08/08/2012 - 10:00h Obama perde apoio de grandes empresas

Por Stephanie Kirchgaessner | Financial Times | VALOR

Nove meses após assumir a Presidência, Barack Obama organizou um almoço fechado para os executivos-chefes de algumas das maiores empresas dos Estados Unidos, Amazon e Kraft entre elas. O verão de 2009 havia sido duro. As batalhas envolvendo a remuneração corporativa e os planos da Casa Branca de reorganizar o sistema de saúde e o setor de energia haviam formado uma impressão entre os líderes empresariais de que ele era “antibusiness”.

O esforço do presidente para reparar relações desgastadas falhou. Menos de um ano depois, enquanto tentava fazer a América corporativa ajudar a resgatar a economia de sua pior recessão desde a Grande Depressão, a Casa Branca revelou sua frustração. “Os riscos são grandes demais para que trabalhemos uns contra os outros”, escreveu Valerie Jarrett, conselheira de Obama, à Câmara do Comércio, um grande lobby empresarial. “[A retórica empresarial] não reconhece as medidas que esta administração vem tomando para atender os objetivos compartilhados.”

De lá para cá – após uma onda reguladora que incluiu a lei Dodd-Frank, para o mercado financeiro, e a promoção pelo presidente do plano Buffett, que estabeleceria um imposto mínimo de 30% para quem ganha mais de US$ 1 milhão por ano -, as diferenças só aumentaram.

Enquanto isso, o candidato republicano à Presidência, Mitt Romney – cofundador da Bain Capital de Boston -, está fazendo campanha para as eleições de novembro com base em sua experiência corporativa e promete tornar a vida mais fácil para as companhias, grandes e pequenas.

Essas visões conflitantes para a América corporativa coincidem com uma nova campanha de desregulamentação do sistema financeiro que permitiria a empresas e sindicatos, doar, em certas circunstâncias quantias ilimitadas de dinheiro para apoiar políticos – um ato que até agora favoreceu os republicanos.

No longo prazo, a agenda do vencedor vai moldar a política fiscal, com possíveis repercussões para uma economia mundial que tenta evitar mergulhar de volta na recessão, assim como para o ambiente regulador.

Instituições de Wall Street e executivos votaram em massa em Obama nas eleições de 2008, mas eles o trocaram por Romney em 2012. No começo de maio, executivos do setor financeiro haviam doado para Romney três vezes mais recursos de campanha do que para Obama, segundo o Center for Responsive Politics, um grupo de pesquisas de Washington.

John Engler, presidente da Business Roundtable, um grupo lobista que defende os interesses de executivos-chefes de empresas, diz: “Há uma crença entre muitos na comunidade empresarial de que a administração Obama não tem uma grande afeição pelos empresários e pelas empresas… de que uma administração Romney seria mais neutra e respeitaria mais o papel do livre mercado na determinação de investimentos bem-sucedidos”.

No mês passado, o candidato republicano atacou Obama por afirmar: “Se você tem um negócio, você não o construiu, alguma outra pessoa fez isso acontecer”. O presidente observou que a declaração enfatizou a importância da educação e da infraestrutura bancadas pelo governo para o crescimento, mas seu rival disse que se tratava de um “insulto a todos os empresários e inovadores da América”.

Na verdade, o apoio de Obama a investimentos de infraestrutura tem o apoio de muitos na América corporativa. Se Romney vencer, provavelmente haverá uma certa objeção aos grandes cortes nos gastos reservados para a melhoria de rodovias e aeroportos propostos pelos republicanos no Congresso.

A redução do déficit é a questão “mais importante” que o próximo presidente vai enfrenta, afirma Roger Altman, presidente do conselho de administração do banco de investimentos Evercore, que foi vice-secretário do Tesouro na administração Clinton. O plano de Obama – uma mistura de aumento de impostos e corte nos gastos – “é muito mais realista do que aquele colocado na mesa por Romney”, afirma ele. Mas a maioria dos setores favorece a plataforma republicana de impostos menores e menos regulamentação.

Os apoiadores de Romney veem a eleição como uma chance de introduzir uma era de cooperação com o governo, especialmente em termos regulatórios. “Há uma sensação entre os diretores com quem tenho conversado, de que existe uma demanda reprimida, um desejo das empresas por muitos gastos e investimentos, se todos acharem que os sinais estiverem claros – e de que se você arriscar capital, o jogo não mudará para você no período de um ano”, diz Engler.

“A agenda de desregulamentação gradativa de Romney poderá ter alguns benefícios de curto prazo”, afirma Jared Bernstein, ex-economista-chefe do vice-presidente Joe Biden, “mas historicamente isso tem sido uma receita de formação e estouro de bolhas, além de enfraquecer significativamente a classe média”. De sua parte, Obama afirma que as políticas de impostos baixos e regulamentação leve propostas por Romney são aquelas que “em primeiro lugar causaram a bagunça financeira”.

O presidente tem aliados no Vale do Silício e alguns em Wall Street. Ele também é visto no geral como defensor do setor industrial. Jeff Immelt, presidente-executivo da General Electric (GE), vem trabalhando com ele em políticas para melhorar o nível de emprego através do Conselho de Empregos – embora o órgão tenha se tornado alvo de um joguete político quando surgiu a informação de que ele não se reúne há seis meses. Ele tem apoiadores em Detroit, onde é creditado por ter revitalizado a indústria automobilística com um socorro financeiro à General Motors (GM). Romney tem dito que não teria feito tal resgate.

Nenhum setor tem mais a perder que o da saúde, que representa um sexto da atividade econômica dos Estados Unidos, conforme medido pelo PIB. Se for reeleito, Obama continuará implementando a lei da saúde de 2010, ampliando o seguro para que ele cubra mais de 25 milhões de americanos, enquanto que Romney, na Presidência, tentaria desmantelar a lei. Ela vem recebendo um grande apoio dos setores hospitalar e farmacêutico, mas enfrenta a oposição do setor de seguros, embora as posições ainda possam mudar até as eleições em novembro.

Mas é na questão dos impostos que as empresas sentirão o resultado de maneira mais direta. Os dois candidatos concordam que os altos impostos pagos pelas empresas e muitas brechas colocam as empresas americanas em desvantagem – e, seja quem for o vencedor, uma reorganização está praticamente garantida. Os detalhes, porém, serão em grande parte determinados pelo próximo presidente.

“Há um consenso geral sobre a direção que se deve tomar”, afirma Chris Krueger, analista da Guggenheim Partners, uma companhia de serviços financeiros de Washington, “mas ninguém tem certeza do caminho que será tomado”.

21/03/2011 - 09:52h ”Brasil não tem de focar comércio país a país”

Secretário de Obama diz que Brasil tem superávit total, mesmo com a Ásia, e não deve reclamar de déficit com os EUA

Raquel Landim – O Estado de S.Paulo

Gary Locke, secretário de Comércio dos Estados Unidos

O secretário de Comércio dos Estados Unidos, Gary Locke, disse ontem que “o Brasil tem de olhar para (os resultados) do comércio com o mundo, e não país a país”. É uma resposta às críticas de autoridades e empresários brasileiros, insatisfeitos com o déficit de US$ 7,7 bilhões registrado com os americanos no ano passado. O Brasil representa o quinto maior superávit dos Estados Unidos no mundo. Em entrevista ao Estado, o secretário lembrou, no entanto, que o Brasil tem superávit com a China, enquanto os Estados Unidos amargam déficit nessa relação.

Locke abandonou a comitiva de Obama, que seguiu para o Chile, para reuniões, hoje, com empresários em São Paulo. Ele demonstrou boa vontade para derrubar as barreiras contra a carne bovina e o etanol, mas não deu indicações concretas.

Defendeu que, antes da queda de barreiras e acordos de livre comércio, há passos “intermediários” a dar, que podem facilitar a vida das empresas dos dois países. Citou, como exemplo, o acordo de bitributação entre Brasil e EUA, que está em discussão há dez anos e evitaria que as empresas que atuam nos dois países paguem impostos dobrados. A seguir, trechos da entrevista:

Em suas reuniões com autoridades do governo e empresários, o senhor ouviu muitas reclamações sobre o superávit dos Estados Unidos com o Brasil. Como o sr. responde a isso?

O mais importante é olhar o crescimento do comércio total do Brasil com o mundo inteiro. O Brasil tem um superávit importante, por exemplo, com a Ásia. Em realidade, tem um superávit importante com o restante do mundo. O Brasil está crescendo e fornecendo não apenas commodities, mas também produtos avançados, como aeronaves. Nas reuniões ontem, o ministro Palocci (Antonio Palocci, chefe da Casa Civil) já havia indicado que o Brasil tem de focar no comércio com todo o mundo, e não país a país.

Brasil e Estados Unidos assinaram um Tratado de Cooperação Econômica e Comércio (Teca). Existe disposição para um verdadeiro acordo de livre comércio?

Há muitos passos antes de um acordo de livre comércio. A assinatura do Teca ontem (sábado)foi um grande passo. Outro passo intermediário é o acordo de bitributação. Acordos de livre comércio são muito difíceis de negociar, e, às vezes temos de adotar outras medidas com benefícios significativos para as empresas brasileiras e americanas.

21/03/2011 - 09:37h Brasil e EUA aprofundam parceria na área de energia

Política externa: Obama e Dilma firmam “diálogo estratégico” no setor

Ruy Baron/Valor

Gabrielli: ceticismo sobre a atuação do governo dos EUA em negócios de petróleo


Sergio Leo | VALOR

Em visita pautada por interesses econômicos e comerciais e por elogios ao Brasil como “ator global”, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, firmou no sábado, com a presidente Dilma Rousseff, um “Diálogo Estratégico em Energia”. A iniciativa abre caminho para cooperação na exploração de energia alternativa e do petróleo obtido em grandes profundidades. Segundo a Casa Branca, Dilma recebeu com satisfação o anúncio de Obama de que enviará em maio ao Rio uma missão comercial para negócios na área de gás e petróleo.

“Queremos trabalhar junto com vocês, ajudar com tecnologias e apoio para desenvolver essas reservas de petróleo de forma segura”, explicou Obama, ao comentar o “diálogo estratégico” para um grupo de empresários reunidos pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Câmara Americana de Comércio, em Brasília, no sábado. “Quando vocês estiverem prontos para vender, nós queremos ser um dos maiores clientes.”

O “diálogo estratégico” foi elevado ao “nível presidencial”, segundo o comunicado dos dois presidentes, que também alçaram ao mesmo nível os diálogos de parceria global e o econômico-financeiro. Os ministros dessas áreas foram instruídos a convocar reuniões para discutir os temas e “mantê-los informados regularmente”.

O interesse de Obama em pôr seu governo no terreno até agora trilhado sobretudo por agentes privados surpreendeu até o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli. Ao Valor, ele admitiu ver com certo “ceticismo” a atuação do governo americano nos negócios de petróleo. Pouco antes do pronunciamento de Obama aos empresários, Gabrielli disse, no seminário, não ter “com quem falar” no governo sobre compra e venda de petróleo, conduzidas por empresas privadas. “Os EUA são um país capitalista, não tem estrutura institucional para isso”.

“Se o governo desenvolver uma estratégia para valorizar mais ainda essa relação, provavelmente ela aumentará”, concedeu Gabrielli, lembrando que o Brasil já é o oitavo maior fornecedor de petróleo aos EUA e os americanos, os maiores importadores desse produto do Brasil, numa “relação puramente de mercado”. O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, também surpreendeu, pelo pouco entusiasmo, participantes do Fórum de Altos Executivos Brasil-EUA, no Itamaraty. Ao ouvir de um empresário referências a apoio dos EUA à Petrobras para explorar o pré-sal, respondeu que a companhia já tem capacidade suficiente.

Segundo a Casa Branca, Dilma e Obama discutiram “intensificada troca de boas práticas” na exploração de petróleo e gás na plataforma marítima e, na próxima semana, representantes do Departamento do Interior americano terão encontro com autoridades brasileiras para “avançar o diálogo” sobre exploração segura de petróleo. Está prevista uma reunião de trabalho entre os dois países, no Rio, em outubro, para discutir exploração de petróleo em águas profundas e controle ambiental.

Obama falou sobre o assunto com Dilma, que, segundo a Casa Branca, concordou em dar “passos concretos” para aumentar a cooperação nesse campo. Obama comentou o papel crescente do Brasil no mercado de petróleo e ressaltou o interesse na “parceira estratégica” entre os dois países e em participar, “como for apropriado”, no desenvolvimento desses recursos, de modo “ambientalmente responsável e avançado tecnologicamente”. Falou da missão comercial em maio, no Rio, aproveitando a conferência “Latin Oil Week”.

Um dos raros instrumentos governamentais americanos para atuar na área é o apoio financeiro aos exportadores de equipamentos dos EUA, por meio do Eximbank, seu banco de apoio ao comércio exterior. Gabrielli se queixou de que a linha oferecida pelo Eximbank, em 2010, enfrenta dificuldades de liberação, pela excessiva burocracia do banco; e que não há financiamento para a instalação de empresas americanas no Brasil. Apenas uma parte dos US$ 2 bilhões oferecidos despertou interesse de parceiros privados da estatal. “A China nos liberou US$ 10 bilhões; o BNDES, US$ 25 bilhões.”

Ele disse que, ao contrário do que se disseminou, não houve contrato de compra antecipada de pré-sal pela China. Há o empréstimo, em que a Petrobras se obriga a manter em depósito, nos bancos chineses, o equivalente aos juros, que serão abatidos à medida que a estatal vender óleo aos chineses. A Petrobras se compromete a oferecer 200 mil barris/dia, mas os chineses só comprarão se houver interesse e o preço for satisfatório. Não é o tipo de negócio a ser replicado com os EUA, onde o governo não compra petróleo, disse Gabrielli. Ele lembrou que o governo pode, porém, estimular a preferência por determinados fornecedores. Segundo um graduado diplomata brasileiro, o governo Dilma já notou que os compromissos relativos ao pré-sal causam alvoroço entre parceiros do Brasil, e quer evitar a impressão de que “loteia” antecipadamente os recursos conforme o poder econômico dos aliados.

21/03/2011 - 09:12h Mudou o Brasil e mudaram os EUA

Sergio Leo – VALOR

Imagine: às vésperas da visita do presidente americano, o ministro de Relações Exteriores brasileiro dá entrevista criticando indiretamente os EUA por não terem aproveitado o acordo negociado por Brasil e Turquia com o Irã; em seguida, a diplomacia brasileira decide abster-se no Conselho de Segurança em uma votação sobre o iminente ataque internacional à Líbia do ditador Muammar Gadafi – ataque lançado após sinal verde do presidente americano, concedido a partir do Brasil, no início da viagem ao país. Em seguida, o americano elogia o papel do Brasil como “parceiro estratégico global”.

Tudo isso aconteceu na semana passada. Para o futuro, os diplomatas brasileiros fazem pelo menos duas previsões surpreendentes: 1) nesta semana, quando o Conselho de Direitos Humanos votar uma condenação ao Irã, pela política discriminatória do país, o Brasil deve votar com os Estados Unidos, a menos que mudanças de última hora no texto negociado alterem os rumos das discussões nas Nações Unidas; 2) conforme disse o ministro de Relações Exteriores, Antônio Patriota, o governo americano já aceita que a normalização da situação em Honduras exige a volta a Tegucigalpa, como cidadão, do presidente deposto por um golpe, Manuel Zelaya.

Obama viu em Dilma a chance de reatar laços com o país

“Os golpistas podem circular livremente em Tegucigalpa, mas a vitima do golpe, eleita pelo povo hondurenho, não pode voltar e exercer seus direitos em Honduras”, lamentou o ministro. Ele revelou que, nas conversas na Organização dos Estados Americanos para retirar a suspensão de Honduras da comunidade americana, a diplomacia dos EUA já tende a concordar que a volta de Zelaya, com seus direitos políticos restabelecidos, é um fator de normalização política.

A entrevista de Patriota emitiu vários sinais de que as mudanças na política externa brasileira não são a guinada que muitos acreditam ver a partir da nova ênfase adotada pelo governo Dilma Rousseff em questões de direitos humanos. Dilma, no fim de semana, foi explícita ao citar pontos de divergência entre os dois governos, entre eles o desconforto brasileiro com a política monetária americana, afrouxada na tentativa de reativar a economia e danosa para países como o Brasil, que veem, impotentes, suas moedas valorizarem-se e perderem muita competitividade em relação ao dólar.

Mas o próprio Obama se encarregou de minimizar os desentendimentos, ao falar no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. “Como muitas nações, continuaremos a ter diferenças de opinião; mas estou aqui para dizer a vocês que o povo americano não só reconhece o sucesso do Brasil – nós batalhamos por ele”.

As palavras do presidente americano são, em parte, resposta ao crescimento da importância econômica do Brasil, um mercado de quase US$ 40 bilhões para mercadorias e serviços dos EUA que se expande, que mais que duplicou as compras de serviços americanos nos últimos oito anos, e que será, em 2015, a quinta maior fonte de turistas para os EUA.

Ao fazer uma inédita manifestação de “apreço” à candidatura do Brasil ao assento permanente do Conselho de Segurança dos Estados Unidos, Obama reflete, também, êxitos da política externa dos últimos anos, conduzida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim.

Não há, hoje, nenhum foro importante de decisão internacional que não conte com participação ativa do Brasil, do meio ambiente à crise financeira internacional – e, embora esse papel já fosse concedido em certa medida ao Brasil em governos anteriores, na gestão de Amorim, sob o governo Lula, a intervenção agressiva do Brasil foi decisiva para tomada (ou não) de decisões.

Após um “esfriamento” por divergências em relação ao Irã, como reconheceu o ministro Patriota, que defende até hoje a estratégia seguida opor Amorim para o programa nuclear iraniano, o governo Obama viu na eleição de Dilma a oportunidade de reatar em novas bases o relacionamento com o Brasil. Como ficou claro durante a visita do presidente Obama, o renitente crescimento econômico brasileiro serve, e muito, de estímulo a esse namoro.

É significativo, porém, que mesmo críticos severos da política externa sob Lula, como os ex-chanceleres Luiz Felipe Lampreia e Celso Lafer, hoje afirmam que o novo papel do Brasil no mundo, como protagonista, justifica a pretensão a um assento permanente no único órgão internacional com poder de conferir legitimidade a ações armadas entre países.

Segundo a colunista Dora Kramer, de “O Estado de S. Paulo”, Lafer, que no governo de Fernando Henrique Cardoso argumentava serem limitados os recursos de poder do Brasil para avançar muito agressivamente na arena global, agora atesta que o protagonismo do Brasil permite o acesso aos recursos conferidos pelo Conselho de Segurança. Lampreia, segundo Dora Kramer, disse que as prioridades do Brasil, antes “meramente econômico-comerciais”, agora se ajustam à agenda “prioritariamente político-militar” do Conselho.

As declarações dos dois experientes diplomatas, fontes influentes de boa parte das críticas à diplomacia do governo Lula, não são um endosso tardio à política externa de Celso Amorim, claro. Têm a ver, também, com a própria expansão dos interesses econômicos e populacionais brasileiros – relacionados, evidentemente, a políticas do governo, mas com dinâmica própria, nem sempre ligada á ação estatal.

A visita de Obama, o novo patamar das relações com os Estados Unidos, a maneira como a aspiração ao Conselho de Segurança deixou de parecer mera obsessão da diplomacia abrem caminho para uma revisão mais generosa e elogiosa da política externa recente. O novo tom adotado sobre direitos humanos e o cuidado com que Lula tem evitado manifestações públicas que, no passado, constrangeram sua própria diplomacia ajudam nessa revisão, que ainda está por ser feita.

Sergio Leo é repórter especial em Brasília

E-mail: sergio.leo@valor.com.br

21/03/2011 - 08:46h Em reunião, Dilma eleva o tom contra barreiras

Relações externas: Presidente brasileira queixa-se de obstáculos às vendas de produtos como etanol, suco e carne

Sergio Leo | VALOR

De Brasília

“No ritmo em que vai, a China está substituindo os americanos no espaço econômico brasileiro e não quero que nossa relação tenha de passar pela China”, disse a presidente Dilma Rousseff para o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, segundo autoridade brasileira que participou, no sábado, da reunião entre os dois chefes de Estado. A frase serve de resposta ao comentário infeliz do subsecretário de Estado dos EUA Arturo Valenzuela, que, às vésperas da viagem de Obama, disse estar “contente” porque, com dinheiro das exportações à China, o Brasil compra “máquinas americanas”.

Dilma, na preparação para a conversa com Obama, fez questão de pôr em primeiro plano, entre seus “pontos de conversação” (ou talking points, como dizem os diplomatas), as queixas do Brasil em relação a barreiras comerciais enfrentadas por produtos brasileiros, como a tarifa sobre importações de etanol, sobretaxas sobre suco de laranja e barreiras sanitárias à importação de carne. É o tipo de assunto que, nos documentos de preparação do chefe de Estado, costuma ser relegado aos anexos. Dilma quis estar a par de cada detalhe e cobrou de Obama na reunião privada e ao falar à imprensa.

“É fundamental que sejam rompidas as barreiras que se erguem contra nossos produtos – etanol, carne bovina, algodão, suco de laranja, aço, por exemplo”, cobrou a presidente, após avisar que falaria com “franqueza” para construir uma relação “de maior profundidade” com os EUA, no pronunciamento dos dois presidentes à imprensa. Dilma criticou também, sem fazer menção direta, as medidas de expansão monetária dos EUA, que modificam a relação entre s moedas no mundo, “desgastam as boas práticas econômicas e empurram países para ações protecionistas”.

O clima, na comitiva de empresários que acompanhou Obama, era favorável à cobrança pela derrubada de barreiras. Após um pronunciamento no seminário promovido pela Câmara Americana de Comércio e a Confederação Nacional da Indústria (CNI), Obama recebeu um grupo de empresários brasileiros. Ouviu do empresário Maurílio Biagi e de Marcos Jank, presidente da Unica (associação que reúne usinas sucroalcooleiras), um apelo por maior esforço de redução das barreiras ao etanol brasileiro. Na breve conversa, bem-humorado, brincou com o presidente da Fiesp, Paulo Skaf. “Da próxima vez, irei a São Paulo”.

Nas reuniões do Fórum de Altos Executivos, o coordenador pelo Brasil, ministro da Casa Civil, Antônio Palocci, disse não ver problema no déficit comercial do Brasil com os EUA, mas criticou o “protecionismo”, capaz de atrapalhar os “passos auspiciosos” da cooperação entre os dois países. O vice-conselheiro de segurança nacional para assuntos de economia internacional dos EUA, Michael Froman, indicou aos empresários que espera ver resolvida em breve a demanda por licenças sanitárias para a carne brasileira.

À saída do breve encontro com Obama, o presidente da Vale, Roger Agnelli, que quase foi barrado pela rígida segurança da Casa Branca, lembrou que a expansão da China na África é um lembrete da necessidade de cooperação entre EUA e Brasil. “Somos concorrentes, mas temos de estar juntos”, disse ele.

Criticado nos EUA pela viagem ao Brasil em plena crise no Oriente Médio, Obama enfatizou, em seus discursos e nas conversas em Brasília, o papel da relação com o país na geração de empregos no mercado americano – um dos principais objetivos traçados em Washington. Hoje, o secretário de Comércio, Gary Locke, tem encontro com empresários na Fiesp, em São Paulo. Locke, no encontro com altos executivos, cometeu uma gafe ao defender os laços comerciais entre Brasil e EUA, “capazes de gerar emprego nos Estados Unidos e na Índia”. Foi corrigido por assessores que lhe sussurraram “Brazil”.

Na prática, a vinda de Obama serviu para garantir a assinatura de um acordo destinado a facilitar a remoção de desentendimentos entre as burocracias dos dois governos, o TECA, sigla em inglês de Acordo de Cooperação Econômica e Comercial. Pelo acordo, formou-se uma comissão bilateral para relações econômico-comerciais, com os ministério de Relações Exteriores e de Desenvolvimento e o representante comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês). Contrariando uma expectativa do governo brasileiro, que via no TECA oportunidade de uma relação descentralizada com outros órgãos da administração americana, será o USTR quem indicará representantes de outros órgãos para reuniões com o Brasil.

A comissão terá pelo menos um encontro anual e pode designar peritos para resolver problemas bilaterais. Seu programa de trabalho inclui desde assuntos regulatórios que afetem comércio e investimentos a direitos de propriedade intelectual e comércio eletrônico. “O Teca obriga o pessoal a conversar, abre maiores condições para resolver pendências”, saudou o presidente da seção brasileira da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, Gabriel Rico.

No Rio, ontem, empresários americanos em reunião informal chegaram a perguntar ao representante comercial dos EUA, Ron Kirk, uma das estrelas da comitiva de Obama, se, com o Teca, já não seria hora de cogitar um acordo de livre comércio entre EUA e Mercosul. Kirk respondeu que as negociações com o Brasil estão no âmbito da rodada Doha, da Organização Mundial do Comércio, mas que considerava interessante sugerir aos brasileiros participação da Iniciativa do Pacífico, um esforço americano para reunir num só acordo os tratados de livre comércio que tem com países asiáticos.

20/03/2011 - 09:58h Dilma cobra comércio ”mais justo e equilibrado”

Presidente agradeceu a visita de Obama no ”início de seu governo”, mas não o poupou de críticas pelo protecionismo americano

Denise Chrispim Marin e Tânia Monteiro – O Estado de S.Paulo

Em nome da “franqueza” e para construir “uma relação de maior profundidade” e “entre iguais”, a presidente Dilma Rousseff disse ontem ao presidente dos EUA, Barack Obama, que um comércio mais justo e equilibrado exige “que sejam rompidas as barreiras que se erguem contra nossos produtos”. E fez questão de citar alguns produtos: “Etanol, carne bovina, algodão, suco de laranja e aço”.

Dilma reclamou das barreiras ao se referir aos “desequilíbrios gerados pela crise recente” – que teve origem no mercado financeiro dos EUA – e repudiar as “ações protecionistas e defensivas de toda a natureza”. Ela disse a Obama que quer “construir uma sociedade de renda média” e um “ambiente institucional que impulsione o empreendedorismo e o investimento produtivo”.

Lula. Em seu discurso, Dilma agradeceu a “gentileza” da visita do americano logo no início de seu governo, e se apresentou como herdeira do “companheiro” Luiz Inácio Lula da Silva. A citação pôs no cenário da visita o nome do ex-presidente, que terminou o segundo mandato com as relações pessoais e diplomáticas com Obama estremecidas, depois da mediação malsucedida para tentar um acordo em torno do programa nuclear do regime iraniano de Mahmoud Ahmadinejad e livrar Teerã de sanções impostas pela ONU.

Lula foi o único dos ex-presidentes convidados para o almoço com o líder norte-americano, no Itamaraty, a não comparecer (leia na pág. A6). A presidente citou “o legado mais nobre” de Lula, o de inclusão social e política de “milhões de homens e mulheres que viviam à margem da cidadania”, e lembrou que, no Planalto, naquele momento, estavam juntos a primeira mulher eleita no Brasil e o primeiro presidente dos EUA afrodescendente.

Obama destacou a transição do Brasil da ditadura para a democracia, “devido ao sacrifício de pessoas como a presidente Dilma”, e também registrou que fez questão de incluir o Brasil como primeiro país a visitar no roteiro do périplo pela América Latina – ele segue do Brasil para o Chile e El Salvador.

Em um pronunciamento mais curto, Obama expôs a visão que tem do país: “Os EUA reconhecem a emergência do Brasil, que é uma das economias que mais crescem”. E reclamou para as empresas norte-americanas um papel na “criação da infraestrutura”, a começar pelas Olimpíadas de 2016 – arrancou risos de Dilma e da plateia ao dizer que ainda fica “triste” por lembrar que Chicago perdeu a disputa das Olimpíadas para o Rio e para Lula. Prometeu ainda fortalecer o G-20, grupo de governança global nascido da crise de 2008 e que aposentou o G-8.

O governo Dilma quer parcerias, sobretudo, nas áreas de educação e inovação. E explicou a razão desse interesse especial: “Foram os Estados Unidos que alcançaram as mais extraordinárias conquistas nas últimas décadas, favorecendo a produtividade em diferentes setores econômicos com a pesquisa e inovação”.

20/03/2011 - 09:01h Diplomacia do encontrão

Para embaixador, Brasil e EUA são países com mais coincidências do que percebem, mas destinados a andar tropeçando um no outro

Paulo Sotero – O Estado de S.Paulo

A quem ansiava por uma mísera declaração do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a respeito da reforma do Conselho de Segurança da ONU, a voz diplomática do Brasil fazia muxoxo: “Um discurso dos EUA sobre o país x ou y é uma manifestação de respeito pela política externa do país, mas não é em si mesmo uma panaceia”, disse o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota. Aguardada era uma postura de igual para igual entre os dois lados, que envolvesse “múltiplas frentes de interlocução” nos temas de interesse global.

O embaixador Luigi R. Einaudi segue raciocínio parecido nas linhas abaixo, produzidas para a National Defense University, em Washington, onde atua como pesquisador visitante. Ele vê a necessidade fundamental de um engajamento estratégico entre os dois países, que requereria basicamente o seguinte: os EUA aceitam o Brasil como potência emergente política e culturalmente próxima deles, e o Brasil se dá conta de que os EUA aceitam sua ascensão. Ex-professor em Harvard, Ucla e Georgetown, Luigi Einaudi dirige uma fundação de mesmo nome, que é também o de seu avô, o primeiro presidente da Itália pós-fascista. A seguir, suas considerações sobre esses dois países destinados a tropeçar um no outro ao redor do mundo.

O poder da singularidade

“A identificação do Brasil com a América Latina e o Terceiro Mundo impede a apreciação de sua importância pelos EUA. É verdade que, geograficamente falando, o Brasil é parte da América Latina, como é verdade que o país, fundador do Grupo dos 77, pareava com a Índia entre os líderes originais do Terceiro Mundo. Mas o Brasil é o Brasil – tão grande quanto os EUA e a China, e tão singular quanto ambos. Brasileiros e americanos têm um agudo senso pragmático e governos com alcance para além de suas fronteiras, mas são profundamente voltados para si mesmos e cientes de sua própria natureza excepcional (da qual, às vezes, decorre uma excessiva autoestima). Se essas características os aproximam, sua história e visão de mundo únicas também os separam. A aliança automática do passado já não existe mais.

Corrente antiamericana

“Uma nova geração de líderes brasileiros tende a ver a influência política e econômica dos EUA, e do Ocidente em geral, como obstáculo genérico à ascensão do Brasil. Sentimentos como esse alimentaram a Unasul, os mecanismos inter-regionais do Diálogo Sul-Sul e o Bric. Incontestáveis e positivas em si mesmas, essas iniciativas muitas vezes vêm acompanhadas de um subjacente antiamericanismo. A tentativa do presidente Lula de romper o impasse em relação ao programa nuclear do Irã teve suas raízes, parcialmente, em antigas tensões com os EUA sobre o programa nuclear brasileiro. Mas derivou também da convicção de que os americanos são muitas vezes parte do problema e o Brasil pode encontrar soluções que outros, inclusive os EUA, deixaram passar. A visão dos EUA sobre o Brasil como parceiro não confiável, relutante em fazer escolhas difíceis, porém necessárias, para a manutenção da ordem mundial, subitamente refletiu a visão brasileira sobre os americanos como dedicados ao aventureirismo militar no Iraque.

Extracurricular

“EUA e Brasil têm vastos interesses sobrepostos, mas uma parceria estratégica formal está fora de cogitação. Nos EUA, o Brasil tem que competir, em termos de atenção política, com China, Índia, Rússia, Japão, México e países europeus. E, apesar de sua importância nas organizações multilaterais, pode ser na melhor das hipóteses de limitada assistência prática para os EUA em suas duas guerras atuais. Por sua vez, pode-se dizer que os interesses do Brasil precisam se distinguir dos interesses americanos. Isso quer dizer que nenhum dos dois pode esperar do outro um acordo automático.

Toureando a rigidez

“A lista de questões globais em que o Brasil vem se tornando ator importante inclui solução de conflitos, questões nucleares, meio ambiente e desenvolvimento de leis internacionais. Assegurar consultas eficazes sobre tantos temas exige suavizar o estilo rígido de gestão. Historicamente, o Departamento de Estado americano tem deixado questões funcionais para os escritórios organizados mundialmente. Isso dificulta as consultas com países como o Brasil, cujo alcance vai além de sua região. O resultado é que as questões multilaterais são consideradas isolada e tardiamente no governo dos EUA. Há algo, por exemplo, que EUA e Brasil poderiam fazer para compensar os efeitos negativos do comércio da China sobre a indústria manufatureira em ambos os países? Tem-se a impressão de que são duas sociedades vibrantes, com mais coincidências do que percebem, mas sem uma linguagem comum.

Mais diplomacia, por favor

“Muitos brasileiros hesitarão em cooperar com os EUA se os americanos continuarem a proteger seus produtos agrícolas, seguirem com o embargo a Cuba, houver a percepção de que têm ambições sobre a Amazônia ou de manter tropas na América do Sul ou não endossarem as ambições brasileiras por um assento no Conselho de Segurança. Já alguns americanos questionarão a aproximação com um Brasil visto como um país que está desfrutando do luxo dos irresponsáveis até que aceite maior responsabilidade na não proliferação nuclear, distancie-se do Irã e esteja mais presente em questões de democracia e direitos humanos.

Internamente…

“As políticas externas de ambos deverão ser cada vez mais limitadas por fatores internos. Nos EUA, a preocupação com a dívida e o enfraquecimento da competitividade interna está aumentando. O Brasil teve dois presidentes sucessivos cujo carisma os ajudou a mascarar as vulnerabilidades internas; com isso, passaram para a presidente Dilma Rousseff o enorme desafio de institucionalizar seu êxito. Mas nem os EUA nem o Brasil são poderosos o suficiente para resolver sozinhos muitos dos problemas que afetam sua segurança nacional. Washington e Brasília, se não trabalharem juntas, perderão oportunidades e causarão dano aos próprios interesses.” / TRADUÇÃO: ELOISA D. MARQUES

PAULO SOTERO É DIRETOR DO BRAZIL

INSTITUTE, WOODROW WILSON INTERNATIONAL CENTER FOR SCHOLARS, EM WASHINGTON

A íntegra deste artigo pode ser encontrada no site http://www.ndu.edu/inss/docUploaded/SF%20266_Portuguese%20Einaudi.pdf

20/03/2011 - 08:03h Íntegra do discurso de Dilma Rousseff na recepção a Barack Obama

- O Estado de S.Paulo

“Excelentíssimo senhor Barack Obama, presidente dos Estados Unidos da América, senhoras e senhores integrantes das delegações dos Estados Unidos da América e do Brasil, senhoras e senhores jornalistas, senhoras e senhores, Senhor presidente Obama, A sua visita ao meu País me enche de alegria, desperta os melhores sentimentos de nosso povo e honra a histórica relação entre o Brasil e os Estados Unidos. Carrega também um forte valor simbólico.

Os povos de nossos países ergueram as duas maiores democracias das Américas. Ousaram também levar aos seus mais altos postos um afrodescendente e uma mulher, demonstrando que o alicerce da democracia permite o rompimento das maiores barreiras para a construção de sociedades mais generosas e harmônicas.

Aqui, senhor presidente Obama, sucedo a um homem do povo, meu querido companheiro Luiz Inácio Lula da Silva, com quem tive a honra de trabalhar. Seu legado mais nobre, presidente, foi trazer à cena política e social milhões de homens e mulheres que viviam à margem dos mais elementares direitos de cidadania. Dos nove chefes de Estado norte-americanos que visitaram oficialmente o Brasil, o senhor é aquele que encontra o nosso País em um momento mais vibrante.

A combinação de uma política econômica séria com fundamentos sólidos e uma estratégia consistente de inclusão fez do nosso país um dos mais dinâmicos mercados do mundo. Fortalecemos o conteúdo renovável da nossa matriz energética e avançamos em políticas ambientais protetoras de nossas importantes reservas florestais e de nossa rica biodiversidade.

Todo esse esforço, presidente Obama, criou milhões de empregos e dinamizou regiões inteiras antes marginalizadas do processo econômico. Permitiu ao Brasil superar, com êxito, a mais profunda crise econômica da história recente, mantendo, até os dias atuais, níveis recordes de geração de postos de trabalho.

Mas são ainda enormes os nossos desafios. Meu governo, neste momento, se concentra nas tarefas necessárias para aperfeiçoar nosso processo de crescimento e garantir um longo período de prosperidade para o nosso povo.

Meu compromisso essencial é com a construção de uma sociedade de renda média, assegurando oportunidades educacionais e profissionais para os trabalhadores e para a nossa imensa juventude, garantindo também um ambiente institucional que impulsione o empreendedorismo e favoreça o investimento produtivo.

O meu governo trabalhará com dedicação para superar as deficiências de infraestrutura, e não pouparemos esforços para consolidar nossa energia limpa, ativo fundamental do Brasil. Enfim, daremos os passos necessários para alcançar nosso lugar entre as nações com desenvolvimento pleno, forte democracia e ampla justiça social.

É aqui, senhor presidente Obama, que enxergo as melhores oportunidades para o avanço das relações entre nossos países. Acompanho com atenção e a melhor expectativa seus enormes esforços para recuperar a vitalidade da economia americana. Temos assim, como o mundo todo, uma única certeza: a de que o povo americano, sob a sua liderança, saberá encontrar os melhores caminhos para o futuro dessa grande nação.

A gentileza da sua visita, logo no início do meu governo, e o longo histórico de amizade entre nossos povos me permitem avançar sobre dois temas que considero centrais nas futuras parcerias que fizermos: a educação e a inovação. Aproximar e avançar em nossas experiências educacionais, ampliando nosso intercâmbio e construindo progresso em todas as áreas do conhecimento é uma questão chave para o futuro dos nossos países.

Na pesquisa e inovação, os Estados Unidos alcançaram as mais extraordinárias conquistas nas últimas décadas, favorecendo a produtividade em diferentes setores econômicos. O Brasil, senhor presidente Obama, está na fronteira tecnológica em algumas importantes áreas, como a genética, a biotecnologia, as fontes renováveis de energia e a exploração do petróleo em águas profundas.

Combinar as nossas mais avançadas capacidades no campo da pesquisa e da inovação certamente trará os melhores frutos para as nossas sociedades. Tomo como exemplo o pré-sal, a mais recente fronteira alcançada pela tecnologia brasileira. Acreditamos que os enormes desafios de cada etapa da exploração dessas riquezas poderão reunir uma inédita conjunção do conhecimento acumulado pelos nossos melhores centros de pesquisa. Mas, senhor Presidente, se queremos construir uma relação de maior profundidade é preciso também, com a mesma franqueza, tratar de nossas contradições.

Preocupam-me em especial os efeitos agudos decorrentes dos desequilíbrios econômicos gerados pela crise recente. Compreendemos o contexto do esforço empreendido por seu governo para a retomada da economia americana, algo tão importante para o mundo. Porém, todos sabem que medidas de grande vulto provocam mudanças importantes nas relações entre as moedas de todo o mundo. Este processo desgasta as boas práticas econômicas e empurra países para ações protecionistas e defensivas de toda natureza.

Somos um país que se esforça por sair de anos de baixo desenvolvimento, por isso buscamos relações comerciais mais justas e equilibradas. Para nós é fundamental que sejam rompidas as barreiras que se erguem contra nossos produtos – etanol, carne bovina, algodão, suco de laranja, aço, por exemplo. Para nós é fundamental que se alarguem as parcerias tecnológicas e educacionais, portadoras de futuro.

Preocupa-me igualmente a lentidão das reformas nas instituições multilaterais que ainda refletem um mundo antigo. Trabalhamos incansavelmente pela reforma na governança do Banco Mundial e do FMI.

Isso foi feito pelos Estados Unidos e pelo Brasil, em conjunto com outros países. E saudamos o início das mudanças empreendidas nestas instituições, embora ainda que limitadas e tardias, quando olhada a crise econômica. Temos propugnado por uma reforma fundamental no desenho da governança global: a ampliação do Conselho de Segurança da ONU.

Aqui, senhor Presidente, não nos move o interesse menor da ocupação burocrática de espaços de representação. O que nos mobiliza é a certeza que um mundo mais multilateral produzirá benefícios para a paz e a harmonia entre os povos.

Mais ainda, senhor Presidente, nos interessa aprender com os nossos próprios erros. Foi preciso uma gravíssima crise econômica para mover o conservadorismo que bloqueava a reforma das instituições financeiras. No caso da reforma da ONU, temos a oportunidade de nos antecipar.

Este país, o Brasil, tem compromisso com a paz, com a democracia, com o consenso. Esse compromisso não é algo conjuntural, mas é integrante dos nossos valores: tolerância, diálogo, flexibilidade. É princípio inscrito na nossa Constituição, na nossa história, na própria natureza do povo brasileiro. Temos orgulho de viver em paz com os nossos dez vizinhos há mais de um século, agora.

Há uma semana, senhor presidente, entrou em vigor o Tratado Constitutivo da Unasul, que deverá reforçar ainda mais a unidade no nosso continente. O Brasil está empenhado na consolidação de um entorno de paz, segurança, democracia, cooperação e crescimento com justiça social. Neste ambiente é que devem frutificar as relações entre o Brasil e os Estados Unidos.

Senhor Presidente, quero dizer-lhe que vejo com muito otimismo nosso futuro comum. No passado, esse relacionamento esteve muitas vezes encoberto por uma retórica vazia, que eludia o que estava verdadeiramente em jogo entre nós, entre Estados Unidos e Brasil.

Uma aliança entre os nossos dois países – sobretudo se ela se pretende estratégica – é uma construção. Uma construção comum, aliás, como o senhor mesmo disse no seu pronunciamento sobre o Estado da Nação. Mas ela tem de ser uma construção entre iguais, por mais distintos que sejam esses países em território, população, capacidade produtiva ou poderio militar.

Somos países de dimensões continentais, que trilham o caminho da democracia. Somos multiétnicos e em nossos territórios convivem distintas e ricas culturas. Cada um, à sua maneira, temos o que um poeta brasileiro chamou de “sentimento do mundo”.

Sua presença no Brasil, senhor presidente, será de enorme valia nessa construção que queremos juntos realizar.

Uma vez mais, presidente Obama, bem-vindo ao Brasil”.

19/03/2011 - 11:01h Países criam grupo para facilitar negócios

Brasileiros e americanos buscam acordo para evitar bitributação de empresas

Lu Aiko Otta – O Estado de S.Paulo

Um grupo de altos funcionários dos governos do Brasil e dos Estados Unidos será criado após a visita do presidente Barack Obama ao País. O objetivo é destravar os negócios, atacando, entre outros, o que é considerado “objetivo supremo” na relação bilateral: a assinatura de um acordo para evitar bitributação. Hoje, uma empresa que atua nos dois países paga impostos em ambos.

Será um dos poucos resultados concretos da passagem de Obama, assim como a assinatura de um tratado de cooperação econômica e de comércio (Teca, na sigla em inglês) e de um acordo na área educacional entre a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e a Fundação Fullbright.

O que parece um amontoado de documentos protocolares é um avanço para o empresariado brasileiro. O Teca, que funcionará como um acordo de linhas gerais a partir do qual serão criados entendimentos em áreas específicas, formaliza o diálogo organizado entre os dois países, o que não havia até agora.

O grupo, em tese, será formado por pessoas com poder de decisão. Por isso, há mais chances de avançar em temas que estão parados na pauta bilateral. O grupo é chamado de acordo-quadro de comércio e investimento (Tifa, na sigla em inglês), e é uma antiga reivindicação dos homens de negócios dos dois países. “É preciso colocar um método nesse debate, que está em pauta há anos e não avança”, disse o diretor executivo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), José Augusto Fernandes, a respeito da bitributação.

O anúncio da criação da Tifa é também um gesto de boa vontade dos EUA em relação à política externa de Dilma Rousseff. O mecanismo foi proposto pelo Departamento de Comércio americano em 2009. Na época, o Brasil fez uma contraproposta e não obteve mais sinais. O silêncio foi atribuído por empresários a “fricções” em outras áreas, uma provável referência à postura simpática ao Irã adotada pelo governo Lula.

Entraves. Nos últimos anos, não faltaram passos atrás na relação comercial Brasil-EUA. Os americanos, por exemplo, aprovaram lei que obriga exportadores a terem um agente no país, prejudicando principalmente pequenas e médias empresas.

Outro revés foi o fato de o Congresso americano não ter renovado o Sistema Geral de Preferências (SGP), programa criado para beneficiar países em desenvolvimento, isentando certos produtos de taxa de importação. E pouco avançaram as negociações de medidas compensatórias ao Brasil, que obteve ganho de causa na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra subsídios aos produtores de algodão dos EUA.
OS DILEMAS DE UMA ANTIGA AMIZADE


Na economia

Etanol

Os EUA prorrogaram por mais um ano (até dezembro deste ano) a política protecionista contra o etanol brasileiro. Dão subsídio de 45 centavos por galão para os produtores locais de etanol. Além disso, o álcool brasileiro paga taxa de 54 centavos de dólar por galão, mais 2,5%, para ingressar no mercado americano
O que o Brasil quer: a eliminação dessas taxas ou sua redução a um mínimo
Bitributação

Empresas que atuam nos dois países são taxadas em ambos e não há acordo para eliminar a dupla incidência.
O que o Brasil quer: a criação de um grupo de alto nível para resolver o problema
Exportações

Uma nova lei americana obriga brasileiros que exportam para os EUA a ter um representante legal no país. Isso encarece as exportações, principalmente das pequenas e médias empresas
O que o Brasil quer: a derrubada dessa lei
Algodão

O Brasil conseguiu que a OMC condenasse os subsídios do governo dos EUA aos produtores de algodão, mas os EUA ainda não implementaram totalmente as medidas de compensação requeridas pelo Brasil
O que o Brasil quer: há expectativa que o subsídio ao algodão seja eliminado na legislação agrícola (Farm Bill) de 2012
Sistema geral de preferências

Algumas exportações brasileiras não pagam tarifa de importação, que é da ordem de 3% a 4%, dentro desse regime criado para beneficiar países em desenvolvimento. O SGP expirou em 31 de dezembro passado e sua renovação está em exame no Senado americano. O Brasil corre o risco de ser eliminado do programa, assim como a Índia
O que o Brasil quer: que as normas do sistema de preferências sejam renovadas pelo Senado americano
Na política
Direitos humanos

A aproximação do governo Lula com o Irã, que admite apedrejamento de mulheres e desrespeita os direitos humanos, contrariou a Casa Branca e esfriou as relações. O governo Dilma abandonou essa política e as diferenças tendem a desaparecer
Estratégia nuclear

O Brasil surpreendeu os Estados Unidos ao votar na Organização das Nações Unidas (ONU) contra seu pedido para que o Irã interrompesse seus projetos nucleares. Tudo indica que, no governo Dilma, o Brasil pelo menos se abstenha de apoiar Teerã nessa área
Colômbia

O projeto de instalação de bases militares americanas em território colombiano despertou desconfianças no Brasil e nos demais vizinhos. O plano americano foi, de momento, engavetado – mas a estratégia americana não mudou
Unasur

A União das Nações Sul-Americanas (Unasur), que esvazia a Organização dos Estados Americanos (OEA) e cria um fórum regional sem a presença dos EUA, não agrada à Casa Branca. Já a Unasur conta com o Brasil para que a entidade, por influência da Venezuela, não se torne foco de dificuldades
Conselho de Segurança da Onu

Os EUA nunca endossaram a admissão do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. O assunto deixou de ser prioritário para o Brasil, mas continua a expectativa de que os EUA mudem sua posição
Honduras

Os dois países tiveram posições opostas na crise de Honduras de 2009, quando o Brasil acolheu em sua Embaixada hondurenha o presidente Manuel Zelaya. Deposto por tentar um golpe contra a Constituição, Zelaya ficou sob proteção brasileira entre setembro de 2009 e janeiro de 2010

19/03/2011 - 10:36h Hillary destaca que Brasil pode ser 4ª economia do mundo

Secretária de Estado dos Estados Unidos ressalta importância do País para economia americana e potencial para ser principal fornecedor de petróleo

Gustavo Chacra, correspondente de O Estado de S. Paulo em Nova York

Em meio a crises no mundo árabe e o terremoto no Japão, o governo americano quer aproveitar a visita de Barack Obama ao Brasil para intensificar as relações com a América Latina, que passou a ser vista como uma ilha de estabilidade e exemplo para regiões instáveis do mundo. Segundo a secretária de Estado, Hillary Clinton, Obama, na viagem, deverá anunciar novas oportunidades econômicas, “formas para trabalharmos juntos na área energética, em inovação e educação”. Em um discurso de cerca de 30 minutos no Centro de Estudos Estratégicos Internacionais (CSIS, na sigla em inglês) em Washington, a chefe da diplomacia dos EUA destacou a importância do Brasil para a economia americana.

“O Brasil deve se tornar um dos nossos maiores fornecedores de petróleo. Pretendemos atuar na prospecção. Também já trabalhamos juntos com energias renováveis”, disse. Hillary acrescentou que o Brasil deve se tornar a quarta economia do mundo na próxima década. Ressaltou que as exportações dos EUA para a América Latina são três vezes maiores do que para a China. Os jornais americanos, como o New York Times, descreveram o esforço dos dois lados para melhorar a relação diplomática, após estremecimentos com divergências sobre o Irã

19/03/2011 - 10:22h Sob o verniz dos protocolos, uma queda de braço comercial

Único objetivo de Obama é aumentar exportações, enquanto Dilma quer vender mais para reduzir megadéficit de US$ 7,7 bi

Lisandra Paraguassu, Tânia Monteiro e Vera Rosa, de O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA – Em meio a muitos protocolos de intenção e acordos com promessas de cooperação, a visita do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama será marcada por verdadeira queda de braço comercial com a presidente Dilma Rousseff. Confessadamente, Obama vem com um único objetivo: aumentar as exportações. Dilma, concretamente, dirá que quer vender mais e quer desbastar o megadéficit comercial, que hoje chega a US$ 7,7 bilhões.

Na avaliação de diplomatas, mesmo que as negociações não redundem em acordos concretos, a visita de Obama tem um efeito colateral de valor incalculável: o marketing em favor do Rio de Janeiro como cidade segura o suficiente para o homem mais visado do mundo passear com a família. Sede da Olimpíada de 2016 e uma das cidades a sediar a Copa do Mundo de 2014, o Rio foi intensamente criticado por conta dos problemas de segurança. Nos EUA, onde Chicago perdeu a candidatura da Olimpíada para o Brasil, essa foi uma das maiores críticas.

Obama deve visitar o Corcovado e a Cidade de Deus, além de discursar no Teatro Municipal, no centro do Rio. Apesar do intenso aparato de segurança, a imagem que ficará, acreditam os diplomatas, é a do presidente americano e família apreciando o Cristo Redentor.

Motivos. Fora dos ganhos de marketing para o Rio, um assessor da Presidência resumiu nesta sexta-feira, 18, ao Estado a preocupação de Dilma nas conversa com o chefe da Casa Branca: “A presidente vai conversar com Obama sobre comércio, e não apenas sobre parcerias estratégicas”.

Obama assinou nessa sexta um artigo no jornal USA Today em que deixa bem clara a missão da viagem pelo Brasil e pela América Latina: aumentar as exportações e arrumar mais empregos na indústria dos EUA para os norte-americanos. “Precisamos continuar brigando por cada novo emprego, cada nova indústria, cada novo mercado no século 21. Essa é uma das razões para a minha viagem à América Latina nesta semana – reforçar nossa relação econômica com vizinhos que terão um papel crescente no nosso futuro econômico”, escreveu o presidente americano.

19/03/2011 - 10:00h “Queremos criar uma relação de confiança com os EUA”

O ministro Patriota crê que Obama vai apoiar o Brasil por vaga no Conselho de Segurança da ONU

Claudio Dantas Sequeira – Istoé

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Dos encontros que manteve em Washington há duas semanas, o chanceler Antonio Patriota saiu com a impressão de que o presidente Barack Obama poderá apoiar o Brasil para uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. Mas não há garantia de que isso ocorra agora, em sua passagem pelo Rio. “Não tenho elementos para dizer o momento exato em que o apoio virá”, explicou o ministro das Relações Exteriores em entrevista exclusiva à ISTOÉ, na quarta-feira 16. Patriota ressaltou que a visita servirá para “atualizar” o diálogo político.

ISTOÉ – Há expectativa de que Obama declare apoio à pretensão do Brasil por uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. O sr. acredita nisso?
Patriota – Essa é uma decisão que deverá partir do próprio presidente Obama. Nas conversas em Washington, tratei do tema e pude identificar que existe muito respeito pela contribuição que o Brasil dá à promoção da paz internacional. O Haiti é um exemplo citado frequentemente. Além disso, o Brasil é a única nação emergente com relação fraterna com seus vizinhos, não tem inimigos e possui credenciais impecáveis de não proliferação de armas de destruição em massa. De modo que esse conjunto de circunstâncias poderá efetivamente se traduzir em apoio, mas não tenho elementos para dizer o momento exato em que esse apoio virá.

ISTOÉ – Se o apoio não vier agora, a visita terá sido em vão?
Patriota – Em absoluto! O gesto da visita em si é muito significativo. Há um interesse muito grande também dos setores privados, perspectivas de novos negócios, mais interação. Existe uma variedade de temas que serão abordados. A relação bilateral não se limita a essa questão.

ISTOÉ – O Brasil de hoje representa um desafio para os EUA?
Patriota – Os EUA reconhecem a influência regional e global do Brasil. Nas minhas conversas em Washington, na preparação desta visita, pude identificar um interesse muito grande em atualizar a relação bilateral, para que reflita essas novas possibilidades, em função do desenvolvimento econômico-social e da elevação
do perfil diplomático brasileiro.

ISTOÉ – Que entraves precisam ser superados na relação com os EUA?
Patriota – A relação hoje está num nível elevado de interação, uma agenda ampla. Para tratar as barreiras pontuais há mecanismos específicos, como a OMC. Existe expectativa de conseguirmos maior acesso ao mercado americano para produtos como
a carne, e decisões na área fitossanitária podem beneficiar nossas exportações. Mas uma visita presidencial, sobretudo a primeira, não deve descer a detalhes comerciais. Vamos trabalhar na criação de uma relação pessoal de confiança entre Dilma e Obama para que a agenda existente progrida e agendas novas sejam estabelecidas.

ISTOÉ – Essa nova maturidade significa
o fim do antiamericanismo?
Patriota – A questão de ideologia não é um ingrediente significativo. Mas o Brasil é uma potência emergente e quer transformar certas estruturas globais. O problema é que durante algum tempo a percepção era de que os EUA defendiam o status quo e queriam congelar a estrutura de poder internacional. Também fomos críticos à intervenção no Iraque. Mas o presidente Obama representa uma visão diferente, em que o uso da força militar respeita a carta da
ONU. Obama quer que os EUA estejam em contato com os novos polos de poder. Esteve na Índia, na China e agora vem ao Brasil. Estamos num mundo diferente.

ISTOÉ – A escolha do Rio para o discurso do presidente Obama foi sugestão do Itamaraty?
Patriota – A escolha foi dele. Obama já falou outras vezes de seu grande interesse em conhecer as praias brasileiras. Ele gosta de mar, é havaiano. E o Rio hoje representa o petróleo brasileiro, a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016.

19/03/2011 - 09:46h O que é novo e relevante na vinda de Obama

Paulo Sotero – O Estado de S.Paulo

Um fato distingue os dois dias que o presidente Barack Obama passará no Brasil, neste fim de semana, das 14 visitas que líderes dos Estados Unidos fizeram anteriormente ao País. Esta será a primeira vez desde a democratização que o diálogo entre os governos brasileiro e norte-americano será iniciado com a vinda do líder dos Estados Unidos ao Brasil. Até agora, o brasileiro ia primeiro a Washington. Três presidentes, Tancredo Neves, Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva, foram aos Estados Unidos em busca de beneplácito antes mesmo de tomar posse.

Em diplomacia, liturgia é substância. Nesse sentido, a vinda de Obama neste início do governo de Dilma Rousseff, ainda que determinada por questões de protocolo, é um gesto significativo. Reflete o desejo dos dois governos de recolocar nos trilhos uma relação importante para ambos depois do descarrilamento provocado por trombadas entre Washington e Brasília em episódios como a crise constitucional em Honduras, em 2009, e a malsucedida mediação brasileiro-turca do impasse nuclear entre o Irã e a comunidade internacional, no ano passado.

Mais importante, talvez, a iniciativa de Obama de vir primeiro ao Brasil simboliza o reconhecimento por Washington da nova importância que o País assumiu nas Américas e no mundo desde que se tornou, há 17 anos, um país democrático e economicamente estável. “O Brasil não é mais um país emergente, o Brasil emergiu”, costuma dizer o embaixador dos Estados Unidos em Brasília, Thomas A. Shannon, quando fala sobre o desafio que as duas nações têm hoje de aprender a se relacionar de forma produtiva e mutuamente vantajosa num mundo em que ambas são atores centrais em questões regionais e globais, como a governança das finanças internacionais, as mudanças climáticas, a segurança alimentar, o combate à pobreza e a defesa da paz.

O contexto torna a mensagem implícita na visita de Obama ainda mais relevante. As dificuldades com que o presidente norte-americano e sua colega brasileira lidam hoje em casa para implementar seus respectivos programas de governo envolvem essencialmente as mesmas questões. Trata-se de reduzir as dívidas e os déficits governamentais, melhorar a qualidade do gasto público e investir forte em educação, infraestrutura e inovação a fim de aumentar a competitividade internacional de suas exportações, ampliar mercados e criar empregos. Com exceção do endividamento, menor no Brasil, são desafios certamente maiores aqui dos que nos Estados Unidos.

Guardadas as devidas proporções, as coincidências das pautas domésticas dos dois governos propiciam um ambiente para um estreitamento de laços que produza mais do que a criação de grupos de trabalho – destes já há mais de 20 – e leve a resultados reconhecíveis como proveitosos por seus beneficiários diretos em ambos os países, ou seja, investidores e empresários, cientistas, educadores, líderes cívicos envolvidos em projetos de promoção da justiça e de maior igualdade social. O primeiro presidente negro dos Estados Unidos e a primeira presidente mulher do Brasil certamente compartilham um interesse natural em fazer com que seus governos enfoquem questões cruciais como o combate à discriminação baseada em gênero e raça. Informações preliminares indicam que Obama e Dilma privilegiarão as áreas de energia e infraestrutura, nas quais há grande interesse de investidores de ambos países em ampliar negócios e abrir mercados. Apostarão, também, no aprofundamento da cooperação científica e tecnológica, uma área na qual os dois países têm história, bem como na cooperação para a assistência ao desenvolvimento na África, que atende a interesses de ambos.

A essa agenda positiva se contrapõem obstáculos que existem nos dois países para a resolução de antigas pendências, como as da política comercial, ou o atendimento da expectativa brasileira de apoio dos Estados Unidos à sua pretensão a uma cadeira permanente num Conselho de Segurança (CS) da ONU reformado e mais representativo da realidade internacional. Há, certamente, nos dois países, quem trabalhe para amplificar essas diferenças. Dedo em riste, um alto funcionário brasileiro disse há dias a um diplomata americano, em evento social, que se Obama não anunciar o apoio dos Estados Unidos a uma cadeira permanente para o Brasil no CS a visita será um fracasso.

Não é o que indica, porém, o empenho do Itamaraty para incluir no comunicado final da visita linguagem sobre uma visão comum a respeito de segurança internacional e desenvolvimento e a necessidade de reformar o CS. Trata-se de uma admissão tácita por parte da diplomacia brasileira da necessidade de, antes de insistir no endosso dos Estados Unidos à cadeira permanente, reconstruir a confiança mútua perdida principalmente no episódio iraniano. Há, por outro lado, uma mudança do rumo da discussão sobre o tema em Washington, alimentada pela reposicionamento do Brasil em relação ao Irã e pelo impacto das rebeliões populares contra tiranias no norte da África e no Oriente Médio.

Em recente reunião informal de ex-embaixadores e altos funcionários da diplomacia dos Estados Unidos, a maioria mostrou-se favorável a que Obama endosse a ascensão do Brasil ao CS durante a visita, como fez em relação à Índia, em visita a Nova Délhi, em 2010. “A reforma do CS e a ascensão do Brasil a membro permanente são inevitáveis e têm baixo custo para a Casa Branca, até porque não é questão em pauta na ONU no momento”, disse um dos participantes. No ambiente positivo que se espera que a visita de Obama crie para as relações bilaterais, a manifestação do apoio dos Estados Unidos ao Brasil no CS da ONU produziria o efeito salutar e imediato de fortalecer o engajamento entre as duas maiores democracias e economias do continente. Não seria pouco para um líder que tem tido dificuldade em transformar sua grande popularidade internacional em resultados tangíveis para a política externa dos Estados Unidos.

DIRETOR DO BRAZIL INSTITUTE, WOODROW WILSON INTERNATIONAL CENTER FOR SCHOLARS

19/03/2011 - 09:33h O Brasil na cabeça de Obama

Presidente americano vem ao país disposto a dar um afago na autoestima nacional em busca de novos mercados e de um forte aliado político

Cláudio Dantas Sequeira e Yan Boechat – Istoé

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Sempre que encontra alguém do Brasil, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, gosta de dizer que se sente também um pouco brasileiro. Obama nunca esteve por aqui, não fala português e, a bem da verdade, parece conhecer pouca coisa além dos relatórios que recebe do Departamento de Estado Americano. Mas não seria de todo errado afirmar que sua vida está intrinsecamente ligada ao País. Explica-se: sua mãe, então uma típica adolescente de 16 anos do Meio-Oeste americano, ficou absolutamente impressionada ao assistir a “Orfeu do Carnaval”, filme do cineasta francês Marcel Camus que retrata o mito grego tendo como pano de fundo as favelas cariocas. Stanley Ann Dunham afeiçoou-se de forma especial pelo ator Breno Melo, que representava o personagem principal do filme, lançado em 1959. Pouco menos de um ano depois, Ann decidiu mudar-se para o Havaí, onde, sabe-se lá por que, começou a estudar russo. Entre uma aula e outra, acabou apaixonando-se por um colega de classe bastante parecido com Melo, o queniano Barack Hussein Obama, pai do presidente americano.

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CARNAVAL
Cariocas que se preparavam para receber Obama com bom humor
foram frustrados pelo cancelamento do discurso na Cinelândia

Ao desembarcar na Base Aérea de Brasília na manhã do sábado 19, Obama sabia que o Brasil que estava prestes a encontrar pouco tinha a ver com aquele país relatado por sua mãe tantas e tantas vezes durante sua infância. Daquela sociedade agrícola do final da década de 50 que começava a se industrializar de forma desordenada sobraram apenas as feridas de um processo marcado pela concentração de renda e a consequente desigualdade social. Sabedor das profundas mudanças pelas quais o País passou nas últimas duas décadas, Obama chegou disposto a convencer os brasileiros de que pretendia fazer o que nenhum outro presidente americano jamais havia feito: tratar o Brasil em pé de igualdade.

A decisão da Casa Branca em reverenciar o Brasil dessa forma inédita faz parte de uma reestruturação das estratégias geopolíticas e econômicas que o país precisou fazer após a profunda crise econômica que o abateu em 2008 e pelo atoleiro diplomático em que se meteu ao invadir o Iraque e o Afeganistão no início dos anos 2000. Dono da maior dívida externa do mundo – deve na praça algo próximo a US$ 14 trilhões –, vendo sua influência global perder espaço diante do avanço chinês e enfrentando uma crise de confiança mundial, os Estados Unidos precisam de novos aliados e de novos mercados para manter sua posição hegemônica.

Além dos afagos à autoestima brasileira, o presidente americano veio fazer negócios. Trouxe com ele uma comitiva de mais de 60 empresários e a disposição de firmar acordos que garantam mais abertura do mercado nacional para as companhias americanas. Disposto a se tornar menos dependente do Oriente Médio, anunciou uma linha de crédito de US$ 1 bilhão para investimentos no Pré-sal. Ao mesmo tempo, pretende iniciar as discussões de um tratado comercial mais profundo com o País, semelhante ao que fez com o Chile e o Peru.

Em contrapartida, Obama vai ouvir do governo brasileiro que concessões precisam ser feitas pelos americanos. Desde que os Estados Unidos passaram a forçar uma desvalorização do dólar em 2008, a balança comercial passou a pender para os Estados Unidos. As exportações brasileiras caíram de US$ 25 bilhões em 2007 para US$ 19,3 bilhões em 2010. As americanas em direção ao Brasil, por sua vez, saíram de US$ 18,7 bilhões em 2007 para US$ 27 bilhões no ano passado. Entre várias questões econômicas, o Brasil quer o fim das barreiras não tarifárias às commodities agrícolas e abertura do mercado americano à carne brasileira. Correndo por fora, o governo brasileiro espera que os Estados Unidos façam um apoio formal ao pleito de reforma no Conselho de Segurança da ONU.

Apesar de todas as negociações para a visita, muitos desses pontos ficaram em aberto e só serão fechados em reuniões que ocorrerão após o encontro de Obama e Dilma, com duração de apenas uma hora. Como bom havaiano que é, Obama colocou como uma de suas prioridades conhecer as praias cariocas, que tanto encantaram sua mãe na já longínqua década de 60. A promessa de fazer um discurso público na Cinelândia, o quartel-general afetivo dos movimentos de esquerda brasileiros, ficou apenas nisso, na promessa. Não se sabe se Lula, que foi vaiado ruidosamente em pleno Maracanã no encerramento dos Jogos Panamericanos de 2007, deu algum conselho ao colega americano. Mas o fato é que Obama parece ter preferido evitar o risco de enfrentar os cariocas em um domingo de sol apenas uma semana após o Carnaval.

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19/03/2011 - 09:08h O Brasil É um país à parte

Roger F. Noriega e Marc Fogassa – O Estado de S.Paulo

Com a viagem do presidente Barack Obama ao Brasil, muitas análises do perfil dessa nação sul-americana a destacam no chamado Bric (Brasil, Rússia, Índia e China). Esse destaque foi concebido como um elogio, associando o País a economias dinâmicas e em expansão. Hoje o Brasil merece ser considerado em seus próprios termos, como um destino bem mais seguro para o capital, uma democracia multiétnica saudável e um vizinho cujos líderes podem estar dispostos a abandonar as fórmulas de soma zero do passado e buscar uma parceria genuína com os Estados Unidos. Com base nisso, o engajamento hábil e duradouro do presidente Obama pode levar nossas relações políticas e econômicas a uma órbita mais elevada.

Por que o Brasil se compara favoravelmente a seus irmãos do Bric? A Índia é uma democracia e uma potência em alta tecnologia. A China é um gigante com apetite voraz de matérias-primas, combustíveis fósseis e bens de consumo, mas não manifesta nenhuma pretensão de abertura política. A Rússia é fortemente dependente de suas exportações de petróleo, dificilmente se pode dizer democrática e é um destino de risco para investimentos estrangeiros. Já o Brasil tem instituições democráticas fortes e elegeu um terceiro presidente comprometido com políticas macroeconômicas responsáveis. Na verdade, os programas brasileiros para dar à sua população mais pobre as ferramentas para participar do crescimento econômico propiciaram uma defesa sólida contra o populismo democrático num momento em que os ventos populistas sopram no restante da região.

Como resultado, o Brasil está provando ser muito mais atraente para o capital estrangeiro que os outros países. É um risco substancialmente menor e, ao mesmo tempo, ao menos tão interessante quanto aqueles, numa perspectiva de crescimento e desenvolvimento. Prevemos que os mercados de capitais internacionais vão começar a diferenciar o Brasil dos outros mercados do Bric e alocar muito mais investimentos para oportunidades amadurecidas nessa economia sul-americana. Em suma, passarão a ver que o País merece estar entre os grandes, numa categoria própria.

As percepções de risco e crescimento entre as nações podem ser drasticamente diferentes, dependendo de onde o observador está situado. Nos anos 1980 e 1990, com frequência Brasil e Argentina eram considerados iguais na perspectiva de um investidor estrangeiro. As situações que surgiam num afetavam o outro e vice-versa. O calote da dívida argentina em 2001 levou o mundo a, finalmente, perceber a enorme diferença em termos de risco entre Brasil e Argentina. Hoje o Brasil é um dos principais mercados emergentes globais e a Argentina está numa categoria inferior, um chamado mercado de fronteira. É só uma questão de tempo para que ocorra separação similar do Brasil em relação a China, Índia e Rússia.

A democracia brasileira é florescente e estável. O voto é obrigatório para os maiores de 16 anos. Há vários partidos, de todo o espectro político. Os presidentes (e outras autoridades em âmbito estadual e municipal) são eleitos pelo voto popular direto, após campanhas vigorosas e abertas.

Recentemente, o Brasil elegeu a sua primeira presidente – Dilma Rousseff, uma economista de 62 anos, duas vezes divorciada, que sobreviveu a um câncer. Cada voto tem o mesmo valor, independentemente de ser registrado nas urnas eletrônicas da cosmopolita São Paulo ou da Região Amazônica. Os resultados da eleição foram divulgados em tempo real e concluídos em poucas horas. Não vemos isso na maioria dos países, muito menos na China ou na Rússia.

Além disso, o Brasil tem liberdade de imprensa, liberdade de religião, liberdade de acesso e uso da internet. De acordo com o International Budget Partnership, o Brasil está em 74.º lugar em transparência das finanças públicas (próximo dos EUA, em 82.º). A China é um dos países mais mal classificados, em 14.º. A diferença não poderia ser mais clara.

Ao contrário da Índia, no Brasil existem poucas divisões internas ou disputas entre grupos étnicos. Mas, em comparação, o Brasil é “monótono” em vários aspectos, todos positivos: um idioma, uma cultura que se estende por um imenso território, compartilhando fronteiras com dez vizinhos amigos; a Índia tem mais de 14 línguas oficiais diferentes. O Brasil não possui armas nucleares e não pode desenvolvê-las, de acordo com sua Constituição. Não tem vizinhos agressivos. E tem um sistema judiciário único; a Índia tem três, um para cristãos, outro para hindus e um terceiro para muçulmanos. No tocante a mercados, a Índia tem 22 bolsas de valores ou de futuros; o Brasil sai-se muito bem com apenas uma.

O Brasil tem uma economia muito mais diversificada que a Rússia. Analistas conhecidos menos informados ainda percebem o País como uma fonte de recursos naturais a ser explorada, no entanto, petróleo e mineração representam apenas 5% da economia. O mercado consumidor doméstico brasileiro abrange 60% da sua economia, semelhante ao dos EUA. Ao contrário da Rússia, o Brasil tem um sistema judiciário independente, embora moroso, com grande respeito pelo direito de propriedade. Por último, a população da Rússia está em declínio, enquanto a do Brasil cresce a um ritmo que deve continuar pelo menos até 2045.

Como os EUA reconhecem as vantagens de reforçar suas relações comerciais e econômicas com o Brasil, essa nova parceria ligando nossa economia a um vizinho que tanto prospera será mais um fator para colocar o Brasil numa posição separada da China, Índia e Rússia. Os investidores que agirem rápido para aproveitar essa oportunidade vão compartilhar benefícios substanciais.

RESPECTIVAMENTE, EX-EMBAIXADOR NA OEA (2001 A 2003) E EX-SECRETÁRIO DE ESTADO ADJUNTO (2003 A 2005), É PROFESSOR CONVIDADO NO AMERICAN ENTERPRISE INSTITUTE E DIRETOR ADMINISTRATIVO DA VISION AMERICAS LCC, QUE REPRESENTA CLIENTES ESTRANGEIROS E AMERICANOS (RNORIEGA@AEI.ORG); SÓCIO-GERENTE DA HEDGEFORT CAPITAL MANAGEMENT, ASSESSORIA DE INVESTIMENTOS (MF@HEDGEFORT.COM)

18/03/2011 - 10:13h Brasil precisa ter uma relação especial com os EUA, diz especialista

Relações externas: Para Matias Spektor, visita de Obama pode restabelecer canal entre os dois países

Aline Massuca/Valor
Matias Spektor: “A elite diplomática, empresarial e intelectual americana está mais aberta ao Brasil o que a elite chinesa”


Cristiano Romero | VALOR

Se tem a ambição de ser um ator global, influente nas decisões internacionais, o Brasil precisa ter uma relação especial com os Estados Unidos, sem submissão nem alinhamento automático. O país terá que restabelecer um canal de comunicação sem ruídos com os americanos e a visita do presidente Barack Obama ao Brasil, no fim de semana, é uma oportunidade histórica para os dois países voltarem a se entender.

“A relação ficou muito marcada negativamente [nos últimos anos do governo Lula]. Esta é a primeira chance que os dois países têm de recompor a atmosfera. Isso tem enormes implicações para o Brasil porque, à medida que o país ascende, precisa cada vez mais do reconhecimento e do apoio americano”, opina, nesta entrevista ao Valor, o professor Matias Spektor, coordenador do Centro de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Spektor afirma que a presidente Dilma Rousseff, em menos de três meses de governo, deu sinais de “sofisticação” em sua política externa. Escolheu, de forma calculada, Washington, Buenos Aires e Pequim como prioridades dessa política, lançando, a partir daí, uma plataforma de integração regional e global do Brasil.

“É cedo para julgar, mas o que vi até agora foi um modelo que diz que o eixo de estabilidade regional passa por um acordo com Buenos Aires. Depois, ao mesmo tempo em que Dilma encontra Obama, está em preparação para uma viagem à China. A ideia é a de que, no século XXI, Brasília vai precisar se articular cada vez mais com Washington e Pequim”, observa.

Curiosamente, um dos maiores estudiosos da relação Brasil-EUA é argentino. Nascido em Rosário há 33 anos, Spektor mudou-se com a família para Salvador quando tinha apenas dez anos. “Hoje, sou muito mais brasileiro do que argentino”, assegura. Ele cursou Relações Internacionais na UnB e mestrado e doutorado em Oxford, na Inglaterra. Escreveu “Kissinger e o Brasil” (Zahar, 2009) e “Azeredo da Silveira: um depoimento” (FGV, 2010), já tem pronto “18 dias: Lula, Bush e Fernando Henrique Cardoso” e trabalha num livro de entrevistas e documentos inéditos sobre a política externa do governo Figueiredo.

Valor: O que está em jogo na visita de Obama?

Matias Spektor: A recuperação de uma atmosfera de ativa curiosidade entre o Brasil e os EUA. Essa agenda chegou ao ápice em 2003 e 2004, depois perdeu força e, mais adiante, degringolou totalmente. A relação ficou muito marcada negativamente. Esta é a primeira chance que os dois países têm de recompor a atmosfera. Isso tem enormes implicações para o Brasil porque, à medida que o país ascende, precisa cada vez mais do reconhecimento e do apoio americano.

Valor: Se tem ambições no plano internacional, o Brasil precisa ter uma boa relação com os EUA?

Spektor: É essencial que tenha um canal de comunicação livre de ruídos com Washington. Primeiro, porque o acesso do Brasil a muitas instâncias da ordem global depende da boa vontade de Washington.

Valor: Por exemplo?

Spektor: Um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Outros exemplos: o G-20, o Salão Verde da OMC [em inglês, "Green Room", que reúne grupo seleto de países para solucionar impasses]. Num mundo em que a China está em franca ascensão e onde deslocou os EUA como principal parceiro comercial do Brasil, produzindo um grau de interdependência muito grande entre as economias chinesa e brasileira, é essencial ter boas relações com Washington, não a partir de uma perspectiva submissa ou alinhada. Hoje, não existe um canal de comunicação entre os dois países livre de ruídos. Essa viagem tem a possibilidade de limpar esse canal.

Valor: O governo Lula deu mais importância ao diálogo Sul-Sul do que a uma relação privilegiada com os EUA, justamente o contrário do que fez a gestão Fernando Henrique Cardoso. A ênfase na estratégia Sul-Sul não é uma contradição para os interesses globais do país?

Spektor: Ter uma diplomacia Sul-Sul ativa não é de nenhuma maneira incompatível com ter um grande engajamento com os EUA. Ao contrário. Os EUA valorizam essa dimensão da política externa brasileira. Para os americanos, isso é bom porque permite a eles ter no Brasil um canal de acesso a outras partes do mundo. Acho que a leitura em Brasília tem mudado.

Valor: De que forma?

Spektor: A minha impressão é que o núcleo duro do atual governo interpreta que é importante ter um canal funcional com os EUA a todo o momento e que isso não significa submissão. Tendo esse canal aberto, o Brasil vai poder ter uma diplomacia Sul-Sul ativa, muito mais desenvolta, inclusive porque, quando essa diplomacia trava, quando a China não nos presta atenção, em Washington a gente consegue aumentar a pressão. O Brasil, a princípio, tem mais jogo potencial hoje em dia em Washington do que em Pequim.

“Ter uma diplomacia Sul-Sul ativa não é a incompatível com ter um grande engajamento com os EUA”

Valor: Quais são as evidências que o fazem crer nisso?

Spektor: A elite diplomática, empresarial e intelectual americana está mais aberta ao Brasil hoje do que a elite chinesa.

Valor: Por que, então, o presidente Lula, de um partido de esquerda, se deu melhor com o presidente George Bush, do partido conservador, do que com Barack Obama, que é de esquerda?

Spektor: Três coisas explicam isso. A agenda de Lula era a incorporação do sonho americano no Brasil. A ideia de que aquele que trabalha duro tem chances de ascensão e que a ascensão é mensurada em termos de acesso aos mercados de consumo e de trabalho formal é o que Lula representa. Como disse a embaixadora americana Donna Hrinak em 2002, Lula é a representação mais viva do sonho americano. Quando Lula publica a Carta ao Povo Brasileiro, durante a campanha de 2002, ele se compromete com a democracia e a economia de mercado. Esta era a prioridade número 1 dos EUA e isso quem me disse foi a Condoleezza Rice [secretária de Estado do governo Bush] em entrevista que fiz com ela para livro que estou escrevendo. Isso facilitou em demasia a relação inicial com Bush.

Valor: O senhor mencionou três razões. Quais são as outras?

Spektor: A segunda razão tem a ver com transformações da estrutura da política internacional. Entre 2001 e 2003, os EUA precisavam mais de países emergentes do que nunca antes na história deles.

Valor: Por quê?

Spektor: Porque o sistema deu uma guinada que complicou o jogo americano. Na década de 90, os EUA estavam triunfantes com o fim da Guerra Fria. Foram os anos de otimismo da era Clinton. Depois dos ataques terroristas de 11 de setembro [de 2001], as limitações do que os EUA podiam fazer ficaram muito evidentes. Ficou claro que eles não podiam, sozinhos, manter a ordem mundial. Voltou à tona um argumento velho, da década de 70, de que a melhor arquitetura global é aquela em que os EUA podem contar com fortes parceiros regionais.

Valor: Onde é que o Brasil entra nisso?

Spektor: Na América Latina, o candidato óbvio [a ser parceiro regional], por ser uma democracia, um país em que mesmo um candidato de esquerda defende a democracia e a economia de mercado, uma democracia multirracial, é o Brasil. O país passou a ser um pilar fundamental para o ordenamento internacional no século XXI. Tanto é que, no início do governo Lula, os papers produzidos na Casa Branca sobre o Brasil foram escritos pela mesma pessoa que escrevia os papers sobre a Índia. É nesse momento que o Brasil deixa de estar na categoria de país latino-americano e entra na de potências emergentes, junto com China, Índia, Turquia, África do Sul.

Valor: E a terceira razão?

Spektor: A partir de 2003, o que vemos é um alargamento brutal do ativismo brasileiro nas relações internacionais. A política externa ganha momentum. Enquanto na década de 90, o objetivo era arrumar a casa antes de buscar grandes compromissos além-fronteira, a partir de 2003 assistimos ao aumento expressivo do número de embaixadas, iniciativas diplomáticas de toda natureza na América do Sul, África, Oriente Médio e Ásia. O [chanceler] Celso Amorim esteve 24 vezes no Oriente Médio em oito anos. Isso criou a percepção em Washington, que é que o vamos ver agora com a visita de Obama, de que o Brasil de fato está progressivamente se transformando num país que define seus interesses em termos globais e não meramente regionais. Isso aumenta a importância do Brasil para os EUA.

Valor: Por que houve, então, uma inflexão dessa política de aproximação com os EUA?

Spektor: Foi um conjunto de coisas. Primeiro, a grande voz do governo brasileiro, que era dura em relação aos EUA, mas que advogava uma agenda de trabalho conjunta, era o então ministro José Dirceu. Foi ele que negociou a abertura da Casa Branca para o Lula em 2002. Seu papel foi crucial na equação da relação com os EUA, com a Condoleeza Rice, etc. Ele era percebido como o interlocutor central do governo brasileiro e esse canal era livre de ruídos. Dirceu saiu de cena em 2005 por causa da crise do mensalão. O segundo fator é que fazer negócio com os EUA é difícil.

Valor: Em que sentido?

Spektor: A assimetria de poder é muito grande. E, aí, os problemas começaram a pipocar. Primeiro, foi Doha; depois foram as pré-negociações da questão ambiental, as bases militares na Colômbia, a crise em Honduras, Copenhagen e, por fim, o Irã.

Valor: O Irã não foi o principal motivo da dissensão?

Spektor: Não. Quando o Irã aconteceu, a relação já estava muito deteriorada, o que ajuda a explicar a reação americana pouco simpática à causa do Brasil. De todos os Brics, o que menos tem penetração no dia a dia da política de Washington é o Brasil, que não tem empresas de lobby atuando na capital americana, não tem campanhas ativas para ganhar o apoio de congressistas dos EUA. De um modo geral, o país ignora o fato de que, nos EUA, o primus inter pares [o primeiro entre seus pares] em relações internacionais não é o Departamento do Estado, mas o Congresso. O Brasil é vítima dessa pouca exposição que tem nos EUA. Isso é compreensível porque as sociedades são distantes, mas está mudando.

Valor: Como?

Spektor: Temos um contingente muito significativo de brasileiros vivendo nos EUA – cerca de 2 milhões -, o Brasil é agora um grande investidor nos EUA, seja por aquisições de empresas americanas, tipo JBS, Coteminas, Braskem, Gerdau, ou de investimento novo, como a Embraer. Além disso, o Brasil é hoje um importante financiador do balanço de pagamentos dos EUA. Entre 2006 e 2008, adquiriu US$ 160 bilhões em títulos do tesouro americano.

Valor: Vários governos adotaram políticas externas de esquerda para fazer um contraponto a políticas econômicas ditas conservadoras. Isso não vai se repetir com Dilma?

Spektor: Eu diria que o Brasil que o Lula pegou em 2003 era muito mais fraco e menos influente nas relações internacionais que o Brasil de Dilma em 2011. Dilma tem enorme potencial na área de política externa. O país tem hoje uma experiência acumulada que simplesmente não existia antes. Tudo isso produz muito mais cautela e cálculo. Há muito espaço, agora, para uma política independente, mas independente de todos, dos EUA e da China. A adesão ao Sul-Sul agora tem que ser pragmática e não ideológica. Não vejo, neste momento, a política externa compensando um aspecto da política interna. Vejo muita cautela, mas também muita sofisticação.

Valor: Em que áreas?

Spektor: No tom dado às três principais relações do Brasil hoje: Washington, Buenos Aires e Pequim. É cedo para julgar, mas o que vi até agora foi um modelo que diz que o eixo de estabilidade regional passa por um acordo com Buenos Aires. Depois, ao mesmo tempo em que Dilma encontra Obama, está em preparação para uma viagem à China. A ideia, sofisticada na minha opinião, é a de que, no século XXI, Brasília vai precisar se articular cada vez mais com Washington e Pequim. Não tem interesses idênticos aos de Pequim o tempo todo e, quando não os tem, está disposta a falar. Ao mesmo tempo, não tem restrições ideológicas a fazer negócios com os EUA, quando isso for do interesse brasileiro. Evidentemente, esse é um argumento minoritário, algo que precisa ser construído, assim como é minoritário em Washington o argumento de que o Brasil é um parceiro importante. Nas burocracias, há enormes resistências, de ambos os lados.

Valor: De que maneira a vitória republicana no Congresso afeta a visita?

Spektor: Significa que qualquer iniciativa de Obama na área externa sofrerá grande escrutínio. O Brasil pode pagar algum custo, tendo em vista que é no Congresso americano onde a memória do episódio do Irã é mais viva. Essa situação é agravada pelo fato de o Brasil ainda não ter desenvolvido mecanismos para navegar e manipular o Congresso americano em favor próprio: utiliza-se pouco a dinâmica dos comitês e o papel de senadores e deputados para avançar a agenda do país em Washington.

“De todos os Brics, o que menos tem penetração no dia a dia da política de Washington é o Brasil”

Valor: Como os americanos veem o início do governo Dilma?

Spektor: O clima é muito positivo. Em parte, trata-se do simbolismo do encontro: as trajetórias de Dilma e Obama revelam o triunfo da democracia em ambos os países. Por outro lado, Washington interpretou os gestos iniciais de Dilma como uma tentativa explícita de correção de rumos. E, finalmente, existe o consenso entre o presidente Obama e a secretária de Estado, Hillary Clinton, de que nos próximos anos os EUA precisarão sentar à mesa com o Brasil para gerenciar uma série de temas difíceis da agenda mundial, como comércio, finanças, proliferação nuclear e segurança alimentícia.

Valor: Quem controla a agenda de Obama para o Brasil?

Spektor: Nos últimos anos, o Congresso americano e as divisões do Departamento de Estado que lidam com América Latina tiveram capacidade de ditar boa parte do tom da relação. Nos preparativos da visita de Obama, ficou claro que o Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca e a Divisão de Planejamento Político vinculada à Hillary Clinton diretamente ganharam mais voz e influência. São esses dois os lugares nos quais ganha força o argumento de que um Brasil forte é bom para os EUA.

Valor: O que Dilma pode oferecer a Obama?

Spektor: Cooperação trilateral na África de língua portuguesa. Ela também pode oferecer uma mensagem clara de defesa da democracia e das instituições democráticas na América Latina, especialmente na Venezuela. O progressivo retorno de Honduras à OEA no futuro próximo é outro ponto importante da agenda. Um ponto central é a cooperação ativa que o Brasil pode oferecer a Washington no âmbito do G-20 e com vistas a desenvolver um marco comum de gestão financeira global com a China, que hoje não existe.

Valor: O que Obama pode oferecer em troca?

Spektor: Um lugar na mesa de negociações a respeito do programa nuclear iraniano, que é perfeitamente factível e desejável para os interesses americanos. Washington também pode avançar no ‘diálogo construtivo’ sobre a reforma do Conselho de Segurança que Hillary Clinton prometeu na coletiva de imprensa com o ministro Antônio Patriota no mês passado, marcando já um encontro para discutir o tema. E ambos podem decidir avançar – contra a oposição de suas próprias burocracias – em direção a um marco legal sofisticado para liberar a pauta de investimentos no contexto dos Jogos Olímpicos e da Copa do Mundo.

Valor: O que pode dar errado durante o encontro?

Spektor: O principal risco é que a viagem seja protocolar: Obama, assoberbado pelas dificuldades internas, pelo desastre nuclear do Japão e pelas revoluções do mundo árabe, entraria, daria sua mensagem rapidamente e sairia sem deixar marcas.

18/03/2011 - 09:48h País dirá ‘não’, se Obama insistir em novas concessões comerciais

Relações externas: Sem contrapartida, Brasil recusará corte adicional de tarifas de importação

Assis Moreira | VALOR

De Genebra

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, receberá um sonoro “não” se insistir em cobrar do Brasil, durante a visita que começa amanhã, concessões adicionais para a entrada de produtos americanos no país, sem querer pagar a contrapartida.

Washington tem pressionado o Brasil para se comprometer com um nível de abertura bem maior de seu mercado, na Rodada Doha de liberalização comercial. Isso significaria corte adicional de mais de 3.200 linhas tarifárias, mais de um terço das alíquotas de produtos industriais, além do corte de 33% que o país já aceitou fazer nas tarifas aplicadas de setores vulneráveis, como automotivo, têxteis, calçados e brinquedos.

O embaixador brasileiro na Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevedo, deixou claro na entidade que se a exigência americana for condicionada à conclusão da negociação global, então “atingimos o fim do jogo”, porque o país recusa a demanda americana.

De um lado, os EUA não querem dar a reciprocidade, por exemplo, na área agrícola. De outro, o Brasil alega que sua situação tem sido agravada pela “assimetria provocada pelas políticas fiscal e monetária excessivamente flexíveis em alguns países desenvolvidos”.

Azevedo reiterou na OMC que a valorização do real eliminou a proteção dada pelas tarifas sobre as importações. Maior exemplo é a “dramática” mudança na balança com os EUA: o saldo comercial de US$ 9,9 bilhões que o Brasil tinha em 2006 se transformou agora em déficit de US$ 7,8 bilhões.

O Brasil se prepara para levantar a questão cambial no Comitê de Comércio e Finanças da OMC. O alvo são as políticas que resultam em desvalorizações competitivas e que o ministro Guido Mantega vê como risco de “guerra cambial”.

Enquanto isso, o real continua a ser a moeda que mais se valorizou entre as 58 maiores economias do mundo no índice cambial do Banco Internacional de Compensações (BIS), banco dos bancos centrais. O índice, atualizado esta semana, mostra a moeda brasileira liderando o ranking da taxa de câmbio efetiva real em fevereiro. Compilado desde 1994, representa a média cambial da moeda de um país relativa a uma cesta de outras moedas ajustadas pela inflação. Se o ranking da moeda está abaixo de 100, significa que está desvalorizada e com espaço para se apreciar.

Em fevereiro, a taxa de câmbio efetiva da moeda brasileira ficou em 152,48 por unidade (foi de 152,61 em janeiro), mantendo-se como a mais alta entre todos os países monitorados pelo BIS. O yuan chinês se valorizou, passando de 118,13, em janeiro, para 120,91 em fevereiro.

Já o dólar americano baixou de novo para 85,42, comparado a 86,69 em janeiro. A rúpia da Índia também se desvalorizou, caindo no índice para 105,44, comparado a 107,16 no mês anterior. A África do Sul, país também com enormes problemas por causa de sua moeda forte, foi outro a registrar agora queda, ficando em 95,65 comparado a 100,3 em janeiro.

A expectativa é que o real continuará liderando o ranking do BIS, levando-se em conta a pressão trazida pela enxurrada de dólares que entrou no país desde janeiro. Por outro lado, dados da OMC mostram que o Brasil foi a única das maiores economias que registrou queda nas importações no quarto trimestre de 2010 em valor em relação ao trimestre anterior, apesar da persistente força do real.

As importações brasileiras em valor declinaram 3% entre outubro e dezembro comparado ao trimestre anterior, enquanto globalmente houve alta de 7%. O país foi também o único a registrar queda nas compras no grupo dos Bric: a China importou 4% a mais, a Índia 2%, a Rússia 13%.

O Brasil continua, porém, a liderar globalmente a expansão nas importações quando comparado o quarto trimestre de 2010 com o de 2009. A alta na compra de produtos estrangeiros foi de 34%, em valor, enquanto na China foi de 30%, na Índia de 2%, nos EUA de 16% e na Europa de 12%.

Por sua vez, as exportações brasileiras cresceram apenas 2% no quarto trimestre, sempre em valor, bem aquém da expansão de 17% no valor das exportações globalmente. Mas comparando com o quarto trimestre de 2009, o país continuou a liderar com expansão de 38% nas exportações. A OMC estima que o valor das exportações mundiais cresceu 22% em 2010. Mas ainda falta uma avaliação sobre os dados em volume, que são considerados mais realistas.

12/03/2011 - 09:23h ”Brasil é fornecedor confiável de petróleo”

Afirmação é do presidente dos EUA, que quer discutir preço da commodity com Dilma

Denise Chrispim Marin – O Estado de S.Paulo

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, incluiu o Brasil entre os futuros supridores confiáveis de petróleo ao mercado americano e indicou sua intenção de discutir com a presidente Dilma Rousseff, no próximo dia 19, a recente escaldada da cotação da commodity no mercado internacional.

“Quando mencionamos petróleo importado, nós estamos fortalecendo nossas relações com outros países produtores, algo que vou discutir com a presidente Rousseff quando eu visitar o Brasil na próxima semana”, adiantou o presidente americano.

O governo Obama já expressou seu interesse em ampla cooperação com o Brasil para a exploração de petróleo da camada pré-sal, uma das novas fronteiras do setor. Além da produção direta por companhias americanas na exportação de equipamentos e serviços tecnológicos e também em contratos de importação de petróleo e derivados.

Até o momento, Obama não fez nenhuma menção à cooperação bilateral na área de biocombustíveis, tocada desde 2007 por iniciativa dos ex-presidentes George W. Bush e Luiz Inácio Lula da Silva. Os biocombustíveis perderam espaço na agenda energética do governo Obama, suplantados pelo estímulo à produção de veículos elétricos. A única vertente explorada de interesse da Casa Branca é o desenvolvimento de biocombustíveis para aeronaves.

“Também estamos adotando medidas que nos permitem recolher dados sobre o potencial de gás e petróleo ao longo de todo o Atlântico Sul. Estamos trabalhando com a indústria para explorar novas fronteiras”, afirmou Obama.

Disputa. Obama convocou ontem a imprensa para responder as críticas do Partido Republicano, segundo o qual a Casa Branca estaria bloqueando a produção doméstica de petróleo em um período de forte aumento dos preços internacionais da commodity.

O preço médio do galão de gasolina (3,79 litros) alcançou US$ 3,52 nesta semana, o valor mais alto desde setembro de 2008, quando houve o estouro da crise financeira internacional. O próprio Federal Reserve (banco central americano) admitiu sua preocupação com o impacto do preço do petróleo na inflação neste período de baixo crescimento econômico do país.

O presidente americano criticou os adversários e disse que o argumento republicano é um “bom slogan político”, mas “sem coincidência com a realidade”. A produção americana no ano passado, argumentou Obama, foi a maior desde 2003 e as importações representaram menos da metade do consumo doméstico. Regulações ambientais também foram adotadas depois do trágico vazamento de petróleo em uma plataforma da BP no Golfo do México. Porém, insistiu ele, mais de 35 projetos de exploração receberam permissão desde então.

Ao contestar os republicanos, Obama abortou qualquer ilusão de autossuficiência nos EUA. O país conta com apenas 2% das reservas do planeta e consome cerca de 25% da produção mundial.

Embora utilize hoje 7% menos petróleo do que em 2005, a economia americana ainda depende amplamente da commodity e está sujeita as variações de preço, advertiu Obama.

Em sua estratégia para mudar essa situação, o governo americano pretende ampliar a exploração de petróleo no Alasca, buscar fornecedores confiáveis, entre os quais o Brasil, e investir fortemente em energia limpa.

17/11/2010 - 08:21h EUA querem ampliar relações na gestão Dilma

Relações externas: Embaixador americano diz que Barack Obama pode receber a presidente eleita antes da posse


Ruy Baron/Valor

Thomas Shannon: “É importante notar que as relações entre Brasil e Estados Unidos hoje têm base em interesses e valores compartilhados”


Sergio Leo | VALOR

O governo Barack Obama está pronto para receber a presidente eleita Dilma Rousseff, informou o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon, que, nos últimos anos, teve vários encontros com a então ministra do governo Lula, já em Brasília e antes, quando atuava como subsecretário de Estado para o Hemisfério Ocidental. “Já falamos da possibilidade de um encontro, mas ainda não se falou de datas possíveis, estamos aguardando”, comentou Shannon. “Há muito interesse dos dois lados de que haja um encontro o mais rapidamente possível.”

“Temos boa relação com a presidente eleita. O presidente Obama já falou com ela e há muito interesse em aprofundar nossa relação com o Brasil”, disse Shannon. “Temos confiança de que com a presidente eleita vamos ter essa oportunidade.” Se marcado o encontro, Dilma receberá, de Obama, a mesma deferência conferida por George W. Bush a Lula, a de receber um chefe de Estado eleito antes mesmo da posse – sinal não muito frequente de consideração e distinção em Washington.

Shannon desconversa quando consultado sobre a votação do Brasil contrária a sanções ao Irã no Conselho de Segurança das Nações Unidas – ato que provocou o esfriamento das relações entre as altas cúpulas dos dois governos, enquanto prosseguiam os contatos nos escalões inferiores. Ele reafirma que “apesar das diferenças”, têm prosseguido contatos de alto nível, inclusive entre as Forças Armadas, como exemplifica a visita, no feriado de 15 de novembro, do chefe do Estado-Maior da Força Aérea dos Estados Unidos, general Norton Schwartz.

Shannon disse aguardar o novo governo “com muita esperança e muito otimismo” e tem intenção de dar maior relevo aos diversos grupos de trabalho firmados pelos dois países, em áreas como tecnologia, agricultura, combate à discriminação racial e educação, entre outras. “É importante notar que as relações entre Brasil e Estados Unidos hoje têm base em interesses e valores compartilhados”, argumentou. “Esse é o fator fundamental na relação, independentemente dos governos e das eleições”, insistiu, em português fluente mesclado com algumas palavras de portunhol.

O embaixador, nos últimos meses, foi uma das principais peças na articulação entre os dois governos, não só para evitar estragos maiores devido às divergências em torno do Irã, mas também em temas de interesse comum, como a ampliação do poder de voto do Brasil e outros emergentes no Fundo Monetário Internacional, que contou com apoio do secretário do Tesouro, Timothy Gheitner, segundo atestam fontes do Ministério da Fazenda. “Nossa capacidade de entender o Brasil como um ator no palco global ajudou a melhorar nossa colaboração com o país.”

Os dois países negociam um acordo-quadro de Comércio e Investimentos (Tifa, na sigla em inglês) que deve estabelecer regras de proteção a investidores nos dois mercados e mecanismos de consulta para reduzir barreiras ao comércio. Shannon vê “alta possibilidade” de que o acordo seja concluído no início da gestão de Dilma Rousseff, mas, cauteloso, comentou que prefere “deixar a questão para os negociadores”. Para o embaixador, a continuidade dos contatos e acordos, nos últimos meses, em setores como promoção de investimento e na área agrícola, “mostrou claramente que os dois países têm capacidade de seguir trabalhando independentemente das eleições, seja no Brasil, seja nos EUA.”

A menção às eleições americanas não é casual. O cenário político interno nos EUA mudou sensivelmente neste ano, com a derrota de Obama nas últimas eleições parlamentares, que deram maioria ao Partido Republicano, de oposição, e colocaram em postos-chaves políticos conservadores, pouco dispostos à política de cooperação internacional defendida pelo presidente americano.

Shannon garante não ver dificuldades para o seguimento dos projetos comuns dos dois países, nem para estreitar os contatos no governo Dilma. Essa perspectiva, afirma, não é abalada nem pelos discursos do governo brasileiro contra a política econômica americana, na recente reunião do G-20, o grupo das maiores economias mundiais, na Coreia do Sul.

“Estamos trabalhando bem com o Brasil nas instituições financeiras, na área do G-20″, garantiu. “Estamos em um momento complicado e desafiador na economia nacional e isso, às vezes, provoca uma retórica que tem mais uma audiência doméstica que internacional”, minimizou. “O importante é que a retórica não impede nossa capacidade de colaborar.” Ele repete os argumentos levados por Obama ao G-20, de que “todos os países têm de assumir a própria responsabilidade para o bem-estar da economia mundial.”

“Estamos fazendo todo o possível para manter os EUA abertos ao mundo e atuar como motor de crescimento econômico”, argumentou. “Brasil e EUA já mostraram no FMI, no Banco Mundial e no G-20 capacidade de colaborar e isso é fonte de grande otimismo.”

12/11/2010 - 09:45h Não há trilhão que chegue

Capa: Falta de resposta a incentivos de governos coloca interrogações no destino das principais economias, principalmente a americana, e obscurece o papel que poderia ser desempenhado pelo G-20.

Por Cristiane Perini Luchesi e Angela Bittencourt | VALOR

De São Paulo

AP
Bernanke, talvez na última cartada: “Se funciona, vira ídolo. Se fracassa, pede demissão e publica artigo contra os republicanos”



Dois anos e trilhões de dólares depois, os estímulos fiscais e monetários dos governos dos países ricos evitaram um colapso do sistema financeiro e uma recessão duradoura e mais profunda. Mas as economias americana e europeia ainda não estão reagindo sozinhas e não saíram da UTI. Por isso, o Fed (banco central americano) e o Banco Central Europeu (BCE) não apenas não foram capazes de retirar os estímulos quantitativos – na forma de oferta adicional de moeda – colocados desde o estouro da bolha imobiliária, como era esperado para este ano, mas decidiram ampliar ainda mais essa liquidez. Subir os juros básicos, que estão perto de zero, então, nem pensar.

Tudo isso, porém, não será suficiente para tirar as economias dos países ricos da estagnação. Novos estímulos ainda são necessários, no entender de especialistas ouvidos pelo Valor. Economistas, gestores de fundos e executivos de bancos têm receitas diferentes para identificar que remédio precisa ser aplicado, mas não acreditam na capacidade do G-20 – grupo que reúne os 20 países mais ricos e as principais economias emergentes – de coordenar esses esforços, evitando o que se convencionou chamar de guerra cambial.

Bancos e economistas já esperam que o Fed passe a atuar de forma mais direta no mercado de hipotecas, de novo, com o objetivo de forçar uma reestruturação da dívida nas mãos das famílias. Como o preço dos imóveis não parou de cair, a dívida de um número crescente de famílias se torna maior do que o valor da casa dada em garantia. “As famílias americanas ainda não completaram seu ajuste patrimonial”, diz Otaviano Canuto, vice-presidente do Banco Mundial, responsável pelo grupo de redução de pobreza e gerenciamento econômico. Por isso, não estão propensas a consumir – e usam a liquidez para pagar a dívida.

Falta consumo e as empresas não têm estímulo para investir na produção, o que resultaria em geração de empregos. “A preferência pela liquidez, dos bancos e das empresas, é brutal e, por isso, injetar mais dólares no mercado não será suficiente para reativar a economia”, diz Canuto. Ele cita, a propósito, a informação de que as empresas americanas estão com caixa de sobra, da ordem de US$ 3 trilhões, e os bancos também estão com reservas em níveis recordes, superiores a US$ 1 trilhão.


“A situação atual é de um ‘mico’ sendo dividido. A China ficou com o seu, de US$ 2,5 trilhões de reservas. O nosso é de US$ 280 bilhões”, diz Gonçalves

Para Canuto, o ideal seria usar novo estímulo fiscal, com gastos públicos direcionados à geração de emprego. “O problema é que, depois das últimas eleições, a probabilidade de um acordo entre o Congresso e a Casa Branca para aprovação de um pacote fiscal é muito baixa, quase nula.”

Como a crise financeira de 2008 ganhou nova forma e se transformou em uma crise de dívida dos governos dos países ricos, o mercado espera também por sinais claros de definição dos governos sobre como esse endividamento crescente será equacionado. Dificuldades políticas de governos desgastados pelo desemprego em níveis recordes se avolumam e tornam também complicada a tarefa de conseguir aprovação de um plano de redução da dívida no médio e longo prazos. “Com exceção de alguns países da Europa – Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda -, a dívida pública dos países ricos ainda está em nível sustentável”, segundo Canuto. “A preocupação com o endividamento na maior parte dos casos, inclusive nos Estados Unidos, é de médio e longo prazos.”

Com dificuldades políticas crescentes para aprovação de pacotes fiscais, resta ao governo americano a política monetária e a atuação do Fed. Como não pode mais baixar juros, que já se aproximam de zero em termos nominais, o banco central dos Estados Unidos decidiu injetar mais US$ 600 bilhões por meio da compra de títulos do Tesouro americano até o fim do primeiro semestre de 2011.

Para Canuto, a desvalorização do dólar é mais uma consequência desejada dessa política do Fed do que seu principal objetivo. Ao injetar dólares na economia, o Fed provoca uma sobra de moeda, reduzindo seu valor. O dólar mais fraco torna as exportações americanas mais baratas, ajudando o país a vender mais em um mercado internacional retraído. As empresas exportadoras dos Estados Unidos ganham mercado e passam a gerar emprego. É uma forma de estímulo ao crescimento via exportações, além do que seria obtido no mercado interno com os juros baixos, que desestimulam a poupança.


Nelson Perez/Valor
Otaviano Canuto: “Com algumas exceções na Europa, a dívida pública dos países ricos ainda está em nível sustentável; a preocupação, na maior parte dos casos, é de médio e longo prazos”


O enfraquecimento do dólar com relação ao real foi tanto que o Brasil se tornou o país com o qual os Estados Unidos têm o maior superávit comercial – exportações menos importações. Nos primeiros dez meses deste ano, os Estados Unidos registraram um superávit de U$ 7,2 bilhões com o Brasil, mais que o dobro dos U$ 3,4 bilhões de janeiro a agosto do ano passado, segundo o Departamento de Comércio americano.

O relaxamento quantitativo (emissão de moeda para a compra simultânea de títulos, elevação das reservas bancárias e indução da oferta de crédito) não é algo novo para o Fed. Desde o estouro da bolha no setor imobiliário, em 2007, o Fed veio adquirindo títulos, privados e públicos, e chegou a um total de US$ 2,3 trilhões em ativos no seu balanço. Neste ano, planejava o resgate gradual desses papéis. Mas, diante da fraca recuperação da economia, parou com esse resgate e veio com os US$ 600 bilhões a mais. O Banco Central Europeu também vinha recolhendo linhas especiais de liquidez injetadas em 2008. Mas, diante da crise de dívida nos governos dos países do sul da Europa, decidiu comprar títulos desses países e aumentar a liquidez para bancos em dificuldades. “O mercado financeiro na Europa ainda não se normalizou”, lembra Deborah Stern Vieitas, presidente da portuguesa Caixa Geral de Depósitos no Brasil.

Para um presidente de banco de investimento com atuação nos Estados Unidos, a estagnação do crescimento da economia americana poderia ser evitada se o Fed forçasse uma reestruturação das dívidas relacionadas a hipotecas, para possibilitar seu pagamento em prazos maiores e assim estimular o consumo pelas famílias. O Fed poderia comprar os papéis dessa dívida reestruturada e evitaria um novo rombo no já debilitado sistema financeiro internacional. Os preços das casas voltariam a subir, tornando os preços desses papéis mais atrativos, e o Fed os venderia novamente, com ganho para o Tesouro.

Um sinal de que o paciente ainda não está reagindo ao tratamento é o índice de desemprego nos Estados Unidos, que continua recorde, na casa de 10%. Os republicanos e correntes mais à direita, como o Tea Party, têm usado esse número para criticar o pacote fiscal aprovado pelo presidente Barack Obama, em fevereiro de 2009, com estímulos de US$ 787 bilhões. Nenhum republicano votou a favor do programa na Câmara e apenas três o fizeram no Senado.

Gustavo Lourenção/Valor
Cláudio Haddad acha que “o mundo não está acabando” e que importante é os EUA terem políticas estimuladoras de investimentos.


Em novembro de 2009, sem reação da economia, Obama tentou de novo e conseguiu aprovar um outro pacote de estímulo, de US$ 154 bilhões, reduzido a US$ 15 bilhões para companhias que gerassem emprego. Em maio deste ano, nova iniciativa, dessa vez com com corte de impostos e maior ajuda aos desempregados, foi apresentada pelos democratas, com gastos extras de US$ 200 bilhões, mas com aumento de receitas previstas de US$ 50 bilhões. Só US$ 34 bilhões de estímulos acabaram aprovados. Outros US$ 26 bilhões para gastos dos Estados com saúde foram aprovados em agosto.

Em setembro, Obama propôs outro pacote, de US$ 180 bilhões, que cortaria impostos para empresas pequenas e médias, que previa mais gastos em infraestrutura, mas acabaria com incentivos fiscais para multinacionais, empresas de óleo e gás e outras maiores. Com a ajuda de republicanos, a Casa Branca conseguiu aprovação de um fundo para empréstimos a pequenas empresas que criassem emprego, de US$ 30 bilhões. O restante da proposta total de US$ 180 bilhões não vingou. Agora, com o Congresso de maioria republicana, ficou muito mais difícil Obama conseguir a aprovação de qualquer nova iniciativa.

O economista Cláudio Haddad, presidente do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), reconhece que o estímulo monetário feito pelo Fed no pós-crise financeira global foi vital para evitar o caos no sistema. Mas entende que o problema do setor imobiliário persiste, porque foram cometidos exageros gigantescos. “Esse problema deve ser digerido num processo lento. E é fato que, se um governo gasta muito, as pessoas temem ser tributadas no futuro. O governo americano deve, sim, fazer políticas que incentivem investimentos. Fico preocupado quando vejo o presidente do maior banco central do mundo dizer que um pouco de inflação é bom. Penso que o Fed está incentivando mais bolhas ao tentar baixar a taxa de juros, na tentativa de apressar um processo que já está ocorrendo.”

O enfraquecimento do dólar em relação ao real foi tanto que o Brasil se tornou o país com o qual os EUA têm o maior superávit comercial

“O mundo não está acabando”, observa Haddad. “Nos Estados Unidos, a recuperação é lenta, mas existe. As empresas estão com caixa e os investimentos não estão acontecendo por incertezas criadas pelo governo Obama, além de custos que foram impostos, por exemplo, pelo sistema de saúde. É fato que o desemprego está alto e vai continuar assim por algum tempo, porque parte dele é estrutural, e estava disfarçado por um boom artificial da construção civil, provocado pelo desejo político de agradar a todo mundo, do que resultou a crise hipotecária. Mas o rescaldo da crise não é recessão.”

Outro economista com experiência nos setores público e privado, que prefere manter-se no anonimato, lembra que os brasileiros conhecem bem o que é “rescaldo de crise” porque o país já viveu crises de endividamento. O momento, diz, é de crescimento baixo, errático e com instabilidade monetária. “Nada fora do padrão histórico. E pode ser prolongado, mas não vejo um gatilho que melhore o cenário da noite para o dia. A recuperação será gradativa nos Estados Unidos e também na Europa. Pesquisadores de crises financeiras ensinam que a digestão dessas crises demora. Tenho até simpatia por quem critica o Fed por estar tomando medidas altamente experimentais com chances duvidosas de sucesso e com impacto negativo sobre outras economias.”

Claudio Belli/Valor
Lima Gonçalves, do banco Fator, também vê sinais de algum alento na economia americana, mas continua com dúvidas sobre as perspectivas para o consumo, os investimentos e o comércio exterior


José Francisco de Lima Gonçalves, professor de história econômica da FEA/USP e economista-chefe do banco Fator, reconhece que o resgate da economia americana vai ficar “no colo do Fed”, dê certo ou não. “Dar certo é fazer a economia andar. É possível que isso aconteça. Existem argumentos teóricos a favor. Ao longo do último mês, as bolsas subiram e existe uma relação entre o nível da bolsa e a tranquilidade financeira das pessoas [uma vez que os rendimentos financeiros fazem parte da renda individual, junto com salários e transferências governamentais]. Mais confortáveis, as famílias ficam mais propensas a gastar. Mas isso será suficiente para garantir o resgate da economia? Não dá para garantir.”

Gonçalves explica que o mesmo vale para as empresas. “Quanto custa o investimento nos Estados Unidos? Juro negativo. Mas é suficiente? De novo, não dá para garantir. A desvalorização do dólar melhora a situação do país no comércio exterior. Mas isso resolve? Duvido. Mas quando o Fed tem um ‘duplo mandato’. assina um documento, é responsável pelo emprego e pela estabilidade dos preços. Um cara do Fed que cruza os braços diante da situação deve ir embora. Se nada fizer, pode ser processado por qualquer cidadão americano e ir para a cadeia por prevaricação. Lá, isso é pra valer. Existe a chance de o Bernanke estar dando a última cartada: se funciona, vira ídolo; se fracassa, pede demissão e publica um artigo contra os republicanos.”

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Os republicanos e correntes mais à direita, como o Tea Party, têm usado o índice de desemprego para criticar o pacote fiscal aprovado pelo presidente Obama (acima), em 2009


Para Gonçalves, se não fosse a crise do setor imobiliário seria outra crise qualquer – e poderia ser pior, com queda da atividade mais abrupta e talvez mais forte. Ele não cita a expressão “guerra cambial” e lembra da iniciativa de diversos países em atenuar desequilíbrios cambiais ao longo de décadas. Nota ainda a importância mais recente da China e da Ásia em geral, que abriram espaço para mais emissão de dólares, consolidando a posição dos Estados Unidos de maior devedor e emissor de moeda.

Gonçalves observa que, nos anos 90 e começo do século XXI, principalmente, a economia mundial cresceu graças, sobretudo, ao extraordinário desempenho da China e da Índia. “Os otimistas passaram a acreditar que essa situação duraria para sempre. Nada dura para sempre. E a situação atual é de um ‘mico’ sendo dividido. A China ficou com o seu, de US$ 2,5 trilhões de reservas cambiais. Nós temos um de US$ 280 bilhões. Afinal, para que queremos US$ 280 bilhões de algo que se desvaloriza todos os dias? Essa situação pode levar a uma mudança de paradigma na economia mundial. Mas não conheço nenhuma mudança de paradigma que não tenha passado por uma crise política ou militar”, avalia Gonçalves. Para ele, “objetivamente, quem pensa que a situação atual será resolvida da noite para o dia não olha para trás. Não existe mais emissão de dinheiro pelos Estados Unidos com aplauso de todos. E o aplauso não existe porque dói. Dói aqui, na China, em toda parte.”

Os emergentes em geral e o Brasil em particular vêm sofrendo as consequências da ampla liquidez internacional, amargando valorização de suas moedas provocada pelo assédio dos investidores estrangeiros. “O Brasil vive um momento muito bom e novo da história recente”, lembra Haddad. “É a primeira vez que temos 12 anos de estabilidade macroeconômica extraordinária. O Brasil tem hoje crédito se expandindo, um setor privado querendo investir e um mercado de capitais pujante. O Brasil, merecidamente, está sendo bem visto no cenário internacional. Mas se temos o setor privado querendo investir mais e o governo querendo gastar mais – ante uma poupança privada praticamente constante – a conta só será fechada com poupança externa. O Brasil está tendo déficits crescentes em conta corrente e a forma de equilibrar a situação é com juro real elevado e câmbio apreciado.”

Haddad, que integra a corrente de economistas que defende um ajuste fiscal severo para que o governo gere poupança, considera que o processo pelo qual o real se valoriza é o menos importante, mas é nele que as autoridades e os agentes econômicos estão se concentrando. “Tributação só cria distorção”, avalia. “Cria desvantagens competitivas que não têm nada a ver com a efetiva situação econômico-financeira e com qualidades intrínsecas de cada participante do mercado. Ruído é sempre ruim. E uma questão que se coloca nessa ‘guerra cambial’, que é uma ficção, é como financiar o pré-sal, a Olimpíada, a Copa do Mundo, a infraestrutura. O governo deveria reduzir gastos ou projetos de investimento. Outra possibilidade é se conformar com o câmbio valorizado, depender da poupança externa por algum tempo e, nesse tempo, fazer reformas.”

28/07/2010 - 16:29h O libertário da nova informação

Andrew Winning/Reuters
Foto Destaque
Assange, em Londres, durante a apresentação dos documentos americanos: “[Militares dos EUA] mataram pelo menos sete crianças e outros inocentes”

Rodrigo Uchoa – VALOR

de São Paulo

Julian Assange tinha vinte e poucos anos e os cabelos castanhos escuros quando se envolveu numa dura batalha com a ex-mulher pela guarda do filho dos dois. Um problema pessoal que acabou sendo transformado na primeira grande experiência do então jovem programador australiano contra a burocracia e as grandes instituições pouco transparentes. E a primeira experiência também de um ativismo que iria desembocar anos depois no WikiLeaks, o site classificado de “criminoso” por uns e de “heroico” por outros.

Revoltado com a falta de transparência da agência australiana de proteção aos menores, que não havia dado ouvidos a suas reclamações em relação à ex-mulher, Assange criou junto com sua mãe uma organização de pais. Passou a gravar escondido todas as audiências e reuniões com as autoridades. Na Justiça, apelou para o Ato de Liberdade de Informação da Austrália para conseguir acesso aos autos que deram base à decisão da agência – nem a isso os pais tinham direito, pois a burocracia tratava os autos como secretos até mesmo para os envolvidos. E, acima de tudo, começou a distribuir folhetos para assistentes sociais, incentivando-os a vazar informações da agência de proteção a menores.

O caso em si acabou em um acordo quanto à custódia do garoto, mas marcou Assange profundamente de duas maneiras. De um lado, parece ter sido a semente para o ativismo contra a “conspiração” das grandes instituições; por outro lado, parece ter deixado marcas físicas mesmo: segundo a mãe de Assange, a adrenalina e o desgaste da campanha foram tamanhos que ela própria sofreu de um estresse pós-traumático e seu filho ficou de cabelos brancos – o visual pelo qual é amplamente reconhecido agora.

WikiLeaks ( www.wikileaks.org ) dominou os noticiários nos últimos dias com a divulgação de uma série de documentos oficiais americanos sobre as operações de guerra no Afeganistão. Os documentos dão conta de uma situação bem menos sob controle do que a Casa Branca vem querendo fazer parecer. Colocam também em dúvida o comprometimento do Paquistão, principal aliado dos EUA na região, em relação ao combate à milícia islâmica do Talibã. Alguns analistas chegaram a comparar a divulgação atual ao vazamento de documentos oficiais durante a Guerra do Vietnã, no início dos anos 70, num caso que também colocou em dúvida os rumos daquele conflito.

E a figura de cabelos brancos de Julian Assange foi trazida ao centro do furacão. O Pentágono diz que sua atuação coloca em risco a vida dos soldados no teatro de operações do Afeganistão e que a divulgação de documentos secretos foi criminosa. Assange disse que as ações criminosas vêm na verdade dos americanos. Ele deu como exemplo as operações da chamada Força-Tarefa 373 – que qualificou como “um esquadrão da morte” das forças especiais americanas -, encarregado de assassinar uma série de pessoas incluídas em uma lista arbitrária. “Mataram pelo menos sete crianças e outros inocentes”, denunciou ele. E disse que algumas pessoas eram incluídas nessa lista “por recomendação de governos locais ou de outras autoridades com poucas provas e sem supervisão judicial”.

Não é a primeira vez que o australiano se envolve em polêmicas por divulgar informações secretas. O WikiLeaks já desagradou bancos suíços, defensores da cientologia, oligarcas russos e ditadores africanos.

Para entender como ele chegou ao olho do furacão, vale observar a trajetória de Assange, que envolve bem mais do que sua batalha contra a agência de proteção a menores.

Nascido em 1971, numa pequena cidade da costa nordeste da Austrália, ainda bem pequeno sua família iniciou uma vida itinerante. Não teve contato com o pai, e sua mãe se mudou de cidade em cidade após alguns relacionamentos com diretores de teatro e músicos. Ela acreditava que as escolas tradicionais serviam apenas para tolher a criatividade das pessoas e, por isso, fez o menino estudar em casa – mesmo que esporadicamente ele fosse a alguma escola. O próprio Assange diz que passou por quase 40 escolas e, mais tarde, por pelo menos seis faculdades.

Na adolescência, ele se encantou pelos computadores de uma loja do outro lado da rua onde morava. Em pouco tempo, aprendeu a escrever programas e, principalmente, a quebrar seus códigos. Talvez mais marcante do que seu primeiro computador tenha sido seu primeiro modem. Adotou o codinome de Mendax, retirado das odes de Horácio – “splendide mendax” (esplendorosamente falso, enganador para um bom motivo).

Mas eram necessários mais desafios para o jovem hacker. Ele se juntou a outros companheiros para formar um grupo chamado de Subversivos Internacionais. Os alvos se sucederam em diversos continentes, inclusive o alvo dos alvos para os hackers da época: o Departamento de Defesa dos EUA. Entraram furtivamente em todos os sistemas de computadores que quiseram.

Mas foi aí também que apareceram os primeiros problemas com as autoridades: a polícia australiana apreendeu seu computador numa investigação sobre o furto de US$ 5 mil do Citibank. No fim das contas, ele não foi indiciado e teve seus equipamentos devolvidos. O próprio Assange descreveu o evento mais como um susto. Afirmou que não teve nenhum envolvimento com desvio de dinheiro e que seguia à risca as regras de ouro dos hackers nostálgicos: “Não danifique os sistemas que você invade; não mude dados; e, acima disso, compartilhe sempre as informações que conseguir”.

Passou então por uma fase bem mais tranquila. Apaixonou-se, casou-se com apenas 18 anos e teve um filho.

Pouco depois, entretanto, os Subversivos Internacionais foram pegos por uma investigação da Polícia Federal australiana, após terem invadido os sistemas da canadense Nortel. Assange passou apertado e achou que poderia mesmo ir para a cadeia. E, para piorar, foi mais ou menos na mesma época em que se viu envolvido pelo caso de custódia com a já então ex-mulher. Apesar dessa conjunção de problemas, do medo de ir para a cadeia, a Justiça australiana apenas lhe aplicou uma multa.

A vida seguiu em frente e o não tão jovem Assange foi estudar física na Universidade de Melbourne. Não concluiu o curso e sua decepção com o que chamou de “conformismo” da academia foi imensa.

Partiu então para um projeto que vinha maturando havia algum tempo: o WikiLeaks.

A base intelectual do WikiLeaks pode ser identificada num manifesto escrito por ele que pregava a luta contra os segredos e conspirações “em detrimento da população”. Não é uma questão de direita ou esquerda, de liberalismo ou socialismo. A luta é do indivíduo contra as acachapantes instituições criadas pelas sociedades, formadas por funcionários que não têm o bem comum em vista, e sim a perpetuação do próprio sistema, envolto em segredo e em cada vez mais burocracia.

“Acreditamos que a transparência em atividades governamentais leva à redução da corrupção e ao fortalecimento da democracia”, afirma o WikiLeaks em sua declaração de objetivos.

O modo como Assange iniciou a formatação do WikiLeaks também mostra um padrão que acabou sendo seguido por ele daí adiante: em 2006, começou a trabalhar como um louco, primeiramente sozinho, mas depois foi chamando quem quisesse colaborar para o desenvolvimento dos sistemas do site e dos projetos.

Assim, a partir de 2007, o site se tornou uma experiência descentralizada, do ponto de vista técnico. Não há um escritório central, onde um diretor possa ser encontrado atrás de uma mesa – o site é feito onde Assange está, seja lá qual for esse lugar.

Dissidentes chineses, ativistas da Holanda, provedores suecos, matemáticos e jornalistas de todo o mundo passaram a colaborar na checagem dos dados recebidos e, muitas vezes também, abrigando Assange em suas constantes movimentações.

Isso contribuiu para a imagem heroica do “globetrotter” em constante fuga.

O lado de constante fuga é algo identificado por muitos de seus colaboradores. Assange diz que teme estar sendo perseguido por onde anda e, por isso, carrega pouca coisa consigo – meias, cuecas e umas poucas camisas -, o que lhe daria maior liberdade de ir e vir.

Mas isso cria um clima de paranoia também entre as pessoas mais próximas.

Assange conta que uma vez ficou meses abrigado na casa de uma colaboradora, temendo estar sendo perseguido por espiões americanos. O clima ficou tão pesado, disse ele, que ela saiu de casa e não mais voltou até que ele fosse embora.

Desde o começo do ano, ele não viaja aos Estados Unidos, temendo ser preso pela divulgação das imagens de video de um helicóptero militar americano em ação no Iraque, num incidente em que matou dois funcionários da agência de notícias Reuters.

Mas o modelo de divulgação do site também se aprimorou com o tempo e passou a contar não apenas com colaboradores esparsos, ativistas interessados em ajudar apenas. Agora, atrai grandes grupos de mídia. O “New York Times” e o britânico “The Guardian”, assim como a revista alemã “Der Spiegel” receberam com antecedência de quase um mês os relatórios sobre os documentos do conflito afegão, que estavam em formatos como KML, CSV e SQl.

A intenção era que eles tivessem tempo de analisá-los, checá-los e apresentá-los de forma mais atraente e legível aos leitores.

Isso seria necessário para que as informações importantes não ficassem simplesmente soterradas pela enorme quantidade de dados.

Não eram como documentos já divulgados, que diziam tudo por si mesmos, como o manual da igreja da Cientologia – popular na Califórnia entre alguns artistas de cinema -, o livro de normas de conduta da prisão americana de Guantánamo ou a relação dos afiliados ao Partido Nacional Britânico, de extrema-direita. Era preciso uma edição.

A ideia de editar havia sido colocada em prática no episódio da divulgação do video do helicóptero no Iraque. Assange passou dias dentro de uma casa em Reykjavík, capital da Islândia, decodificando e escolhendo cenas que mostrassem continuidade de fatos. O video pode ser visto em qualquer busca rápida no You Tube e continua causando impacto.

Alguns críticos do WikiLeaks dizem que o site já vem passando por uma “institucionalização” por causa dessa aproximação com a grande imprensa, o que lhe tiraria o caráter libertário e poderia colocar freios em seus próximos projetos.

Assange defende essa aproximação dizendo que consegue maior divulgação sem comprometer a identidade daqueles que fornecem os documentos, já que a sua rede de colaboradores em todo o mundo continua intacta.

Outros dizem que o sistema de financiamento do site pode ser colocado em risco também por essa sua recente “institucionalização”.

O financiamento vem sendo um desafio para Assange desde o lançamento do WikiLeaks.

Inicialmente, baseou-se nas pequenas contribuições dos colaboradores. Com a maior exposição, as doações se multiplicaram. Depois da divulgação do video do helicóptero que matou os jornalistas no Iraque, Assange recebeu cerca de US$ 200 mil em doações.

Ele comemorou dizendo que esse seria “um novo modelo de financiamento para o jornalismo”.
O que quer que seja – novo modelo de divulgação de informação, novo modelo de financiamento do jornalismo -, o WikiLeaks é um modelo que deve ficar marcado pela personalidade de Julian Assange. Resta saber se ganhará vida própria.

25/05/2010 - 10:39h O acordo com o Irã e o desafio à tutela de Washington

Brasil e Turquia decidiram fazer um contrapeso aos 30 anos de tolice americana na relação com Teerã

GRAHAM E. FULLER, GLOBAL VIEWPOINT – O Estado de S.Paulo

É EX-VICE-PRESIDENTE DO CONSELHO NACIONAL DE INTELIGÊNCIA DA CIA

Se Washington acredita que agora enfrenta complicações para obter a aprovação de sanções contra o Irã no Conselho de Segurança das ONU, essa não é nem a metade do problema. Muito mais importante do que isso é a sutil mudança nas relações internacionais introduzida pelos gestos de Brasil e Turquia.

Essas duas potências de médias proporções acabam de desafiar a tutela de Washington na definição da estratégia nuclear em relação ao Irã e seguiram uma iniciativa própria para persuadir o país a aceitar um acordo. Além de inteiramente independente, a iniciativa avançou mesmo diante dos alertas consideravelmente grosseiros feitos pelos americanos, que pediam aos países o abandono das tentativas de negociação – apesar de seus termos serem muito semelhantes aos da proposta feita ao Irã pelos EUA no ano passado. Para piorar, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e o premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, ousaram obter sucesso em suas negociações com o Irã, enquanto Washington previa publicamente seu fracasso certo (e tão esperado).

Será que os iranianos estão simplesmente envolvendo-se em outra trapaça, com o objetivo de ganhar tempo (manobra na qual são especialistas)? Ou será que ocorreu algo mais profundo? Em primeiro lugar, são importantes não apenas os termos do acordo, mas também seus mensageiros e o clima político no qual ele é celebrado.

Durante décadas, Washington relacionou-se com o Irã – quase sempre de maneira indireta – com truculência e beligerância consideráveis como trilha sonora das “negociações”. Isso era considerado normal – nada mais do que a única superpotência mundial exigindo dos demais países que atendam aos seus interesses estratégicos.

Quando Lula e Erdogan foram a Teerã, o jogo foi completamente diferente. A mudança não estava no conteúdo, mas principalmente nos negociadores, no local da reunião e no clima. Desta vez, Teerã não sentiu como se estivesse fazendo concessões à pressão exercida por uma superpotência, e sim aceitando um pedido razoável feito por dois Estados considerados seus pares sem nenhum histórico de imperialismo no Irã.

Num certo sentido, o acordo estava quase destinado a dar certo. O que o Irã mais deseja é frustrar o domínio americano sobre a ordem internacional, e principalmente sua capacidade de ditar seus termos ao Oriente Médio. Se o Irã aceitasse fazer alguma concessão nas questões nucleares, não haveria melhor forma de fazê-lo do que aceitar a proposta de dois Estados bem sucedidos e respeitados. Caso Teerã recusasse a oferta, poderia devastar o próprio conceito de iniciativas independentes, alternativas e desvinculadas dos EUA na estratégia internacional. Para o Irã, uma resposta positiva a esta abordagem conjunta fazia todo o sentido.

O mesmo vale para China e Rússia. Após o sucesso obtido por Lula e Erdogan, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, proclamou imediatamente seu sucesso na consolidação do apoio de Pequim e Moscou a sanções mais rigorosas contra o Irã – uma resposta surpreendentemente insultante aos notáveis resultados das negociações promovidas por brasileiros e turcos. Afinal, estes países são extremamente importantes para os interesses regionais e globais dos EUA. Esnobá-los desta forma foi um imenso erro.

Mas será que realmente acreditamos que Hillary tenha conquistado o apoio de Rússia e China? Assim como a Teerã não faltaram incentivos para aceitar uma proposta feita por “iguais”, Rússia e China também encontram motivos de sobra para aprovar esta iniciativa de Brasil e Turquia. É verdade que os termos do acordo não são sem importância, mas, para esses países, é muito mais relevante a lenta e inexorável decadência da capacidade americana de ditar os termos da política internacional e de satisfazer seus próprios objetivos. É exatamente essa a meta principal da estratégia russa e chinesa na política externa. No fim, esses países não permitirão que a abordagem de linha dura dos EUA prevaleça sobre a iniciativa brasileira e turca no Conselho de Segurança da ONU, mesmo que sejam necessários alguns ajustes do acordo obtido por Brasil e Turquia.

Polaridade. É claro que China e Rússia representam a polaridade alternativa na luta emergente para pôr fim à hegemonia americana. Mas é mais importante o fato de agora esses países testemunharem o afastamento do centro da política internacional em relação aos EUA.

Os dois países que desafiaram os desejos americanos não são meros agitadores do terceiro mundo tentando ganhar fama à custa dos EUA. Trata-se de dois grandes países considerados amigos próximos dos EUA. Isso torna sua afronta ainda mais cruel. Esses acontecimentos são profundos sinais dos tempos. O problema do poder unilateral está no fato de ele se tornar invariavelmente sujeito a tolices ocasionais na ausência de freios e contrapesos.

Os americanos acreditam em freios e contrapesos quando se trata de sua Constituição. Quando Washington entrou em sua quarta década de paralisia e incompetência no relacionamento com o Irã, ainda incapaz de nem sequer conversar com o país, essa abordagem exacerbou o problema, fortaleceu o Irã e as forças do radicalismo no Oriente Médio, polarizou as emoções e, pior, fracassou em todos os sentidos. Será que o mundo não deveria dar as boas-vindas aos gestos de dois países importantes, responsáveis, democráticos e racionais que decidiram intervir e estabelecer um contrapeso para décadas de tolice na política externa americana? É por isso que freios e contrapesos são importantes, e é por isso que o centro está se deslocando.

Talvez os “Estados renegados” – termo na moda em Washington para designar países recalcitrantes que não se submetem à linha ditada pelos EUA – possam responder melhor a novas abordagens livres das antigas técnicas imperialistas do intervencionismo e dos ultimatos. Enquanto isso, os EUA correm o risco de tornar-se seu próprio “Estado fracassado” em termos de ser capazes de exercer uma liderança internacional competente e eficaz após a queda da União Soviética. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL



24/05/2010 - 12:26h Comportamento dos EUA é alvo de críticas sobre Irã

Analistas atribuem recuo a pressões internas

O GLOBO

SÃO PAULO , BRASÍLIA e ATLANTA (EUA). O fato de o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ter apresentado à ONU uma proposta de impor sanções ao Irã, um dia depois do Brasil e da Turquia terem obtido do governo iraniano um acordo de ceder à demanda daquela instituição para que enviasse urânio para ser enriquecido no exterior — num grau suficiente apenas para uso médico e energético — é visto por especialistas brasileiros em relações exteriores como uma rendição de Obama a pressões internas.

— Fica claro que o Brasil tinha uma ação responsável quando abriu as negociações com o aval dos EUA. A carta (de Obama para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, antes de sua viagem à Teerã) prova isso — disse Cristina Pecequilo, professora de Relações Internacionais na Universidade Estadual Paulista.

Ela se referia ao fato de Obama ter afirmado à Lula, que se o Irã concordasse em enviar 1.200 quilos de urânio para ser enriquecido em outro país, a um grau suficiente apenas para uso médico e energético, “geraria confiança e diminuiria as tensões regionais”. Foi exatamente isso que Brasil e Turquia obtiveram do governo iraniano.

Para Williams Gonçalves, professor de Relações Internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, a divulgação da carta deixa clara a divisão do governo americano.

Ele lembra que o presidente Obama já havia indicado que desejava um acordo com o Irã, mas teve que ceder às pressões da elite política e intelectual dos EUA.

Integrantes das comissões de Relações Exteriores da Câmara e do Senado criticaram o recuo. O líder em exercício do PT na Câmara, deputado Arlindo Chinaglia (SP), disse que a insistência dos EUA em impor novas sanções ao Irã desmoraliza Obama. O presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Eduardo Azeredo (PSDBMG), viu a carta de Obama como um “incentivo” a que o Brasil avançasse nas negociações.

Mas ressalvou que ela também continha um alerta de que um acerto com o presidente Mahmoud Ahmadinejad careceria de garantias.

Diante do mal-estar causado pelo recuo de Obama, o secretário de Estado Adjunto para Assuntos do Hemisfério Ocidental, Arturo Valenzuela, enfatizou as boas relações bilaterais: — Estamos nos dando bem numa quantidade enorme de assuntos. A lista é muito longa. Estamos extremamente comprometidos em manter uma forte ligação com o Brasil. Tivemos uma diferença de avaliação em relação ao Irã — disse ele sexta-feira, em Atlanta, antes da divulgação de trechos da carta.

19/05/2010 - 09:21h ‘Os EUA nunca tiveram controle’

O acordo costurado por Brasil e Turquia com o Irã alterou o cenário das negociações sobre o programa nuclear de Teerã e colocou os Estados Unidos numa situação difícil. A análise é de Flyn Leverett, diretor do Projeto Irã da New America Foundation. Ex-responsável pelo Oriente Médio no Conselho de Segurança Nacional dos EUA, ex-analista da CIA e professor da Universidade da Pensilvânia, Leverett acredita que Washington entrou em um “jogo arriscado” e vê como crucial a atitude da China para determinar o futuro da aplicação de sanções.

Fernando Eichenberg – O GLOBO


O GLOBO:
Como o senhor avalia o acordo costurado por Brasil e Turquia com o governo iraniano?

FLYN LEVERETT: Brasil e Turquia são potências em ascensão e assumem significativa influência numa importante questão de paz e segurança internacional.

Mostraram de forma polida, mas clara, que Washington não tem controle unilateral na discussão do programa nuclear iraniano. Isso põe Obama numa posição difícil.

De um lado, os EUA não querem ser vistos dizendo “não” a progressos diplomáticos. Por outro, pararam na posição de George W. Bush sobre o enriquecimento e não querem ser vistos como se tivessem que se render.

A secretária Hillary Clinton insiste em sanções econômicas…

LEVERETT: Essa abordagem vai se voltar contra o governo. A China pode concordar com o esboço de resolução, mas não acredito que vá concordar com que ela seja rapidamente adotada. Os chineses dirão que é preciso dar uma chance a esse acordo. A secretária Clinton está apostando num jogo bastante arriscado.

Como vê as posições de China e Rússia nesse novo contexto?

LEVERETT: Acredito que China e Rússia concordaram com o que seria a linguagem do texto de uma nova resolução. A única ação concreta disso tudo é que o esboço aceito pelos membros permanentes do Conselho de Segurança agora será apresentado aos demais dez integrantes, incluindo Brasil e Turquia. A secretária Clinton está sob pressão, porque é como se o governo Obama tivesse perdido o controle da situação e que Brasil e Turquia passaram a liderar a via diplomática.

Para os EUA, o acordo é insuficiente e não responde questões da comunidade internacional.

LEVERETT: O que governo americano está dizendo é um tanto desonesto. Verdade que, segundo as resoluções do conselho, o Irã deve suspender todo o enriquecimento de urânio. Mas desde as negociações de outubro isso não foi mais colocado. É uma mudança de posição que pode ser vista como sinal de desespero. Os EUA nunca tiveram controle unilateral na discussão das sanções. O governo insistiu em mostrar mais controle do que realmente tem, e está pagando um preço por isso.

O senhor não acredita na votação de sanções em curto prazo?

LEVERETT: O próximo passo será a reação ao esboço da resolução.

Será crucial acompanhar a posição da China. Os chineses concordaram com o esboço, mas será preciso ver o que farão quando o texto for colocado realmente em votação. Realisticamente falando, a resolução não entrará no calendário de votações antes de junho, na melhor das hipóteses.

19/05/2010 - 08:59h EUA: Um presidente com poder em declínio

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RICHARD COHEN – The Washington Post – O GLOBO

No início do mês, o presidente Barack Obama foi à Louisiana para verificar os estragos provocados pela explosão de uma plataforma de petróleo da British Petroleum, manter as equipes de limpeza na ponta dos cascos — nada de dizer “ei, vocês estão fazendo um trabalho dos diabos”, como o ex-presidente Bush — e mostrar aos estados na costa do Golfo e ao resto do país sua preocupação.

No dia 3 de maio, o site do “Washington Post” na internet colocou a notícia precisamente no lugar adequado — enterrada no meio da página. Com isto queria dizer que o presidente dos Estados Unidos, neste caso, não tinha muito a fazer.

Todo mundo sabia que Obama estava meramente mostrando que não é George W. Bush. Ele não iria ignorar uma calamidade, especialmente uma que afetasse Nova Orleans e a costa do Golfo. Por outro lado, todos sabíamos que ele não poderia reverter os ventos nem arrolhar o vazamento. Na verdade, ele podia fazer muito pouco, a não ser mostrar sua preocupação.

Foi um momento simbólico — a maré de óleo ameaçando a costa, movendose a seu bel-prazer, da mesma forma como parecem estar os fatos pelo mundo. Estamos acostumados a presidentes americanos serem supremamente importantes, quando menos pela razão de que comandam a força militar mais poderosa do mundo. Mas nós devemos avaliar também que a importância do presidente, em termos de ser capaz de influenciar os fatos, está declinando.

No Oriente Médio, nada que Obama tentou tem feito muita diferença.

Na Europa, o euro cambaleia. Crítica como é esta moeda, ela é muito menos importante que o conceito de integração europeia sobre a qual está baseada. Nós tendemos a esquecer que a Europa é a sede de guerras horrorosas — duas vezes no século passado nós estivemos envolvidos. E se você incluir a Rússia como parte da Europa, como alguns russos insistem em fazer, teríamos que contar a Guerra Fria também. Quanto à Rússia, ela se lixa para as queixas americanas e se move progressivamente para trás — não é uma democracia europeia, mas outra coisa.

Na periferia da Europa está a Turquia, lutando para restabelecer algo da influência que o Império Otomano teve um dia na região. Ela pode estar se tornando também um Estado mais islâmico, possivelmente após concluir que cem anos do secularismo de Mustafa Kemal Ataturk foram suficientes.

Qualquer que seja o caso, não há muito o que possamos fazer sobre a Turquia. Ela não precisa mais dos Estados Unidos como um aliado na Guerra Fria, e até mesmo bloqueou nosso acesso militar ao Iraque no início da guerra. A declinante influência americana do presente não pode mais conter a influência do passado otomano. Israel, cuidado.

A China também está fora de nosso alcance. Em alguns casos, precisamos mais dela do que ela de nós. Devemos dinheiro a Pequim. Compramos produtos da China. Respeitamos sua força crescente. Lamentamos nosso poder decrescente. Ocultamos nossa preocupação com os direitos humanos. Somos uma superpotência.

Mas contra o quê? Os conser vadores americanos olham as derrotas e os desapontamentos e fulminam Obama. Chamamno de fraco e inepto — e certamente, em algumas áreas, ele tem sido ambas as coisas. Mas estão errados em pensar que outra pessoa faria muita diferença. Os tempos mudaram. O poder dos Estados Unidos está reduzido — em termos relativos, mas em termos absolutos também. Como uma superpotência, os Estados Unidos invadiram o Iraque. Saddam é poeira. Mas esta guerra “rápida” está agora em seu oitavo ano.

Em 1987, Paul Kennedy publicou “Ascensão e queda das grandes potências”.

Isto criou uma zoeira porque, entre outras coisas, previu o declínio relativo e absoluto dos Estados Unidos. Kennedy atribuiu isto à sobrecarga dos militares e aos gastos do governo — problemas que desde então passaram de teóricos a agudos.

Fazemos mais guerras do que nosso dinheiro permite.

A necessidade de mencionar Kennedy magoa. Sugere inevitabilidade, como se os Estados Unidos fossem o Império Romano ou o Britânico, e como se o passado estivesse destinado a se repetir no futuro. Podemos gastar menos, aumentar impostos, renunciar a guerras que escolhemos fazer, reformar o Congresso e parar de confundir a fama que cerca a Presidência com poder real.

Obama presidindo o “impresidível”, tomando conta do incompreensível, toda a panóplia do poder sem sentido — Air Force One, Marine One, a limusine, a escolta de motociclistas, a maleta com os códigos nucleares —, tudo significando, no caso, um homem investindo contra o mar, uma lição sombria para todos nós. O vazamento de óleo continua.

A guerra continua. A dívida aumenta — e então, para muitos de nós, aumenta também a recusa.