02/11/2009 - 11:45h Copo meio cheio

LÚCIA GUIMARÃES – NOVA YORK – O Estado SP

A última semana começou com um número que preocupou muitos jornalistas americanos. A rede CNN despencou para o quarto lugar de audiência do jornalismo na TV a cabo. E a Fox, comemorando sua condição de “perseguida” pelo governo Obama, disparou para um folgado primeiro lugar.

A CNN inventou o jornalismo de 24 horas e o fundador da Fox, Roger Aisles, inventou o comício eletrônico travestido de jornalismo.

Desde que uma assessora de Barack Obama fez o calculado primeiro disparo, no dia 12 de outubro, afirmando que a Fox não passa de uma ala do Partido Republicano, comentaristas de variada coloração ideológica discutem a sensatez da tática.

A venerada Primeira Emenda da constituição americana, que garante a liberdade de expressão, imprensa e religião, é invocada frequentemente pelos que não acreditam nela.

No ciclo viral de notícias, a estupidez se propaga com a velocidade da luz. Exemplo: Barack Obama foi comparado a Richard Nixon, o garoto-pôster da perseguição à imprensa. Desde quando um presidente que se indispõe com a imprensa ou setores dela é uma anomalia? E qual é a semelhança entre Nixon, notoriamente paranoico e conspirador, que grampeava e ameaçava jornalistas, e o atual presidente americano?

Um excelente artigo editorial no Wall Street Journal assinado por Thomas Frank, cujo espaço é um oásis de sensatez entre as tropas de choque de Rupert Murdoch, lembrou que a perseguição nas mãos das “elites” é um dos motes da rede Fox.

O levante conservador americano a partir da década de 90 alimentou-se desta falácia narrativa – entre Nova York e Los Angeles, a middle-America é explorada e desprezada pelas hordas de privilegiados que comem rúcula e dirigem carros híbridos.

Frank oxigenou o debate com dois argumentos: Obama está certo, a Fox News é um contínuo talk-show conservador. Ela foi criada pelo homem que salvou a carreira de Nixon na década de 60, reinventando o futuro presidente para a TV. Roger Ailes perde seu sono com a Primeira Emenda tanto quanto eu perco o meu com golfe.

Obama está errado na forma desajeitada como colocou a rede na berlinda. Frank diz que a Casa Branca “jogou gasolina numa fogueira” ao alimentar as teorias conspiratórias da rede adversária quando podia ter apelado para o humor, a ironia e o sarcasmo.

Um bom cursinho preparatório para enfrentar jornalista crasso é assistir a gravações não editadas das coletivas de John Kennedy, que reagia com um humor relaxado de quem está diante de um Martini e não de um microfone.

E assim voltamos a uma fundação que tem aparecido com frequência na imprensa americana. O Pew Research Center for the People & the Press toma o pulso do público americano em sua reação à mídia. O centro se tornou uma fonte preciosa de informação neste momento de confluência de duas angústias coletivas: a crise econômica na mídia tradicional e a epidemia de jornalismo ideológico.

A última pesquisa do Pew Center confirma o que sabemos: o papel da ideologia no consumo de notícias é cada vez maior. E a Fox é vista como a mais ideológica das redes de cabo. Explica-se o quarto e último lugar da CNN, atrás até de sua parente, o canal HLN, um híbrido de notícias curtas e talk-shows. A rede, apesar de vista pela maioria como “liberal” (à esquerda do espectro político americano) e de abrigar figuras como Lou Dobbs, o profeta do apocalipse causado por imigrantes, não se posiciona como pró ou contra Obama. A ópera-bufa da esquerda e da direita no cabo é protagonizada pela MSNBC e a Fox.

Enquanto o musculoso e peripatético Anderson Cooper enxuga as lágrimas com a queda de mais de 70% da audiência de seu programa em horário nobre na CNN, vale a pena notar um número mais interessante para quem acredita que o jornalismo tem um papel em qualquer democracia.

O site cnn.com de notícias está muito à frente das rivais. O publisher do New York Times, Arthur “Pinch” Sulzberger, fez analogias com o Titanic, ao ser consultado, num evento público, sobre o futuro dos jornais mas não destacou outro dado: o seu notável site teve sólidos 21 milhões e 500 mil visitantes únicos em setembro.

Vou argumentar que o declínio do jornal impresso convive com o apetite por noticiário objetivo. Já a falta de apetite pelas aventuras de Anderson Cooper pode mostrar o que acontece quando o jornalismo fica com o ouvido no chão, tentando detectar o tropel dos cavalos.

A revista Time perguntou aos leitores, logo após a morte do lendário Walter Cronkite, em julho, qual o âncora em que os americanos mais confiam. Jon Stewart, o comediante com vasta audiência jovem e apresentador do falso telejornal The Daily Show, ganhou disparado, com 44% de votos. Um sinal de triunfo da ironia como embalagem da notícia?

Em 2008, metade dos espectadores da Fox tinha mais de 63 anos e a maioria dos espectadores dos programas mais agressivamente ideológicos da rede era formada por homens. Os números foram citados por Louis Menand, na New Yorker, que comparou a cólera da Fox a um Viagra político.

Estou enganada ou há uma luz demográfica no fim deste túnel?

22/10/2009 - 18:50h No Irã, ponto para Obama, e para Lula

Clovis Rossi – Folha Online

Recupero o essencial de um diálogo entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama sobre o Irã, travado em Pittsburgh, à margem da recente cúpula do G20, conforme reprodução do próprio Lula. Dá para acreditar na versão do presidente brasileiro a partir da versão do porta-voz de Obama, Robert Gibbs, para conversa anterior entre os dois presidentes sobre o mesmo assunto, esta na Itália.

Vamos lá, então. Segundo Lula, Obama aprovou a intenção de Lula de manter diálogo com o Irã (em torno da questão nuclear), concordando em que nem todo o mundo deveria colocar o regime dos aiatolás contra a parede, porque acabaria sendo contraproducente.

Detalhe: o diálogo deu-se no mesmo dia em que Obama, ao lado do presidente Nicolas Sarkozy, da França, e do primeiro-ministro Gordon Brown, do Reino Unido, fazia uma dura crítica ao Irã, acompanhada de ameaças, pelo fato de ter revelado só naquele momento a existência de uma usina nuclear nas imediações da cidade de Qom, considerada o Vaticano do xiismo.

Bem feitas as contas, Lula parece estar mais certo do que os “duros”, a julgar pelo acordo entre o Irã e as grandes potências nucleares pelo qual boa parte do urânio iraniano será enriquecido na Rússia e talvez na França, o que reduz a possibilidade/velocidade da fabricação da bomba.

É claro que sempre cabe qualificar o acordo: primeiro porque ele terá que ser submetido às supremas autoridades iranianas. Segundo, porque o urânio restante sempre pode ser desviado para enriquecimento para fins militares.

Feitas essas ressalvas, anote agora o comentário para o jornal britânico “Guardian” de Abbas Barzegar, candidato a PhD em estudos religiosos pela Emory University, de Atlanta, Geórgia.

“O astuto Juan Cole apontou [depois do início das conversas em Genebra que acabaram no pré-acordo agora anunciado] que Obama conseguiu mais do Irã em sete horas e meia do que Cheney [Dick Cheney, vice-presidente de George Walker Bush, duro entre os duros] em sete anos e meio”. Juan Cole vem a ser presidente do Global Americana Institute, um centro de estudos obviamente norte-americana.

A partir dessa interessante comparação, Barzegar acrescenta que se trata de “uma demonstração de que o engajamento diplomático quase sempre funciona”.

Não é, na essência, o mesmo que Lula disse a Obama e que Obama comprou?

Mas é bom notar também que a avaliação sobre o pré-acordo entre os especialistas está longe de ser linear ou consensual. Depende muito de quem o analisa.

Do lado israelense, por exemplo, Yossi Melman escreve no “Haaretz”, talvez o melhor jornal israelense, que, confirmado o acordo, “ele remove qualquer justificativa para um ataque aos locais nucleares iranianos”.

A hipótese de um ataque por parte de Israel era o cenário de pesadelo para todo o mundo – menos, claro, para os próprios israelenses, para os quais o pesadelo é a aquisição da bomba pelo Irã.

De todo modo, convém notar que diferentes círculos diplomáticos dizem que o problema com o Irã não é a confirmação ou não do pré-acordo mas a confiabilidade do regime dos aiatolás.

É uma opinião muito parecida com a que Richard Haass, do Council on Foreign Relations, deu ao “Financial Times”: segundo ele, é o caráter político do regime iraniano, não apenas a sua capacitação para fabricar a bomba, que deveria definir a resposta da comunidade internacional às ambições nucleares do país.

Tudo somado, parece claro que o “engajamento”, princípio essencial da política externa de Obama, marcou um belo ponto. Mas o jogo ainda não está inteiramente jogado.

Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às quintas e domingos na página 2 da Folha e, aos sábados, no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de “Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e “O Que é Jornalismo”.

E-mail: crossi@uol.com.br

20/10/2009 - 10:32h Não está tudo bem com os bancos nos Estados-Unidos

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Paul Krugman*, THE NEW YORK TIMES – O Estado SP

Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos. Talvez não literalmente o pior, mas ruim. E o contraste entre a sorte de alguns e o persistente sacrifício de tantos outros era o prenúncio de um futuro incerto. Logicamente, estou falando dos bancos. Uns poucos ganharam, mas muitos reagiram com ira quando o Goldman Sachs apresentou lucros recordes e voltou a pagar bonificações enormes, enquanto nos EUA as vagas continuam se fechando.

Mas não se trata só de bancos se recuperando enquanto trabalhadores padecem. Bancos que operam com empréstimos, e não os de investimentos, voltam a enfrentar dificuldades, principalmente Citigroup e Bank of America, que calaram boatos de estatização no início do ano, declarando que haviam voltado a lucrar. Mas, agora, estão com prejuízos de novo.

Como afirmou um crítico: “Hoje, não há nenhuma instituição financeira que não se beneficie, direta ou indiretamente, dos trilhões de dólares dos contribuintes usados para sanar o sistema financeiro”. De fato: o Goldman ganhou muito dinheiro com suas operações de investimentos, mas só conseguiu continuar no jogo graças a medidas que puseram em risco vastas somas de dinheiro público, da operação de salvamento da AIG às garantias concedidas a muitos títulos do Goldman.

E quem é esse crítico? Ninguém menos que Lawrence Summers, o principal economista do governo do presidente Barack Obama – e um dos arquitetos da política para salvar bancos que, até agora, sem sido extremamente tolerante.

A que se deve a mudança de tom? Funcionários do governo estão furiosos com o setor financeiro, que empreende um lobby feroz contra reformas profundas no sistema. Mas o que eles esperavam? O governo adotou uma política suave, concedendo ajuda sem precondições; com isso, ficou com pouco poder de pressão sobre empresas como o Goldman que agora, mais uma vez, ganham rios de dinheiro.

Mas há um problema maior: enquanto o lado agressivo do setor financeiro – o das operações de investimentos – voltou a ser lucrativo, a parte que realmente importa – a dos empréstimos que alimentam investimentos e empregos – não voltou. Os principais bancos continuam fracos, e sua debilidade prejudica a economia como um todo.

Lembremos que, no início do ano, houve um amplo debate sobre o que seria preciso fazer para que o setor bancário voltasse a conceder empréstimos. Alguns analistas, me incluo no grupo, argumentaram que pelo menos algumas das principais instituições precisariam de uma grande injeção de capital, e que a única maneira de fazer isso seria a estatização temporária dos bancos mais comprometidos. Porém, o debate acabou quando o Citi e o BofA, os elos mais fracos do sistema bancário, anunciaram lucros surpreendentes. “Está tudo bem”, foi o que nos disseram, porque os bancos voltaram a lucrar.

Mas ocorreu algo curioso: Na semana passada, tanto o Citi quanto o BofA anunciaram prejuízos no terceiro trimestre. O que houve? Em parte, aqueles lucros iniciais não passaram de pura imaginação dos auditores contábeis. No entanto, em termos mais amplos, o que podemos ver é uma espécie de vingança da economia real.

Na primeira fase da crise financeira, o sistema foi punido pelos desregramentos de Wall Street; agora, a crise geral, somada a um elevado e persistente desemprego, está levando a altos prejuízos com os empréstimos hipotecários e os cartões de crédito.

E aqui está a questão: A contínua fragilidade de muitos bancos contribui para perpetuar a crise. Os bancos continuam relutando a conceder empréstimos, e o aperto do crédito, principalmente às pequenas empresas, é um obstáculo no caminho da forte recuperação de que necessitamos.

E agora? Summers não se cansa de insistir que o governo fez a coisa certa: novas injeções de capital não “teriam sido uma estratégia útil para solucionar os problemas”. De qualquer modo, em termos políticos, o momento para uma ação radical já passou.

O mais importante, por enquanto, é fazer o possível para respaldar o crescimento do emprego. Com sorte, assim será possível criar um círculo virtuoso no qual a economia em recuperação fortalece os bancos, e eles se tornam mais dispostos a conceder crédito.

Além disso, precisamos desesperadamente da aprovação de uma reforma efetiva do setor financeiro. Se não conseguirmos isso, logo os banqueiros vão assumir riscos maiores do que o que eles assumiram antes da crise.

*Paul Krugman é prêmio Nobel de Economia

19/10/2009 - 14:51h Marketing eleitoral

Canal de Larissa C. Squeff

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15/10/2009 - 17:48h Estrategista de Obama evita falar da campanha de Dilma

Ben Self, que participou de palestra em São Paulo, teria sido contratado para assessorar João Santana

André Mascarenhas, do estadao.com.br


Para Ben Self, carisma não é fundamental para o sucesso de um candidato na web

Werther Santana/AE – Para Ben Self, carisma não é fundamental para o sucesso de um candidato na web

SÃO PAULO - Uma das estrelas da campanha que elegeu Barack Obama presidente dos Estados Unidos em 2008, o estrategista americano Ben Self se esquivou nesta quinta-feira, 15, de todas as perguntas sobre uma possível participação sua na campanha eleitoral brasileira do ano que vem. “Não vou confirmar e nem negar rumores sobre nossos clientes. Deixo eles se pronunciarem, se for do interesse deles”, disse Bem, que abriu o seminário “Efeito Obama” em um luxuoso hotel de São Paulo.

Nas últimas semanas, rumores de que Ben deve participar da campanha da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, circularam na imprensa. Ele não seria, no entanto, contratado pelo PT, como afirmou

recentemente o presidente do partido, Ricardo Berzoini, mas pelo marqueteiro João Santana, que deve assessorar a candidata do PT nas eleições do ano que vem.

Apesar de evasivo sobre os rumores, pressionado sobre as características dos pré-candidatos brasileiros, que não teriam o mesmo apelo de Obama, Ben disse acreditar que o carisma não é fundamental para que um candidato seja bem sucedido na web.

A avaliação vai de encontro com a argumentação de um dos organizadores do evento, o reitor da Escola de Gerenciamento Político da George Washington University, Christopher Arterton, que em recente entrevista ao estadao.com.br disse que o carisma de Obama foi um dos fatores que definiu o resultado de sua campanha.

E-mail é o caminho

Mais relaxado quando o assunto não era a sucessão de Lula, Ben, que é fundador da Blue State Digital, usou sua palestra para descrever a experiência durante a campanha de Obama, e, mais especificamente, como a tecnologia disponível pode ser aplicada para engajar um maior número de pessoas na campanha. Apesar de toda revolução da chamada web 2.0 – ou a internet altamente interativa, onde não há distinção entre emissores e receptores –, Ben destaca a importância do e-mail como ferramenta de comunicação com os eleitores.

“Há duas formas de fazer campanha. A primeira é tentar fazer a mídia tradicional falar de você. A outra, mobilizar as pessoas para que elas façam algo por você”, explicou Ben. Assim, o e-mail seria um dos meios mais adequados para o aprofundamento da relação com o eleitor, uma vez que permite um contato direto e garante uma das regras fundamentais da campanha online: o engajamento. Nesse sentido, o e-mail se sobrepõe às outras tecnologias devido à velocidade com que ele se propaga.

O estrategista afirma ainda que uma das técnicas utilizadas para dar relevância à campanha é a criação de “pontos focais” – questões polêmicas que despertem a discussão entre os eleitores, gerando relevância para a campanha. “É preciso aproveitar os bons momentos, e não apenas cumprir a agenda tradicional da campanha”, concluiu Ben.

03/10/2009 - 15:19h La défaite de Chicago signe le premier échec d’Obama

Barack Obama lors de la présentation des dossiers pour l'obtention des JO 2016.
AP/MATT DUNHAM – Barack Obama lors de la présentation des dossiers pour l’obtention des JO 2016.

Le Monde

Une “humiliation” ! Bruce Levin, commentateur sur ESPN, le groupe télévisuel américain spécialisé dans le sport, n’a pas même attendu le verdict final. On savait déjà Chicago évincée dès le premier tour de scrutin du Comité olympique international (CIO), le 2 octobre à Copenhague (Danemark), pour désigner la ville organisatrice des Jeux de 2016. M. Levin n’a pas précisé qui, à ses yeux, était humilié : Barack Obama ? Le couple présidentiel, Michèle s’étant plus démenée encore que son époux ? La ville de Chicago ? Les Etats-Unis tout entiers ? Chacun ressentait ce verdict d’humiliation comme il l’entendait. Tous avaient quelque chose à perdre, tous y ont un peu perdu quelque chose.

Ah, si Chicago était au moins parvenu en finale, au troisième tour de scrutin. En cas d’affrontement avec Rio de Janeiro, la ville américaine aurait vraisemblablement perdu. La carte maîtresse du président brésilien Lula était trop forte : les Jeux n’ont encore jamais eu lieu en Amérique latine. Mais M. Obama aurait eu la défaite brillante. On l’imaginait déjà, lançant “Il n’y a qu’un seul vainqueur, le continent américain”, etc. Mais être éliminée dès le premier tour : cela paraissait impensable pour Chicago.

Au-delà du sentiment d’humiliation, c’est d’abord l’incompréhension qui a dominé les Américains, comme chaque fois que leur pays est confronté à “l’impuissance de la puissance”, selon l’expression du politologue Bertrand Badie. Lorsque Jacques Rogge, le président du CIO, a annoncé l’éviction de Chicago, ses habitants, agglutinés par milliers devant le grand écran du Daley Center, en sont restés tétanisés. M. Obama, disait Larry Kajmowicz, un commerçant local, à Associated Press (AP), “a quand même un peu perdu la face”.

Forcing de dernière minute

L’agence AP résume ainsi le danger qui le guette désormais dans l’opinion. “Il veut trop faire en même temps”. Résultat : “il tente beaucoup mais réussit peu”. Son conseiller, David Axelrod, a relativisé, refusant de voir dans cet événement “un camouflet” vis-à-vis du président et de la First Lady. Barack Obama avait montré l’estime qu’il porte au CIO en repartant peu après son discours, sans attendre le vote. Il a appris le verdict dans l’Air Force One qui le ramenait chez lui. Il s’est alors dit “déçu”. A l’arrivée, il a jugé qu’ainsi va le sport : on peut “très bien jouer et ne pas gagner”. Il semblait déjà passé à l’ordre du jour.

Ce n’est pas le cas des médias. La plupart se montrent cruels. Le New York Times : “Le président n’a pas seulement échoué pour la médaille d’or, il n’a même pas eu l’argent ou le bronze”. L’agence AP : “C’est une défaite embarrassante. (…) Obama entend déjà le bruissement de la rumeur qui monte : décidément, il est meilleur pour parler que pour faire, il est plus une célébrité qu’un homme d’Etat.” L’effarement passé est venu le temps des hypothèses. Faire venir M. Obama, qui était très réticent, pour ensuite lui faire subir cet affront : le CIO est décidément très fort, entendait-on. D’autres commentateurs jugeaient que l’on ne peut espérer le séduire par un forcing de dernière minute. La venue de son épouse à sa place fut quasiment une “faute de goût”. Le CIO, même un peu “rénové”, reste un groupe de notables vieux jeu, imbus de leur importance et qu’il faut séduire. Un cénacle sensible aux enjeux de pouvoir, qui à la notoriété et ses avantages, qui d’autre encore à des avantages plus prosaïques. Le “convaincre” se travaille durant de longs mois.

Ceux qui ont de la mémoire donnent une autre explication aux récents échecs des candidatures américaines devant le CIO. Car avant Chicago, New York avait déjà été vite éjectée, il y a quatre ans, de la course à l’organisation des Jeux de 2012. Or n’est-ce pas le Congrès américain qui, en 1999, avait obligé son vieux président d’alors, l’espagnol Juan Antonio Samaranch, à se contorsionner devant ses élus et les caméras du pays et promettre que, plus jamais, le CIO ne couvrirait des faits de corruption tels que ceux que les enquêteurs américains avaient mis au jour ? M. Samaranch avait coupé les têtes de quelques vieux compagnons pour se faire pardonner des Américains.

Depuis, une bisbille à caractère financier a pourri les relations entre le CIO et sa section états-unienne (l’USOC), s’ajoutant à l’hostilité aux Etats-Unis née il y a dix ans au CIO. Gerhard Heiberg, un membre norvégien, a donné cette explication du scrutin : “Beaucoup d’entre nous étaient décidés à ne pas voter Chicago, quoi qu’il arrive”. Lorsque, lundi dernier, Barack Obama avait opté pour le déplacement à Copenhague, de nombreux élus républicains avaient fustigé un président qui abandonne son pays pour une vétille au moment où tant d’urgences sont à régler. Hier soir, les mêmes venaient sur Fox se gausser de son échec, “une défaite de l’Amérique”. Sale journée.

Sylvain Cypel (New York, correspondant)

03/10/2009 - 14:35h Krugman: Gastar dinheiro agora significa fortalecer a economia, no curto e no longo prazos

Krugman_paulMissão não cumprida

Paul Krugman*

As ações estão em alta. Segundo Ben Bernanke, a recessão acabou. Eu sinto uma crescente disposição entre os formadores de opinião a declarar: missão cumprida no combate à crise. E há quem afirme que está na hora de deixarmos de nos preocupar com o estímulo econômico para nos concentrarmos no déficit do orçamento. Mas não está, não. A autocomplacência que começa a se instaurar em relação ao estado da economia é insensata e perigosa.

Sim, o Federal Reserve (Fed) e o governo Obama nos tiraram da Beira do Precipício – título de um novo ensaio de Christina Romer, diretora do Conselho de Assessores Econômicos, no qual argumenta, de maneira convincente, que a política de forte expansão dos gastos públicos nos salvou de uma possível reedição da Grande Depressão.

Mas, embora evitar outra depressão seja muito bom, tudo indica que, se o governo não fizer muito mais do que planeja atualmente para promover a recuperação da economia, a situação do mercado de trabalho – no qual, hoje, a procura de emprego é seis vezes maior que a oferta – continuará sendo angustiante nos anos vindouros.

Na realidade, a projeção econômica do próprio governo – em que são levados em conta os novos empregos que suas medidas criarão – mostra que a taxa de desemprego, que há apenas dois anos estava abaixo de 5%, será em média 9,8% em 2010, 8,6% em 2011 e 7,7% em 2012.

Não podemos considerar aceitável essa perspectiva, em primeiro lugar, porque ela implica enorme sofrimento nos próximos anos. Além disso, se o desemprego permanecer nesse nível por tanto tempo, lançará uma sombra negra sobre o futuro dos Estados Unidos.

Os que acham que estamos fazendo o bastante para criar empregos devem ler o relatório apresentado recentemente por John Irons, do Instituto de Política Econômica, que descreve a “devastação” produzida por um desemprego persistente. Entre outras coisas, Irons destaca que o desemprego persistente na escala hoje prevista levaria a um enorme aumento da pobreza – e que existem evidências esmagadoras de que as crianças que crescem em meio à pobreza muito provavelmente terão uma vida miserável.

Esse custo humano deveria constituir nossa maior preocupação, mas suas implicações em termos de recursos também são assustadoras. As projeções do Departamento do Orçamento do Congresso, por exemplo, mostram que, no período de 2010 a 2013 – sem contar os prejuízos que já sofremos – o “déficit de produção”, a diferença entre tudo o que a economia poderia ter produzido e tudo o que ela realmente produz, será superior aos US$ 2 trilhões. O que significa que são trilhões de dólares de potencial produtivo que se perderão.

Mas a coisa é muito pior. Um relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra que o tipo de recessão que tivemos, causada por uma crise financeira, costuma causar danos no longo prazo em termos das perspectivas de crescimento de um país. “O caminho da produção tende a se estreitar substancialmente e de maneira persistente depois das crises do setor bancário.”

Entretanto, o mesmo relatório sugere que esse desfecho não é inevitável. “Concluímos que uma resposta mais firme de uma política fiscal no curto prazo” – medida pela qual se entende um aumento temporário dos gastos do governo – “está significativamente associada a menores perdas da produção no médio prazo.”

Portanto, deveríamos fazer muito mais do que estamos fazendo para promover a recuperação econômica, não apenas porque isso reduziria nosso sofrimento atual, como também porque melhoraria nossas perspectivas no longo prazo.

Mas será que podemos fazer mais – no sentido de oferecer mais ajuda a combalidos governos estaduais e aos desempregados, de aumentar os gastos em infraestrutura, de oferecer incentivos fiscais aos empregadores para que criem empregos? Sim, nós podemos.

O senso comum diz que ajudar a economia agora produzirá ganhos no curto prazo à custa de sofrimento no longo prazo. Mas, como acabamos de ressaltar, do ponto de vista da nação como um todo não é assim que funciona. A crise está produzindo danos no longo prazo para a economia e a sociedade e, se pudermos abrandá-la, teremos um futuro melhor.

É verdade que um aumento dos gastos com a recuperação e a reconstrução piorará a própria posição fiscal do governo. Mas mesmo neste caso, o bom senso exagera. Os verdadeiros custos fiscais desse respaldo para a economia são surpreendentemente baixos.

Gastar dinheiro agora significa fortalecer a economia, no curto e no longo prazos. E uma economia mais forte implica maiores receitas, para compensar uma considerável parcela dos custos iniciais. Segundo cálculos aproximados, a compensação chegaria a quase 100%, de forma que o estímulo fiscal não é um almoço grátis completo. Mas custa muito menos do que imaginaríamos de acordo com um suposto debate informado.

Sei que um aumento do estímulo é algo difícil de vender em termos políticos, mas é urgentemente necessário. A questão não é se podemos fazer mais para promover a recuperação, mas se podemos optar por não fazê-lo. E a resposta é não.

*Paul Krugman é Prêmio Nobel de Economia de 2008

22/09/2009 - 14:34h Reforma ou colapso


Michelle Nichols – 20.set.09/Reuters

Manifestantes pedem aos líderes globais a criação de mais empregos em protesto em Pittsburgh, onde ocorrerá a reunião do G20

PAUL KRUGMAN DO “NEW YORK TIMES” – FOLHA SP

No período de medo que se seguiu à quebra do banco de investimento Lehman Brothers, parecia inconcebível que, passados apenas alguns meses, os banqueiros retomassem as práticas que conduziram o sistema financeiro mundial à beira do colapso. Seria de imaginar que, no mínimo, eles exibiriam certa discrição, por medo de causar uma reação adversa de parte do público.
Mas agora que recuamos alguns passos da beira do abismo -graças, é bom não esquecer, a imensos pacotes de resgate bancados pelos contribuintes- o setor financeiro decidiu que é hora de voltar aos seus métodos habituais de negócios. Enquanto o restante do país continua a sofrer com a alta do desemprego e as severas privações causadas pela crise, os salários de Wall Street estão retornando aos patamares anteriores ao colapso. E o setor está empregando toda a sua influência política para bloquear até mesmo as mais minúsculas reformas.
A boa notícia é que os principais funcionários do governo Obama e do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) parecem estar perdendo a paciência com o egoísmo do setor. A má notícia é que não se pode determinar se o presidente Obama está pessoalmente disposto a enfrentar os banqueiros, mesmo agora.
Primeiro, elogios merecidos: fiquei muito satisfeito quando Lawrence Summers, o principal economista do governo, criticou publicamente a campanha que a Câmara de Comércio dos Estados Unidos, em colaboração com os lobbies do setor financeiro, está promovendo para combater a proposta de criar uma agência que protegeria os consumidores contra abusos financeiros, a exemplo de empréstimos cujos termos eles não compreendem. Os anúncios veiculados pela entidade, declarou Summers, “são o equivalente, em termos de regulamentação financeira, aos anúncios sobre eutanásia que vêm sendo veiculados com relação à saúde”.
Mas proteger os consumidores contra abusos financeiros deveria ser apenas o início da reforma. Se realmente desejamos impedir Wall Street de criar uma bolha, seguida por nova contração, precisamos mudar os incentivos do setor o que significa, especialmente, mudar a maneira pela qual os executivos do setor financeiro são remunerados.
O que há de errado com o sistema de remuneração do setor financeiro? Em resumo, os executivos bancários são suntuosamente recompensados caso produzam grandes lucros em curto prazo, mas não sofrem punições equivalentes se, posteriormente, vierem a sofrer prejuízos ainda maiores.
Isso encoraja a aceitação de riscos excessivos: alguns dos homens mais responsáveis pela atual crise saíram dela imensamente ricos, devido às bonificações que receberam nos anos de bons resultados, embora as estratégias de alto risco que resultaram nessas bonificações tenham por fim dizimado suas empresas -e com isso demolido boa parte do sistema financeiro.
O Fed, que agora despertou do torpor em que vivia na era Greenspan, compreende o problema e propõe fazer alguma coisa a respeito. De acordo com reportagens recentes, o conselho do Fed está estudando impor novas regras sobre a remuneração em companhias financeiras, exigindo que os bancos reduzam suas bonificações e vinculem a remuneração aos resultados de longo, e não de curto prazo. O Fed argumenta que tem autoridade para essas medidas, como parte de sua missão mais ampla de fiscalizar a solidez dos bancos.
Mas o setor -com apoio da grande maioria dos legisladores republicanos e de alguns democratas- combaterá furiosamente essas mudanças. E, embora o governo americano deva apoiar alguma modalidade de reforma no sistema de remuneração, não está claro até o momento que venha a apoiar plenamente os esforços do banco central do país.
Fiquei atônito, na semana passada, quando o presidente Barack Obama, em entrevista à agência Bloomberg, questionou os argumentos em defesa da limitação das remunerações no setor financeiro. “Por que”, questionou ele, “devemos limitar a remuneração dos executivos financeiros de Wall Street, mas não a dos empresários do Vale do Silício ou a dos jogadores profissionais de futebol americano?”
É uma declaração que causa espanto, e não apenas porque a National Football League (NFL, organização que administra o futebol americano) tem limitações salariais em vigor. Empresas de tecnologia não derrubam todos os sistemas operacionais do mundo quando quebram; os armadores de futebol americano que exageram nos passes arriscados não precisam ser resgatados em operações de centenas de bilhões de dólares. Os bancos representam um caso especial, e o presidente dos EUA certamente é esperto o bastante para saber disso.
A única justificativa que consigo encontrar é algo que já vimos antes: a visceral relutância de Obama em adotar qualquer traço de retórica populista. E isso é algo que ele precisa superar.
Não apenas porque assumir uma postura populista quanto à remuneração dos executivos financeiros é bom em termos políticos -embora seja: o governo sofreu mais do que parece se dar conta com a percepção de que está transferindo o dinheiro arduamente ganho dos contribuintes para Wall Street e deveria receber com agrado a oportunidade de retratar os republicanos como o partido das bonificações obscenas.
Igualmente importante, porém, é que nesse caso o populismo é inteligente também em termos econômicos. Seria possível, de fato, defender a posição de que uma reforma na remuneração dos executivos bancários é a melhor coisa que podemos fazer para prevenir nova crise financeira dentro de alguns anos.
É hora de o presidente compreender que às vezes o populismo, acima de tudo o tipo de populismo que irrita banqueiros, é exatamente aquilo de que a economia precisa.


Tradução de PAULO MIGLIACCI

17/09/2009 - 16:13h Alguns jamais aceitarão um presidente negro

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Maureen Dowd, THE NEW YORK TIMES

O presidente Barack Obama, que em geral tem uma atitude de grande desenvoltura, ficou estupefato. Cercado de brancos de meia idade, Joe Wilson berrou “você mente!” para o presidente, que não estava mentindo.

Mas, certo ou não, o que eu ouvi foi uma afirmação implícita: Você mente, rapaz! (o termo rapaz era usado aos negros pelos brancos do sul). Foi uma explosão inesperada, por se tratar de um parlamentar republicano de segundo escalão da Carolina do Sul, que até então mal havia chamado a atenção da imprensa.

Agora, graças ao episódio ele se transformou, da noite para o dia, num herói da direita. O deputado pertence aos Filhos dos Veteranos Confederados. Em 2000, ele liderou uma campanha para que a bandeira dos Confederados tremulasse no topo da Câmara dos Representantes da Carolina do Sul, e denunciou como uma “calúnia” a declaração de uma mulher negra, cuja veracidade foi posteriormente confirmada, que se dizia filha de Strom Thurmond, o candidato segregacionista à presidência em 1948.

Hesitei em admitir que a loucura histérica – os esforços frenéticos para pintar nosso primeiro presidente negro como o outro, o estrangeiro, socialista, fascista, marxista, racista, comunista, nazista; uma pessoa de moral duvidosa que deixará os velhos morrer; uma víbora que envenenará as crianças com sua doutrina – tinha a ver com raça.

Eu tendia a concordar com alguns assessores de Obama, segundo os quais os presidentes democratas sempre provocaram uma reação raivosa em pessoas paranoicas. Mas a chocante falta de respeito de Wilson pela pessoa do presidente – nenhum democrata jamais gritou “mentiroso” para Bush quando ele nos impingiu a falsa justificativa da guerra no Iraque – me convenceu: algumas pessoas não conseguem acreditar que um negro é o presidente, e jamais acreditarão.

“Essas explosões, em grande parte, têm a ver com a vontade de tirar de Obama a legitimidade de seu cargo”, disse o deputado democrata Jim Clyburn, um dos mais representativos da Carolina do Sul. “Estas questões devem ser tratadas com rigor. Meu pai costumava dizer: “Filho, lembre sempre de que quem cala consente.”"

Obama, da geração pós-60, vivendo no longínquo Havaí, não participou das importantes lutas racistas da história dos EUA. Agora, ele está bem no meio de um período de turbulência racial provocada por sua ascensão. Mesmo que ele e seus assessores brancos prefiram não reconhecer abertamente o fato, este presidente é a figura do defensor dos direitos humanos por excelência – um negro cuja legitimidade é continuamente contestada por um setor radical de malucos.

Durante dois séculos, o Sul temeu que os negros ou os federados tomassem o poder. Com Obama, agora eles se defrontam com ambos. O Estado que disparou o primeiro tiro na Guerra Civil nos EUA nos presenteou com o senador Jim DeMint, que exortou os conservadores a “quebrar” o presidente derrubando seu plano de reforma da saúde; com Rusty DePass, um ativista republicano que afirmou que um gorila que fugiu do zoológico é “apenas um dos antepassados de Michelle”; com Mark Sanford, que tentou recusar o dinheiro do pacote de ajuda do presidente. E agora temos Joe Wilson.

“Muitas pessoas na Carolina do Sul repudiam a ideia de que fazemos parte da união”, afirmou Don Fowler, o ex-presidente nacional do Partido Democrata, que leciona Política na Universidade da Carolina do Sul. Ele observou que quando a escravidão foi destruída por forças externas e a segregação foi abolida pelos líderes do movimento pelos direitos humanos e pelo Congresso, isso provocou uma verdadeira xenofobia.

Clyburn alertou os assessores de Obama, que querem perdoar Wilson, a ignorar os repentes ignorantes e ir em frente: “O pessoal da Casa Branca terá de descobrir como lidar com esse tipo de coisa e não deixar a situação degenerar. Caso contrário, o apoio que Obama tem recebido irá para a direção errada.”

*Maureen Dowd é cronista política

17/09/2009 - 15:41h De baixo para cima

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Luis Fernando Verissimo – O Estado SP

Especulei aqui se o certo não seria chamar de pós-sal, em vez de pré-sal, o lugar de onde sairá o bendito óleo, já que as brocas virão de cima para baixo, e recebi correções de todos os lados. Quem adivinharia que entre 17 leitores houvesse tantos entendidos em geologia, em contraste com a minha completa ignorância? A explicação mais autorizada e simpática veio de um geólogo profissional, Guilherme Estrella, diretor de Exploração e Produção da Petróleo Brasileiro S.A. Segundo ele, os geólogos têm uma lógica peculiar. Estudam a história do planeta de baixo para cima, pela sedimentação das suas rochas empilhadas ininterruptamente através do que chamam de tempo geológico. As brocas retrocedem no tempo geológico. O que está por baixo é mais velho do que o que está por cima, por isso é pré. Pós-sal é tudo que está acima da camada de sal, inclusive você, eu e os peixinhos. Entendi.

DEMÔNIO
Há dias a CNN mostrou uma mãe americana chorando, preocupada com o que iria acontecer com seus filhos. E o que iria acontecer com seus filhos era terem que ouvir pela TV um discurso do presidente Barack Obama dirigido a estudantes do ensino básico de todo o país, no primeiro dia do ano escolar. Barack recomendaria a todos que fossem bons alunos e tomassem o seu leite, mas a direita histérica criou a expectativa de que ele aproveitaria a oportunidade para doutrinar as crianças sobre os seus programas nazicomunistas, talvez até recorrendo à hipnose. Muitas escolas se recusaram a mostrar a preleção presidencial. A mãe entrevistada pela CNN estava apavorada com o que o demônio negro de fala mansa poderia fazer com a mente dos seus filhos.

A demonização do Obama se deve em grande parte à sua intenção de criar um sistema universal de saúde pública como os que já existem em todos os países civilizados do mundo (e mesmo semicivilizados, não vamos citar nomes), para garantir assistência médica aos mais de 50 milhões de americanos que hoje não têm proteção alguma. As seguradoras, indústrias farmacêuticas e empresas hospitalares que já tinham liquidado com um plano similar do Clinton mobilizaram-se de novo, com a colaboração da imprensa conservadora, de políticos reacionários e de almas simples como a mãe apavorada, e transformaram a ameaça aos seus lucros numa guerra ideológica. Ainda é incerto se o Baraca conseguirá ver seu plano, ou uma versão chocha do mesmo, aprovado. Ou se chegará ao fim do seu mandato, nesse clima.

Dias depois da mãe chorosa a mesma CNN mostrou um pastor do Sul dos Estados Unidos declarando que rezava para Obama morrer de câncer e ir para o Inferno. E a congregação dizendo “Amém!”

02/09/2009 - 15:36h Lula ou Obama? Apoio presidencial pode definir sede olímpica

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Roger Thurow, The Wall Street Journal, de Chicago – VALOR

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Depois de gastar US$ 50 milhões para promover Chicago e percorrer o mundo para confraternizar com os potentados esportivos do planeta, os organizadores da campanha da cidade americana para sediar a Olimpíada de 2016 estão ansiosos em relação a um último detalhe: será que o primeiro cidadão de Chicago, o presidente Barack Obama, vai viajar à Europa no mês que vem para a tentativa final de convencer o Comitê Olímpico Internacional?

Embora os méritos técnicos de uma candidatura olímpica – o tráfego ao redor do estádio que abriga a cerimônia de abertura, a textura da areia para o vôlei de praia, as correntes de ar-condicionado no ginásio do tênis de mesa – possam ser mais importantes para uma organização bem-sucedida dos jogos, a campanha pessoal dos chefes de Estado se tornou crucial para se conseguir de fato o evento.

Depois que um escândalo de corrupção balançou o COI anos atrás, a prática antiga das cidades candidatas de cobrir a centena de membros do comitê com presentes foi proibida. Agora é a adulação que vale mais.

Na escolha da Olimpíada de 2012, o primeiro-ministro Tony Blair foi mais persuasivo que o presidente francês Jacques Chirac, e Londres bateu Paris. O lobby pessoal de Vladimir Putin ajudou a garantir os Jogos de Inverno de 2014 à obscura cidade russa de Sochi, em detrimento de Salzburgo, na Áustria, o conhecido berço de Mozart e da “Noviça Rebelde”.

“É importante para o COI (…) que você lhes dê o respeito”, diz John Bitove, um empresário canadense que comandou a fracassada campanha de Toronto para 2008, vencida por Pequim.

As rivais de Chicago já anunciaram que seus líderes estarão em Copenhague para a escolha, em 2 de outubro: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em favor do Rio, o rei Juan Carlos para Madri e o príncipe e a princesa do Japão para Tóquio. O prefeito Richard Daley tem sido o principal promotor da candidatura de Chicago, mas a cidade espera que Obama compareça. A Casa Branca informa que nenhuma decisão foi tomada.

A votação quatro anos atrás para a Olimpíada de 2012 estabeleceu o precedente para o confronto de estadistas. Nas semanas que antecederam a decisão, Paris era considerada a favorita, à frente de Londres e Nova York. Mas Blair chegou à sessão final do COI três dias antes e se encontrou com uma multidão de membros do comitê. Chirac chegou tarde. O presidente americano George W. Bush, preocupado com a guerra no Iraque, nem apareceu.

Londres ganhou de Paris por quatro votos. Nova York foi eliminada numa rodada anterior. O voto é secreto, mas uma série de membros do COI disse depois que o lobby de Blair foi provavelmente decisivo.

Chirac também pode ter perdido votos quando, na companhia de outros líderes, ironizou a culinária britânica: “Depois da Finlândia”, disse, “é o país com a pior comida.” A Finlândia tinha dois membros no COI durante aquela eleição – talvez os votos que tenham feito Londres ganhar.

A língua solta também pode ter derrubado Toronto. A cidade era considerada forte candidata para 2008, até que seu prefeito disse, antes de uma viagem à África, que temia acabar num caldeirão de água fervente, cercado por índios. Em vez disso, ele foi provavelmente queimado pelos membros africanos do COI, que muitas vezes dão votos decisivos na escolha das sedes já que o continente raramente apresenta uma candidatura.

O comitê de avaliação das candidaturas a 2016 deve divulgar seu relatório técnico sobre os méritos de cada uma das quatro finalistas hoje. Especialistas acreditam que a geografia reduziu a disputa a Chicago e Rio. O COI gosta de fazer uma rotação de continentes, de modo que os últimos jogos em Pequim são vistos como desvantagem para Tóquio. O fato de a Europa sediar em 2012, com Londres, é considerado um ponto contra Madri.

Os EUA não sediam os jogos desde 1996, em Atlanta. A América do Sul nunca foi sede.

Em discursos em vídeo para recentes reuniões de membros do COI, tanto Obama quanto Lula os exortaram a fazer história com seus votos.

A delegação do Rio estudou os poderes persuasivos de Obama durante sua campanha eleitoral e afirma que vai moldar sua candidatura olímpica com ecos do slogan favorito do presidente americano. Carlos Roberto Osório, o secretário-geral do comitê da candidatura Rio 2016, diz: “Representamos a esperança, a mudança, o ‘Sim, nós podemos’.”

24/08/2009 - 09:27h A crise financeira um ano depois

O problema agora é que o desemprego continua em alta tanto nos EUA como na Europa.

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Por Jeffrey D. Sachs – VALOR

Um ano depois do início da crise, ela parece estar sanada. Mas o desemprego continua em alta

Já transcorreu quase um ano desde que a economia mundial balançou à beira da calamidade. No espaço de três dias, de 15 a 18 de setembro de 2008, o Lehman Brothers apresentou seu pedido de falência, o controle da mega-seguradora AIG foi assumido pelo governo dos EUA e o Merrill Lynch, ícone falido de Wall Street, foi absorvido pelo Bank of America numa transação intermediada e financiada pelo governo dos EUA. Sobreveio o pânico e o crédito parou de circular. Companhias não conseguiam capital de giro, quanto mais recursos para investimentos de longo prazo. Uma depressão parecia possível.

Hoje, a tempestade foi domada. Meses de ações emergenciais promovidas pelos principais bancos centrais do mundo impediram o colapso dos mercados financeiros. Quando os bancos pararam de fornecer liquidez de curto prazo a outros bancos e companhias industriais, os bancos centrais preencheram a lacuna. Consequentemente, as principais economias evitaram um colapso do crédito e da produção. A sensação de pânico diminuiu. Os bancos estão mais uma vez emprestando uns aos outros.

Apesar de o pior ter sido evitado, muitas aflições persistem. A crise culminou no colapso dos preços dos ativos no fim de 2008. Famílias ricas e de classe média em todo o mundo se sentiram mais pobres e, portanto, reduziram suas despesas radicalmente. Os preços de alimentos e de petróleo nas alturas se somaram às aflições e, por conseguinte, à depressão econômica. Empresas não conseguiam vender a sua produção, o que acarretou cortes de produção e demissões. O desemprego crescente agravou a perda de riqueza familiar, arremessando famílias em profundo perigo econômico e levando a reduções adicionais nos gastos dos consumidores.

O grande problema agora é que o desemprego continua aumentando nos EUA e na Europa, já que o crescimento é lento demais para gerar suficientes postos de trabalho novos. Deslocamentos continuam sendo sentidos por todo o mundo.

Seguiu-se um enorme debate em torno do chamado “gasto de estímulo” nos EUA, Europa e China. Esse gasto tem como objetivo usar os maiores gastos ou incentivos fiscais do governo para compensar a queda no consumo das famílias e no investimento empresarial. Nos EUA, por exemplo, praticamente um terço do pacote de estímulo de US$ 800 bilhões consiste em redução de impostos (para estimular gastos de consumidores); um terço é composto por despesas públicas em estradas, escolas, energia elétrica e outros tipos de infraestrutura; e um terço assume a forma de transferências federais a governos locais e estaduais para serviços de saúde, seguro-desemprego, salários para escolas.

Os pacotes de estímulo são controversos, pois aumentam o déficit orçamentário e, consequentemente, implicam na necessidade de reduzir gastos ou elevar impostos no futuro próximo. A pergunta é se eles estimulam a produção e a geração de empregos com êxito no curto prazo, e, caso afirmativo, se fazem o suficiente para compensar os inevitáveis problemas orçamentários que virão.

A real eficácia desses pacotes não está clara. Suponhamos que o governo conceda uma redução de imposto para aumentar o salário líquido dos consumidores. Se os consumidores decidirem poupar essa redução em vez de estimular o consumo. Nesse caso, o estímulo terá pouco efeito positivo sobre o gasto da família, mas agravará o déficit orçamentário.

Uma avaliação inicial dos pacotes de estímulo sugere que o programa da China funcionou bem. A queda acentuada nas exportações da China para os EUA tem sido compensada por uma queda expressiva nos gastos do governo chinês com infraestrutura, digamos, na construção de metrôs nas maiores cidades da China.

Nos EUA, o veredicto é menos claro. O corte de impostos foi mais provavelmente economizado que gasto. O componente de infraestrutura ainda não foi gasto devido a longas demoras para transformar o pacote de estímulo dos EUA em projetos de construção reais. A terceira parte – a transferência para governos locais e estaduais- quase certamente tem sido bem sucedida, na manutenção das despesas com escolas, saúde e desempregados.

Em suma, os efeitos do estímulo sobre os gastos nos EUA provavelmente têm sido positivos, mas reduzidos, e sem um efeito decisivo sobre a economia. Além disso, temores em torno do enorme déficit orçamentário dos EUA, agora na casa dos US$ 1,8 trilhão (12% do PIB) por ano, tendem a aumentar, não só gerando enormes incertezas no meio político e nos mercados financeiros, mas também diminuindo a confiança dos consumidores.

Quando a crise se aprofundou há um ano, Barack Obama inseriu na campanha presidencial o tema de uma “recuperação verde”, baseada num surto de investimentos em energias renováveis, novos veículos elétricos, edifícios “verdes” ambientalmente eficientes e agricultura ecologicamente segura. No calor da batalha contra o pânico financeiro, a atenção das políticas públicas se afastou daquela recuperação verde. Agora, os EUA precisam retornar a essa ideia importante.

As políticas públicas do governo nos EUA e em outros países ricos deveriam estimular aqueles investimentos por meio de incentivos especiais. Esses incentivos incluem um sistema de teto e mercado para emissões de gás estufa, subsídios para pesquisa e desenvolvimento em tecnologias sustentáveis, tarifas do tipo “feed-in” (que visam estimular tecnologias de geração de energia limpa alternativa) e incentivos reguladores para energia renovável e outros atrativos para a absorção de tecnologias. “verdes”.

O mundo rico também deveria fornecer aos países mais pobres subsídios e empréstimos a juros baixos para comprar tecnologias energéticas sustentáveis, como energia solar e geotérmica. Fazê-lo se somaria à recuperação global, melhoraria a sustentabilidade ambiental de longo prazo e aceleraria o desenvolvimento econômico. A crise ainda pode ser uma oportunidade para sair de uma rota de bolhas financeiras e consumo excessivo rumo a uma rota de desenvolvimento sustentável. Na verdade, aproveitar essa oportunidade é a única receita para crescimento genuíno que nos resta.

Jeffrey D. Sachs é professor de Economia na Universidade Columbia e consultor especial do secretário-geral das Nações Unidas para as Metas de Desenvolvimento do Milênio. Copyright: Project Syndicate, 2009.

23/08/2009 - 12:21h Truque conhecido

por Luis Fernando Veríssimo 

crônica

Blog de Noblat

Baraca em apuros. A direita lunática americana o bombardeia. Já o chamaram de um nazista pior do que Hitler, pois está levando o país para o comunismo. Há um movimento, os “birthers” – de “birth”, nascimento – alegando que Obama nasceu no Quênia, que o registro do seu nascimento no Havaí é falso, que portanto ele não nasceu em território americano e não pode ser presidente. E, inevitável: surgem histórias sobre a sua suposta bissexualidade.

A reação a um novo presidente, negro, eleito para mudar, com uma plataforma progressista e cuja vitória deixou o partido adversário destroçado, era previsível. Com os republicanos sem força e sem líderes, os lunáticos assumiram. Hoje se diz que o líder de fato da oposição é Rush Limbaugh, cujo programa de rádio em cadeia tem um público estimado de 15 milhões de pessoas, todos, supõe-se, reacionários furiosos como ele. Foi Limbaugh que lançou o epíteto de Hitler bolchevique.

Se a reação a Obama era esperada mesmo que ele não cumprisse metade do que prometia como candidato e seu programa progressista não fosse tão progressista assim – como não está sendo – a virulência inédita da oposição, e os apuros do Baraca, têm uma causa específica. Ele propôs uma reforma do sistema de seguro de saúde do país, no que seria sua primeira grande legislação social – e a coisa mais “progressista” do seu governo até agora. Pra quê.

Os Estados Unidos são o único dos países industrializados que não tem um sistema universal de assistência médica garantida. Bill Clinton tentou corrigir isso mas não aguentou a reação dos mesmos lóbis que agora alimentam a rejeição a Obama e atiçam os lunáticos, chamando a reforma de um primeiro passo para o socialismo. Obama empunhou a bandeira largada por Clinton mas parece não estar sabendo carregá-la. Seu plano é confuso, sua atuação em sua defesa é hesitante – e a feras não largam do seu pé.

Especula-se que os lóbis (grandes seguradoras, indústria farmacêutica, empresas hospitalares e de previdência privada) vencerão de novo, ou que Obama só conseguirá uma reforma aguada. Os debates públicos sobre a questão têm sido violentos. Lendo e ouvindo o que dizem por lá não se pode deixar de admirar a maneira como interesses particulares conseguem transformar ameaças ao seu poder – no caso americano, o direito elementar de todos a assistência assegurada – em ameaça ideológica e guerra pela alma de uma nação, passando pela demonização de um governo. Um truque que conhecemos bem.

13/08/2009 - 08:52h Recessão nos EUA chegou ao fim, dizem economistas


criseusa.jpgDe 52 economistas ouvidos pelo WSJ, 38 dizem que país está saindo da crise

O Estado SP

A recessão nos Estados Unidos iniciada em dezembro de 2007 já terminou, segundo a maioria dos economistas consultados em um levantamento do Wall Street Journal publicado ontem. Na pesquisa, que entrevistou 52 economistas, 27 disseram que a crise já acabou e outros 11 acreditam que chegará ao fim neste mês ou no próximo.

Eles também são quase unânimes na aprovação de Ben Bernanke como presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e desejam que ele seja nomeado para mais um mandato. Para os economistas americanos, há 71% de chance de o presidente dos EUA, Barack Obama, pedir que ele continue no posto.

O combate à desaceleração da economia definiu boa parte do mandato de Bernanke, que começou no início de 2006 e termina em janeiro de 2010, segundo os economistas. Eles disseram que a forma com que Bernanke lidou com a crise o faz merecer mais quatro anos no comando do Fed.

“Ele merece bastante crédito por estabilizar os mercados financeiros”, disse Joseph Carson, da AllianceBernstein. “A confiança na recuperação seria prejudicada se ele não fosse renomeado.” Muitos dos economistas consultados acreditam que há pouco a se ganhar com uma mudança no comando do Fed, especialmente considerando a tarefa maciça nas mãos do banco central, conforme a economia sai da recessão.

“Uma continuidade é crítica conforme emergimos desta crise. Do contrário, podemos cair nela de novo”, disse Diane Swonk, economista da Mesirow Financial. “O Bernanke é o melhor indicado para desfazer o que foi feito quando chegar a hora.” O Fed tomou medidas sem precedentes para evitar outra Grande Depressão e a estratégia de saída continua sendo uma questão-chave.

A taxa básica de juros não deve ser alterada tão cedo. Apenas seis economistas esperam que o Fed eleve este ano o juro – hoje na faixa entre zero e 0,25%. Muitos preveem um aumento em algum momento em 2010, mas mais de um quarto não vê mudança até 2011 ou mais.

“A estratégia de saída será muito, muito lenta e cautelosa”, disse John Silvia, do Wells Fargo. “O Fed vai desmontar o balanço antes de elevar o juro”, acrescentou. O balanço do Fed – o valor total dos empréstimos e títulos que possui – mais que dobrou durante a crise, para mais de US$ 2 trilhões, em meio à expansão das linhas de crédito, na tentativa de descongelar os mercados de crédito.

AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

11/08/2009 - 12:10h Evitando o pior

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Paul Krugman, The New York Times* – O Estado SP

Parece afinal que não teremos uma segunda Grande Depressão. O que nos salvou? A resposta é, basicamente, uma grande intervenção governamental.

Para que não haja dúvidas: a situação econômica continua terrível, na verdade pior do que quase todos pensavam ser possível pouco tempo atrás. O país perdeu 6,7 milhões de postos de trabalho desde o início da recessão. Quando levamos em consideração a necessidade de encontrar emprego para acomodar o crescimento da população em idade de trabalhar, temos um déficit de aproximadamente 9 milhões de empregos em relação ao número de vagas que precisamos.

E o mercado de trabalho ainda não se recuperou – aquela sutil redução na taxa de desemprego observada no mês passado foi provavelmente um feliz acaso da estatística. Ainda não chegamos ao ponto a partir do qual as coisas começam realmente a melhorar; no momento, tudo o que temos para comemorar são os sinais de que as coisas estão piorando mais lentamente.

Entretanto, as últimas notícias econômicas sugerem que a economia tenha se afastado em muitos passos da beira do abismo.

Alguns meses atrás, a possibilidade de cairmos no abismo era bastante real. Em alguns aspectos, o pânico financeiro de 2008 foi tão grave quanto o pânico bancário do início da década de 1930, e durante algum tempo os principais indicadores econômicos – comércio mundial, produção industrial global, até o preço das ações – apresentavam uma queda no mínimo tão acelerada quanto a observada em 1929-30.

Mas na década de 1930 os indicadores dos gráficos simplesmente seguiram em trajetória descendente. Desta vez, o mergulho parece ter sido interrompido depois de apenas um ano terrível.

Assim, o que nos salvou de uma reprise completa da Grande Depressão? A resposta, quase certamente, está no papel desempenhado pelo governo – muito diferente desta vez.

Provavelmente, o aspecto mais importante do papel do governo nesta crise não é aquilo que ele fez, mas o que deixou de fazer: diferente do setor privado, o governo federal não cortou gastos conforme sua receita diminuía (Os governos estaduais e municipais já são outra história.).

A receita da arrecadação está muito baixa, mas os cheques da previdência social continuam a ser emitidos; o seguro público de saúde continua a cobrir as despesas hospitalares; os funcionários federais, desde os juízes até os guardas florestais, continuam a receber seus salários.

Tudo isso ajudou a manter viva a economia no seu momento de necessidade, de uma maneira que não ocorreu em 1930, quando os gastos federais representavam uma parcela muito menor do PIB. E isso significa, de fato, que os déficits orçamentários – normalmente algo ruim – são na verdade algo bom no momento que vivemos.

Além de ter este efeito estabilizador “automático”, o governo interveio para resgatar o setor financeiro.

Poderíamos dizer (eu diria) que os resgates das empresas financeiras deveriam ter sido melhor administrados, que o contribuinte pagou demais e recebeu de volta muito pouco. Ainda assim, é possível ficar insatisfeito, ou mesmo irritado, com a maneira por meio da qual os resgates financeiros funcionaram enquanto se admite que, na ausência destes resgates, as coisas estariam muito piores.

A questão é que desta vez, diferente da década de 1930, o governo não adotou uma posição não interventora enquanto boa parte do sistema bancário entrava em colapso. E esta é outra razão pela qual não estamos vivendo uma 2.ª Grande Depressão.

Por último e provavelmente menos importantes, mas nada triviais, foram as iniciativas deliberadas por parte do governo de fortalecer a economia. Desde o início, argumentei que o Plano Americano de Recuperação e Reinvestimento, também conhecido como pacote de estímulo de Obama, foi pequeno demais.

Ainda assim, estimativas razoáveis sugerem que haja cerca de um milhão de americanos empregados que estariam desempregados na ausência deste pacote – um número que aumentará com o tempo – e que o estímulo tenha desempenhado um papel significativo na desaceleração da queda livre vivida pela economia.

Assim sendo, o governo desempenhou um papel fundamental na estabilização desta crise econômica. Ronald Reagan estava errado: às vezes o setor privado é o problema, e o governo, a solução.

E o fato de o governo ser atualmente administrado por pessoas que não detestam o governo não seria motivo para se alegrar? Não sabemos como teriam sido as medidas econômicas de um governo McCain-Palin.

Entretanto, sabemos o que os republicanos da oposição têm dito – e isto se resume a um pedido para que o governo pare de se interpor no caminho de uma possível depressão.

Não estou falando apenas de oposição ao estímulo. Líderes republicanos querem também acabar com os estabilizadores automáticos. Em março deste ano, John Boehner, líder da minoria na Câmara, declarou que já que as famílias estavam sofrendo, “é hora de o governo apertar o cinto e mostrar para o povo americano que ?compreendemos? a situação”.

Felizmente, seu conselho foi ignorado.

Continuo muito preocupado em relação à economia. Temo que ainda haja uma chance substancial de o desemprego se manter alto por um longo tempo. Mas aparentemente evitamos o pior: a catástrofe total parece agora improvável.

E a razão disto é a grande intervenção governamental, administrada por pessoas que compreendem as virtudes do governo.

*Paul Krugman é Nobel de Economia

10/08/2009 - 15:24h A Terra é redonda, por enquanto

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Lúcia Guimarães, NOVA YORK – O Estado SP

Barack Obama propõe a eutanásia de idosos para economizar gastos com saúde.

A equipe econômica do governo americano abriga socialistas convictos.

Barack Obama nasceu no Quênia.

Os ricos são eleitos por Deus.

A Terra é redonda.

Na múltipla escolha acima, além de apenas uma afirmação verdadeira, o leitor pode encontrar um elo comum entre as outras quatro. São enunciadas por políticos eleitos, cujo partido foi rejeitado nas urnas em novembro passado.

O nível de desinformação disparou neste verão americano, graças à alta pressão do debate sobre o seguro saúde. Com mais de US$ 2 trilhões (sim, “tri”) em jogo, corporações pegam pesado no país que gasta o dobro do que outras nações desenvolvidas em saúde e tem 50 milhões fora do sistema.

Nos Estados Unidos, ignorar lunáticos e apostar no bom senso pode ser uma estratégia duvidosa. O senador democrata John Kerry, derrotado por George Bush na eleição de 2004, ignorou, com seu enfado patrício, a bem financiada organização extremista de direita que o representou em filmes na TV como um traidor e não como o militar condecorado que demonstrou bravura no Vietnã e voltou para denunciar a guerra.

O mesmo país que concentra o maior número de cérebros da ciência em atividade, abriga, em sua capital, uma seita fundamentalista – A Família -, um grupo de lobistas travestido de organização religiosa e, portanto, isenta de impostos. O grupo reúne deputados e senadores, alguns envolvidos em escândalos financeiros e sexuais recentes.

Ao sair do apartamento de uma entrevistada, acadêmica e historiadora, ela suspirou quando mencionei A Família, com o ar compungido de quem sente embaraço em nome do país inteiro. “Somos meio complicados, não?”, disse a anfitriã, ao se despedir.

Uma das complicações a que ela se referia é a reverência nacional à simplificação. O debate da saúde envolve um labirinto de ideias e nós vivemos sob a brevidade dos 140 caracteres do Twitter. O interesse escuso, que decide convencer os idosos vulneráveis de que eles estão atrapalhando a assistência médica aos mais jovens e deviam optar por uma partida mais rápida, encontra audiência.

Como nos lembrou Mark Twain, uma mentira viaja meio mundo enquanto a verdade ainda calça os sapatos. Enquanto a cidadania americana inconteste de Barack Obama bocejava, sua falsa cidadania queniana já tinha ido a Nairóbi forjar uma certidão de nascimento local. A constituição americana determina que um presidente deve ter nascido no país. O movimento dos Birthers difunde a teoria conspiratória de que Obama não veio ao mundo no Havaí, declarado o 50º Estado americano em 1959, dois anos antes do seu nascimento.

Entra em cena a mídia venal. O âncora xenófobo Lou Dobbs comanda um programa diário na CNN. Ele decidiu dar credibilidade aos Birthers. A mesma rede fundada por Ted Turner abriu seu horário nobre para um policial de Boston suspenso pela carta que escreveu sobre a prisão de Henry Louis Gates, o acadêmico de Harvard algemado por um policial branco ao tentar forçar a entrada da casa onde mora. O policial Justin Barrett achou por bem enviar um e-mail coletivo dizendo que, se tivesse enfrentado a situação do colega, teria sapecado um aerosol paralisante na cara de Gates, descrito por ele como “um macaco comedor de banana na floresta”. Menos do que o ufanismo racista da missiva, a ideia de que um idiota de seu calibre tem porte de arma me faria pedir proteção à máfia irlandesa de Boston. Pois a CNN trouxe o policial, com advogado a tiracolo, para justificar sua decisão de mover um processo multimilionário contra o governo da Boston, como vítima de retaliação profissional.

Quando a mídia abdica do seu papel de distinguir entre diversidade democrática e ignorância militante, acabamos com o elenco inesgotável de mentecaptos, que, como diz o jornalista Charles Pierce, acredita que uma tolice se torna fato se for espalhada aos berros.

No primeiro ano da mudança que os eleitores aprovaram nas urnas, duas palavras, “camisas marrons”, que evocam a Alemanha nazista, voltaram a circular associadas a agitadores bem financiados por interesses corporativos e religiosos. É um exagero retórico, sim, mas não deve ser recebido na complacência.

Em seu novo livro, Idiot America, Charles Pierce afirma que os Estados Unidos são o melhor país para se difundir absurdos e essa é uma qualidade adorável da democracia. Ele argumenta com as palavras do ex-presidente James Madison, o principal redator da Constituição americana. Em 1830, Madison escreveu: “Um governo como o nosso tem tantas válvulas de escape que traz consigo um alívio para as enfermidades das quais não estão isentas as melhores instituições humanas.” A versão Twitter: O direito de mentir para o público fortalece a verdade.

Com a velocidade da desinformação na era digital, o que Madison chamou de válvula de escape é um conceito em evolução. A cacofonia da truculência obscurantista tem abafado, com algum sucesso, as vozes do país fundado sob o impacto do Iluminismo.

04/08/2009 - 15:19h Recompensando quem nos prejudica

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Paul Krugman, The New York Times* – O Estado SP

Os americanos estão com raiva de Wall Street, e com razão. Primeiro a indústria financeira nos mergulhou numa crise, e depois foi resgatada à custa do contribuinte. E agora, com a economia ainda em depressão profunda, a indústria está distribuindo imensas bonificações a seus membros. Se você ainda não se indignou, é porque não deve estar prestando atenção.

Mas acabar com a economia e esfolar o contribuinte não são os únicos pecados de Wall Street. Mesmo antes da crise e dos resgates, muitos nomes de sucesso da indústria financeira ganharam fortunas com atividades que podemos considerar, do ponto de vista social, como desprovidas de valor – quando não destrutivas. E continuam a fazê-lo. Basta reparar em duas notícias recentes.

Uma delas diz respeito à ascensão das operações em alta velocidade (HFT, em inglês): algumas instituições – entre elas o Goldman Sachs – estão empregando computadores supervelozes para obter vantagens em relação aos demais investidores, comprando ou vendendo ações uma minúscula fração de segundo antes que os demais possam reagir. O lucro com as HFT é um dos motivos por trás do lucro recorde do Goldman, que deve também pagar bonificações recordes.

Num aspecto aparentemente distinto, a edição de domingo do New York Times publicou reportagem sobre o caso de Andrew J. Hall, líder de um braço do Citigroup responsável por especular nos mercados de petróleo e outras commodities. Suas atividades renderam muito dinheiro recentemente e, de acordo com seu contrato, Hall deve receber US$ 100 milhões.

O que essas duas histórias têm em comum? Em ambos os casos, estamos falando de imensas compensações pagas por empresas que estão entre as maiores beneficiadas pelo auxílio federal. O Citi recebeu cerca de US$ 45 bilhões do contribuinte; o Goldman devolveu os US$ 10 bilhões de auxílio direto, mas foi muito beneficiado por garantias federais e pelo resgate de outras instituições financeiras.

Mas vamos supor que Hall e Goldman sejam muito bons no que fazem, e poderiam ter lucrado muito até na ausência da ajuda recebida. Ainda assim, o que eles fazem é ruim para os EUA. Sejamos claros: a especulação financeira pode servir a um propósito útil. É bom, por exemplo, que os mercados futuros incentivem o armazenamento de combustível para os aquecedores antes que o clima esfrie, ou o armazenamento de gasolina antes que comece a temporada de férias de verão.

Mas especular com base em informações indisponíveis ao público em geral já é algo muito diferente. Como demonstrou em 1971 o economista Jack Hirshleifer, da UCLA, esse tipo de especulação com frequência mistura “rentabilidade particular” e “inutilidade social”. Um bom exemplo disso são as operações em alta velocidade. É difícil perceber como negociantes que fazem suas transações uma fração de segundo antes dos demais possam contribuir com a melhoria dessa função social.

E quanto a Hall? A reportagem do Times sugere que ele ganha dinheiro ao ser mais esperto que outros investidores, e não por direcionar recursos para onde são mais necessários. Novamente, é difícil enxergar valor social naquilo que ele faz.

O que precisa ser feito? Na semana passada, a Câmara aprovou uma lei estabelecendo regras para os pacotes de bonificação de várias instituições financeiras. Seria um passo na direção certa. Mas tal medida deveria ser acompanhada por uma regulação muito mais ampla das práticas financeiras – e eu ainda defendo uma maior carga tributária sobre rendas superdimensionadas.

Infelizmente, a medida enfrenta a oposição da administração Obama, que ainda parece funcionar pela lógica segundo a qual aquilo que for bom para Wall Street será bom para o país. Nem a administração nem nosso sistema político estão prontos para encarar o fato de que nos tornamos uma sociedade na qual as grandes recompensas vão para quem se comporta mal, uma sociedade que enche de dinheiro quem deixa todos nós mais pobres.

*Paul Krugman é Prêmio Nobel de Economia

27/07/2009 - 09:02h ”É difícil ganhar uma eleição twittando”

Ben Self: estrategista de campanha na internet; Americano que ajudou a criar a campanha online de Obama acha que, sem mobilizar as pessoas, a internet não é eficaz
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Julia Duailibi – O Estado SP

 


Inspirados pela experiência da campanha presidencial americana de 2008, os partidos políticos que disputarão a corrida de 2010 começaram a olhar para a internet com mais atenção. Marqueteiros ligados tanto ao PSDB como ao PT estão de olho na Blue State Digital (BSD), empresa americana que criou a estratégia na rede para a campanha de Barack Obama a presidente dos Estados Unidos.

http://www.propmark.com.br/publique/media/Ben%20Selfeditada.jpgBen Self, um americano de Kentucky, de 32 anos, é um dos jovens rostos por trás da bem-sucedida, e excessivamente elogiada, campanha online que ajudou a levar Obama à vitória. Fundador da BSD, ele ajudou a formatar a estratégia que arrecadou nada menos que US$ 500 milhões via internet. Foram obtidas cerca 6,5 milhões de doações online – uma média de US$ 80 por doação -, o que criou um novo paradigma sobre financiamento de campanha nos EUA e no mundo.

Uma das sacadas da BSD foi pulverizar as doações por várias páginas de relacionamento na internet, que tinham em comum o apoio à campanha de Obama. As pessoas entravam na rede, doavam, articulavam eventos pró-campanha e ainda participavam de grupos de discussão sobre a arrecadação. Milhões de dólares foram doados em questão de dias. “Nós descobrimos que as pessoas adoram fazer esse tipo de conexão, mesmo que elas não se conheçam. E elas voltam para doar 3, 4, 5 dólares”, afirmou Self, em entrevista concedida ao Estado de seu escritório nos EUA.

A empresa que Self mantém com outros três sócios, e a colaboração na equipe de Obama de outros nomes, como Chris Hughes, fundador do Facebook, lançou uma nova forma de fazer e financiar campanhas. “Acho que qualquer candidato que vire as costas para isso (internet) está perdendo uma oportunidade-chave e uma grande vantagem.” Para ele, a rede não é um local de persuasão, mas de articulação. “É muito difícil ganhar a eleição ?twittando?. Você precisa motivar as pessoas, isso ajuda a ganhar eleição. Isso significa falar com os eleitores, amigos, doar dinheiro”, disse, em referência ao microblog de relacionamentos, que virou mania entre políticos brasileiros.

Ex-diretor de tecnologia do Partido Democrata, Self esteve em maio no Brasil. Ele se recusa a comentar qualquer negociação com partidos brasileiros. Eis a entrevista.

Como a Blue State Digital começou a trabalhar para Obama?

A BSD foi fundada em 2004, durante a campanha de Howard Dean (democrata que disputou as primárias daquele ano) para a Presidência. Desde 2004, trabalhamos para vários candidatos, partidos políticos e organizações sem fins lucrativos. Ficamos conhecidos pelo trabalho que fizemos para vários candidatos nos Estados Unidos e também pelo nosso trabalho para o Partido Democrata. Eles continuam sendo nossos clientes.

Então, quando a campanha de Obama começou, em 2007, nós éramos os mais qualificados, sob certo aspecto, para dar a eles a tecnologia de que precisavam. Eles nos ligaram, dez dias, eu acho, antes de anunciarem que iriam concorrer e disseram: “Ei, nós queremos fazer uma campanha de um jeito diferente e queremos usar as suas ferramentas e a sua tecnologia”.

O que vocês fizeram para o Partido Democrata?

Nós tivemos um grande papel no trabalho para Howard Dean. Ao gerenciarmos a estratégia de internet e de tecnologia, demos as nossas ferramentas e a nossa tecnologia ao partido. Eu estava intimamente envolvido porque era diretor de tecnologia lá. Então temos trabalhado muito próximos aos democratas desde 2005.

A internet foi determinante para a vitória de Barack Obama?

Não diria que a internet pode fazer ou derrubar o candidato. Obviamente, é muito importante e traz muitas vantagens, mas não foi só a internet que fez o senador Obama presidente, foi uma série de fatores conjuntos.

Mas a internet foi a grande novidade da campanha, com a arrecadação online recorde.

É difícil apontar para qualquer fator e dizer: isso fez a diferença. Havia tantas coisas maravilhosas sobre o nosso candidato, que qualquer uma poderia ser apontada como a que fez a diferença. No entanto, acho que a grande diferença na forma como a campanha de Obama usou a internet, em relação ao que os outros fizeram no passado, é que ela entendeu como usar a rede para ajudar a conectar voluntários dando a eles ações, que realmente fizeram a diferença na campanha. Então essa foi a grande mudança.

Essa percepção de que a internet faria a diferença já estava presente desde o começo da campanha?

Estava bem clara para todo mundo, no começo da campanha, a importância da internet. Todo mundo já sabia que seria uma peça-chave na campanha.

O político que não apostar na internet já está em desvantagem?

Sempre haverá candidatos que se recusarão a abraçar a novas tecnologias. Essa é uma ferramenta importante para falar com eleitores e também para motivá-los. A campanha do Obama nos ensinou que existe uma grande vantagem em ter um relacionamento dinâmico e uma estratégia online. Então, acho que qualquer candidato que vire as costas para isso está perdendo uma oportunidade-chave e uma grande vantagem.

Mesmo em países, como o Brasil, em que a internet é menos acessível que nos Estados Unidos?

É claro que a penetração em algum nível é necessária. É um investimento de tempo.

Qual ferramenta indispensável que uma campanha online deve ter?

Um website dinâmico e interessante que traga pessoas para a campanha e permita que elas façam parte dela. E tem de ter um mailing poderoso, que contenha milhares, milhões de pessoas nele. É provavelmente a peça mais importante de qualquer campanha online. É mais importante, de certa forma, que um bom website.

E os sites de relacionamento?

Depende de como se usa e de qual sua estratégia geral. Há um papel para eles, mas não são mais importantes que o website, nem que o e-mail, de jeito nenhum. É uma ferramenta, mas é muito difícil ganhar a eleição “twittando”. Você precisa motivar as pessoas, isso ajuda a ganhar eleição. Isso significa falar com os eleitores, amigos, doar dinheiro. Se você tem um website que fala de você e no qual os seus apoiadores opinam, mas que não motiva seus eleitores para nenhuma ação, você não vai a lugar nenhum.

Qual o custo de uma estrutura dessas para uma campanha eleitoral?

A gente não anuncia quanto cada um dos nossos clientes paga. Mas, claro, a gente trabalha para clientes grandes e pequenos. Alguns grandes, como a campanha do Obama, e os menores, que são as organizações sem fins lucrativos. Temos uma série de ferramentas que nós autorizamos os clientes a usar. Clientes que não podem bancar os custos se beneficiam do longo caminho que a gente já traçou.

Como vocês criaram a ferramenta de arrecadação pela internet?

É só um exemplo de como a gente pegou uma ideia tradicional de arrecadação de fundos e a usou. Há uma técnica de arrecadação de fundos muito comum nos Estados Unidos. Aqui, nós a chamamos de match e geralmente é usada como mala direta. Esses pedidos funcionam assim: “Se você der um dólar, há um outro doador que nos dará três dólares. Então, doe agora”. A gente olhou para isso e pensou: as pessoas não acreditam nisso. Então vamos mudar essa ideia e vamos fazer ela incrivelmente transparente. O grassroots match faz isso.

Como funciona?

Você manda um e-mail para sua base de arrecadação, pessoas que te doaram antes, e diz: “Ei, vamos falar com todas as pessoas que são nossos apoiadores, mas que nunca doaram antes. Vamos dizer: ?Nós temos 10 mil pessoas que darão 10 dólares, se você der 10 dólares hoje. E assim que você der os seus 10 dólares, a gente vai te conectar a uma dessas pessoas e você vai trocar impressões sobre a doação?.” Nós descobrimos que as pessoas adoram fazer esse tipo de conexão, mesmo que elas não se conheçam. E elas voltam para doar 3, 4, 5 dólares. A campanha arrecadou muito dinheiro com pequenas doações. Então, focar nisso, foi uma parte importante da campanha.

O eleitor da internet tem um perfil específico?

Não, na verdade, a gente descobriu que os perfis mais ativos usando os sites eram de pessoas que a gente não esperaria. Um dos enganos mais comuns que você costuma ouvir é que a internet é usada para convencer, persuadir as pessoas. Realmente tem, sim, alguma porcentagem de pessoas que vai ao site para aprender mais sobre o candidato. Mas ela serve, principalmente, para aumentar o entusiasmo e a paixão dos apoiadores e pedir a eles para fazer coisas, usá-los para falar com as famílias e os amigos para, aí sim, convencê-los e fazê-los mudar de ideia.

O senhor acha que a internet, ao dar transparência às doações, pode coibir casos de corrupção?

Eu acho que ser capaz de financiar uma campanha política ou partido político (pela internet) é genial. É muito mais importante ter várias pessoas por aí espalhadas, apoiando um determinado candidato e se engajando na democracia. Isso deve ser encorajado. As doações pela internet são um jeito de fazer isso. Permitem que mais gente, e de forma mais fácil, se envolva com as doações. Toda vez que puder diminuir barreiras e aumentar participação em democracia é uma boa coisa.

Aqui no Brasil estamos discutindo regulação de campanhas na rede. O sr. é a favor de regular a internet?

É muito difícil falar sobre isso, sem saber detalhes da situação.

Os partidos brasileiros estão cortejando o sr. Já fechou com alguém?

Não comentamos nada sobre isso. Me desculpe.

Quem é:
Ben Self

É ex-diretor de tecnologia do Partido Democrata dos Estados Unidos e sócio-fundador da agência Blue State Digital

Coordenou a campanha online de Barack Obama.

Ajudou a formatar a estratégia de arrecadação de doações para a campanha de Obama pela internet

22/07/2009 - 10:00h Petrobras pode assumir todos os blocos do pré-sal, diz Dilma

Em Washington, ministra afirma que modelo preferido será de partilha

Brasileira e grupo de empresários se encontram em Washington com Obama, que deve visitar o Brasil em agosto próximo

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Ministra Dilma Rousseff durante sua participação na abertura do Ethanol Summit 2009, em São Paulo em junho passado

SÉRGIO DÁVILA – FOLHA SP

DE WASHINGTON

A maior parte do dinheiro do pré-sal ficará no Brasil. A promessa é da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, durante visita a Washington.
Falando sobre o novo marco regulatório para a exploração dos campos petrolíferos brasileiros, ela disse ainda que a Petrobras tem condições de assumir o controle de todos os blocos e que o modelo preferido de exploração será o de partilha -as petroleiras terão de entregar uma parcela mínima do óleo extraído à estatal que será criada para gerenciar o pré-sal.
Indagada sobre se isso não afastaria os investidores estrangeiros, disse que as petrolíferas são atraídas pelas reservas do pré-sal porque são grandes, situadas num país estável. “Então, não estamos nem um pouco preocupados se um investidor não vai estar interessado em explorar; ele vai.”
Sobre o novo marco, que ela e o ministro Edison Lobão (Minas e Energia) pretendem entregar ao presidente Lula até agosto, disse que não daria detalhes, Ainda assim, comentou indiretamente alguns aspectos que podem estar no projeto. “O investidor sabe que, quando é baixo o risco e elevada a rentabilidade, os contratos mudam, não são mais contratos de concessão, se tornam híbridos.”
Depois de dizer que eram bem-vindas ao processo empresas privadas brasileiras e privadas e estatais estrangeiras, ressaltou que a condução será do governo. “Essa condução, clara, é a seguinte: as reservas brasileiras, em sua maioria, transformar-se-ão em riquezas para o povo brasileiro.” Além disso, será escolhido um modelo “que não é o tradicional dos países que hoje fazem contratação de serviços: preferimos o modelo de partilha”.
Questionada se a Petrobras daria conta de controlar todos os blocos, disse que a estatal tem sido no Brasil “o sonho de operação de todas as empresas privadas”. E ressaltou: “A questão da operação é estratégica”.
Dilma, candidata de Lula para sua sucessão, estava em Washington para a quarta reunião do fórum de CEOs. À tarde, enquanto o grupo se reunia na sala do assessor de Segurança Nacional obamista, James Jones, o presidente Barack Obama apareceu no local.
Segundo relatos, ele foi simpático, mas protocolar. Perguntou aos empresários as principais dificuldades nas relações bilaterais. Disse que o país era parceiro estratégico não só em questões bilaterais mas também em regionais e globais e ressaltou a intenção de aprofundar a colaboração em biocombustíveis, na ajuda à África e ao Haiti e no combate à mudança climática.
E, segundo a própria Dilma, reforçou o apreço por Lula, com quem se encontrou quatro vezes desde eleito e falou outro tanto ao telefone. Ele evitou dar uma data da visita que disse que fará ao Brasil, mas James Jones confirmou que irá ao país no início de agosto.
Na noite anterior, o economista-chefe da Casa Branca, Larry Summers, havia oferecido jantar a Dilma, ao ministro Miguel Jorge e aos empresários. Segundo presentes, Summers se comprometeu em evitar o protecionismo. Dilma e Jorge seriam recebidos ontem ainda pelo secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner.

14/07/2009 - 09:26h Escaldando o sapo

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Paul Krugman, The New York Times * – O Estado SP

Será que os Estados Unidos estão a caminho de se tornar um sapo escaldado? Estou me referindo àquele sapo que, segundo o ditado, seria colocado num recipiente com água fria, a qual, gradualmente aquecida, acaba escaldando o sapo vivo, sem que ele perceba o perigo que corria.

Na verdade, os sapos reais saltam para fora do recipiente antes que isto aconteça – mas não importa. O hipotético sapo escaldado é uma metáfora útil para descrever um problema concreto: a dificuldade de responder aos desastres que se aproximam pouco a pouco. E desastres que se aproximam pouco a pouco são o que mais enfrentamos hoje em dia.

Comecei a pensar no sapo escaldado recentemente enquanto observava o estado deprimente do debate acerca das medidas econômicas e ambientais.

São duas áreas nas quais existe um lapso de tempo significativo entre a adoção das medidas e o impacto do efeito pretendido – um ano ou mais, no caso da economia, décadas no caso do planeta. Ainda assim, é muito difícil convencer as pessoas a fazer o necessário para evitar uma catástrofe anunciada.

No momento, tanto o sapo econômico quanto o sapo ambiental estão imóveis enquanto a água continua a esquentar.

Vamos começar com a economia: no fim do ano passado, a economia passava por uma crise aguda. E houve uma resposta relativamente forte sob a forma do plano de estímulo de Obama, mesmo que este plano não tenha sido tão forte quanto acreditamos que devesse ser.

No momento a crise aguda deu lugar a uma ameaça muito mais insidiosa. A maioria das previsões econômicas espera que o Produto Interno Bruto volte a crescer logo, caso isso ainda não esteja ocorrendo. Mas tudo indica que se trate de uma “recuperação sem empregos”: na média, analistas entrevistados pelo The Wall Street Journal acreditam que a taxa de desemprego vai continuar aumentando até o ano que vem.

Já é ruim o bastante ficar desempregado por algumas semanas; é muito pior ficar desempregado por meses ou anos. Mas é exatamente isso o que vai acontecer com milhões de americanos se a previsão média se confirmar – o que significa que muitos dos desempregados perderão poupanças, lares e mais.

Para evitar esse resultado – lembre-se, não são as Cassandras da economia que estão dizendo isso; a previsão é consenso entre os analistas – precisamos adotar uma nova rodada de estímulo. Mas nem Congresso nem a administração Obama estão se mostrando inclinados a agir. O sentido de urgência parece ter desaparecido.

É provável que isso mude quando a realidade da recuperação sem empregos se tornar aparente demais. Mas, então, será demasiado tarde para evitar um desastre em câmera lenta. Ainda assim, o problema do sapo escaldado da economia não se compara ao problema de mobilizar-se contra a mudança climática.

Consideremos o seguinte: se o consenso entre os especialistas na economia é desanimador, o consenso entre os especialistas no clima é simplesmente aterrador. A previsão central dos principais modelos climáticos é uma catástrofe.

Evitar essa catástrofe deveria ser o tema central debatido pelos governos da nossa época.Mas não é o que ocorre, porque a mudança climática é uma ameaça que se aproxima lentamente. A verdadeira dimensão da catástrofe só se tornará aparente daqui a décadas, talvez gerações. Na realidade, devem provavelmente faltar anos até a tendência ascendente nas temperaturas ser tão perceptível para os observadores casuais a ponto de calar os céticos.

Infelizmente, se esperarmos até a crise ficar tão óbvia para tomar as medidas necessárias, a catástrofe já terá se tornado inevitável.

E, apesar de uma grande legislação ambiental ter sido aprovada no Congresso, a qual representa uma conquista política impressionante e inspiradora, essa legislação ficou muito aquém daquilo que o planeta realmente necessita – apesar disso, a proposta enfrenta dificuldades para garantir sua aprovação no Senado.

O que faz dessa paralisia nas medidas tão alarmante é o fato de tão pouco estar ocorrendo quando a situação política parece, ao menos na superfície, tão favorável à ação.

Afinal, os adeptos da economia do lado da oferta e os céticos da mudança climática não controlam mais a Casa Branca nem as principais comissões do Senado. Os democratas contam com um presidente popular à sua liderança, uma grande maioria na Câmara dos Deputados, e 60 votos no Senado. Não se trata da antiga maioria democrata, composta pela estranha coalizão formada entre liberais do norte e conservadores do sul. Em termos históricos, trata-se de um bloco progressista relativamente sólido.

Para que não haja dúvidas, tanto o presidente quanto a liderança do partido no Congresso compreendem as questões econômicas e ambientais perfeitamente bem. Assim, se não conseguirmos agir agora para evitar o desastre, o que será necessário para mobilizar a todos? Não sei a resposta. E é por isso que fico pensando em sapos escaldados.

*Paul Krugman é prêmio Nobel de Economia