10/08/2012 - 08:59h OCDE prevê países parados; Brasil é exceção

10 de agosto de 2012

NOVA YORK – O Estado de S.Paulo

A maior parte das grandes economias deverá perder força nos próximos meses, e somente o Brasil e, possivelmente, o Reino Unido, vão registrar um aumento moderado, de acordo com os indicadores antecedentes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)

A OCDE disse que o indicador antecedente dos 34 membros da organização caiu para 100,3 em junho, de 100,4 em maio, sugerindo “uma desaceleração da atividade econômica”.

O indicador antecedente para as economias em desenvolvimento também recuou, sinalizando “desacelerações” – ou crescimento abaixo da tendência da taxa de longo prazo, para a China, Índia e Rússia.

Entre o grupo da sete maiores economias desenvolvidas, o Reino Unido foi o único país a registrar uma alta em seu indicador antecedente, uma performace que, segundo a OCDE, “mostra sinais iniciais de uma recuperação da atividade econômica”. Junto com a Itália, o Reino Unido foi a economia mais lenta entre os países do G-7 (grupo que reúne as sete maiores economias do planeta) nos últimos três trimestres.

Outra exceção para a tendência geral de queda foi o Brasil, que obteve indicador antecedente de 99 em junho, mesma leitura de maio, após registrar um aumento constante desde o início do ano. A OCDE disse que isso era um sinal de que o crescimento da economia vai aumentar, mas com menos intensidade do que tinha sido previsto.

Entre as economias desenvolvidas, a zona do euro continua a ser o principal foco de enfraquecimento. Mas os indicadores antecedentes para os EUA e o Japão também diminuíram. / DOW JONES NEWSWIRES

11/07/2012 - 10:25h Subsídios em países desenvolvidos seguem elevados

De Genebra – VALOR

Os subsídios agrícolas concedidos pelos países desenvolvidos alcançaram US$ 252 bilhões em 2011, ou 4,6% a mais do que no ano anterior, segundo levantamento da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que ainda será publicado e ao qual o Valor teve acesso.

A entidade ressalta que a alta registrada foi em dólar. O valor em euros (182 bilhões) permaneceu idêntico ao de 2010. O volume representa 19% das receitas agrícolas totais na OCDE, o menor nível observado desde que a entidade começou a calcular o apoio aos agricultores nos anos 1980. No ano passado, a OCDE havia publicado que os subsídios de 2010 tinham representado 18% da receita total, mas agora o índice subiu para 20%, com a sua revisão.

A organização utiliza uma metodologia própria para medir a proteção ao setor agrícola. É a Estimativa de Apoio ao Produtor (PSE, na sigla em inglês), um indicador do valor monetário bruto anual transferido por consumidores e contribuintes como apoio aos agricultores.

O recente declínio no apoio aos produtores ocorreu em virtude do aumento no preço das commodities no mercado mundial, mais do que em razão de mudanças nas políticas agrícolas. Com as cotações dos produtos em alta, agricultores americanos, europeus e asiáticos precisaram de menos ajuda.

Em todo caso, os subsídios que causam uma distorção no comércio – definidos como pagamentos baseados na produção – ainda representam 51% do total, comparados aos 86% entre 1986 e 1988.

Alguns países tentam cortar a ajuda ligada à produção e implantam o pagamento baseado em área histórica, número de rebanho, renda agrícola, etc. Quanto menor a ajuda ligada à produção, o produtor terá menos necessidade de aumentar a colheita com o objetivo de obter maiores subsídios.

A Nova Zelândia continua a dar o menor apoio aos seus agricultores, de apenas 1% da renda agrícola, e na Austrália são concedidos 3%. Os campeões continuam a ser Noruega (58%), Suíça (54%), Islândia (48%) e Coreia (45%).

Na União Europeia, os subsídios alcançaram US$ 103,1 bilhões, equivalente a 18% da renda agrícola. Na média, os agricultores recebem 5% a mais do que os preços praticados no comércio mundial. Mas alguns produtos tem benefícios maiores, como o caso do açúcar (preços 6% mais altos), carnes bovina e ovina (20% superior), além de barreiras para importações que permitem que produtores de frangos ganhem 50% mais que os preços de mercado.

Nos EUA, a ajuda alcançou US$ 30,5 bilhões, representando 8% da renda agrícola, abaixo da média da OCDE. Os preços ao produtor eram 13% mais altos do que no mercado internacional entre 1886 e 1988, mas recuou para 1% entre 2009 e 2011. O maior subsídio foi concedido para o setor açucareiro.

No Japão, o apoio aos agricultores totalizaram US$ 61 bilhões no ano passado contra os US$ 55,2 bilhões em 2010. Os preços recebidos por eles eram 1,8 vezes mais altos do que no mercado mundial. Na Coreia, os subsídios são voltados principalmente para a produção de arroz.

Após décadas de declínio nos preços reais das commodities agrícolas, a OCDE avalia que no médio prazo as cotações vão se manter elevadas. O mercado passa a oferecer boa remuneração aos agricultores que antes precisavam de dinheiro público.

A expectativa da entidade é de que com o crescimento significativo da demanda, as pressões por recursos limitados e os efeitos incertos das mudanças climáticas, façam com que os governos tenham uma boa oportunidade para cortar os subsídios agrícolas. (AM)

11/07/2012 - 10:11h Brasil é destaque em trabalho da OCDE sobre produtividade

Por Assis Moreira | VALOR

De Genebra

A produtividade da agricultura brasileira cresceu o dobro da média mundial na ultima década, ou cerca de 4% ao ano, segundo levantamento da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que ilustra a potência do setor no país. O rendimento de culturas como milho, arroz e trigo aumentou bem mais do que em países produtores tradicionais, como Estados Unidos, Canadá, Japão e Rússia.

Conforme a OCDE, o aumento da produtividade na agricultura tem convergido entre as principais regiões do mundo para cerca de 2% ao ano depois da Segunda Guerra mundial. No entanto, alguns grandes países como Brasil, China, Indonésia, Rússia e Ucrânia conseguiram taxas muito mais altas, entre 3% e 5% ao ano. O crescimento da produtividade brasileira passou de 0,9% ao ano, em média, entre 1961 e 1970, para 4,04% entre 2001 e 2009. Rússia e Ucrânia, que saíram de níveis baixíssimos, conseguiram altas de 4,29% e 5,35% ao ano, respectivamente, na última década.

No caso dos EUA, um dos maiores produtores mundiais, o ganho médio de produtividade aumentou de 1,21% para 2,26% ao ano na última década. Mas houve um declínio em vários membros da ODCE, como Austrália, Canadá, Coreia do Sul e México. Isso se explicaria pelas mudanças no clima e nas políticas agrícolas, aumento das exigências ambientais e falta de investimento em inovações. A Austrália, por exemplo, diminuiu gastos com pesquisas e desenvolvimento.

A produtividade do trabalho agrícola cresceu mais rapidamente do que a da terra em vários países da OCDE. Já na América Latina e na China, o crescimento foi forte em ambos os casos, com cerca de 4,5% ao ano na China entre 1990 e 2005, e 3% na América Latina. Os índices contrastam com o restante da Ásia e da Africa, que tiveram expansão de apenas 1% ao ano.

O rendimento das principais culturas dobrou ou triplicou no mundo entre 1961 e 2010. A produção por hectare continua aumentando, mas ela não se reflete em alguns cereais que, por sinal, tiveram médias mais baixas nas duas últimas décadas do que as registradas no pós-guerra. Desde 1980, o crescimento no rendimento do trigo e do milho recuou de 2,4% para 1%. O milho subiu ligeiramente para 2% ao ano, mas a soja caiu de 1,6% em 1970 para menos de 1% na década passada no mundo.

Em relação ao Brasil, a produção por hectare de arroz cresceu 3,7% ao ano entre 2000 e 2010. Na Rússia, a alta de 4,8%, nos EUA de 1,2% e no Japão e no México, de apenas 0,3%, no mesmo período. A produtividade do milho cresceu 3,3% ao ano no Brasil, pouco se comparado aos 6% da África do Sul, mas superior aos aumentos dos EUA (1,6%) e do México (2,7%). O trigo registrou aumento na produtividade de 3,2% por ano no Brasil, quase o dobro em relação à década anterior, e acima de Canadá (2,1%), EUA (1,8%) e Rússia (2,5%).

Nas últimas décadas, o uso de terra em agricultura cresceu nas nações em desenvolvimento, mas diminuiu nos países ricos; globalmente, a agricultura representa 70% do uso de água fresca. Nos países da OCDE, a taxa cai para 45%.

10/07/2012 - 10:09h OCDE prevê mais freada, exceto para o Brasil

Por Paul Hannon | Dow Jones Newswires – VALOR

A maioria das principais economias deverá desacelerar nos próximos meses. Apenas o Brasil deverá registrar uma aceleração, segundo os indicadores antecedentes compostos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Os indicadores, que se mostraram confiáveis no passado, representam um golpe a qualquer esperança que ainda havia entre as autoridades do mundo inteiro de uma rápida saída de um período de atividade anêmica. Eles aumentam também a probabilidade de os bancos centrais adotarem novas medidas destinadas a respaldar o crescimento.

O instituto de análise e pesquisa sediado em Paris disse ontem que seu indicador antecedente do nível de atividade econômica dos 34 países desenvolvidos que o compõem caiu para 100,3 pontos em maio, em relação aos 100,4 pontos de abril. Os números, segundo a OCDE, apontam para um “crescimento declinante”.

Seus indicadores antecedentes das economias em desenvolvimento foram ainda mais pessimistas, ao sinalizar “desacelerações” – ou um crescimento inferior à taxa tendencial de longo prazo – para China, Índia e Rússia.

“Os indicadores antecedentes compostos apontam para uma diminuição da atividade econômica na maioria das principais economias da OCDE e para uma desaceleração mais marcante na maioria das principais economias não filiadas à OCDE”, afirmou a organização.

Entre os países desenvolvidos, o principal foco de fragilidade continua sendo a zona do euro, para a qual o indicador antecedente aponta para a persistência da desaceleração. No entanto, as perspectivas das principais economias em desenvolvimento também se enfraqueceram significativamente nos últimos meses.

O indicador antecedente para a China caiu por todos os meses deste ano e voltou a diminuir em maio, para 99,2 pontos, a partir dos 99,4 pontos de abril. Os indicadores antecedentes de Índia e Rússia também estão em persistente trajetória descendente.

Em mais um sinal de que a segunda maior economia mundial está desacelerando, os dados divulgados ontem mostraram que a taxa anual de inflação da China caiu em junho para seu nível mais baixo de quase dois anos e meio.

Os indicadores antecedentes da OCDE são concebidos para fornecer antecipadamente indícios de pontos de inflexão entre a expansão e a desaceleração do nível de atividade econômica. Eles têm como base uma ampla variedade de séries de dados que têm um histórico de indicar modificações do nível de atividade econômica.

A principal exceção à tendência declinante geral foi o Brasil, que teve seu indicador antecedente elevado de 99,0 pontos de abril para 99,2 pontos em maio, o que, segundo a OCDE, é sinal de que o crescimento do país vai se acelerar.

18/06/2012 - 10:05h ‘Crescimento será fraco por cinco a dez anos’

Jason Alden/Bloomberg / Jason Alden/Bloomberg
Gurría, da OCDE: “Se há dois anos a Europa tivesse resolvido o problema da Grécia e feito uma negociação dura com os bancos, não estaríamos onde estamos”


VALOR

A Europa precisa agir rápido, usar os enormes recursos de que dispõe para solucionar a crise do euro, que já se tornou um problema mundial. É o que afirma o secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Angel Gurría, antecedendo a cúpula do G-20 hoje e amanhã no México.

“As maiores economias do continente, que têm a chave da solução, têm que aceitar que a situação é muito perigosa”, disse o mexicano Gurría ao receber o Valor em seu escritório, em Paris. “A situação do setor financeiro na Europa tornou-se urgente. Isso porque não foi feita a reestruturação que deveria ter sido feita antes.”

Gurría, que está no seu segundo mandato à frente da entidade que reúne as economias desenvolvidas, prevê crescimento econômico global medíocre para os próximos anos, mas aponta uma saída: parte da solução virá pelo crescimento verde, como enfatizará esta semana na Rio+20.

Valor: A economia mundial vai se deteriorar mais?

Angel Gurría : O contexto econômico global já se deteriorou bastante. O problema da crise europeia não é mais europeu, é mundial, e a incerteza que ele gera tem criado tensões nos mercados financeiros que se refletem na volatilidade recente do peso mexicano, do real brasileiro, do yuan chinês, da rúpia indiana e de outras moedas emergentes. Quanto o Brasil exporta para a Grécia? Quanto investimento direto o México tem na Grécia? As relações econômicas entres esses países são limitadas, mas as repercussões da crise são imensas dadas as interdependências que existem entre os mercados financeiros. Se há dois anos a Europa tivesse resolvido o problema da Grécia de modo definitivo, se tivesse feito uma negociação dura com os bancos para reduzir a dívida grega, não estaríamos hoje onde estamos, com o risco de o vírus se propagar ainda mais. Hoje, o custo para o resto do mundo desses dois anos de inação tornou-se muito maior do que a dívida total da Grécia.

Valor: O contágio continuará?

Gurría : Mesmo países com perspectivas positivas, como os EUA e os emergentes, estão sofrendo. Estamos prevendo um crescimento modesto para a OCDE como um todo este ano, de cerca de 1,6% na média dos países. Isso quer dizer que a recuperação que está em curso não é suficiente para aumentar oferta de emprego, sanear as finanças públicas e criar demanda de modo sustentável. A Europa continua a perder emprego. Isso é ruim para o Brasil também, não porque o Brasil não esteja preparado, mas porque o resto do mundo vai mal.

“As maiores economias do continente, que têm a chave da solução, têm que aceitar que a situação é muito perigosa”

Valor: O senhor parece cada vez mais frustrado com a gestão da crise europeia, não?

Gurría : Veja, há dois ou três segredos para se lidar com uma crise dessa proporção. Um deles é fazer um diagnóstico apropriado e comunicá-lo sem medo das turbulências que possa causar no mercado. Quem acha que é melhor dar as más notícias em pequenas parcelas, em vez de uma vez só, se dá conta no final de que assim as más noticias não terminam nunca! É o que acontece na Europa, que tem administrado a crise de maneira gradual e incremental. Sejamos justos: isso tem muito a ver com as limitações políticas e institucionais do processo de tomada de decisões na Europa. Mas as maiores economias do continente, que têm a chave da solução, têm que aceitar que a situação é muito perigosa.

Valor: O que fazer no curto prazo?

Gurría : O mais importante no curto prazo, e que provoca frustração, é que a Europa tem os meios institucionais e os recursos financeiros para resolver os seus próprios problemas. A questão é que se tem colocado mais ênfase nos entraves e nas dificuldades que enfrentam os europeus para resolver a crise do que nos meios disponíveis para fazê-lo. É um problema cultural, mas também de estratégia. Os americanos dizem: se para resolver uma crise são necessários US$ 500 bilhões, vamos por US$ 750 bilhões na mesa. Os europeus, se precisam dos mesmos US$ 500 bilhões, põem US$ 200 bilhões na mesa e isso depois de muitas reuniões e discursos. Não quero minimizar as dificuldades de governança na Europa, que são sérias. Os líderes europeus têm que gastar muito capital político e precisam de muita persuasão para transmitir a mensagem de que há custos de curto prazo que são necessários para assegurar estabilidade no médio e longo prazos, mas também para evitar custos ainda maiores.

Valor: A pressão vai aumentar sobre a Itália?

Gurría : Isso já está acontecendo, e não é a primeira vez. A Grécia tem sido o epicentro da crise, mas também a fronteira. Mas no momento em que o vírus se propaga, países como a Espanha e a Itália ficam ameaçados, apesar de as condições serem bastante diferentes nesses países. Um exemplo: a dívida pública bruta da Espanha deve ficar em torno de 88% do PIB no fim deste ano, cifra bem abaixo dos 120% da Itália. Os vencimentos da dívida pública italiana serão o dobro dos da espanhola nos próximos 12 meses. Além disso, os espanhóis já fizeram várias reformas estruturais que são absolutamente necessárias para fortalecer o crescimento, o mercado de trabalho e a produtividade. Mas a Itália ainda não. Mario Monti é o homem certo, no lugar certo, na hora certa. Mas a situação política italiana é muito peculiar, com um governo tecnocrático, que não foi eleito e que não tem maioria no parlamento. Se a percepção de risco soberano aumenta, o custo de financiamento da dívida aumenta e a situação fiscal torna-se bastante desconfortável. Estamos todos os dias enfrentando esse problema. É bastante frustrante. Sabemos que, politicamente, como o custo da crise aumenta, torna-se cada vez mais difícil vender uma solução para a opinião pública e os parlamentos.

Valor: E a situação dos bancos?

Gurría : A situação do setor financeiro na Europa tornou-se urgente. Isso porque não foi feita a reestruturação que deveria ter sido feita. Há problemas nos bancos em muitos países. Os EUA tomaram decisões muito mais vigorosas, contundentes, e aí está uma grande diferença em relação à Europa, como disse antes. É importante recapitalizar os bancos para reduzir os prêmios de risco da dívida soberana. Temos que enfrentar os dois problemas – dos bancos e da dívida soberana. Não podemos abordar um problema deixando de resolver o outro. No caso da dívida, a grande questão é até que ponto os contribuintes europeus estão dispostos a transformar uma dívida privada em dívida pública.

“O que frustra é que a Europa tem os meios institucionais e os recursos financeiros para resolver os seus problemas”

Valor: Qual cenário afinal o senhor vê para a zona do euro nos próximos meses?

Gurría : Mesmo se agora forem tomadas todas as decisões difíceis, política e financeiramente necessárias, a implementação vai levar um bom tempo. A questão não é o ponto final, é o ponto inicial. Trata-se de criar as condições necessárias para enfrentar os problemas de uma vez por todas. A mensagem deve ser de vontade política. Países como os EUA, a China, o Brasil, a Índia, podem contribuir ao argumentar que estão enfrentando problemas por causa da crise da zona do euro, mas que também estão dispostos a ajudar, por exemplo por meio do FMI, do G-20.

Valor: Globalmente, a crise do crescimento demorará muito?

Gurría : Para os próximos cinco a dez anos projetamos um crescimento fraco nas economias centrais, alto desemprego, desigualdades, déficit e endividamento público altos. E uma perda crescente de margem de manobra. Falamos muito da Europa. Mas imagine o Japão, com uma dívida pública que deve chegar a quase 225% do PIB este ano. Façamos uma conta simples: os juros japoneses hoje são quase zero, mas se essa taxa subir para 2%, isso significa o equivalente a quase 4,5% do PIB a mais somente no pagamento de juros sobre a dívida pública. É gigantesco. Na América Latina, aprendemos com nossos erros, fortalecemos as finanças públicas, saneamos os bancos, implementamos várias reformas estruturais para reforçar as bases do crescimento. Mas outros países estão explorando limites macroeconômicos desconhecidos, em situação de muita vulnerabilidade. Nos EUA, o ajuste fiscal programado para o curto prazo, com cortes automáticos de despesas e a reversão dos benefícios fiscais introduzidos após a crise, o chamado “penhasco fiscal”, ou “fiscal cliff”, pode comprometer seriamente a recuperação da economia americana.

Valor: Ou seja, temos um coquetel perigoso pela frente.

Gurría : Sim, basta ver como as desigualdades também estão aumentando. Um estudo recente nosso, “Divided We Stand”, mostra que a relação entre a renda média dos 10% mais ricos e dos 10% mais pobres passou de 7 para 9 vezes em 25 anos, na média dos países da OCDE. Nos EUA, a diferença é de 14 vezes. No México e no Chile, é de 25 vezes. Entre os Brics, somente o Brasil conseguiu reduzir substancialmente a desigualdade, mas a diferença de renda entre ricos e pobres ainda é de 50 para 1, de longe mais desigual do que em qualquer país desenvolvido.

Valor: Como avançar as reformas estruturais que a OCDE propõe em plena recessão?

Gurría : Sem mudanças estruturais estamos condenados a um médio e longo prazo realmente medíocre, difícil. Com certeza, fazer reformas, como no mercado de trabalho, é muito mais penoso e desafiador nessa situação. O problema é que os mercados estão muito, muito atentos sobre se os países vão ou não fazer as reformas consideradas necessárias. Além disso, uma lição importante da crise é que as políticas estruturais têm que levar em conta as suas consequências distributivas, para não aumentar a desigualdade. A OCDE tem ressaltado essa questão cada vez mais nas suas análises e no nosso diálogo com os países. Uma boa notícia é que os custos de curto prazo de várias reformas estruturais são muitas vezes menores do que se imagina, sobretudo quando acompanhadas de medidas complementares para amortecer esses custos.

Valor: O mercado se impõe aos governos, e os governos precisam obedecer?

Gurría : Os mercados dão crédito aos governos que implementam as medidas necessárias para resolver os seus problemas e que têm determinação política para fazê-lo. A capacidade de ação tem o seu prêmio, assim como a inação tem o seu custo.

Valor: A OCDE leva para a Rio+20 a iniciativa do crescimento verde. Mas quem paga pela transição? O custo não freará a expansão das economias emergentes?

Gurría : Não nos iludamos. O crescimento verde é o único tipo de crescimento que vamos ter no futuro. Ele é sustentável, e além disso é a única forma de desenvolvimento que incentiva a inovação, gera novas fontes de crescimento econômico, cria novos mercados e emprego de qualidade. E, mais importante ainda, não há contradição entre crescimento verde e crescimento sustentável. O crescimento verde é um meio para alcançar o crescimento sustentável, baseado em instrumentos e políticas adequados às necessidades e condições nacionais.

Valor: Mas quem financia a redução da emissão de monóxido de carbono nas economias, ainda mais quando se está em crise?

Gurría : Como nas finanças públicas, nós conhecemos o custo da inação na área ambiental. E o custo de não fazer nada é bastante alto. Se as economias não se tornarem mais sustentáveis dos pontos de vista ambiental e social, o futuro será sombrio. Nosso estudo “Perspectivas para o Meio Ambiente” mostra que, se não fizermos nada, e mantivermos as políticas públicas como estão, sem um maior foco no meio ambiente até 2050, o mundo contará com mais 2,3 bilhões de pessoas, quase 40% da humanidade, vivendo em áreas com sérias carências em água. O impacto das mudanças climáticas será mais sério entre os mais pobres. Nessas condições, como garantir o progresso econômico, humano e social dessas populações?

Valor: Como se manifesta concretamente o crescimento verde que a OCDE propõe?

Gurría : Mudando o nosso modelo de crescimento e tornando-o mais verde e mais inclusivo é a única estratégia crível que temos. Isso pode desbloquear oportunidades de crescimento econômico, ao contribuir para gerar receitas e liberar recursos para programas anti-pobreza, pelo aumento da produtividade por meio de uma maior eficiência no uso dos recursos naturais, por meio da abertura de novos mercados para as tecnologias verdes, produtos e serviços. Avançar em direção de crescimento mais verde pode ajudar a garantir que o crescimento futuro está blindado de gargalos custosos e de riscos sistêmicos decorrentes das pressões sobre o ambiente, que de outra forma poderiam prejudicar a atividade econômica e o bem estar humano. Cada país precisa desenvolver e adaptar uma estratégia às suas próprias necessidades nacionais e estágio de desenvolvimento. Crescimento tem que levar a uma redução nas desigualdades e as tensões que isso gera.

Valor: Com relação ao Brasil, o senhor continua esperando que entre para a OCDE?

Gurría :O Brasil está convidado desde 2007 e está muito bem preparado para se integrar à OCDE. Nós já trabalhamos muito com o Brasil, mas a decisão quanto a uma possível adesão depende do Brasil. Não temos vergonha de dizer que a OCDE deseja, precisa do Brasil, da China, da Índia, da Indonésia, da África do Sul. Com o Brasil é mais fácil avançar em políticas globais em áreas tão diversas como o comércio, o meio ambiente, a luta contra a pobreza, enfim todos os grandes temas que preocupam os líderes mundiais.

22/05/2012 - 09:07h Brasileiro é mais feliz que ricos, diz pesquisa

Por Assis Moreira | VALOR

De Paris

O brasileiro é mais feliz do que as pessoas que vivem nos países ricos, apesar de o país se situar apenas na 32ª posição entre 36 no “Índice para Viver Melhor”, da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O Brasil fica atrás de todos os países desenvolvidos no índice, somando 11 indicadores com o mesmo peso, indo de renda a emprego, satisfação de vida e segurança, para capturar a diversidade da sociedade e as prioridades de cada um.

No entanto, no que é mais comparável, o Brasil fica na frente de Rússia, Turquia, México e China. “O Brasil está relativamente bem, há uma melhor dimensão de bem-estar no país”, diz Romina Boarini, assessora da OCDE.

A entidade anunciará hoje a entrada do Brasil no índice, lançado no ano passado, e pelo qual espera ajudar cada cidadão a avaliar e comparar a sua própria qualidade de vida, por meio de instrumentos que vão além das tradicionais estatísticas do Produto Interno Bruto. Sem surpresa, a Dinamarca e o Canadá lideram o ranking.

Quando perguntados se estavam satisfeitos com sua vida, numa escala de zero a dez, a resposta dos brasileiros foi de 6,8 na média, ante 6,5% no caso de pessoas de países ricos.

Um indicador que reflete a satisfação dos brasileiros é o vínculo social. Mais de 91% acham que podem contar com os amigos em caso de necessidade, ante 82% no México e 90% nos países ricos.

Os brasileiros dizem ser bem integrados socialmente. Ao mesmo tempo, o Brasil é o país com maior número de homicídios entre os 36 pesquisados. São 36 mortes por 100 mil habitantes, em comparação com a média de 2,1 na OCDE.

Também o número de agressões físicas declaradas no ano precedente da pesquisa é grande, de 9,4% dos consultados, só atrás do México, com 11%. Na OCDE, o percentual foi de 4%. A esperança de vida no Brasil, de 73 anos, é inferior à dos países da OCDE, de 80 anos, em média.

Por outro lado, o Brasil destaca-se na participação no mercado de trabalho, com mais de 68% da população entre 15 e 64 anos empregados, em comparação com 66% nos países ricos. A diferença é que 80% dos homens e 56% das mulheres trabalham. Nos ricos, a taxa é de 70% e 66%, respectivamente.

Na harmonia entre trabalho e vida privada o quadro é outro: 12,5% dos brasileiros pesquisados dizem trabalhar mais de 50 horas por semana, em comparação com 9,5% na média da OCDE.

A renda do brasileiro melhorou, mas em termos de paridade de poder de compra fica ainda em US$ 2 mil per capita, enquanto quem mora num país rico recebe, em média, US$ 22 mil. O número de residências sem equipamentos sanitários é seis vezes maior nos países ricos do que no Brasil.

No Brasil, 41% das pessoas dizem ter estudado até o segundo grau, em comparação com 74% nos países desenvolvidos. O índice mostra também, conforme Romina Boarini, que os brasileiros estudam cada vez mais, reduzindo um atraso histórico. “O índice não traz um ranking único, depende de cada utilizador usar os indicadores que acha importantes”, diz ela.

13/12/2011 - 08:21h Crise nos países ricos contagia as principais economias emergentes

Por Assis Moreira e Alex Ribeiro | VALOR

De Genebra e Washington

A forte queda na produção industrial da Índia, divulgada ontem, após dados similares relativos a Brasil e China, confirma que as principais economias emergentes estão em desaceleração, contagiadas pela crise nos países ricos.

A produção industrial da Índia caiu 5,1% em outubro, comparado ao mesmo mês de 2010, na primeira contração observada em mais de dois anos. Ainda ontem, o México divulgou que sua produção industrial caiu 0,54% em outubro, em relação a setembro, apesar de ainda manter alta de 3,3% nos últimos 12 meses.

Na semana passada, o IBGE divulgou números que mostram que a economia brasileira ficou estagnada no terceiro trimestre, comparado com o período imediatamente anterior, numa forte desaceleração em relação ao crescimento de 7,5% observado em 2010. O indice de atividade industrial da China caiu para 49 em novembro, ante 50,4 em outubro, o que já indica contração do setor, no pior resultado desde o início de 2009. No sábado, a China relatou ainda uma forte queda de seu superávit comercial em novembro, de US$ 17 bilhões para US$ 14,5 bilhões.

“A situação [dos emergentes] tende a piorar, porque a crise é na Europa, EUA e Japão, e os três juntos perfazem 70% da produção mundial”, afirmou o economista-chefe da Agência da ONU para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), Heiner Flassbeck.

“Os emergentes estão longe de serem imunes à crise da zona do euro, especialmente nas manufaturas”, disse Chris Williamson, economista-chefe da consultoria britânica Markit, especializada em monitorar a atividade industrial globalmente. As exportações de bens estão sob pressão por causa da demanda em baixa, principalmente dos países mais endividados da Europa, que agora aplicam novas medidas de austeridade.

Essa desaceleração já começa a repercutir nas projeções para os países emergentes. A empresa de avaliação de risco de crédito Fitch Ratings reduziu em 0,4 ponto percentual, para 6,3%, a sua projeção para o crescimento dos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) em 2012. Para 2011, a projeção é expansão de 6,7%, abaixo dos 8,4% observados no ano passado.

Coletivamente, o crescimento econômico dos emergentes desacelerou para cerca de 6% em novembro, bem abaixo dos dois dígitos do começo do ano. Antes da recessão, esse crescimento fraco dos emergentes não ocorria desde metade de 2003. A desaceleração tem sido evidente no Brasil, na China e na Índia, mas também em economias como Coreia do Sul e Taiwan.

A perda de dinamismo nas economias emergentes se deve, de um lado, ao contágio da crise da Europa, que tornou investidores mais avessos a riscos. Também é resultado, de outro lado, de políticas monetária e macroprudenciais mais restritivas postas em prática por alguns países, como Brasil, Índia e China, para conter pressões inflacionárias e combater o surgimento de bolhas nos seus mercados.

“É a cada dia menor o número de economias emergentes que mostram alguma resistência”, afirma o estrategista-chefe para mercados emergentes do banco Societe Generale, Benoit Anne.

Uma rara exceção positiva é a Turquia, que divulgou ontem uma expansão de 8,4% no terceiro trimestre (leia texto abaixo).

O temor sobre o impacto de menor crescimento no mundo desenvolvido sobre os emergentes se intensificou em agosto, e só aumentou desde então. Com a expansão nos ricos próxima de 1% no momento, e pouco espaço de melhora para o ano que vem, o crescimento dos emergentes “inevitavelmente será contido por algum tempo”, disse Williamson.

A expectativa nos mercados é de que mais bancos centrais nos emergentes vão baixar os juros para promover o crescimento, como já vem fazendo o Brasil. É o que se espera na India, onde a manutenção do aperto monetário, devido à inflação em alta, claramente afetou a atividade industrial na terceira maior economia da Asia.

“A produção industrial na China também vem caindo, especialmente na indústria pesada, que precisa de muita energia”, diz Qinwei Wang, da Capital Economics, de Londres. A produção chinesa cresceu 12,4%, abaixo do 13,2% anterior e o mais baixo nivel desde meados de 2009. Isso ocorreu por duas razões: queda nas exportações e na construção civil.

“A queda de novembro na inflação, produção industrial e nos investimentos fez o governo chinês falar de politica monetária prudente, mas que na prática já vem sendo flexibilizada”, diz o analista.

Para Flassbeck, da Unctad, os emergentes vão ser mais afetados à medida que as três grandes economias – Europa, EUA e Japão – estão quase em recessão. Os resultados nos EUA foram menos ruins no terceiro trimestre porque os consumidores começaram a usar a poupança. No Japão, o consenso é de que os estímulos para recuperação do desastre do tsunami já estão se esgotando. E na Europa, a cúpula na semana passada acertou mais cortes de gastos, o que “piora a situação” para os emergentes.

O Instituto Internacional de Finanças (IIF) continua a projetar sólido crescimento na demanda doméstica nos emergentes em 2012-13. Muito desse vigor representa “um processo de longo prazo de convergência economica”. Os emergentes estão num processo de crescimento da classe média.

Países têm margem para estímulo

Por De Washington

Os países emergentes, com a exceção da Índia, ainda têm bastante munição para estimular as suas economias no caso de uma desaceleração mais prolongada. Mas seu crescimento, daqui por diante, será bastante dependente da duração e da intensidade da crise na Europa.

“A China é o país que tem mais espaço para adotar medidas de estímulo à sua economia”, afirma o estrategista-chefe para mercado emergentes do banco Societe Generale, Benoit Anne. “O Brasil também tem bastante margem de manobra para cortar juros.”

Essa é uma diferença crucial, afirma ele, em relação à situação de economias avançadas, como Europa, Estados Unidos e Japão, que já estão com taxas de juros próximas de zero e já não têm mais espaço para adotar medidas fiscais de estímulo às suas economias.

O forte poder de reação dos emergentes, porém, não significa que essas economias estão imunes ao que acontece na Europa. Seu crescimento será prejudicado enquanto se prolongarem as incertezas no Velho Continente, diz Anne.

O Brasil e a China promoveram um ciclo de aperto monetário no último ano para combater o superaquecimento de suas economias, a aceleração inflacionária e a criação de desequilíbrios em seus mercados financeiros. No caso do Brasil, houve alta de juros e o uso de instrumentos macroprudenciais, como limites à expansão da carteira de crédito dos bancos. Na China, foram impostos limites quantitativos á expansão de crédito.

A desaceleração nas economias emergentes é apenas cíclica, o que significa que elas tem grande potencial para voltar a crescer assim que o pior da crise passar, atraindo investimentos estrangeiros. “O desempenho dos países emergentes continuará a ser superior ao das economias avançadas”, afirma Anne. “Esse fato não muda nos próximos anos.”

Entre os Bric, a India é a que tem menos espaço para medidas de estímulo. O dado negativo divulgado ontem foi acompanhado da desvalorização do câmbio, reforçando uma tendência de fuga de capitais de longo prazo que vinha ocorrendo já há algum tempo. “Há um movimento de aversão de risco na Índia”, afirma Anne. As pressões inflacionárias que atingem a India, reforçadas pela desvalorização cambial, diminuem o espaço para o corte de juros. (Alex Ribeiro)

Atividade nos países ricos segue caindo, diz a OCDE

Por Agências internacionais

As maiores economias do mundo continuam se desacelerando, mas a taxas diferentes, disse ontem a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). O índice de indicadores econômicos antecedentes do bloco formado por 34 países recuou de 100,4 em setembro para 100,1 em outubro.

Esse foi o oitavo declínio mensal consecutivo, indicando que o arrefecimento da atividade apresentado pelos países desenvolvidos desde o terceiro trimestre do ano passado deverá continuar.

A OCDE disse, no entanto, que há sinais de que algumas economias não terão um desempenho tão ruim quanto outras. Na avaliação da entidade, Brasil (que não faz parte do bloco), França, Alemanha, Índia, Itália, Reino Unido e a zona do euro como um todo deverão apresentar resultados mais fracos do que a tendência de longo prazo, enquanto a atividade no Japão e na Rússia deverá permanecer acima dessa tendência.

“Os indicadores antecedentes do Canadá, China e EUA continuam apontando para desacelerações da atividade econômica em torno das tendências de longo prazo, mas apenas com declínios marginais em comparação com o mês anterior”, disse a OCDE.

Também ontem, o banco Standard Chartered divulgou uma previsão pessimista sobre as economias do Reino Unido e da zona do euro. Economistas da instituição afirmaram que o PIB na região deve se contrair mais do que o esperado no ano que vem.

Para a zona do euro, a estimativa do banco é de uma retração de 1,5% do PIB em 2012. O banco previu que a economia britânica encolherá 1,3% no ano que vem, contra estimativa anterior de 0,6%.

Segundo a instituição, o agravamento da crise em economias desenvolvidas, sobretudo na zona do euro, levou a uma revisão de suas estimativas.

A estimativa do banco é mais pessimista do que a da maioria dos analistas. O governo britânico havia previsto uma contração de 0,9% do PIB em 2012. Em novembro, o Tesouro do país divulgou um levantamento com previsões para a economia no ano que vem, e o índice variou entre uma queda de 0,4% e alta de 2,3%.

O Standard Chartered previu um “triplo choque” na economia europeia, que incluirá queda de investimentos e gastos de consumidores, aperto no crédito e restrições orçamentárias no continente.

06/12/2011 - 09:37h Países ricos têm maior desigualdade em 30 anos

Dados da OCDE revelam que no Brasil os mais ricos detêm renda 50 vezes superior às classes mais pobres, mas que país avança na redução da desigualdade

06 de dezembro de 2011

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE/ GENEBRA – O Estado de S.Paulo

A desigualdade social nos países ricos atingiu seu ponto mais alto em mais de três décadas. O alerta é da OCDE que revela ainda que o Brasil foi o único país dos Brics a começar a reduzir sua desigualdade. Em proporção a seu PIB, o País gasta já mais em política social que os EUA. Ainda assim, os mais ricos no Brasil têm renda 50 vezes superior à classe mais pobre e uma diferença social cinco vezes superior à média dos países ricos.

Os dados avaliam apenas a situação social dos países ricos até 2008, quando a crise econômica eclodiu, e a percepção é de que ela seria ainda pior hoje. Mas, segundo a OCDE, os dados disponíveis já mostram a fadiga do sistema de bem-estar social, mesmo durante anos em que a economia mundial crescia e havia um sentimento de euforia nos mercados.

Em média, a renda dos 10% mais ricos da população é nove vezes superior à média dos 10% mais pobres. Mas o que mais surpreende a OCDE é que a desigualdade também aumentou na Alemanha, Dinamarca e Suécia. Em 1980, a parcela mais rica da população ganhava cinco vezes mais que os mais pobres. Hoje, essa proporção é de seis vezes.

Dos 22 países considerados como ricos, 17 sofreram uma alta de sua taxa de desigualdade social. Em 30 anos, a elevação atingiu até mesmo a Alemanha, Finlândia e Suécia, com alta de 4%.

No Japão, Itália e Reino Unido, a proporção da renda dos ricos é de dez vezes mais que a da camada mais pobre, enquanto Israel e Estados Unidos tem uma taxa de 14 vezes superior. Nos últimos 20 anos, o 1% mais rico da população americana dobrou seu peso no PIB do país, atingindo hoje 17%. Ao mesmo tempo, a camada dos 20% mais pobres passou a representar apenas 5% do PIB americano, contra 7% há 20 anos.

Na Espanha, com a elite com renda 11 vezes superior à classe pobre, a disparidade foi reduzida, assim como ocorreu na Grécia. Mas dados da UE de 2010 e que não fazem parte do relatório da OCDE apontam para uma explosão na desigualdade diante de um desemprego de 22% entre os espanhóis e 17% entre os gregos.

” O contrato social está começando a ser desfeito em muitos países”, alertou o secretário-geral da OCDE, Angel Gurria. Segundo ele, é a desigualdade cada vez maior entre salários que tem gerado essa situação, além de uma crise na capacidade do Estado de bancar a diferença para a classe menos favorecida.

Outro problema seria a carga tributária. A OCDE pede que países ricos aumentem impostos sobre a classe mais rica, justamente para conseguir promover maior equilíbrio nas sociedades. “Não há nada de inevitável nessas taxas”, alertou Gurria.

Além de impostos, a OCDE pede que trabalhadores sejam melhor formados para permitir melhores salários.

Brasil e Brics. Se a desigualdade aumenta na Europa, Estados Unidos e Japão, a OCDE faz amplos elogios aos esforços do Brasil para reduzir as disparidades. Segundo a entidade, nos últimos 30 anos, o Brasil foi o único país dos Brics que viu uma queda da diferença de renda.

Na Índia, 47% da população ainda ganha menos de US$ 1,25 por dia, realidade que já foi praticamente erradicada na Argentina e Rússia. Na China, apesar da explosão da renda, a constatação foi um aumento exponencial das diferenças sociais em um país comunista.

O Brasil não deixa de ser o segundo país mais desigual entre os Brics, superado apenas pela África do Sul. Em meados da década, a parcela dos 20% mais ricos ainda tinham 60% do PIB nacional. Os mais ricos tem uma renda 50 vezes superior aos mais pobres.

Gastos sociais. Mas o Brasil é o único que amplia de forma importante seus gastos sociais. Hoje, o Brasil destina à área social 75% do que um país rico reserva para esses objetivos. Na China, os gastos sociais são de quatro a cinco vezes inferior.

O Brasil destina cerca de 16% de seu PIB a gastos sociais, abaixo da média de 19% dos países da OCDE e bem inferior ainda aos 25% destinados pelos governos escandinavos à área social. Mas os gastos brasileiros já estariam acima dos gastos dos Estados Unidos. O Brasil ainda empata com a Irlanda e fica perto do Canadá.

O maior beneficiário desses gastos sociais tem sido a classe média e mais baixa, inclusive com o incremento do salário mínimo para níveis equivalente a dos países ricos em comparação a seu PIB.

Entre os Brics, a população rural brasileira é a única que teve ganhos, de cerca de 40% desde os anos 90. A situação é bem diferente na China e Índia, onde as desigualdades aumentaram e o acesso a serviços não seguiu o crescimento da economia.

No Brasil, porém, só 30% dos desempregados têm direito a benefícios sociais, ante média de 48% nos países ricos (quase 100% na Alemanha). O Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) é de fato “generoso”, diz a OCDE. Mas, para atingir um número maior de pessoas, o sistema teria de ser refeito.

28/11/2011 - 09:47h OCDE critica política industrial do Brasil

28 de novembro de 2011

DANIELLE CHAVES – Agencia Estado

BRASÍLIA – A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) criticou a política industrial recentemente anunciada pelo governo brasileiro e disse que o Brasil precisa fazer mais para melhorar a competitividade. O plano chamado Brasil Maior, anunciado em agosto, “pode fornecer alívio de curto prazo” para companhias manufatureiras, mas “não será suficiente para reduzir a desvantagem de custo da produção no Brasil”, disse a OCDE em seu relatório sobre perspectivas econômicas publicado hoje.

“Mais reformas no sistema fiscal e para estimular o investimento em infraestrutura são urgentemente necessárias”, disse a organização. A OCDE tem 34 membros e monitora mais seis países que não integram o grupo, o que inclui o Brasil. Entre esses países não membros, “a reforma fiscal seria particularmente urgente no Brasil”, segundo o relatório.

A OCDE reduziu sua previsão para crescimento do Brasil neste ano e no próximo, apenas um mês depois de divulgar suas estimativas mais recentes. O Produto Interno Bruto (PIB) deve crescer 3,4% neste ano, menos do que os 3,6% previstos anteriormente, e 3,2% em 2012, em vez de 3,5% como estimado antes. Em 2013, porém, a expansão deverá aumentar para 3,9%.

A queda das exportações deverá manter o crescimento econômico abaixo das taxas potenciais, de cerca de 3,5% a 4,0% por ano, segundo a OCDE. As exportações têm sido prejudicadas pela valorização do real e pelo recente enfraquecimento dos mercados externos.

A demanda doméstica, estimulada pelo aumento do emprego e dos empréstimos para consumo, será a principal fonte de crescimento para o País nos próximos anos, de acordo com o relatório. O crescimento mais lento deverá ajudar a reduzir a inflação anual para cerca de 4,5% até 2013, de 6,69% em meados de novembro deste ano.

Com a inflação em tendência de baixa, o Banco Central do Brasil tem espaço para continuar reduzindo a taxa básica de juros, especialmente se a situação econômica no exterior piorar. A OCDE afirmou que o limite nos gastos do governo também está ajudando a diminuir as pressões inflacionárias e deverá continuar nos próximos anos colaborando para colocar as contas do governo em um caminho mais sustentável.

A OCDE comentou também que a turbulência nos mercados financeiros ampliou a volatilidade dos movimentos da taxa de câmbio no Brasil e “os mercados podem ter reagido a um inesperado afrouxamento da posição monetária” do Banco Central. O BC reverteu o curso monetário abruptamente em agosto e começou a cortar a taxa básica de juros em resposta à desaceleração econômica, especialmente no exterior.

“As autoridades monetárias intervieram para evitar movimentos desordenados no câmbio”, afirmou a OCDE. As informações são da Dow Jones.

27/10/2011 - 10:30h Reforms are essential for Brazil to build on recent success, says OECD

Enviado pelo leitor Eduardo

26/10/2011 – The Brazilian economy has made a rapid recovery from the global economic crisis, but further reforms are necessary to boost long-term growth, spur investment and further reduce poverty, according to the OECD’s latest Economic Survey of Brazil.

“Sound economic policies have helped Brazil weather the global financial crisis, but even more remarkable is the unprecedented progress being made on social goals including poverty reduction and inequality,” said  the OECD Secretary-General, Angel Gurría. “We believe Brazil can achieve still higher, and more inclusive, growth over the medium term, provided policymakers meet the key challenges facing the economy by building momentum for further reforms.”

The report projects that GDP growth will slow to less than 4 percent over the coming two years, which is below trend rates of 4.5 percent annually, but well above the average for OECD countries.

Restraining inflation, currently above the upper end of Brazil’s 2.5-6.5%  target range, without exerting upward tension on the exchange rate is the most immediate macroeconomic challenge. The use of various policy measures to smooth exchange rate volatility – including those that temporarily restrain short-term capital inflows – are understandable given the uncertainty facing the global economy, but Brazil should rely more prominently on fiscal consolidation, the report says.

Spending cuts announced earlier this year, combined with the establishment of budget surplus targets for the coming three years, are welcome, and the government should continue in this direction, the OECD said. The Bolsa Familia cash transfer programme has been highly successful in the fight against child poverty, and should be maintained and even extended.

Access the complete data

The Survey focuses on the steady increase in the value of the Brazilian real in recent years, which has created concern over long-term competitiveness. The report points out that part of the currency appreciation has come in response to international growth and inflation differentials, and counsels against efforts to fully offset the rise.

Looking ahead, the Survey points out the importance of boosting investment rates, which are low by international comparison. Reforming the pension system and deepening long-term financial markets would help spur investment, as would lower tax burdens and policies aimed at achieving lower interest rates.

Brazil should prioritise infrastructure spending, which is crucial for long-term growth and social inclusion, while shielding it from government spending cuts, the report said.

Further information in the OECD Economic Survey of Brazil is available at: www.oecd.org/eco/surveys/brazil.

Journalists seeking further information should contact the OECD Media Division: news.contact@oecd.org, +33 1 45 24 97 00 .

14/06/2011 - 12:36h OCDE sobre plan de Ollanta Humala: programa ‘Pensión 65′ es acertada para combatir la pobreza

LA REPÚBLICA

OECD: programa 'Pensión 65' es acertada para combatir la pobreza

El economista jefe de la Oficina para las Américas de la  Organización para la Cooperación y el Desarrollo Económico (OCDE), Jeff Dayton, dio a conocer que casi el 50% de la población en el Perú pertenece a la clase media; sin embargo, la elevada informalidad que hay en el país la vuelve muy vulnerable en relación a otros países de la región.“Con el crecimiento tan fuerte que ha habido mucha gente, muchos hogares han podido salir de la condición de pobreza, pero trabajan en el empleo informal por ejemplo, así que cuando pierden su empleo van a caer de nuevo en pobreza”, explicó.

El analista de la OECD indicó que los gobiernos pueden combatir tal vulnerabilidad a través de programas de protección social, educación y una política fiscal que permita generar los recursos necesarios. Y en ese sentido consideró acertada una propuesta como Pensión 65.

“Hay ejemplos en otros países que han funcionando. Son muy eficaces para luchar contra la pobreza y la experiencia de Chile lo demuestra. Yo no sé cual es el alcance que tendrá este programa en Perú, a veces son caros, pero sí es una herramienta que ha funcionado en otros países”, comentó.

La OECD, grupo de los países con mayor bienestar económico, advierte que los servicios públicos deben ser de calidad, pues de lo contrario los estratos medios los satisfacen pagando servicios privados. Esto, sin embargo, desalienta el pago de impuestos.

08/12/2010 - 08:09h Houve avanços, mas há necessidade de investir no professor

Análise: Jorge Werthein – O Estado de S.Paulo

O relatório Pisa 2009 traz a boa notícia do avanço do Brasil, fruto de um esforço que precisa ser reconhecido. Sabemos o quanto é difícil avançar num país com as dimensões do Brasil, com políticas descentralizadas. E o documento da OCDE mostra a necessidade de um conjunto coerente de medidas para que ocorra uma transformação para melhor. Educação é responsabilidade compartilhada: não depende só do presidente da República e do ministro da Educação dizerem que ela é prioritária. Isso deve ser dito e assumido por todos os responsáveis pela implementação das políticas educacionais nos Estados e municípios.

Enquanto festejamos esse avanço, temos de atentar para os desafios que persistem. Temos mais de 50% dos estudantes na faixa dos 15 anos com níveis 1 e 2 de proficiência em leitura, de uma escala com seis níveis. A situação é pior na área de matemática: apesar da redução de seis pontos no número de estudantes com baixa performance, ainda estamos com 69% deles nos níveis 1 e 2.

Em ciências, o avanço foi semelhante ao do desempenho em matemática, mas 54% dos estudantes ainda estão nos níveis inferiores, incapazes de identificar um tema científico dentre diversos outros. Temos de reforçar o currículo de ciências. O relatório reafirma o papel da educação no desenvolvimento sustentável das nações.

O Pisa 2009 nos chama atenção para o papel fundamental do principal agente nesse esforço por maior qualidade e equidade na educação: o professor. O relatório insiste na necessidade da excelência em sua formação, no reconhecimento social de sua tarefa, da importância da sua carreira e da retribuição aos seus esforços. E aponta a importância de levar os melhores professores às escolas e aos alunos com maiores dificuldades. Essa seria uma das maneiras mais rápidas e eficientes de romper o círculo vicioso da reprodução das desigualdades no sistema educacional.

Soluções para a educação podem parecer difíceis e demoradas, mas não precisam ser assim. E essa é outra revelação que o relatório faz: há exemplos de locais que cresceram espetacularmente no Pisa em prazos menores, em seis anos, como Xangai/China, Polônia e Catar. Os esforços em todo o mundo mostram que a melhoria da qualidade da educação é um desafio mundial. Podemos, portanto, nos sentir bem acompanhados e felizes pelo fato de estarmos no caminho certo. Mas temos de reconhecer que, nessa corrida global, os parceiros também avançam.

É DOUTOR EM EDUCAÇÃO POR STANFORD, FOI REPRESENTANTE DA UNESCO NO BRASIL E É VICE-PRESIDENTE DA SANGARI NO BRASIL

08/12/2010 - 07:48h Educação brasileira melhora nota em avaliação da OCDE

Agência Brasil, VALOR

de Brasília

O Brasil está entre os três países que alcançaram a maior evolução no setor educacional na última década, apontam os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) de 2009. Mesmo com a melhora, o país ainda está entre aqueles com piores notas

A prova é aplicada a cada três anos pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e avalia o conhecimento de estudantes de 15 anos de idade em matemática, leitura e ciências. No ano passado, participaram 65 países.

O Brasil ingressou no Pisa em 2000. Desde então, a média entre as três provas – leitura, matemática e ciências – subiu de 368 para 401 pontos. Nesse período, apenas dois países conseguiram melhorias superiores aos 33 pontos alcançados pelo Brasil: Chile (mais 37 pontos na média) e Luxemburgo (mais 38 pontos). Na média, os países-membros da OCDE ficaram estagnados de 2000 a 2009.

O Brasil estabeleceu metas de melhorias no Pisa, como as que já existem para o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Para 2009, o objetivo era atingir 395 pontos, o que foi superado. Em 2021, o país precisa alcançar 473 pontos, média dos países da OCDE.

Apesar de ter melhorado sua participação no Pisa na última década, o Brasil ainda ocupa os últimos lugares no ranking entre os 65 países que fizeram o exame em 2009. Os alunos brasileiros ficaram em 53º em ciências e português e em 57º em matemática. No topo do ranking, considerando a média entre as três disciplinas, está a província de Xangai (577 pontos), na China, que por ser autônoma participa do Pisa de forma independente. Em seguida vêm Hong Kong (546), Finlândia (543), Cingapura (543) e o Japão (529).

Os países-membros da OCDE atingiram em média 496 pontos, 95 a mais do que o Brasil. Na lanterna estão Albânia (384 pontos), Qatar (373), Panamá (369), Peru (368) e Quirguistão (325). Para o ministro da Educação, Fernando Haddad, o fato de o Brasil ainda ocupar posições finais no ranking não significa que o país está entre os piores do mundo em educação. “Não é o mundo que participa do Pisa, mas o mundo desenvolvido. Praticamente não existe nenhum país com Pisa melhor que o do Brasil que não tenha renda per capita muito superior à nossa, com exceção da Tailândia. ”

Os resultados do Pisa confirmam o que as avaliações internas já indicam há bastante tempo: o desempenho dos alunos da rede pública é inferior ao de estudantes de instituições privadas. Enquanto a média alcançada por eles em escolas particulares foi de 502 pontos, nas públicas foi de 387 pontos.

07/12/2010 - 11:24h Brasil tem 3ª maior evolução no Pisa, mas matemática ainda é desafio

País superou barreira em leitura e ciências; exame internacional avalia estudantes a cada 3 anos

Lisandra Paraguassú, de O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA – O Brasil pode comemorar, mesmo que sem muita empolgação, os resultados do o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês), realizado a cada três anos pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O País teve a terceira maior evolução nas médias de 65 nações e conseguiu superar a barreira dos 400 pontos em leitura e ciências, mas ficou abaixo desse patamar em matemática. O resultado, no entanto, ainda está longe de ser positivo. Nas três áreas, pelo menos a metade dos jovens brasileiros não consegue passar do nível mais básico de compreensão.

O Pisa avalia estudantes de 15 anos completos em todos os países membros da OCDE, mais os convidados – como Brasil, México, Argentina e Chile, entre outros. Em 2009, ano da prova mais recente, foram selecionados 400 mil jovens em todo o mundo, incluindo 20 mil brasileiros de todos os Estados. A escolha pela faixa etária permite uma comparação entre os diferentes países, mesmo que os sistemas de ensino sejam diferentes.

Veja também:

linkDez Estados tiveram desempenho acima da média nacional

linkPara entender – O que é o Pisa?

A matemática ainda é o ponto mais fraco dos estudantes do País. Apesar de ter subido 16 pontos, a média nacional – de 386 – ainda fica 111 pontos abaixo da média da OCDE. Em ciências, a média brasileira subiu 15 pontos e chegou a 405, enquanto em leitura, onde houve a maior evolução – 17 pontos -, alcançou 412.

Os melhores números, no entanto, ainda deixam uma boa parte dos alunos pelo caminho. Em leitura, quase metade dos brasileiros avaliados alcança apenas o nível 1. Em três anos, houve uma melhoria de apenas 6 pontos percentuais. O nível 1 significa que esses adolescentes são capazes de encontrar informações explícitas nos textos e relacioná-las com o dia-a-dia deles. E só. Não são analfabetos, mas têm somente o grau mínimo de habilidade de leitura.

Em matemática, 69% dos estudantes do País chegam apenas ao nível 1, contra 73% em 2006. Esses jovens não conseguem ir além dos problemas mais básicos e têm dificuldades de aplicar conceitos e fórmulas. Na avaliação da OCDE, eles teriam inclusive dificuldades de tirar proveito de uma educação mais avançada.

Em ciências, 54,2% dos brasileiros avaliados ficaram no nível 1 – ou seja, conseguem apenas entender o óbvio e têm enormes dificuldades de usar ou compreender essa disciplina. Em 2006, 61% estavam nesse patamar.

Na outra ponta, apenas 1,3% dos estudantes atinge os níveis 5 e 6 em leitura, 0,8 % em matemática e 0,6% em ciências.

A evolução revelada na prova foi comemorada pelo governo, já que em apenas três anos o País conseguiu mostrar, pela primeira vez, resultados consistentes. Entre 2003 e 2006, a média geral brasileira havia crescido apenas um ponto. Em leitura, havia caído 10, e permanecido estável em ciências. Apenas matemática havia crescido. Nesta edição, o Brasil conseguiu superar, na América Latina, Colômbia e Argentina, mas ainda está atrás do Chile, Uruguai e México.



21/11/2010 - 11:16h O País no cenário da OCDE

Editorial O Estado de S.Paulo

A economia brasileira deve crescer 7,5% neste ano, 4,3% no próximo e 5% em 2012, superando a média mundial e deixando longe as potências mais desenvolvidas, segundo as novas projeções da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), formada por 33 países, na maior parte avançados. Os emergentes, incluído o Brasil, continuarão sendo os principais motores da atividade global e deles dependerá, em boa parte, a expansão do comércio – 12,3% este ano, 8,5% em 2011 e 7,5% no seguinte. Mas há sinais de perigo no caminho brasileiro. Os economistas da organização apontam as pressões inflacionárias e recomendam medidas fiscais e monetárias para tornar a trajetória mais tranquila e mais previsível. As autoridades agiriam bem, se dessem alguma atenção às advertências.

A economia brasileira perdeu impulso depois do forte crescimento do início do ano, mas o consumo privado, favorecido pelo crédito firme e pelos ganhos de renda, deve garantir um repique, segundo o relatório. Nessa fase do ciclo, convém eliminar o resto dos estímulos fiscais e monetários concedidos durante a crise, avaliam os autores do estudo. Na prática, isso deve significar nova alta de juros e um esforço de contenção do gasto público, embora o documento não detalhe as medidas aconselhadas.

A inflação brasileira deve ficar até 2012 acima do centro da meta, com taxas previstas de 5,6%, 5,3% e 5,1%. Essas estimativas são menos otimistas que as divulgadas ultimamente pelas autoridades brasileiras. Não indicam descontrole, mas a persistência de fortes pressões por mais dois anos – uma perspectiva ruim para um governo iniciante.

Os últimos dados parecem confirmar a avaliação de uma economia aquecida. O consumo continua forte, a massa de rendimentos permanece em crescimento e o Índice de Atividade Econômica do Banco Central – crescimento de 0,7% de agosto para setembro – aponta uma reaceleração considerável.

A tabela divulgada pela OCDE inclui um dado importante sobre o setor externo, mas não comentado no breve texto a respeito do Brasil. O déficit na conta corrente do balanço de pagamentos deve alcançar neste ano 2,6% do Produto Interno Bruto (PIB) e aumentar para 3,2% e 4% nos anos seguintes.

Essa evolução reflete, com clareza, não só os efeitos do dólar barato sobre exportações e importações, mas também a expansão da demanda interna, alimentada não só pelo crédito e pelo aumento da renda, mas também pelo custeio do setor público.

Não há, no relatório, comentário nem sugestão a respeito desse ponto, mas o novo governo acertaria, também, se inscrevesse o ajuste das contas externas no topo de sua agenda. Alguns países têm conseguido sustentar déficits em torno de 4% do PIB por vários anos, mas o mais prudente é não apostar nessa possibilidade, até porque o financiamento da conta corrente depende, cada vez mais, de empréstimos e investimentos instáveis.

A deterioração das contas externas não decorre só das condições brasileiras, mas também dos desarranjos globais. A desaceleração da economia no mundo rico foi mais severa do que a OCDE havia previsto no semestre passado, como lembrou seu secretário-geral, Angel Gurría. Neste ano, os países-membros da organização devem crescer 2,75% (mesma estimativa de maio), mas a projeção para 2011 foi reduzida de 2,75% para 2,25%. Em 2012, o crescimento poderá voltar ao ritmo de 2010.

Nesses dois anos, o desemprego continuará elevado. Em 2012 ainda estará em 8,78% nos Estados Unidos e em 9,2% da força de trabalho na zona do euro. O grande desafio para as economias desenvolvidas, segundo a OCDE, será conciliar a arrumação das contas públicas com a manutenção de algum estímulo ao crescimento. Será preciso, segundo Gurría, começar o ajuste em 2011 para fortalecer a confiança dos mercados. Governos altamente endividados não poderão fazer muita coisa sem o apoio dos credores privados, como indicam os apuros das autoridades irlandesas, portuguesas e gregas.

10/09/2010 - 07:36h Equilíbrio entre governo e mercado é sucesso no Brasil, diz economista-chefe da OCDE

Pier Carlo Padoan diz que país conseguiu equilibrar necessidades do mercado com controle estatal e pode dar lição a outros países.

BBC Brasil – Agência Estado

O italiano Pier Carlo Padoan, secretário-geral adjunto e economista-chefe da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), vê o Brasil como uma “história de sucesso” no contexto da crise financeira global porque soube encontrar um novo equilíbrio entre o livre mercado e a intervenção do Estado na economia.

Em entrevista à BBC Brasil, Padoan diz que o “Brasil encontrou um equilíbrio importante entre o crescimento econômico e as questões sociais” embora possa crescer mais se houver melhorias na educação e no sistema fiscal.

Ele fala também dos desafios da Europa diante da crise econômica global e diz que essa “é uma oportunidade importante para mudanças positivas” no continente.

BBC Brasil – Por que o Brasil atravessou melhor a crise do que as economias ricas da OCDE?

Pier Carlo Padoan – Acho que o Brasil, como outros países emergentes, mostrou uma grande capacidade para reagir à crise atual. Isso é o resultado do aprendizado com crises passadas. Eu me lembro muito bem da transformação efetuada pelo Brasil na primeira metade dos anos 2000 porque trabalhava no Fundo Monetário Internacional naquela época. Agora, a performance do Brasil é muito favorável. No início de 2000, a taxa de crescimento da economia brasileira era muito baixa e atualmente é muito forte. Isso não é algo que possa ser obtido sem transformações importantes.

BBC Brasil – Quais foram as mudanças no Brasil nesse período?

Padoan – O Brasil é uma história de sucesso porque o país encontrou um novo equilíbrio entre a livre concorrência dos mercados e a intervenção do Estado na economia. É um caso muito interessante de sucesso, que é certamente permanente porque é o resultado de uma transformação estrutural da relação entre os setores público e privado na economia.

BBC Brasil – O senhor pode dar um exemplo dessa transformação estrutural?

Padoan – A questão fiscal e as relações entre o governo central e os dos Estados, discutida há alguns anos, é um elemento importante. O problema foi resolvido com uma solução nacional e é também uma lição para outros países que têm uma estrutura federal, como o Canadá, a Índia, a Suíça e também a Itália. Menciono também a vitalidade da indústria brasileira, sua capacidade para ter posições competitivas importantes em setores avançados, como a aeronáutica.

BBC Brasil – O que mais pode ser destacado nessa relação entre os setores público e privado no Brasil ?

Padoan – O Brasil encontrou um equilíbrio importante entre o crescimento econômico e as questões sociais. O país encontrou mecanismos de transferência de renda à população. É impossível encontrar soluções que sirvam a todos os países. Cada país deve refletir em função de sua história, de suas instituições e de sua cultura para encontrar soluções para os problemas estruturais.

BBC Brasil – No caso da Europa, quais são os principais desafios pós-crise?

Padoan – Os desafios da Europa são, ao mesmo tempo, econômicos e institucionais. O grande desafio econômico, que já existia antes da crise, é o de conseguir a retomada do crescimento. A Europa deve reforçar o motor do crescimento com uma nova interpretação do modelo de integração europeia, principalmente nas áreas das novas tecnologias ambientais. Do ponto de vista institucional, a crise na Grécia mostrou que a zona euro precisa precisa reforçar a governança econômica, que abrange também a competitividade dos países e a estabilidade financeira. É preciso maior crescimento para melhorar o bem estar social na Europa, mas também para assegurar a estabilidade das receitas fiscais, já que a crise econômica provocou a crise das finanças públicas.

BBC Brasil – A demora em socorrer a Grécia não demonstraria que a Europa ainda está longe de ter uma governança econômica?

Padoan – Vemos claramente que o governo grego, mas também Espanha, Portugal e Irlanda, que sofrem pressões para controlar os orçamentos, criaram programas de reformas muito ambiciosos, muito rigorosos. É uma nova demonstração de que as crises podem ser uma oportunidade importante para mudanças positivas. Não apenas dos governos individualmente, mas também em relação às instituições europeias. A Europa decidiu ativar novos instrumentos, sobretudo o Fundo para a Estabilização Financeira, que é uma forma embrionária de um fundo monetário regional, como também a revisão dos pactos de estabilidade (acordo que visa a evitar déficits públicos excessivos), com uma fiscalização mais rigorosa, e ainda aspectos em relação à competitividade para evitar que existam divergências entre os países da zona euro. Vimos claramente que uma zona monetária não pode sobreviver se os equilíbrios internos não são levados em conta. Estou otimista. A crise trará transformações positivas do ponto de vista institucional também.

BBC Brasil – Vários governos europeus questionaram as políticas de apoio econômico e lançaram planos de austeridade. Qual seria a solução? É preciso manter o apoio do Estado para evitar a recessão, ou planos de austeridade são necessários para evitar novas crises financeiras?

Padoan – A crise é grave e os ajustes também devem ser severos. A situação nos mercados ficou agora sob controle. Os mercados responderam positivamente aos planos de austeridade da Grécia e de outros países. Certamente, os planos de ajustes a médio prazo, para reconquistar a confiança dos mercados, terão um pouco de impacto sobre o crescimento econômico, mas é o preço que deve ser pago para haver credibilidade das políticas fiscais e monetárias. É um desafio para a Europa, mas também para outros países. O problema da dívida insustentável a longo prazo existe em todos os países ricos.

BBC Brasil – O papel regulador do Estado é hoje maior na Europa?

Padoan – O Estado tem muitos papéis. Claro que há o papel de apoio macro-econômico, que vai diminuir porque é preciso reduzir a dívida pública. O papel regulatório do Estado também é muito importante. O papel do Estado é o de definir regras e é também necessário ter instrumentos para aplicá-las. O exemplo mais evidente hoje é o da reforma do sistema financeiro, que deve ser, ao mesmo tempo, uma tarefa nacional, mas também internacional. O G20 deve ter um papel importante nessa questão.

BBC Brasil – Podemos dizer que há uma mudança na Europa após a crise? A presença do Estado em termos de regulação se tornou maior?

Padoan – A crise mostrou que há falta de regras e também de fiscalização. É preciso ter regras adequadas e colocá-las em prática. O Estado precisa ser reforçado em termos de novas regras, é isso o que representa a reforma financeira. Mas é necessário ter também instrumentos de fiscalização em relação às operações bancárias e dos mercados financeiros. A crise reforçou o papel das instituições internacionais, como o FMI, o Banco Mundial. Desse ponto de vista, podemos dizer que há mais presença, mas não quero dizer do Estado, prefiro utilizar a palavra governança.

BBC Brasil – A crise trouxe novas perspectivas para o setor privado?

Padoan – A crise colocou em evidência que é preciso mudar o modelo de crescimento econômico. Devemos encontrar novas fontes de crescimento – a inovação, a expansão das atividades ligadas às questões ambientais. É preciso mudar a utilização dos recursos e é preciso ter mecanismos para facilitar isso. Estamos desenvolvendo estratégias para o chamado crescimento verde. As mudanças climáticas também são uma oportunidade para mudar o modelo do crescimento.

BBC Brasil – Quais são as lições que o setor privado pode tirar com a crise ?

Padoan – O setor financeiro aprendeu que ter uma perspectiva de curtíssimo prazo, segundo a qual os lucros a curto prazo são o único fator importante, não é boa. O setor privado não financeiro aprendeu que é preciso ter regras e instituições mais eficazes para orientar os recursos com uma visão de longo prazo. O espírito empresarial deve ser reforçado. É uma lição para o setor privado, mas também para o setor público.

BBC Brasil – O senhor elogiou bastante o Brasil. Quais são os principais aspectos que o país precisa melhorar?

Padoan – O Brasil é um grande país com uma taxa de crescimento forte, que demonstrou sua capacidade para enfrentar uma grande crise melhor do muitos outros países. Há várias ações que podem ser feitas para melhorar a situação e aumentar a capacidade de crescimento. A OCDE divulgou um estudo chamado “Para o Crescimento”, que analisa os desafios estruturais dos países membros da organização e de outros não-membros, como o Brasil. No caso do Brasil, identificamos margens de crescimento potencial associadas à melhoria do sistema educacional, ou seja, do capital humano, e também ligadas à inovação do país. O Brasil pode melhorar seu sistema fiscal. Há margens para o Estado melhorar sua arrecadação e também ser mais eficaz na utilização dos recursos. Se houver progressos nessas áreas, haverá um crescimento forte a longo prazo.

BBC Brasil – O governo brasileiro atual não demonstra interesse em se tornar membro da OCDE. O sr. espera que o novo governo que sairá das urnas mude de posição?

Padoan – O Brasil não é membro da OCDE, mas fazemos muitas coisas juntos. A questão da adesão é bilateral. Os países membros devem se interessar em ter o Brasil como membro, mas o Brasil também deve ter o interesse de se tornar membro oficial permanente. É um objetivo de médio prazo. Para reforçar as atividades entre o país e a organização, é preciso demonstrar ao Brasil que a OCDE pode ser útil para a política brasileira e mostrar aos outros países que é importante ter o Brasil na família. Vemos, a cada dia, uma melhoria nas relações entre o Brasil e os outros países. O convite para ser membro é a conclusão de um processo diplomático de conhecimento recíproco. Esse processo já começou há muito tempo.

23/07/2010 - 08:05h A difícil nota 6 da educação brasileira

Analistas apontam atraso histórico do país e obstáculos como salário dos professores para se chegar à meta de 2021 no Ideb

Catarina Alencastro – O Globo

BRASÍLIA. Com uma nota atual de 4,6 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), o Brasil tem como meta alcançar a nota 6 em 2021. Esse patamar de excelência na qualidade de ensino já foi alcançado pelos países-membros da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) há pelo menos sete anos. Para chegar lá, especialistas ouvidos pelo GLOBO destacam que o ensino brasileiro ainda tem que melhorar muito, mas reconhecem que a caminhada nessa direção já começou. A tarefa agora será de quem suceder ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Célio da Cunha, consultor da Unesco em educação, crê que o Brasil, por ter relegado a educação a segundo plano, dificilmente poderá cumprir a meta prevista daqui a 11 anos. Segundo ele, enquanto a maioria dos países investiu no ensino no século passado, o Brasil se omitiu: — O Brasil só recentemente tratou de corrigir um atraso histórico de não colocar a educação no centro. A preocupação da União com o ensino fundamental é muito recente. Enquanto isso, o povo permaneceu excluído.

É preciso que estados e municípios caminhem em uníssono em direção à meta.

Disparidade entre estados na área piora situação Cunha avalia que ainda não há uma política nacional eficiente, pois alguns estados e municípios estão muito piores do que o restante do país. A disparidade acaba puxando o resultado de todo o Brasil para baixo. Em Bertolina (PI), Pedra Branca do Amapá (AP) e Lagoa da Canoa (AL), por exemplo, o Ideb atingido foi inferior a 2,5 em 2009. Na outra ponta, Aperibé, no Estado do Rio, com pouco mais de 10 mil habitantes, conseguiu a média 6,1.

— É preciso haver uma orquestração entre estados, municípios e União. Tínhamos que dividir a responsabilidade. A lei áurea da educação seria a lei da responsabilidade da educação — sugere Cunha.

Para o professor Rubem Klein, consultor da Fundação Cesgranrio e membro da Comissão Técnica do Todos pela Educação, a mudança na qualidade da educação demanda um processo que leva tempo: — Isso não acontece do dia para a noite. Não é só botar mais dinheiro. Tem de melhorar a gestão da escola, identificar os alunos com problema, dar reforço a quem está atrasado. A direção da escola tem que ter liderança pedagógica. Muitos só se preocupam com a merenda.

Além da questão administrativa e burocrática, segundo ele, os diretores devem verificar se os professores estão atendendo às expectativas e ter autonomia para substituir quem estiver aquém. O salário do professor é outro ponto importante, diz. Ele defende a criação de uma nova carreira, com salários atraentes e plano profissional, para que haja promoção por mérito e os mestres passem a ganhar mais.

Naercio Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa), diz que indicadores de qualidade de ensino como o Ideb e o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) são mecanismos importantes para que as famílias acompanhem os estudos de seus filhos e a sociedade cobre providências dos governantes. Assim como outros especialistas da área, ele acredita que o Brasil esteja pagando o preço do atraso: — A Coreia do Sul estava no mesmo patamar do Brasil na década de 1960. De lá para cá, investiu maciçamente em educação.

Hoje, tem uma das melhores notas do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) e é um dos líderes em PIB per capita. Enquanto isso, o Brasil ficou para trás.

O Ideb é medido a cada dois anos. Nas duas últimas edições, o Brasil cumpriu as metas estabelecidas.

Em 2007, superou a meta de 3,9 e atingiu a nota 4,2.

E, no ano passado, com o 4,6, ultrapassou em 0,4 pontos o objetivo previsto pelo governo.

14/06/2010 - 11:49h Brasil vai puxar produção agrícola

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Assis Moreira, de Viena – VALOR

Países em desenvolvimento, de maneira geral, estão elevando a produção agrícola e deslocando tradicionais exportadores

O Brasil terá de longe o mais rápido crescimento da produção agrícola no mundo nos próximos dez anos, com expansão superior a 40%, o dobro da média mundial, comparado ao período 2007/9, segundo relatório de perspectivas agrícolas que a Agência para Agricultura e Alimentação das Nações Unidas (FAO) e a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicarão amanhã.

O país se firmará como grande celeiro do mundo, segundo as projeções de produção, consumo, estoque, comércio e preços para 2010/19 analisadas no estudo, ao qual o Valor teve acesso. Nesse período, a FAO e a OCDE esperam maior crescimento econômico global, com aumento da demanda e do comércio, além de preços elevados para os produtos agrícolas no médio prazo.

Países em desenvolvimento, de maneira geral, estão elevando a produção agrícola e deslocando tradicionais exportadores. Mas o crescimento da produção brasileira vai muito além dos outros. É quase quatro vezes maior que os 10% a 15% previstos para concorrentes como os Estados Unidos e Canadá entre 2010/19. Para a União Europeia, a previsão é de um crescimento de menos de 4%, segundo o relatório.

O ritmo de crescimento da produção agrícola também é forte em países como Rússia e Ucrânia, com alta de 26% e 29%, respectivamente. Para a China, a estimativa é que a produção aumente 26% e para a Índia, outro grande asiático, 21%. No caso da Austrália, a alta deve ser de 7%.

Ainda segundo o relatório, o comércio de produtos agrícolas continuará a crescer no eixo Sul-Sul, em adição ao tradicional Norte-Sul. Pelo lado das importações, a expectativa é que grandes emergentes como a Índia vão se integrar mais ao mercado mundial. Outros, como a China, já com presença estabelecida nos mercados, vão procurar diversificar suas fontes de suprimento como resultado de novas “interações econômicas”. Com isso, será redesenhado o fluxo global de produtos agrícolas.

Além do domínio na produção e comércio de carnes e açúcar, o Brasil aumentará sua participação em outras áreas. No caso da carne, a exportação mundial até 2019 pode crescer 22%. O grosso virá do Brasil, que deve ser responsável por 63% das vendas fora dos países desenvolvidos e um terço do total mundial.

A supremacia brasileira no setor de açúcar deve se confirmar. Segundo o relatório, a produção terá alta de 11 milhões de toneladas, ou 31% até 2019, ante o período 2007/09. As vendas externas também devem aumentar 41% em dez anos, representando 50% do comércio global. E o Brasil manterá o status de formador de preços do açúcar no mercado global. O estudo nota que, ao contrário de outros exportadores, o país tem uma “arma adicional” no seu arsenal para aumentar a produção no curto prazo, usando o “mix” de produção de açúcar e etanol a partir da cana.

14/06/2010 - 11:33h Emergentes embalam avanço agrícola

Cenários: Relatório da FAO e da OCDE indica que países em desenvolvimento também puxarão o comércio

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Assis Moreira, de Viena (Áustria) – VALOR

Os países em desenvolvimento vão ser a grande força do crescimento da produção, do consumo e do comércio agrícola nos próximos dez anos, segundo o relatório de perspectivas agrícolas da Agência para Agricultura e Alimentação das Nações Unidas (FAO) e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A demanda desse grupo é impulsionada por aumento da renda per capita e pela urbanização, reforçada pelo crescimento populacional que é duas vezes maior do que nos países desenvolvidos.

A tendência é de um aumento no consumo de produtos como carnes e alimentos processados, o que deve favorecer os produtores de bovinos e frangos. Com uma classe média em expansão, o consumo de alimentos nos países em desenvolvimento deve depender menos de mudanças no preço e na renda.
Foto Destaque

Nesse cenário, segundo a FAO e a OCDE, os preços médios das commodities projetados para os próximos 10 anos devem ficar acima dos níveis anteriores ao pico de alta de 2007-2008. As cotações de trigo e grãos podem subir entre 15% e 40%. O preço mundial do açúcar para 2019 deve ficar acima da média da última década, mas bem abaixo do recorde de 29 anos, atingido no fim do ano passado.

Os preços das carnes em termos reais devem superar a média de 1997-2006 em decorrência da menor disponibilidade, maior custo de ração para os animais e maior demanda. As cotações para a carne suína devem ser afetadas pelo aumento da oferta no Brasil e China, diz o relatório.

A recuperação econômica vai ampliar o consumo de carnes, sobretudo nos países em desenvolvimento. As mais beneficiadas serão proteínas mais baratas como carne de frango e carne suína. Para os lácteos, as instituições estimam alta de preços, em termos reais, entre 16% e 45% – a maior valorização será na manteiga.

Em praticamente todas as commodities, as importações e as exportações dos países em desenvolvimento deverão superar as dos ricos. Apenas a exportação de farelo de proteína crescerá mais rápido nos países da OCDE até 2019.

Por outro lado, o relatório mostra que os países desenvolvidos continuarão a dominar as exportações de trigo (52% do total mundial), grãos forrageiros (59%), carne suína (80%), queijo (63%) e leite em pó (66%).

Contudo, países em desenvolvimento continuarão como líderes na exportação de arroz (88% do mercado mundial), oleagionosas (56%), farelo de proteínas (80%), óleos vegetais (91%), carne bovina (57%) e frango (63%).

Ainda no que diz respeita à produção, a FAO e a OCDE estimam que a maior parte da expansão da oferta mundial de oleaginosas, como soja, estará concentrada no Brasil, Estados Unidos e Argentina. Os EUA devem continuar a ser o maior produtor global. Mas quase 70% do aumento das exportações virá do Brasil, elevando de 26% para 35% sua fatia no comércio mundial até 2019. Nesse ritmo, o país poderá se tornar o maior exportador mundial de oleaginosas em 2018, superando os EUA.

No caso do etanol, quase 40% do aumento da produção deve vir de maior oferta a partir da cana-de-açúcar, sobretudo do Brasil, para atender o mercado doméstico e a demanda dos EUA.

Segundo o relatório, o comércio de etanol deve triplicar e representar 9% da produção global. O Brasil será o maior fornecedor internacional. Já a Argentina deve ser o maior em biodiesel.

Outro segmento em que o Brasil pode aumentar sua presença é nas exportações de lácteos, diz o documento. A produção de leite deve crescer 2,3% ao ano, em razão do incremento da produtividade e investimentos.

O país também deve seguir como o segundo maior exportador mundial de farelo. A projeção é que as vendas externas brasileiras aumentem quase 20%, mesmo com o maior consumo doméstico.

O relatório mostra também que os níveis de subvenção agrícola nos países emergentes monitorados pela OCDE tendem a aumentar, mas continuam muito abaixo dos bilionários subsídios da maioria dos países desenvolvidos. No Chile, por exemplo, é de 4%, e na Rússia, de 14%.

Já nos países ricos, a ajuda vinculada ao tamanho da produção alcançou US$ 250 bilhões em 2008, derrubando preços internacionais e gerando concorrência desleal. Os campeões de subsídios são os EUA e a União Europeia, com 30% e 40% do total respectivamente, o que resulta em acúmulo de oferta e derrubada dos preços mundiais. No Japão e na Coreia do Sul, 90% da subvenção são também vinculados à produção.

05/06/2010 - 13:39h Brasil é o quinto no ranking do maior aumento anual nas exportações (25,8%), aponta OMC

Importações do Brasil cresceram 3,8% no 1º trimestre, aponta OMC

Andrei Netto – O Estado de S.Paulo

PARIS
O Brasil subverteu a tendência internacional e registrou no primeiro trimestre de 2010 o terceiro maior crescimento das importações entre as 20 mais importantes economias do mundo, na comparação com o trimestre anterior. A constatação consta do balanço sobre o comércio mundial divulgado pela Organização Mundial do Comércio (OMC).

No período, o país registrou aumento de 3,8% das importações, à frente da China e da Índia, e revelando tendência inversa à média mundial, que ficou em queda de 2,1%.

As compras externas puseram o Brasil atrás apenas da Indonésia, com 7,1%, e da Coreia, com 5,5%, dentre os países do G-20. Para efeitos de comparação, Índia e China registraram crescimento das importações da ordem de 3,3% e de 2,7%, respectivamente. No apanhado dos 95 países analisados pela OMC, o Brasil ficou em 13.º lugar. Na comparação anual, as importações cresceram 36,2%.

Já as exportações brasileiras não sustentaram o mesmo ritmo e seguiram a tendência global. Na comparação entre o primeiro trimestre de 2010 e o último de 2009, houve recuo de 5%. Já na comparação anual o resultado foi melhor, de 25,8%. Pela ordem, Rússia, Japão, Índia, China e Brasil foram os países que tiveram maior aumento anual nas exportações. /

03/06/2010 - 09:08h País entra na lista de nações com padrão tributário internacional

OCDE vê ação contra sonegação no Brasil

O GLOBO

BRASÍLIA. O Brasil entrou para a chamada “lista branca” da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Trata-se do grupo de países que implementam o padrão tributário internacional e combatem práticas como a sonegação e a evasão de divisas. Na “lista suja”, por outro lado, estão os chamados paraísos fiscais. O secretário da Receita, Otacílio Cartaxo, comemorou a decisão: — Esse é um avanço importante para a imagem do Brasil e um reconhecimento dos esforços para combater irregularidades fiscais.

Não estávamos na lista negra da OCDE, mas também não estava na branca. Era um limbo.

Cartaxo lembrou que o Brasil já tem hoje acordos com 29 países — como Itália, Portugal, Espanha e Inglaterra — para troca de informações, inclusive de movimentações financeiras. Segundo ele, o reconhecimento pela OCDE vai ajudar o país a fazer novos acordos e ter acesso a mais informações que ajudem a identificar práticas irregulares.

Somente no ano passado, o governo brasileiro fez quase 300 trocas de informações com outros países. No fim de 2009, por exemplo, o governo fechou várias brechas para a utilização de paraísos fiscais. As pessoas físicas que optarem por ser não residentes no Brasil e alegarem estar vivendo em paraísos fiscais terão que comprovar essa informação à Receita Federal.

Hoje, existem contribuintes (em geral, artistas ou atletas) que ganham rendimentos fora do país e, para pagar menos impostos, simplesmente apresentam uma declaração de não-residente. Com isso, eles são tributados a uma alíquota menor, pois os paraísos fiscais costumam tributar a renda com alíquotas inferiores a 20%. (Martha Beck)

26/05/2010 - 10:33h OCDE eleva previsão de expansão do Brasil a 6,5% em 2010

REUTERS – AGÊNCIA ESTADO

Brasil, China, Índia e Rússia estão crescendo fortemente, avaliou a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) nesta quarta-feira, elevando suas previsões para as quatro grandes economias emergentes.

No Brasil, os investimentos em infraestrutura ajudarão o crescimento novamente, apesar da política monetária mais apertada e do início de cortes de gastos.

A OCDE projeta uma expansão econômica brasileira de 6,5 por cento neste ano, ante prognóstico anterior de 4,8 por cento. Para 2011, a estimativa é de avanço de 5 por cento.

A OCDE alertou que o superaquecimento pode ser um problema na China e pediu por aumento de juros e um câmbio mais flexível. A entidade prevê para o país um crescimento de 11,1 por cento em 2010 e de 9,7 por cento em 2011.

Com a esperada retomada da produção agrícola na Índia, o crescimento lá deve ser forte no curto prazo, segundo a entidade. A expansão neste ano deve ser de 8,2 por cento e no próximo, de 8,5 por cento,

A Rússia deveria usar as receitas petrolíferas para eliminar o déficit fiscal mais rapidamente, avaliou a OCDE, que prevê um crescimento de 5,5 por cento em 2010 e de 5,1 por cento em 2011.

21/05/2010 - 12:09h Destaque

“A proporção de empregos públicos em relação à força total de trabalho no Brasil é relativamente baixa em comparação com os países desenvolvidos. O total de servidores públicos no Brasil, incluindo os empregados das empresas estatais, representa entre 11% e 12% do total de empregos no país. Entre os 31 países da OCDE, tal média é de 22%.”

Do estudo sobre o funcionalismo público no Brasil, feito pelo OCDE sob encomenda do governo federal. O estudo considera que é elevado o gasto com esse segmento pois equivale a 12% do PIB em 2006, taxa semelhante a média dos outros países da OCDE, que contam com o dobro de funcionários públicos. O estudo abrange municípios, Estados e União, assim como os legislativos, judiciários e executivos, nos três níveis.

12/03/2010 - 09:09h PIB do Brasil em 2009 foi um dos melhores do G-20

Desempenho brasileiro fica abaixo, porém, de outros países emergentes, como Argentina, China, Índia, Indonésia e Coreia do Sul

Andrei Netto, CORRESPONDENTE, PARIS – O Estado SP

Mesmo com o desempenho negativo, marcado pelo recuo de 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB), a economia brasileira teve um dos melhores desempenhos do Ocidente em 2009, se comparado com os demais membros do G-20. Entre as maiores economias da América Latina, só a Argentina, que cresceu 0,9%, foi melhor. Austrália e os asiáticos China, Índia, Indonésia e Coreia do Sul também tiveram desempenhos positivos, provando a boa resistência da região à crise financeira.

A comparação é baseada em dados parciais coletados pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) em institutos estatísticos das 20 maiores economias. Pelo ranking – que difere nos porcentuais, mas não nas tendências reveladas pela classificação apresentada ontem pelo Banco Central -, o PIB brasileiro é o sétimo melhor do G-20.

Pela ordem da OCDE, em 2009 a China apresentou o melhor desempenho, com 8,7%, seguida por Índia (5,6%), Indonésia (4,5%), Austrália (2,7%) e Coreia do Sul (0,2%).

A seguir, estaria a Argentina, que segundo o Instituto Nacional de Estatísticas (Indec) teria crescido 0,9% em 2009. Diversos institutos independentes, entretanto, estimam que o desempenho real da economia argentina teria oscilado entre -1,5% e -4% no ano passado.

Seguindo a lista, já aparece o Brasil e seu PIB de -0,2%, o primeiro país com desempenho negativo. Pior do que a economia brasileira foram África do Sul (-1,8%), França (-2,2%), Estados Unidos (-2,4%), Canadá (-2,6%) e o trio europeu Alemanha, Itália e Reino Unido, cujas estimativas indicam retrações de 5%.

Completam a lista a Turquia (-5,8%), o México (-6,5%) e a Rússia (-7,9%), este último o único dos países dos Brics a ter registrado desempenho pior que o do Brasil.

Holanda, Espanha, Polônia e Bélgica, todos membros convidados do G-20, também tiveram desempenhos inferiores ao brasileiro. À BBC Brasil, o diretor regional para a América Latina da Economist Intelligence Unit (EIU), Justine Thody, lembrou que o País não perderá – nem ganhará – posições no ranking mundial de maiores economias, mantendo-se na nona posição.

“Os mercados de capitais relativamente profundos do Brasil, bancos muito bem capitalizados e parceiros comerciais diversificados permitirão que o País continue a ganhar com a crescente demanda na Ásia e em outras regiões emergentes”, analisou Thody.

Mesmo que as lições da recessão devam servir para prevenir novos choques econômicos, a OCDE propôs ontem, em Paris, que as economias que sofreram desaceleração passem da gestão da crise à ação em áreas como emprego, concorrência e arrecadação de impostos.

“Os países emergentes estão crescendo mais rapidamente do que a maior parte dos países da OCDE. Estamos satisfeitos pelo que eles têm feito pela economia global”, afirmou Pier Carlo Padoan, economista-chefe da OCDE, um dos autores do relatório “Objetivo: Crescimento”.

“Mas esses países ainda estão em um período de transição, e precisam realizar reformas de mercado que possam garantir crescimento sustentável, como ocorreu em outros membros da OCDE no passado.” Segundo Padoan, o País precisa seguir na via das reformas econômicas se quiser garantir sustentabilidade em médio e longo prazos.

“Em países como o Brasil, a reforma tributária poderia acelerar o crescimento e torná-lo mais sustentável, também do ponto de vista fiscal”, acrescentou.

28/02/2010 - 15:53h Novo paradigma em marcha?

Amir Khair – O Estado SP

A crise internacional pôs a nu a fragilidade financeira, monetária e fiscal dos países desenvolvidos, que estão sendo obrigados, para estimular o consumo, a operar com taxas de juros reais (excluída a inflação) negativas. A ajuda governamental ao sistema financeiro insolvente criou déficits fiscais e endividamentos públicos sem precedentes.

Os endividamentos elevados vão causar proximamente taxas de juros crescentes, ampliando os já elevados déficits fiscais, que por sua vez ampliarão ainda mais os endividamentos. O elevado nível de desemprego e o endividamento da população reduzem o consumo e os investimentos e isso atinge em cheio a arrecadação pública e amplia a demanda social.

Receitas públicas menores e necessidades de despesas sociais e de juros crescentes agravarão ainda mais os déficits fiscais dos países desenvolvidos e contaminarão as condições de vida de suas populações. Não se exclui, por causa da contração do consumo, a possibilidade de terem de enfrentar a deflação – queda de preços por causa da postergação das compras.

O mais grave é a possibilidade de aparecimento de crises sociais, com desestabilização política. Na Grécia, as crises sociais já começaram.

O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, afirmou que a situação fiscal dos Estados Unidos e do Japão não era muito melhor do que a da Grécia.

Segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), os déficits fiscais previstos para este ano em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) da Irlanda de 12,2% e da Inglaterra de 13,3% superam o da Grécia de 9,8%. E, em tamanho da dívida líquida, Itália (100,8%) e Japão (105%) superam o da Grécia (94,6%). Como destacou Celso Ming, em sua coluna de 21 de fevereiro no Estado, com dados da OCDE: “Ficha por ficha, a dos Estados Unidos está pior do que a maioria dos países europeus. Ostenta um déficit fiscal de 10,7% do PIB e uma dívida (líquida) de 65,2% do PIB ante 6,7% e 57,9%, respectivamente, da área do euro.”

Segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da agência Bloomberg, nos últimos dez anos (2000 a 2009), o crescimento da economia em escala global foi de 42%, tendo os países desenvolvidos crescido 17,1% e os países emergentes, 75,1%, ou seja, os emergentes cresceram em média nesse período 4,4 vezes mais do que os desenvolvidos.

Para os próximos anos, a maioria das análises prevê que a diferença entre o desempenho de emergentes e desenvolvidos será reforçada, impulsionada, principalmente, pela Ásia, com grande peso para China. A previsão continua sendo de que a demanda doméstica (consumo e investimento privado) será o carro-chefe desse processo.

Ao que tudo indica, a crise serviu para acelerar um novo arranjo geopolítico em construção nas últimas décadas com o avanço da globalização, que radicalizou o processo de concorrência internacional.

A regulação de preços vai se deslocando gradualmente das políticas monetárias locais para os preços ditados pela concorrência internacional. Assim, a política monetária perde força face ao avanço da globalização comercial, que interconectou os mercados. A tendência dos preços a nível global passou a ser mais ditada pelo preço das commodities.

Dentro desse processo da globalização, a expansão natural do capital foi na direção da minimização de custos de mão de obra, de menor tributação e de localização da expansão geográfica do consumo mundial. Os países desenvolvidos têm custos elevados de mão de obra e mercados estagnados ou em declínio e, por isso foram e continuarão perdendo a atratividade que tiveram frente aos emergentes, notadamente da Ásia e em algum grau da América Latina. A consequência desse processo foi a transferência de oferta de empregos dos desenvolvidos para os emergentes, com uma incorporação sem precedentes de elevado contingente de pessoas no mercado de trabalho e de consumo nos emergentes. Essa expansão de consumo, por sua vez, reforça os movimentos do capital para esses países.

Esse movimento caminhou juntamente com os processos migratórios de mão de obra na busca de melhores oportunidades de emprego ocorrendo com a crise retorno da mão de obra a seus países de origem. A tendência desses dois movimentos é uma diminuição das desigualdades salariais em termos locais e globais. Em outras palavras, os salários mais altos e o emprego dos países desenvolvidos vão continuar cedendo terreno para os emergentes.

Ao lado desse processo, vem se desenvolvendo um enfraquecimento de controle político dos países desenvolvidos nos fóruns internacionais. Os países do G-7 (grupo dos sete mais industrializados) começam a ceder espaço aos países componentes do G-20 e são questionadas as representações dos desenvolvidos nesses fóruns.

Esse novo arranjo geopolítico está em processo e, com a crise internacional, que enfraqueceu os países desenvolvidos e fortaleceu os emergentes, a tendência é para aceleração do novo arranjo.

Outra forma de analisar esse processo de crise econômica, financeira e social dos países desenvolvidos é a do esgotamento do modelo de desenvolvimento experimentado desde o início da revolução industrial. Esse modelo se baseou numa concentração de renda e riqueza, o que levou inevitavelmente a crises de superprodução.

O novo modelo, em fase de implantação, se apoia na ascensão de forte contingente de novos consumidores pela geração de emprego e renda de populações antes marginalizadas da sociedade de consumo. Tudo leva a crer que esse novo modelo apresenta maior dinamismo e estabilidade do que o anterior. Dinamismo pela concorrência internacional sem paralelo e estabilidade por se apoiar numa base de consumo bem maior.

Dentro desse quadro, não é de esperar sustentação para a tentativa de retomada do modelo anterior, onde os países desenvolvidos detinham parcela significativa do crescimento da demanda mundial. A gangorra pende cada vez mais para a liderança dos emergentes no papel antes desempenhado pelos países desenvolvidos.

É possível que o novo paradigma econômico já esteja em fase de formação e, caso isso aconteça, a redistribuição de renda tende a beneficiar as populações dos emergentes.

Será que o capitalismo experimentará uma nova fase na qual sua viabilização se dê apoiada numa melhor distribuição de renda e riqueza?

Especialista em finanças públicas

Amir Khair, mestre em Finanças Públicas pela FGV-SP, é consultor. Foi secretário de Finanças da Prefeitura de São Paulo na gestão da prefeita Luiza Erundina (1989-1992). Atualmente é consultor na área fiscal, orçamentária e tributária.

Coordenou a elaboração do Manual de Orientação para Crescimento da Receita Própria Municipal da FGV-SP, sob o patrocínio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Elaborou o Guia de Orientação para as Prefeituras – Lei de Responsabilidade Fiscal do BNDES – e do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, em 2000.

Dentre os trabalhos que realizou, destacam-se as assessorias em gestão financeira nas prefeituras de Belo Horizonte, Salvador, Goiânia, Guarulhos, Ipatinga, Londrina, Angra dos Reis e Juiz de Fora e a criação de um sistema de acompanhamento de gestão fiscal para a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.