10/12/2008 - 17:41h Paixões em triângulo de fogo e dor

Rubens Ewald Filho mostra O Amante de Lady Chatterley intenso e elegante

Crítica Jefferson Del Rios – O Estado SP


Em sua curta vida, David Herbert Lawrence (1885-1930) incomodou o capitalismo industrial inglês e as boas maneiras do reinado de Eduardo VII. O escritor, que se assinava D.H. Lawrence era polido mas teimoso. Não quis notar o que aconteceu a Oscar Wilde. Ambos cometeram o mesmo engano que, em termos de estratégia militar, significa abrir duas frentes de combate ao mesmo tempo. Wilde é sempre visto como homem que se arruinou em escândalo homossexual. Pouco se menciona sua simpatia pelos socialistas da época que preconizavam reformas sociais mesmo que sem o teor revolucionário dos marxistas. D.H. Lawrence tinha a mesma posição; Wilde foi para a prisão, enquanto ele morreu ao ser publicado na Inglaterra seu O Amante de Lady Chatterley, romance em que Constance, nobre casada com um inválido, entrega-se a Mellors, empregado do seu castelo.

O autor gostava de polêmica, e tinha talento. Vejamos detalhes das brigas que comprou. A social quando o amante plebeu se manifesta: “Viver para outra coisa. Que o nosso fim não seja unicamente ganhar dinheiro, nem para nós mesmos, nem para o quer que seja. Somos hoje forçados a isso. A ganhar um pouco para nós e muito para os patrões.”

Agora, a parte psicológica, dos costumes, na relação de Lady e Mellors: “Ao fogo da investida fálica do homem ela pode alcançar o coração da floresta do seu ser. Constance sentiu que atingiu o embasamento de rocha de si mesma, e que a vergonha não existe. Tornou-se ela mesma quando se libertou da vergonha. Oh! Era assim? A vida, a vida!”

Foi um pandemônio. Tremeram as xícaras dos chás da cinco na Londres de 1928 diante de tamanha insolência. Para piorar, Lawrence tinha o que se chama de maus antecedentes. Em 1920 escrevera Mulheres Apaixonadas (Women in Love) com uma cena de luta entre dois homens nus com evidente sugestão sexual. Gente da alta classe, um deles patrão capaz de atiçar cães ferozes contra os empregados mineiros (cena brutal, no livro e no filme com Alan Bates e Oliver Reed). Em 1923 no conto Raposas (The Fox) explicitou a pulsão sexual ligando duas mulheres.

Numa comparação com Wilde, tais ousadias custaram menos a Lawrence que continuou a produzir incansavelmente romances, contos, poesia, teatro e ensaios. Os tempos mudaram (aí estão o príncipe Charles e Camila Parker Bowles) e O Amante de Lady Chatterley permanece como uma das obras-primas da ficção do século 20. O estilo impecável e a verdade intrínseca do enredo sobrevivem gloriosos às cinzas do conservadorismo.

O espetáculo de Rubens Ewald Filho, conhecido jornalista cinematográfico, é a homenagem dele ao reino dos filmes enquanto pisa o terreno do teatro. A adaptação de Germano Pereira une informações sobre Lawrence com o entrecho amoroso. Há equilíbrio – bons cortes e edição – nessa escolha que introduz um novo personagem, o artista, diante dos cânones da estratificada sociedade inglesa, um mundo de diferenças desde o manejo da linguagem aos hábitos ancestrais (o empregado é um “guarda caças”, função que a nós parece distante). A relação do marido com o subalterno é uma aula de sociologia pela literatura. O primeiro é, à sua maneira, um cidadão de caráter forte. Feriu-se pela pátria na 1ª Guerra Mundial, mas olha a humanidade de cima; o empregado aparenta seguir as regras, mas quer um mundo novo.

Rubens Ewald fez questão de excluir elegantemente a obviedade do sexo e nudez. Ignorou o facilitário tolo de “mostrar tudo”. Com a decisiva participação da diretora de arte Nadine Stambouli Trzmielina, transformou a explosão do desejo em uma dança estilizada; um tango erótico e dramático. Os intérpretes são jovens, bonitos, as palavras de Lawrence são claras, e é o que basta para levar o espetáculo a um nível superior. Há total adequação física de Germano Pereira, sólido, ruivo como tantos ingleses; mas tem o segundo trunfo de também representar, comovido, o escritor atacado que defende sua arte.

Nesse pêndulo de frustrações e sonhos femininos, Ana Carolina de Lima ilumina a outra metade do jogo. Atriz bela e de sóbria presença, ganhará apostando sempre na representação porque não lhe faltarão elogios ao rosto e olhos que lembram desde Gene Tierney às brasileiras Marlene França e Selma Egrei em início de carreira. No delicado papel de Clifford, o marido de vida mutilada, Ailton Guedes convence quando mostra o tremor interno da impotência e o ressentimento afetado.

Como Rubens Ewald é – apaixonadamente – um homem do cinema, termina o espetáculo com a projeção de um texto na tela. Talvez ficasse melhor se feito um pouco antes, durante a dança do casal. Porque assim o espetáculo terminaria totalmente dentro do teatro nessa realização enriquecida por sutilezas de figurinos, iluminação e a trilha sonora de Marcelo Amalfi e Ivam Cabral. D.H. Lawrence tem a homenagem que merece.

Serviço
O Amante de Lady Chatterley. 80 min. 14 anos. Espaço dos Satyros 2 (90 lug.). Pr. Roosevelt, 134, 3258-6345. 4.ª e 5.ª, 21 h. R$ 20. Até amanhã

12/10/2007 - 10:04h ‘Os amantes se comportam de maneira absurda’



Assim a escritora Doris Lessing inicia sua análise de O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence

Doris Lessing

Amantes se comportam de maneira absurda, em conversas de amor e em intimidades que eles poderiam não querer que gente de fora soubesse, mas D. H. Lawrence, em O Amante de Lady Chatterley, não se intimida de fazer seus amantes correrem na chuva, a mulher dançando – esta era a moda então, Isadora Duncan foi responsável – ou entrelaçando flores nos pêlos pubianos um do outro. É precisamente essa sua coragem que às vezes o leva à beira da farsa. Um romancista mais astuto, e menor, teria cortado essas passagens propensas a provocar a zombaria. Mas em toda sua obra, o maravilhoso pode estar lado a lado com o absurdo.

Lawrence, o filho de mineiro, tinha muito a dizer sobre a luta de classes. Seus versos sobre as classes altas, as classes médias, estão entre os mais tolos jamais escritos. É difícil acreditar que o mesmo homem escreveu alguns dos mais belos poemas no idioma, Snake, Bavarian Gentians, Not I… but the Wind, o adorável poema The Piano sobre o adulto lembrando sua mãe brincando com ele quando criança. O Lawrence que escreveu The Ship of Death seguramente nunca fora apresentado ao homem que escreveu sobre o burguês bestial. Ele casou-se com uma aristocrata alemã, e escreveu um romance sobre uma Lady Chatterley que era casada com um baronete. (…)

Constance Chatterley está presente em todo esse romance como uma mulher real, com nádegas adequadas, e pernas de mulher, não uma dessas garotas modernas com ‘bundinhas de menino parecendo dois botões de colarinho’ e sem uma verdadeira feminilidade. Durante a revolução feminista dos anos 1960, fiquei surpresa e me diverti ao ouvir algumas feministas muito francas dizer em que haviam lido Lady Chatterley como eu, uma geração ou duas antes. Uma teve que admitir o fato de que a maioria das mulheres ainda anseia pelo amante completo, real, perfeito, suas metades gêmeas perdidas (Platão – mas Lawrence não tinha tempo para ele). A mulher ainda procura muito pelo Sr. Certinho. (…)

Lawrence, em seu romance mais famoso, saúda o coito anal como o auge da experiência sexual, mas isso está escrito de maneira não explícita. Bem, é sabido que muita gente gosta de sexo anal. Hoje em dia, ele não precisaria ter escrito isso tão obscuramente. Aparentemente, ele está deixando para trás a transa compassiva e o orgasmo vaginal, para não falar do pobre velho clitóris, pois o que é descrito é, na verdade, um estupro anal. Constance gosta e atinge sua plenitude como mulher – temos a palavra de Lawrence quanto a isso. Mas é curioso que ninguém tenha visto o que Lawrence estava realmente dizendo nesse romance, defendendo o ato como sendo realmente tão moral e tão salutar.

Sabemos que os problemas sexuais de Lawrence foram resolvidos no sexo anal, e hoje em dia provavelmente poucas pessoas diriam mais do que: ‘Mesmo? Isso é curioso, notando como ele falava de vaginas.’ Aqui está essa escrita moralista feroz, com todo o poder de Lawrence por trás. E o que o sexo compassivo tinha a ver com estupro anal? Por que não dizer, simplesmente, que o casal de personagens Mellors e Constance praticaram um pouco de sodomia? Mas não, esse romance é um manifesto, ou, talvez, vários, pelo número de seres diferentes que viviam dentro da pele de Lawrence, fundidos pela força da necessidade desse homem moribundo, impelido, de dizer ao mundo que ele poderia salvá-lo.

TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIK

Este é um trecho do resumo editado da introdução da escritora Doris Lessing para a edição da coleção Peguin Classic de O Amante de Lady Chatterley