21/11/2010 - 17:21h A mente molda um novo olhar

Neurologista lança livro em que explora as formas pelas quais o cérebro adapta-se a um mundo sem visão

A capacidade de reconhecer rostos, o senso de espaço tridimensional, a habilidade da leitura, a visão. Todos estes ingredientes nos parecem imprescindíveis para a comunicação. Perdê-los pode comprometer nossa conexão com o mundo. Foi o que aconteceu com os pacientes do neurologista Oliver Sacks, que os promoveu a personagens de seu 11º livro, “O olhar da mente” (Ed. Companhia das Letras), lançado anteontem. Sacks dedica à obra ao modo como cada qual soube reinventar seu mundo. Ao longo da narração dos casos, mescla a abordagem de psiquiatra a densos conceitos de neurologia, exibidos didaticamente. As confidências trocadas por autor e personagens, médico e pacientes, são sublinhadas na entrevista abaixo, concedida ao GLOBO por telefone.

“(O componente emocional) é forte. Há que se ter muita vontade para melhorar, e a relação particular com o terapeuta pode ser muito importante”. O neurologista, que já escreveu sobre audição e agora volta a um tema benquisto, a visão, promete dedicar o próximo livro às ligações do cérebro com o olfato.


SACKS: MENSAGENS de superação e otimismo com a possibilidade de comunicação, mesmo em casos aparentemente perdidos


Renato Grandelle – O GLOBO

O GLOBO: Na semana passada, um estudo publicado na “Science” mostrou como o cérebro adapta uma área, anteriormente usada para o reconhecimento de faces e objetos, para que possamos aprender a ler e escrever. Essa capacidade de adaptação do cérebro está muito presente no seu livro. Já a conhecemos como gostaríamos?

OLIVER SACKS: Esta capacidade do cérebro tem sido intensamente estudada no momento, e fizemos grandes progressos. Dez ou quinze anos atrás, não tínhamos ideia sobre como se dava a leitura. Hoje, não só podemos acompanhá-la em pacientes de casos extraordinários, como aqueles que abordei no livro, como em pessoas normais, com imagiologia cerebral.

● Os casos narrados pelo senhor concentram-se na visão. Por que fez esta escolha?

SACKS: A visão sempre me interessou. Fiz um livro sobre audição e a relação entre o cérebro e a música (Alucinações musicais, de 2007). O próximo, talvez, será sobre olfato. Também já escrevi sobre as formas visuais do meu cérebro. Gostei de voltar ao tema.

● Os personagens do livro, seus pacientes, são pessoas que se esforçam, de uma forma ou outra, para se comunicar. Quando a vontade é essa, existe doença incurável? Há sempre uma forma de comunicar?

SACKS: Sim, embora talvez seja muito difícil. Veja um estado , sobre o qual, aliás, nunca escrevi, a chamada síndrome do encarceramento. Nela, você não pode falar ou mover-se. Só é possível
piscar. Há um livro marcante sobre isso (“O escafandro e a borboleta”) escrito por uma pessoa, o jornalista Jean-Dominique Bauby, que estava nessa condição.

● Em casos como este e os outros que o senhor escreveu, qual é a força do componente emocional no tratamento?

SACKS: É muito importante. Há que se ter muita vontade para melhorar, e a relação particular com o terapeuta pode ser fundamental. Por exemplo, eu mencionei no livro uma mulher que perdeu a fala.
Ela e outras pessoas tinham uma relação especial com a terapeuta, que era tetraplégica, não podia moverse do pescoço para baixo. Então a paciente via uma pessoa mais deficiente que ela mesma,
e que não reclamava da sua condição. Isso cria um vínculo e a estimula em seu tratamento. O emocional, portanto, é uma parte essencial da reabilitação.

● Houve um caso em particular que o tenha impressionado mais?

SACKS: Eu sempre tenho dificuldade de responder isso. Eles todos me impressionam de maneiras diferentes. Mas um caso incomum — porque neste não se perdeu uma habilidade, mas a conquistou —,
foi o de “Stereo Sue”, como chamei a paciente. Sue adquiriu capacidade estereoscópica aos 48 anos, depois de tanto tempo incapaz de sensações dessa forma. Ela enfim viu as coisas com profundidade, em três dimensões. Como eu, particularmente, tenho paixão pelo assunto, não achava que o que ela me descreveu poderia ser possível, então, para mim, foi um caso muito interessante.

● O senhor aborda seus pacientes como um psiquiatra, mas a análise no livro nos remete mais à neurologia. São duas áreas que o senhor domina e leciona. Qual é sua intenção ao misturá-las?

SACKS: Eu gostaria de dizer que, apesar das muitas condições que abordo, o que realmente me interessa são as pessoas, e todas as as formas pelas quais elas se adaptam para sobreviver. Então, em algum sentido, não são histórias, e sim casos de sobrevivência. Caso algo aconteça, não se desespere. Mesmo que não haja cura, há sempre maneiras de melhorar a vida e encontrar outras maneiras
de fazer as coisas. Você vai sobreviver e encontrar outra vida, mesmo que as coisas sejam mais difíceis. ■

07/02/2008 - 10:01h O mistério da origem da música

Fernando Reinach*

O Estado de São Paulo 

Do ponto de vista evolutivo, o simples fato de a música existir é um mistério. Que vantagem adaptativa justifica seu aparecimento e manutenção ao longo de milhões de anos? Apesar de ainda não termos uma boa explicação, em seu livro mais recente Oliver Sacks fornece algumas pistas importantes. Analisando pacientes com diversos tipos de distúrbios relacionados à música, Sacks mostra como ela está relacionada à linguagem e ao pensamento lógico.

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30/09/2007 - 11:49h Música domina o cérebro humano, diz neurologista

O GLOBO ENTREVISTA
Oliver Sacks

De todos os animais, o homem é o único dotado de ritmo, capaz de responder à música com movimentos.
É também o único a apresentar um cérebro adaptado para compreender complexas estruturas musicais e ainda se emocionar com elas. Músicos apresentam alterações em regiões cerebrais jamais vistas em outros profissionais. Para o neurologista britânico Oliver Sacks, a musicalidade é tão primordial à espécie quanto a linguagem e entender a relação entre música e cérebro é crucial para a compreensão do homem.

Em seu mais novo livro, “Alucinações musicais” (Editora Companhia das Letras), o especialista relata casos de pessoas que reagem à música de formas incomuns. Há os que simplesmente não conseguem ouvi-la. E há os que a ouvem o tempo todo, mesmo quando nenhuma melodia está tocando.

Há gente que passou a ouvir os sons de forma diferente após ser submetido a uma cirurgia cerebral. E mesmo os que desenvolveram um incomum talento musical. Nesta entrevista, Sacks conta que há um vasto caminho ainda a percorrer para que se possa entender completamente esses fenômenos. Mas uma coisa, diz, é fato: “A música se apossou de muitas partes do cérebro humano.”

Roberta Jansen

O GLOBO: O senhor concorda com Charles Darwin quando ele diz que a música teve um papel importante na evolução? Especificamente na seleção sexual, como um atrativo a mais para o sexo oposto? OLIVER SACKS: Como o comportamento e as suscetibilidades não deixam registros fósseis, é difícil saber como nossos ancestrais se comportavam.
Mas estou inclinado a pensar que a música surgiu muito cedo na espécie humana, tão cedo quanto a linguagem. Linguagem e música são fontes de comunicação primordiais.

O senhor discorda, portanto, de Steven Pinker e de outros especialistas que sustentam que a música é um subproduto do aparato sensorial, prazerosa mas dispensável? SACKS: Sim, discordo de Pinker.Não vejo a música como algo acidental e trivial, como um subproduto da linguagem.A música está presente em todas as culturas e apresenta, nos seres humanos, aspectos únicos que não têm paralelo na linguagem. Falo do ritmo, do fato de respondermos à música com movimentos. Nenhum outro animal faz isso. É preciso ver o ritmo como algo primordial na evolução humana.Porque todos os seres humanos respondem a ele. A música une as pessoas. E há conexões específicas no cérebro para isso.

Unir as pessoas poderia ser uma vantagem evolutiva? SACKS: Não posso dizer que a musicalidade humana se desenvolveu para unir as pessoas.Mas algo surgiu, se mostrou vantajoso e houve a seleção dessa característica. É claro que a musicalidade é uma vantagem evolutiva. Nenhum outro animal dança com ritmo, mas qualquer criança o faz. Isso pode ter sido um fenômeno quando surgiu, todos esses pequenos seres dançando.

De que forma isso é marcado no cérebro humano? SACKS: Muitas partes do cérebro se desenvolvem com a percepção, o aprendizado e a imaginação do ritmo. De novo, nenhum outro animal tem a capacidade de ouvir e analisar sons complexos, com tons, semitons, ritmos, palavras.Essa habilidade é especificamente humana. Mesmo pessoas que sofrem de mal de Alzheimer ou tiveram um derrame respondem à música.Várias estruturas do cérebro se relacionam a isso.

De que forma? SACKS: A música se apossou de muitas partes do cérebro humano. É possível ver como o cérebro se modifica em resposta à música. Estudos com imagens do cérebro já comprovaram a ampliação de determinadas regiões no cérebro de músicos. Vendo imagens de cérebros, não dá para dizer quem é matemático ou escritor. Mas dá para dizer facilmente quem é músico quando essas estruturas ampliadas aparecem.

Há alguma parte do cérebro especialmente voltada para música? SACKS: Não há uma só parte do cérebro. A música está em todo mundo, por todo o cérebro, envolve várias partes desse órgão e não necessariamente as mesmas. Isso é que é o mais incrível.

Mas há também os que não respondem de forma alguma à música, não é? SACKS: Sim, há algumas pessoas que não percebem musica e ficam muito impressionados com os relatos. Há outros que não ouvem determinados tons ou semitons. Essas amusias ocorrem em razão de danos no cérebro. Parte da rede que está faltando.

E as alucinações musicais? Até que ponto elas poderiam ser interpretadas como um problema psicológico? SACKS: Quando uma pessoa tem alucinação musical (ouve música que ninguém mais está ouvindo), a primeira coisa que pensa é que ficou louco, que está ouvindo coisas. Mas é um processo completamente diferente de ouvir vozes como os esquizofrênicos. Eles recebem ordens, é bem diferente e as pessoas enfatizam isso. Alucinações musicais são bem comuns, são como velhas memórias que tocam na mente. Não é uma doença mental.

Por que a música muitas vezes provoca uma reação emocional? Como o cérebro é capaz de diferenciar uma melodia triste de uma alegre? SACKS: Um dos maiores poderes da música é controlar emoção, desenvolver, provocar respostas emocionais. Anatomicamente, podemos dizer que algumas regiões do cérebro afetadas pela música estão perto daquelas ligadas às emoções, envolvidas nas percepções dos cheiros que despertam memórias. Mas ainda não está claro como essas respostas emocionais ocorrem.
Não se sabe ainda o quanto depende da cultura.

30/09/2007 - 11:31h De músico e louco

Em seu novo livro, “Alucinações Musicais”, neurologista Oliver Sacks conta caso de gente que não fala, mas canta; que não anda, mas dança

GIOVANA GIRARDI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

A descoberta, alguns anos atrás, de flautas de osso feitas por neandertais levantou uma discussão que há séculos intriga cientistas e filósofos: por que o homem desenvolveu a música e qual é a função dela para nós?
Numa época em que garantir a caçada do dia certamente deveria ser a preocupação central de nossos ancestrais, quem é que tinha tempo para sair cantarolando por aí? Seja lá por qual razão, alguém teve esse tempo. Ainda bem.
No mínimo é essa a sensação que se tem após ler o novo livro do neurologista inglês Oliver Sacks, “Alucinações Musicais”, lançado mundialmente nesta semana. Mais conhecido como o autor de “Tempo de Despertar”, que virou o filme homônimo protagonizado por Robin Willians e Robert De Niro, Sacks se consagrou por descrever, quase como um conto, casos clínicos surpreendentes.
Acima de tudo, são histórias de pessoas reais que bem poderiam ser personagens de ficção.
A nova obra trata de um tema que já vinha aparecendo de mansinho nos livros anteriores -a música, ou melhor, a musicofilia, como ele fez questão de frisar no título em inglês. “Para o bem ou para o mal”, como ele diz, temos um cérebro musical, somos seres musicais.
Mas, se para a maioria isso significa prazer, para alguns, como Sacks mostra no livro, pode indicar tortura -como ocorre com pessoas que sofrem de alucinação musical desencadeada pelos mais diversos barulhos. Um paciente seu, epiléptico, tem convulsões provocadas por qualquer tipo de música e anda com tampões de ouvido por Nova York.
Para outros, no entanto, música é sinônimo de paz. É a única chance de alívio de sintomas em certas doenças neurológicas, como mal de Parkinson e demência. Mas a melhora de movimento observada entre parkinsonianos cessa quando a música acaba. Já entre pessoas com demência, a melhora do humor e até das funções cognitivas podem durar dias.
Um dos casos mais dramáticos descritos pelo autor é do músico inglês Clive Wearing, que “aos quarenta e poucos anos” sofreu uma infecção no cérebro e passou a ter memórias de poucos segundos. Na tentativa de driblar essa situação, Wearing chegou a tentar fazer um diário, que acabou se reduzindo a anotações do tipo: “estou acordado”; alguns minutos depois, “desta vez estou acordado mesmo” e assim prosseguia até o final do dia.
Depois de um tempo ele começou a esquecer o passado também. Ele só não perdeu sua capacidade musical. Na semana passada, Sacks concedeu entrevista à Folha sobre o novo livro. Aos 74 anos, o médico já teve ele mesmo seus episódios de amusia (incapacidade total de compreender música) e alucinações musicais, mas prefere dar destaque mesmo aos seus pacientes. Leia a seguir:

FOLHA – Após tantos anos observando os efeitos da música em pacientes, como o senhor definiria o papel da música para nós?
OLIVER SACKS
- Acho que, de um modo geral, a música tem várias funções: transmitir emoções, juntar as pessoas, acalmar, animar. Ela está presente em todas as culturas do mundo e alguns acreditam que ela tenha precedido a linguagem. São tantas funções que não dá para definir em uma coisa só. Agora, como médico eu presenciei efeitos da música nos pacientes que são surpreendentes. O neurologista canadense Steven Pinker uma vez disse que a música é um luxo. Acho que ela não só não é luxo como para algumas pessoas ela é realmente uma necessidade. Alguns pacientes não respondem a mais nada, exceto à música. Seu potencial terapêutico é incrível. De fato, em alguns casos ela é a única terapia eficiente.

FOLHA – Quando o senhor começou a perceber isso?
OLIVER SACKS
- Esse poder da música me chamou a atenção pela primeira vez na década de 1960. Foi quando entrei em contato com os pacientes pós-encefalíticos que descrevi em “Tempo de Despertar”. Ali vi pacientes paralisados se locomoverem com música. Vi pessoas com mal de Parkinson grave retomarem a função motora enquanto ouviam música de um modo como nenhum remédio era capaz de fazer. Desde então vi resultados parecidos com pessoas que sofriam de demência e somente ao ouvirem música conseguiam recobrar a consciência.

FOLHA – O senhor vem flertando com a música já algum tempo. O assunto agora tomou um corpo maior?
SACKS
- Você tem razão (risos). Eu realmente estive flertando com a música em “Tempo de Despertar”, “O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu” e em “O Antropólogo em Marte”. No começo, essas histórias pareciam só uma curiosidade, mas fui acumulando tantos casos ao longo dos últimos anos que percebi que era a hora de dedicar um livro inteiro ao assunto. Por exemplo, existia uma idéia de que as alucinações musicais [situação em que uma pessoa "escuta" perfeitamente uma música, às vezes uma orquestra inteira, tocando na sua cabeça] são raras, mas elas não são. Não só tive contato com muitos pacientes nessa situação como me correspondi com diversas outras pessoas assim.

FOLHA – Por que a música aparece como resultado de disfunções tão diversas quanto surdez e epilepsia (as tais alucinações musicais) ou num caso raro como o do raio (no livro o autor conta a história de Tony Cicoria, um cirurgião que não dava muita bola para música, mas, depois de ser atingindo por um raio, se tornou um exímio pianista)?
SACKS
- Acredito que isso tenha a ver com a natureza do nosso cérebro. Para o bem e para o mal -mas acredito que mais para o bem-, temos um cérebro musical, um maquinário complexo e bastante vulnerável a vários tipos de distorção. Há normalmente um equilíbrio no cérebro, um sistema de verificação e correção. Mas, se uma parte é danificada ou excitada demais, seja por raio, epilepsia, derrame ou uma doença degenerativa, este sistema de equilíbrio pode ficar avariado, e tendências que normalmente seriam retidas nessa checagem acabam sendo liberadas. É o que parece ocorrer nos casos que eu chamo de “musicofilia” e o que pode ter acontecido, por exemplo, com Tony Cicoria [veja a história dele no texto à dir.].

FOLHA – Quando o senhor conta o que ocorreu com Gordon B. e Sheryl C., duas pessoas que sofreram perda progressiva da audição e depois de um tempo começaram a ouvir um ruído horrível no cérebro, substituído depois por música, o senhor diz que é como se os cérebros deles estivessem impondo um ordem sobre a desordem. Como é isso?
SACKS
- Gordon tem alucinações musicais quando corta grama -motivos musicais simplesmente surgem em sua cabeça. Ele sente que é como se o som do cortador estimulasse o seu cérebro à elaboração ou à invenção. Acredito que o que ocorre é que a mente sempre procura padrões e tenta organizá-los. Por exemplo, quando eu faço uma ressonância magnética, um procedimento que produz um barulhão, meu cérebro parece organizar esses sons em uma valsa.

FOLHA – Com base nas histórias apresentadas no livro, a impressão que se tem é que a música pode ser tanto um sintoma de um problema neural quanto também a sua cura. É isso mesmo?
SACKS
- Sim. O cérebro humano, ou melhor, o organismo humano, é primorosamente sensível à musica. Essa sensibilidade pode ser usada para propósitos terapêuticos, como nas situações em que a música permite um paciente parkinsoniano falar e se mover ao lhe dar fluência e ritmo -algo que simplesmente não podemos produzir sozinhos. Mas algumas vezes nossa sensibilidade à música se vira contra nós, como quando ficamos ouvindo uma música se repetir sem parar na nossa cabeça. É algo que pode ser irritante, torturante até, mas que não podemos parar.

LIVRO – “Alucinações Musicais” Oliver Sacks; Companhia das Letras; 352 págs., R$ 49.
Trechos

“Agora ele tinha de batalhar para aprender não só a tocar Chopin, mas também a dar forma àquela música que tocava continuamente em sua cabeça, tentar reproduzi-la ao piano, registrá-la no papel. “Era uma luta terrível”, disse. “Eu me levantava às quatro da madrugada e tocava até sair para trabalhar, e quando voltava para casa ficava ao piano até a hora de ir dormir. Minha mulher não estava gostando nada. Eu estava possuído.”
Descrição de Oliver Sacks sobre Tony Cicoria, um cirurgião que nunca foi muito ligado à música até ser atingido por um raio. Depois disso, ele passou a “sentir um desejo insaciável de ouvir música”. Logo depois, começou a “ouvir música na cabeça”, aprendeu a tocar piano, virou compositor. Divorciou-se da mulher, “mas seu coração e sua mente agora estavam na música”.

“Faz vinte anos que Clive teve a encefalite e, para ele, nada avançou. Pode-se dizer que ele ainda está em 1985 ou, considerando sua amnésia retrógrada, em 1965. Em alguns aspectos, ele não está em lugar nenhum; saiu totalmente do espaço e do tempo. Ele não tem mais nenhuma narrativa interna, não leva uma vida no sentido em que o resto de nós o faz. E no entanto só precisamos vê-lo ao teclado com Deborah para sentir que nesses momentos ele volta a ser ele mesmo e está plenamente vivo.”
Sacks sobre Clive Wearing, músico e musicólogo que sofreu uma séria infecção no cérebro e perdeu completamente a capacidade de formar novas memórias. Ele se lembra apenas da mulher, Deborah, e da música.

“Alguns eram incapazes de tomar a iniciativa para dar um passo, mas podiam ser levados a dançar e então faziam-no com desenvoltura. Alguns mal conseguiam proferir uma sílaba (…), mas às vezes conseguiam cantar, alto e claro.”
Sobre os pacientes pós-encefalíticos que pela primeira vez lhe chamaram a atenção para o poder terapêutico da música.

“Minha filha Gloria possui uma melodiosa voz de soprano e pode tocar no acordeão quase toda música que ouve. Tem um repertório de aproximadamente 2 mil músicas (…), mas não é capaz de somar cinco e três nem de cuidar independentemente de suas necessidades básicas.”
Carta de Howard Lenhoff a Sacks descrita no livro. Gloria sofre de uma rara doença conhecida como síndrome de Williams, que provoca profundas deficiência cognitivas nos portadores. Em compensação, praticamente todos compartilham paixão por música, e não é rara a ocorrência de ouvido absoluto, capacidade de distinguir o tom de qualquer nota.

“Cantar não só diz: “Estou vivo, estou aqui”, mas pode expressar pensamentos e sentimentos que em dados momento não têm possibilidade de ser expressos pela fala. Ser capaz de cantar palavras pode ser muitos tranqüilizador para tais pacientes, pois mostra-lhes que suas habilidades de linguagem não estão irrecuperavelmente perdidas, que as palavras ainda estão “neles”, em algum lugar, embora seja preciso música para fazê-las aflorar.”
Sacks sobre pacientes com afasia, que se tornam incapazes de se comunicar verbalmente, mas que muitas vezes conseguem fazê-lo através de cantos.