18/12/2008 - 19:31h Inverno no museu

cartas de paris


Não por acaso é no inverno que os museus de Paris desabrocham. Com a abstinência de parques e jardins que o frio impõe, eles são o programa inescapável da estação. Resultado: filas gigantescas e público recorde em várias exposições temporárias organizadas nos quatro cantos da cidade. Difícil é decidir onde ir primeiro.

A maior atração da atual temporada é a exposição Picasso e os mestres, que fica até 2 de fevereiro no Grand Palais. Parisienses e turistas se apertam em filas rocambolescas e se sujeitam a listas de espera para fazer parte das 6,5 mil pessoas que diariamente visitam o evento. A proposta é estabelecer um diálogo entre a obra do pintor espanhol e os principais artistas que o influenciaram. Assim, As Meninas, de Vélazquez (emprestado do Museu do Prado, em Madri) está ao lado da tela homônima em que Picasso fez a releitura cubista da obra. Além destas, outras duas centenas de obras demonstram a grandiosidade do trabalho do pintor cubista, reunindo num mesmo espaço diversas referências da história da arte. Em uma palavra: imperdível.

Eu não me canso de ver Monet e por isso mesmo sou assídua frequentadora do pouco conhecido museu criado pelo espólio da família dele, chamado Marmottan. Até o dia 15 de fevereiro acontece por lá uma exposição chamada O olho impressionista, que relaciona a evolução da obra do artista à doença visual de que ele sofria, uma catarata que na época era irreversível. Como o trabalho dele sempre se baseou na releitura das mesmas paisagens (uma ponte, as flores aquáticas), fica bem perceptível a perda da definição e a confusão de cores ao se comparar peças produzidas depois de uma certa idade com aquelas feitas ainda com a visão perfeita. Junto das obras, as cartas do artista relatando sua frustração são de uma sinceridade emocionante.

Aos amantes da arte moderna também não faltam opções. No palácio de Versailles, a vinte minutos de Paris, acontece até 4 de janeiro a primeira retrospectiva da obra do nova-iorquino Jeff Koons, um dos mais famosos artistas plásticos contemporâneos. A idéia de colocar uma lagosta inflável gigante no meio de um dos aposentos do rei Luís XIV ou um coelho prateado de um metro de altura no chamado salão da Abundância chocou a sociedade parisiense – muitos foram os que escreveram artigos raivosos na imprensa chamando a exposição de desrespeito. O artista, claro, adorou a polêmica, e nem que seja só por curiosidade, a visita vale a pena.

A lista de grandes exposições não acaba aí. Uma retrospectiva histórica da ocupação de Napoleão no Egito organizada pelo Instituto do Mundo Árabe, fotos de Henri-Cartier Bresson e da francesa Sabine Weiss, uma homenagem ao artista plástico Jacques Villeglé, que utilizou cartazes publicitários de uma Paris convulsionada pelas manifestações de 1968 como matéria-prima de colagens cheias de conteúdo político – tem para todo gosto. Quem está de viagem marcada para Paris e gosta de arte nem vai sentir tanto o inverno gelado que se anuncia.

Carolina Nogueira é jornalista e mora há dois anos em Paris, de onde mantém o blog Le Croissant (www.le-croissant.blogspot.com). Em Brasília, trabalhou no Correio Braziliense e no Jornal do Brasil e hoje é repórter licenciada da TV Câmara. Mãe dos gêmeos João e Pedro, ela faz um mestrado em literatura lusófona na Sorbonne e escreve no Blog de Noblat sempre às quintas-feiras.

20/05/2008 - 12:32h Austerlitz: o número não foi o fator decisivo

L'image “http://www.napoleonicsociety.com/images/BIVOUAC%20NAPOLEON%20AUSTERLITZ%20PLEIN%20CADRE.jpg” ne peut être affichée car elle contient des erreurs.
Austerlitz, 2 de Dezembro de 1805

O norte do campo de batalha é dominada pelos montes Santon (210 m de altura) e Zuran (260 m); neste, encontra-se Napoleão no começo da refrega. No centro da planície, ergue-se o outeiro de Pratzen, com cerca de 12 m de altura e encostas suaves. Napoleão ocupa e abandona este outeiro antes da batalha, como uma isca. Ele imagina que seus inimigos, ao enviar o grosso de sua tropa para envolver-lhe o flanco direito, estarão enfraquecendo o próprio centro, onde pretende atacar. Para ajudar a defender seu débil flanco direito, ordena a Davout que venha em passo forçado de Viena (os soldados de Davout cobrirão 110 km em 48 horas e serão fundamentais para o desenlace da batalha).

A batalha começa às 8:00 h e, como previsto, as tropas russas atacam o flanco direito francês, mas sem sucesso: seus ataques são mal coordenados e os franceses ou mantém suas posições ou as recuperam, quando perdidas. Começam a chegar os primeiros homens de Davout. Por volta das 9:00 h, o Imperador ordena a Soult que tome o outeiro de Pratzen, comentando: “um sopro mais forte e esta guerra acaba”. Saint-Hilaire e Vandamme, comandantes de Soult, encarregam-se do ataque. Saint-Hilaire avança sobre o outeiro, coberto por uma espessa névoa que é dissipada de repente por um sol incomumente brilhante (o lendário “Sol de Austerlitz”). Os russos que ocupavam Pratzen são surpreendidos pelo avanço francês e recuam depois de uma hora de luta feroz.

Um pouco ao norte, Vandamme prossegue na investida. Napoleão desloca-se de Zuran para Pratzen e manda reforçar o ataque de Vandamme. Os russos ainda reagem, mas são afastados pela cavalaria pesada de Napoleão. Por volta das 14:00 h, o exército austro-russo encontra-se dividido em dois, como pretendia Napoleão.

Daí em diante, ao norte, apesar da bravura dos russos, uma bem-coordenada série de ataques franceses conseguiu impor a superioridade napoleônica. O foco de Napoleão desloca-se para o sul: a divisão de St. Hilaire e parte do III Corpo de Davout levam o pânico às tropas inimigas que lá se encontram. Os soldados russos tentam fugir atravessando o lago de Satschan, que é alvejado pela artilharia de Napoleão. O gelo se parte e um número incerto de russos (algo entre 200 e 2.000 homens) morre afogado.

Embora as estatísticas sejam pouco precisas, estima-se que tenha havido, entre os franceses, 1.288 mortos e 6.993 feridos, com perda de uma única bandeira; do lado oposto, 16.000 mortos, 11.000 prisioneiros, com perda de 185 canhões e 45 bandeiras. Para alguns, esta batalha é comparável à de Cannae, em que Aníbal venceu os romanos. Finda a batalha, chega um enviado do Rei da Prússia, levando a declaração de guerra à França. Diante da vitória do Imperador, deixa a declaração no bolso e felicita-o efusivamente. Wikipedia.

19/05/2008 - 13:22h A Bastilha da Alemanha

CULTURA E PENSAMENTO
 

Hegel e o imperador

História por Voltaire Schilling

Virou lugar comum dizer-se de que enquanto a Royal Navy garantia aos ingleses a soberania sobre os mares, e o Grand Armée de Napoleão assegurava aos franceses o usufruto de inúmeros territórios da Europa continental, os alemães, graças aos seus pensadores, reservaram para si a conquista dos céus, cabendo a eles tomar posse do “reino das abstrações e das generalidades”.

Nada mais evidente disso que o fato da famosa exposição da dialética hegeliana, nascida nos albores do século XIX, ter vindo à luz justamente no momento em que os clarões e os estrondos da artilharia de Napoleão se faziam ver e ouvir ao longe, na batalha de Iena, travada em 14 de outubro de 1806. Os canhões do imperador invasor anunciavam, sem o saber, a tomada de assalto do mundo das idéias feito pela filosofia germânica.

Napoleão em Iena

G.W.F. Hegel (1770-1831)

Enquanto a terra tremia e o ar era abalado pelas cargas dos franceses, George Wilhelm Friedrich Hegel, sentando à mesa do seu gabinete em Iena, preenchia as páginas finais do que pensava ser o seu gigantesco sistema de filosofia, cujas folhas derradeiras ele teve que esconder rapidamente no seu bolso quando os soldados franceses invadiam a sua moradia. A campanha de Napoleão fora fulminante. Uns meses antes dele marchar sobre a Turíngia, onde iria enfrentar os prussianos, ele esmagara uma impressionante coligação de forças austro-russas que se aliaram contra ele. Justamente no dia em que ele celebrava um ano da sua coroação, ocorrida em 2 de dezembro de 1804, na catedral de Notre Dame de Paris, as águias imperais, vitoriosas, voaram sobre as carcaças dos inimigos derrotados em Austerlitz, considerada a obra-prima das batalhas napoleônicas.

Pois justamente quando os dois imperadores Alexandre I da Rússia e Francisco II da Áustria, foram derrotados, a Prússia, então sozinha, num desatino total, resolveu entrar na guerra contra Napoleão.
Antes que as tropas de Frederico Guilherme III pudessem manobrar com algum eficácia contra os franceses, Napoleão fez uma impressionante marcha forçada sobre os prussianos e os derrotou numa só grande batalha, travada entre os dias 10 e 14 de outubro de 1806, dividida em dois combates, um nas proximidades de Iena mesmo e o outro um mais além, no norte da Turíngia, em Auerstadt.

Em apenas três semanas, descartando-se e humilhando o outrora todo-poderoso exército de Frederico, o Grande, Napoleão entrou em Berlim no dia 27 de outubro de 1806. A filosofia, percebeu Hegel mais do que qualquer outro pensador daquela época, não podia ignorar aquilo, não devia negar-se a enfrentar os efeitos daquele choque de realidade (como ele concluiu certa vez, “uma grande figura condena os homens a explicá-la”). Muitos anos depois, o pensador marxista Franz Mehring, igualmente meditando sobre o significado daquela batalha, classificou-a como a “Bastilha da Alemanha”, isto é o momento de inflexão histórica que assinalou o declínio do feudalismo nas terras da velha Germânia.

Hegel em Iena

A batalha de Iena, a Bastilha da Alemanha feudal, outubro de 1806

Hegel mudara-se de Frankfurt para lá cinco anos antes, em janeiro de 1801. Inscrevera-se para conseguir a sua Habilitação no curso do outono atraído pela fama e pelo bom nome da instituição. Desde que o Duque Carlos Augusto encarregara Goethe de assumir o patronato da Universidade de Iena, em 1785, a situação dela se modificara para melhor. Não que a universidade fosse obscura – diziam-na “o tesouro do conhecimento”-, mas evidentemente não tinha a resplandecência que passou a ter. Ela obtivera sua autorização confirmada pelo imperador Ferdinando II em 1558, tornando-se, com a designação de Jena Hohe Schule, inicialmente um centro de formação de teólogos e de clérigos protestantes (carreira aliás que o jovem Hegel, por instância do pai, tentou seguir), mas foi pelas mãos de Goethe que ela atingiu proeminência, tornado-se um chamariz para os artistas e intelectuais alemães do século XVIII-XIX.

O filósofo Fichte e o poeta Schiller foram professores lá, enquanto que os seguidores dos irmãos Schlegel, afamados críticos literários, tais como o poeta Novalis, o novelista Clemens Brentano e o dramaturgo Ludwig Tieck, que lá se estabeleceram entre 1796-1801, associaram-na ao seu movimento chamado de Kreis der Frühromantiker, o Círculo dos Primeiro Românticos. Por conseguinte, quando Hegel deu inicio a redação da Phänomenologie des Geistes (Fenomenologia do Espírito), obra filosófica que o deixou famoso em toda a Alemanha quase que da noite para o dia ao ser publicada em 1807, ele estava estimulado pelo ambiente intelectualmente efervescente que cercava aquela Universidade. Era o espírito de Goethe que, ainda que vivendo em Weimar, não muito distante de Iena, pairava olimpicamente sobre todos eles, servindo-lhes como uma emulação permanente. Espirito esse que foi reforçado ainda mais pela presença cada vez maior da personalidade de Napoleão, cujas vitórias militares impressionavam a todos.

12/04/2008 - 06:26h Síndrome de Paris

Relação de amor e ódio com a França pautou Brasil pós D. João

d-joao_corte2.jpg

Marília Martins - O Globo

Era uma vez uma fuga em massa em que os fugitivos chegaram ao seu refúgio e…
reencontram seus perseguidores na forma de um delírio de poder. Este é o enredo de um livro surpreendente sobre um conhecido episódio da História do Brasil.

d_joao_corte.jpg

“Versalhes Tropical”, da historiadora americana Kristen Schultz, reconta a fuga, em 1807, do príncipe regente, da família real e de mais de 10 mil membros da Corte portuguesa, uma multidão de nobres que se lançou mar a dentro para escapar das tropas de Napoleão. E reinterpreta os 13 anos de D. João no Brasil a partir deste ponto de vista: a Corte lusa fugia de um imperador (Napoleão) que sonhava restaurar a grandeza dos tempos do Rei-Sol (Luis XIV), mas também admirava a opulência de Versalhes.

Mais do que isso: os portugueses imaginavam fazer do Rio uma Versalhes tropical.

Como foi possível que a Corte portuguesa elegesse como modelo exatamente a França, o país do qual tentava escapar, quando historicamente a monarquia inglesa havia sido sempre muito mais próxima dos interesses portugueses? — A transferência da Corte para o Rio foi simultaneamente resposta a um tempo de revolução e solução original para a crise do modelo da monarquia no século XIX — explica Kristen, cujo livro será publicado em português pela Record no fim de junho. — De um lado, a Corte fugia de uma Europa convulsionada pela Revolução Francesa e pelas guerras napoleônicas.

E, do outro, partia na direção de um continente que havia abrigado a Revolução Americana, a violenta revolta no Haiti e vários movimentos de independência nas colônias espanholas.

Delírio mais forte que a realidade

Segundo ela, esses movimentos desafiavam, no continente americano, não só os princípios e as práticas da hereditariedade como hierarquias de status, raça, cultura e valores que regiam as relações entre a Europa e as terras do além mar.

Os ingleses estavam mais próximos dos portugueses, mas a monarquia inglesa não poderia servir de modelo porque eles buscavam um ideal absolutista que os ingleses não ofereciam.

Noutras palavras: em pânico diante das cabeças coroadas cortadas pela Revolução Francesa, os portugueses sonhavam ter um refúgio, em busca de um final feliz para o poder imperial. Assim teve origem, segundo Kristen, o fascínio pelo estilo de vida de Versalhes e pela cultura francesa de modo geral.

d_joao_carlota.jpgUm fascínio que perdurou não só nos 13 anos em que a Corte portuguesa permaneceu no Brasil, como deixou marcas nas missões de artistas franceses, na arquitetura do Rio e também na visão que os brasileiros que lutaram pela Independência tinham da pátria que sonhavam construir.

— Esse fascínio pelos maneirismos franceses, que depois da volta da Corte a Portugal ampliou-se, adotando a cultura francesa como um modelo, teve profundas consequências no Brasil do século XIX e em especial no Rio. É verdade que politicamente os portugueses eram aliados dos ingleses, mas apesar disso, a influência francesa foi muito maior, mais efetiva e duradoura. Neste caso, o imaginário teve um peso importante — acredita Kristen.

Professora de história latinoamericana, especializada em Brasil, na Faculdade de Ciências Sociais da Cooper Union, em Nova York, Kristen passou um tempo pesquisando no Brasil. A trama de manuscritos, documentos e estudos que serve de base para sua hipótese sobre os 13 anos da Corte portuguesa no Rio, de 1808 e 1821, dá uma nova pista sobre como os defensores da Independência acabaram por entronizar o próprio herdeiro português, entregando a coroa brasileira para o filho do monarca que combatiam.

Fantasmas de uma monarquia

A curiosa e contraditória combinação entre os ideais da Independência e os da monarquia levou o Brasil a construir uma organização políticosocial inteiramente diversa da do restante do continente, que tem origens, ainda não completamente compreendidas, nestes 13 anos que transformaram o Rio de Janeiro e o Brasil.

— O que me atraiu na história da fuga da Corte portuguesa para o Brasil foi perceber como, num período de só 13 anos, se tornaram evidentes contradições e fantasmas que mais tarde estiveram na base da monarquia brasileira — diz Kristen.

Ela investiga a forma como o sistema colonial foi combinado com o cotidiano da sociedade escravocrata do século XIX, desafiando a política antiescravocrata da monarquia inglesa, que condenava o tráfico negreiro.

Das gravuras de Jean-Baptiste Debret aos manuscritos de época, Kristen desvenda como senhores e escravos se relacionavam com base num singular paternalismo autoritário que ganhou força nos anos de invenção delirante da Versalhes tropical.

— O sistema escravocrata brasileiro pagou tributo a esta passagem da Corte portuguesa pelo Rio.

E os escravos da capital também exploraram as contradições no projeto real de transformar o país.

Um projeto que procurou reafirmar o poder monárquico por meio de uma vassalagem típica do Novo Mundo — avalia Kristen.

Entre desqualificar a colônia e torná-la o centro do império, por força das circunstâncias, os portugueses no Brasil deixaram bem mais do que a fonte quase inesgotável de anedotas e descrições grotescas dos costumes lusos de então, que até hoje são muito populares quando se fala sobre os anos brasileiros de D.João. Como revela o passeio pelo Rio do começo do século XIX feito por Kristen Schultz, ficou um legado de imagens e contradições que sobreviveu aos 13 anos da aventura lusitana em terras do além-mar.

08/03/2008 - 14:44h O mito do Brasil pacífico

Historiadores questionam idéia de que, pelas mãos de D. João, país teve formação ordeira em oposição à da turbulenta América hispânica

img412/5783/familiarealbm0.jpg

Chegada da família real, de Geoff Hunt

Roberta Jansen - O Globo

bolivar.jpg

san_martin.JPG

Simon Bolivar e José de San Martín

A idéia de um Brasil coeso, pacífico e ordenado em oposição a uma América Latina fragmentada, sempre envolvida em conflitos e povoada por caudilhos, serve muito bem não apenas à literatura da região.

Ela surge com toda força para explicar crises diplomáticas, como a deflagrada na semana passada entre Colômbia, Equador e Venezuela.

Sobretudo num contexto de comemoração dos 200 anos da chegada da família real, em que o papel de D. João vem sendo apontado como crucial na construção dessa nação bem menos instável politicamente do que suas vizinhas de origem hispânica. Na contramão dessa arraigada visão, dois historiadores questionam o que chamam de mito criado em nome da defesa de um modelo de Estado.

(more…)