08/06/2009 - 12:53h Salgado direciona seu olhar à natureza

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Por JORI FINKEL

LOS ANGELES — A mancha urbana de Los Angeles é gritantemente diferente dos quase desabitados desertos e florestas para onde Sebastião Salgado tem viajado por causa do seu projeto “Gênesis”.
Famoso por dar um rosto humano para a opressão política e econômica nos países em desenvolvimento, Salgado agora tem fotografado os vestígios mais intocados da natureza que consegue encontrar.

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Mas esse tipo de ambientalismo é custoso e exige que ele vá às grandes cidades em busca de apoio. Foi isso que o levou à Califórnia, para uma maratona de três dias de conversas, reuniões e festas. Mas o fotógrafo brasileiro de 65 anos diz que não se importa e que não perde o foco no trabalho quando está cercado por patrocinadores que são colecionadores de arte e celebridades.
“Vim aqui para coisas especiais, mas minha cabeça está lá, meu corpo está lá”, disse. “Eu posso estar dormindo em um quarto de hotel em Los Angeles, mas na minha cabeça estou sempre editando imagens.”
Para “Gênesis”, projeto de oito anos que já está mais da metade finalizado, ele está montando uma narrativa visual acerca dos efeitos do desenvolvimento sobre o meio ambiente. Fotografa temas naturais que ele acredita que tenham de certa maneira “escapado ou sido resgatados” das mudanças: paisagens terrestres e marítimas, animais e tribos indígenas que representam um estado anterior e mais puro da natureza.
Nesse sentido, “Gênesis” é um grandioso projeto romântico de volta à natureza. Salgado também o descreve como um retorno à infância, já que ele foi criado em uma fazenda no vale do Rio Doce (MG), numa área de Mata Atlântica que sofreu terrível erosão e desmatamento. Anos depois, em 1998, ele e sua esposa, Lélia, fundaram o Instituto Terra, em 600 hectares da propriedade, para realizar um ambicioso projeto de reflorestamento. Sua esposa, que também desenha seus livros e exibições, preside o instituto; ele é o vice-presidente e porta-voz. Ou, como escreveu Ian Parker na revista “New Yorker”, Salgado é mais do que um fotojornalista, “assim como Bono é algo mais do que um pop star”.

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Desde que iniciou “Gênesis”, em 2004, ele já visitou cerca de 20 lugares em cinco continentes. Começou pelas ilhas Galápagos, numa homenagem às pesquisas de Darwin no local. No ano passado, esteve dois meses na Etiópia, percorrendo a pé cerca de 800 quilômetros para fotografar montanhas, tribos e espécies raras. “Eu estava viajando nessa área do mesmo jeito que as pessoas faziam de 3.000 a 5.000 anos atrás”, disse ele.
Bem, quase do mesmo jeito. Ele levava um telefone por satélite, de modo que pôde receber notícias sobre a eleição nos EUA em novembro. “Quando soubemos que [Barack] Obama havia ganhado, todos que guiavam aquelas mulas começaram a pular”, disse. Ele é cautelosamente otimista a respeito do seu trabalho ambiental. “Estou 100% seguro de que minhas fotografias sozinhas não fariam nada. Mas como parte de um movimento maior, espero fazer uma diferença”, disse. “Não é verdade que o planeta esteja perdido. Devemos nos esforçar para preservá-lo.”
Seus projetos anteriores também eram guiados por um senso de urgência. Antes de se tornar fotógrafo, ele fez doutorado em economia agrícola na Universidade de Paris e trabalhou em Londres como economista da Organização Internacional do Café. Pode-se notar essa formação na abrangência e complexidade da sua fotografia.
“Trabalhadores”, um projeto de sete anos concluído em 1992, apresentava imagens sobre esse tema feitas em 26 países. “Êxodos”, completado em 1999, após seis anos em cerca de 40 países, abordava migrantes, refugiados e outras populações deslocadas.
Salgado enfatiza as continuidades entre os seus vários projetos. “Não há diferença entre fotografar um pelicano, um albatroz ou um ser humano”, disse. “Deve-se prestar atenção neles, passar tempo com eles, respeitar seu território.” Mesmo paisagens, afirmou, têm personalidade própria e recompensam certa dose de paciência.
“Gênesis” pode parecer um legado: a contribuição cuidadosamente planejada e bem intencionada de um veterano fotojornalista para seus filhos, netos e para o mundo em geral. Mas Salgado disse que não acha que esse será o último. “Não conheço nenhum fotógrafo que tenha parado de trabalhar porque completou 70 anos.”

05/03/2009 - 11:01h Adubo da Amazônia, a chave para o clima?

Julio Bittencourt/Valor

Cortador de cana em Morro Agudo (SP): das 460 milhões de toneladas da safra anual de cana do Brasil, até metade poderia se transformar em biocarvão

Fiona Harvey, Financial Times – VALOR

Na bacia amazônica brasileira, os agricultores há muito encontraram uma forma especial de fertilizante – uma substância local parecida com um adubo e louvada por suas fantásticas qualidades para revigorar solos pobres. Eles a compram em sacas ou a encontram no solo, em buracos de até 1,80 metro de profundidade. Espalhada pelos campos, a substância mantém suas qualidades férteis por longos períodos.

Os agricultores a chamam de terra preta do índio. Densa, rica e argilosa, representa um contraste gritante com os solos pobres da região. Parece paradoxal, mas os solos da floresta tropical têm baixa fertilidade. É por isso que os fazendeiros que derrubam a floresta para fins agrícolas precisam continuar cortando árvores – após alguns anos de colheita, o rendimento desaba e eles precisam mudar-se para outro local.

Esses buracos preenchidos com terra preta estendem-se por muitos hectares, mas até recentemente ninguém sabia realmente o que era a misteriosa substância. Alguns supunham que era vulcânica, sedimento de antigos lagos ou o resíduo de alguma vegetação há muito decomposta. Poucos imaginavam que era obra do homem.

A terra preta, comprovaram modernas análises, é um dos últimos traços remanescentes da agricultura pré-colombiana na bacia amazônica. Foi produzida há mais de 2,5 mil anos (podendo chegar talvez a 6 mil anos) por pessoas que moravam ao longo do rio. Essas culturas conseguiram sustentar formas complexas de agricultura, apesar do solo pobre, produzindo sua própria terra. Valiam-se dos suspeitos de sempre: estrume, peixe, ossos de animais e sobras de plantas. Mas o ingrediente-chave e que também lhe dá sua cor preta é um carvão essencialmente vegetal.

“É um material maravilhoso”, diz Simon Shackley, professor de ciências sociais da Universidade de Edimburgo. “Começamos a conhecer o assunto quando cientistas holandeses começaram a avaliá-lo nos anos 60. É realmente produto da agricultura de derrubada e queimada e outros resíduos orgânicos, incorporado aos solos por centenas ou até milhares de anos. E parece ser fértil indefinidamente, o que é algo muito estranho”.

Esse produto ancestral da Amazônia agora é objeto de intensas investigações de cientistas que estudam as mudanças climáticas. A tenacidade do carvão da terra preta, retendo suas propriedades fertilizantes ao longo dos séculos, deu-lhes uma ideia. Esse tipo de carvão é uma forma de carbono, resultado de resíduos queimados de plantas e materiais animais. Então, por que não reter mais carbono no solo desta maneira, uma vez que pode ficar intacto por tanto tempo, sem ser liberado como gás, na forma de dióxido de carbono?

Os cientistas começaram a referir-se ao carvão produzido a partir de plantas com o fim de armazenar carbono como “biocarvão” (biochar, em inglês). A teoria é que a biomassa – qualquer planta ou material animal – pode ser transformada em carvão, depois de aquecida na ausência de oxigênio. Retirar o CO2 da atmosfera poderia ter um impacto imenso no clima.

Os solos contêm naturalmente grandes quantidades de carbono da vegetação decomposta. Esse carbono, contudo, é relativamente instável em termos climáticos: o solo libera gás carbônico quando perturbado, como com a aragem, o que o torna tanto uma fonte de carbono quanto um reservatório de carbono. Portanto, a ideia de tentar reter o carbono em solos vinha encontrando pouca receptividade entre os cientistas climáticos – de fato ganhou até má reputação, já que agricultores queriam lucrar, argumentando que seus campos deveriam qualificar-se para receber os créditos de carbono idealizados para dar suporte financeiro a projetos como as usinas eólicas ou de energia solar.

A diferença do biocarvão é que a estabilidade do carvão deve possibilitar prender por centenas de anos o carbono que contém. O carbono é mineralizado, portanto é muito resistente a rompimentos. Além disso, os benefícios secundários – não apenas a melhora das características do solo, mas certos subprodutos de sua produção – devem ser suficientes para torná-lo economicamente atraente.

Quando é produzido, cerca de 30% de sua biomassa é transformada em carvão, outro terço em gás de síntese que pode ser queimado para gerar eletricidade; e o restante em um substituto do petróleo bruto, que pode ser muito útil na produção de plásticos, embora de difícil uso como combustível para transporte. Tim Flannery, um eminente naturalista e explorador australiano, argumenta que essas propriedades do biocarvão permitem “resolver três ou quatro crises cruciais de uma só vez: a crise da mudança climática, a crise energética e as crises dos alimentos e da água”, porque colocar o biocarvão no solo não apenas o fertiliza, mas também ajuda a reter água.

Até que ponto o biocarvão poderia mudar o equilíbrio de carbono no mundo? Há pouca dúvida de que seriam necessárias enormes quantidades. A cada ano, as atividades humanas contribuem para a emissão de 8 bilhões a 10 bilhões de toneladas de carbono na atmosfera. A maior parte desse gás não afeta diretamente o clima – o mundo tem seu próprio ciclo natural de carbono, pelo qual o dióxido de carbono na atmosfera é absorvido e reemitido por “depósitos de carbono” da vegetação, solos, mares e outros processos naturais. Esses processos, no entanto, estão sendo severamente sobrecarregados, portanto o conteúdo de carbono na atmosfera está aumentando. Hoje, está em 387 partes por milhão, mais alto do que em qualquer outro período dos últimos 650 mil anos e provavelmente dos últimos 20 milhões.

Segundo o Projeto de Carbono Mundial (GCP), entre 2000 e 2007, o carbono nos depósitos das terras e dos oceanos – como florestas e o plâncton nos oceanos – removeu cerca de 54%, ou 4,8 bilhões de toneladas por ano do CO2 que o homem jogou na atmosfera. Isso deixa o excesso de carbono em cerca de 4 bilhões de toneladas por ano. Mesmo com a conversa dos governos de “economia de baixa emissão de carbono”, as emissões de gases-estufa sobem com rapidez.

Para a Comissão Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), as emissões teriam de chegar a seu pico – e passar a cair – entre 2015 e 2020, para evitar os efeitos mais catastróficos das mudanças climáticas. Pelas atuais projeções, isso seria impossível. A menos que sejam encontrados métodos de remover o CO2 de forma fácil e barata, e de gerar eletricidade limpa de formas que possam ser adotadas em todo o mundo com mais rapidez do que as tecnologias de fontes renováveis atuais.

Algumas primeiras estimativas sobre o potencial do biocarvão apontam que essa substância maravilhosa poderia, sozinha, promover todas as reduções de carbono necessárias para impedir qualquer aquecimento mundial adicional. Johannes Lehmann, da Universidade Cornell, e outros pesquisadores calcularam que o biocarvão poderia remover anualmente entre 5,5 bilhões e 9,5 bilhões de toneladas de carbono do ar. Mas, diz Shackley, essas estimativas baseiam-se em premissas “heroicas” sobre a capacidade de produzir biocarvão facilmente em todo o mundo. “Recentemente, verifica-se uma tendência conservadora diante de números muito grandes”, observa ele. “Hoje, eu diria que as pessoas estão falando mais na faixa de 1 bilhão a 2 bilhões de toneladas por ano”.

Isso pode parecer desapontador em comparação com afirmações grandiosas anteriores, mas constitui, ainda assim, uma contribuição potencial extraordinária originada de um único método, diz Shackley. “Sem dúvida, não é algo trivial”, concorda Tim Lenton, professor de ciência de sistemas terrestres na Universidade de East Anglia, na Inglaterra. “Poderá representar uma fatia significativa do que necessitamos, e produziria benefícios colaterais substanciais – é um jogo onde todos ganham”.

Se outras técnicas para redução de carbono – como preservação e replantio de florestas e o empenho em melhorar a eficiência energética – fossem implementados simultaneamente, o mundo poderia realizar os cortes necessários em nosso “orçamento de carbono” para evitar um desastre climático.

Essas possibilidades, e as peculiares qualidades do biocarvão estão fazendo dele uma das mais empolgantes novas áreas de pesquisas sobre mudanças climáticas. A ideia de sequestro do carbono empregando biocarvão conquistou a adesão de alguns peso-pesados da ciência, como James Lovelock. Cientistas na Universidade Cornell pesquisam maneiras de sequestrar carbono em solo enriquecido com biocarvão. No Reino Unido, um centro de pesquisas de biocarvão foi estabelecido na Universidade de Edimburgo. Outros europeus copiam o exemplo, e um pequeno número de empresas está nos estágios iniciais das tentativas de encontrar maneiras de comercializar a produção de biocarvão.

Carvão vegetal não é, evidentemente, algo novo. As pessoas vêm produzindo esse tipo de carvão há milênios, sobretudo para usá-lo como combustível. O processo é simples: pegue madeira, palha ou resíduos de colheitas, e aqueça-os na ausência de oxigênio. Tradicionalmente, isso era feito tocando fogo na biomassa e empilhando terra por cima do material para que o material ardesse durante muito tempo. Fornos modernos podem tornar o processo mais eficiente, mas o princípio é o mesmo.

Mas há muita coisa sobre o biocarvão que continua envolta em mistério. Por exemplo, os efeitos sobre a fertilidade do solo. Por que é que o carvão vegetal melhora tanto o solo? “A resposta simples é: não sabemos exatamente”, diz Shackley. “É, provavelmente, uma combinação de vários fatores. O carvão vegetal é poroso, de modo que age como uma esponja ao reter água e os nutrientes dissolvidos em água, algo que os solos pobres não fazem muito bem. E [sua natureza porosa] também significa que é um bom material para cultivar muitas bactérias importantes”.

Outro fator crucial a seu favor é que usar biocarvão como fertilizante pode tomar o lugar dos fertilizantes artificiais à base de nitrogênio, que liberam oxido nitroso, um gás que provoca o efeito estufa 300 vezes mais poderoso do que CO2. E o biocarvão não é tóxico, acrescenta Lenton: “Até agora, ninguém disse existir algum grande perigo oculto associado a ele”.

Mas Saran Sohi, professora de ciência dos solos, adverte que qualquer pessoa que espere que o biocarvão sozinho solucionará os problemas de fertilidade está iludido – o biocarvão não é, por si só, suficiente para fazer a diferença que a “terra preta” tem para os solos pobres brasileiros. “Os solos de terra preta também contêm outros nutrientes, provenientes das outras substâncias que eles contêm – coisas como ossos, que são ricos em fósforo [essenciais para crescimento saudável das plantas]“, diz ela. O biocarvão desempenha um papel na manutenção desses nutrientes reunidos, assegurando que eles permaneçam disponíveis para as raízes das plantas, mas os nutrientes precisam ser disponibilizados por outros meios. “Ninguém conseguiu, ainda, recriar terra preta”, acrescenta Shackley.

Para produzir biocarvão em escala industrial, métodos tradicionais de produção seriam impraticáveis. Em vez disso, pesquisadores examinam o processo de pirólise – uma forma de decomposição térmica controlada de material orgânico na ausência de oxigênio, a temperaturas que alcançar 600°C.

O uso de pirólise também permite a captura de gás de síntese e dos subprodutos líquidos, ambos passíveis de ser usados como combustível para gerar eletricidade ou para o processo de aquecimento.

A quantidade de biocarvão a ser produzida depende da aceleração ou desaceleração no processo de pirólise: métodos rápidos produzem 20% de biocarvão, 20% de gás de síntese e 60% de bio-óleo, ao passo que métodos lentos produzem cerca de 50% de biogás e quantidades bem menores de óleo. “É também muito mais fácil tornar mais lenta a pirólise”, diz Adrian Higson, do Conselho Nacional Britânico de Colheitas Não-alimentícias. “E mais barato”. Como as modernas usinas, a pirólise pode ser alimentada exclusivamente com gás de síntese, a produção fica entre três e nove vezes o insumo energético necessário, segundo o Instituto de Governança e Desenvolvimento Sustentável.

O que usar para produzir o biocarvão? Destruir florestas seria insano. Mas a agricultura produz grandes quantidades de resíduos de plantas e de animais – palha, cascas e esterco. Até rejeitos de humanos – tudo o que vai para o esgoto ou algumas formas de lixo domiciliar – poderiam ser usados. E o uso de produtos residuais criam uma dupla economia de carbono: se deixados apodrecendo, produzem metano, 20 vezes mais poderoso do que o CO2.

Mas a dificuldade está em reunir os rejeitos e em tornar o processo economicamente viável. Será preciso alguma dose de persuasão para convencer os agricultores de que faz sentido financeiramente dar-se ao trabalho de conservar e cozinhar seus rejeitos para convertê-los em biocarvão, e eles poderão necessitar novo maquinário para fazê-lo. Em nível de rejeitos municipais, o problema estará em separar os resíduos orgânicos, que podem ser convertidos em biocarvão, do resto do lixo – e provar que isso é mais barato e mais proveitoso do que simplesmente enterrá-los.

O IGSD sugere uma forma de casar métodos industriais e de pequena escala para a produção do carvão, que, se refinado, poderá viabilizar economicamente a produção de biocarvão em regiões urbanas, rurais e até pobres.

Ele sugere três sistemas possíveis. O primeiro é um plano centralizado, pelo qual todos os resíduos de biomassa numa determinada região poderiam ser levados a uma planta central para processamento; o segundo é um sistema descentralizado, no qual cada agricultor ou pequeno grupo de agricultores teria seu próprio forno pirolítico de baixa tecnologia. O terceiro sistema propõe uma alternativa móvel, na qual um veículo equipado com um pirolisador movido a gás sintético visitaria pequenos estabelecimentos agrícolas, devolvendo o biocarvão para uso dos agricultores e ao mesmo tempo coletando o bio-óleo a ser transportado a uma refinaria e transformado em biocombustível líquido para veículos.

Como exemplo, o IGSD menciona a indústria da cana no Brasil, na qual as partes superiores da cana, normalmente queimadas no campo, e o bagaço (o resíduo da produção de açúcar) poderiam ser transformados eficazmente em biocarvão. Ele estima que, das 460 milhões de toneladas da safra anual de cana, até metade poderia estar disponível para pirólise.

Um grupo de empresas agora analisa esses problemas e procura comercializar o biocarvão como um remédio para o clima e para o solo, e como uma fonte de energia.

Conforme observa com certo pesar Mike Mason, co-fundador da companhia de compensação de carbono Climate Care, comprada pelo JPMorgan, até agora ele havia planejado passar grande parte do seu tempo perambulando pela África procurando elefantes (ele nasceu no Reino Unido mas foi criado no leste da África). Em vez disso, decidiu que a mudança climática é um problema grande demais para ser deixado como está e, com a sua nova empresa, Biojoule, tem investigado formas de transformar biocarvão em um negócio economicamente viável.

Em Ontário, no Canadá, a Dynamotive está produzindo biocarvão e até 100 toneladas diárias de bio-óleo numa planta de processamento de madeira. A Crucible Carbon, na Austrália, estima que sua tecnologia permitirá o sequestro de carbono a partir do biocarvão a um custo de cerca de 29 dólares australianos (US$ 13) a tonelada.

Mesmo sem os problemas logísticos, porém, outras pessoas estão menos convencidas dos benefícios do produto. Robert Trezona, chefe de pesquisa e desenvolvimento na Carbon Trust, uma instituição que recebe recursos do governo do Reino Unido que ajuda as empresas a reduzir suas emissões de gás estufa, teme que considerar o biocarvão como o principal produto resultante da queima de biomassa possa ser um entendimento equivocado da questão. A Carbon Trust está concorrendo para desenvolver plantas pirolíticas, mas visando produzir combustíveis líquidos para transporte a partir da biomassa, usando técnicas pirolíticas velozes, ante as quais o biocarvão é um sub-produto de utilidade questionável. Na verdade, estimular agricultores a produzir biocarvão por meios tradicionais de baixa tecnologia pode resultar em mais emissões de gases-estufa do que queimar plantas para obter combustível ou descartá-las, diz.

(Tradução de Robert BanvolgyiI, Sabino Ahumada e Sergio Blum)

08/02/2009 - 11:24h Darwin 200 anos depois

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Herton Escobar – O Estado SP

“No futuro distante, vejo campos abertos para pesquisas muito mais importantes. A psicologia será baseada num novo fundamento, baseado na necessária aquisição de cada poder e capacidade mental via gradação. Luz será lançada sobre a origem do homem e sua história.”

Charles Darwin, em A Origem das Espécies, 1859

Na semana em que Charles Darwin completaria 200 anos, a atual crise financeira-econômica mundial oferece um cenário ideal para estudar o legado do grande naturalista. Assim como o asteroide que caiu sobre a Terra há 65 milhões de anos alterou radicalmente o clima do planeta, levando os dinossauros à extinção e permitindo a ascensão dos mamíferos (até então pequenos animais noturnos que viviam à sombra dos grandes répteis), o colapso de Wall Street detonou uma sequência de eventos que alteram profundamente o ambiente econômico mundial.

Empresas, bancos e modelos de negócios que não conseguirem se adaptar às novas condições correm o risco de desaparecer da face da Terra, tal qual os dinossauros. Alguns gigantes do setor financeiro já foram extintos. Novos negócios sustentáveis, antes sufocados pelo ambiente especulativo e de consumo desenfreado, agora têm uma chance para florescer, tal qual os pequenos mamíferos do cretáceo.

Esse é o princípio da evolução por seleção natural, descoberto por Darwin em meados do século 19, após sua viagem de volta ao mundo a bordo do H.M.S. Beagle e publicado em 1859, no livro A Origem das Espécies – para muitos, a obra mais importante da história da ciência. Darwin enxergou algo fundamental e revolucionário sobre o funcionamento da natureza: um mecanismo pelo qual espécies podem evoluir, diferenciar-se e originar novas espécies por meio de forças exclusivamente biológicas, sem necessidade de intervenção divina ou atos sobrenaturais. Um mecanismo tão poderoso que, como Darwin bem previu, abriu caminho para novos – e polêmicos – campos de estudo a respeito da existência humana.

Que o homem evoluiu de um ancestral comum com os primatas já é uma certeza científica universal, confirmada por um batalhão de informações genéticas produzidas desde a descoberta do DNA. Mas será que a espécie humana ainda está evoluindo? E até que ponto a seleção natural poderia explicar não apenas a evolução de características físicas do ser humano, como a postura ereta e o cérebro grande, mas também de características comportamentais, como o altruísmo, o egoísmo, o racismo ou uma propensão à infidelidade conjugal? Essas são algumas das perguntas darwinianas com as quais cientistas e filósofos de um “futuro distante” se digladiam no presente.

BASE CIENTÍFICA

O primeiro passo de Darwin para chegar a sua teoria foi perceber que todos os indivíduos – inclusive os membros de uma mesma espécie – são anatomicamente e fisiologicamente diferentes entre si. Alguns nascem com pernas um pouco mais longas, com a visão um pouco mais aguçada, com antenas mais sensíveis ou com a capacidade de digerir alimentos melhor do que seus pais e irmãos.

Se alguma dessas características calha de ser vantajosa no ambiente em que aquele organismo vive – por exemplo, a capacidade de viver mais tempo sem água em um ecossistema árido ou uma coloração de asa que se camufla melhor com a cor da casca de uma árvore -, esse indivíduo terá melhores chances de sobreviver e, consequentemente, de deixar descendentes com características genéticas iguais às dele para compor as geração futuras (chamada seleção positiva). Já os indivíduos menos adaptados sofrem o efeito contrário: em média, vivem menos e deixam menos descendentes (seleção negativa).

Deixe a seleção natural agir por tempo suficiente e as variedades menos aptas tenderão a desaparecer da população, substituídas pelos descendentes das variedades mais bem adaptadas. É o que Darwin chamou de “luta pela sobrevivência”, mas que ficou conhecido pelo apelativo (e enganoso) título de “a lei do mais forte”. Novas espécies surgem quando uma variedade se separa da população original e segue um caminho evolutivo diferente, tal como as linhagens do homem e do chimpanzé divergiram de um ancestral comum.

Quando as condições ambientais mudam, as espécies precisam mudar também. Características que eram benéficas ou irrelevantes podem se tornar deletérias e vice-versa. É um processo contínuo, porém lento e gradual, que pode levar de algumas dezenas a muitos milhões de anos, e por isso é tão difícil de ser observado diretamente. Em um evento extremo, como a queda de um asteroide ou a explosão de uma crise financeira global, porém, a seleção atua de maneira óbvia e implacável. No lugar de um bando de répteis gigantes, pode-se acabar com um bando de mamíferos pequenos e peludos.

UNIVERSALIDADE

Por mais polêmica que ainda seja do ponto de vista religioso, a teoria da evolução por seleção natural é hoje um pilar central das ciências biológicas, tão indispensável para explicar o desenvolvimento de uma joaninha quanto a resistência de bactérias a antibióticos ou a resposta de uma floresta ao efeitos do aquecimento global. Como disse o geneticista ucraniano Theodosius Dobzhansky, em 1973: “Nada na biologia faz sentido, a não ser sob a luz da evolução.”

“O que está implícito nessa frase é que a biologia só se consolidou como ciência após a teoria da evolução”, diz o biólogo Diogo Meyer, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. “Antes havia apenas o estudo dos seres vivos; não havia uma teoria que integrasse tudo numa ciência comum. Hoje sabemos que os processos que moldam o genoma de uma bactéria e de um elefante são parte da mesma família.”

A analogia sobre a crise financeira serve para mostrar que as teorias de Darwin – agrupadas no que se convencionou chamar de “darwinismo” – foram mais longe ainda: extrapolaram os limites da biologia e colonizaram outras áreas da ciência, influenciando várias esferas do pensamento humano.

Mais até do que uma analogia, a evolução por seleção natural é um elemento crucial da teoria econômica moderna, segundo o economista José Eli da Veiga. “A ideia é que qualquer sistema evolutivo obedece às leis do darwinismo. E a economia é certamente um sistema evolutivo”, afirma Veiga, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP. “Um economista que não entende Darwin é um economista totalmente ultrapassado.”

Visto por uma ótica puramente evolucionista, vale a pena perguntar: ao financiar a salvação de empresas que, de outra forma, iriam à falência, estariam os governos indo contra a seleção natural? Vale a pena salvar os dinossauros?

“Darwin fez uma teoria biológica, mas construiu uma linha de raciocínio tão abstrata que acabou transcendendo a biologia”, diz o pesquisador Charbel El-Hani, coordenador do Grupo de Pesquisa em História, Filosofia e Ensino de Ciências Biológicas da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

SOCIOBIOLOGIA

No que se aplica à evolução de plantas, besouros, peixes e sabiás, a teoria de Darwin já é ponto pacífico na ciência. É quando se tenta aplicar a seleção natural aos seres humanos que a coisa fica complicada. Darwin desenhou uma árvore da vida na qual o homem é um galho tal como outro qualquer – uma espécie dotada de inteligência superior, porém gerada pelos mesmos mecanismos de diferenciação e seleção que produziram as plantas, besouros, peixes e sabiás. “Devo inferir por analogia que, provavelmente, todos os seres orgânicos que já viveram nesta Terra descenderam de uma única forma primordial, na qual a vida foi soprada pela primeira vez”, escreveu Darwin, no capítulo final de A Origem das Espécies.

Ele poderia ter deixado o ser humano fora dessa história, mas não deixou. As semelhanças entre os homens e os primatas já eram óbvias demais para serem ignoradas, mesmo no século 19, antes da genômica. A mera sugestão de que o Homo sapiens era uma forma evoluída de macaco e não um ser especial criado por Deus foi suficiente para detonar uma batalha entre ciência e religião que persiste até os dias de hoje. Darwin até tentou ficar de fora dessa briga no início, deixando o tema de fora de A Origem das Espécies (”Luz será lançada sobre a origem do homem e sua história” é a única referência que ele faz à espécie humana no texto). Mais tarde, porém, publicaria um livro específico sobre o assunto, chamado A Origem do Homem e a Seleção Sexual, de 1871.

A versão mais moderna desse debate se dá no campo da “sociobiologia”, uma ciência controversa que busca integrar conceitos biológicos ao estudo do comportamento humano. Umas de suas disciplinas, como previu Darwin, é a chamada “psicologia evolutiva”.

O raciocínio básico da sociobiologia é o de que, se o comportamento dos animais resulta de processos evolutivos, e os seres humanos são animais que evoluíram como todos os outros, então seu comportamento social deve ser, também, influenciado por processos biológicos – e não apenas culturais.

O tema é extremamente polêmico entre biólogos, antropólogos e sociólogos. “Não há nada no ser humano que não seja explicado por leis biológicas”, diz o biólogo Mário de Pinna, vice-diretor do Museu de Zoologia da USP. “A cultura tem origem biológica e, sendo assim, está sujeita também às leis da evolução.” Para ele, o ser humano continua a ser moldado pela seleção natural, tanto culturalmente quanto biologicamente. “Evolução nada mais é do que uma mudança na frequência de genes ou suas combinações ao longo do tempo numa população”, afirma Pinna. “Se você morre sem deixar filhos, geneticamente, é como se você nunca tivesse existido. Isso é seleção.”

O geneticista Sérgio Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), discorda. “A evolução humana, do ponto de vista biológico, acabou”, diz. “Temos uma cultura que vai diretamente contra a seleção natural. Temos a medicina: pessoas que deveriam morrer não morrem.” Hoje, segundo Pena, a única seleção relevante é a cultural. “Evoluímos tanto que um dos produtos da nossa própria evolução é uma nova maneira de evoluir”, diz. “Tomamos as rédeas do nosso próprio destino como espécie.”

O dilema, segundo a antropóloga Gláucia Silva, da Universidade Federal Fluminense (UFF), surge de uma separação equivocada entre homem e natureza, enraizada nas culturas ocidentais. “Os seres humanos são radicalmente distintos de todos os outros animais, mas não deixam de ser animais”, afirma ela. A sociobiologia, segundo Gláucia, tem o mérito de tentar reconstruir essa unidade – porém, sem oferecer respostas satisfatórias, reduzindo tudo a uma questão genética. “Os sociobiólogos não sabem nada de antropologia social. Eles têm respostas tão simples que dá vontade de rir.”

Gláucia defende a tese de que a espécie humana continua a evoluir biologicamente – “Basta estar vivo para ser passivo de seleção”, diz ela -, mas que o comportamento social humano não tem nenhuma relação com isso. Nem mesmo o comportamento sexual. “Os seres humanos não têm instinto sexual”, diz a antropóloga. “A regulação da nossa atividade sexual é 100% cultural.”

As discordâncias mostram que a obra de Darwin está longe de virar história e que muitas das questões levantadas por ele continuam tão importantes no século 21 quanto eram no século 19. “É realmente notável que um naturalista daquela época pudesse fazer perguntas que permanecem relevantes tanto tempo depois”, diz o ecólogo Thomas Lewinsohn, da Universidade Estadual de Campinas.

Ele discorda de outros cientistas que prefeririam abandonar o título “teoria” e apresentar a evolução por seleção natural como um “fato” consumado. “Chamar uma teoria de fato é como transformá-la num fóssil”, diz. “A palavra de Darwin não é uma palavra sagrada, que não pode ser questionada. É uma teoria viva, em constante desenvolvimento, que pode e deve ser sempre reexaminada.”

21/01/2009 - 18:41h Sexualité animale : orgies, trios et frottements

Les animaux sont-ils capables de “faire du sexe pour le sexe”, de se masturber ou d’avoir des relations homosexuelles ? La Villette consacre un cycle de conférences à la sexualité de ceux qu’on appelle un peu trop vite des “bêtes”.

Ggrubbing

La recherche du plaisir sexuel n’est pas l’apanage de l’être humain. Chaque mardi à 18h30,  jusqu’au 10 février, Frank Cézilly – professeur d’écologie comportementale à l’université de Bourgogne – et ses collègues animent à la Cité des Sciences toute une série de conférences qui devraient faire tomber des œillères : saviez-vous que les dauphins copulent avec des tortues dont ils se servent à la façon de poupées gonflables ? Les tortues ne sont pas consentantes. Mais qu’importe. Les dauphins se servent d’elles dans le seul but de se procurer du plaisir. Il leur arrive même de se satisfaire avec des anguilles ou des requins. Saviez-vous également que les girafes s’accouplent très fréquemment entre mâles ? Ces relations homosexuelles sont d’ailleurs caractérisées par une étrange parade appelée “necking” (l’enlacement des cous) : les mâles enlacent leurs cous, ce qui provoque généralement une érection suivie de “montes” auxquels peuvent s’associer 2 à 3 autres mâles attirés par le jeu…

“L’activité sexuelle ne limite pas à la simple copulation entre un mâle et une femelle chez un bon nombre d’espèces, résume Frank Cézilly. Des comportements homosexuels allant de simples comportements affiliatifs, jusqu’à la copulation, en passant par la stimulation sexuelle, s’observent par exemple chez certains insectes ou reptiles, chez les oies, chez les girafes, ou encore chez les bonobos.” Dans un livre à paraître en mars, aux éditions Le Pommier, Frank Cézilly consacre d’ailleurs un chapitre entier à la question de l’homosexualité animale. Ce chapitre, co-rédigé avec Michel Raymond (directeur de recherche au CNRS) ouvre de troublantes perspectives sur la vie privée des coléoptères, des papillons, des libellules et des blattes…

Je cite : “Il s’agit principalement de montes, ou de tentatives de montes, pratiquées par des mâles sur d’autres mâles. Mais il arrive qu’ils soient associés à une sorte de “frénésie sexuelle” qui touche les deux sexes. Ainsi, les observations d’agrégats formés par les charançons des agrumes, Diaprepes abbreviatus L.n ont révélé qu’à côté des accouplements “classiques” entre mâles et femelles, les femelles montent les mâles, les mâles se montent entre eux et montent même les couples déjà formés. La stimulation sexuelle associée à ces montes semble réelle puisqu’on observe que lorsqu’une femelle monte une autre femelle, elle étend son appareil ovipositeur de la même façon qu’au moment de pondre. De même, lorsqu’un mâle monte un autre mâle, son appareil génital pénètre la cavité anale de son partenaire.

Disséquant les mœurs étonnantes de toutes sortes d’animaux – de la couleuvre jarretière à flancs rouges jusqu’à l’oie cendrée -, les deux chercheurs dévoilent certaines découvertes récentes en écologie comportementale. Le scarabée japonais est incapable de faire la différence entre un partenaire mâle ou femelle (il s’accouple donc au hasard). Les mâles chez le gypaète barbu peuvent choisir de vivre en trio, avec une femelle et un autre mâle. Les bonobos femelles pratiquent couramment entre elles le GG-Rubbing (frottement des parties génitales suivant un rythme de 2,2 mouvements par seconde, aussi rapide que la copulation des mâles). Les parades homosexuelles des jars sont souvent bien plus exubérantes que celles de couples hétéros (quand un jar est plus grand que son partenaire, il le monte, et quand les jars ont la même taille, ils se montent à tour de rôle). Chez le petit pingouin, Alca torda, l’homosexualité est monnaie courante au sein de certains rassemblements: 66% des mâles sont “actifs” et 91% se font monter par d’autres mâles.

Les exemples d’unions sont également aussi divers que dans la population humaine: monogamie homosexuelle, monogamie hétérosexuelle, polygynie (lorsqu’un mâle monopolise plusieurs femelles), polyandrie (lorsqu’une femelle monopolise plusieurs mâles), promiscuité sexuelle… Tous les exemples sont dans la nature. Pour Frank Cézilly, qui organise à la Villette tout ce cycle de conférences sur les amours des dauphins ou des cygnes, il s’agit d’interroger “la limite entre l’homme et l’animal et ce qui sépare une sexualité  ancestrale ancrée dans la finalité reproductrice d’une sexualité hédoniste, censée être l’apanage de l’espèce humaine.” Préparez-vous à tomber des nues.

TROIS QUESTIONS A FRANK CEZILLY

Le préjugé concernant les animaux veut qu’ils soient strictement hétérosexuels, puisque leur sexualité n’aurait qu’un seul but : la procréation. Est-ce vrai ?

Si l’on restreint la sexualité à la procréation, il est évident que la sélection naturelle doit favoriser les copulations entre mâles et femelles. Mais est-ce que cela signifie pour autant qu’elle interdit toute homosexualité ?  Les organismes vivants ne sont pas des machines parfaitement réglées par un grand horloger, ils n’obéissent à aucun un dessein particulier pré-établi. Ce qui caractérise le vivant c’est précisément sa diversité, et en particulier celle qui existe à l’intérieur des espèces. Celle-ci peut dépendre en partie de la composition génétique des populations, mais elle procède aussi, particulièrement au plan comportemental, du développement des individus et de leur expérience. Si bien qu’il n’y a rien de surprenant à observer que les animaux, en diverses occasions et selon les espèces, peuvent développer des orientations homosexuelles et même des affiliations homosexuelles résultant en des associations stables dans le temps entre individus de même sexe.

Certains chercheurs avancent que ces comportements sont les symptômes d’un dérèglement : il s’agirait d’une perturbation dans l’équilibre de l’animal ou du groupe, ou d’un “trop plein de libido”. Les animaux ne seraient donc homosexuels (ou sur-sexuels) que dans des situations de crise, de pollution, de stress ou autre. A l’état naturel, dans un environnement “normal”, ils seraient toujours hétérosexuels?

Il est certain que la fréquence des comportements homosexuels augmente dans la nature lorsque qu’un sexe devient beaucoup plus fréquent que l’autre, quelle que soit la cause de cette altération de la sex-ratio. C’est aussi le cas en situation de captivité.  Pour autant l’homosexualité s’observe aussi en conditions “naturelles”, par exemple chez les gorilles, et elle peut être alors liée à une forme d’organisation sociale qui implique la formation de groupes multi-mâles par exemple.

Des études ont-elles été faites sur le pourcentage d’homosexuel(le)s au sein de telle ou telle espèce animale? Comparativement au pourcentage d’homosexuel(le)s dans l’espèce humaine?

Pas à ma connaissance, en tout cas de façon systématique à l’échelle d’une population. Qui plus est votre question sous-entend qu’il existerait des individus strictement homosexuels. Ce cas semble le moins fréquent, et il convient plutôt de concevoir que l’activité homosexuelle observée dans la nature est le plus souvent le fait d’individus bisexuels.

Triocervide

CONFERENCES A LA CITE DES SCIENCES (LA VILLETTE)

Mardi 20 janvier, à 18h30 : “Existe-t-il un rôle conventionnel des sexes chez les animaux ?
Conférence de Frank Cézilly (professeur d’écologie comportementale à l’université de Bourgogne)

Mardi 27 janvier, à 18h30 : “Hermaphrodisme et transsexualité : deux en un ?
Conférence de Philippe Jarne (CNRS, Centre d’écologie fonctionnelle et évolutive, Montpellier) et Thierry Rigaud (Equipe écologie évolutive, UMR CNRS biogéosciences, université de Bourgogne)

Mardi 3 février, à 18h30 : “Homosexualité dans le règne animal
Conférence de Michel Raymond (CNRS, Institut des sciences de l’évolution, université de Montpellier II) et Frank Cézilly.

Mardi 10 février, à 18h30 : “La sexualité des primates”
Conférence de Marie Charpentier (CNRS, Centre d’écologie fonctionnelle et évolutive, Montpellier) et Elise Huchard (Institut des sciences de l’évolution de Montpellier, Institut de zoologie de Londres)

Les conférences ont lieu dans l’Auditorium – Niveau 0 de la Cité des sciences. Ouvertes à tous, en accès libre et gratuit.

La Sexualité Animale, écrit sous la direction de Frank Cézilly, paraitra aux éditions le Pommier le 3 mars 2009.

Les images représentent : deux femelles bonobos pratiquant le Genital-to-Genital rubbing (frottement génital pour se procurer un orgasme) et un trio de cervidés (une femelle, deux mâles).

Fonte les 400 culs – Blog de Liberation