17/04/2008 - 20:07h “Nègre tu étais, nègre tu es resté”, Adieu Aimé Césaire

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Par Jean Matouk | Economiste

Un immense poète vient de nous quitter ! Un poète dont la Martinique a fait don à la France , et que le monde entier nous envie. J’ai eu l’insigne privilège de rencontrer Aimé Césaire en décembre à propos de Haïti qu’il connaissait si bien. Dans le corps très frêle, la flamme brillait encore de mille feux. Quand il me raccompagna, j’eu conscience d’avoir rencontré , probablement pour la dernière fois, un de ces hommes exceptionnels qui honorent l’humanité.

Dés son « Cahier d’un retour au pays natal », composé , à 26 ans, à sa sortie de l’Ecole normale supérieure, en 1939, apparut cette exubérance dans le jet et la gerbe, cette faculté d’alerter sans cesse de fond en comble le monde émotionnel , jusqu’à le mettre sens dessus dessous, qui caractérise la poésie authentique. André Breton put alors dire de cette œuvre qu’elle était le plus grand monument lyrique de ce temps. « Soleil cou coupé », « Cadastre » et « Moi laminaire » devaient ensuite confirmer cette immense talent . Mais le poète fut aussi dramaturge. Par sa « Tragédie du Roi Christophe » , comme sa

« Tempête », ce Shakespeare noir qui écrivait en français, fut un chantre infatigable de l’universalité humaine. Une conscience universelle ! Compagnon de Leopold Sedar Senghor dans la promotion de la négritude francophone, il ne put, lui non plus , se contenter de penser le monde Lui aussi voulu le façonner. Elu député en 1945, il obtint , dés 1946, la départementalisation de la Martinique et des autres DOM. Il fut , durant cinquante ans, un grand maire de Fort de France, sans jamais abandonner son combat anticolonialiste.

Adieu Aimé Césaire ! Par tous les combats que tu menas pour l’humanité, tu fus, comme tu le souhaitais, dans tes premiers « Cahiers » « un homme cafre, un homme hindou de Calculta, un homme de Harlem qui ne vote pas ». Souhaitons que tu restes, comme tu le voulais aussi, pour tous nos compatriotes martiniquais, « un initiateur et un ensemencement ». Nègre tu étais, nègre tu es resté, comme tu le proclamais. Mais aujourd’hui toute la France est nègre! Car ce géant de la littérature nous rend tous fiers d’être français.

04/04/2008 - 04:47h Negro e branco, brilhante e flexível, Obama revitaliza King

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O Estado de São Paulo - Gilles Lapouge*

Barack Obama tinha 6 anos quando Martin Luther King foi assassinado em Memphis. Desde aquele 4 de abril de 1968, a história mundial tornou-se tão efervescente que esquecemos a face dolorosa dos EUA. A candidatura de Obama é um convite a nos lembrarmos dela. No entanto, se o eloqüente Obama é um herdeiro da epopéia de King, ele o é de maneira longínqua, imprecisa.

King, pastor na Geórgia, foi o representante exemplar dos descendentes de escravos africanos que viviam no sul, repelidos e desprezados pela maioria dos brancos. Obama vem de outra parte. Ou melhor, vem de todos os lugares ao mesmo tempo - e essa é a sua força. Ele é negro e branco. Nasceu no Havaí, de pai queniano e mãe branca de alta linhagem: entre seus ancestrais está Jefferson Davies, presidente dos Estados Confederados da América. Muito jovem, retornou ao Quênia. Estudou em uma escola muçulmana na Indonésia. Fez seus estudos superiores nos EUA. Tornou-se cristão e participou de uma igreja negra de Chicago. Nada disso lembra a história de King. Lembra mais a de um imigrante do que a de um negro americano.

Há outra diferença. King não se inscrevia no jogo normal dos EUA e de suas instituições. Ele não conduziu uma ação política. Era um pastor que a miséria e a injustiça vieram interpelar. Já Obama é um homem político. Seguiu todos os currículos. Sabe das dificuldades. Conhece todas as sutilezas. Assim, o combate que empreende não é exatamente o mesmo que o de King. É por isso que evitou tão ferozmente apresentar-se como o recuperador da bandeira de King.

Nem sempre foi fácil. Ele tinha um desafio sutil: não se passar por um representante natural da comunidade negra, mas sem negligenciá-la. Nesse caso também, ele precisava estar aqui e lá ao mesmo tempo: negro e branco, nem negro nem branco.

O fato de pertencer, se não à comunidade negra, mas pelo menos ao mundo mestiço, não conseguiu descarrilar sua carruagem em várias ocasiões em que isso poderia ter ocorrido. O momento mais perigoso foi no início de março, quando vídeos lembraram que o antigo pastor da igreja de Obama em Chicago, o reverendo Jeremiah Wright, era um inimigo dos EUA. Em 2003, Jeremiah, que foi uma espécie de guia espiritual de Obama, clamou: “Em vez de dizer ‘Que Deus abençoe os EUA’, é preciso dizer: ‘Que Deus amaldiçoe os EUA’, que tratam como subumanos alguns de seus cidadãos.” Pior: após os atentados de 11 de setembro de 2001, Jeremiah ousou dizer: “Surpreende-me que as pessoas se espantem de que tudo o que os EUA fizeram no estrangeiro seja jogado hoje em sua cara.” Diante desse terremoto, Obama reagiu com sangue-frio. Finalmente, ousou encarar de frente a questão racial, essa ferida dos EUA que ele até então evitava. Fez um discurso inspirado sobre o tema, à maneira de um Lincoln ou de King.

De fato, há algumas semelhanças entre sua luta política e a luta humana de King. Os dois homens, num dado momento, defrontaram-se com o mesmo inimigo: o ódio dos extremistas. Por volta de 1960, os negros americanos, constatando que a não-violência não dava resultado, distanciaram-se de King e cometeram excessos sangrentos. King assistiu, desesperado, a esse retorno do horror.

Obama também deparou com o mesmo tipo de excesso. Mas soube acalmar os ânimos. E exatamente por causa de sua personalidade ambígua, meio queniana e meio americana, meio negra e meio branca, um pouco religiosa, mas não muito. Ele tem uma suavidade, uma flexibilidade que King não podia conhecer. E ele tem outros trunfos. Além de seu charme e seu brio dialético, é um homem absolutamente novo. King era muito velho, dos inícios da história americana. Obama, com apenas 46 anos, é um homem livre em relação às tradições políticas asfixiantes às quais todos os seus concorrentes estão extremamente ligados.

O fato de ele pertencer à comunidade negra, longe de aliená-lo dos brancos, como ele próprio temia, é, ao contrário, aceito. Melhor ainda: muitos americanos brancos, desesperados ao constatar o desprezo, o ódio ou a aversão aos EUA no mundo todo, se perguntam se este homem brilhante, negro e ileso de todos os clichês americanos não poderia reconquistar o coração dos homens. A cor da sua pele não poderá fazer esquecer a imagem corrompida e despedaçada dos EUA de Bush?

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris

03/04/2008 - 17:41h 31 Hours, 28 Minutes

By Michael Finger

Memphis Magazine

April 1, 2008

In his final years, Dr. Martin Luther King Jr. had death on his mind.

While watching news coverage of the assassination of President John F. Kennedy, he turned to his wife, Coretta, and told her, “This is what is going to happen to me.” All his adult life, this practitioner of nonviolence had been threatened, assaulted, and surrounded by people — most of them white, some of them black — who considered him their enemy. The FBI routinely released memos documenting his activities, with the heading “Martin Luther King — Communist.” Andrew Young, one of the leaders of the Atlanta-based Southern Christian Leadership Conference, observed that King had questioned “fundamental patterns of American life” and had therefore “become the enemy” to many Americans.

So as he headed to Memphis in the spring of 1968, to hold what he hoped would be a peaceful demonstration in support of the sanitation workers’ strike here, King knew his life was in grave danger. “There’s no way in the world you can keep somebody from killing you,” he told a reporter, “if they really want to kill you.”

And he knew Memphis would be a challenge. The sanitation strike had dragged on into its fifth week, and the situation seemed hopeless. Jerry Wurf, international head of the American Federation of State, County and Municipal Employees (AFSCME) had complained bitterly, “I spent half my time trying to keep that city from burning down, while the god-damned mayor was pouring gasoline on the situation as I ran around pulling matches out of people’s hands.”

King’s supporters had dire premonitions. On the night following the dreadful riot of March 28th, the Rev. James Jordan, pastor of historic Beale Street Baptist Church, woke up in tears. He later told friends that he’d had a nightmare: “Dr. King’s picture came before me. I saw the Lord had shown me Dr. King’s death.”

When King decided to return to Memphis on April 3rd, to salvage his reputation and show the world that he could indeed preach the gospel of nonviolence with a second march on April 8th, a bomb threat delayed his flight. Ralph Abernathy, his second-in-command at the SCLC, reassured him, “Nobody is going to kill you, Martin,” but King still seemed deeply troubled. Later that day, however, he told supporters, “I would rather be dead than afraid.”

Then came his famous speech that blustery evening of April 3, 1968, at Mason Temple. With the wind howling outside and banging the shutters around the packed auditorium, he seemed to pause and reflect for a few seconds, then said, “Like anybody, I would like to live a long life. Longevity has its place. But I’m not concerned about that now. I just want to do God’s will. And He’s allowed me to go up to the mountain. And I have seen the promised land. I may not get there with you. But I want you to know tonight, that we as a people will get to the promised land . . .”

Within 24 hours, he would be felled by an assassin’s bullet. On these pages we present the storm of events that surrounded Dr. Martin Luther King Jr. in his final hours in Memphis. >>>

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03/04/2008 - 14:02h El soul se toma revancha

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Cada una con su estilo, Alicia Keys, Amy Winehouse y Beyoncé revitalizan el género de origen negro y, junto con Joss Stone, proyectan el legado de figuras como Tina Turner y Aretha Franklin. De cómo el alma volvió al cuerpo y está entre nosotros

Por Sergio Marchi - Para LA NACION - BUENOS AIRES, 2008

Amy Winehouse

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Hay pocas cosas tan inmortales como el alma, que nunca envejece y siempre está allí, en el reino de lo intangible pero de ánimo presente. Alma, en inglés, se dice soul , y es apropiado que haya un estilo de música con ese nombre, atemporal, conectado con el espíritu y a menudo invisible (¿o debería escribir “inaudible”?). Hacía tiempo que nadie hablaba de la música soul , un género que parecía destinado al anaquel de las reliquias del siglo XX. Hasta la última entrega de los premios Grammy.

Allí se produjo una sorprendente resurrección. Bastó que dos reinas en el exilio abandonaran su ostracismo y se aparecieran en cuerpo y alma durante la ceremonia celebrada en Los Ángeles en febrero pasado: Tina Turner y Aretha Franklin, de 68 y 65 años respectivamente, probaron que la magia del soul sigue viva en ellas. Tras su retiro de casi ocho años, Tina se mostró en espléndida forma y hasta soportó con elegancia un pisotón de la princesa Beyoncé (se puede ver en YouTube). Aretha Franklin, directamente, convirtió el Staples Center de California en una iglesia.

Aquella noche de los Grammy hubo una gran ganadora: Amy Winehouse, la atribulada cantante británica que encarna la versión actual de la diva soul . Su álbum Back to Black fue alabado en todo el mundo y se ha convertido en un éxito arrollador, incluso en la Argentina. Lo suyo tuvo un grado inusual de dramatismo: participó de la ceremonia vía satélite, tras abandonar la clínica donde se recuperaba del abuso de drogas y alcohol. Un condimento especial para su triunfo.

Sin embargo, la ganadora moral de esa noche parece haber sido Alicia Keys, otra nueva exponente de la canción negra que fue presentada por un prócer del soul , Stevie Wonder. A ese padrinazgo se le suma el hecho de que Bob Dylan la mencionó en una de sus letras recientes. Keys apabulló al público y lo puso de pie con una tremenda performance de “No One”, uno de los éxitos de su reciente álbum As I Am .

El mensaje fue claro y contundente: las divas soul recuperaban la escena. Pero ¿dónde habían estado todo este tiempo?

Del campo a la ciudad

El origen de toda la historia está en los años 40, cuando una gran parte de la población negra de los estados sureños de Estados Unidos abandonó las zonas rurales y se dirigió a los centros urbanos del Norte, preferentemente hacia Chicago, en búsqueda de una vida mejor. Así, el blues dejó de ser rural para convertirse en música urbana. En el camino, surgieron variantes que desafiaron la ortodoxia de los doce compases del blues , y a esa mutación se la llamó rhythm & blues : canciones con raíz de blues que no eran, técnicamente hablando, blues genuinos.

Los amantes del góspel, la música religiosa, siempre vieron con malos ojos a estos estilos, a los que consideraban alejados de Dios y muy cercanos a las peores costumbres de los hombres: el sexo, la bebida, la violencia. Ambos mundos parecían escindidos, pero algunas cosas los reunirían. En primer lugar, el rhythm & blues comenzó a entreverarse con la música country y, a mediados de los años 50, nació el rock and roll . Así, los chicos blancos dieron rienda suelta a su amor por la música negra, cambiando para siempre el panorama cultural de los tiempos por venir.

Al mismo tiempo, Ray Charles consiguió imprimirle a su sanguíneo rhythm & blues un fervor casi religioso. Con temas como “I ve got a Woman”, “Hallelujah, I Love Her So” y, sobre todo, “What I d Say”, conseguiría la piedra filosofal del soul . ¿Cómo? Mediante la unión de lo profano con lo espiritual: combinando el rhythm & blues con algunos elementos del góspel. Si se reemplaza el objeto del deseo (una mujer) por Jesús, la canción pierde todo su peso ofensivo y se transforma en un himno góspel. “What I d Say” es el primer tema que incluye el recurso conocido como llamada y respuesta, tan característico en las iglesias negras.

Ray Charles inspiró a otros grandes cantantes como Jackie Wilson, James Brown y Sam Cooke, que afianzarían el estilo y probarían sus variantes personales. Con la creación del sello Motown, Berry Gordy Jr. le dio al soul un caracter juvenil y orientado al público blanco. Pocos años después, The Beatles, inspirados por sus canciones, conquistarían el mundo con sus “yeah, yeah, yeah”. Martha & The Vandellas, The Temptations y The Supremes serían las estrellas de Motown de la década del 60, y serían relevadas por Marvin Gaye y Stevie Wonder en la del 70.

Motown se caracterizó por su pertenencia geográfica, la ciudad de Detroit, al norte de Estados Unidos. En el extremo sur sería la ciudad de Memphis el faro que alumbraría el nacimiento de Stax Records, que produjo grandes individualidades: Aretha Franklin, Otis Redding y Wilson Pickett, entre otros.

Pero en los 70, el género comenzó a cambiar: James Brown le puso funk a su estilo, aparecieron grandes orquestadores como Isaac Hayes y Barry White, y finalmente arribó la música disco. Su éxito descomunal, entre 1975 y 1979, arrastró la música soul tras sus pasos y la obligó a orientarse hacia las pistas de baile con un ritmo monótono, que le hizo perder gran parte de su riqueza. En 1980, la disco era historia y el soul estaba perdido. La irrupción de Michael Jackson, que creó un sonido propio, no alcanzó para revitalizar el género.

El entorno no ayudó mucho a que el soul sobreviviese, ya que en los 80 toda la música se volvió hacia el mercado; solo había lugar para superestrellas como Jackson, Prince y Lionel Richie. Otro factor que contribuyó a eclipsar el soul fue el surgimiento del rap, género en que predomina la palabra hablada y las baterías electrónicas, que oscurecen lo que en el soul era esencial: la expresión humana. De manera que el soul fue archivado y destinado a enriquecer el repertorio de las radios de oldies … hasta hoy.

El frente de las nuevas divas soul se conformó a instancias de la industria, que sabe que una cantante femenina con personalidad siempre es buen negocio. Probablemente sea Beyoncé Knowles la favorita de las discográficas; un nombre ya probado como solista y como figura destacada de Destiny s Child, un trío de R&B (así, solo con las iniciales) que alborotó el gallinero a comienzos de esta década. Beyoncé, además de dar prueba de fe ante la reina Tina Turner, protagonizó Dreamgirls , una película basada en la carrera de Diana Ross &The Supremes. Pero hay que decir que es la más anclada en la fórmula R&B , un aggiornamento inofensivo del soul : un león con las garras cortadas.

Joss Stone, una inglesa rubia como el trigo y de voz negra como el ébano, es toda una veterana con tres álbumes, pese a ser la más joven del lote: está a punto de cumplir 21 años. Cuando lanzó su primer álbum tenía apenas 16, pero sus pasos fueron guiados por la pionera del rhythm &blues , Betty Wright, que la rodeó de leyendas del soul de Miami. No estuvo presente en la última entrega de los Grammy, pero ya cantó con los Rolling Stones y una larga lista de luminarias deslumbradas por un registro que desafía su edad y su color.

Diamantes

Alicia Keys atravesó airosa ese terreno de la precocidad; ya a los cuatro años sorprendió a sus maestras de jardín con su voz. Vecina de Harlem, hija de padre negro y madre blanca, estudió desde muy temprano piano clásico y eso fructificó en una compositora por la cual se libró una guerra ganada por el veterano Clive Davis, dueño de J Records y considerado uno de los cazatalentos más fabulosos de la historia (entre otros “descubrimientos” puede contar a Janis Joplin y Carlos Santana). El hombre la tuvo dos años haciendo banco, hasta que editó Songs in A Minor en 2001 y la niña Keys se convirtió en la artista más excitante del nuevo milenio, con ventas arrolladoras. The Diary of Alicia Keys y el flamante As I Am terminaron por dar forma al consenso unánime que existe sobre Alicia: es una artista destinada a permanecer.

Amy Winehouse es la que parece tener la magia y la cuota de tragedia al mejor estilo Billie Holiday. En 2003, llamó la atención con su disco Frank , pero fue Back to Black , producido por Mark Ronson, el que la convirtió en estrella. Su talento como cantante revela una fortaleza que no se corresponde con la fragilidad de su imagen. Su aparición eclipsó la sorpresa causada por Joss Stone en su momento y marcó otra cosa: su soul no busca recrear las viejas formas sino hacerlas evolucionar. La gran duda es si Amy podrá sobreponerse a sus adicciones o si reincidirá en ellas hasta cansar al público que hoy devora sus sórdidas historias en los tabloides británicos.

No es casual que el renacimiento del soul se esté produciendo tras un largo reinado del marketing en la industria discográfica. Después de tantas creaciones diseñadas a medida, hacía falta una buena cuota de talento natural. Y el soul se ha especializado siempre en pulir diamantes en bruto y no en crear joyas de un canto rodado. A lo mejor, todo se resume en que el soul (alma) es inmortal y este es solo un nuevo capítulo de su historia. ¡Aleluya!

03/03/2008 - 09:28h O segundo presidente negro

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Matthew Shirts - O Estado de São Paulo

Onde quer que eu vá, de uns tempos para cá, a pergunta é uma só: Barack Obama pode mesmo ganhar a Presidência dos Estados Unidos? Os brasileiros não acreditam. Estão abismados.

A resposta que parecem aguardar é ‘não’. Esperam eu dizer que ainda não foram contados os votos de alguma região onde se acredita que o homem defendeu a arca de Noé dos dinossauros com Winchesters, ou então uma longa explicação de como o Colégio Eleitoral pode tornar sua eleição impossível.

Não é que torçam contra o candidato. Não é isso. Tampouco são fãs da Hillary Clinton ou do John McCain. O problema é que se Obama for o próximo presidente, então seu entendimento anterior dos Estados Unidos e do mundo era equivocado. Pensavam outra coisa daquele país e do que era possível por lá. Talvez tenham de reconsiderar as coisas, o emprego, o casamento, tudo.

É um sentimento compreensível. A possibilidade de um negro, jovem, ser o próximo presidente dos EUA é mesmo surpreendente, sobretudo depois de oito anos de administração Bush. E mais: ele não é raivoso. E tem aquele nome, pelo amor de Deus, que não é nem de americano. (Um brasileiro amigo meu afirmou, dia desses, num momento de distração, que Obama nasceu no Haiti - foi no Havaí…)

Eu mesmo não teria acreditado se alguém me dissesse, há um ano, que ele estaria liderando a corrida pela indicação do Partido Democrata a esta altura do campeonato. O espanto não é privilégio de brasileiro (Nasci e fui criado nos Estados Unidos).

Como explicar o Obama? Não estava tudo preparado para a vitória da Hillary? Não era a sua vez? A máquina partidária não fora azeitada para isso? Ela é competente, afinal, inteligentíssima, experiente, à sua maneira, e traz ao baile, ainda, a novidade de ser mulher.

Há quem explique o fenômeno por meio da formação excepcional do Obama. É difícil, dizem, lutar contra o primeiro candidato negro plausível à Presidência dos Estados Unidos. Mais ainda contra um indivíduo que consegue ser de Kansas, Chicago, Havaí e Quênia, de mãe solteira pobre, filho de muçulmano com cristão, e de Harvard. É muita biografia. É muita coisa ao mesmo tempo. O resultado é carismático demais.

Mas não é só isso. Fiquei feliz ao ler, esta semana, que Obama não é um fenômeno isolado, por incrível que possa parecer. Faz parte de uma nova geração de políticos chamada pela revista New Yorker de ‘a ala Oprah Winfrey do Partido Democrata’. Para quem não sabe, Oprah, como é conhecida, é uma apresentadora de TV e empresária de incalculável influência na cultura americana. Seu apoio foi fundamental para a candidatura de Obama. E também para a eleição de outro negro, Cory Booker, este ao cargo de prefeito da cidade de Newark, em New Jersey, a dez quilômetros de Manhattan.

Guarde esse nome. Como Obama, Booker é negro e jovem, de apenas 38 anos. E como Obama, rejeita a política baseada no racialismo. Estudou, como Obama, em instituições de elite: Yale, Oxford e Stanford, onde jogou futebol americano. Já é apontado como presidenciável. Aposta seu futuro na reforma de uma cidade decadente e corrupta. Sua maior bandeira é a segurança pública. É conciliador, como Obama. Fisicamente, lembra um pouco Ronaldo, o fenômeno, quando este ainda era careca.

Booker inspira e comove pelo mesmo motivo do Obama: o desejo de uma era pós-racial na vida americana. É um sentimento forte. A política voltou a ter um componente utópico nos Estados Unidos. Amanhã, depois das primárias de Ohio e Texas, Obama pode definir a eleição do seu partido. Seja como for, o espírito da época já mudou. Para melhor.