26/05/2009 - 14:36h Opinião enviesada

Escrevi ontem uma nota (Delito de opinião) mostrando o patrulhamento existente na época de FHC, fazendo que um funcionário da Petrobras “excessivamente nacionalista” e favorável ao PT, tivesse seu currículo “manchado”, segundo o jornal VALOR.

Pois bem, hoje me deparei com uma carta de leitor do jornal O Estado de São Paulo que mostra o mesmo procedimento no tratamento feito pelo jornal ao Ipea, objeto de uma campanha de alguns setores da mídia, por não comungar com o que esses jornais consideram o “politicamente correto”.

Recente editorial do Estadão questionava o recrutamento de pesquisadores pelo Ipea como orientado por um viés ideológico e partidário. Uma mudança da natureza do instituto, supostamente para adaptá-lo ao controle do PT. A prova era fornecida pelo número de pesquisadores recrutados originários da Unicamp (suponho que a Unicamp seja sinônimo de esquerdismo).

Vejam a carta do leitor e a resposta do Estadão e tirem suas próprias conclusões.

O editorial O controle do Ipea contém um raciocínio, no mínimo, questionável. Segundo ele, no concurso de 2004 do Ipea 10 dos 44 aprovados tinham pós-graduação na PUC-RJ ou na FGV e só 1 na Unicamp; no último concurso, de 62 aprovados, 10 tinham pós-graduação na Unicamp, 1 na PUC-RJ e nenhum na FGV. O editorial sugere que isso mostra a tentativa de padronização ideológica do concurso atual. Pergunto-me se foi considerada a possibilidade de o resultado do concurso anterior, em vez de mostrar uma diferença de qualidade entre as escolas, ser simplesmente manifestação de uma padronização ideológica no sentido diametralmente oposto.

Ramón García Fernández, professor da Escola de Economia da FGV, ramon.garcia.fernandez@gmail.com

São Paulo

N. da R. – O editorial reprova a padronização ideológica de um órgão de pesquisa que deveria ser independente. Isso vale para qualquer tipo de aparelhamento.

Mas o que dizia o editorial do Estadão?

“Reconhecido até há pouco como um dos mais importantes centros de discussão e de formulação de políticas públicas e respeitado pela diversidade de pensamento de seus pesquisadores e pelos trabalhos que publicou desde sua criação em 1964, o Ipea foi transformado num centro de legitimação das políticas do grupo mais estatizante do PT.”

Não teria sido mais correto e condizente com a resposta dada ao leitor, o Estadão escrever que “Conhecido por ser um centro de legitimação das políticas neoliberais de FHC, o Ipea é hoje um centro de legitimação das políticas mais estatizantes do PT” ?

Onde se encontra no texto a repulsa do Estadão ao aparelhamento tucano do Ipea?

Vejam na integra o editorial

O controle do Ipea

Com a conclusão do concurso para a contratação de 62 técnicos de planejamento e pesquisa e mais 18 funcionários estáveis – o maior de toda a história da instituição -, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) avança mais no processo de “padronização ideológica” iniciado quando passou do Ministério do Planejamento para a Secretaria de Planejamento de Longo Prazo, chefiada pelo ministro Roberto Mangabeira Unger. É o que mostra o levantamento feito pela repórter Julia Duailibi do currículo dos aprovados no concurso, publicado há dias pelo Estado.

A “padronização ideológica” do Ipea vem sendo denunciada pelos pesquisadores independentes e pela imprensa desde abril de 2007, quando a instituição passou para a Secretaria criada especificamente para abrigar, no governo do PT, o polêmico filósofo Mangabeira Unger, que pouco antes chegara a pedir o impeachment do presidente da República.

Ela se intensificou com a nomeação, em agosto daquele ano, do economista Márcio Pochmann para a presidência da instituição. Uma das primeiras decisões da nova diretoria foi suspender a publicação da Carta de Conjuntura, que publicava análises isentas dos problemas conjunturais baseadas em dados do conhecimento geral, pois esse tipo de análise poderia criar constrangimentos para o governo, visto que, naquele momento, havia pressões inflacionárias fortes. Em seguida, a diretoria determinou o afastamento de quatro dos mais respeitados pesquisadores, mas críticos da política do PT.

Reconhecido até há pouco como um dos mais importantes centros de discussão e de formulação de políticas públicas e respeitado pela diversidade de pensamento de seus pesquisadores e pelos trabalhos que publicou desde sua criação em 1964, o Ipea foi transformado num centro de legitimação das políticas do grupo mais estatizante do PT. Para isso, sua diretoria vem reduzindo o espaço para a divulgação do trabalho dos pesquisadores que discordam da visão desse grupo petista.

No início, o governo Lula respeitou o Ipea. No primeiro concurso na gestão do governo Lula para a contratação de pesquisadores – realizado em 2004, quando o Ipea era presidido por Glauco Arbix -, por exemplo, dos 44 aprovados, 26 tinham pós-graduação em economia. Dez candidatos eram pós-graduados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e pela PUC-RJ, instituições criticadas por boa parte dos economistas de linha “desenvolvimentista” do PT – entre os quais Pochmann -, que as considera neoliberais e responsáveis pela formulação das principais políticas do governo Fernando Henrique Cardoso. Apenas um era pós-graduado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da qual o atual presidente é professor e na qual fez seu doutorado.

No concurso mais recente, dos 62 aprovados, apenas 21 têm pós-graduação em economia. Dos pós-graduados em economia, não há nenhum da FGV e apenas um da PUC-RJ, mas nada menos do que 10 são originários da Unicamp. Considerados todos os pós-graduados aprovados (as áreas de conhecimentos vão da economia à ciência política e à química), a Unicamp volta a predominar, com 12 candidatos, seguida pela Universidade de São Paulo (com 8) e universidades estrangeiras (com 7). A diferença em relação ao concurso anterior é notável.

O lançamento do concurso, em setembro, foi motivo de muitas críticas, inclusive de pesquisadores do Ipea, pois os critérios então apresentados indicavam a busca de “padronização ideológica”, o que os resultados finais parecem confirmar. Para, como alegou a direção na época, “mudar o perfil” dos pesquisadores, o Ipea criou sete áreas de especialização.

A prova – elaborada pelo Centro de Seleção e de Promoção de Eventos, ligado à Fundação Universidade de Brasília e que se encontra sob fiscalização e auditoria do Ministério Público Federal e da Controladoria-Geral da União – tinha perguntas sobre comércio legal de veneno de cobra e sobre cavalos marinhos, na especialidade de sustentabilidade ambiental. No geral, foi considerada de nível baixo, sem a exigência de nenhum conhecimento aprofundado, de acordo com o professor de economia da PUC-RJ Joaquim Guilhoto. Na sua opinião, “foi uma prova muito rasteira”.

O que vocês acham?

LF

23/03/2009 - 08:57h O Eu diário

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Nicholas D. Kristof – The New York Times – O Estado SP

Alguns obituários hoje em dia não estão nos jornais, mas são de jornais. O Seattle Post-Intelligencer é o falecido mais recente, exceto por um remanescente que existirá apenas no ciberespaço. E o público está buscando cada vez mais suas notícias, não nas redes de televisão abertas ou na imprensa escrita, mas garimpando online.

Quando vamos para a internet, cada um de nós se torna seu próprio editor, seu próprio vigia. Nós selecionamos o tipo de notícia e de opiniões que mais nos interessam.

Nicholas Negroponte, do Massachussets Institute of Technology (MIT), chamou esse produto noticioso emergente de The Daily Me (O Eu Diário, em tradução literal). E, se essa é a tendência, que Deus nos proteja de nós mesmos.

É por isso que há excelentes evidências de que nós geralmente não queremos de fato boa informação ? mas, antes, informação que confirme nossos preconceitos. Podemos acreditar intelectualmente no choque de opiniões, mas, na prática, gostamos de nos abrigar no útero reconfortante de uma câmara de eco.

Um estudo clássico enviou mailings a republicanos e democratas oferecendo-lhes vários tipos de pesquisa política, ostensivamente de uma fonte neutra. Ambos os grupos se mostraram mais propensos a receber argumentos inteligentes que corroborassem fortemente suas visões preexistentes.

Houve também um modesto interesse em receber argumentos manifestamente tolos das visões do outro partido (nos sentimos bem quando podemos caricaturar os outros caras como estúpidos). Mas houve pouco interesse para encontrar argumentos sólidos que pudessem minar nossa própria posição.

Essa descoberta geral foi reproduzida repetidamente, como observou o ensaísta e escritor Farhad Manjoo em seu livro sensacional no ano passado: “True Enough: Learning to Live in a Post-Fact Society” (Verdade em termos: aprendendo a viver numa sociedade pós-fato, em tradução livre).

Permitam-me tirar uma coisa do caminho: eu mesmo às vezes sou culpado de uma busca da verdade seletiva na internet. O blog a que recorro para insights sobre o noticiário do Oriente Médio é, com frequência, o do professor Juan Cole, porque ele é inteligente, bem informado e sensato ? em outras palavras, eu frequentemente concordo com ele. Sou menos propenso a ver o blog de Daniel Pipes, outro especialista em Oriente Médio que é inteligente e bem informado ? mas que me parece menos sensato, em parte porque em geral discordo dele.

O efeito do The Daily Me seria nos isolar ainda mais em nossas próprias câmaras políticas hermeticamente fechadas. Um dos livros mais fascinantes do ano passado foi “The Big Sort: Why the Clustering of Like-Minded America is Tearing Us Apart” (A grande seleção: por que o agrupamento dos EUA que pensam igual está nos esfacelando, em tradução livre), de Bill Bishop. Ele argumenta que os americanos estão se segregando cada vez mais em comunidades, clubes e igrejas em que estão rodeados por pessoas que pensam como eles.

Quase metade dos americanos vive hoje em condados que votam esmagadoramente ou em democratas ou em republicanos, diz ele. Nos anos 1960 e 1970, em eleições nacionais igualmente disputadas, somente cerca de um terço vivia em condados com essa característica.

“A nação se torna mais politicamente segregada ? e o benefício que deveria advir de uma diversidade de opiniões é perdido para a correção que é a prerrogativa especial de grupos homogêneos”, escreve Bishop.

Um estudo envolvendo 12 nações revelou que os americanos são os menos propensos a discutir política com pessoas de visões diferentes, e isso foi particularmente verdade para os bem educados. Os alunos que abandonaram o segundo grau tiveram o grupo mais diversificado de colegas de discussão, enquanto os egressos de universidades trataram de se proteger de perspectivas desconfortáveis.

O resultado disso é polarização e intolerância. Cass Sunstein, um professor de Direito de Harvard que agora trabalha para o presidente Barack Obama, realizou uma pesquisa mostrando que quando liberais ou conservadores discutem questões como ação afirmativa ou mudança climática com pessoas que pensam da mesma maneira, suas visões se tornam rapidamente mais homogêneas e mais extremadas do que antes da discussão.

Por exemplo, alguns liberais, em um estudo, inicialmente se preocupavam com a possibilidade de que ações sobre a mudança climática pudessem prejudicar os pobres, enquanto alguns conservadores foram simpáticos a uma ação afirmativa. Mas, após discutirem a questão com pessoas de pensamentos parecidos por apenas 15 minutos, os liberais ficaram mais liberais e os conservadores mais conservadores.

O declínio da mídia noticiosa tradicional acelerará a ascensão de The Daily Me, e nós ficaremos menos irritados com o que lemos e teremos a nossa sabedoria confirmada com mais frequência. O perigo é que essas “notícias” selecionadas por nós mesmos atuam como narcóticos, nos embalando num estupor autoconfiante pelo qual percebemos em pretos e brancos um mundo que tipicamente se desenrola em cinzentos.

Então, qual é a solução? Deduções fiscais para liberais que assistirem a Bill O?Reilly ou conservadores que assistirem a Keith Olbermann? Não, até que Obama nos dê um serviço de saúde universal, não podemos nos arriscar a um forte aumento nos ataques cardíacos.

Então, a única maneira de avançar talvez seja cada um de nós se esforçar para elaborar intelectualmente com parceiros adversários cujas visões deplora. Pense nisso como um exercício mental diário análogo a uma ida à academia; se você não malhar até suar, não conta.

Agora me deem licença que vou ler a página editorial do Wall Street Journal.

*Nicholas D. Kristof é colunista do The New York Times

13/03/2009 - 11:21h O Brasil que incomoda

Ruy Baron / Valor
O presidente Lula, que se encontra com Barack Obama neste fim de semana em Washington, reflete a imagem de um país que já não é confundido com republiquetas

Por Marta Barcellos, para o Valor, do Rio

É pouco provável que Barack Obama cometa gafes ao referir-se ao Brasil no encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Washington, neste sábado. Os tempos em que um presidente americano podia confundir o país com a Bolívia, como fez Ronald Regan em 1982, parecem fazer parte de um passado distante, especialmente quando um líder de reconhecido porte intelectual chega à Casa Branca. No entanto, pode-se afirmar que o mérito de distinguir o Brasil, agora, não é apenas de Obama. Ao ganhar relevância econômica e política, nos últimos anos, o país deixou para trás a difusa imagem de mais uma “república das bananas” para ganhar contornos nítidos no noticiário internacional. Nas últimas semanas, por exemplo, os correspondentes estrangeiros não tiveram muito tempo para reportagens pitorescas sobre verão ou carnaval: precisavam também analisar o impacto da crise financeira internacional no país e explicar a estratégia adotada pelo governo para enfrentá-la.

Mas a ideia de que bastaria nos livrarmos dos olhares preconceituosos, folclóricos ou desinformados para cairmos nas graças da opinião pública internacional revelou-se uma falácia. Estar em evidência pode significar também contrariar interesses e dar munição para que apontem, com embasamento, nossas mazelas. É o que mostra uma pesquisa do instituto GlobeScan, de Londres, realizada em 21 países. Mesmo bem cotado em relação aos demais, o Brasil viu aumentar a percepção negativa sobre sua influência no mundo justamente em quatro países ricos: Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido e França.

Segundo o levantamento, a visão predominantemente negativa dos americanos em relação ao Brasil aumentou de 19% para 23% no último ano. No caso da França, essa percepção subiu de 23% para 33% dos entrevistados, e no Reino Unido, de 31% para 35%. O resultado negativo mais surpreendente veio da Alemanha, onde 40% das pessoas disseram que o Brasil exerce má influência no mundo, proporção que estava em 28% na pesquisa anterior. Na perspectiva alemã, ao contrário dos outros três países, a visão negativa passou a superar a positiva, de apenas 30%. O quadro é bem diferente, por exemplo, do radiografado nos Estados Unidos, onde, embora maior, a visão negativa do Brasil corresponde à metade das opiniões favoráveis, de 47%.

O Brasil segue o padrão verificado na avaliação da China, Rússia e Índia, seus companheiros no grupo de principais economias emergentes (o chamado Bric) – com o detalhe de que os dois primeiros foram destacados na pesquisa divulgada globalmente pelo instituto, pois a visão negativa sobre ambos passou de uma média de 33% para 40%, e de 34% para 42%, respectivamente. Na avaliação feita pelos alemães, China, Rússia e Índia registraram pioras na imagem mais expressivas do que no caso brasileiro.

Para Sam Mountford, diretor de pesquisas da GlobeScan, os efeitos da crise econômica na pesquisa são difíceis de mensurar, já que a maior parte das entrevistas aconteceu no final do ano passado, quando a dimensão real da turbulência ainda não fora percebida pelo público. Mesmo assim, ele acredita que a avaliação mais negativa recebida pelo Brasil nos Estados Unidos, Alemanha, França e Reino Unido deve estar relacionada ao desenvolvimento econômico do país. “O Brasil é cada vez mais notícia”, diz Mountford. “Há muita discussão sobre o crescimento do Brasil, China, Rússia e Índia na mídia desses países e é bastante provável que essas pessoas estejam começando a se sentir ameaçadas – do ponto de vista econômico, não político”, ressalta.

“Existe um preço para a maior exposição internacional”, concorda o cientista político Amaury de Souza, consultor da MCM Associados. “Na América do Sul, por exemplo, já somos vistos como os novos yankees.”

O publicitário Nizan Guanaes, presidente do Grupo ABC, acredita que a imagem do Brasil não poderia estar melhor no exterior, por consequência das conquistas econômicas e institucionais dos últimos anos, e atribui qualquer variação nessa percepção ao incômodo causado pela competição internacional. “Talvez fosse mais fácil gostar do Brasil do mulato faceiro do que do gigante”, diz. “Não dá para querer ser sempre o queridinho, ainda mais quando se está travando embates de mercado, em um mundo cada vez mais protecionista.”

A maior visibilidade do país aconteceu principalmente em função de a sigla Bric ter caído no gosto popular, lembra Amaury de Souza. Ao surfar na promissora onda das nações que seriam os “tijolos” (”bricks”, em inglês) a sustentar o crescimento global, o Brasil conseguiu projeção e distinção, mas também passou a ser visto como parte de um bloco. É justamente a imagem desse conjunto de países que pode estar em questão, diz Matias Spektor, doutor em relações internacionais pela Universidade de Oxford e coordenador do MBA de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Segundo ele, os países do Bric tendem a perder espaço com a crise econômica, enquanto os Estados Unidos veem aumentar sua própria importância – o que estaria implícito na pesquisa da GlobeScan. Na média, a visão negativa sobre os Estados Unidos caiu de 47% para 43%, enquanto a positiva aumentou de 35% para 40%, refletindo também a eleição de Barack Obama. “A opinião pública espera que a solução da crise venha por meio da liderança americana, e não que passe pelo Bric, cuja imagem agora está mais próxima da de tijolos desmoronando”, compara Spektor. Ele destaca que a situação da economia internacional hoje é mais hostil, e o clima de tormenta aumenta a tensão entre os países.

Mas a imagem do Brasil vai além de sua identificação como integrante do Bric, o que é evidenciado pela sexta posição ocupada na média de avaliações feitas sobre 15 países, atrás apenas de Alemanha, Canadá, Grã-Bretanha, Japão e França. Essa é a boa notícia do levantamento, diz o professor da FGV. Spektor observa que, nesse ranking geral, o Brasil está acompanhado justamente por países que também pleiteiam uma cadeira no Conselho de Segurança das Nações Unidas: Alemanha, Japão, Índia e África do Sul. A pretensão brasileira, ressalta, não pode ser vista apenas como uma forma de aumentar o status ou a visibilidade do país. “Ganhar influência e poder nas relações internacionais sempre vem junto com um custo.”

Um exemplo de responsabilidade que aparece com a conquista de status internacional é a questão ambiental, apontada como uma das fragilidades da imagem brasileira por uma pesquisa qualitativa paralela ao estudo, na qual os entrevistados explicaram sua opinião sobre o país. Nessa pequena amostra, conta Mountford, foi detectada uma forte preocupação com as perdas da floresta amazônica e a percepção de que o governo brasileiro, apesar do desenvolvimento econômico, não combate o problema como deveria. Nesse grupo de pessoas, entrevistadas pela BBC, também foram mencionados problemas como a corrupção e a desigualdade na distribuição da riqueza no país. A democracia e o desenvolvimento econômico foram os destaques positivos.

Os comentários mostram um conhecimento da realidade brasileira impensável algumas décadas atrás, quando os correspondentes estrangeiros tentavam explicar planos econômicos estapafúrdios, nas reportagens, enquanto seus leitores imaginavam índios andando pelas ruas das cidades. “Isso mudou radicalmente”, diz Mery Galanternick, que começou a trabalhar na sucursal brasileira do “New York Times” na década de 1960. “O Brasil agora chama a atenção pelo que está fazendo de relevante. Passou a ser considerado um ‘player’ global.”

Jens Glüsing, correspondente da “Der Spiegel”, acredita que a redução do Brasil a um país de mulheres bonitas e futebol ocorre na mesma proporção em que muitos brasileiros veem os alemães apenas como bebedores de cerveja. “As pessoas com mais formação são bem informadas sobre o Brasil, conhecem detalhes da economia e da política. A imagem do presidente Lula, entre os formadores de opinião, é melhor lá fora do que aqui, até porque há uma comparação com o [presidente da Venezuela] Hugo Chaves.”

O calcanhar de Aquiles brasileiro, que poderia explicar a virada na visão alemã do país na pesquisa GlobeScan, é a política ambiental. “Nesse aspecto, e acredito que somente nele, a imagem do país deve estar realmente piorando na Alemanha”, diz Glüsing. O jornalista foi a Brasília no ano passado para cobrir a visita da primeira-ministra Angela Merkel, e recorda-se da “saia justa” que representou a coincidência entre a chegada da governante alemã e a renúncia da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Para o cientista político Amaury de Souza, a sensibilidade ao tema ambiental extrapola os limites da Alemanha, berço do primeiro partido verde do planeta. “Não nos damos conta da reação que as notícias negativas sobre ambiente geram no exterior”, afirma Souza. “O que para nós é tolerável, para eles é execrável.”

Preocupado com a imagem externa, o governo brasileiro contratou no fim do ano passado a Companhia da Notícia (CDN) para trabalhar de forma integrada à Secretaria de Comunicação Social (Secom) em ações voltadas principalmente aos Estados Unidos, Europa e Ásia. “Faremos um trabalho de divulgação dos esforços do governo para combater o desmatamento”, diz Rodrigo Baena, diretor internacional da Secom. Em um primeiro momento, o trabalho na área ambiental será direcionado para o monitoramento do que é publicado pela imprensa internacional, explica Andrew Greenlees, vice-presidente da CDN. “Percebemos que existem muitos equívocos em relação a dados, que são divulgados ou interpretados de forma incorreta.”

Na licitação para a contratação da agência, em abril do ano passado, o governo demonstrou preocupação com duas áreas, que deveriam ser alvo de propostas detalhadas por parte das candidatas: etanol e tecnologia da informação (TI). Vencedora da concorrência, a CDN constatou em seus estudos um alto grau de conhecimento do etanol brasileiro, ao contrário do setor de TI. A crise internacional, porém, acabou por mudar o foco e a agenda econômica do país, tornando o assunto menos relevante. “Estamos discutindo agora quais temas serão prioridade”, diz Greenlees. “Mas já percebemos algumas oportunidades de divulgação, como na área de energia, na qual há muito interesse e veículos especializados.”

O alcance de ações de divulgação, no entanto, tornou-se motivo de controvérsia desde que o governo anunciou o gasto anual de R$ 15 milhões no projeto. “O Brasil não vai conseguir controlar o que é publicado sobre a Amazônia, onde estão muitos pesquisadores estrangeiros”, diz Glüsing, da “Der Spiegel”, lembrando do impacto das reportagens sobre a região feitas pela “Nature”, uma das revistas científicas mais conceituadas do mundo. “Mais importante do que melhorar a imagem, é melhorar a realidade”, diz ele. Nesse sentido, a próxima reunião das Nações Unidas sobre mudança climática, marcada para o fim do ano em Copenhagen, poderia ser uma oportunidade efetiva para o Brasil, diz Matias Spektor. “Mas somente se houver uma mudança de atitude”, ressalta. “Para ser um ‘player’ importante, é preciso assumir um custo, fazer coisas que não são necessárias quando se é um jogador secundário.”

No caso do ambiente, o Brasil não tem como fugir do papel de líder, acredita o professor Celso Lafer, presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e ministro das Relações Exteriores durante o governo Fernando Henrique Cardoso. A floresta, a matriz energética limpa, a biodiversidade e o etanol tornam as decisões do país fundamentais para o resto do planeta, independentemente do desejo de assumir essa liderança. “É um caso em que se mistura o ’soft power’ e o ‘hard power’ “, afirma, referindo-se aos conceitos celebrizados pelo cientista político americano Joseph Nye, e que também servem para classificar as formas de inserção internacional de um país.

Quando ministro, Lafer teve uma conversa com o jornalista americano Larry Rohter transcrita no livro “Deu no New York Times”, no qual o correspondente conta histórias de sua experiência no Brasil. Nela, ambos concordavam com vocação do Brasil para exercer atração e influência por meio do “soft power”, mais relacionado à cultura, ao esporte e aos valores. O outro caminho, o “hard power”, seria o do poder militar ou econômico – impensável naqueles anos, em que a estabilidade da moeda ainda não se traduzira em crescimento. Para Lafer, as duas formas de poder são cada vez mais complementares. “A eleição de Obama representou a recapitalização do ’soft power’ para os Estados Unidos”, exemplifica.

Da mesma forma, governantes que deveriam discutir questões bilaterais de impacto acabam pautados por casos que mobilizam a opinião pública de seus países, como o da brasileira Paula Oliveira, que afirmou ter sido agredida por neonazistas na Suíça, ou do menino Sean Goldman, cuja guarda é disputada pelo pai americano e avós brasileiros.

Casos assim são importantes na construção da imagem de um país? Para Matias Spektor, assuntos dessa natureza são passageiros, e não dominam de fato as agendas dos países. Já Lafer acha que essas questões são relevantes, e os governos não têm como fugir delas. “É a velha história: todo presidente quer pautar a imprensa, e toda imprensa quer pautar o presidente.”

21/01/2009 - 19:25h Os Doutores do Pessimismo

MARCELO COELHO – FOLHA SP


Será chamado de ingênuo aquele que quiser algo melhor do que o mundo em que vive


NÃO É PRECISO ser um grande gênio para constatar que vivemos num mundo bárbaro.
Que o ser humano é capaz das maiores atrocidades. Que a vida é feita de competição, inveja, egoísmo e crueldade.
Ninguém precisa ter vivido num campo de prisioneiros na Sibéria nem ter sido moleque de rua no Capão Redondo para saber disso. Mas virou moda entre muitos intelectuais e jornalistas anunciar uma espécie de “visão trágica” do mundo, como se se tratasse da mais surpreendente novidade.
Com certeza, há nisso uma reação saudável contra o excesso de otimismo. Durante o século 20, grande parte da esquerda não quis ver as barbaridades cometidas por Stálin e Mao porque, em última instância, “tudo iria dar certo”. Belas esperanças tornaram-se pretexto para atos de horror. Nada mais correto do que denunciar o horror.
O que me parece estranho é que, mais do que denunciar o horror, esses pensadores trágicos e jornalistas sombrios gostam de destruir as esperanças.
O reconhecimento do Mal, a crítica à violência da esquerda, a percepção de que ninguém é “bonzinho” e de que a realidade é uma coisa dura e feia vão se transformando em algo próximo do fascínio.
E, com diferentes níveis de elaboração e de cortesia pessoal, esses autores tendem a fazer do fascínio uma estratégia de choque.
Quanto mais chocarem o pensamento corrente (que considera ruim bombardear crianças e bom defender a Amazônia, por exemplo) mais ganharão em originalidade, leitura e cartas de protesto. Parece existir uma competição nas páginas dos jornais e na internet para ver quem conseguirá ser o mais “durão”, o mais “realista”, o mais desencantado.
Há diferenças notáveis de atitude e de opinião entre pessoas como Luiz Felipe Pondé, João Pereira Coutinho, Demétrio Magnolli ou Reinaldo Azevedo. Mas é um time e tanto, e minha experiência pessoal com a violência do ser humano, adquirida nos pátios de recreio do ginásio, é suficiente para não querer polemizar com alguns deles.
Não vou, portanto, individualizar as minhas críticas. Mas, de modo geral, os “durões” do mundo opinativo parecem correr um mesmo risco. A crítica às utopias do século 20 faz sentido, com certeza, mas termina funcionando para justificar muitos erros e abusos do presente -desde que sejam suficientemente “não-utópicos”. Será chamado de ingênuo ou nostálgico todo aquele que quiser algo melhor do que o mundo em que se vive.
Nem todos os “durões” de que falo abdicam desse “melhorismo”. Mas ai de quem tiver ideias um pouquinho mais à esquerda do que as deles -o que não é difícil.
Às vezes, a crítica ao stalinismo se compraz em tornar stalinista quem se afaste um milímetro das opiniões de quem a professa. Outras vezes, a crítica às velhas utopias tende a se transformar numa glorificação da realidade.
Curiosamente, então, aquilo que deveria ser ponto de partida se torna ponto de chegada. O mundo é horrível e a realidade é cruel. É um ingênuo quem quiser mudar essa situação. O horror e a crueldade fazem parte da paisagem. Melhor assim, quem sabe: nós, pelo menos, tiramos disso a satisfação de não sermos ingênuos.
Você está esperançoso com a vitória de Obama? Ouço um risinho: que otário. Mas fico feliz de nunca ter sido otário a respeito de Bush. Você se choca com as crianças mortas em Gaza? Ouço um risinho: os militares israelenses entendem mais do problema que você.
Você quer que se preservem as reservas indígenas da Amazônia? Mais um risinho: os militares brasileiros entendem mais do problema que você, que pensa ser bonzinho mas é tão malvado como todos nós.
Pois o ser humano é mau, desgraçado e infeliz, desde que foi expulso do Paraíso. Você não sabe disso?
O que sei é algumas pessoas foram expulsas do Paraíso para morar numa mansão em Beverly Hills, e outras para morar em Darfur. Todo o poder aos poderosos, toda realidade aos realistas, e todas as bombas para quem ficar no meio do caminho. Eis o resumo da atitude dos “durões”. Mas quem precisa de articulistas num mundo desses? Os militares dão conta do recado.

coelhofsp@uol.com.br

20/06/2008 - 13:02h Kotscho entrevista Franklin Martins

Entrevista exclusiva: imprensa não pode ficar imune às críticas, diz Franklin Martins

Capixaba de Vitória, neto e bisneto de imigrantes portugueses, um dos nove filhos do jornalista e político Mário Martins, que ajudou a fundar a UDN e teve seu mandato de senador cassado pelo AI-5, com 15 anos, Franklin Martins arrumou seu primeiro emprego em jornal como estagiário da “Última Hora”.

Ubirajara Dettmar

Casado com a psicóloga clínica Ivanisa Titelroit, pai de três filhos, vai completar 60 anos em agosto. Quarenta anos atrás, ele iniciava sua militância política como presidente do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Em setembro de 1969, já na clandestinidade, integrou o grupo formado por militantes da Ação Libertadora Nacional e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro, que seqüestrou o embaixador americano Charles Elbrick para obrigar o governo militar a soltar 15 presos políticos.

Exilado primeiro em Cuba, onde fez treinamento de guerrilha rural, de lá foi para o Chile e, depois, voltou para o Brasil, vivendo clandestinamente em São Paulo. No início de 1974, quando vários companheiros seus foram presos, partiu para novo exílio, desta vez na França, onde aproveitou para se formar na Ecole de Hautes Études em Sciences Sociales, da Universidade de Paris.

Passou boa parte da sua carreira de jornalista no “Jornal do Brasil” e em “O Globo”, no qual chegou a diretor da sucursal de Brasília. Ganhou fama como comentarista político da TV Globo – também ocupando o cargo de diretor da sucursal. Após sua saída, que foi bastante traumática para ele, teve uma breve passagem pela TV Bandeirantes e pelo iG, de onde saiu para trabalhar no governo.

Apesar desta vida, que não pode ser chamada de monótona, Franklin Martins tem observado o mundo, do alto dos seus dois metros de altura, com certa compreensão. E confessa que tem acordado com o “espírito de flor de laranjeira”, mesmo sabendo que uma jornada de trabalho, nunca inferior a 13 horas por dia, espera por ele.

A seguir, a primeira parte da entrevista exclusiva com Franklin Martins, que será publicada aqui no iG, em quatro partes, até sexta-feira.

Ubirajara Dettmar

iG – Como é trocar a carreira de jornalista por um cargo de ministro no governo e passar a trabalhar do outro lado do balcão? O que mudou na sua percepção do Brasil real, para o bem ou para o mal?

FRANKLIN MARTINS – A primeira coisa que mudou é que eu ganho muito menos do que eu ganhava antes. Muito, muito menos. Trabalho mais, se é que era possível, porque eu já trabalhava muito. Trabalho em média 13 horas por dia. Eu entro às 8h30 e saio às 21h30 e, às vezes, ainda tenho um jantar de trabalho. E o estresse é muito maior. A grande diferença que existe, entre um jornalista e alguém que está na minha função, é que o jornalista só precisa falar ou escrever, não precisa fazer nada que vá muito além disso. Evidentemente que ele procura fazer bem o seu trabalho, mas eu tenho que falar: aqui você tem que colher os resultados. Apesar disso, tem sido uma experiência extraordinária, riquíssima, eu estou aprendendo muita coisa, vendo muita coisa. Isso é muito interessante e, às vezes, você ajuda a fazer com que as coisas aconteçam.

iG – Por exemplo…

FM – Talvez a coisa mais gratificante que eu tenha ajudado, embora não tenha tido um papel decisivo, foi o processo de construção do projeto banda larga nas escolas, que vai colocar, até 2010, acesso de banda larga em 55 mil escolas públicas. São todas as escolas públicas urbanas do país, atingindo 37 milhões de jovens adolescentes. Uma coisa extraordinária, a custo zero para o governo, com duração de 18 anos. Foi um processo complexo de negociação com as Telefônicas fixas, etc. Momentos duros, de tensão…

Muitas vezes você ajuda com que algumas coisas aconteçam; noutras, que elas não aconteçam, mas isso não vou te citar… Você pode evitar que certas coisas sejam feitas. Você tem uma visão do conjunto do País, das possibilidades do governo que são maiores do que se imagina.

Estado é uma coisa muito forte, então, você pode fazer as coisas acontecerem. E há também as limitações da máquina pública, que acredito serem maiores do que se imagina. Apesar de tudo, é uma experiência importante. Eu vim para cá me propondo uma tarefa. A minha avaliação é que as relações entre o governo e boa parte da imprensa estavam absolutamente intoxicadas. Eu achava que poderia contribuir para desintoxicar essas relações, a meu ver, cruciais para o País.

Estas relações melhoraram. Nem tanto por mérito meu. As circunstâncias políticas do País favoreceram este processo. Hoje estas relações com a imprensa são mais fluidas, mais civilizadas, mais rotineiras, têm um caráter menos dramático.

A relação entre governo e imprensa deve ter característica de atividade cotidiana. É como escovar os dentes, amarrar os sapatos, tomar banho. São coisas que você tem que fazer porque são parte da comunicação do governo com a sociedade. Não é o único canal.

É claro que existe a publicidade, temos as pesquisas de opinião, as campanhas políticas, os eventos públicos, os comícios, mas a relação com a imprensa é a mais orgânica que existe com todas as suas contradições. Então era fundamental que ela passasse por um processo de desintoxicação. As relações são tensas mesmo e acho isso normal. Por definição, ela deve ser de tensão, de cobrança, não é uma coisa para ser um passeio pelo Nirvana. Embora nós tenhamos casos no Brasil recente onde as relações do governo com a imprensa eram um passeio pelo Nirvana.

Mas aí cabe à imprensa refletir sobre isso. O importante é que dentro dessa tensão sejamos profissionais. O que caracteriza o profissionalismo? O respeito pela sociedade, respeito às divergências, entender que as pessoas precisam de uma informação mais qualificada possível para tomar suas decisões, formular suas opiniões. Da parte do governo, o princípio básico é garantir a liberdade de imprensa.

iG – Você está satisfeito com o seu trabalho?

FM – Eu estou satisfeito com o progresso que o governo fez e com os progressos da relação entre governo e imprensa experimentados nesse período. Acredito que eu tenha contribuído com isso.

Ubirajara Dettmar

iG – Como é trabalhar tendo como chefe o presidente da República? O senhor chega a sentir saudade dos seus antigos chefes e da vida nas redações?FM – Acho que são coisas diferentes. Evidentemente, tenho saudades dos meus colegas das redações porque hoje não tenho muito tempo para ficar com eles. Jogar conversa fora em Redação é uma coisa muito agradável. Falar mal de jornalista. O esporte preferido de jornalista é falar mal de jornalista e do governo, que é o esporte preferido de todo mundo. Não há nisso nenhuma anomalia. O dos engenheiros é falar mal dos engenheiros. Dos botânicos, é falar mal dos botânicos; dos artistas, falar dos artistas. A gente fala de quem a gente conhece mais. Eu tenho saudade da Redação.A minha relação com o presidente é boa. Eu nunca tive maior intimidade com o Lula. Talvez, o mesmo tipo de intimidade que repórteres com 20 ou 30 anos de profissão tinham com o presidente. Eu o entrevistei várias vezes, conversei bastante com ele, mas não tive intimidade. Eu acho que o Lula é uma pessoa muito fácil de trabalhar: ele fala o que pensa, ele é leve. Eu acho que ele possui hoje em dia uma percepção muito profissional sobre o trabalho da imprensa, do papel que a imprensa joga e de qual deve ser o comportamento dele. E isso facilita muito. Minha relação de trabalho com o presidente é positiva e, mesmo pessoalmente, é muito boa, tranqüila, seguramente melhor do que com os outros chefes que tive.

iG – Eu levava muitas broncas. Você costuma levar broncas?

FM - Não. Talvez o presidente tenha mudado. Nem sempre concordamos na apreciação dos problemas, e aí prevalece a opinião dele, é claro. De modo geral, as divergências são muito pequenas. Trabalhar com ele é leve. As broncas foram no seu período.

iG – O presidente Lula faz críticas quase diárias ao comportamento da imprensa. Isso ajuda ou atrapalha o trabalho do ministro?

FM – Não sei se atrapalha o trabalho do ministro. Acho que ajuda o trabalho da imprensa. A imprensa deve gozar de absoluta liberdade para noticiar o que quiser, dar opinião sobre o que quiser. Isso é básico na democracia. Não existe meia liberdade de imprensa. Existe liberdade de imprensa e ponto.

Agora, a imprensa não está imune às críticas. Ao contrário, para fazer bem o seu trabalho ela deve ser criticada. Aliás, como qualquer um de nós. Ao exercer o meu trabalho de pai, eu devo poder ser criticado pelos meus filhos; para exercer o meu trabalho de jornalista, eu devo ser criticado pelos meus leitores. Eu acho que ajuda a imprensa ser criticada. Uma imprensa que não é criticada é uma imprensa que não convive bem com a liberdade dos outros de darem opinião.

Não é o caso da nossa imprensa, evidentemente. Acho normal que, se o presidente tem uma critica a fazer, ele exprima essa opinião de modo educado e razoável. Vamos ser claros: a imprensa, como instituição, é um espaço de disputa política. Quem não entender isso não entende o papel da imprensa dentro de uma sociedade moderna, democrática e de massas. Então, é normal que o presidente, ou mesmo a oposição, ou qualquer pessoa que participa da disputa política, possam criticar, fazer avaliações do trabalho dos outros da mesma forma.

A imprensa pode fazer o trabalho de avaliação do trabalho do presidente, mas o presidente ou o líder da oposição pode fazer isso também. Em minha opinião, o maior crítico do trabalho da imprensa não é o presidente da República, não é o líder da oposição, mas o leitor do jornal, o telespectador, o ouvinte que, ao contrário do que muita gente pensa no Brasil, é perfeitamente capaz de formular juízos e de fazer avaliações do trabalho da imprensa.

Ele sabe avaliar a imprensa, sabe a importância da liberdade da imprensa, aprendeu isso na sua experiência. Ao mesmo tempo, ele sabe se tem sido bem atendido ou mal atendido naquilo que é vital para ele, que é, basicamente, a notícia. Quer ter notícias confiáveis, fidedignas e, ao mesmo tempo, opiniões que contribuam para o debate público qualificado, concorde ou não com aquelas opiniões. Desde que estas opiniões não estejam desqualificando às outras, entendendo que a divergência faz parte do processo, com tolerância para o contraditório, não tentando esmagar quem pensa diferente.

Acho que o leitor, o telespectador e o ouvinte, no Brasil, formam a sua opinião e sabem distinguir o que é notícia daquilo que é uma invencionice ou daquilo que é um erro normal no trabalho da imprensa. E a imprensa erra muito. Isso é normal e o leitor tem a visão disso, ele sabe diferenciar um erro normal de um erro de má fé. O que é divergência e o que é campanha. O que é uma coisa que é parte de um ambiente político e o que na verdade está tentando conduzir o leitor ou o telespectador, puxando o leitor pelo nariz de um lado pro outro. Quando acontece, o leitor percebe isso. O leitor é muito crítico. Os órgãos de imprensa que cometem esses erros, o leitor cobra. É de forma implacável.

Ubirajara Dettmar

iG – Até algum tempo atrás, o Brasil tinha meia dúzia de formadores de opinião. Hoje, são milhares. Quem forma os formadores de opinião? De que forma é formada a opinião dos formadores de opinião?FM – Acho que isso se multiplicou muito. Estamos assistindo a um processo extremamente importante que tem a ver com as mudanças que vem ocorrendo no Brasil nos últimos anos. Acho que aquela época da teoria da “pedra no lago” acabou. Você joga uma pedra, ela cai na classe média e nos chamados formadores de opinião, e vai provocando ondas concêntricas que vão até a margem. Você tinha um centro formador ativo e uma sociedade passiva que recebe aquilo. Isso de certa forma existiu no Brasil até algum tempo atrás e é fruto de uma sociedade que se dividia entre um centro ativo e uma periferia passiva.Eu acho que isso mudou no Brasil, e mudou porque o Brasil está mudando. Você passou a ter a emergência da classe C, e os números mostram que isso é uma coisa fortíssima, é a principal classe em termos numéricos no país, que não se reconhece exatamente na classe AB, na classe média. Ela até tem aspirações de chegar lá, mas ela sabe que tem trajetória diferente, interesses diferentes, e está em um momento diferente nesse percurso, e que olha e diz: “Eu sei pensar com a minha própria cabeça, eu sei defender meus interesses”.

Por exemplo, no processo da crise política de 2005, os formadores clássicos de opinião da classe A/B davam sua opinião sobre o governo Lula e isso chegava na classe C e voltava. Batia e voltava. Isso é sinal que o Brasil está ficando mais complexo, mais heterogêneo, mais sofisticado e mais moderno. Porque isso é característica da sociedade moderna. Nos Estados Unidos, não existe essa coisa de centro formador de opinião e a massa amorfa. Na Inglaterra, na França, isso também não existe. Em alguns outros países, ainda existe. Mas acho que mudamos de patamar e isso tem impacto na política, na imprensa, na televisão. O crescimento de outros canais de televisão, em comparação com a TV Globo, tem um pouco a ver com isso.

A Globo fez um modelo altamente bem-sucedido que falava para a classe A e a Z ao mesmo tempo. E fez isso durante 40 anos. Hoje em dia, está sendo obrigada a fazer flexões e se segmentar porque a Record entra aqui e outra entra ali com um programa mais popular que dá audiência.

iG – Que mudanças você nota na imprensa brasileira desde que assumiu o cargo?

FM - Na imprensa escrita, por exemplo, os jornalões estão com a circulação estagnada há vários anos. A venda dos grandes jornais e revistas de hoje e a de três anos atrás é mais ou menos a mesma coisa. Aí você pega os jornais populares, que são muitas vezes da mesma empresa dos jornalões, mas têm um crescimento espetacular. São jornais que custam um real ou menos até, com muitos serviços, vendidos nas ruas e sem assinaturas. São jornais mais vibrantes, que não estão preocupados em fazer a cabeça das pessoas, mas só em contar o que está acontecendo.

Dos 15 principais jornais, em termos de circulação no País, sete são populares. O jornal de maior circulação hoje no Brasil é um jornal popular, o Super Notícias, de Belo Horizonte. Tem uma vendagem em bancas de 300 e poucos mil exemplares. É um fenômeno que começa a se estender para todas as capitais.

E você tem a internet. Não acho que vá acabar com os jornais de papel. O homem sempre vai necessitar do papel que os jornais cumprem – que é alguém, em um oceano de notícias, coletar as informações, hierarquizar, editar e te entregar pronto: isso é importante. O papel do editor não é botar matéria na página, é jogar matéria sem importância fora. No fundo, é dizer o que não é tão importante e o que é muito importante. Selecionar, editar. Isso é o papel do jornal.

A internet, por sua vez, torna mais viva a crítica sobre os jornais. Os jornais saem do limbo. Os jornais não podem mais ficar como se fossem os donos absolutos da notícia. Os leitores estão criticando e trocando informações sobre eles, dizendo “isso aqui não foi bom”, “isso aqui está errado”. Às vezes, isso é feito de uma maneira muito selvagem, meio agressiva, o que é muito ruim. Deveríamos encontrar mecanismos para tornar isso mais civilizado. Ao mesmo tempo, significa que existe um debate e isso funciona como um fiscal sobre jornais, revistas e televisão. Força a grande mídia a ser mais humilde, o que muitas vezes é positivo.

Amanhã, a segunda parte da entrevista exclusiva com Franklin Martins

08/06/2008 - 14:43h O futuro dos jornais

FOLHA SP

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Blog de política mais popular dos EUA, Huffington Post radicaliza a noção de interatividade, mas ainda depende das reportagens dos grandes diários; para sua fundadora, falar da morte dos jornais é “ridículo”

ERIC ALTERMAN

O jornal norte-americano está na praça há mais ou menos 300 anos. A folha veemente de Benjamin Harris “Publick Occurrences, Both Foreign and Domestick” [Ocorrências Públicas Estrangeiras e Domésticas], só conseguiu tirar um número, em 1690, antes de ser fechada pelas autoridades de Massachusetts.
Harris sugerira uma linha dura e politicamente incorreta quanto à remoção dos indígenas e chocara as suscetibilidades locais ao informar que o rei da França tomava liberdades com a mulher do príncipe.
Mas foi apenas em 1721, quando o impressor James Franklin lançou o “New England Courant”, que as colônias britânicas na América do Norte viram surgir algo semelhante aos jornais de hoje.
Irmão mais velho de Benjamin, Franklin se recusava a aderir às praticas costumeiras de direitos autorais e atacava os poderes estabelecidos na Nova Inglaterra, logrando assim tanto independência editorial como sucesso comercial.
Preenchia seu jornal com cruzadas (contra tudo, dos piratas ao poder dos pastores puritanos Cotton e Increase Mather), ensaios literários, vinhetas e ruminações filosóficas.
Três séculos depois do “Courant”, já não é preciso ter uma imaginação distópica para cogitar quem terá a honra ambígua de publicar o último jornal de verdade nos EUA.
Pouca gente acredita que os jornais, na forma impressa de hoje, tenham chance de sobreviver. Eles estão perdendo anunciantes, leitores, valor de mercado e, em alguns casos, o próprio senso de missão, num ritmo que teria sido difícil imaginar meros quatro anos atrás.
Num discurso recente em Londres, Bill Keller, editor-executivo do “New York Times”, declarou: “Onde quer que editores e publishers se encontrem, a atmosfera é funérea. Os editores perguntam “como você está?” naquele tom que se usa com um amigo que acaba de sair de uma desintoxicação ou um divórcio”.
Seu discurso foi publicado no site de seu anfitrião, o “Guardian”, sob a manchete “Vivo ainda”. Ainda. Mas as tendências de circulação e publicidade, a ascensão da web, que faz o jornal diário parecer lento e lerdo, e o advento da Craigslist, que está extinguindo os classificados, criaram uma sensação palpável de fim iminente.
Nos últimos três anos, os jornais americanos independentes perderam 42% de seu valor de mercado, segundo o empresário de mídia Alan Mutter.
Poucas companhias foram tão punidas em Wall Street quanto aquelas que ousaram investir no ramo jornalístico. A McClatchy Company, a única a dar um lance pela cadeia Knight Ridder quando ela foi a leilão em 2005, perdeu 80% de seu valor acionário desde que concluiu a aquisição de US$ 6,5 bilhões. As ações da Lee Enterprises caíram 75% desde que ela adquiriu a cadeia Pulitzer, naquele mesmo ano.
As companhias jornalísticas mais prezadas começaram, de repente, a parecer um fardo empresarial. Em vez de competir numa era de transformação, as famílias que controlavam o “Los Angeles Times” e o “Wall Street Journal” venderam a maior parte de suas ações.
A New York Times Company viu suas ações caírem 54% desde 2004, em especial no último ano; em fevereiro, o Deutsche Bank recomendou que seus clientes vendessem ações do “New Tork Times”. A Washington Post Company só evitou o mesmo destino ao se apresentar como “empresa de educação e comunicação”; seu braço didático, a Kaplan, agora responde por pelo menos metade do faturamento total.

(mais…)

17/05/2008 - 10:22h Toda unanimidade é burra

A quem servem analistas unânimes

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Ricardo Kauffman – Terra Magazine

De São Paulo

Reportagem maiúscula publicada pelo New York Times (NYT) semanas atrás denunciou estratégia do Pentágono para manipular a opinião pública norte-americana a seu favor na questão da guerra do Iraque.

Desde 2002 até o estouro do escândalo o Departamento de Defesa dos EUA beneficiava com informação privilegiada analistas militares com grande espaço na mídia, em troca de opiniões favoráveis às suas posições.

Além disso, a vasta lista de comentaristas aliciados é formada por ex-militares hoje ligados à indústria bélica, grande interessada no recrudescimento da situação.

O ponto grave da questão é que estes especialistas sempre foram apresentados como observadores independentes do conflito, por grandes emissoras como NBC, ABC, CBS, CNN e Fox. Eles dominaram a maior parte das análises nos últimos anos.

Também a Internet, rádio e mídia impressa deram vasto espaço a eles, diz o NYT (o próprio jornal afirma, com dignidade, que publicou ao menos 9 artigos destes analistas).

A reportagem ouviu vários comentaristas implicados entre os quais muitos confirmam o esquema do Pentágono. Alguns deles, inclusive, confessaram arrependimento por participar da manipulação.

A base da denúncia do jornal são 8 mil páginas de documentos internos do Pentágono que flagram a operação. O NYT entrou na Justiça para ter acesso a elas. O seu pedido foi acolhido.

Perplexo, o Congresso abriu investigações e passou a exercer forte pressão contra o governo. Primeiro resultado, dias depois o Departamento de Defesa anunciou que não vai mais passar informações privilegiadas a analistas militares.

Nota de coluna desta semana de Nelson de Sá, da Folha de S. Paulo, intitulada “O silêncio da televisão” dá conta de que, apesar do barulho no Congresso, o noticiário das emissoras de TV envolvidas ignora o escândalo.

Vale ressaltar que a cobertura da mídia brasileira ao episódio também é tímida, sobretudo na imprensa convencional.

O assunto é delicado. A reportagem do NYT demonstra que houve situações em que as emissoras não tinham ciência do estratagema.

Elas também teriam sido manipuladas ou permitiram a sua manipulação, neste caso. Em outros, teriam participado dela. Em todos, a situação é constrangedora.

Seja como for, o atual contexto midiático favorece tal infiltração nos meios de comunicação. Afinal, há hoje muito mais canais de propagação de notícias e análises do que havia até recentemente. E menos cuidado no trato delas.

De um lado, a mídia tem 24 horas de informação e faturamento. Do outro, fontes poderosas – como o Pentágono – usam farta munição (com o perdão do trocadilho) para ocupar os espaços na programação.

O problema se agrava em circunstâncias favoráveis à formação da idéia única, como no pós-11 de Setembro. A sociedade norte-americana parecia, naquele momento, suscetível a engolir um discurso maciço que dispensa o contraditório.

Há outras menos claras, mas não menos agudas. No Brasil, em vários segmentos do noticiário não basta mudar de canal para encontrar visões diversas entre si.

De forma geral, a análise política na grande mídia é muito uniforme e bebe das mesmas fontes. A econômica talvez seja ainda mais unânime.

É muito comum ver matérias de telejornais sobre consumo, inflação, juros, aplicações, etc, que ouve a opinião de um “especialista”. Não raro, tal “voz do mercado” é identificada pelo gerador de caracteres apenas como “economista”.

Curioso notar que muitos são parecidos inclusive fisicamente entre si. São jovens executivos de bancos, escalados para exercer o papel de especialista de determinado mercado. A mídia compra de olhos fechados – ou abertos.

É fato que os interesses de um agente de mercado como um banco não necessariamente coincidem com o interesse da população.

Mesmo assim, a imprensa muitas vezes não identifica o seu posicionamento como a de um determinado setor da economia, uma ponta legítima da tensão estabelecida em cada história, em cada conflito – sim, porque se não há tensão, qual é a notícia?

Ao contrário, o “especialista” é apresentado como um observador externo, cujo único interesse é fazer uma análise independente do fenômeno abordado.

O mesmo ocorre com as empresas de consultoria econômica, cada vez mais presentes na mídia. De fácil acesso e dispostas a falar sobre tudo, tais fontes ocupam boa parte do espaço para “reflexão”.

Esta “reflexão’ constrói diversas unanimidades: “Brasil, o país dos impostos”; “É preciso juros altos para conter a inflação”; “O governo tem que cortar gastos”, etc.

Trata-se de uma situação favorável para escritórios de advocacia ocuparem o noticiário com novos estudos reveladores do aumento da carga tributária e, assim, divulgarem seu novo produto de “planejamento tributário”.

Para as tais consultorias, formadas por ex-funcionários do alto escalão do Banco Central e Ministério da Fazenda, também divulgarem sua ciência e serviços.

Mas nenhum deles gosta de entrar no contraditório. No fato do setor exportador não querer a mesma reforma tributária que o financeiro. Que muitos estados não querem as mesmas mudanças que São Paulo. Que os bancos adoram juros altos.

Jorge da Cunha Lima, presidente do Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura, afirma que há cerca de 100 fontes que dominam o noticiário no Brasil, e “elas servem ao sistema financeiro”.

O fato da nossa mídia – como a norte-americana e muitas outras, nos últimos anos – ter adquirido o costume de não identificar bem suas fontes e fugir do contraditório fortalece este tipo de afirmação.

Ricardo Kauffman é jornalista e roteirista.

Fale com Ricardo Kauffman: rikauffman@terra.com.br

20/04/2008 - 15:26h “A maioria dos jornais preferia que Lula não tivesse vencido”, constata o novo ombudsman da Folha

“acho que os jornais brasileiros perderam o poder de influenciar. O maior exemplo foi a eleição presidencial de 2006. Era claro que a maioria dos jornais preferia que Lula não tivesse vencido. No entanto, Lula teve dois terços dos votos.”

A constatação é do novo ombudsman da Folha de São Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva. Mas ele pondera que os jornais não perderam credibilidade.

Permito-me discordar, a credibilidade dos jornais brasileiro foi desgastada precisamente pela vontade de influenciar o eleitorado na contramão das aspirações populares. O noticiário foi enviesado para alavancar um desfecho eleitoral diferente, provocando uma perda indiscutível de credibilidade. Acontece que os leitores dos jornais não são uma representação do conjunto da população e sim uma minoria de elementos da classe média, onde a oposição guarda relativamente uma maior influência.

A postura anti Lula dos jornais reforçou uma identificação de uma parte desses leitores com os jornais e um afastamento crítico dos que não se consideravam contemplados no desequilíbrio imperante na mídia. A perda de credibilidade está nesses setores.

Também discordo das afirmações do ombudsman em relação aos blogs. Ou melhor dito, considero sua afirmação uma visão parcial. O radicalismo dos blogs, muitas vezes artificial, guarda relação com o radicalismo enviesado da grande mídia, seu gosto pelo sensacionalismo e sua orientação oposicionista, refletida na esmagadora quantidade de articulistas de opinião, claramente embarcados na disputa política com o PT e o governo. É a influência deste “noticiário” que sonega à nação o debate sobre seus rumos, em proveito do udenismo demagógico. É ele que se espalha em alguns blogs, em detrimento de um debate de conteúdo.

Concordo com Carlos Eduardo quando constata que a decisão de não publicar na internet a crítica diária do ombudsman, tomada pela direção da Folha, é inócua “porque o fato de ser restrita à Redação não vai impedir que a concorrência e grupos políticos tenham acesso a ela. É impossível impedir que algo que seja distribuído a mais de uma centena de jornalistas não vaze para fora do jornal.”

Porém, não é inócua a vontade expressa nesta decisão. Ela visa censurar opiniões suscetíveis de serem “instrumentalizadas por jornalistas ligados ao planalto”, ou seja toda opinião jornalística que questione a linha de oposição ao governo.

No mais, espero que o novo ombudsman se paute pela ética da independência em relação aos donos e a redação do jornal, como instrumento da exigência da maior isenção possivel. Pois se trata de um meio de comunicação com poder de influenciar a sociedade e portanto obrigado a agir com transparência em seus objetivos. LF

A seguir a entrevista do novo ombudsman publicada na Folha de São Paulo

ENTREVISTA/CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA

Eduardo Knapp/Folha Imagem
 

O ombudsman Carlos Eduardo Lins da SilvaJornalista que assume cargo na terça defende um produto com menos assuntos e mais análises; para ele, cobertura do caso Isabella mostra que a mídia estimula o que há de pior nos instintos humanos

Jornal precisa encontrar seu novo papel, diz ombudsman

DA REDAÇÃO

NOVO OMBUDSMAN DA FOLHA , Carlos Eduardo Lins da Silva, crê que os jornais brasileiros vivem um momento contraditório. Pelo lado bom, não sofrem da crise de credibilidade que acomete os diários norte-americanos. Pelo ruim, estão perdendo o poder de influenciar a opinião pública. Segundo ele, está na hora de os jornais decidirem que papel vão ter na concorrência com outros meios, como a internet, as rádios e a TV. Defende que o futuro está num produto mais focado, com menos assuntos e mais analítico.

Lins da Silva passa a atender os leitores e a redigir uma crítica interna na próxima terça-feira, dia 22. Sua primeira coluna dominical será publicada no dia 27 no caderno Brasil. Na entrevista abaixo, ele fala da proliferação de blogs, da cobertura do caso Isabella e do impasse que culminou com a não-renovação do mandato do ocupante anterior do cargo.

FOLHA -Jornais brasileiros e americanos vivem situações opostas. Lá eles perdem circulação e receita com publicidade. Aqui cresceram as vendas e o volume de anúncios. Qual a razão desse descolamento?
CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA – O que acontece no Brasil é uma coisa ilusória e acho que os jornalistas brasileiros não deveriam se iludir com esse bom momento. Primeiro, porque a internet não está muito disseminada aqui como nos EUA. Segundo, nós estamos vivendo esse boom da economia que eu acho que é passageiro. Nos EUA, ao contrário, a internet é quase universal e a economia está começando a sofrer os primeiros tropeços. Na minha opinião, é irreversível a tendência de os jornais impressos perderem circulação.

FOLHA – É a internet que tirará esse público dos jornais?
LINS DA SILVA
- Eu acho que a internet já está tirando público e publicidade dos jornais. E será assim se o jornal impresso não revir a sua existência.

FOLHA – Você não acredita que possa crescer o número de leitores de jornais impressos com mais pessoas alfabetizadas e com mais dinheiro no bolso? Nos EUA, nos anos 60, 80% dos americanos com 18 anos ou mais liam jornais durante a semana. Hoje, ainda são cerca de 50%. O Brasil nunca chegou nem perto disso.
LINS DA SILVA
- O problema é que no Brasil o crescimento dos meios de comunicação foi atropelado. Nos EUA, o desenvolvimento do capitalismo foi mais ou menos ordeiro. Houve a afluência monetária, que atingiu grande parte da população. Houve a conquista de direitos trabalhistas, que garantiu mais tempo para o lazer. Houve a alfabetização universal. Tudo isso levou a que quase todo mundo lesse jornal. Depois disso surgiu a televisão, a internet. No Brasil, não houve distribuição homogênea de riqueza, ainda há muitos analfabetos e você teve, antes de a leitura de jornais se universalizar, a chegada da televisão e da internet. Então, acho que essa universalização nunca vai ocorrer.

FOLHA – Para enfrentar a perda de circulação, alguns jornais americanos apostam na hiperlocalidade. Focam cada vez mais na própria comunidade. Essa será uma tendência para o Brasil?
LINS DA SILVA
- Não sei se isso vai funcionar nem nos EUA. Há uma outra diferença entre os jornais americanos e brasileiros, que é a questão da credibilidade. Lá, eles passam por um momento de perda da credibilidade. Aqui, não. Mas, voltando à questão, não sei se essa é uma solução para os jornais impressos. Porque, também para o provimento da informação local, a internet é um meio mais adequado. Você pode comprar seu ingresso de cinema pela internet. Você pode saber o cardápio do restaurante pela internet. Você não tem como prestar esse tipo de serviço nas páginas do jornal.
Para mim, a saída para o jornal impresso é apostar na profundidade, na qualidade e ter mais foco, tratar de menos assuntos. Porque isso a internet não pode dar. O jornal impresso precisa procurar o tipo de conteúdo em que ele se sai melhor, em vez de insistir em competir com a internet naquilo que ela pode oferecer com mais comodidade para o leitor.

FOLHA – Alguns jornais ingleses tentam esse modelo mais focado e mais aprofundado, mas não obtêm mais leitores com isso.
LINS DA SILVA
- Eu acho natural que esse modelo que eu defendo tenha menos leitores que o modelo atual. Porque esse novo jornal não deverá atender a todo o universo de possíveis leitores. Ele deve ser dirigido para uma parcela mais específica da população. Pode ter menos circulação, mas gastará menos com papel e poderá ter mais publicidade, focada para aquele público. E o mais importante, ele pode ter mais influência social do que esse jornal dirigido ao público em geral, que é muito caro para ser produzido.

FOLHA – Do ponto de vista da qualidade da informação, deixando de lado circulação e publicidade, você acha que os jornais brasileiros vivem um bom ou mau momento?
LINS DA SILVA
- Acho que vive um bom momento, uma vez que não perderam credibilidade, como aconteceu nos EUA. Por outro lado, acho que os jornais brasileiros perderam o poder de influenciar. O maior exemplo foi a eleição presidencial de 2006. Era claro que a maioria dos jornais preferia que Lula não tivesse vencido. No entanto, Lula teve dois terços dos votos. Da mesma forma, no momento do mensalão, a maioria dos jornais de qualidade no Brasil preferia que o desfecho fosse outro.

FOLHA – Qual é o grande desafio dos jornais impressos hoje?
LINS DA SILVA
- É definir qual papel terão. Principalmente para manter a influência. O jornal terá que encontrar seu lugar, como o rádio encontrou. Muitos diziam que o rádio morreria com a chegada da televisão. Não foi o que aconteceu. Hoje o rádio está num ótimo momento. Ele descobriu que seu espaço não era mais ser como a Rádio Nacional foi em meados do século passado: o centro das atenções da família no horário nobre da noite. Perdeu audiência, sim. Na época, 80% escutavam a Rádio Nacional. Hoje, 1%. O mesmo vai acontecer com o jornal impresso.

FOLHA – A internet trouxe mais participação dos leitores. Você vê futuro nessas experiências que usam o leitor como provedor de conteúdo?
LINS DA SILVA
- Sou bastante cético com relação a isso. Essa suposta democratização da internet, que permitiria ao cidadão ser repórter, é muita demagogia. O público precisa de informação apurada com rigor, com método. Só algumas pessoas, que têm jeito e experiência, conseguem fazer isso.

FOLHA – Este será um ano eleitoral no Brasil. Com isso, o ombudsman deve ser muito procurado por assessores de políticos e também por leitores que acreditam que o jornal está protegendo esse ou aquele candidato. Como você pretende fazer essa fiscalização da neutralidade do jornal e, ao mesmo tempo, separar o que é paixão política, ou interesse de assessores, da opinião mais objetiva de leitores?
LINS DA SILVA
- Esse será um dos meus desafios. Eu acho que o jornal tem o direito de endossar um candidato. Não acho que deva, mas tem o direito. Por outro lado, no noticiário, o jornal não tem o direito de endossar um candidato. Ele tem que fazer uma cobertura o mais próximo possível do isento. Como você sabe, não existe objetividade absoluta. Mas existe algo próximo disso, que é equilibrar o espaço dado aos candidatos, não adjetivar, dar enfoque mais ou menos justo para os principais concorrentes.
Eu não gosto muito da palavra fiscalização, mas a observação que vou fazer será baseada nisso. Tem que haver equilíbrio e o máximo de isenção possível. É claro que nunca ninguém ficará satisfeito. Mas a medida do sucesso é sempre ser atacado de todos os lados. Quando mais ataques o jornal receber de todos os lados, mais próximo do equilíbrio ele estará.

FOLHA – A internet permitiu também a proliferação de blogs, muitos com enfoque político. Você acha que esses blogs já conseguem influenciar a opinião pública?
LINS DA SILVA
- No Brasil, com certeza não. Nos EUA, sim. Essa influência está sendo sentida na eleição presidencial. No entanto, eu acho que é uma influência ruim, perniciosa. Os blogs tendem a acirrar as divisões. Por exemplo, eu acho que essa disputa entre a Hillary Clinton e o Barack Obama está sendo prejudicada pela divisão que os blogs atiçam entre negros e brancos, entre mulheres e homens, entre trabalhadores industriais e profissionais liberais, que é a divisão que se estabeleceu na demografia eleitoral da Hillary e do Obama.
No Brasil, é parecido, mas é muito menor porque é pequeno o número de pessoas com acesso à internet e que lêem esses blogs. Mas cria-se um mal-estar por causa do radicalismo de alguns deles, que não argumentam, ofendem. Descem a um nível que nem se pode chamar de debate. E isso contamina o tal formador da opinião pública, que muitas vezes lê esses blogs e acaba sendo contagiado pelo radicalismo, o que cria situações artificiais.
A disputa entre petistas e tucanos é muito artificial porque não há tanta coisa que distancie um partido de outro. Mas ela é muito prejudicada pelas pessoas que lêem e até participam desses blogs e se dividem de uma forma muito odiosa.

FOLHA – O ombudsman anterior, Mário Magalhães, condicionou sua permanência no cargo a que o jornal voltasse atrás de decisão tomada no ano passado de não mais divulgar na internet a crítica interna, que, no entender da Direção de Redação, estava sendo usada pela concorrência e instrumentalizada por jornalistas ligados ao Planalto. Você acha que a crítica deveria ser pública?
LINS DA SILVA
- Do ponto de vista do ombudsman, acho que essa questão é irrelevante. Do ponto de vista do jornal, inócua. Irrelevante porque qualquer coisa importante da crítica interna poderá estar na coluna de domingo, que é pública. O leitor, então, não perderá nada.
Já para o jornal, acho que a medida é inócua porque o fato de ser restrita à Redação não vai impedir que a concorrência e grupos políticos tenham acesso a ela. É impossível impedir que algo que seja distribuído a mais de uma centena de jornalistas não vaze para fora do jornal. Acho que o impasse foi gerado por uma questão que não precisaria tê-lo provocado, nem de um lado nem de outro.
O que lamento muito, porque considero que o Mário estava fazendo um bom serviço como ombudsman e isso beneficiava o leitor e o jornal.

FOLHA – Os últimos ombudsmans focaram suas colunas dominicais na cobertura da Folha. Você fará o mesmo ou pretende fazer uma análise mais ampla de toda a mídia?
LINS DA SILVA
- Não tratarei na crítica dominical de nenhum outro veículo específico porque não tenho mandato para isso. Meu compromisso é com a Folha e não serei ombudsman dos concorrentes, da televisão ou da internet. Mas, ocasionalmente, posso tratar da mídia em geral porque acho que será interessante para o leitor.

FOLHA – Você assume o posto de ombudsman na terça, mas sempre foi um leitor atento. O que mais te irrita nos jornais?
LINS DA SILVA
- O que mais me irrita é superficialidade. Depois, erros de português. E isso é uma bobagem, um pedantismo meu, porque erro de português não é tão importante assim. Em terceiro lugar, me irritam muito invencionices de texto. A tentativa de chamar a atenção com o que o repórter considera engraçado. Por exemplo, começar um texto com uma brincadeira que só me fará perder alguns segundos com algo que não tenha nenhum sentido. Também me irritam algumas opiniões muito ralas, que não acrescentam nada para o leitor.

FOLHA – Como você avalia o trabalho dos meios de comunicação na cobertura do caso Isabella?
LINS DA SILVA
- Acho que os jornais estão preocupados em não repetir erros, como ocorreram na cobertura de outros casos policiais que mobilizaram a opinião pública. O que é muito positivo. Há preocupação com aspectos éticos. Mas acho absurdo o que o Clóvis Rossi chama de cenas de jornalismo explícito. Eu vi a saída da prisão do casal suspeito e não consigo encontrar sentido naquele batalhão de cinegrafistas em cima de motocicletas colocando a câmara no vidro do carro em que eles estavam. Não sei qual o valor informativo que pode ter uma imagem como aquela.
Só não sei se isso é evitável, porque o público parece querer esse tipo de cobertura. A mídia, nessas horas, acaba estimulando o que há de pior nos instintos humanos, de morbidez e curiosidade doentia.
Mas aqui há uma questão. Será que o jornalismo sério precisa mesmo entregar o que o público quer, ou diz querer? Na minha opinião, jornalismo sério tem que atender a demanda do público, mas tem também que liderar. É preciso haver uma troca entre o meio de comunicação e seu consumidor para que o jornal atenda os desejos dos leitores, mas também ajude a melhorar a qualidade desses desejos.

10/04/2008 - 04:37h Comunicação é diálogo

Eugênio Bucci – O Estado de São Paulo

bucci.jpgNinguém é dono da razão final a priori. A razão não se impõe pela propaganda, pelo monólogo do proselitismo. Ela só adquire validade quando faz sentido natural para o conjunto dos interlocutores – e comunicar é justamente isto: tecer o sentido comum. Comunicar é buscar pontes de entendimento. É dialogar.

Os responsáveis pela mediação do debate público não podem mais ignorar o fato de que nada é mais danoso – e enganoso – do que pôr os meios de comunicação a serviço de ideários prontos e fechados. Esse tipo de prática – em meios públicos ou privados, tanto faz – não constrói confiança, não estimula a divergência e a participação crítica, não emancipa o cidadão. Nos dias atuais, de inovações tecnológicas e políticas que não cessam, nenhuma sociedade gera um espaço público saudável na base da obediência e da concordância. Foi-se o tempo em que comunicação era um alto-falante na pracinha da província. Foi-se o tempo em que a receita era adestrar as massas.

As técnicas de massificação corroem a credibilidade dos próprios meios. Não promovem o encontro de opiniões complementares, não respeitam nem assimilam os pontos de vista alternativos – apenas militam para fazer prevalecer o interesse de quem exerce poder econômico ou político sobre a mediação do debate. Não raro, poder abusivo. A massificação até consegue potencializar fanatismos de diversas naturezas, mas não gera sabedoria compartilhada. Pode compactar as maiorias em momentos específicos, mas no longo prazo conduz à destruição. O século 20 é pródigo em exemplos trágicos – e, no século 21, ainda há quem insista em retomar e reeditar as fórmulas ultrapassadas.

Aos mais ansiosos os três parágrafos acima talvez soem genéricos, abstratos, descolados das atualidades ditas jornalísticas, dos dossiês da vida, da dengue desgovernada, dos congestionamentos. E, no entanto, essas palavras, assim mesmo, aparentemente vagas, tocam no âmago da qualidade do debate público e na capacidade que ele tem ou não tem de encarar e superar seus impasses. Eis aqui um dos temas mais graves dos nossos tempos. Um dos mais urgentes, também. Eis aqui um tema visceralmente jornalístico.

No universo da comunicação social brasileira, temos vivido sob o risco crescente da polarização extremada e suas deturpações inerentes: a desqualificação de quem diverge, a tentativa de dizimar a reputação alheia, a agressividade que se volta contra a pessoa sem se ocupar dos argumentos, as manipulações deliberadas. O mesmo risco pesa de modo particular sobre o jornalismo. Embora não caiba, aqui, nenhum tipo de generalização, é possível notar, em alguns episódios, que notícias e manchetes são moldadas, voluntária ou involuntariamente, segundo uma lógica que tende a submeter o significado dos fatos a uma disputa meramente partidária e ocasional. Aí, o relato dos acontecimentos vira um acessório no embate oposição versus situação e o noticiário se reduz a um ringue em que se enfrentam as vaidades da esquerda, ou do que se diz esquerda, e da direita, ou daquilo que se supõe ser a direita. De um lado, é notícia o que fere o governo. Do outro lado, é notícia o que desmoraliza a oposição. Onde estão os fatos? Onde estão as discussões de fundo? Onde está a realidade complexa e surpreendente? Será que o que define a essência de um veículo jornalístico, então, é isto: saber se ele é contra ou a favor desse ou daquele governo?

O jornalismo – assim como a comunicação social – não funciona adequadamente quando se deixa reger pelos parâmetros da lógica partidária. Ao se render a esses parâmetros, a imprensa renuncia a seu campo próprio e se converte em instrumento de causas estranhas ao direito à informação. A própria política – a política em seu sentido mais alto – sai prejudicada.

Em vez de operar segundo ditames partidários de ocasião, cabe à imprensa observar e cobrir os partidos e suas escaramuças, vendo-os de fora. Os interesses dos partidos e dos governos devem representar, para os encarregados da comunicação social, não uma baliza para alinhamentos ou combates sistemáticos, mas um fenômeno externo. Infelizmente, contudo, se observarmos com cuidado, veremos que esse tipo de desvio ainda não foi totalmente superado. Entre nós ainda sobrevive uma concepção excessivamente instrumental dos meios de comunicação, que são vistos – e, por vezes, são administrados – como porta-vozes da corrente A ou B e nada mais.

Ora, sem prejuízo das visões de mundo que toma como missão – visões que jamais se deveriam rebaixar a programas partidários -, um órgão de imprensa alcança sucesso quando presta serviços e dá voz a seu público e quando abre novos canais entre os cidadãos. Sobretudo agora, com as novas tecnologias, o diálogo passa a ser o centro do sistema nervoso da comunicação. Os veículos ganham mais vitalidade quanto mais escapam da opacidade, quanto mais refletem a diversidade e quanto menos pretendem ser, eles mesmos, uma posição fechada a ser seguida pelo rebanho.

O Brasil precisa de pontes de diálogo – e só poderá obtê-las da qualidade de sua comunicação social, não das querelas partidárias. Há bons pensadores de um lado e de outro. Há homens públicos de valor dentro e fora do governo. Que suas idéias dialoguem no espaço público. Se a comunicação social e o jornalismo se deixarem formatar e organizar pelas trincheiras que partidos raivosos tentam imprimir sobre a realidade, não serão capazes de erguer as pontes necessárias. Continuarão, eles mesmos, entrincheirados. Abdicarão de seu compromisso com o público e com a busca da verdade – que, a propósito, não é monopólio nem de governos nem da oposição.

Eugênio Bucci, formado em Jornalismo e Direito pela
USP, doutor em Ciências da Comunicação pela mesma
universidade, escreve quinzenalmente para o Observatório da Imprensa na internet

20/10/2007 - 14:10h Alguns comentários sobre o blog

Minha vida está ligada com muita força a quatro países, onde tenho familia, amigos, histórias e raízes (Brasil, França, Argentina e USA)

Por isso meu blog é feito, principalmente, a partir de minhas leituras e do acompanhamento que faço desses países.

Eu sei que muitos não podem ler artigos em francês, inglês ou espanhol. Também têm outros que se queixam de não poder ler o português e que acessam o blog no Canadá, Estados Unidos, França e Argentina.

Como não posso materialmente traduzir esses artigos, quem consegue ler na língua, ótimo.

Procuro com o blog compartilhar minhas leituras e cada um tira delas o que deseja. De vez em quando gosto de comentar ou escrever sobre algum fato, mas nem sempre desejo emitir opinião. Por um lado, porque muitas vezes não tenho opinião formada ou simplesmente concordo com a opinião emitida por outros e que reproduzo aqui.

A única moderação que faço sobre eventuais comentários postados no blog é em relação a insultos, calúnias, ofensas e baixo nivel. Por sorte quase não tem aparecido esse tipo de internauta violento e preconceituoso. Todas as outras ponderações são bem-vindas, independentemente de curtas ou longas, de eu concordar ou não com elas.

Por último, meu blog, por ser este um espaço público, procura estar centrado em idéias (políticas, culturais, econômicas, comportamentais etc.) e não, evidentemente, na minha vida privada. Mesmo se compartilhar publicamente minhas idéias e minhas afinidades ideológicas e culturais é mostrar muito de mim mesmo.

A todos, qualquer que seja o idioma, mil desculpas pelos meus erros de gramática: Toda correção é bem-vinda e incentivada.

Pelas minha leituras e opiniões só quero o direito e a liberdade de publicá-las. Esse direito que reivindico, inclui o de poder errar, mudar e corrigir.

Luis Favre