cadeiras dentro do primeiro escalão. Isso significa que o PSDB, o seu aliado mais importante, deverá perder espaço.

Hoje os tucanos controlam 10 das 22 secretarias municipais. O DEM, partido do prefeito, tem apenas 5.

Dois nomes que devem deixar suas pastas são Ricardo Dias Leme, Negócios Jurídicos, e Andrea Matarazzo, Subprefeituras. No caso do segundo, porém, a troca estaria condicionada ao aval do governador José Serra (PSDB).

Para Negócios Jurídicos ainda não se fala em nomes, mas no caso da Secretaria de Subprefeituras, um dos possíveis substitutos seria o atual secretário de Esportes, Walter Feldman – um dos maiores defensores da reeleição de Kassab dentro do PSDB. Há especulações de que ele poderia assumir a Secretaria de Saúde, no lugar de Januário Montone, que iria para a mesma pasta no governo do Estado. Do aeroporto, minutos antes de embarcar para uma viagem de 10 dias ao Japão, Feldman negou a pretensão de trocar de pasta e disse não ter ouvido qualquer palavra do prefeito sobre o assunto.

29/10/2008 - 11:45h Aliança para 2010 pode de novo isolar Alckmin

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http://g1.globo.com/Noticias/Politica/foto/0,,14506507-EX,00.jpg

Tendência é PSDB atrair PMDB de Quércia, que ex-governador rechaçou

Christiane Samarco, BRASÍLIA – O Estado SP

A engenharia eleitoral do arco de alianças que conduziu Gilberto Kassab à reeleição em São Paulo já desenha um novo projeto político que – mais uma vez – escanteará o ex-governador tucano Geraldo Alckmin do palco principal. Fiador da aliança do DEM com o PSDB e negociador do ingresso do PMDB de Orestes Quércia na aliança vitoriosa de Kassab, o secretário de Emprego e Relações de Trabalho, Afif Domingos, ganhou musculatura para ambicionar dois projetos, ambos conflitantes com os interesses de Alckmin.

Na primeira hipótese, o DEM quer fazer de Afif o candidato ao Palácio do Bandeirantes. No segundo cenário, que o PSDB considera mais provável, Afif seria vice de um tucano indicado pelo governador José Serra (PSDB). A aposta geral nos dois partidos é de que este tucano não será Alckmin.

Líderes e dirigentes do DEM avaliam que, ao deixar o caminho ao Senado livre para Quércia, o secretário de Serra, que por pouco não venceu o PT do senador Eduardo Suplicy (SP) em 2006, pode ser o ungido para disputar o Palácio dos Bandeirantes.

A cúpula do DEM está certa de que, na pior hipótese, Afif já é, hoje, o candidato a vice na chapa do PSDB. Ninguém tem dúvidas de que, estando fora da prefeitura da capital, o PSDB vai pôr empenho máximo no projeto de manter o governo de São Paulo sob seu comando.

Isto, é claro, no cenário de Serra trocar o projeto da reeleição pela disputa presidencial.

PERFIL SOB MEDIDA

No entanto, o entendimento geral é de que o PSDB vai investir em um perfil que possa facilitar a composição nacional com o PMDB, a partir de São Paulo. Neste caso, o DEM acredita que não haveria lugar para um Alckmin, que recusou aliança com Quércia. A opção estaria mais para Aloysio Nunes Ferreira, o chefe da Casa Civil de Serra que, em 1992, foi candidato à Prefeitura de São Paulo pelo PMDB.

Seja qual for o cenário, tucanos e representantes do DEM paulista que acompanharam de perto a eleição municipal crêem que a maior pedra no caminho de Alckmin daqui a dois anos será o próprio Kassab.

O raciocínio neste caso é de que o prefeito terá se fortalecido ainda mais até se sentar à mesa de negociação para compor o xadrez de 2010. A seu favor, pesa o fato de que ele poderá ser o único negociador com mais dois anos de mandato pela frente.

Mais do que isso, pesa a animosidade entre Kassab e Alckmin, que é bem anterior à eleição. Tucanos e membros do DEM mais próximos do prefeito comentam hoje, nos bastidores, que Kassab quer “ver o diabo”, mas não Alckmin à sua frente.

Lembram que os problemas começaram quando o deputado estadual Rodrigo Garcia, do então PFL, foi eleito presidente da Assembléia Legislativa de São Paulo, ainda em março de 2005. Em conversas reservadas, Kassab jura que o governador Alckmin participou da articulação para eleger Garcia, sem lhe dar conhecimento, e ainda o acusou de traição.

Até hoje o prefeito se queixa da “falsidade”. Diz que foi traído e, pior, saiu do episódio com fama de traidor.

Um dirigente do DEM que acompanhou aquele momento avalia que Kassab usará toda a sua força política para evitar uma candidatura Alckmin ao governo.

29/10/2008 - 10:52h Com Lula no poder, oposição perde 910 prefeituras

DEM é partido mais ‘desidratado’ da era petista e deixou de controlar 532 municípios em relação a 2000, quando ainda se chamava PFL

 Clique na imagem para ampliar e ver o quadro

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Marcelo de Moraes – O Estado SP

O período de poder do presidente Luiz Inácio Lula da Silva representou uma desidratação municipal dos partidos de oposição. Em relação ao mapa eleitoral municipal de 2000, quando o tucano Fernando Henrique Cardoso ainda era o presidente, PSDB, DEM e PPS, atualmente as principais legendas da oposição, já encolheram em 910 prefeituras. A maior redução aconteceu com o DEM, que deve comandar a partir do próximo ano 532 cidades a menos do que fazia em 2000, quando ainda se chamava PFL.

Esses números apontam claramente a volatilidade da política nacional, onde grande parte dos políticos se alia automaticamente aos principais núcleos de poder do País, independentemente de ideologia.

Assim, o PMDB, que se manteve na base de sustentação do governo federal durante as gestões de Fernando Henrique e de Lula, conseguiu preservar nos últimos anos sua condição de partido com o maior número de prefeituras. Enquanto era aliado de Fernando Henrique em 2000, os peemedebistas conquistaram a gestão de 1.257 cidades.

Na eleição seguinte, em 2004, houve uma queda por conta da demora do partido em aderir completamente ao novo governo petista. O PMDB perdeu 200 prefeituras, mas mesmo assim ainda venceu em 1.057 cidades. Agora, completamente afinado com o governo Lula, o partido voltou a se fortalecer, com vitórias em 1.203 municípios.

DECLÍNIO

Para a oposição, ao contrário, o afastamento do Palácio do Planalto significou a redução de sua capilaridade municipal. Em 2000, quando ocupava a Vice-Presidência da República e era o segundo partido mais forte do governo Fernando Henrique, o então PFL ganhou em 1.028 cidades. Quatro anos depois, caiu para 790. Desde então, já com o nome novo e um discurso muito forte de oposição ao governo federal, a queda foi mais drástica ainda, com a vitória em apenas 496 cidades, embora tenha vencido em São Paulo – a maior de todas. Um desempenho pior, por exemplo, que o modesto e governista PP, que ganhou em 549 municípios.

O comando nacional do DEM atribui também essa queda à suposta cooptação feita pelo governo federal sobre os quadros do partido. Segundo o presidente nacional do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), somente a adoção do princípio da fidelidade partidária – que puniu os infiéis com a perda de mandato – foi capaz de frear a sangria nos quadros do partido.

Entre os tucanos, a queda foi menos sensível até por conta dos importantes governos regionais controlados pelo partido, como São Paulo e Minas Gerais, e pela expectativa de poder para a sucessão presidencial de 2010. Afinal, o partido tem hoje nos governadores de São Paulo, José Serra, e de Minas, Aécio Neves, dois nomes com grande potencial político para disputar a sucessão de Lula. Mesmo assim, os tucanos perderam 204 cidades desde 2000.

PPS

Menor dos três partidos de oposição, o PPS também sentiu na pele os efeitos de ser ou não aliado do governo. Em 2000, tinha 166 prefeituras. Embora tivesse candidato à Presidência em 2002, com Ciro Gomes, sua direção mantinha boa relação com o governo Fernando Henrique.

Com a vitória de Lula, o PPS se juntou à base aliada, ganhando o Ministério da Integração Nacional, entregue justamente a Ciro, e outros cargos importantes. Assim, saltou em 2004 para 306 prefeituras. Mas o PPS rompeu com o governo nesse mesmo ano e Ciro acabou se mudando para o governista PSB. Na oposição, o PPS voltou a encolher, caindo agora para 132 prefeituras.

29/10/2008 - 09:20h “A direita tem um enraizamento muito forte na cidade”, diz Gilberto Carvalho em entrevista ao Valor

“Kassab teve a competência de exibir bem os repasses de Lula”, diz Carvalho

César Felício, VALOR

Para Gilberto Carvalho, chefe de gabinete pessoal de Lula,
Marta mantém-se forte:
“Politicamente, passei a admirá-la mais”

Foto Lula Marques/Folha Imagem
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Chefe de gabinete pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Gilberto Carvalho sempre foi um dos dirigentes petistas mais próximos do presidente. Este mês, afastou-se de Brasília por dez dias para participar da reta final da campanha de Marta Suplicy à Prefeitura de São Paulo, no segundo turno. O gesto foi interpretado por aliados e adversários da ex-ministra como um sinal de que Carvalho está escalado pelo próprio presidente para concorrer à presidência nacional do PT em novembro do próximo ano, assumindo assim a coordenação das alianças do partido para 2010. E, pela sua identificação com Lula, entraria na disputa com uma gama de apoios muito maior do que a corrente do antigo Campo Majoritário, desde 2005 denominado “Construindo um Novo Brasil”.

Carvalho não afasta a possibilidade de concorrer, mas frisa em entrevista por telefone ao Valorque as articulações pelo seu nome não partem do Palácio do Planalto. O chefe de gabinete pessoal de Lula lembra que transita dentro do partido uma proposta para que o mandato da atual Executiva nacional, chefiada pelo deputado Ricardo Berzoini (SP), seja prorrogado até 2011.

Natural de Londrina, Carvalho foi seminarista na juventude e teve no Paraná a sua única experiência eleitoral, ao concorrer sem sucesso à Câmara dos Deputados em 1986. Do time de primeiro escalão escolhido pelo presidente da República em 2003, para gravitar em torno de seu gabinete, Carvalho é o único que se mantém no Planalto.

A seguir, a entrevista ao Valor:

Valor: O senhor é citado por diversas alas do PT como um nome que poderia ser quase consensual para assumir a presidência do partido em 2009. Pode haver, pela 1ª vez, uma escolha sem disputa?

Gilberto Carvalho: Fui consultado por um grupo de deputados sobre a possibilidade de ser candidato. Tenho um compromisso com o presidente da República até o final de 2010. Esta história de presidir o partido surgiu agora e eu teria que deixar o governo, o que não está na minha perspectiva. Preciso falar com aquele rapaz que me paga o salário. Preciso levar o assunto ao presidente. Não vou postular a vaga, não é meu projeto. Agora, sou um filho do PT e não posso me furtar a contribuir com o partido.

Valor: Mas o nome do senhor seria uma forma de evitar disputas?


Carvalho:
Seria arrogância de minha parte colocar que só aceitaria ser candidato se unisse o partido, isto é muito pretensioso. No PT nunca existiu unanimidade, o que é uma virtude do partido.

Valor: Alguns colocam que a adesão a seu nome decorre de o senhor ser o dirigente mais identificado com o presidente. Confere?

Carvalho: Ser próximo do presidente, como de fato sou, não é uma condição importante para ser presidente do PT, não credencia só por si. Pelo contrário: o eleito, quem quer que seja, tem que exercer uma autonomia em relação ao governo para representar o pensamento médio dentro do partido. E neste sentido entra às vezes em contradição com o presidente da República. O PT tem que ser a consciência crítica do governo. Presidir o PT neste sentido é honra enorme e dificuldade extraordinária.

Valor: Como o senhor avalia a derrota da candidata Marta Suplicy em São Paulo?

Carvalho: Atendi a uma demanda da coordenação de campanha da Marta no segundo turno, em um quadro que já era de muita dificuldade, em função do resultado no primeiro turno. Tirei dez dias de férias e o presidente assentiu, mas ninguém esperava que com minha vinda o quadro se revertesse. Todos tínhamos exata consciência da gravidade. O Kassab construiu este resultado com muita antecedência ao processo eleitoral. Deslocaram para ele a estrutura de marketing do José Serra e trabalharam bem os elementos que davam a ele rejeição alta, procurando melhorar a sua avaliação de governo. Ainda por cima houve uma onda de reeleição dos atuais prefeitos em todo o País. Ironicamente, o governo federal ajudou na eleição de Kassab.

Valor: Por que?

Carvalho: Porque o presidente não discriminou São Paulo, repassou muitos recursos e o Kassab teve competência de exibir bem a aplicação destes recursos. O cidadão em todo Brasil não vota por ideologia, vota pelas motivações de seu dia a dia. Mas no caso paulistana houve uma união de forças políticas em torno do prefeito. Eu sempre lembro que em 2006 o Lula perdeu em São Paulo para o Alckmin no primeiro e no segundo turno. A direita tem um enraizamento muito forte na cidade.

Valor: A rejeição à Marta e ao PT não colaborou para o resultado?

Carvalho: Esta rejeição foi construída há muitos anos, e trabalhada agora com habilidade pelos adversários e alguns erros nossos. A imagem negativa da Marta é trabalhada desde a separação dela de Eduardo Suplicy, em 2001. Quando chegou agora eles não precisaram abordar este tema nem subliminarmente, porque não era mais necessário. Mas não deixaram de realizar uma campanha negativa muito agressiva, com os comerciais no rádio sobre a “Dona Marta em Paris”. A campanha deles para aumentar a rejeição de Marta foi muito dura. Por todos estes fatores eu acho que a Marta teve um desempenho muito bom. Politicamente, passei a admirá-la mais.

Valor: O senhor não acha que ela sai enfraquecida no PT, em função das sucessivas derrotas?


Carvalho:
Não. Cada eleição tem uma circunstância. Derrotas sucessivas não acontecem pela mesma razão. A Marta sai bastante forte no PT pela campanha que fez e vamos ver agora qual será o cenário para 2010. É bastante prematuro procurar imaginar qual será o papel que Marta jogará. Mas construir um quadro político e eleitoral não é fácil. Precisamos preservar o patrimônio que já temos.

Valor: É preciso pensar duas vezes antes de lançar nome novo em disputa majoritária?

Carvalho: Sem dúvida alguma. Duas vezes e mais duas. A construção de uma liderança eleitoral é difícil, é complexa.

Valor: O PT sofreu derrota surpreendente em Santo André, depois de ter quase vencido no primeiro turno. Como se explica este resultado?

Carvalho: Por um lado, houve fadiga de material. Com uma interrupção, o PT está no poder na cidade desde 1988. Do outro, evidentemente, as prévias que foram disputadas no ano passado, pelo seu grau de dureza, deixaram marcas. O secretariado do prefeito João Avamileno entregou os cargos. O partido se unificou depois, mas muitos foram para São Bernardo do Campo, trabalhar na eleição de Luiz Marinho. Figuras centrais para o partido na cidade, como Miriam Belchior, ficaram em Brasília. Além disso, o adversário Aidan Ravin (PTB) foi competente em conseguir apoio do governo de São Paulo, por meio do deputado estadual Campos Machado, e deu uma arrancada extraordinária na campanha, passando do terceiro lugar nas pesquisas para a vitória no segundo turno. Agora, é verdade que o Vanderlei Siraque praticamente ganhou no primeiro turno e a derrota deve-se, portanto, a acontecimentos da própria campanha e não a razões de fundo. Esta derrota em Santo André é um aprendizado que precisamos fazer.

28/10/2008 - 17:12h União contra Marta visa 2010, diz petista


rui_falcao3.jpgRui Falcão minimiza rejeição a ex-prefeita e afirma que forças políticas se uniram “tentando provocar reflexos nacionais’

Coordenador critica mídia e o uso da máquina municipal e diz que campanha petista valorizou suas propostas a ponto de Kassab copiá-las

CONRADO CORSALETTE
DA REPORTAGEM LOCAL
RANIER BRAGON
EM SÃO PAULO

O deputado estadual Rui Falcão (PT), 64, diz que Marta Suplicy foi derrotada no domingo não pela rejeição que enfrenta, mas pela “união de forças políticas” com vistas às eleições de 2010. Vice na chapa reeleitoral de Marta e secretário de Governo de sua gestão (2001-2004), Falcão foi um dos coordenadores desta campanha, mas diz fazer uma avaliação pessoal. Para ele, o uso da máquina, a mídia e a Justiça Eleitoral também contribuíram para a derrota.

FOLHA – Por que Marta perdeu?
RUI FALCÃO
- Duas grandes lideranças foram derrubadas nesta eleição: Marta e Geraldo Alckmin. O governador José Serra também, pois apoiou Alckmin.

FOLHA – Só formalmente.
FALCÃO
- Ele gravou na TV, disse que apoiava o candidato do seu partido, o PSDB, então nós temos de acreditar na palavra dele. O aspecto principal é que houve, nacionalmente, a tendência de continuidade administrativa. A política econômica do governo Lula fez parte dos municípios reconduzirem seus prefeitos ao poder.

FOLHA – O marketing da campanha de Marta errou?
FALCÃO
- Não. Foi uma campanha competente, que valorizou propostas do PT. Elas foram explicitadas com clareza a tal ponto de Kassab copiá-las.

FOLHA – Então por que Marta perdeu votos em relação a 2004?
FALCÃO
- Se pegarmos a votação do primeiro turno, ganhamos em quase todos os lugares que tínhamos ganho na eleição passada. O que ocorreu agora é que se somaram as duas principais forças do outro lado, com votos de Maluf, contra Marta.

FOLHA – O PT tem uma reflexão sobre a rejeição ao partido e a Marta?
FALCÃO
- O problema não é a rejeição. O que houve foi uma união de forças políticas para nos derrotar na cidade mais importante do país tentando provocar reflexos nacionais.
Acho que precisamos analisar o resultado, ver a própria inserção do PT na cidade. Falta uma compreensão maior da complexidade do eleitor paulistano.

FOLHA – Pela lógica que o sr. apresenta, a derrota era inevitável?
FALCÃO
- Não. O que disse aqui foi que as forças poderosas se uniram contra nós, foram duas máquinas poderosas.

FOLHA – E a máquina federal?
FALCÃO
- Não teve uso da máquina do governo federal em São Paulo. Teve uso da máquina municipal, que foi apontado várias vezes, nos episódios dos e-mails, na ação das subprefeituras, teve o peso do Estado com ações administrativas.

FOLHA – Há preocupação com a perda do eleitorado da periferia?
FALCÃO
- É preciso analisar todo o movimento eleitoral. Houve uma grande aliança para derrotar o PT. E houve um movimento de mídia, que foi favorável a Kassab. Isso, no caso da Folha, foi reconhecido pelo ombudsman do jornal. Houve diferença de tratamento da Justiça Eleitoral. São fatos reais e não interpretativos.

FOLHA – Até agora o sr. não citou um erro da campanha de Marta.
FALCÃO
- [Longa pausa] Talvez ter subestimado a ação dos subprefeitos na eleição. Eles usaram bastante a máquina.

FOLHA – Kassab foi subestimado?
FALCÃO
- Nossas pesquisas indicavam que ele tinha potencial. O que não houve foi um esgarçamento tão grande da briga do Kassab com o Alckmin. Os projetos futuros fizeram as feridas se cicatrizarem rápido.

28/10/2008 - 16:00h De olho nos estados

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense

Por Alon Feuerwerker

alonfeuerwerker.df@diariosassociados.com.br

cadeira_2010.jpgJá se sabe há três semanas, desde o primeiro turno, que o PMDB sairia desta eleição como a jóia cobiçada da próxima. Mas qual será, afinal, o peso dos resultados municipais de 2008 na corrida presidencial de 2010? E a real importância das coligações partidárias numa eleição majoritária, especialmente na escolha do presidente da República, qual é? Quem conseguir arrastar o PMDB para uma aliança terá mesmo dado o passo decisivo para ficar imbatível na corrida pelo Palácio do Planalto? O que realmente quer o PMDB?

Vamos começar pelo fim. O PMDB quer poder, o máximo possível. Nesse particular, a legenda é igualzinha às outras. Tome-se a sucessão das Mesas do Congresso. Os deputados federais do PMDB desejam o comando da Câmara. Os senadores ambicionam a Presidência do Senado. O PT e o presidente da República acham que é demais entregar ambas as cadeiras ao aliado. Mas a proposta de partilha esbarra numa dificuldade.

Como já se escreveu nesta coluna, um pedaço do PMDB (senadores) não se vê representado pelo outro (deputados). Pior, os dois grupos disputam espaço internamente na legenda e na relação política com o governo. Quem abrir mão estará cedendo poder para o principal adversário. E, como o PMDB tem a maior bancada numa e noutra Casa, ambos se julgam no direito de manter a postulação.

Um acordo em 2007 entre o PT e o PMDB decidiu pelo rodízio na Câmara, e agora é a vez de Michel Temer (PMDB-SP). Mas o Senado, que não participou do pacto, acha que não tem nada com isso. E tecnicamente não tem mesmo. Além do mais, os senadores viram o acordo de 2007 como uma manobra do governo e do PT para enfraquecê-los.

Encontrei ontem, na sala de embarque do Aeroporto de Congonhas, um amigo gaúcho, petista. Conversa vai, ele quis saber por que acho difícil o acordo, ainda que não impossível. Respondi com um exemplo. Imagine a cena, disse eu. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chama o ministro Tarso Genro e dá a notícia: “Tarso, é o seguinte, vou te tirar do Ministério da Justiça e colocar o Olívio Dutra no teu lugar. É para atender às minhas conveniências políticas. Fica elas por elas, já que o partido não perde nada. Vou anunciar daqui a pouco. Você liga para o Olívio para combinar a transição?”.

Meu interlocutor naturalmente riu. E mudamos de assunto. Fomos para 2010. O papo chegou no ponto de que alianças políticas são importantes pois garantem tempo de televisão, mas não só. O Rio de Janeiro acaba de mostrar que alianças podem fazer a diferença em eleições muito apertadas. É bem possível que a disputa de 2010 seja dura, e quem agregar um pouquinho mais poderá obter vantagem decisiva. A capacidade de reunir apoios também é importante por outro motivo: serve para transmitir ao eleitor a idéia de que o candidato tem suficiente força política para colocar em prática as propostas apresentadas na campanha.

Sem perder de vista que numa eleição majoritária a relação é direta entre o candidato e o eleitor, recomenda-se não esquecer os detalhes do parágrafo anterior. E, já que apoios e alianças são mesmo importantes, o que vai ser decisivo em 2010 para o PMDB escolher se prefere casar, comprar uma bicicleta ou nenhuma das duas anteriores?

Mais do que pelo poder (que já tem, e bastante), o PMDB provavelmente se orientará daqui por diante pela expectativa de poder, até porque a Era Lula está nas últimas. E quem tem mais expectativa de poder a oferecer para 2010, o governo ou a oposição? O governo tem Lula, uma ótima avaliação e consideráveis chances de eleger o sucessor. A oposição tem bons nomes, força regional e espera que a sucessão não aconteça em céu de brigadeiro na economia.

O PMDB pode ir para um dos dois lados. Ou, como é próprio do partido, para nenhum. Uma alternativa é a legenda ficar novamente fora das coligações formais na disputa nacional, enquanto suas seções estaduais buscam o melhor caminho para preservar e robustecer o poder local. Onde, como se viu, o PMDB é especialista. E poder local é essencial para eleger bancadas federais.

Aqui, mais um detalhe. O PMDB ganhou em seis capitais. Em quatro delas, teve que derrotar o PT, ou nomes apoiados pelo PT. Em uma, recebeu o apoio do PT no segundo turno. Só em uma os dois partidos estiveram coligados desde o começo. Se o desenho das disputas estaduais em 2010 indicar muitas polarizações entre PT e PMDB, é bom Lula começar, e logo, a procurar em outro lugar o vice de Dilma Rousseff.

28/10/2008 - 14:00h Derrota ameaça hegemonia de grupo martista em São Paulo

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Marco Aurelio Garcia, Jilmar Tatto e Ricardo Berzoini DN do PT

Cristiane Agostine e Raquel Ulhôa, VALOR de São Paulo e Brasília

A derrota de Marta Suplicy na disputa pela Prefeitura de São Paulo em São Paulo levou à divisão os grupos que a apoiaram, o que pode comprometer sua volta ao governo federal e até mesmo sua pré-candidatura ao governo do Estado, em 2010.

O resultado da eleição gerou um rearranjo de forças entre as tendências que controlam os diretórios estadual e municipal do PT, com influência majoritária dos martistas. Grupos não ligados à ex-prefeita apostam na divisão dos apoiadores de Marta para tentar enfraquecê-los. Com a crise interna deflagrada a partir da derrota, os dissidentes articulam um movimento para antecipar a troca da direção partidária, prevista para o fim de 2009. “O grupo da Marta vai se dividir ainda mais depois desta derrota”, comentou um dirigente dissidente do estadual. “Eles já não estão marchando unidos”, comentou. A antecipação da eleição interna, entretanto, é descartada pelas Executivas municipal e estadual do partido.

O grupo de Marta é hegemônico no PT municipal e elegeu 9 dos 11 vereadores. Os martistas também têm forte influência no estadual. As críticas ao comando da campanha de Marta, entretanto, não são poucas nos diretórios de São Paulo e a atuação do coordenador, deputado Carlos Zarattini, gerou divergências até mesmo entre os martistas que o indicaram. “A comunicação com a população de São Paulo foi péssima. Não tivemos problemas só com a classe média, mas também com o eleitorado tradicional do PT”, comentou um dirigente da campanha. “Perdemos em toda a cidade.”

Sem acordo até mesmo entre eles, os aliados da ex-prefeita ainda têm dúvidas sobre o futuro político dela. Dizem que Marta espera um aceno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para voltar ao Planalto, provavelmente no Ministério do Turismo, onde estava antes de disputar a prefeitura. Com poder de pressão diminuído, eles têm dúvidas em relação à vontade de Lula levar novamente Marta ao primeiro escalão do governo.

Petistas de tendências mais distantes de Marta prevêem o enfraquecimento da pré-candidatura da ex-prefeita em 2010. “Ela não está morta politicamente”, contrapõe o vereador Donato, aliado de Marta e dirigente estadual do PT. “É um grande nome para disputar o governo do Estado. Quem tem mais voto é ela e no fim é isso o que pesa”, comentou Donato. “Mas temos de analisar, com profundidade, os problemas do PT. Não conseguimos dialogar com um conjunto amplo da sociedade.”

A preparação do partido para 2010 e a troca da direção partidária no próximo ano estarão na pauta do encontro que a direção do PT de São Paulo fará hoje. A bancada municipal dos vereadores, controlada pelo grupo martista, também se reúne hoje.

No balanço do resultado das eleições no Estado, os petistas analisarão além da derrota em São Paulo, a de Santo André, cidade considerada estratégica no ABC paulista. O PT ganhou em São Bernardo do Campo e é o partido com maior número de prefeituras na região metropolitana do Estado, que concentra mais de 47,8% da população.

Ontem, a Executiva Nacional do PT fez um balanço positivo do desempenho do partido nas eleições municipais, obtendo um crescimento de 35% em relação a 2004 e elegendo 556 prefeitos – segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral -, mas vai trabalhar com “mineirice” para superar arestas com aliados na tentativa de construir uma candidatura conjunta para a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. E não vai “varrer para debaixo do tapete” os problemas internos que o partido enfrentou.

Em entrevista concedida depois da reunião, ontem, em Brasília, o presidente do partido, deputado Ricardo Berzoini (SP), negou que a pré-candidatura da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) à Presidência da República tenha saído enfraquecida das eleições municipais, que colocaram em xeque a capacidade de Lula transferir votos. Segundo Berzoini, Dilma saiu fortalecida “do ponto de vista partidário, pela disposição militante” de comparecer, após o horário trabalho, em compromissos políticos de candidatos aliados.

“O objetivo da eleição municipal não é enfraquecer ou fortalecer candidato a presidente da República”, disse Berzoini. Ele afirmou que a ministra também cresceu na opinião pública, à medida que se tornou mais conhecida, mas foi cauteloso ao falar dela como candidata. Segundo ele, 2010 está longe e qualquer previsão sobre nomes é mera especulação”.

Berzoini não assumiu culpas nem fez críticas a campanhas. Sobre a derrota de Marta Suplicy em São Paulo, disse que o diretório estadual fará avaliação das razões e que seria “pretensão” do diretório nacional fazer análise de forma superficial. Lembrou, no entanto, que os votos que Marta recebeu correspondem ao “patamar histórico do PT” e que ela enfrentou partidos fortes em São Paulo, que se juntaram no segundo turno contra ela, inclusive o PMDB.

Berzoini mostrou-se especialmente preocupado em recompor a boa relação do PT com o PMDB, que se enfrentaram em Salvador e Porto Alegre. “Vamos trabalhar onde houve embate entre partidos base aliada com muito diálogo, principalmente entre PT e PMDB. Já conversei com o deputado Michel Temer (SP), presidente do PMDB, para termos diálogo permanente, superar problemas. Não vamos esconder que houve divergências e diferenças, mas vamos tratar politicamente”, afirmou Berzoini. A disposição, segundo ele, é “tratar dos problemas sem ânimo de guerra”.

Em Belo Horizonte, o PT saiu dividido, mas Berzoini também minimizou os problemas. Afirmou que “houve críticas de lado a lado” – tanto dos petistas que apoiaram a aliança com o PSDB do governador Aécio Neves, em torno da candidatura de Márcio Lacerda (PSB), quando daqueles que eram contra. Para esses, a presença de Aécio foi muito forte na campanha, disse Berzoini. Já a ala petista ligada ao prefeito Fernando Pimentel (PT), mentor da aliança com o PSDB ao lado de Aécio, criticou as lideranças do partido que torciam para outras candidaturas. “Devemos trabalhar com maturidade, grandeza”, disse o presidente do PT.

Mesmo analisando que é prematuro falar em nomes para a sucessão de Lula, Berzoini disse que o presidente e o PT trabalham para ter candidato e ser a cabeça-de-chapa em uma coligação com os aliados. Mas ele não descartou a candidatura de outro partido da base. “Seria prepotência”, afirmou. Avaliou, no entanto, que é legítimo o PT querer a vaga, pela liderança do presidente Lula.

A executiva recebeu também a proposta de realização de um ciclo de debates sobre a crise financeira e mesas redondas com economistas de diferentes correntes de pensamento. O PT convidará os demais partidos de sustentação do governo, para que tenham melhor compreensão dos problemas e das medidas adotadas para seu combate.

“A oposição está apresentando as alternativas dela. O PT precisa ter uma visão sobre a crise. É uma caixa preta. Ninguém sabe onde vai”, disse o assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, vice-presidente do partido.