21/11/2008 - 17:52h “Os Irmãos Karamabloch”

CARLOS HEITOR CONY


Escreveu mais do que a história de sua família. Fez a primeira parte de sua autobiografia

FAMÍLIA DE 17 PESSOAS chegou ao Rio de Janeiro em 1922, na terceira classe do “Re d’Italia”. Eram ucranianos, genericamente russos, mas, sobretudo, judeus. O patriarca, Joseph Bloch, tivera uma gráfica em Kiev, chegara a imprimir o dinheiro do efêmero governo de Kerenski. Decidira tentar inicialmente os Estados Unidos, mas a cota de imigrantes para aquele país estava fechada, a alternativa foi vir para o Brasil.
Este não foi o início dos Blochs.
Antes da viagem, já se podia falar numa “saga”, com lances que um dos descendentes do clã acaba de lançar: “Os Irmãos Karamabloch” (Companhia das Letras, 344 págs., R$ 48).
Para levantar a sua história, Arnaldo pesquisou durante sete anos, foi a Jitomir e Kiev, entrevistou muita gente e foi testemunha da etapa final de um império da comunicação que teve ascensão e queda -como, de resto, todos os outros impérios tiveram e terão.
O assunto era bom e vasto. Muitos o tentaram, mas desanimaram por um motivo ou outro. Uma biografia tradicional, com princípio, meio e fim, na linguagem correta e oficial para este gênero de livro, com obediência da ordem cronológica e sem assumir deliberadamente a lenda e a história, não daria o resultado que Arnaldo Bloch conseguiu. Antes de mais nada, ele usou a linguagem e a técnica do romance -gênero no qual estreou, com “Amanhã a Loucura”, e continuou com “Talkshow”.
O charme do livro é que o narrador funciona como personagem da trama, recurso que Proust e outros memorialistas também usaram.
Evidente que o foco principal é dedicado aos três Blochs que Otto Lara Resende, frasista famoso, que também é personagem do livro, chamou de “Irmãos Karamabloch”.
Ou seja, os filhos do patriarca: Boris, Arnaldo e Adolpho. As filhas de Joseph funcionam, na narrativa, como o coro das tragédias gregas: comentam a ação, sugerem e sofrem, de certa forma, as conseqüências.
Uma noite dos anos 80, Leonardo e Iná, pais de Arnaldo, trouxeram o rebento para jantar em minha casa, trazendo também o Rodian, um setter que era parente da minha Mila.
Naquela época, Arnaldo estava numa encruzilhada vocacional: por gosto e influência de sua geração, queria se dedicar à música -e era bem dotado para isso. Sentia apelos pela literatura e pelo jornalismo, mas, se dependesse dele, naquela ocasião, seria um músico, intérprete ou compositor.
O pai não era contra, mas preferia que Arnaldo fosse escritor. Daí que me pediu para conversar com o filho. Conversa vai, conversa vem, Arnaldo saiu lá de casa levando alguns livros que lhe indiquei, inclusive um de Balzac, “Grandeza e decadência de César Biroteau”. Levou também Kafka, Goethe e outros.
Mais tarde, após ocupar diversos cargos na empresa da família, foi para “O Globo”, onde, hoje, assina uma crônica semanal e faz reportagens especiais. Um dia, me procurou com os originais de seu primeiro romance, que seria publicado pela Nova Fronteira e que hoje tem uma edição de bolso. Depois veio o segundo, já na Companhia das Letras, que apostou em Arnaldo e patrocinou sua ida a Kiev.
Foi longa a escritura do livro, mais romance do que biografia, embora seja as duas coisas. Basta citar o princípio e o fim da ação: o pai de Arnaldo no salão escuro do apartamento, olhando em silêncio a praia de Copacabana. Cena que se repete ao final, fazendo da ação principal um enorme flashback, em que misérias e grandezas compõem um movimentado gran guignol que lembra Dostoiévski em alguns momentos, em outros o Máximo Gorki de “Os Pequenos Burgueses”.
A figura de Abrascha, que se tornaria Adolpho e que na opinião do tio Jorge “nem era para ter nascido”, ocupa grande parte do primeiro plano da narrativa. Com suas contradições, a compulsão pelos grandes gestos e a submissão aos momentos de cólera, nem sempre justa, fazem dele um dos personagens mais polêmicos, que encantou e provocou ódios de duas gerações de jornalistas e banqueiros.
Por isso mesmo, o livro do seu sobrinho-neto só podia ser escrito como Arnaldo o fez. Sem elogio e sem censura. Não funcionou como o biógrafo preocupado com o rigor histórico e a opinião da crítica. Escreveu mais do que a história de sua família. Fez a primeira parte de sua possível autobiografia.

16/11/2008 - 16:39h Um império, uma família, a vida

http://www.telehistoria.com.br/upload/colunath-11-adolpho-430.jpg

Em ´Os irmãos Karamabloch´, Arnaldo Bloch narra saga do clã do conglomerado ´Manchete´

JK e Bloch: bons negócios, lealdade e gratidão até o fim

Leonardo Lichote - O GLOBO

http://carmen.miranda.nom.br/carmen246.jpgEm sua festa de cem anos, a senhora chama seu sobrinho-neto num canto e, depois de um diálogo banal, segura-o pelo braço e diz, oracular: “Tuuuudo passa. A gente olha pra trás e é só um pontinho”. A sentença de Fanny Bloch — extraída das últimas páginas de “Os irmãos Karamabloch: ascensão e queda de um império familiar” (Companhia das Letras), de Arnaldo Bloch, o tal sobrinho-neto — ecoa por todo o livro. Afinal, mais que narrar a história íntima de uma família ou a saga de um império de comunicações, a matéria da obra é o próprio movimento da História, da Vida.

— É um livro sobre o vazio. Porque tudo que se constrói vai resultar no vazio, na solidão, na morte — afirma o autor, repórter e colunista do GLOBO, que lança o livro terça-feira, na Livraria da Travessa de Ipanema, às 19h30. — Mas, sobretudo, eu o definiria como um livro sobre a alma de uma família, entendido o termo como um grupamento humano, que envolve parentes, funcionários, amigos…

Monólogos entram como espectros no livro

A história da família Bloch — narrada desde o fim do século XIX até o presente, passando pelo ápice do império, com a Bloch Editores e a revista “Manchete”, e o início da derrocada com a TV Manchete, que levou o grupo à falência — é contada de dentro. Não apenas por seu autor ser um Bloch, mas por ser construído a partir de um olhar que se põe no cerne de seu objeto, exibindo os complexos mecanismos de sordidez e compaixão, de vergonhas e orgulhos, que regem uma família.

— Um primo disse: “Mas nossa família tem coisas muito negativas”. Há cenas fortes, como Bóris (tio de Arnaldo, um dos “irmãos Karamabloch”) tentando estrangular a mulher. Mas há um lado grandioso também, o amor está ali. Para construir essa visão que parte de dentro, o jornalista lançou mão de outros olhares. Várias vozes cortam o livro, em capítulos-monólogos escritos em primeira pessoa, de diversos membros da família. Tal qual espectros, eles aparecem como vindos de nenhum lugar e de um outro tempo, contam o que viram ou interpretam ações narradas e se retiram.

— Sempre soube que o livro teria esse caráter espectral. Um dos últimos capítulos é o “Livro da vida”, que na verdade é dos mortos, fala das mortes — nota o autor. — Havia uma versão sem os monólogos, mais crua. Até que um primo me mandou um mail, falando de fitas gravadas na década de 80, com nossas tias. Ouvindo aquelas vozes de sotaque estranho (reproduzido na grafia dos monólogos), às vezes pueris, dizendo verdades, fiquei tocado. Fiz então uma espécie de coro grego com essas vozes. Voltei em gravações que fiz (50 horas de áudio, 30 horas de filmes) e recuperei depoimentos. Bombardeei, então, o livro com esses espectros. Em meio aos espectros, a voz de Arnaldo está bem marcada nas páginas de “Os irmãos Karamabloch”.

Como personagem, ele aparece em sua ida à Ucrânia para visitar Jitomir, cidade onde o patriarca Joseph instalou uma gráfica, marcando a entrada do clã judaico no ramo. Décadas depois assumem a frente seus filhos, os irmãos que dão nome ao livro: Bóris, Arnaldo (avô do autor) e Adolpho. É o trio — apelidado de “irmãos Karamabloch” por Otto Lara Rezende por suas brigas constantes, em referência aos Karamázov de Dostoiévski — o centro da saga. E são eles que, em suas traições e conquistas, potencializam a aventura da família que saiu fugida da Ucrânia após a queda do czar e a ascensão do socialismo e enriqueceu no Brasil, onde inicialmente ficaria apenas o tempo suficiente para conseguir juntar dinheiro e ir para os Estados Unidos. Conseguiram, mas gastaram num Ford Bigode para pular o carnaval.

Entre os irmãos, porém, é Adolpho o grande personagem, tão apaixonante quanto vil. Jogador nos cassinos e na vida, o homem que foi o grande responsável pela consolidação do império e tinha como questão de honra pagar seus funcionários no dia certo — mesmo nos momentos de crise — era capaz de tomar o dinheiro do caixa do português do bar em frendepoite à sede da empresa nos tempos da Rua Frei Caneca, e de, na adolescência, pegar as economias da avó quase cega dando em troca “cheques” que eram na verdade pedaços de papel recortados. Era amigo de Juscelino Kubitschek ao mesmo tempo em que acariciava a ditadura militar nas páginas da “Manchete”.

Humilhava e humilhava-se, conforme as circunstâncias. — Franco Zefirelli disse que Adolpho era um personagem cinematográfico. Glauber Rocha falou que quem o acompanhasse por um ano com uma câmera teria um filme — conta Arnaldo. — Ele é a síntese da família, tem a obstinação pelo trabalho de Joseph, temperada pela alma sentimental de Jorge (irmão de Joseph, que, no Rio, tornou-se amigo de violeiros e folião apaixonado). Apoiava o governo militar, um tanto por senso de sobrevivência, outro por seu entusiasmo com projetos grandiosos. O mesmo entusiasmo o fez apoiar as reformas de base de Jango e os Cieps de Brizola

Livro demorou sete anos para ficar pronto

Há outros personagens fascinantes, como Esther-Rivka, mãe de Joseph — odiava peixeiros por ter perdido o marido Pinkhas engasgado com uma carpa. Ou Haisura, que se tornou lenda como a mulher mais feia da Rússia. O tom do livro no início, quando a família ainda está na Ucrânia, é quase fabular, fantástico — inclui um relato de uma cabeça que falou algo depois de ter caído no chão, decepada. Depois, a narrativa se torna mais objetiva, acompanhando o crescimento dos negócios no Brasil.

No fim, quando o autor visita as ruínas do império — a sede do conglomerado na Rua do Russel, a casa da família na Rua Cinco de Julho, lembrada com saudosismo por uns e definida por outros como “um covil de serpentes” —, o texto assume um tom lírico e impressionista. — Isso dá uma certa cadência ao livro. E foi o que me fez levar sete anos para escrevê-lo — explica. — Não queria que parecesse com algo já escrito. Queria contar essa história sem me desatrelar dela, sem abrir mão dos relatos lendários, vindos pela oralidade. Tenho uma crença de que imaginário e emoções também são parte do real.

Afinal, como negar o caráter real do delírio de Arnaldo, um dos irmãos do título, quando, em frente à sede, diz a Adolpho: “Quando tudo acabar, vamos sentar aqui, puxar os pedestres pela camisa e dizer: Senhor! senhor! um dia isso tudo foi meu!”.

Palavras que ecoam as de Fanny, como escreve o autor, “trazendo com elas o segredo de todos os impérios que ruíram”.

http://site.pirelli.14bits.com.br/files/work/image/590/400px_CP0590_11_23.jpg

Assis Chateaubriand e Adolfo Bloch, 1962 © Luiz Carlos Barreto