05/12/2007 - 18:16h Vale a pena ler a coluna de Brickman


Executar primeiro, julgar depois

Carlos Brickmann para o Observatório da Imprensa

Circo da Notícia – Coluna de 4 de dezembro

Na primeira página, acima da dobra, o lugar mais nobre de um jornal, saiu a notícia de que um cavalheiro afirmava ter mantido relações homossexuais com o padre Júlio Lancelotti, que o acusa de extorsão. Poucos dias depois, o mesmo cavalheiro negou ter tido relações sexuais com o padre. Saiu numa página interna, no canto inferior direito. A acusação mereceu um título grande; o desmentido, um título pequenininho, pequenininho. A acusação é feita em manchete, o desmentido precisa ser lido com lupa.
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05/12/2007 - 18:10h Vale a pena ler a coluna de Brickman

Executar primeiro, julgar depois

Carlos Brickmann para o Observatório da Imprensa

Circo da Notícia – Coluna de 4 de dezembro

Na primeira página, acima da dobra, o lugar mais nobre de um jornal, saiu a notícia de que um cavalheiro afirmava ter mantido relações homossexuais com o padre Júlio Lancelotti, que o acusa de extorsão. Poucos dias depois, o mesmo cavalheiro negou ter tido relações sexuais com o padre. Saiu numa página interna, no canto inferior direito. A acusação mereceu um título grande; o desmentido, um título pequenininho, pequenininho. A acusação é feita em manchete, o desmentido precisa ser lido com lupa.

Estamos no país das maravilhas: aquele da Alice, onde a Rainha Má primeiro mandava matar e depois providenciava o julgamento. E a culpa não é de promotores, juízes, delegados: é nossa, dos jornalistas, que aceitamos como verdade divina tudo o que provém de fontes oficiais e reduzimos à expressão mínima “o outro lado” – que se transforma, de elemento essencial à apuração dos fatos, numa obrigação chata, cumprida burocraticamente e com muita má vontade. Com alguma frequência, o sujeito acusado de matar esposa e filhos informa que é estéril, não é casado, vive com um estivador e, aliás, tem nojo de mulher; e a defesa acaba saindo nos meios de comunicação como “ele nega as acusações”.

Vale ler, além deste Observatório, a excelente coluna do ombudsman da Folha de S. Paulo, Mário Magalhães, (www1.folha.uol.com.br/folha/ombudsman/), e o trabalho, também de ótima qualidade, de Mário Vitor Santos, ombudsman do iG (http://ombudsman.blig.ig.com.br/). Na nota abaixo, uma transcrição do ombudsman do iG, referindo-se à condenação prévia dos suspeitos pela imprensa.

Acredita demais

“Como nas outras ocasiões, as versões da Polícia Federal são reproduzidas docilmente por jornalistas e seus veículos, inclusive este iG. Agentes, delegados, promotores recebem amplos espaços. Suspeitos viram criminosos. Suposições transformam-se em verdade. Jornalismo malfeito vira presa fácil para a manipulação da opinião pública. A versão dos acusados é escondida quando não simplesmente omitida. Ninguém pergunta: e se a polícia estiver errada? E se for um mal-entendido? Ninguém fiscaliza a competência e os procedimentos das autoridades. É um processo sumário, num tribunal de exceção, sem direito a contraditório nem apelação. O réu não tem direitos. A condenação é imediata e eterna. O direito do cidadão, de ser inocente até prova em contrário ou, melhor, até condenação definitiva em última instância, após execer todos os seus direitos de defesa, é ignorado pelos meios de comunicação manipulados pela polícia.

“O iG acreditou, quando devia ter duvidado.”

Silêncio cúmplice

Um colega nosso, do Interior de São Paulo, sofreu o segundo atentado em menos de seis meses, provavelmente pela campanha que move contra a Máfia dos Caça-Níqueis – que, apesar de todas as proibições, continua espalhando suas máquinas. A imprensa cobriu bem o atentado; as notícias foram publicadas no Brasil e no Exterior, e obtiveram ampla (e merecida) repercussão nos boletins de entidades internacionais como a SIP, Sociedade Interamericana de Imprensa, e Repórteres sem Fronteiras.

E daí? Daí, nada. Embora o crime tenha sido filmado, embora haja testemunhas capazes de reconhecer o criminoso, a Polícia Civil paulista não achou nem aquele “dimenor” de praxe, que confessa qualquer coisa após o hábil interrogatório. O governador José Serra, que em última instância é o comandante desta Polícia, nada falou sobre o tema. Por que não se manifesta, por que não monta uma equipe especial, afastada do cenário onde atua a Máfia dos Caça-Níqueis, para investigar o caso? E o ex-governador Geraldo Alckmin, primo da vítima do atentado, nada tem a dizer sobre o crime organizado que atua no Vale do Paraíba, seu berço eleitoral? E o Ministério Público, setor de combate ao crime organizado, não quer saber de investigar um caso visivelmente ligado ao crime organizado?

E nós, jornalistas, vamos deixá-los em silêncio? Caberia aos veículos de comunicação mostrar o acoelhamento das autoridades. E cabe a nós, jornalistas, pelo menos defender-nos: cada jornalista é uma vítima potencial dos mafiosos.

Boa notícia

O bom jornalista Paulo Moreira Leite, depois de um tempinho no Governo, está de volta à imprensa, com uma excelente reportagem sobre o rabino Henry Sobel. Sua volta ao jornalismo é uma notícia que merece ser festejada.

Ah, essa falsa cultura!

Uma notícia procura ressaltar a falta de conhecimento de Português do presidente Lula. Transcreve uma frase que disse e, em seguida, vem o “sic”, significando que foi dita daquele jeito mesmo.

Só que a frase “É para o pessoal saberem (sic)” não está errada, não. Em Português, a concordância pode ser feita com o substantivo ou com a idéia que ele representa. A isso se chama “concordãncia ideológica” (ou silepse de número). Como “pessoal” é coletivo, expressa a idéia de plural, e a concordância pode ser feita com o plural.

Talvez Lula não saiba disso, mas é uma forma clássica, que pode ser encontrada desde o Latim – por exemplo, em Júlio César, no De Bello Galico.

Como…

O pessoal gosta (ou, como queiram, “o pessoal gostam”) de falar do presidente Lula. Mas veja o que está no portal de um grande jornal:

“Assaltantes que mantêm reféns em SP mata cachorro de casal”.

E não é só: logo no subtítulo, a matéria informa que os bandidos invadiram casa em São Carlos. Não é nada disso: a casa é no Jardim São Carlos. São Carlos é uma cidade grande, e Jardim São Carlos é um bairro da Capital.

…é…

As duas informações constam do mesmo texto, a respeito das cadeias do Pará:

“Vídeo que mostra uma jovem sendo violentada por detentos”.

“PA: menor e doente violentado na prisão’.

Afinal, a vítima é menino ou menina?

…mesmo?

“Flávia Alessandra dançando num tapa-sexo”.

A atriz é capaz de dançar em espaço efetivamente minúsculos.

Enrolando-se

Há dias, o governador José Serra tumultuou a capital de São Paulo, parando carros com placas de outros Estados para verificar se eram mesmo de fora ou se o emplacamento tinha sido fraudado. Muita gente, com efeito, dá um jeito de emplacar o carro em cidades onde os impostos são mais baixos, como Palmas ou Curitiba. E São Paulo, em vez de baixar o imposto, usa a Polícia.

Só que Marcelo Tas, em seu blog (http://marcelotas.blog.uol.com.br), publicou foto de um carro com placa de Curitiba a serviço da estatal paulistana CET. A explicação da estatal é magnífica: lembra aqueles textos que Madame Natasha, do Elio Gaspari, gosta de explicar aos leitores. Vamos a um trecho:

“Informamos que o veículo placa DIH 0250, de Curitiba, cuja foto foi exibida no UOL/Blog do Marcelo Tas, não pertence à frota da Companhia de Engenharia de Tráfego-CET e nem está ligado a contratos de serviços desta companhia. O veículo em questão foi contratado pelo Consórcio Via Amarela e presta serviços de apoio nas interdições e bloqueios realizados ao longo dos trechos de toda a obra do Metrô, conforme solicitado pela CET.”

Como explicaria Madame Natasha, o que ele quis dizer é que o carro não é nosso, mas é nosso.

Completando

Um leitor de Tas, Rodrigo Lombardi, viu um carro com placa de Curitiba com adesivo esclarecendo que estava “a serviço da Prefeitura de São Paulo”. E pede: “Que as leis se façam valer para todos”. Mas as leis valem para todos, Lombardi. Só que para alguns não são aplicadas.

E eu com isso?

O caro leitor pode se tranquilizar: esta coluna lhe traz algumas notícias palpitantes e quentes, sem as quais se torna impossível viver. Vejamos:

1. Roger curte a noite sem Débora Secco

2. Sabrina Sato curte a praia

3. Andrucha Waddington assiste ao show de Maria Bethânia

4. Julia Roberts discute com fotógrafo

O grande título

Nesta semana, há um imbatível:

Ex-campeão de xadrez deixa a prisão.

carlos@brickmann.com.br

22/11/2007 - 12:08h A mídia em questão

“Da discussão nasce a escuridão” – Carlos Brickmann, para o Observatório da Imprensa


Circo da Notícia – Coluna de 20 de novembro

Tudo começou com uma briga em que ninguém tem razão. Ao fazer uma capa para Veja sobre Ernesto “Che” Guevara, o repórter pediu uma entrevista a um jornalista americano que escreveu festejada biografia do guerrilheiro. Por algum motivo, a entrevista não se realizou. O americano não gostou da reportagem; e, em vez de enviar uma carta ao autor, ou à revista, ou a ambos, enviou-a também a uma lista de correspondência, que a divulgou pela Internet. Nela, insulta o repórter. Este reagiu protestando não contra as críticas ou os insultos, mas contra a divulgação da troca de mensagens entre ambos, que qualificou de anti-ética.

Até aí, normal: bate-bocas, com ou sem bons motivos, são frequentes na profissão – ainda mais quando envolvem, como no caso, diferentes visões da mesma personagem. O grave é uma frase do repórter brasileiro enviada ao americano: “Você pode ficar certo de que não aparecerá mais nas páginas desta revista”.

Trata-se de algo que sempre se comentou, de que muito se falou, mas que até agora não tinha confirmação formal (e, aliás, sempre foi oficialmente negada): a existência de uma “lista negra” em veículos de comunicação. Pior: quando se falava em “lista negra”, sempre se pensava no comando supremo do veículo, ou da empresa. Nunca se pensou que um repórter, por melhor que fosse, por mais alto que estivesse na hierarquia da reportagem, pudesse incluir nomes na lista negra.

Este é um tema que vale a pena discutir, aqui no Observatório da Imprensa e em todas as instâncias jornalísticas. Seria interessantíssimo conhecer a opinião de Luiz Weis, cuja coluna neste Observatório tem sido preciosa, pela escolha de temas e pela análise de cada um deles. E, naturalmente, de Alberto Dines, que há muitos anos pensa jornalismo e já comandou grandes veículos.

Lista negra é o oposto do jornalismo; é a negação da imprensa livre. A opinião é livre, mas levar ao leitor “all the news that’s fit to print” é a obrigação de cada jornalista.

As listas…

Listas negras do tipo “fulano não aparece neste jornal” talvez sejam raras; este colunista não teve a oportunidade de conhecê-las. Mas listas “light”, com restrições a personalidades ou grupos étnicos, sempre existiram.

Um grande jornal, por exemplo, até há alguns anos só publicava pretos na primeira página em dois casos: estadistas africanos e Pelé. Um dia, em 1967, Zé Keti ganhou o Carnaval do Rio com Máscara Negra, e rompeu-se a barreira da primeira página. Aliás, bem em tempo: não muito tempo depois, se fosse mantida a restrição, como colocar na primeira página os ministros Orlando Silva, Gilberto Gil e Joaquim Barbosa e os secretários Condoleeza Rice e Colin Powell?

…escondidas

Outro grande jornal publicava tudo, mas usando alguns códigos. Adhemar de Barros, político de grande prestígio em São Paulo, era A. de Barros. Um conceituado jornalista, A. P. Quartim de Moraes, quando sofreu restrições passou a ser chamado por “Parahyba de Moraes”. Fernando Costa, que foi interventor no jornal na época da ditadura, nunca chegou a gerar notícias. Mas o Parque Fernando Costa, na Capital paulista, era sempre chamado de “Parque da Água Branca”. E uma deputada, embora tivesse as atividades noticiadas, não tinha nome: era “uma deputada do PSD”.

Resultado: num determinado dia, a deputada trocou tapas com um deputado, cujo nome também não era citado. Os dois eram do mesmo partido. O título acabou sendo algo do tipo: “Parlamentar bate em outro”.

Os ódios à tona

Há um debate muito interessante na lista de discussões da Abraji, Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, a respeito de blogs. Foi iniciada por um jornalista que não aguenta mais a radicalização e os ódios que vê nos blogs, e decidiu que, já que não dão notícias, não mais vai lê-los. É, óbvio, uma posição generalizante: há bons blogs,e há blogs em que, se o político favorito matar o pai e a mãe, vão dizer que o coitado não deve sofrer críticas porque se trata de um órfão.

O fato é que, se o blog perde leitores com uma posição ultra-radical (para que irá alguém lê-lo, se já sabe de antemão o que vai encontrar?), acaba contribuindo para uma indesejada baixa de nível. Deixa-se de discutir o que está escrito para tentar desqualificar quem o escreveu. E o debate, que poderia trazer um pouco de luz, acaba se empobrecendo e perdendo a utilidade.

Olha o racismo!

Law Kim Chong, que cumpria pena de prisão em regime aberto, acusado de tentativa de suborno do então deputado federal Medeiros, foi preso de novo, agora por suspeita de contrabando. Law é apontado, com fartos indícios, como grande contrabandista. Está, ou esteve, ligado a personagens de conduta dúbia. Agora, há a grande chance de investigá-lo, provar sua relação com o contrabando, julgá-lo e condená-lo; e, melhor ainda, verificar quem é que o protege, quem é que permitiu que por tantos anos atuasse sem problemas – e a que custo.

Mas essa é a questão policial. A questão de imprensa (e não é a primeira vez, longe disso, que é tratada nesta coluna) é que insistem em chamá-lo de “chinês”, em vez de Law, de Chong, do que quer que seja. Cheira a racismo: ninguém deve ser chamado por sua nacionalidade, sua cor, sua religião. As pessoas têm nome – que, aliás, serve exatamente para chamá-las. E o fato de ser chinês, japonês, congolês ou paquistanês não tem nada a ver com as atividades ilegais a que porventura o cavalheiro se dedique.

E, ainda por cima, Law Kim Chong não é chinês. Nasceu em Hong Kong, à época possessão inglesa. É, portanto, britânico de nascimento. Por escolha, é brasileiro, pois se naturalizou. Chamá-lo de chinês porque tem os olhos puxados também cheira a racismo. Mas bem que valeria a pena entrevistá-lo e perguntar por que, num mundo tão grande, foi escolher para si a nacionalidade brasileira.

Ação, reportagem!

Quando foi preso, Law Kim Chong estava concluindo um shopping center para dois mil camelôs, com estacionamento para 400 ônibus, na Capital paulista. Não seria possível tocar em segredo uma obra como essa. Segundo a Polícia, o contrabando que estava escondido dentro da obra encheria uns cem caminhões. Não seria possível, sigilosamente, enfiar tanto contrabando numa obra inacabada. Uma boa reportagem pode pegar não apenas quem faz o contrabando, mas também os que viabilizam a distribuição da mercadoria e garantem a impunidade de todos os envolvidos.


carlos@brickmann.com.br

31/10/2007 - 14:49h Liberdade da imprensa

Observatório da Imprensa

O padre e os moços – Carlos Brickmann para o Observatório da Imprensa

Circo da Notícia – Coluna de 30 de outubro

Imaginemos, apenas para argumentar, que o padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Menor de São Paulo, tenha contado a verdade inteira no caso de extorsão de que foi vítima. Imaginemos que as denúncias feitas pelos acusados de extorsão sejam mentiras inventadas apenas para que se defendam do crime.

Neste caso, mesmo que os meios de comunicação dêem o mais amplo espaço possível ao sacerdote extorquido e divulguem à exaustão as provas de que os acusados mentiram, a imagem pública do padre Júlio Lancelotti estará ferida. Sempre haverá os que leram as denúncias e assistiram às acusações e não a decisão final, os que ouviram dizer, os que acham que alguma coisa feia deve ter ocorrido.

O caso do sacerdote católico não é o único: a avalanche de denúncias torna impossível, para o consumidor de notícias, a elaboração de uma análise equilibrada dos fatos. Pior: em busca de prestígio, de holofotes, de promoção profissional, há autoridades que usam deliberadamente a imprensa para demonizar os alvos que escolheram. Não lhes importa que, ao final de tudo, demonstre-se que não havia culpa e que as acusações tinham sido injustas: o réu terá sido condenado pelo tribunal da opinião pública. E ai do juiz que, de acordo com as provas, ousar absolver alguém: será o pizzaiolo, o promotor dos criminosos.

Que fazer? A imprensa não pode fazer muita coisa: se as autoridades apresentam uma testemunha (mesmo que as histórias que narra depois se comprovem falsas), não pode esconder o fato. E, ao publicá-lo, contribui para que a reputação de uma pessoa que pode ser inocente seja destroçada.

Talvez a solução esteja em costumes estrangeiros que poderiam ser importados. Na Suíça, por exemplo, o processo penal corre em segredo – não se divulga sequer que há um processo contra alguém. Concluído o julgamento, se o réu for condenado, é divulgado então o processo inteiro.

É a melhor solução? Talvez sim, talvez não: é um caso a discutir, inclusive entre nós, jornalistas. O que não se pode é manter a situação atual, em que a reputação de um cidadão, não importa o seu passado, pode ser destruída por declarações, mesmo incorretas, de uma autoridade. Ou por depoimentos de bandidos.

Anonimato

A história contada pelo padre Júlio Lancelotti é difícil de aceitar. Não é impossível que ele tenha dado sabe-se lá quantas dezenas ou centenas de milhares de reais a alguns indivíduos, apenas pela esperança de que enxergassem a Verdade. Mas algumas das histórias que levantaram contra ele também são pouco palatáveis: por exemplo, uma mulher, anônima, que disse ter trabalhado com o padre e que o acusa de pedofilia. O depoimento foi imediatamente divulgado – mas, logo depois, a Polícia informou que não sabia ainda se a referida senhora tinha efetivamente trabalhado na ONG do padre.

Assim não dá: uma acusação dessa gravidade, num caso já de si explosivo, só pode ser espalhada se alguns pressupostos de que poderia ser verídica tivessem sido verificados. Mas não se sabe sequer se trabalhou onde disse ter trabalhado.

Salvadores do Universo

O caso do padre Júlio Lancelotti já é complicado se um dos lados for absolutamente inocente e seus acusadores totalmente mentirosos. Mas essa situação definidíssima normalmente não acontece – e aí pioram muito os dilemas dos veículos de comunicação. Os repórteres tendem a acreditar nas autoridades; e nem sempre as autoridades merecem esse crédito (aliás, os velhos e bons manuais de Jornalismo recomendavam não confiar em ninguém, especialmente nas autoridades).

Num caso recente, repórteres de grandes veículos declararam candidamente que não precisavam “ouvir o outro lado” porque as informações de que dispunham vinham de fontes oficiais, em que confiavam cegamente. Bom, poucas vezes houve tantas fontes oficiais coincidindo nas informações quanto no caso do assassinato de Vladimir Herzog pela ditadura militar: todas garantiam que ele havia se suicidado. E daí? Confiar em “fontes oficiais” dá menos trabalho. E os acusados devem mesmo ter feito alguma, ou não estariam nesta situação.

Citando o deputado Ibsen Pinheiro – ele, vítima de situação semelhante, em que foi linchado pela imprensa – difícil não é lidar com jornalistas mal intencionados (se bem que o problema também exista). Difícil é lidar com jornalistas bem intencionados, que acham que estão salvando o mundo.

A hora do foca

E há, ainda, o problema econômico: para gastar menos, alguns portais de Internet colocam estagiários no comando do noticiário. Eles, que nem chegaram ainda a ser focas, põem a informação no ar, sem checagem, sem chefia. A questão não é apenas a informação falsa: a garotada está fazendo estágio exatamente para aprender. Se não há quem os ensine, como aprenderão alguma coisa?