08/11/2009 - 18:22h Os amantes

Otto René Castillo

Se haviam
encontrado faz pouco
e logo
se haviam separado,
levando
cada um consigo
seu nunca ou seu jamais
sua afirmação de esquecimento
sua golpeadora dor.

Porém o último beijo
que voara de suas bocas,
era um planeta azul.
Girando
em torno a sua ausência
e eles
viviam de sua luz
igual que de sua recordação.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

Los amantes

Otto René Castillo

Se habían
encontrado hace poco.
Y hace pronto
se habían separado,
llevándose
cada uno consigo
su nunca o su jamás
su afirmación de olvido,
su golpeador dolor.

Pero el último beso
que volara de sus bocas,
era un planeta azul.
Girando
en torno a su ausencia.
Y ellos
vivían de su luz
igual que de su recuerdo.

Poesia Latina

20/08/2009 - 17:58h OS AMANTES

Julio Cortazar

Tradução de José Jeronymo Rivera

Quem os vê andar pela cidade
se todos estão cegos?
Eles se tomam as mãos: algo fala
entre seus dedos, línguas doces
lambem a úmida palma, correm pelas falanges,
e acima a noite está cheia de olhos.

São os amantes, sua ilha flutua à deriva
rumo a mortes na relva, rumo a portos
que se abrem nos lençóis.
Tudo se desordena por entre eles,
tudo encontra seu signo escamoteado;
porém eles nem mesmo sabem
que enquanto rodam em sua amarga arena
há uma pausa na criação do nada
o tigre é um jardim que brinca.

Amanhece nos caminhões de lixo,
começam a sair os cegos,
o ministério abre suas portas.
Os amantes cansados se fitam e se tocam
uma vez mais antes de haurir o dia.

Já estão vestidos, já se vão pela rua.
E só então,
quando estão mortos, quando estão vestidos,
é que a cidade os recupera hipócrita
e lhes impõe os seus deveres quotidianos.

 

 

 

LOS AMANTES

¿Quién los ve andar por la ciudad
si están todos ciegos?
Ellos se toman de la mano: algo habla
entre sus dedos, lenguas dulces
lamen la húmeda palma, corren por las falanges,
y arriba está la noche llena de ojos.

Son los amantes, su isla flota a la deriva
hacia muertes de césped, hacia puertos
que se abren entre sábanas.
Todo se desordena a través de ellos,
toda encuentra su cifra escamoteada;
pero ellos ni siquiera saben
que mientras ruedan en su amarga arena
hay una pausa en la obra de la nada,
el tigre es un jardín que juega.

Amanece en los carros de basura,
empiezan a salir los ciegos,
el ministerio abre sus puertas.
Los amantes rendidos se miran y se tocan
una vez más antes de oler el día.

Ya están vestidos, ya se van por la calle.
Y es sólo entonces
cuando están muertos, cuando están vestidos,
que la ciudad los recupera hipócrita
y les impone los deberes cotidianos.

Fonte Antonio Miranda

21/10/2008 - 17:37h Os amantes e as rimas

 

http://odisseus.blogs.sapo.pt/arquivo/rene-magritte-os%20amantes.jpg

René Magritte Os amantes

 

Gustavo Adolfo Bécquer

Enquanto houver uns olhos que reflectem
outros olhos que os fitam,
enquanto a boca responda a suspirar
aos lábios que suspiram,
enquanto sentir-se possam ao beijar-se
duas almas confundidas,
enquanto exista uma mulher formosa,
haverá poesia!

Rimas – XXXVII
Antes de ti eu morrerei: oculto

no peito levo já

o ferro com que tuas mãos abriram

larga ferida mortal.

Antes de ti eu morrerei; meu espírito,

num anseio tenaz,

ante as portas da morte irá sentar-se,

a esperar-te lá.

[...]

Ali onde o sepulcro que se fecha

abre uma eternidade…

Tudo quanto nós dois sempre calámos

teremos de falar!

Gustavo Adolfo Bécquer (1836-1870)

Tradução de José Bento

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