16/04/2009 - 17:59h Lembranças traumáticas

 CONTARDO CALLIGARIS

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Trauma não é uma lembrança muito forte; é um evento lembrado de forma insuficiente

O “NEW York Times” de 6 de abril passado publicou um artigo de capa sobre pesquisas recentes graças às quais, um dia, será possível “editar memórias indesejáveis” (por exemplo, Heida, Englot, Sacktor e outros, “Neuroscience Letters”, vol. 453, nº 5).
Apesar dos progressos da neurociência, estamos longe de entender exatamente o que é a memória. Simplificando, uma lembrança parece depender de substâncias que constroem pontes entre células do cérebro, pontes silenciosas, mas que podem ser imediatamente solicitadas caso um evento venha a ativar uma das células. Por exemplo, se você for Proust, quando der uma dentada numa madeleine, você não vai apenas saber que já comeu uma madeleine no passado: o gosto do docinho vai circular por inúmeras pontes e despertar todas as células relacionadas com as experiências de sua infância em Combray.
Até aqui, pensava-se que uma centena de moléculas estivesse envolvida na construção dessas pontes entre células.
A nova pesquisa encontrou uma substância, a proteína PMKzeta, cujas moléculas, mais do que outras, constituem e fortalecem as ditas pontes que, uma vez ativadas, produziriam uma lembrança. A pesquisa operou assim: escolheu ratos que tinham aprendido (de maneira permanente) a evitar pequenos choques elétricos no chão. Logo, injetou, no próprio lugar da dita memória, uma droga, chamada ZIP, que inibe a PMKzeta. E eis que os ratos voltaram à estaca zero: agiam como se não conhecessem o terreno.
Em tese, se a coisa funcionar nos humanos, deveria ser possível consolidar as lembranças injetando no cérebro PMKzeta (ou estimulando sua produção). Imagine as aplicações possíveis na demência senil ou, simplesmente, no envelhecimento (sem contar que todos começariam a querer injeções de PMKzeta para melhorar a memória deles e a de seus filhos). Até aqui, tudo bem.
O problema está na outra aplicação possível da pesquisa. O articulista do “Times” se entusiasmava com a ideia de que, um dia, com injeções cerebrais de ZIP, poderíamos produzir o esquecimento das lembranças desagradáveis ou traumáticas -claro, se a gente dominar o processo com precisão (para esquecer uma briga de casal, você não quer, ao mesmo tempo, perder a lembrança de seu primeiro beijo). Essa atitude do articulista talvez seja (perigosamente) compartilhada por parte da comunidade científica; ela se funda na ideia de que um trauma seria uma lembrança que nos estorva por ser, ao mesmo tempo, excessiva e desnecessária. Vistas do consultório de um psicoterapeuta, as coisas não estão bem assim.
Primeiro, a ideia de que a lembrança do trauma seria desnecessária e descartável é problemática. Se você foi estuprado na infância, é provável que você tenha construído sua vida inteira ao redor da lembrança dessa violência sofrida. Imaginemos, por exemplo, que, desde então, a figura que dá sentido à sua vida seja a da vítima: suprimir essa lembrança com uma injeção significaria suprimir um dos alicerces de sua personalidade e de sua existência. O que sobrará de você sem aquela lembrança traumática?
Outro problema. Tudo indica que um trauma não é uma lembrança nociva por ser forte demais; ao contrário, em geral, ele é um evento mal lembrado ou lembrado de maneira insuficiente. Mesmo caso: você foi estuprada quando criança; em muitos casos, essa experiência é traumática porque é lembrada SÓ como uma violência penosa que você sofreu. Você não memorizou, por exemplo, sua satisfação em se sentir objeto da atenção de um adulto ou mesmo sua descoberta culpada de emoções e sensações que lhe eram, até então, desconhecidas. O fato de reativar essas lembranças não desculpa o adulto estuprador, mas, para você que sofreu a violência, o sentido da experiência passada muda bastante; talvez não lhe seja mais necessário se conceber para sempre como vítima da vida.
Em suma, a solução do trauma não consiste em apagá-lo, mas, ao contrário, em lembrá-lo melhor. Se quiséssemos usar a técnica da pesquisa citada, eu sugeriria, no lugar onde o trauma está registrado, injeções de PMKzeta para ajudar a memória, não de ZIP para apagá-la.
O tempo das injeções cerebrais nos prontos-socorros ainda está longe. Mas não é cedo para notar que a cura das experiências penosas de nossa vida não está no esquecimento, mas no esforço para se lembrar delas em toda sua incômoda complexidade.

ccalligari@uol.com.br

08/03/2009 - 15:29h Males da infância

+Marcelo Leite – FOLHA SP


O ser humano carrega marcas químicas indeléveis pela vida

O biólogo Sidarta Ribeiro, chefe da tropa do Instituto Internacional de Neurociência de Natal (RN), costuma dar uma palestra sobre Freud e a neurobiologia que deixa torcidos os narizes tanto de psicanalistas quanto de biólogos. O ponto alto é uma relação de pesquisas recentes para mostrar que Freud atirava no que via e às vezes acertava no que não podia ver. Faltava-lhe a mira telescópica da biologia molecular.
Ribeiro terá de aumentar a lista para incluir um trabalho revelador de Patrick McGowan. O estudo da universidade canadense McGill, na última edição do periódico científico “Nature Neuroscience”, focaliza um mecanismo que ajuda a entender como, de modo concreto e não por meio de vagas “pulsões”, experiências da infância conformam a base do comportamento do adulto.
McGowan não trabalhou com genes, que alguns desinformados ainda supõem conter todo o destino de uma pessoa escrito em código cifrado de DNA. Deu preferência para um dispositivo químico (metilação) que silencia genes, ou seja, impede que eles sejam usados pelas células. Fez essa escolha a partir de pesquisas com ratos apontando que era um mecanismo importante para gravar no cérebro efeitos de vivências infantis.
Ninguém sabe se roedores têm complexo de Édipo, mas já se conhece bem o resultado de lambidas frequentes das ratas sobre seus filhotes. Eles se tornam mais resistentes ao estresse, característica que mantêm até a vida adulta. E esta resposta tem a ver com hormônios glicocorticóides, como o cortisol (conhecido como o “hormônio do estresse”).
No foco da pesquisa canadense estava a metilação do gene NR3C1, mordaça bioquímica que atrapalha a comunicação desses hormônios. Seguindo a pista dos ratos, a equipe de McGowan levantou a hipótese de que seres humanos maltratados na infância -por abuso sexual, espancamentos etc.- apresentariam o mesmo padrão de silenciamento. Acertaram na mosca do alvo invisível para Freud.
Como não dá para fazer com gente viva os experimentos infligidos a roedores, o grupo da McGill recorreu a cadáveres. Mais exatamente, cadáveres de suicidas, divididos em dois grupos: com e sem história documentada de abusos na infância.
Para controle, examinaram também a metilação do gene NR3C1 no cérebro de pessoas que tivessem morrido de modo repentino. O resultado esperado era que o padrão de silenciamento de glicocorticóides entre suicidas maltratados na infância fosse mais intenso do que entre os outros suicidas ou entre não-suicidas. Não deu outra.
McGowan mostrou que, assim como acontece com ratos, seres humanos carregam para a vida adulta marcas indeléveis do que os entes queridos lhes fazem (ou deixam de fazer).
É óbvio que devem existir muitos outros mecanismos do gênero em ação, como alerta Steven Hyman, da Universidade Harvard, no mesmo número da “Nature Neuroscience”. Para entendê-los, “será necessária a profundidade ilustrada pela linha de pesquisa que culminou no trabalho de McGowan et al., mas também uma amplitude muito maior, e então [teremos] os meios para elucidar o número estonteante de interações gene-gene e gene-ambiente que estão por trás de quem somos e do que fazemos”.
O inconsciente molecular, por assim dizer -de cuja compreensão não nos encontramos tão mais próximos assim do que estava Freud quando escreveu, em 1895, seu “Projeto para uma Psicologia Científica”.


MARCELO LEITE é autor da coletânea de colunas “Ciência – Use com Cuidado” (Editora da Unicamp, 2008) e do livro de ficção infanto-juvenil “Fogo Verde” (Editora Ática, 2009), sobre biocombustíveis e florestas. Blog: Ciência em Dia ( cienciaemdia.folha.blog.uol.com.br ). E-mail: cienciaemdia.folha@uol.com.br