13/11/2009 - 16:03h Tosca, clean no cenário, pesada na interpretação. Montagem reabre temporada de exibição de ópera nas telas


Recondita armonia – Tosca – Alvarez

João Luiz Sampaio – O Estado SP

Uma montagem da Tosca, de Puccini, abre hoje a temporada 2009/2010 de transmissões no cinema de óperas do Metropolitan de Nova York. Estrelada pela soprano Karita Mattila e o tenor Marcelo Álvarez, a produção abriu em outubro a temporada do teatro, provocando polêmica pela abordagem moderna do diretor Luc Bondy, vaiado, ao lado de sua equipe, na estreia.

Tosca é uma das óperas mais amadas do repertório lírico. Amor, traição, desejo, ciúme, vingança – está tudo lá, no que a ópera italiana tem de melhor. A protagonista, uma cantora lírica da Roma do início do século 19, se vê perante um dilema: ceder ao desejo do chefe de polícia Scarpia ou ver seu amante, o pintor e revolucionário Maria Cavaradossi, ser torturado e morto.

A reação do público nova-iorquino talvez tenha menos a ver com a produção em si e mais com o fato de que ela substituiu outra, há 30 anos no repertório do Metropolitan, assinada por Franco Zeffirelli. Os cenários eram deslumbrantes, detalhistas ao extremo segundo o desejo naturalista do diretor. Bondy opta por outro caminho, mas sem grandes inovações: seus cenários são limpos, mais sugerem do que contam, mas não há nenhum aggiornamento, ou seja, a ação se passa na Roma original do libreto, Cavaradossi é mesmo um pintor, Scarpia, o chefe de polícia e por aí vai.

O aspecto mais controverso é a direção de atores. O ciúme de Tosca, no primeiro ato em que visita seu amante na igreja em que ele pinta um retrato, a leva à beira de um ataque histérico – da mesma forma, na cena final, vemos uma Tosca diferente, disposta a enfrentar os policiais que a perseguem. Não é a personagem a que estamos acostumados – mas a leitura de Bondy sai de possibilidades sugeridas pelo libreto.

Já a concepção do chefe de polícia Scarpia peca um pouco pelo excesso. Fazer dele uma figura psicótica, de olhar vidrado, rodeado por prostitutas antes de receber Tosca em seus aposentos, trai um pouco a ideia do personagem. Scarpia é um grande vilão não apenas porque condiciona a libertação de Cavaradossi a uma noite de amor com Tosca – o que o torna especial é o prazer da tortura, o jogo de sedução, poder, desejo em que se insere. A “maldade” de Scarpia é sofisticada, elegante, fria, cruel. Aqui, perdeu um pouco de sua força. Mas o bom desempenho vocal do barítono George Gagnidze diminui o estrago.


Serviço
Tosca (EUA, 128 min.) – Dir. Luc Bondy. Cine Bombril – 14 h, 19 h. Espaço Unibanco – 17 h. Livre. Até o dia 19


Outros Títulos

NOVEMBRO: Aida, de Giuseppe Verdi (estreia no dia 27)

DEZEMBRO: Turandot, de G. Puccini (estreia no dia 13)

2010: Os Contos de Hoffman, de Offenbach; O Cavaleiro da Rosa, de Strauss; Carmen, de Bizet; Simon Boccanegra, de Verdi; Hamlet, de Ambroise Thomas; Armida, de Rossini.

08/03/2009 - 14:32h Salas paulistanas exibem “Lúcia de Lammermoor”, ópera do Metropolitan

A soprano Anna Nebtreko em cena de “Lúcia de Lammermoor’, ópera do Metropolitan de NY

DA REPORTAGEM LOCAL – FOLHA SP

Depois de “La Rondine” e “Orfeu e Eurídice”, óperas do Metropolitan de Nova York exibidas em cinemas de São Paulo, Rio e Porto Alegre, chega a vez de “Lúcia de Lammermoor”, montagem no Met da obra de Gaetano Donizetti, que estreia hoje em nove cidades, com reexibição em cinco delas, incluindo SP, nesta terça.
É a chance de ver no país, em alta definição, a ópera conduzida pelo maestro Marco Amiliato, que traz, nos papéis principais, a soprano Anna Netrebko (Lúcia), o tenor Piotr Beczala (Edgardo) e o barítono Mariusz Kwiecien (Enrico).
Em São Paulo, as sessões acontecem hoje, às 17h, e terça, às 20h, no Cine Bombril, no Espaço Unibanco Pompeia e no Frei Caneca Unibanco Arteplex. Ingressos custam R$ 25 no Cine Bombril e R$ 30 nas demais salas da cidade.
As próximas sessões de óperas do Met exibidas nos cinemas do país são: “Madame Butterfly”, de Puccini, em 22 de março; “La Sonnambula”, de Bellini, em 5 de abril; e “La Cenerentola”, de Rossini, em 24 de maio.

07/03/2009 - 14:00h ”Queremos a ópera inserida na cultura contemporânea”

Diretor do Metropolitan, Peter Gelb fala do cinema como meio de atingir novas plateias e prevê dificuldades por causa da crise

Em São Paulo, Lucia de Lammermoor será exibida no Cine Bombril, no Unibanco Arteplex e no Unibanco Pompéia amanhã, às 17 h, e terça, às 20h.

João Luiz Sampaio – O Estado SP

Em setembro de 2008, o todo poderoso chefe do Metropolitan Opera House de Nova York, Peter Gelb, deu uma entrevista ao site Time Out. A certa altura, o repórter lhe pergunta como vê o futuro de Nova York. “Se não houver outro ataque terrorista, uma crise econômica e se o aquecimento global não fizer o Rio Hudson inundar a cidade, imagino que seja um grande futuro”, disse. Pouco mais de seis meses depois, uma das maiores crises econômicas da história virou do avesso a vida dos norte-americanos. “Para instituições culturais sem fins lucrativos, como o Metropolitan, o quadro ainda é incerto, não se sabe como seremos afetados”, diz Gelb ao Estado. Ele foi contratado há três anos para modernizar e devolver ao Met o posto de maior teatro de ópera do mundo. E agora? “Vamos devagar. Mas iniciativas como a transmissão de óperas pelo cinema são promissoras.” O projeto começou há dois anos e consiste na exibição em cinemas das óperas apresentadas no teatro; há duas semanas, chegou ao Brasil, onde continua amanhã com Lucia di Lammermoor, de Donizetti.

“Ao todo, 1,25 milhão de pessoas já assistiram às exibições. Para este sábado (hoje), nos EUA, já há 150 mil ingressos vendidos. É claro que a receita que temos com as bilheterias não pagam as produções em si, mas ao menos tem pago todas as despesas de filmagem e transmissão dos espetáculos. É um caso único de projeto autossuficiente em instituições culturais norte-americanas. E mais: é um bom veículo para vender a imagem do Met em todo o mundo, para não falar da sensação boa que temos ao perceber que aquilo com que trabalhamos, no caso a ópera, não perdeu a capacidade de emocionar e mobilizar as pessoas. É engraçado: em algumas sessões, o público aplaude entre as árias. Eles estão aplaudindo quem? Acho que estão aplaudindo a ópera como gênero e a possibilidade de estar ali, em comunidade, tendo acesso a ela. Em uma época na qual a tecnologia isola as pessoas dentro de casa, o que acontece aqui é justamente o inverso. Esse é um fenômeno social que em nenhum momento antecipamos. Foi de fato surpreendente”, diz.

Para Gelb, porém, o mais importante é que tudo isso está sendo feito sem que se perca o respeito pela ópera e sua produção. “A nossa única preocupação é que a ópera coloque um pé na cultura contemporânea, que abrace as possibilidades oferecidas pela tecnologia. Como gênero, ela á ainda profundamente atraente, precisa apenas quebrar essa barreira que se colocou entre ela e a sociedade. É o que tentamos fazer, mas com um respeito profundo pela forma de arte que ela é. E, claro, sem expectativas irreais. A ópera requer um público inteligente e sensível, interessado em compreendê-la. Ela não vai ser pop, mas precisamos torná-la disponível ao maior número de pessoas possíveis. O cinema é um excelente caminho para isso.”

COMO NOS ESPORTES

E em que medida ter em mente a exibição no cinema interfere no processo de criação das montagens? Gelb diz que isso não ocorre. “É tão difícil colocar uma ópera de pé, é uma tarefa que envolve tantos detalhes, dos cantores aos técnicos, que seria uma enorme irresponsabilidade colocar ainda mais essa pressão sobre a equipe”, diz. “Temos em mente que não estamos fazendo nem cinema nem televisão, mas, sim, teatro. É claro que a exigência por cantores que saibam atuar existe, mas isso não é exatamente novo. O cantor de ópera completo, hoje, é aquele que sabe cantar e atuar; e quando alguém assim aparece, nossa, é maravilhoso. Mas tem que ser maravilhoso no palco, esse é o critério. É por isso que não filmamos a estreia de uma produção. Esperamos algumas récitas e, a cada uma delas, vamos estudando a melhor maneira de filmá-la. Só então fazemos a transmissão.”

Um dos aspectos mais interessantes das exibições é justamente o modo de filmar, a posição das câmeras. Antes de cada apresentação, artistas do teatro entrevistam o elenco e o maestro, que falam de suas concepções para o espetáculo que será exibido. E, durante a apresentação, há câmeras pegando a movimentação nos bastidores e até mesmo na cabine da direção de imagens. “Queremos deixar claro que o que temos ali é teatro filmado. Esses olhares sobre os bastidores permitem isso, além de saciar a curiosidade do público. É como se estivéssemos transmitindo um evento de esportes, um campeonato do tênis ou futebol. Todos os aspectos da produção são mostrados, dando ao público o máximo possível da sensação de se estar perto do teatro.”

DE VOLTA À CRISE

Segundo Gelb, as transmissões, se continuarem a atrair o público atual (no Brasil, por exemplo, a primeira exibição do projeto, há duas semanas, teve 90% de ocupação), não devem sofrer com falta de verbas, uma vez que se tornaram autossuficientes. O mesmo, no entanto, não vale para o cotidiano do Metropolitan. “O fato é que não temos como saber exatamente o que vai acontecer. Nos EUA, dependemos quase que exclusivamente do patronato. E, se as pessoas começarem a perder muito dinheiro, vão investir menos em artes, isso é fato. Quanto ao público, ainda não sofremos quedas na venda de ingressos. Mas a ópera é um tipo de espetáculo no qual manter o teatro sempre cheio não significa vida financeira saudável. Temos alguma seguranças em nosso fundo de investimentos, mas estamos de olho para ver o que vai acontecer.”

MONTAGEM DE ‘LUCIA’ TEM BOM ELENCO E DIREÇÃO CÊNICA

MODERNIDADE: A notícia vem logo no início da transmissão, dada pela soprano Natalie Dessay, mestre-de-cerimônias da noite: doente, o tenor mexicano Rolando Villazón não poderia se apresentar no papel de Edgardo, ao lado da soprano russa Anna Netrebko, como Lucia. “Mas quem sabe essa não é uma noite histórica, que vai fazer despontar para o sucesso um jovem tenor, chamado para substituir o colega?” Talvez seja um pouco de exagero, mas Peter Beczala dá – e bem – conta do papel. É uma voz que corre fácil, ágil, com graves levemente escuros. Entre os homens, no entanto, o destaque mesmo da produção de Lucia di Lammermoor que será exibida nos cinemas brasileiros amanhã e terça é o barítono polonês Marius Kwiecien. Ele, curioso, já esteve no Brasil, onde cantou em 2001 uma Lucia no Municipal de São Paulo. A impressão tinha sido das melhores e agora se confirma. E Lucia? Anna Netrebko é a grande sensação da ópera mundo afora. Sua Lucia é vocalmente precisa, mas a Cena da Loucura deixa um pouco a desejar em atuação cênica. A produção de Mary Zimmerman, por sua vez, é excelente, recria as colinas escocesas do romance de Walter C. Scott (que inspira a obra) e consegue ser moderna plasticamente dentro das possibilidades sugeridas pelo libreto e pela música. Em resumo, um grande espetáculo. Em São Paulo, Lucia será exibida no Cine Bombril, no Unibanco Arteplex e no Unibanco Pompéia amanhã, às 17 h, e terça, às 20 h. R$ 25.