15/06/2008 - 23:51h Brasil busca supervacina dos trópicos

País desenvolve imunizante inédito contra malária e febre amarela

http://www.salesdantas.com/painel/banco/vacina%20contra%20aids%202.jpg

Roberta Jansen - O Globo

Se tudo correr conforme o previsto, dentro de alguns anos o Brasil poderá conseguir vencer um dos maiores desafios mundiais na área da imunologia: o desenvolvimento de uma supervacina tropical contra a febre amarela e a malária, uma das doenças que mais matam no mundo e contra a qual nunca se conseguiu obter um imunizante eficaz.

Uma pesquisa inédita conduzida no Instituto Oswaldo Cruz (IOC) conseguiu produzir vírus recombinantes de febre amarela que seriam capazes de imunizar também contra a malária.

Uma vacina capaz de proteger ao mesmo tempo contra duas graves doenças que ocorrem em zonas geográficas semelhantes seria um avanço dos mais significativos em termos de saúde pública alcançados no mundo nas últimas décadas. E a idéia de reunir as duas num único produto partiu justamente da constatação de a vacina contra a febre amarela ser uma das mais bem-sucedidas do mundo há décadas enquanto que todas as tentativas de se criar um imunizante para a malária não vão adiante.

Gene do parasita se une ao vírus

Feita a partir de vírus atenuado, a vacina contra a febre amarela é usada com sucesso no Brasil há 80 anos. Foi com ela que o país conseguiu erradicar a doença dos centros urbanos e controlá-la na maior parte do território nacional.

— Atualmente essa é uma das vacinas mais exploradas pelo pessoal que trabalha na área da imunologia — conta a pesquisadora Myrna Cristina Bonaldo, do Laboratório de Biologia Molecular de Flavivírus do IOC, responsável pela linha de pesquisa. — Por ser tão eficaz, com um percentual de proteção muito alto, as pessoas tendem a estudá-la para entender de que forma um bom imunizante induz uma resposta protetora. Então a nossa idéia é justamente usar uma vacina que tem boa performance para imunizar contra um doença cujos imunizantes até agora não conseguiram proteção.

O desenvolvimento de uma vacina contra a malária representa um grande desafio para os cientistas porque o parasita causador da enfermidade adota diversas formas ao longo do ciclo da doença no organismo humano e apresenta vários mecanismos de escape às defesas produzidas. Além disso, o uso do próprio parasita atenuado como vacina (técnica mais comum na produção de imunizantes) mostrou-se inviável. Os cientistas partiram então para a identificação de moléculas de proteínas do parasita capazes de induzir uma resposta imunológica.

O grupo de Myrna conseguiu inserir no vírus da febre amarela genes do Plasmodium falciparum. Com isso, o vírus recombinante passou a fabricar proteínas do parasita, além das proteínas virais que já produzia. A idéia é que, a exemplo do que ocorre com a vacina simples da febre amarela, uma vez exposto às proteínas do parasita, o organismo tenha capacidade de montar uma resposta imunológica mais eficaz no caso de uma infecção.

— Agora estamos fazendo testes pré-clínicos, vendo como o vírus prolifera e se é eficaz — afirmou Myrna. — Em estudos iniciais com camundongos queremos ver se os animais apresentam uma resposta contra a febre amarela e a malária, se há a formação de anticorpos.

Dependendo dos resultados que obtivermos, começaremos a expandir os testes, inclusive em macacos.

Entre os próximos passos está a obtenção de um vírus recombinante também para o Plasmodium vivax.

O grupo trabalha também, numa linha de pesquisa paralela, com a criação de um outro vírus recombinante, dessa vez para atuar contra febre amarela e dengue. Embora nesse caso os resultados sejam ainda mais incipientes, fica a esperança de, no futuro, se conseguir uma vacina contra as três doenças.

— Potencialmente é possível, mas ainda é muito cedo para falarmos disso — afirmou a pesquisadora.

Mais de um milhão de mortes

A malária é hoje a doença tropical que mais causa problemas sociais e econômicos no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Ela atinge as áreas mais pobres do planeta, sobretudo na África, produzindo mais de um milhão de mortes por ano — um número que só é inferior ao de óbitos causados pela Aids.

Além de não haver uma vacina contra a doença, os tratamentos disponíveis se encontram muito ultrapassados.

Por se tratar de uma doença que atinge majoritariamente áreas pobres do planeta, os investimentos em pesquisa de drogas e imunizantes são poucos. No Brasil são registrados cerca de 500 mil casos por ano, sobretudo na região amazônica, mas a letalidade é baixa no país, não chega a 0,1% do total.

A malária é uma doença infecciosa que ataca os glóbulos vermelhos do sangue, provocando anemia. Em casos mais graves, bloqueia a circulação, levando à morte.

A doença é causada por protozoários do gênero Plasmodium, introduzidos no homem através da picada do mosquito anófeles.

20/05/2008 - 13:11h Atos públicos marcam “Dia Internacional Contra a Homofobia” no Brasil

http://consultaeventos.com/wp-content/uploads/2007/05/homofobia1.jpg
Cartaz da campanha da ONU contra a homofobia

TINO MONETTI (interino) - Folha Online

Neste sábado (17), o mundo comemora o “Dia Internacional Contra a Homofobia”. A data (17 de maio) foi escolhida para lembrar quando, em 1990, a OMS (Organização Mundial de Saúde) retirou a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças.

A homofobia é entendida como qualquer manifestação de ódio contra os gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, e pode inclusive se manifestar por meio de agressões psicológicas e físicas. A luta pela aprovação do Projeto de Lei da Câmara 122/2006, que criminaliza essa prática, é hoje a principal reivindicação do movimento GLBT em todo o Brasil.

Durante a semana, a ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais) divulgou uma série de eventos que acontecem hoje nos quatro cantos do Brasil para celebrar e marcar a data.

Enquanto a Praia de Boa Viagem, no Recife (PE), receberá 80 cruzes vermelhas como símbolo de protesto contra o assassinato de homossexuais no Estado, a praça 7 de Belo Horizonte servirá de palco para uma manifestação para denunciar a violência, as violações de direitos gays e os crimes homofóbicos.

No Estado do Rio, a cidade de Cabo Frio realiza na Praia do Forte, a partir 14h, a 2ª Caminhada Cabo Free Contra a AIDS, na qual serão distribuidos folders de prevenção e preservativos. Já em Búzios, no Espaço Cultural PEMBA, na Orla Bardot, ocorre a partir das 21h30 a estréia de “Os Assumidos”, espetáculo teatral baseado nos famosos seriados inglês e norte-americano “Queer as Folk”.

Conferências

Além disso, neste final de semana, sete Estados brasileiros (DF, MT, PB, PR, RJ, RS e SC) realizam Conferências Estaduais de Políticas Públicas para GLBT, convocadas pelos respectivos governadores.

A ABGLT informa que as demais unidades da federação já realizaram suas conferências, as quais antecedem a 1ª Conferência Nacional GLBT, convocada pelo presidente Lula, a ser realizada em Brasília de 5 a 7 de junho.

Homofobia

Na página da ABGLT, é possível encontrar diversas informações sobre a data de 17 de maio no mundo, o problema da homofobia nas escolas nacionais e o programa “Brasil sem Homofobia”, que pode ser baixado na íntegra em português, inglês e espanhol.

Programas

A sede da Organização Panamericana de Saúde (OPS) –braço regional da Organização Mundial de Saúde (OMS)– em Washington, elogiou nesta semana “os programas para melhorar a atenção na saúde para minorias sexuais, incluindo os homossexuais e transexuais”, informou um comunicado oficial da mesma.

No documento, a OPS elogia iniciativas vindas de várias partes da América, como projetos da Argentina, Colômbia, Costa Rica, Brasil, Nicarágua, México e Peru lançados no último ano e que ajudam a erradicar a homofobia nestes países.

Segundo a organização, “muitas das iniciativas respondem a necessidade de ampliar a prevenção e atenção ao HIV”, como é o caso do Brasil, que em março de 2008 lançou o “Plano Nacional de Enfrentamento da Epidemia de Aids e outras DST entre gays, HSH [homem que faz sexo com homem] e travestis”.

Festas para meninas

A partir deste sábado, as meninas de São Paulo começam uma maratona de festas que durará até o domingo da Parada Gay em São Paulo.

A primeira delas é “Por Culpa de La Pussy”, nova edição da festa do Projeto Sapataria, que acontece neste sábado (17) em uma mansão na av. Lineu de Paula Machado. A festa –que tem preços variados entre R$ 15 e R$ 25– contará com as bandas Siete Armas e help i´m a bonsai kitten (que toca na Caminhada de Lésbicas e Bissexuais), além das DJs Paty Passos, Zuba e Jennie Santiago. Informações sobre a localização da casa e como incluir nomes na lista de descontos podem ser encontradas no site oficial da festa.

Na quinta-feira (22), Cida Araújo –responsável pelo bar-restaurante Farol Madalena,– faz mais uma edição de sua festa “Diva” na The Week. No line-up estão os DJs Marcos Paulo e Robson Mouse e, quem aparecer, ganha churrasco gratuitamente, das 16h às 21h. Os preços para a “Day Party Diva” variam entre R$ 25 (antecipado) e R$ 35 (no dia). Outras informações podem ser vistas na página do Farol Madalena.

Na sexta-feira (23), a queridíssima Barbie da Silva, uma das responsáveis pela “Chá com Bolachas”, a festa lésbica mais bacana de São Paulo, é convidada de Alexandre Herchcovitch e Johnny Luxo na festa “Alelux!”. O projeto acontece no clube Glória (rua 13 de Maio, 830, Bixiga) e deve reunir diversas meninas lindas, fãs e amigas de Barbie.

Para quem ainda tiver pique depois da Parada e da série de festas, ainda pode encerrar a semana na “Domingueira Bardagrá Especial”, que acontece no clube Studio Roxy (r. Augusta, 430, Centro). A festa –que é gratuita até às 23h59– terá música a cargo da DJ Cris Villela (residente) e suas duas, DJs Zuba e Nina Lopes.

Saias

São cada vez mais numerosos na França os homens que defendem “a libertação do guarda-roupa masculino”, exigindo o direito de livrar-se da “ditadura das calças” e adotar a saia como peça de vestuário.

“Por séculos os homens vestiram saias e vestidos, inclusive no Ocidente”, explicou Dominique Moreau, 39, fundador e presidente da associação Homens de Saia, que já conta com cerca de 30 membros, “somente a ponta do iceberg de centenas de homens que há anos manifestam na internet, em sites como www.c-tendance.com e www.jupeskirt.eu, sua vontade de abandonar as calças”, informou o jornal francês “Liberation”.

As saias são “mais confortáveis, mais amplas”, não “restringem as partes íntimas, e por isso são mais adequadas à fisionomia masculina”, observou Jerome Salomé, de 32 anos, que em 2005 fundou o site Homens de Saia (www.i-hej.com), nome adotado pela associação de Moreau em 2007.

Para Salomé, um dos maiores problemas é encontrar saias para homens em lojas de roupa. Exceto modelos caros das grifes francesas Agnès B e Jean Paul Gaultier e alguns sites na internet, “as grifes de moda em geral não ousam propor modelos de saias para homens, temem por sua imagem”.

“É uma pena, porque haveria mercado”, observou Moreau.

Com informações da agência Ansa

Sérgio Ripardo é editor de Ilustrada da Folha Online desde maio de 2005. Está na Folha desde janeiro de 2000. Foi repórter do extinto caderno Agrofolha e do FolhaNews, onde cobriu mercado financeiro. Escreve Destaques GLS às quartas.E-mail: sergio.ripardo@folha.com.br.

06/05/2008 - 13:39h Doença que não dá IBOPE faz vítimas, mas fica fora do radar da mídia

anemia2.jpg
AGNER, A MÃE NILCÉA E A IRMÃ LILIAN

por Conceição Lemes - Blog de Azenha

Há décadas 8 de maio é o Dia Mundial da Talassemia. A proposta da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que este 8 de maio, quinta-feira, seja o Dia Mundial das Hemoglobinopatias, englobando a anemia falciforme. São doenças decorrentes de alterações genéticas da hemoglobina, a proteína que, dentro dos glóbulos vermelhos do sangue, “carrega” o oxigênio para todo o organismo. Definitivamente, a OMS incluiu a anemia falciforme em suas prioridades.

Nos dias 9 e 10, o diretor do Programa de Genética Humana da OMS, Victor Bulygin, se reunirá, em Campinas, interior de São Paulo, com organizações governamentais e não-governamentais para discutir uma proposta de diretrizes para os próximos cinco anos. A grande preocupação é o acesso dos portadores de hemoglobinopatias à medicina de qualidade, para prevenir as complicações e o melhor controle dos distúrbios. A anemia falciforme é a doença hereditária mais prevalente no mundo, inclusive no Brasil. É um problema de saúde pública, ainda não tem cura e pode afetar quase todos os órgãos. Atinge principalmente afro-descendentes.

É o caso de Agner Eduardo Gomes da Silva. “Aos 2 anos de idade, percebi que não acompanhava a irmã nas brincadeiras. Vivia cansado, febril e olhos lacrimejantes. Certa vez, a mãozinha inchou. O médico achou que um bicho havia mordido e engessou o bracinho dele”, relembra a mãe Nilcéa Gomes da Silva, 54. “Na segunda vez, prescreveu pomada e antitérmico. Acabei indo num médico particular, que suspeitou de anemia falciforme. O teste confirmou.”

Até os 18 anos, Agner foi tratado no Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo. De lá para cá, no Ambulatório de Hemoglobinopatias do Serviço da Hematologia e Hemoterapia da mesma instituição. “Nas aulas de educação física, sempre joguei bola menos tempo do que meus colegas. Aos 11, fiz cirurgia para retirar cálculo renal”, recorda-se. “Aos 18, comecei a ter crises de priapismo [ereção prolongada, dolorosa], que, agora, com medicação, cessaram. De vez em quando, sinto bastante cansaço, dores fortes de cabeça e nas costas.”

Agner tem 29 anos, cursa o último ano da faculdade de Direito e estagia em uma operadora de planos de saúde. Cristelene, sua noiva, já fez avaliação genética. O exame deu negativo. A realidade brasileira, porém, é outra.

(more…)

09/02/2008 - 13:46h CONCEIÇÃO LEMES: “UM VERDADEIRO CRIME CONTRA A SAÚDE PÚBLICA”

do Blog de Azenha, Vi o mundo

O texto abaixo nasceu de uma troca de mensagens que tive com a jornalista Conceição Lemes. Tanto quanto eu, ela ficou alarmada com o tratamento irresponsável que a mídia brasileira deu à epidemia de febre amarela, tão real quanto as armas de destruição em massa que até hoje são procuradas no Iraque. Dessa troca de mensagens nasceu a idéia de produzir um texto com o objetivo de fazer o que muitos não fizeram: bem informar o público. Por isso, convoco todos os leitores a disseminá-lo. E todos os blogueiros a reproduzí-lo. Quem quiser, imprima o texto.

Vou contar um causo verdadeiro para explicar que, mesmo que você não acredite, essa internet funciona. Fiz uma entrevista para o site com o dr. Granato, da UNIFESP. Na entrevista, pedi ao médico um conselho: minha mãe, de 83 anos de idade, moradora de Bauru, deveria ou não se vacinar? Minha mãe não lê o meu site. Porém, uma rádio de Bauru capturou o áudio da entrevista e colocou no ar. E minha mãe, ao ouvir a entrevista que fiz com o dr. Granato, finalmente se tranqüilizou e NÃO tomou a vacina, o que ela havia considerado fazer. Portanto, peço a vocês que tratem o artigo abaixo como uma peça de contra-desinformação.

mosquito.jpg

(more…)

17/11/2007 - 07:36h Com tucanos e Demos na Prefeitura de São Paulo, até grávidas passam por recall

Gestantes de SP refazem pré-natal após denúncia
Naiana Oscar, JORNAL DA TARDE

Pré-natal será refeito em unidade de saúde de Brasilândia

Cerca de 40 gestantes voltaram ontem à Unidade Básica de Saúde (UBS) Jardim Vista Alegre, na zona norte de São Paulo, para reavaliar a situação dos bebês após denúncia de irregularidades nas consultas de pré-natal. Por falta de ginecologistas e obstetras, os atendimentos estavam sendo feitos por um enfermeiro, procedimento contrário ao indicado pelo Ministério da Saúde.

Das 140 grávidas atendidas na UBS, 60 foram convocadas pela Secretaria Municipal da Saúde. As demais eram assistidas pela equipe do Programa de Saúde da Família e não há indícios de problemas no atendimento. A Organização Mundial da Saúde recomenda, no mínimo, seis consultas com médicos durante a gestação.

Apesar de reclamarem da falta de médicos, as pacientes não acusam o enfermeiro, a quem se referem como “doutor”. “Ele é educado, conversava bastante com a gente. Era tão atencioso que a consulta chegava a ser melhor que a do médico”, disse Rosa Maria dos Santos, 28 anos. As gestantes se manifestaram contra o afastamento do profissional pela prefeitura. “Queremos mais médicos, não que tirem o enfermeiro”, disse Maria Luz Oliveira, 28 anos e 5 meses de gravidez.

O mutirão para atendimento foi realizado ontem, das 8h às 16h. Além de demonstrarem preocupação, as grávidas tiveram que ter paciência, já que o tempo de espera chegou a três horas. Segundo a Secretaria Municipal da Saúde, a demora ocorreu porque as consultas foram detalhadas e o prontuário de cada paciente teve de ser avaliado. As que não compareceram ontem poderão fazer a consulta na próxima semana.

08/10/2007 - 13:02h "Brasil precisa mudar rede de saúde para atender idoso"

Folha de São Paulo

Chefe de envelhecimento da OMS defende que os médicos aprendam a lidar com a terceira idade e que o jovem seja sensibilizado para o fato de que “envelhecer é bom’

O Brasil precisa mudar a rede de atenção básica à saúde para atender as necessidades da população idosa, que atinge a marca de 17,7 milhões no país. A análise é de Alexandre Kalache, chefe do programa de envelhecimento e saúde da OMS (Organização Mundial da Saúde), que está no Brasil para lançar um guia mundial em que o Rio aparece como cidade amiga do idoso.

CLÁUDIA COLLUCCI
DA REPORTAGEM LOCAL

Às vésperas de completar 62 anos (dia 17) e se aposentar da OMS, Kalache vai montar no Rio de Janeiro o instituto latino-americano de gerontologia, ligado à Universidade de Londres e que tem como parceiros o Banco Mundial e a Academia de Medicina de Nova York.
“Em vez de ir para casa assistir à TV, vou agitar muito. Vamos levar o Brasil para o mapa da gerontologia internacional e vice-versa. Vou continuar ativo por muitos anos e, depois, vou plantar batatas na minha casinha na Espanha”, diz ele, dois filhos e uma neta.
Há 33 anos morando no exterior, o carioca Kalache é PhD em epidemiologia pela Universidade de Oxford, foi fundador da Unidade de Epidemiologia do Envelhecimento da Universidade de Londres e criador do primeiro mestrado em promoção da saúde da Europa. A seguir, trechos da entrevista concedida à Folha de Nova York, por telefone, na última sexta.


FOLHA - A OMS tem difundido o conceito de envelhecimento ativo, mas, no Brasil, envelhecer com qualidade ainda é para poucos. Quais estratégias o país precisa adotar para colocar o discurso em prática?
ALEXANDRE KALACHE
- A definição do envelhecimento ativo é baseada em três pilares: saúde, participação e segurança. Na saúde, a coisa mais importante no Brasil é reforçar, capacitar a rede de atenção primária para que ela esteja mais voltada às necessidades dessa população que envelhece. Hoje o SUS está muito voltado para a saúde materno-infantil.
A OMS tem desenvolvido estudos-pilotos, criando uma espécie de caixa de ferramentas sobre como fazer para que o centro de saúde se torne mais amigo do idoso. No Brasil, envolvemos dois centros, em São Paulo [em São Miguel Paulista] e no Rio [em Manguinhos]. Simulamos o envelhecimento, colocamos a equipe no centro de saúde simulando como se tivesse catarata, usando uma lente meio opaca, peso nas pernas, nas coxas, braços, grãos no sapato para doer um pouco, cera no ouvido. As pessoas nunca esquecem dessa experiência.
Também precisamos mudar aspectos administrativos. Existem postos de saúde que não têm nenhum sistema de marcação de consulta. Esses pobres idosos levantam às 5h da manhã, vão até o centro, recebem um número e, ao final da manhã, descobrem que o médico já foi embora e que ele não será mais atendido. Isso é um absurdo, uma falta de respeito. Em relação ao ambiente físico, o centro de saúde precisa eliminar as barreiras físicas, colocar rampas, elevadores, sala de espera mais confortável com acesso ao banheiro.

FOLHA - Qualidade de vida na velhice está ou não diretamente ligada a um maior poder aquisitivo?
KALACHE
- É muito mais difícil conseguir qualidade de vida se não tiver um teto sobre a sua cabeça, se não tiver a certeza de como se alimentar ou, se ficar doente, se terá o mínimo de assistência médica. Por outro lado, você não precisa ser milionário ou rico para ter qualidade de vida. Você vê milhões de brasileiros que estão envelhecendo, inseridos na sua comunidade, com suas famílias, vivendo bem. Estou conversando com você de Nova York, uma cidade de primeiríssimo mundo, onde você encontra idosos que, embora tenham suas necessidades básicas satisfeitas, vivem isolados, numa família fragmentada, reflexo das grandes massas migratórias. São pessoas que estão envelhecendo fora do seu meio ambiente. Em São Paulo, por exemplo, a gente vê o imigrante nordestino, a mulher que foi trabalhar em casas de família e que, muitas vezes, não constituiu a sua própria família, e que, ao envelhecer, está só, triste, sem qualidade de vida.

FOLHA - O sistema de saúde continua a enfatizar o cuidado com as doenças agudas, enquanto as que mais afetam os idosos são as crônicas. Isso não tem que ser revisto?
KALACHE
- Sem dúvida. Temos no Brasil a idéia de que as doenças que podem ser prevenidas são as infecciosas e que as doenças não-transmissíveis são inevitáveis dentro do processo de envelhecimento. Hoje há muita gente com 60 anos e que está muito mal e outros com 80 que estão muito bem.
Se você controlar apenas quatro fatores de risco, o fumo, a dieta inadequada, a falta de exercício físico e o consumo excessivo de álcool, já terá um impacto muito grande. Se a gente não tiver política preventiva, de promoção de saúde fortemente ativa, isso, que já é um problema de saúde no país, vai se tornar uma epidemia.
Em segundo lugar, mesmo que o indivíduo se comporte muito bem, tenha um estilo de vida saudável, você ainda tem um ingrediente social muito grande. Por exemplo, na Inglaterra, se você compara as classes sociais A e B com as D e E, você tem um excesso de risco, que se traduz na redução de oito anos na expectativa de vida [das D e E], mesmo aqueles mais pobres que nunca fumaram, praticam exercício físico e comem razoavelmente bem.
No entanto, a diferença social, talvez pela falta de cidadania e auto-estima, faz com que os mais pobres vivam muito menos mesmo vivendo no mesmo ambiente físico. É preciso levar em conta essas determinantes sociais e agir sobre elas.

FOLHA - Temos no Brasil perto de 550 geriatras contra 30 mil pediatras. Com o envelhecimento da população, esse quadro deve mudar?
KALACHE
- Até certo ponto. A gente não vai conseguir formar geriatras em quantidade para atender, em planos mundiais, 2 bilhões de idosos no ano de 2060. A gente vai poder fazer com que todos os profissionais de saúde saibam aquilo que seja a essência, a base da atenção do idoso. Estou muito mais interessado em que todos os ortopedistas de amanhã, todos os oftalmologistas, todos ginecologistas, todos cirurgiões saibam lidar com idosos e entendam o mínimo sobre a fisiologia do idoso, a anatomia, a depressão, a saúde mental do que formar especialistas. Do contrário, o risco é você acabar medicalizando e tornando o envelhecimento uma especialidade e não uma etapa da vida. O papel do geriatra é muito importante porque, você tendo bons geriatras, terá bons treinadores daqueles profissionais que precisam ser treinados.

FOLHA - O que o futuro médico precisa aprender sobre o idoso?
KALACHE
- A OMS e a Associação Internacional de Geriatria e Gerontologia lançaram 15 pontos de currículo mínimo sobre cuidados relacionados ao envelhecimento que todos os estudantes de medicina deveriam ter: anatomia, farmacologia, a manifestação clínica das doenças, que é diferente quando você tem 80 anos do que num adulto de 40, como o organismo responde às dosagens de medicamentos etc. Daqui a 40 anos, o mundo terá envelhecido de forma irreconhecível. O médico vai lidar com mais e mais e mais idosos. Se você, desde o início, não tiver a atitude correta e o conhecimento adequado, você vai fazer mal, mesmo que inadvertidamente.
E não só em medicina, mas em enfermagem, em arquitetura, em direito. Temos que sensibilizar a juventude de que o país está envelhecendo e que isso é uma coisa boa, que envelhecer é a negação da morte precoce.

FOLHA - O modelo de aposentadoria não-contributiva do Brasil continuará sendo sustentável?
KALACHE
- Vários estudos mostram que com 2% do Produto Interno Bruto você consegue atender as necessidades de mais de 7 milhões de brasileiros. Se a economia crescer, como tem crescido, não há nenhuma razão para que isso não seja sustentável. Você tem que ver o que a sociedade está ganhando e não o que está perdendo. Ela “perde” 2% do PIB, mas tira da miséria 25 milhões de brasileiros [familiares dos aposentados]. Na avaliação do Banco Mundial, modelos como o Brasil e da África do Sul, que são muito parecidos, demonstram a sustentabilidade. O que não é sustentável é continuar com privilégios e distorções em que alguns poucos pesam 50, 60, 70 vezes mais do que esses miseráveis US$ 100 [da aposentadoria não-contributiva]. Esses são os pesos que estão fazendo com que o seguro social no Brasil se torne inviável.

FOLHA - Há no país uma cultura pelo padrão de beleza física jovem. É mais difícil para o brasileiro encarar o envelhecimento?
KALACHE
- Fica mais difícil, não há dúvida que existe essa obsessão. Por outro lado, se você anda pelas ruas de Copacabana, você vê milhares de pessoas idosas. E, embora em choque com a cultura do corpo, com a idealização da juventude, você vê pessoas de todos os formatos de corpo, pessoas gordas, magras. Existe no Brasil uma adaptação, uma coisa mais flexível, que não consegue punir aqueles que fogem à regra.

23/05/2007 - 19:31h Brasil aprova na OMS resolução a favor da quebra de patentes

Resolução estabelece a criação de estratégia internacional de acesso a remédios antiaids e apoio aos países que queiram quebrar patentes de medicamentos

Jamil Chade Agencia Estado

GENEBRA - Com a oposição declarada do maior responsável por registros de patentes no mundo - os Estados Unidos -, o Brasil conseguiu aprovar na Organização Mundial da Saúde (OMS) uma resolução que serve como uma espécie um aval para as políticas seguidas pelo País no setor de medicamentos, principalmente depois da decisão de quebrar a patente de um remédio da empresa Merck.

A resolução estabelece a criação de uma estratégia internacional de acesso a remédios contra a Aids e o apoio da agência da ONU para a Saúde aos países que queiram quebrar patentes de medicamentos.

A resolução ainda pede que mecanismos, como um fundo, sejam estudados para permitir o financiamento de pesquisa de novos remédios em países emergentes. Os governos alegam que, até hoje, a única forma de financiar novos produtos colocados no mercado pelas empresas tem sido a venda dos remédios a um preço alto. Leia mais aqui