08/09/2008 - 16:05h Estatização nos EUA é “o enterro do neoliberalismo”, diz Maria da Conceição Tavares

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EDUARDO CUCOLO - da Folha Online, em Brasília

A economista Maria da Conceição Tavares afirmou hoje que a intervenção do governo dos EUA nas duas maiores empresas de hipotecas do país representa o “enterro do neoliberalismo”.

Ontem, o governo norte-americano anunciou uma ajuda de até US$ 200 bilhões para as gigantes hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac. Essa é a maior intervenção do governo dos EUA para evitar uma crise sistêmica na economia.

“É fantástico o país mais liberal do mundo ter de estatizar. É o enterro do neoliberalismo de uma maneira trágica”, afirmou Maria da Conceição.

A economista comparou a operação ao Proer, programa de socorro a instituições financeiras realizado no primeiro governo do presidente Fernando Henrique Cardoso.

“Custou uma fortuna”, afirmou, em relação à intervenção dos EUA. “O nosso Proer foi mais baratinho.”

O ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser Pereira afirmou também que a intervenção é “o fim do neoliberalismo”. Segundo ele, a crise deve provocar o ressurgimento de uma nova onda desenvolvimentista, como ocorreu após a crise de 1930, com maior participação do Estado na economia.

“Essa crise marca o fim da onda neoliberal”, afirmou. “É fundamental que haja uma intervenção do Estado.”

Bresser defendeu uma complementação entre a intervenção do mercado financeiro e do Estado na economia. Disse também que a situação seria pior caso não houvesse uma intervenção mais forte do banco central dos EUA na economia do país nesse momento.

23/07/2008 - 21:27h “A política está reduzida ao noticiário policial”

A imagem “http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/agosto2005/fotosju299online/ju299pg07.jpg” contém erros e não pode ser exibida.Entrevista- Prof. Luiz Werneck Vianna - Iuperj

Agência Carta Maior
22/07/2008

Em entrevista à revista eletrônica IHU On-Line, o professor Luiz Werneck Vianna fala sobre o caso Daniel Dantas e critica o recuo da política e sua redução a uma agenda policial. O pesquisador acredita que “os piores instintos da sociedade estão sendo suscitados com tudo isso”. E que a solução virá “com mais política” e não com menos. Para Werneck Vianna, o caso Dantas virou um “affair” midiático, com cortinas de fumaça.

IHU On-Line

Ao analisar os recentes episódios de corrupção no Brasil, a partir da prisão (ou da tentativa de) do banqueiro Daniel Dantas, o professor Luiz Werneck Vianna, do Iuperj, em entrevista concedida por telefone à revista eletrônica IHU On-Line, identifica apenas “o capitalismo operando”. Para ele, o mal não está em figuras como a de Dantas ou de Eike Batista, “como se a sociedade fosse melhorar se nos livrássemos delas”.

Ele garante: “Não vai melhorar. A sociedade vai melhorar se organizando em torno das suas questões centrais”, que são, na sua opinião, o crescimento econômico, a reforma agrária e a democratização da propriedade. O pesquisador acredita que “os piores instintos da sociedade estão sendo suscitados com tudo isso”. E que a solução virá “com mais política”. “O que constatamos, ao longo desse episódio, é que a política recua. Não há política. Está faltando sociedade organizada, reflexiva. A política está reduzida ao noticiário policial”, explica.

Werneck Vianna é professor pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, é autor de, entre outros, A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997), A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999) e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Personagens como Daniel Dantas e Eike Batista avançaram sobre nacos importantes do patrimônio do Estado brasileiro. Quais foram as condições políticas e econômicas que permitiram o surgimento desses personagens?

Luiz Werneck Vianna - O Brasil é um país capitalista. E esses são empresários audaciosos, jovens, e têm encontrado um terreno favorável a tratativas com o executivo no sentido de fazer negócios de interesse comum. E nisso ambos parecem que têm se complicado muito. No entanto, há uma zona de sombra que ainda precisa ser esclarecida. Meu problema em relação a tudo é essa sucessão de intervenções espetaculosas da Polícia Federal, a mobilização da mídia, do Ministério Público, do Judiciário e da opinião pública para esses fatos. As questões centrais não são essas.

Com essa cortina espetacular, o mundo continua como dantes. Nada muda no que se refere à questão agrária, às políticas sociais. A população anda desanimada, desencantada. Além disso, o que aparece aqui, que é muito perigoso, é um espírito salvacionista. Há um “Batman institucional” atuando sobre a nossa realidade. Esse “Batman” é a Polícia Federal associada ao Ministério Público. Há elementos muito perigosos aí, de índole messiânica, salvacionista, apolítica, que podem indicar a emergência de uma cultura política fascista entre nós. Todos esses escândalos e espetáculos atraem a opinião pública como se dependesse da salvação de todos apurar os negócios do Eike Batista e do Daniel Dantas. Não depende, isso é mentira!

Com isso, se mobiliza a classe média para um moralismo que não pára de se manifestar. A política cai fora do espaço de discussão. Enquanto isso, aparecem dois personagens institucionais, ambos vinculados ao Estado: o Ministério Público e a Polícia Federal. Este caminho é perigoso, e a sociedade não reage a ele faz tempo. A cultura do fascismo pode se manifestar com traços mais bem definidos, a partir da idéia de que nosso inimigo é a corrupção, especialmente aquela praticada pelas elites. Então, a sociedade acha que se resolve esse problema colocando a elite branca na cadeia. Desse modo, o país viveria numa sociedade justa. Não vai, mentira!

IHU On-Line - O que o senhor considera como as questões centrais na sociedade brasileira, que devem ser discutidas com mais ênfase?

Luiz Werneck Vianna - O tema do crescimento econômico, da reforma agrária, da democratização da propriedade. Para isso ninguém mobiliza ninguém.

IHU On-Line - Pode-se afirmar que os anos dourados do neoliberalismo brasileiro produziram uma nova burguesia nacional da qual Daniel Dantas e Eike Batista são hoje personagens centrais? O que distingue essa nova burguesia da “velha burguesia nacional” do período desenvolvimentista?

Luiz Werneck Vianna - Eike Batista não é um homem das finanças, e sim um homem da produção. O Daniel Dantas, não. Ele é um homem do setor financeiro. Este setor apresentou enormes possibilidades. Esses executivos do setor financeiro não têm 40 anos. Se examinarmos os currículos deles, veremos que são formados por boas universidades, com doutorado no exterior. Apareceu um novo mundo para esses setores médios e educados da população, especialmente os economistas. Se passa da posição de economista para a posição de banqueiro hoje muito facilmente.


IHU On-Line - Como o senhor interpreta essas relações aparentemente ambíguas que o banqueiro Dantas tinha, ao mesmo tempo, com o mercado financeiro internacional e os fundos de pensão do Estado do qual fazem parte sindicalistas? Acabou-se a velha contradição capital - trabalho?

Luiz Werneck Vianna - Essa questão dos fundos previdenciários existe em toda a parte, não apenas no Brasil. E o controle disso tem sido em boa parte corporativo. Quem mexeu com a questão e falou no surgimento de uma nova classe foi o Francisco de Oliveira. Não sei se devemos concordar inteiramente com o que ele diz, mas, pelo menos, é uma alusão importante. O capital hoje tem uma outra forma de circular, e isso não ajuda o mundo sindical a se reorganizar. O que vemos é um sindicalismo inteiramente cooptado pelo Estado. Dantas jogou com as oportunidades que viu. Até agora, as únicas coisas concretas pelas quais ele pode ser pego são o suborno ao policial e seu problema com o Imposto de Renda. Esse é o capitalismo operando. Daqui a pouco vão querer “prender” o capitalismo. E não creio que isso esteja na intenção da Polícia Federal. O mal não está nessas figuras, como se a sociedade fosse melhorar se nos livrássemos delas. Não vai melhorar. A sociedade vai melhorar se organizando em torno das suas questões centrais.

IHU On-Line - O banqueiro Dantas estabeleceu uma rede de conexões políticas tecida ao longo de três governos - Collor, FHC e Lula. Como entender o poder de Daniel Dantas, sua capacidade de manipulação e envolvimento de tantas pessoas, de diferentes governos, nessa malha de corrupção?

Luiz Werneck Vianna - Era necessário que nessa rede público-privada aparecessem personagens. Essa rede não podia se montar sem pessoas concretas. Dantas foi uma. O ponto da privatização estabeleceu um caminho para que esses homens encontrassem a sua oportunidade.

IHU On-Line - O senhor considera que o caso Dantas ameaça o conceito de República, ou se pode afirmar que efetivamente o Brasil nunca desfrutou do status de República?

Luiz Werneck Vianna - Não ameaça nada. Esse é um affair midiático, com cortinas de fumaça. Os piores instintos da sociedade estão sendo suscitados com tudo isso. Vejo as primeiras fumacinhas de uma síndrome fascista entre nós. E isso deve ser denunciado, combatido, e com política, com mais política. O que constatamos, ao longo desse episódio, é que a política recua. Está faltando sociedade organizada, reflexiva, e a política está reduzida ao noticiário policial.


IHU On-Line - Como o senhor analisa a postura do Supremo Tribunal Federal nesse caso? Como interpreta o comportamento do ministro Gilmar Mendes?

Luiz Werneck Vianna - Interpreto bem. O papel da Suprema Corte é defender a Constituição, as liberdades individuais, e também não deixa de incorporar essa preocupação com o testemunho do espetacular que essas operações policiais manifestam. Uma outra questão vinculada a isso é a escuta telefônica. Estamos indo para um estado policial? E a sociedade aprende a apontar como culpado o “malvado” lá da ponta, responsável por todos os males, que, caso preso e execrado, vai fazer com que a sociedade melhore.

Num ano eleitoral, tudo se discute, menos a política. Não podemos defender a idéia de que um grande inquérito, um grande processo pode resolver as máculas da nossa história, criar um novo tipo de um encaminhamento feliz para nós (e isso é feito pela polícia, pelos grampos telefônicos, pela repressão!). Isso não lembra a linguagem do regime militar, quando ele se impôs? De que o grande inimigo é a corrupção? Só que agora tudo está sendo feito numa escala nova, imensa, com um domínio total dos meios de comunicação. O próprio Congresso se tornou uma ampla comissão parlamentar de inquérito, apurando, investigando e não discutindo políticas e soluções para os problemas. Além do mais, temos um grupamento novo na sociedade: a Polícia Federal é nova. Ela foi extraída da classe média. Seu pessoal é concursado, bem formado, com curso superior. Seus integrantes estão autonomizados a ir para as ruas com esse sentimento messiânico, que aparece no relatório do delegado Protógenes, de que a Polícia pode salvar o mundo.

IHU On-Line - Qual é a sua opinião sobre o combate à corrupção no Brasil? Este episódio recente abre a possibilidade de mudanças?

Luiz Werneck Vianna - Nesse processo, a ordem racional legal avança, se aprimora, se aperfeiçoa. No entanto, o que tento combater é uma visão salvadora, justiceira, messiânica do papel policial para a erradicação dos nossos males, como se não devesse haver nenhum impedimento entre a ação da polícia e a sociedade, como se não devêssemos ter habeas corpus, como se as pessoas pudessem ser presas, retiradas das suas casas nas primeiras horas da manhã, algemadas, e tudo isso passando por câmeras de televisão… Não creio que isso seja um indicador de democracia.


IHU On-Line - Que tipo de sentimento esse episódio provoca na população brasileira? Revolta, descrédito nas instituições?

Luiz Werneck Vianna - Descrédito. E também aprofunda o fosso entre a sociedade e a política, mantém a sociedade fragmentada, isolada, esperando que a ação desses novos homens, dessas corporações novas, nos livre do mal. Talvez eu tenha dado muita ênfase à dimensão negativa de tudo isso, mas também vejo que esse processo pode ser corrigido se a ordem racional legal for defendida por recursos democráticos, sem violência, com respeito às leis, à dignidade da pessoa humana. É possível se avançar na ordem racional legal, investigando a corrupção, prendendo seus responsáveis, mas sem que isso assuma o caráter de escândalo, de espetáculo, no qual parece que temos um agente de salvação em defesa da sociedade. Isso sim é perigoso.

04/04/2008 - 04:09h Sobre neoliberais, psiquiatras e Estado

Por Ricardo Amorim - VALOR

“Essa íntima combinação entre ‘boa economia’ e ‘pura ideologia’ é a característica central do neoliberalismo.” - Hélio Jaguaribe (2006)

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Os problemas do Brasil? Ora, os problemas do Brasil já foram diagnosticados. As soluções estão aí: reformas modernizadoras que ponham o mercado no centro de tudo. Mas se é assim, então todos precisamos de psiquiatras. Há quase dois séculos, mas principalmente depois de 1930, todos os brasileiros afirmam querer o progresso e o crescimento econômico. São gerações de insanos que não perceberam ainda que as reformas necessárias para isso são simples, exatas e mundialmente conhecidas. Ou seja, somos uma nação de loucos que briga, ano após ano, contra a própria felicidade.

É isso que parecem afirmar muitos pesquisadores ligados ou próximos ao pensamento neoliberal quando insistem em apontar que os problemas estão na insegurança microeconômica, no tamanho descabido do Estado e na regulação excessiva da atividade econômica. Suas abordagens os fazem ignorar a história sobre e com a qual se construiu o país até o presente. Em outras palavras, desprezam que as instituições não são mero acidente ou fruto de mentes despreparadas, mas sim resultado de séculos de convívio e lutas sociais em que os vencedores, e isso é importante, foram moldando a face do país, limitados pela força social das oposições.

No Brasil, esses autores sofrem e se martirizam com a aparência dual da nossa sociedade. Não compreendem o descompasso de fibras óticas e supercomputadores conviverem lado a lado com escolas sem energia elétrica. Nas suas “idéias fora do lugar” não cabe um país como o Brasil, pois eles têm fé cega no dogma da generalidade geográfica e atemporal das suas explicações e modelos matemáticos. Crêem piamente no consumidor universal e na empresa tosca, traduzida em uma fórmula que poderia muito bem caber aos especialistas em processos de engenharia da produção.

As até hoje fracassadas experiências neoliberais pesaram sempre mais sobre a cabeça de quem mereceria maior proteção

Mas o pior é que desprezam propositadamente que qualquer desenvolvimento se faz através de mudanças nas estruturas do país e redefine as formas das relações sociais e de produção estabelecidas. Isto é, quando uma economia cresce e se desenvolve, a coisa mais comum é que novos grupos sociais ascendam em poder e renda e a antiga elite perca espaço. Naturalmente, novos costumes, valores e comportamentos serão valorizados em detrimento daquilo que foi e agora é tido como antiquado e irracional. Logo, o que é comum e natural hoje será considerado absurdo amanhã e a sociedade vai, lenta ou rapidamente, se modificando com isso. E a preocupação aqui não passou ainda para o campo dos povos, seus costumes, forças sociais diferenciadas e Estados complexamente organizados.

Como, então, acreditar em que as mais diferentes sociedades, inclusive a nossa, possam se mover a partir de um homem universal com um só papel: o de consumidor? E mais, de uma empresa simples, nunca grande demais e também universal em sua forma de agir? Em resumo: o que lhes dá a falsa segurança nas suas afirmações é a primeira coisa a ruir quando uma sociedade se desenvolve: as mudanças implicam em reposicionamento e transformação dos grupos sociais e, portanto, não se trata apenas de alterar estímulos e preços, mas sim a própria essência dos interesses que movem os agentes. Ignora-se o básico: os caminhos seguidos pelos países correspondem às forças sociais que vencem os embates internos e, assim, criam e recriam a face da nação. Por isso mesmo, seus modelos, “que na sua fé não permitem espaço à dúvida”, trazem soluções que, quando aplicadas, encontram ambientes adversos e necessariamente conduzem a resultados contrários ao esperado. O mais grave, contudo, é que as até hoje fracassadas experiências neoliberais pesaram sempre mais sobre a cabeça de quem mereceria maior proteção. Apesar dessas tantas, é divertido perceber que, se os modelos não funcionam (e a história diz que foi sempre), a culpa, segundo os neoliberais, é do país, da sociedade atrasada e do governo renitente, incapaz de implementar as reformas “estruturais” necessárias. Enfim, a culpa é da realidade.

O que esses autores esquecem tem a dimensão de uma gravíssima comédia de erros. Eles não observam (não se sabe se de propósito ou por desconhecimento) que, por exemplo, nunca houve desenvolvimento econômico acelerado sem forte e direcionada política econômica por parte do Estado. Qualquer país desenvolvido (da precursora Inglaterra até os recentemente industrializados, como a Coréia), nenhum deles, em seus momentos de acelerado crescimento, abriu mão de políticas indutoras por parte de seus respectivos Estados.

E esse é o grande problema. Ao observar superficialmente o Brasil a partir de uma fórmula mágica importada, não compreendem que a atual ordem social privilegia alguns, exatamente aqueles que, ao longo da história, tornaram-se os vencedores das lutas sociais. Esse grupo de economistas esquece, deste modo, que a sociedade de hoje foi construída para que atendesse aos interesses de algum grupo social vencedor e, portanto, é a imagem e semelhança dessa elite. Em suma, não é verdade que todos querem construir um país diferente: quem está “por cima” tem força e não permite alterações. Logo, se a ordem social parece resistir à razão e à lógica é porque alguém, algum grupo, recusa o desenvolvimento. Ou seja, se as instituições brasileiras têm um formato criticável é porque elas suprem algum interesse e este é forte o suficiente para resistir a pressões por mudança.

Sem compreendermos isso, não haverá nunca uma teoria capaz de explicar o país. Por tudo isso, é a partir do entendimento dessa sociedade particular, o Brasil, que devem surgir as idéias e depois as políticas econômicas. Acreditar em idéias e doutrinas a priori é uma parte da explicação da nossa fraqueza enquanto nação. E o mais grave é que fracassar aqui pode significar a continuidade do que vivemos desde a independência: um país de grande potencial submerso no subdesenvolvimento e na problemática da dependência.

Ricardo Luiz Chagas Amorim é economista do Ipea, professor licenciado da Universidade Mackenzie, pesquisador ligado ao IE-UNICAMP e membro da Sociedade Brasileira de Economia Política. É autor, com outros pesquisadores, da série “Atlas da Exclusão Social” (Editora Cortez).

31/03/2008 - 13:54h Ainda sobre os panelaços na Argentina

Oleo do Diabo
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Vamos esclarecer algumas coisas. O problema não está em pessoas da classe média argentina saírem às ruas batendo panela, embora eu ache isso um tanto ridículo. Os próprios blogueiros de buenos aires estão refletindo sobre os panelaços dos anos 90, que derrubaram ministros das fazenda. Adiantou alguma coisa? Na verdade, não. Derrubaram ministros, inclusive alguns bons ministros, que pegaram o abacaxi incomensurável cultivado pelo governo Menen, o otário que mais levou à sério as reformas neoliberais sugeridas pelos americanos. Aliás, por falar em americanos, nada como um dia após o outro. A cobra está sendo intoxicada pelo próprio veneno. Enquanto o mundo inteiro cresce, só os EUA têm crise, devido à estupidez neoliberal. O neoliberalismo é uma ofensa ao liberalismo. Não tem nada de liberal no neoliberalismo. Até mesmo a teoria do Estado mínimo é uma balela. O neoliberalismo tenta se vender como verdadeiro capitalismo quando não passa de uma tática semi-mafiosa na qual grupos financeiros ligados ao poder ganham milhões às custas de transferir par si a renda de milhões de trabalhadores e empresários.

Voltando à Argentina, o problema não está na panela. Está em quem bota fogo na panela. Em Buenos Aires, há manifestações quase diárias sobre tudo e todos. A maioria são sérias, com faixas explicativas, demandas específicas. Naturalmente, a maioria são de sem-terras pedindo terras, desempregados pedindo empregos, e assim vai. A diferença deste novo panelaço é justamente… a falta de demandas. As pessoas simplesmente saem batendo panelas pelas ruas, à noite, depois de ouvir pelo rádio e pela televisão que outras pessoas estariam indo às ruas “espontaneamente”. O conceito de “espontâneo”, naturalmente, possui um sentido muito especial. Esqueçamos o fato de ser falso, já que manifestações convocadas por locutores de rádio e televisão a cada 10 minutos não podem ser, tecnicamente, classificadas de espontâneas. Esqueçamos isso. O que os blogueiros argentinos, além da falsidade do caso, notaram é que, para a mídia argentina, a espontaneidade diferenciaria o panelaço das passeadas “organizadas” por sindicatos, movimentos sociais, associações e qualquer tipo de organização civil. São espontâneas. Tão espontâneas que as pessoas nem sabem o que estão fazendo lá. A causa da revolta, teoricamente, seria o discurso de Cristina atacando a greve dos agricultores. Bem, não quero entrar no mérito da política agrícola do governo argentino. Certamente, há quem defenda e quem ataque, com argumentos válidos para todos os lados. O caso, como sempre, virou guerrinha ideológica. Muitos lembraram, inclusive a Cristina, que estes agricultores que estão despejando leite na estrada e deixando estragar milhares de quilos de carne, sob o olhar complacente da mídia e dos ricos argentinos, foram os mesmos que defenderam e sustentaram a ditadura militar.

Os blogueiros portenhos estranharam outras coisas. A mídia repete que são pessoas comuns saindo às ruas, novamente distinguindo-os dos “animais” de sindicatos, movimentos sociais e associações. O que eles não notaram, mas eu notei, é a repetição da ladainha na mídia brasileira.

Já disse: em Buenos Aires, que tem características não reunidas em nenhuma cidade brasileira, que é ser capital política, administrativa, financeira, cultural e sindical do país, há manifestações, e grandes, quase todos os dias. Mas a mídia brasileira só quer saber do panelaço dos riquinhos.

29/01/2008 - 12:17h Ode a McDonnald

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O caderno Ilustrada da Folha traz hoje um artigo de João Pereira Coutinho, com título “A velha besta”. Um primór apologético do capitalismo. Deveria se chamar “Ode a McDonnald”.

Atacando o sistema educacional europeu pela sua reticência a fazer apologia do sistema, seus valores e o mercado, atribui-le a responsabilidade pelas dificuldades econômicas do velho continente.

Peremptório, proclama: “Nos bancos da escola, os franceses não aprendem as leis básicas da oferta e da procura. Mas aprendem a combater “la McDonaldisation du monde” e, como resultado, a economia gaulesa floresce rumo ao abismo”.

Fora não ser verdade que os franceses não aprendem as leis básicas da oferta e da procura (o presidente do FMI é um francês), o paradoxal é que combater a “McDonalisation du monde” é tida como responsavél do declinio economico da França, o que é uma burrada monumental.

O país do McDonald, graças ao reino absoluto do mercado e a falta de regularização, levou a um abalo da economia mundial em seu conjunto.

Se a França vai para o abismo, após 6 anos de governos de direita, é por tentar aplicar as receitas do neoliberalismo, as mesmas receitas que aprendidas nas escolas fundamentalistas do monetárismo yankee estão levando os Estados-Unidos a recessão e milhões de americanos a perda de suas própriedades.

Ainda bem que a educação na Europa, em particular na França, prepara as pessoas para ser cidadãs, críticas. O sonho dos bajuladores do liberalismo era que as preparasse exclusivamente a servir ao capital. O sonho de todos os escravistas.

LF

A seguir o artigo
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