12/05/2009 - 13:29h “E graças à teimosia de vocês eu fui eleito presidente da República”

Sindicato do ABC faz 50 anos com bandeiras trabalhistas e políticas

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KAREN CAMACHO Editora-assistente de Dinheiro da Folha Online

O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC completa 50 anos nesta terça-feira com uma trajetória de luta pelos trabalhadores, mas também de palanque para as ambiciosas carreiras políticas que se iniciariam ali. Para o futuro, a entidade diz querer ampliar os direitos trabalhistas, mas também faz planos para a programação de TV que terá no canal concedido pelo governo.

Veja a galeria de imagens do Sindicato dos Metalúrgicos

O mais famoso representante da entidade é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que começou como dirigente, passou pela presidência do sindicato e depois alçou voo político –ajudou a fundar o PT, em 1980, para em 2002 chegar ao mais alto cargo eletivo do país, sendo reeleito em 2006.

Em seu formato atual, o sindicato surgiu em 12 de maio de 1959, junto com a indústria automotiva, muito forte no ABC. Antes disso, os metalúrgicos já tinham alguma representação, desde 1933, quando o primeiro sindicato da categoria fora fundado na região.

Ao longo dessas cinco décadas, o sindicato levantou bandeiras e faixas, engrossou o coro contra a ditadura militar, defendeu direitos trabalhistas, redução de jornada, combateu demissões e ajudou a formar grupos que atuam dentro das fábricas.

A entidade representa atualmente 98.300 trabalhadores (de São Bernardo do Campo, Diadema, Rio Grande da Serra e Ribeirão Pires), mas o número já teria chegado a 150 mil no início dos anos 1980, apesar de não haver documento com comprovação. Antes do agravamento da crise, em setembro, eram cerca de 105 mil.

O atual presidente, Sérgio Nobre, afirma que o sindicato sempre esteve em defesa da democracia e que ainda tem desafios a enfrentar. “Avançamos muito na democracia política, mas ainda falta ampliar os direitos trabalhistas, como as organizações nos locais de trabalho”, afirmou. Nobre afirma que defende o fim da limitação geográfica para atuação do sindicato.

O dirigente também diz acreditar que o sindicalismo e a política sempre andarão juntos. “Não dá para fazer sindicalismo sem política. A jornada de trabalho, por exemplo, conseguimos reduzir em algumas fábricas para 40 horas semanais, mas não em todas. Por isso precisamos de mudança na lei.”

Nobre defende que os trabalhadores tenham cada vez mais representantes no Legislativo e no executivo, em todas as esferas, “assim como o empresariado”.

Canal de TV

A ampliação do sindicato também envolveu outros caminhos além da defesa dos diretos trabalhistas e da manutenção do emprego. A entidade mantêm hoje a Fundação Comunicação, Cultura e Trabalho, que por sua vez recebeu concessão de um canal de TV educativo em Mogi das Cruzes, em 2007. Ainda não há programação.

O sindicato possui ainda gráfica, jornal, uma produtora de vídeos e documentários e uma cooperativa de crédito, além de outros serviços e convênios.

Lula

No evento de 1º de Maio de 2003 (primeiro ano de mandato), o presidente Lula discursou em São Bernardo, e lembrou alguns eventos da época de sindicalista. “No 1º de Maio de 80 eu não pude vir aqui, à missa, porque estava preso. Mas vocês fizeram a primeira missa, dentro desta igreja [Matriz]“, afirmou.

O presidente também reconheceu que sua atuação à frente do sindicato (de 1975 a 1981) foi o impulso para ingressar na vida política.

“É importante lembrar que, em 1978, eu dizia para quem quisesse ouvir, que eu não gostava de política e tinha ódio de quem gostava de política. Isso, em 1978. Em 80 eu já estava fundando o PT, em 82 fui candidato a governador, em 89 a presidente, em 94 a presidente, em 98 a presidente. E graças à teimosia de vocês eu fui eleito presidente da República e cá estou”, lembrou Lula em 2003.

03/03/2009 - 14:21h A nova direita

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MARCOS NOBRE – FOLHA SP

NÃO FAZ MUITO tempo, a esquerda tinha conseguido estabelecer alguns sólidos pontos de partida do debate político. Aplicar pena de prisão não diminui a criminalidade, porque o crime não é apenas ação de um indivíduo, mas falha de toda uma sociedade. O desemprego não é culpa do desempregado, mas de um sistema econômico que produz injustiça. O progresso material só significa progresso social e político se houver uma justa e solidária distribuição da riqueza. E por aí vai.
Essas posições foram desafiadas e derrotadas. Nos últimos 30 anos, enquanto movimentos e grupos sociais reivindicavam mais liberdade, uma esquerda tradicional respondeu de maneira tradicional: liberdade só com igualdade primeiro. Recusou-se a ver que havia ali um problema real, que a promoção da igualdade não produz automaticamente pessoas autônomas. Ao invés de aceitar o desafio de pensar uma nova relação entre liberdade e igualdade, boa parte da esquerda perdeu-se em discussões bizantinas como a das causas da queda do decrépito bloco soviético.
Enquanto isso, a direita se apresentou em nova roupagem, como paladino da liberdade e mãe da democracia -quando se sabe que a democracia de massas foi em larga medida uma conquista do movimento operário contra a direita, que entrava em pânico só de pensar no voto universal secreto. A nova direita ocupou um a um os espaços disponíveis nos meios de comunicação de massa e na esfera pública, em um combate cotidiano contra as teses de esquerda então dominantes. Venceu e transformou a sua vitória em poder institucional.
O resultado foi uma guinada nos pontos de partida do debate político. O que se pede hoje de todos os lados é mais prisão, mais responsabilização dos indivíduos, mais progresso material puro e simples. E por aí vai. É nisso que consiste a atual hegemonia da direita.
A nova direita vê a forma atual da democracia como imutável, como o “fim da história”. Avalia toda tentativa da esquerda de transformar a democracia como um ataque à liberdade. Mas, ao mesmo tempo, não vê problema em aceitar -como fez a Folha a propósito da ditadura militar brasileira- o revisionismo histórico e gradações no autoritarismo.
A atual crise econômica pode alterar esse quadro. Esse é o maior temor da nova direita hegemônica. Mas isso só tem chance de acontecer se a esquerda for capaz de fazer o combate de ideias no espaço público sem continuar a pressupor que seus pontos de partida seguem inquestionáveis. Convencer pessoas que já estão convencidas é puro conformismo.

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MARCOS NOBRE escreve às terças-feiras nesta coluna.

03/03/2009 - 08:45h Volkswagen convoca hora extra no ABC

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Marli Olmos, de São Paulo – VALOR

O aumento no ritmo das vendas de veículos levou a Volkswagen a convocar praticamente todos os empregados da linha de produção da sua maior fábrica, em São Bernardo do Campo, no ABC, para fazer hora extra no sábado.

Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, apenas as áreas de motores e transmissões não funcionarão no período extraordinário. O trabalho no sábado visa atender ao aumento de demanda, segundo teria informado a empresa ao comitê dos empregados. A empresa não pôde ser contatada para confirmar as informações.

A Volks recomeçou a convocar os funcionários para hora extra logo depois das férias coletivas, em dezembro. Segundo os sindicalistas, os operários já foram para a fábrica em seis sábados. Metade foi para compensar folgas de fim de ano e o restante para acompanhar o reaquecimento do mercado.

Além do crescimento das vendas, impulsionadas pela decisão do governo de reduzir o IPI dos automóveis para combater a crise no crédito, a Volks também acelerou a produção porque assumiu a liderança do mercado, passando à frente da Fiat este ano.

20/02/2009 - 10:05h Vendas sobem e GM muda plano de dispensa

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Marli Olmos, de São Paulo – VALOR

O reaquecimento do mercado de automóveis vai evitar que parte dos 1,6 mil trabalhadores da General Motors que estavam para ser dispensados fiquem sem emprego. Depois de ter cogitado, poucos dias atrás, a dispensa desse pessoal, o presidente da GM do Brasil, Jaime Ardila, disse ontem que a empresa vai estudar caso a caso.

“Vamos renovar os contratos das pessoas que precisamos”, disse o executivo. Cada caso será analisado separadamente. O processo de avaliação começará em março, segundo Ardila.

O grupo de 1.633 empregados formava o terceiro turno de trabalho, aberto pela GM em São Caetano do Sul (SP) em abril do ano passado pela primeira vez na história dessa fábrica desde a sua inauguração em 1929.

Quando voltaram das férias coletivas, no início de janeiro, esses operários trabalharam somente um dia e já entraram em licença remunerada, sendo avisados que na data do vencimento de seus contratos – temporários – seria avaliado se eles permaneceriam na empresa ou seriam desligados. Esses contratos começarão a vencer entre o fim deste mês e março.

No início de janeiro, a GM decidiu não renovar os contratos de 744 trabalhadores temporários da fábrica de São José dos Campos (SP). Mas o cenário do mercado de veículos mudou desde então.

Ardila acompanha as vendas de veículos diariamente. Do início de janeiro até quarta-feira foram licenciados no Brasil 337,1 mil veículos. Isso representa um avanço de 8,4% na comparação com idêntico período em 2008.

“Isso significa que a redução do IPI tem muita importância”, diz o executivo. Para ele, o mercado continuará aquecido em fevereiro, em março – quando termina o benefício do IPI – e até abril, quando ainda haverá estoque de carros mais baratos por conta do incentivo tributário.

A partir de maio e junho haverá uma retração de mais ou menos 15% nas contas do presidente da GM. Ele estima que esse será o percentual de retração nas vendas de veículos este ano em relação a 2008.

Na quarta-feira a Volkswagen também decidiu renovar o contrato de 106 trabalhadores da fábrica de São Bernardo do Campo que venceriam este mês.

O mercado externo continua caindo, enquanto o reaquecimento do mercado interno tem levado muitos trabalhadores temporários de volta para as fábricas.

Ardila diz que as vendas externas já passaram a ser uma parte muito pequena nos volumes de produção da companhia. A montadora vendeu no mercado brasileiro 29,3 mil veículos em dezembro e 38,1 mil em janeiro.

Ardila diz não estar contando com a prorrogação do benefício do IPI. Segundo ele, por outro lado, mesmo que os preços dos carros aumentem, com a volta do imposto, é possível que o governo continue a estimular as vendas por meio de linhas especiais para financiamento.

De modo geral, os executivos da indústria automobilística garantem não contar com a prorrogação do incentivo. Mas já faz alguns dias que representantes dessas empresas começaram a mobilizar-se em Brasília para convencer o governo que o benefício poderá ajudar a manter a atividade e os empregos no setor.

17/02/2009 - 09:23h No Brasil, Renault chama operários de volta

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Quinhentos empregados com contrato suspenso vão retornar ao trabalho antes do previsto

 

Evandro Fadel e Cleide Silva – O Estado SP

 


Cerca de 500 trabalhadores da fábrica da Renault, em São José dos Pinhais (PR), que estavam com os contratos de trabalho suspensos até maio, devem ser chamados de volta até meados de março. Outros 500 trabalhadores continuarão aguardando a retomada total da produção, recebendo a Bolsa Qualificação. A produção de veículos de passeio da marca, hoje em torno de 380 por dia, deve subir para cerca de 540.

“O mercado deu sinais positivos de recuperação e a empresa vai precisar de mais de um turno, porém menos de dois turnos, para dar conta da produção atual”, disse o representante do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba, Robson Jamaica. “Nosso objetivo é que a volta se dê de maneira gradual e sólida; estamos esperançosos e acreditamos que os serviços serão normalizados em breve.” A expectativa é que os outros metalúrgicos também sejam chamados antes do prazo previsto. Os mil trabalhadores com contratos suspensos equivalem a 30% da mão de obra da fábrica.

Na primeira quinzena de fevereiro foram vendidos 99,3 mil automóveis e comerciais leves de todas as marcas, um aumento de 17% ante o mesmo período de janeiro e de 8% na comparação com igual mês de 2008.

Segundo Jamaica, uma das questões que ainda permanecem em discussão com a Renault é a continuidade do curso de qualificação dos trabalhadores que vão retornar. O sindicato espera que a empresa continue pagando para aqueles que queiram terminar o programa.

O secretário Nelson Garcia, da Secretaria do Trabalho, Emprego e Promoção Social do Paraná, informou que os funcionários receberão o número de parcelas do seguro-desemprego referente ao tempo de afastamento.

Com a retomada dos contratos, todos voltam a recolher os benefícios previdenciários e o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Garcia ressaltou que tem orientado os empresários do Estado a adotarem o Bolsa Qualificação como forma de evitar demissões.

Por meio dessa modalidade de seguro-desemprego, o trabalhador tem direito a receber até cinco parcelas do benefício pago pelo governo federal enquanto participa de cursos de qualificação profissional pagos pelo empregador.

17/01/2009 - 11:56h Greve para Magneti, que demitiu no ABC

Greve foi aprovada pelos 670 funcionários da empresa. Foto: Antonio Ledes

Corte de 400 causa paralisação de 2,6 mil metalúrgicos por 24 horas

Joaquim Alessi – O Estado SP

Os cerca de 1,6 mil funcionários das unidades de Santo André e Mauá da fabricante de autopeças Magneti Marelli Cofap iniciaram às 6h da manhã de ontem uma greve de advertência de 24 horas contra a demissão de aproximadamente 400 companheiros. “Todas as demissões vamos responder com greve”, discursou em frente ao portão principal da unidade o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e Mauá, Cícero Firmino da Silva, o Martinha, que cobrou intervenção direta do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. “Ele tem de usar o peso político do seu cargo para promover um grande pacto nacional contra a crise”, disse o sindicalista.

Também em São Bernardo, onde as demissões na Magneti Marelli Cofap atingiram cerca de 150 operários, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC promoveu manifestação. Os sindicalistas não têm o número exato de demissões na empresa, até porque grande parte deles foi contratada há menos de um ano, período em que não há necessidade de a homologação ser feita no sindicato. A empresa foi procurada, mas não retornou as ligações para comentar as demissões.

Martinha afirmou que o quadro em Santo André e Mauá é preocupante porque entre oito a dez empresas de médio porte já manifestaram ao sindicato o desejo de cortar pessoal. Essas indústrias empregam cerca de 3 mil trabalhadores e as demissões atingiriam entre 250 e 300 funcionários. Já foram demitidos 34 na Borlem Alumínio e outros 31 na GT do Brasil (do Grupo Italiano Gammastamp), fabricante de peças automotivas.

O sindicalista afirmou que, se as paralisações de advertência não surtirem efeito, serão adotadas novas ações. “Vamos chamar todos os desempregados e fazer atividades populares em frente às Prefeituras, Câmaras Municipais, Palácio dos Bandeirantes, se preciso vamos a Brasília e vamos cobrar ação das autoridades”, disse Martinha.

Ao cobrar uma posição mais firme de Lula, Martinha defendeu uma “agenda positiva” para o País. “O presidente Lula tem de ligar para o Serra, para o Aécio e dizer: vamos esquecer as eleições de 2010, deixar a disputa política de lado e pensar na população.”

A CUT deflagra na próxima segunda-feira o movimento “Os trabalhadores e trabalhadoras não pagarão pela crise”. A campanha vai reivindicar garantia de emprego, manutenção dos direitos dos trabalhadores, queda imediata dos juros e a contrapartida das empresas que receberem incentivos do governo.

Serão feitas manifestações de rua, passeatas, protestos diante de empresas e todas as formas possíveis de luta, segundo os sindicalistas. CUTs estaduais, confederações e federações cutistas por ramo de atividade econômica e sindicatos já estão envolvidos no movimento, que também distribuirá para a população panfletos explicativos com as propostas dos trabalhadores e as declarações que, segundo eles, o empresariado e parte da mídia usam para confundir a opinião pública.

APELO AO BISPO

As 744 demissões na GM no início da semana levaram o Sindicato dos Metalúrgicos de São Jose dos Campos a pedir ajuda para a Igreja Católica. Na manhã de ontem, diretores sindicais se reuniram com o representante da diocese de São José dos Campos, padre Paulo Renato, para discutir a situação dos temporários dispensados. A entidade quer o apoio e a participação dos padres e da comunidade católica na campanha contra as demissões.

De acordo com o presidente do sindicato, Adilson dos Santos, eles entregaram ao padre uma carta endereçada ao bispo dom Moacir Silva. “Existe a necessidade de unificar a cidade e a região na luta pelo emprego e contra a ameaça aos poucos direitos trabalhistas que dispomos. Precisamos da igreja e da comunidade católica.”

Ontem foi um dia pacífico na frente da fábrica da GM de São José dos Campos, sem protestos ou paralisações na produção. Entretanto, ficou definido que no dia 24 de janeiro haverá um grande ato na praça central da cidade, na tentativa de reverter os cortes.

16/01/2009 - 10:17h Centrais sindicais ameaçam parar empresas que demitirem

Decisão, anunciada ontem, contou com a Força Sindical, que se afastou das negociações com a Fiesp

Paula Pacheco – O Estado SP

As centrais sindicais definiram ontem que vão reagir às demissões com uma onda de paralisações nas empresas de todo o País. Participaram da reunião, organizada pela Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Força Sindical, Nova Central, União Geral dos Trabalhadores (UGT) e Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB). Faltou a Central Única dos Trabalhadores (CUT), que ficou de fora da discussão porque terá na segunda-feira um encontro com todas as suas centrais estaduais e maiores sindicatos.

“Não podemos ficar assistindo às demissões. O próprio governo já percebeu que a marolinha vai ser uma onda grande de demissões. Será preciso uma injeção de dinheiro para evitar esses cortes”, avaliou Wagner Gomes, presidente da CTB. Uma das surpresas do encontro foi o anúncio do presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, de que só voltará a negociar com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) daqui a 10 dias. Ele era voz isolada entre as centrais ao concordar com o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, sobre a redução de salários e da jornada de trabalho.

Ontem, Paulinho preferiu se unir às outras centrais, que assinaram uma proposta para começar uma negociação governamental nas esferas federal, estadual e municipal. Ontem mesmo já começaram as costuras para reuniões com os ministros Carlos Lupi, do Trabalho, Guido Mantega, da Fazenda, e com o presidente Lula.

Skaf, agora apoiado apenas por um grupo de grandes empresários e parte dos sindicatos patronais , disse não se sentir isolado com a decisão. “Achei ótima a ideia do Paulinho de adiar o encontro. Semana que vem será o momento de unirmos forças pela redução da Selic e do spread bancário.”

O presidente da CUT nacional, Artur Henrique, também é favorável às paralisações. “A orientação é para que sejam feitas paralisações e greves no caso de cortes. É a forma de resistirmos.” O líder sindical tenta uma aproximação com o governo para avaliar maneiras de manter os atuais níveis de emprego do País.

Antes da decisão das centrais, as paralisações já vinham ocorrendo. O Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, onde a GM desligou 802 temporários, conseguiu parar a produção por dois dias, num total de quatro horas. Ontem participaram da manifestação cerca de 5 mil trabalhadores.

Os presidentes dos três sindicatos dos metalúrgicos do ABC, que representam aproximadamente 140 mil trabalhadores, defenderam ontem a união das bases, passando por cima das divergências entre CUT e Força Sindical, para enfrentar o processo de demissões já desencadeado nas indústrias e a proposta do empresariado de redução da jornada com corte de salários. Como primeira atividade conjunta, representantes de São Bernardo estarão hoje , às 13h30, em frente à Magneti Marelli Cofap, em ato promovido pelos metalúrgicos de Santo André contra a ameaça de demissão de 150 operários.

O grupo de sindicalistas do ABC defende estabilidade de emprego de seis meses, por decreto-lei, no caso de empresas que recebem ajuda financeira pública.As demissões no ABC desde outubro até o momento, segundo os presidentes dos sindicatos, atingiram cerca de 2,2 mil operários.

Ontem, representantes do Sindicato Metabase de Itabira (MG) reuniram-se com a rede CUT Vale, que representa os sindicatos ligados à Vale, para organizar um ato em frente à sede da empresa no Rio de Janeiro, em 11 de fevereiro. A mobilização vai repudiar as demissões e as propostas de flexibilização de direitos trabalhistas. Mesmo os sindicatos que aceitaram acordos com a suspensão temporária do contrato de trabalho, como o Metabase de Corumbá (MS), apoiam a manifestação. “Negociamos suspensão por dois meses para 95 trabalhadores em troca da estabilidade, mas tivemos demissões”, disse o sindicalista Cassiano de Oliveira.

COLABORARAM PAULO JUSTUS e JOAQUIM ALESSI


Propostas para a crise

Fiesp:

- Redução da taxa básica de juros – Redução da jornada e do salário

- Desoneração da carga tributária CUT, CTB, CGTB, Nova Central e UGT:

- Empresas que receberem recurso público garantem os empregos

- Eliminação do banco de horas

- Aumento do seguro-desemprego

- Mais dinheiro do FAT para qualificação de mão de obra

- Queda da Selic e do spread bancário Força Sindical:

- Concorda com as propostas das outras centrais, mas aceita a redução dos salários

Ministério do Trabalho:

- Empréstimos com recursos do FGTS e Fundo de Amparo do Trabalhador (FAT) para a empresa que não demitir.

Ministério da Fazenda:

- É contra a garantia de emprego pela dificuldade de separar as demissões rotineiras da causadas pela crise

08/12/2008 - 10:01h Cenário nos Estados-Unidos é pior do que parece ser

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David Leonhardt * e Catherine Rampell *, The New York Times – O Estado SP

Por piores que tenham sido os números do relatório sobre emprego na sexta-feira, eles ainda fizeram o mercado de trabalho parecer melhor do que realmente está.

A taxa de desemprego atingiu seu ponto mais alto desde 1993, e o emprego em geral perdeu mais de meio milhão de postos de trabalho. Isso, porém, foi apenas o começo. Graças à maneira errática como as estatísticas de emprego mais conhecidas do governo são calculadas, elas ignoraram muitos trabalhadores profundamente atingidos pela atual recessão.

O número de pessoas fora da força de trabalho – que não estavam nem trabalhando, nem procurando trabalho, e que o governo não considerou desempregadas – cresceu 637 mil no mês passado, segundo o Departamento do Trabalho. O número de trabalhadores em tempo parcial que disse que queria trabalhar em tempo integral – todos contados como plenamente empregados – cresceu 621 mil.

Levando em conta essas pessoas, o mercado de trabalho está na pior condição desde o início dos anos 1980 e se deteriorando rapidamente. A parte dos homens com mais de 20 anos empregados já estava, no mês passado, no ponto mais baixo desde 1983, e próxima do ponto mais baixo dos últimos 60 anos. A parte das mulheres empregadas é mais baixa do que há oito anos, o que nunca ocorreu em décadas anteriores.

Liz Perkins, de 24 anos e mãe de quatro filhos em Colorado Springs, Colorado, começou a procurar trabalho em outubro após saber que o marido, James, estava prestes a perder o emprego. Mas os empregos que encontrou, ou não pagavam o suficiente para cobrir a creche, ou requeriam que ela trabalhasse de noite. Perkins disse que a menos que seu marido encontre emprego nos próximos três meses, temia que ficar sem teto. “Esgotaremos a poupança rapidamente.”

Mesmo economistas de Wall Street, cujas análises são em geral atenuadas, pareceram surpresos com o relatório. O Goldman Sacks chamou os novos números de “horrendos”. Economistas do Morgan Stanley escreveram, “Simplesmente não há nada de bom nesse relatório.” Analistas do HSBC agora esperam que o Federal Reserve (Fed, banco central americano) reduza sua taxa de juros benchmark (de referência) a zero.

Essa linguagem pode parecer em descompasso com uma taxa de desemprego que, apesar de aumento recente, continua em 6,7%. A taxa superou 10% no início dos anos 1980. Mas, nas últimas décadas, a taxa de desemprego se tornou uma medida menos útil da saúde econômica do país.

Isso porque hoje muito mais pessoas caem na zona cinzenta do mercado de trabalho – sem emprego e sem estar procurando por um, mas interessadas em trabalhar. Esse grupo inclui muitos ex-trabalhadores fabris que não conseguiram encontrar um novo trabalho que pague bem e não estão dispostos a aceitar um emprego que pague muito menos que o anterior.

Durante a maior parte do ano passado, as fileiras desses egressos da força de trabalho não estavam mudando rapidamente, disse Thomas Nardone, um economista do Departamento do Trabalho que supervisiona a coleta de dados sobre desemprego. As pessoas que haviam perdido seus empregos em geral começavam a procurar um novo trabalho. Mas isso mudou em novembro.

Os que procuravam empregos pareceram ficar profundamente pessimistas com a economia americana em novembro. A menos que os números se revelem um solavanco de um mês, muitas pessoas parecem ter decidido que é inútil buscar emprego agora.

“Não é só que não existe nada por aí”, disse Lorena Garcia, organizadora em Denver da 9to5, National Association Working Women, associação que ajuda mulheres mal remuneradas que buscam trabalho. “Procurar emprego também custa dinheiro.” Qual é a gravidade da situação do mercado de trabalho? Chegar a uma medida que seja comparável ao longo das décadas não é fácil.

A taxa de desemprego se tornou menos significativa pelo aumento no longo prazo dos egressos do mercado de trabalho. A simples porcentagem de pessoas sem emprego também pode ser enganosa, porém. Ela caiu nas últimas décadas principalmente por causa da entrada de mulheres na força de trabalho e não porque o mercado de trabalho esteja mais saudável do que estava.

O Departamento do Trabalho publica uma medida alternativa para o desemprego, que conta trabalhadores em tempo parcial que querem trabalhar em tempo integral, bem como qualquer um que tenha procurado emprego no último ano. Essa medida cresceu 12,5% em novembro – nível mais alto desde 1994 quando o governo começou a calcular a taxa.

Talvez a melhor medida histórica do mercado de emprego seja a criada pelo mercado, o salário. Durante a expansão econômica que durou de 2001 a dezembro de 2007, as rendas da maioria das famílias mal superaram o crescimento da inflação. Foi o crescimento da renda mais fraco de qualquer expansão desde a 2ª Guerra Mundial.

A única boa notícia do relatório, segundo economistas, foi que o salário ainda não começou a cair acentuadamente. Os salários semanais médios para operários subiram 2,8 % em relação ao ano passado, pouca coisa menos que a inflação. Mas os avanços podem encolher no próximo ano, se não nas próximas semanas, dada a queda na demanda por trabalhadores.

* David Leonhardt e Catherine Rampell são articulistas

19/11/2008 - 09:15h Para metalúrgicos, crise é passageira

 
Jefferson Dias/Valor
Benigno José Domingues, metalúrgico do ABC: pescaria, mas perto de casa

 

 

 

De São Bernardo do Campo – VALOR  

A chuva forte da manhã, substituiu o fim de semana ensolarado na grande São Paulo, e cedeu lugar à velha garoa, fina e constante. A instabilidade do clima, semelhante a dos mercados financeiros, fez companhia aos humores dos metalúrgicos da base sindical de São Bernardo do Campo na noite de segunda-feira. Aos poucos, alguns prevenidos chegavam com seus guarda-chuvas e jaquetas, outros não ligavam para a mudança do clima e uma camiseta já era suficiente para ficar a vontade.

O economista Luiz Gonzaga Belluzzo foi falar sobre a crise financeira e seus impactos sobre o Brasil. Metalúrgicos das grandes montadoras (Ford, Volkswagen, Mercedes Benz) e das autopeças lotaram a sala reservada para o evento. Na platéia, muitos estão com férias coletivas marcadas, mas a maioria apenas para o fim do ano, como é tradicional na base do sindicato. Os semblantes eram menos nublados do que se poderia esperar. E as preocupações também. Nas autopeças, o temor de demissões é maior; nas montadoras, os trabalhadores mantém os planos de consumo para o Natal, esperando que os brasileiros também continuem comprando carros novos.

De camisa pólo branca, Benigno José Domingues, conhecido como “Maluf” por conta de algumas semelhanças com o político, chegou com 20 minutos de antecedência. Aos 53 anos, trabalha no setor metalúrgico desde 1977, quando começou na Volkswagen. Desde 1996, está na Delga Indústria e Comércio, empresa de autopeças, como operador de empilhadeira.

Domingues conta que há vários anos não ouvia falar em férias coletivas, medida anunciada nos últimos dias na empresa em que trabalha. Ele diz que ficará parado por duas semanas (a partir de 22 de dezembro), mas não vê riscos de que a crise afete a fábrica onde está empregado, pois espera que a partir de janeiro a situação melhore. Para o período que ficará parado planeja a pescaria. “A gente tem chumaço (isca), vamos descer até o riacho e pescar um pouquinho” brinca o operário. Apesar da tranqüilidade que manifesta, está atento. “Não dá para ir para muito longe, a gente fica preocupado, o dinheiro que a gente pega é preciso guardar e segurar, a gente não sabe, né?”, pondera o metalúrgico.

Objetivo e com um bloquinho de anotações, ele foi à palestra à procura de uma “orientação”. “É muito importante participar desses debates para o nosso dia a dia, temos que fazer tudo com o pé no chão” observa Domingues. Ele admite estar preocupado com o cenário para as autopeças. Sempre atento ao que acontece com as montadoras, ele descreve que o clima entre os funcionários na empresa é de preocupação, principalmente por conta de demissões noticiadas em outras autopeças de Diadema, na base do sindicato. Ontem, em Campinas, novas demissões foram anunciadas na Foxconn, de eletroeletrônicos.

Outro operário do setor de autopeças que apareceu para conferir as análises da crise, foi José Augusto, de 38 anos. Na Welcon Fasteel, fábrica em que trabalha há cinco anos e sete meses como operador de máquina no departamento de estamparia, Augusto faz parte da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa) e do Comitê Sindical da Empresa (CSE).

Na empresa foram anunciadas férias coletivas para o início de dezembro para acompanhar o calendário das montadoras, o que reforçou, no início, o clima de preocupação entre os trabalhadores, conta Augusto. “O pessoal ficou meio surpreso no começo, mas agora já estão assimilando melhor o fato, embora a maioria tema demissões”, acrescenta.

Se para os trabalhadores das autopeças as dúvidas pairam e criam nebulosidades, para os jovens colegas de trabalho e ponteadores da Ford, Sandro Randal Alves, 31 anos, e Jairo de Souza Franco, de 25, o céu cinzento da mudança não provocará diferenças.

Alves completou o ensino médio e decidiu investir em cursos do departamento de Formação Sindical. Fez dois, um de Ergonomia e outro de Formação para Formadores. Orgulha-se das oportunidades e empenha-se em acompanhar de perto tudo o que está ligado às questões trabalhistas.

A Ford informou que as férias coletivas começarão a partir de 15 de dezembro. Para Alves, a parada representa uma pequena diferença na programação dos anos anteriores, mas não implica na desaceleração na produção, e pode ser explicada como uma necessidade de adaptação dos estoques.

Para os seus companheiros de produção, contudo, a notícia não foi recebida com tanta frieza. Alves conta que há muitos trabalhadores apreensivos, mas responsabiliza a mídia pelo clima de desconfiança. Para o Natal, com sua esposa e as duas filhas, ele não pretende alterar os hábitos em comparação com outras festas. Nas férias coletivas, vai aproveitar para descansar e estudar.

Com voz de locutor de rádio e poucas palavras bem cuidadas, o companheiro de trabalho de Alves, o tímido mineiro Jairo concorda com a análise de que o setor não sofrerá grandes adaptações. Em São Paulo desde os 12 anos, quando veio morar com a tia para estudar e depois trabalhar, Jairo planeja uma visita à mãe em Minas Gerais nas férias coletivas. E não teme perder o emprego na volta.

Na Volkswagen, o clima é um pouco mais apreensivo entre os funcionários, segundo o coordenador do comitê sindical, Reinaldo Marques. As notícias de carros parados nos pátios trazem preocupação e levam os operários a questionar as medidas que a empresa pode tomar nos próximos dias.

 

09/11/2008 - 17:35h CSN 20 anos depois da greve histórica

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Episódio impulsionou organização sindical, mas valeu pouco a seus personagens

Alexandre Rodrigues - O Estado de S. Paulo

 


RIO - Pouco mais de um mês depois da promulgação da Constituição de 1988, chamada “cidadã” por institucionalizar a democracia e direitos como o de greve, mais de 20 mil metalúrgicos decidiram cruzar os braços e ocupar o interior da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) para exigir a correção dos salários e as condições de trabalho previstas na Carta. Sabiam que desafiariam o autoritarismo que se recusava a sair de cena, mas não esperavam que a invasão do Exército para cumprir o mandado judicial de reintegração de posse os faria deixar a usina de Volta Redonda, marco do impulso industrializador getulista, com os corpos de três “companheiros” nos braços.Veja também:

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A reação do País àquele 9 de novembro impulsionou a organização política dos trabalhadores na redemocratização, mas deu muito pouco aos operários. Vinte anos depois, a memória do episódio que ganhou repercussão internacional se diluiu em meio à impunidade, ao desamparo das vítimas e às disputas internas do sindicalismo de Volta Redonda – que não conseguiu evitar o desemprego e as conseqüências sociais da privatização da CSN em 1993.

William Fernandes Leite, de 23 anos, foi baleado no pescoço quando observava a incursão militar do alto da aciaria, coração da siderúrgica, onde a maior parte dos grevistas se refugiou. Walmir Freitas de Monteiro, de 28, teve o tórax atravessado por uma bala de fuzil quando deu de cara com os militares na saída de um refeitório. O corpo de Carlos Augusto Barroso, de 19, foi encontrado com sinais de espancamento e afundamento de crânio.

Apesar da abertura de um inquérito militar, não houve culpados. Nenhum militar foi autorizado a depor na Justiça comum, que rejeitou as denúncias do Ministério Público. Em vez de réu, o general José Luís Lopes da Silva, que comandou a invasão, tornou-se juiz em 1999, indicado ministro do Superior Tribunal Militar pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Na ocasião, diante do mal-estar provocado por sua nomeação, defendeu a ação em Volta Redonda, classificando-a de “bem-sucedida”. Ele se aposentou em 2004.

Revezes

Os líderes sindicais que mobilizaram os operários, conquistando toda a cidade para a causa, tiveram recentemente seus revezes reconhecidos pelo governo. Cerca de 70 ingressaram com pedido de reparação na Comissão de Anistia do Ministério da Justiça e pelo menos 18 já obtiveram julgamento favorável este ano pelas perseguições e demissões decorrentes da série de greves anteriores, iniciada em 1984. A comissão não divulgou a lista dos beneficiados, mas segundo alguns deles as indenizações vão de R$ 25 mil a R$ 200 mil.

Já pelo assassinato dos três operários, o Estado não foi responsabilizado. Os familiares receberam na época uma compensação financeira da estatal a título de “acidente de trabalho”. Parte do acordo que pôs fim à greve, a indenização foi calculada cruzando seus modestos salários de 75 mil cruzados e suas expectativas de vida. João Campanário, advogado do sindicato até hoje, diz que o acordo foi fechado às pressas para abreviar o desamparo das famílias.

No 1.° de Maio de 1989, o sindicato reforçou o culto a William, Barroso e Walmir como mártires da luta operária ao inaugurar na cidade um monumento aos mortos projetado por Oscar Niemeyer. Não ficou 24 horas de pé. Na madrugada do dia seguinte, tombou sob o impacto de explosivos, num atentado atribuído a militares descontentes que nunca foi totalmente esclarecido. A pedido do arquiteto, o monumento não foi reformado para que as marcas servissem de alerta e memória para as próximas gerações.

Aos 77 anos, aposentado da indústria naval, Manoel Monteiro, pai de Walmir, trabalha como barbeiro num pequeno salão na periferia de Volta Redonda. Ele perdeu a mulher logo depois do filho. A nora, Luciene, mergulhou na depressão que a levou ao alcoolismo, e morreu há cinco anos na pobreza. “Ela era apaixonada pelo Walmir. Ficou sem rumo.” Ele ainda sofre ao lembrar da afinidade que tinha com o filho. Sempre que passa pela praça onde estão os escombros do memorial, pára para reler a placa que o homenageia, mas não tem orgulho: “Herói? Não foi. Ele foi vítima.”

Helvécio Alves, de 53 anos, detesta o monumento. Exibindo o punho direito sem movimento desde que uma bala de fuzil o atravessou na verdadeira batalha que se instalou com a tomada da usina pelos militares naquela noite de novembro, ele lembra que as seqüelas interromperam sua carreira à frente da locomotiva que pilotava na aciaria. Desistiu de buscar uma indenização depois de anos na Justiça sem sucesso. Amargurado, não enxerga benefícios para os trabalhadores depois da greve. Sente-se usado pelos sindicalistas e injustiçado pelo País.

“Briguei por um direito e me negaram, como se eu fosse culpado. Todos se beneficiaram: general, sindicalista, juiz, presidente da CSN. Quem perdeu foi o trabalhador, que ficou esquecido”, reclama Helvécio, que dá expediente num box do camelódromo de Volta Redonda para complementar a aposentadoria, que não chega a R$ 2 mil. Até hoje não tem casa própria. “Não tenho nada.”

Pintura da guerra

Dispostos a resistir, os operários receberam com paus, pedras e instrumentos de trabalho os 2 mil soldados das brigadas de Infantaria Motorizada da capital e de Petrópolis, deslocadas pelo comando do Exército para reforçar as tropas do batalhão de Barra Mansa. Os militares, que tinham o rosto pintado para o combate, responderam com bombas e tiros de fuzil. Ao ver que as balas eram de verdade, os grevistas se embrenharam na escuridão dos galpões que conheciam como a palma da mão. Quando um se mostrava, os soldados atiravam.

Atordoado pelo barulho, Helvécio buscava abrigo quando foi visto por soldados entrincheirados. “Eu ouvi uma voz dizer: ‘atacar!’ Aí foi aquela explosão no meu ouvido e a pancada no braço, que tinha levantado. Eles queriam acertar minha cabeça, atiraram para matar”, relembra Helvécio, que não tinha parado de trabalhar.