15/11/2009 - 13:50h Pintor da paisagem musical brasileira

Villa-Lobos

Gênio, modernista, ultrapassado: 50 anos depois da morte do compositor, seu talento se livra de rótulos e é compreendido em toda a sua multiplicidade

João Luiz Sampaio – O Estado SP

>Há 50 anos, no dia 17 de novembro, morria no Rio de Janeiro, aos 72 anos, Heitor Villa-Lobos. Não foi pequena a comoção pelo desaparecimento do nosso maior compositor. Para um grupo, desaparecia o criador de uma música essencialmente brasileira, o desbravador de sertões e florestas em busca do folclore que serviria de inspiração para suas obras; para outro, o grande vilão da criação moderna, símbolo de atraso e conservadorismo.

Quem estava certo? No palco da vida musical brasileira, Villa-Lobos desempenhou, desde sua morte, diversos papéis. E nos últimos anos não apenas a vanguarda reviu a posição crítica com relação à sua obra, como o folclore mostrou-se apenas parte de um todo bastante maior. Menos do que um símbolo, Villa hoje reaparece como figura incoerente, que cabe em todas as definições que se aplicaram a ele – mas não se limita a nenhuma delas. Está, enfim, livre para ser ele mesmo.

CONJUNTO CAÓTICO

“Já é hora da obra de Villa-Lobos falar por si própria”, diz o maestro e compositor Gil Jardim, autor de O Estilo Antropofágico de Villa-Lobos. “Temos depurado nossa percepção de seu legado e a obra vem conquistando crescente autonomia pelo seu valor intrínseco”, continua. Villa-Lobos nasceu no Rio em março de 1887. Autodidata, foi influenciado pela música dos chorões cariocas, assim como demonstrou interesse desde o início por manifestações folclóricas. Viveu durante duas temporadas em Paris (nos anos 10 e 20), onde teve contato com a música de Claude Debussy e Igor Stravinski e, no fim da vida, morou nos EUA, onde compôs para cinema e para a Broadway. Escrevia muito, sem se preocupar em passar a limpo ou revisar as partituras. Entrar na sua obra é, portanto, conviver com um universo caótico de cerca de 1.200 peças das mais diferentes proporções, inspirações e técnicas, como os ciclos das Bachianas Brasileiras e dos Choros. “Ele conseguiu um amálgama de muitas correntes de sua época, como o nacionalismo, o neoclassicismo, o experimentalismo, o exotismo, até mesmo prediz o minimalismo”, diz a pianista Sonia Rubinsky, que gravou a integral de sua obra para piano (selo Naxos).

“Ezra Pound disse que um escritor se divide em três categorias: aquele que inventa e, portanto, muda a história; aquele que é um mestre e consegue captar com maestria as ideias de outros; e aquele que copia. Parece que Villa-Lobos foi tudo isso. Ele extrapola rubricas”, acredita a compositora Jocy de Oliveira. Para o maestro Julio Medaglia, até mesmo a relação dele com o folclore já passa por reavaliação. “Ele não foi um provinciano. Ele sabia o que de novo se fazia na Europa e armou uma guerra entre a matéria-prima nacional e o know-how da música do Ocidente”, diz. “O que resta, hoje, é sua obra extensa, polêmica, forte, carismática, com muita brasilidade, mas também universalidade”, completa o maestro Luis Gustavo Petri. “Sua obra, irregular, complexa, tem muitos aspectos ainda a serem avaliados”, afirma o violonista Edelton Gloeden. E o compositor Gilberto Mendes, um dos autores do Manifesto Música Nova, que orientou parte da vanguarda brasileira, acrescenta: “Admiro sua inventividade, a modernidade de sua linguagem. Não me interesso pelo seu brasileirismo e, sim, ao contrário, pelo seu ecletismo tropicalista pós-moderno avant la lettre”.

GERAÇÕES

A revisão da imagem de Villa-Lobos de alguma forma parece relacionada à dissolução da dicotomia entre nacionalistas e vanguardistas que, meio século depois, já não pauta mais a produção de compositores brasileiros. “Estamos livres do domínio ideológico e político associado à imagem de Villa, e cada vez mais se interessando pelo compositor, seu métier e obras que ainda estão por ser melhor entendidas, e que têm muito a contribuir na formação de novas bases da composição, especialmente no âmbito da orquestração e da estruturação formal”, diz o compositor Leonardo Martinelli.

“Os músicos da geração seguinte a Villa-Lobos foram de algum modo intimidados por sua sombra. Já minha geração foi formada reagindo negativamente à escola nacionalista e, a princípio, o ignoramos. Mas em meados dos anos 80 começamos a descobrir que Villa-Lobos tinha também muitas facetas revolucionárias e pudemos recuperar aspectos da linguagem de suas obras atonais e continuar a desenvolvê-los sem que isso representasse um peso intimidador”, diz o compositor e professor da USP Rodolfo Coelho de Souza, apontando para uma realidade na qual a música brasileira parece livre da sombra onipotente do autor das Bachianas. Não chega a ser um paradoxo que tal realidade liberte o próprio Villa-Lobos de sua história. E o traga para o presente.


Heitor Villa-Lobos
Choros nº 10 – Rasga o Coração

Concerto de Final de Ano (31/12/2008)
Sala São Paulo
Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Regência/Conductor: John Neschling



Pintor da paisagem musical brasileira

*John Neschling – O Estado SP

Em seu trabalho, a inspiração poética e profética, inigualável e difícil de copiar, se manifesta mesmo em composições de tom mais convencional

Nem sei quantos Villa-Lobos existem na minha cabeça desde a infância. Na escola primária, o currículo incluía a matéria “Canto Orfeônico”, criação de Villa durante os anos de Getulio Vargas e que imagino tenha atormentado gerações de crianças e jovens nos anos 50 e 60, só sendo, infelizmente, retirado do ensino básico depois da reforma introduzida depois da revolução de 1964. Digo atormentado, mas não foi bem isso que aconteceu comigo. Eu folheava as páginas do livro Canto Orfeônico, redigido por José Siqueira, e me fixava nas fotografias e nomes que me acompanharam durante a minha formação, vindo à tona com toda a vitalidade quando puxei pela memória nos meus anos de Osesp.

Não sei se a famigerada “manosolfa” do método foi uma invenção de Villa, mas esse sistema era usado nuns ditados que nosso professor teatralmente nos fazia. Ao menos saí do primário informado de que havia uma tradição musical no nosso País. A prática do canto coral, indispensável na formação e na socialização da infância e juventude, foi colocada no centro da formação do jovem, e isso teve uma profunda influência na música brasileira da segunda metade do século 20.

Outro Villa-Lobos que reconheço é aquele postado heroicamente num pódio dentro do Estádio de São Januário, no Rio, regendo milhares de crianças, que cantavam a Invocação em Defesa da Pátria com um furor típico dos anos 40. Esse mesmo Villa povoava a minha fantasia na infância e creio, sem ter certeza de que isso realmente aconteceu, tê-lo visto nos seus últimos anos de vida nos corredores do Municipal do Rio, amparado por Mindinha e cercado por uma horda de admiradores e acólitos. Se não o vi em pessoa, Villa continuou presente nas conversas e aulas que tive até minha partida para a Europa em 1965. Sua presença era sentida fisicamente na vida musical carioca. A grande maioria de meus professores e amigos mais velhos tinha histórias e revelações a fazer acerca de sua convivência e suas relações pessoais com o compositor. Villa nunca foi um compositor do passado. Sempre fui seu contemporâneo, e isso muda a abordagem que tenho da sua música.

Um outro Villa, mais misterioso, encontrei durante todo o período em que estudei na Europa. Era um homem mítico e desconhecido, uma espécie de selvagem aculturado, um prodígio tropical, uma figura exótica de quem todos ouviram falar mas a quem poucos haviam assistido. Não ouvi uma única obra sua ao vivo nas centenas de concertos que ouvi em Viena ou na Europa durante os anos 60 e 70. Talvez um ou outro pianista, geralmente latino-americano tenha executado uma peça, ou um ou outro violonista tocado os Estudos ou Prelúdios do mestre. Eu me exibia como sendo conterrâneo de um gênio. Falar de Villa era como falar da Amazônia e do Carnaval, e por isso, com o tempo, ele, com sua produção imensa, foi deixando de ser um compositor brasileiro para se transformar na própria música brasileira. Ouvia-se, e mal, as gravações que ele tinha feito de suas obras durante seus anos franceses à frente de uma orquestra que, obviamente, não se tinha dado ao trabalho de ensaiá-las com o devido cuidado.

Aproximei-me de um novo Villa quando, já formado, passei a interessar-me por reger algumas de suas obras, a começar pelas Bachianas mais famosas para orquestra, a segunda, a quarta e a sétima. Sem uma visão mais abrangente de sua criação, notei a grande dificuldade de execução de suas partituras, especialmente para as cordas. Descobri a razão de sua música ser, quase sempre, tão mal executada. Villa nunca pensou nas possibilidades técnicas dos instrumentos, escreveu o que lhe dava na telha e necessita de excelentes orquestras, cordas virtuosísticas, para que sua música atinja o efeito que o mestre deseja ou imagina. E de tempo suficiente de ensaio para que as orquestras se habituem ao seu estilo e à sua escrita.

Certamente pela sua formação em grande parte autodidata, sua orquestração é pesada e necessita de interferências bastante estruturais do maestro. Este por sua vez, precisa conhecer muito mais da obra do mestre, para poder atrever-se a mexer em qualquer coisa que o gênio muitas vezes “inventou”. Se o compositor francês Olivier Messiaen afirmou que Villa era o maior orquestrador do século 20, isso se deve sem dúvida à criatividade sem limites do carioca, não ao refinamento de sua escrita. Suas novidades e seus achados sonoros são certamente revolucionários nas orquestrações modernas. Os berros e urros dos trombones, os mosquitos que zumbem nos harmônicos das cordas, os pássaros que gorjeiam incessantemente nos seus refrões nas madeiras, as serpentem que chacoalham nos reco-recos e maracas, o rio imenso que ruge nos contrabaixos e violoncelos, isso tudo faz de Villa-Lobos um “inventor” na orquestração moderna, talvez o primeiro artista a descrever sonoramente o íntimo do Brasil.

Mas há o Villa desleixado, que deixava o copista completar o que na sua cabeça já estava claro. Os erros crassos que pululam em seus originais e em suas edições são fruto exatamente dessa prolixidade na criação, que não lhe deixava tempo para revisões. Foi só nos últimos anos que alguns maestros e musicólogos se deram ao trabalho de revisar e reeditar meticulosamente as obras do nosso maior compositor, e com isso estamos, hoje em dia, mais capacitados a executar algumas de suas obras com eficiência e certidão. Lembro-me que quando, nos anos 80, fui à China e resolvi reger a segunda Bachiana, levando comigo o material cedido por Mindinha, viúva de Villa, tive momentos de pânico absoluto ao ver que a orquestra tocava tudo errado. Eu desconfiava de minha intérprete que traduzia tudo o que eu pedia em inglês para o chinês, sem que isso tivesse nenhuma influência nos erros dos músicos. Finalmente, ao descobrir que o material vinha eivado de erros de cópia, os músicos chineses corrigiram eles mesmo essa falhas a partir da partitura que eu trazia e a execução saiu impecável sem necessidade de intérprete. A música de Villa era a sua própria explicação.

O Villa meu herói é aquele que descobri ao enterrar-me na sua criação com mais afinco. Mesmo nas obras – e ainda há tantas que pretendo descobrir – que poderiam ser encaradas como “menos importantes” ou mais “descritivas”, ou que fazem uso de chavões mais ou menos usuais na sua criação, sempre há um momento específico em que sinto a presença incomparável do gênio original e incopiável. Encontro em determinados momentos a verdadeira “alma brasileira”, que Villa tanto amava, o coração da terra brasilis batendo como o metrônomo do mundo, como Villa o definiu de forma tão poética e profética.

Na música brasileira, especialmente na do século 20 há muitos grandes compositores, originais, artesanalmente preparadíssimos (talvez mais do que o próprio Villa), mas a definição de nossa paisagem musical foi perfeitamente definida por Tom Jobim. Para ele Villa-Lobos foi a montanha, os outros o vale. Ou, adaptando um dito da escritora Patrícia Melo, poder-se-ia dizer que se Deus deu aos compositores brasileiros do século 20 o talento, o diabo lhes colocou à frente Villa-Lobos.

John Neschling, ex-diretor da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, gravou com ela a integral dos Choros do compositor (selo BIS)

12/11/2009 - 20:46h “intimidação, em clara manifestação gratuita de poder”, diz o texto do juiz

Maestro John Neschling ganha processo trabalhista contra a Osesp

11 de novembro de 2009

Bom dia Luiz. te envio uma nota que vai te interessar. Abraços Fernando Rabelo

http://vejasaopaulo.abril.com.br/red/terraco/john-neschlling-2008.jpg

O maestro John Neschling ganhou a ação trabalhista movida contra a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). Ele exigia os direitos trabalhistas pelos doze anos em que trabalhou como diretor artístico e regente titular do grupo, além de indenização por danos morais pela forma como foi demitido (por uma notificação por e-mail, em janeiro).
Conforme a sentença do juiz Ronald Luís de Oliveira, a Osesp deverá pagar 4,3 milhões de reais ao maestro. A demissão foi considerada sem justa causa e seguida de atitudes que provocaram “intimidação, em clara manifestação gratuita de poder”, diz o texto do juiz.

“Certamente, não era o meu desejo que a minha relação com a Osesp acabasse desta maneira. Mas eu sempre confiei na Justiça e me sinto recompensado”, disse Neschling, após saber da decisão. A vitória foi em primeira instância.

A Fundação Osesp, por meio de comunicado, informou que recorrerá às instâncias cabíveis. “A Fundação reafirma que a contratação do maestro John Neschling foi efetuada de forma regular, com seu conhecimento e aprovação, e de acordo com legislação específica que rege a contratação de serviços artísticos”, diz a nota.

29/08/2009 - 14:05h Ötvös toca Dvorák e dá lição que não se deve esquecer


Apresentação de quinta-feira do maestro húngaro à frente da Osesp está entre os concertos mais notáveis deste ano

Lauro Machado Coelho – O Estado SP

A segunda apresentação do maestro Gábor Ötvös, na quinta, confirmou o acerto da política iniciada pelo maestro Neschling, na Osesp, de enquadrar, com duas obras conhecidas e populares, uma importante peça pouco conhecida do público. Assim, pilares do repertório, de Prokófiev e Dvorák, acompanharam o Concerto para Viola op. póst. de Béla Bartók, admiravelmente executado pelo violista chileno Roberto Díaz.

É difícil saber o que seria o Concerto para Viola, se Bartók o tivesse podido terminar. Quando ele morreu, em 26 de setembro de 1945, a peça ainda não estava orquestrada, e Tibor Serly, o seu aluno predileto, a terminou. Mas a linha do solista – que Béla discutira com o violista inglês William Primrose, que encomendara o concerto – estava virtualmente pronta. E a ela, a esta a sonoridade encorpada do instrumento de Díaz deu um relevo excepcional. Desde a exposição do primeiro tema, no Allegro moderato, manteve a proeminência da viola, mesmo quando a orquestra se adensa, fazendo soar, após a magnífica cadência, o belo solo de fagote que opera a transição para o Adagio religioso.

Na melodia estaticamente meditativa desse movimento de forma ternária, que Díaz plasmou com contida emoção, está o epicentro dessa perturbadora música, escrita por um homem que sabe que está morrendo e, nela, faz sua última declaração de crença na vida – traduzida na seção central, Allegretto, de que Díaz extraiu todo o efeito virtuosístico. O Finale: Allegro vivace é o movimento mais sumário, e talvez tivesse sido mais extenso, se Bartók tivesse podido revê-lo. Mas em seu moto perpétuo, de intenso sabor húngaro, a que Díaz imprimiu o impulso rítmico que torna a música de Bartók inconfundível, está a despedida da terra que nunca mais veria.

Ao acompanhá-lo, Ötvös e a Osesp se empenharam – ao mesmo tempo que abriam todo o espaço para o discurso da viola -, em explorar o que a escrita orquestral tem de melhor, em especial os momentos que nos trazem à mente ecos do Concerto para Orquestra, última peça orquestral de Bartók. Ouvindo essa grande despedida da vida, entendemos por que, momentos antes de entrar em coma, Béla disse ao médico: “O mais triste é que estou indo embora com a bagagem cheia.”

E ouvir Roberto Díaz dar, no extra – o movimento Rapidíssimo da terceira sonata de Hindemith para viola-solo – uma demonstração da soberba escola de instrumento que tem, impõe a pergunta: por que Tortelier, que é um reconhecido bom intérprete de Hindemith, não traz de volta, no futuro, para tocar aqui Der Schwanendreher, para viola e orquestra?

A Sinfonia nº 1 em ré maior op. 25 “Clássica”, de Serguêi Prokófiev, com que o programa foi aberto, foi realizada por Ötvös e a Osesp com uma transparência de texturas e elegância de fraseado que se deliciou com o transbordante bom humor dessa peça. E mais: eles a tocaram de modo a fazer sentir que, ao retomar o modelo clássico, Prokófiev permanece russo dos pés à cabeça – é como se Iósif Haydn tivesse nascido em Sontsóvka, em 1891.

O título da sempre estimada Sinfonia nº 9 em Mi Menor op. 95 “Do Novo Mundo” fica mais claro, se nos lembramos do título em inglês ”From the New World”. Não é uma sinfonia “sobre a América”, mas a obra nostálgica de um homem que, longe de casa, sente saudades de seu país e conta nos dedos os minutos que faltam para voltar a vê-lo. Ötvös teve isso sempre em mente, ao levar a Osesp neste passeio pela última sinfonia do compositor checo.

O tema cíclico de sabor boêmio, que estará presente em toda a sinfonia, e o ritmo de polca que marca o segundo tema do Adagio-allegro molto, criam o clima da obra. Mas foi no Largo que o corne inglês de Natan Albuquerque Jr., a flauta e o o oboé de Jéssica Dalsant e Arcádio Minczuk, ou o violino de Cláudio Cruz, recriaram toda a magia das citações de temas americanos que se entrelaçam, contrastando com a exuberância dos ritmos de dança da Europa central com que se constrói o Scherzo molto vivace seguinte. Tratamento de vigorosa liberdade rítmica foi o que Ötvös deu à canção americana sobre os “Três ratinhos cegos”, envolta numa roupagem wagneriana – que, apesar da ligação do compositor com Brahms – é prova da sua liberdade e independência de espírito.

Ouvir Ötvös tocando Dvorák, mostrou quanto ele compartilha a crença bartokiana de que a música – Béla fez pesquisas não só do folclore húngaro, mas também do eslovaco, romeno, checo e até do árabe – poderia, numa época de grandes conflitos, ser o elo de solidariedade entre os homens. Lição mais do que nunca atual, quando vemos intelectuais do porte de Edward Said e Daniel Barenboim recorrerem à música, como uma forma de reaproximação no conturbado Oriente Médio. Todas essas reflexões nos levam a crer que esta apresentação de Gábor Ötvös coloca-se entre os concertos mais notáveis a que pudemos assistir este ano.

Serviço
Osesp. Sala São Paulo (1.484 lugares). Praça Júlio Prestes, s/n.º, tel. 3223-3966. Hoje, 16h30, R$ 30 a R$ 104

11/07/2009 - 10:57h TAPAS E BEIJOS

http://4.bp.blogspot.com/_PaJUJnVGs5M/SYD1ThULPPI/AAAAAAAAFA4/62jbNSsblx0/s320/johnneschiling.jpgEm discurso anteontem, na comemoração dos dez anos da Sala São Paulo, Fernando Henrique Cardoso, presidente do conselho da Osesp, homenageou as autoridades presentes e aqueles que fizeram a história da sala. O nome de John Neschling, ex-regente da orquestra, foi recebido com muitos aplausos, e o do governador José Serra, em viagem ao exterior, com uma salva de vaias. Coluna Mônica Bergamo – Folha SP.

Leia a integra da coluna de Mônica Bergamo na Folha SP

21/03/2009 - 11:07h Folha SP: Salário do novo regente da OSESP é mais do que o dobro do de Neschling

Vocês lembram que os tucanos justificavam a demissão de Neschling, entre outros motivos, pelo “inadmissível” salário que recebia o maestro.

Pois bem, a Folha de São Paulo informa que o salário do novo maestro contratado é mais do que o dobro do que Neschling recebia.

O atual regente, diferentemente do anterior, não acumulará a sua função com à da direção artística da orquestra.

Os salários dos regentes das grandes orquestras seguem padrões do mercado internacional e por enquanto a crise não parece ter afetado essas remunerações.

Não é o salário do novo maestro e menos ainda seu profissionalismo, criatividade e capacidade para dar continuidade ao projeto da OSESP, que aqui se questiona.

O que fica a nu é a hipocrisia e falta de ética dos tucanos, assim como das suas pretensas cruzadas moralistas. LF

http://blogdofavre.ig.com.br/wp-content/uploads/2009/01/neschling.jpghttp://albertoartes.googlepages.com/FHC.jpghttp://www.artslist.org.uk/Images/events/BWH/2009/YanPascalTortelier_main.jpg

Neschling, FHC e Tortelier

Mercado Aberto

GUILHERME BARROS – guilherme.barros@grupofolha.com.br

Neschling entra na Justiça contra Osesp

John Neschling, regente afastado da Osesp (Sinfônica do Estado), protocolou na última quinta-feira pedido na Delegacia Regional do Trabalho em São Paulo para verificar se o novo regente titular da orquestra, o francês Yan Pascal Tortelier, tem ou não autorização para trabalhar no Brasil. Se não tiver, Neschling pede que “sejam tomadas as medidas cabíveis contra a Fundação Osesp”, que mantém a Sinfônica.
A DRT-SP confirmou o pedido de Neschling. Informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que o ex-regente da Osesp receberá resposta a sua solicitação na semana que vem. Provavelmente também na próxima semana Tortelier já terá voltado à França.
A Folha apurou que Neschling vai ainda recorrer à Justiça contra a Fundação Osesp para obter as verbas rescisórias não pagas até agora, a que ele entende ter direito. Para ele, o processo de sua saída foi mal conduzido, já que teria negociado a sua permanência na Sinfônica do Estado até 2010.
O episódio da saída do maestro, que estava à frente da Osesp desde 1997, foi bastante tumultuado. Apesar de o salário mensal de R$ 120 mil de Neschling sempre ter causado polêmica, não foi essa a principal razão de sua saída.
O regente afastado entrou em conflito direto com o governador José Serra, logo no início do governo. Chamou-o de “menino mimado” e “autoritário” e deu entrevistas criticando o governador e o secretário estadual da Cultura, João Sayad.
A gota d’água foram críticas de Neschling à decisão do conselho da fundação de formar um comitê para a escolha de seu sucessor. Neschling afirmou publicamente que a sucessão estava sendo feita de maneira “intempestiva e irresponsável”.
Pouco depois, o maestro, que estava na Suíça, recebeu um telefonema do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, atual presidente do conselho da Fundação Osesp, dizendo que a situação tinha ficado insustentável.
Em uma carta, foi informado de que o conselho da instituição tinha decidido, em votação “unânime”, pela “ruptura imediata” de seu contrato.
A Fundação Osesp informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que obteve junto ao Ministério do Trabalho toda a documentação necessária para que Tortelier trabalhasse regularmente no Brasil. Sobre o pedido apresentado à Justiça do Trabalho com relação a verbas rescisórias, a fundação informou não ter sido notificada.
A Folha apurou que o salário de Tortelier é mais do que o dobro do de Neschling.

28/02/2009 - 18:14h Bem-vindo Tortelier

A OSESP tem novo maestro. Espero que consiga preservar a excelência da orquestra. Bagagem para isto Yan Tortelier tem de sobra.

Quando da demissão de Neschling os tucanos lançaram uma campanha sobre o salário do regente. Na época, Neschling acumulava duas funções que foram desdobradas, a de diretor artístico e a do regente-titular.

A transparência não deveria incluir a publicidade sobre o valor do salário do novo maestro e dos que assumam a direção artística?

Onde estão agora os tucanos que questionavam o valor “absurdo” do salário de Neschling?

Porque não enviam cartas aos jornais exigindo saber o salário que será pago para ambas as funções?

Evidentemente Yan Tortelier nada tem a ver com a demissão de Neschling, nem com a implicação do governador Serra com o maestro da OSESP. É seguramente o salário dele, como o dos que assumirão a direção artística da orquestra, seguira os padrões internacionais sobre o assunto.

Mas o que fica é a hipocrisia dos que justificaram a mudança invocando o dinheiro público e que agora nada dizem.

A “ética” dos sicofantas ficou muda. LF

28/02/2009 - 17:39h O novo primeiro-regente

O maestro francês Yan Pascal Tortelier assume na segunda o comando da principal orquestra do País e fala pela primeira vez dos planos para a Osesp

 

João Luiz Sampaio – O Estado SP

 


O maestro francês Yan Pascal Tortelier chega este fim de semana a São Paulo para começar seu trabalho de dois anos como regente-titular da Sinfônica do Estado de São Paulo, substituindo John Neschling, demitido no início de janeiro. Definindo uma orquestra como “o mais perfeito instrumento criado pelo homem”, Tortelier, que já esteve à frente da Filarmônica da BBC, em Manchester, se diz animado com a possibilidade do trabalho em São Paulo. E, na entrevista concedida por telefone ao Estado, pede paciência ao público para que ele tenha tempo de conhecer melhor o grupo. Seu primeiro concerto será na quinta-feira, na abertura oficial da temporada, na Sala São Paulo.

Qual a avaliação de seu primeiro contato com a orquestra, em 2008?

Foi uma surpresa maravilhosa viajar a São Paulo e descobrir uma sala maravilhosa. Sinto não tê-la conhecido antes. A questão da acústica é complicada, mas a solução de uma sala criada a partir de um prédio antigo é muito rica e bem-sucedida. Mas o que é uma sala sem uma orquestra? E a Osesp também me surpreendeu, possui alto nível de treinamento e nos demos muito bem. Tive a sensação de que dá para fazer muito em termos de repertório com esses músicos.

Estava prevista a apresentação do oratório Paulus, de Mendelssohn, para a abertura da temporada. Por que trocar a peça pelas mais apresentadas Variações Enigma, de Elgar, e a Sinfonia nº 2, de Rachmaninoff?

Essas são peças com as quais tenho uma relação muito forte. E tudo aconteceu de uma hora para outra, precisei tomar decisões rápidas e procurei um repertório que fosse adequado para todos, com exceção do coro, que ficou de fora mas com quem pretendo trabalhar bastante ainda. Mas entendam que foi tudo muito rápido e tive sorte de poder aceitar o convite, de ter as nove semanas livres em minha agenda, o que aconteceu porque atualmente não tenho nenhum posto fixo à frente de uma orquestra.

A Osesp trabalhou nos últimos 12 anos sob o comando de um mesmo maestro e, desde sua reestruturação, esta é a primeira vez que o grupo passa por uma troca de regentes. Isso torna a transição complicada?

Cada concerto, cada programa, é uma aventura, em qualquer lugar, não apenas em São Paulo. É assim que penso minha vida e minha carreira. Toda vez que chego para trabalhar com uma orquestra vejo a oportunidade como um desafio, uma aventura. Não tenho 100% de certeza de que minha parceria com a Osesp vai funcionar, que seremos bem-sucedidos. Não sei como eles tocam esse repertório que escolhi para o concerto de abertura, por exemplo. Mas sei como os músicos reagiram a mim no ano passado. E estou contando com essa química. No mais, é sempre uma aventura. E é isso que torna minha profissão fascinante.

Como regente-titular, o senhor deve participar da montagem das próximas temporadas da Osesp. Qual imagina ser o repertório ideal para uma orquestra como ela?

Acho necessário relembrar que estou indo para São Paulo em um contexto muito específico, delicado. Vou porque estou disponível, nesta e na próxima temporada. Não sou apenas um regente convidado principal, mas prefiro pensar em mim como um regente principal convidado. Vai caber à direção da orquestra discutir repertórios e programações. Deixem que eu chegue e, após um mês de trabalho, conheça melhor o grupo, com quem trabalhei apenas duas semanas até agora. Estou disposto a conversar e ajudar na montagem do repertório da Osesp. Mas não sou de fazer planos, prefiro que as coisas fluam naturalmente. Vamos ver como nossa relação se dá e construiremos a partir daí.

Existe algum repertório com o qual o senhor se identifica em especial?

A música alemã seria, acredito, o pão com manteiga da minha juventude como músico. O repertório francês flui naturalmente no meu sangue; os russos, bom, são essenciais, assim como a música latina, sempre com espaço para os compositores anglo-saxões. Acho que posso dizer que, se não com tudo, eu me sinto feliz com a maior parte do repertório sinfônico ocidental.

O senhor falou em música latina. Conhece a música brasileira?

Essa é uma pergunta delicada para mim. O grande atributo da música latina, a brasileira incluída, é o ritmo, há um fogo que tem a ver com o ritmo. Fala-se sempre isso dos russos, de Stravinsky, mas não acho que a questão rítmica seja tão essencial para os russos quanto para os latinos. Não regi muita música brasileira, mas espero em São Paulo poder me aventurar por esse repertório, gostaria muito disso. Mas tenham paciência, não seria justo exigir isso de mim logo de cara. De qualquer forma, não acredito que vocês precisem de mim como advogado de sua música. Meu papel em São Paulo é mais amplo.

Para que serve uma orquestra sinfônica em um mundo como o de hoje?

Talvez eu pareça ultrapassado, mas acho que o mundo de hoje fica cada vez mais superficial. A tecnologia traz avanços indiscutíveis, mas transforma o ambiente em que vivemos e, aos poucos, passamos a nos comportar como máquinas. Há aí a necessidade da espiritualidade, não do fanatismo, claro, mas do misticismo. Não sou uma pessoa religiosa, devo dizer. Mas vejo a música como minha religião, em vez do judaísmo, budismo, cristianismo, islamismo, etc. Nunca houve uma guerra provocada pela música. Ela pode fazer por nós tanto quanto qualquer religião. E uma orquestra é o veículo perfeito dessa idéia, deve difundir a música, levando-a ao maior número possível de pessoas.

E agora?

 


A demissão do maestro John Neschling despertou uma série de questões sobre o futuro da Osesp. Se Tortelier assume o posto de regente-titular, quem fica como diretor artístico, encarregado portanto de montar as próximas temporadas? Segundo a Fundação Osesp, a direção artística será feita provisoriamente pelos consultores internacionais contratados para auxiliar a orquestra nesse momento de transição: Timothy Walker, diretor-executivo e artístico da Filarmônica de Londres, e Henry Fogel, ex-presidente da Liga Americana de Orquestras e ex-diretor-executivo da Orquestra Nacional de Washington e da Sinfônica de Chicago. Quanto ao nome do novo diretor, a fundação promete o anúncio para 2010, “a tempo de preparar a temporada de 2011″. Sobre as gravações. Tortelier vai comandar o grupo em uma delas. A Fundação, no entanto, ainda não informou o cronograma completo de gravações e os artistas que estarão envolvidos. Também falta um pronunciamento oficial por parte da orquestra sobre as turnês pelos Estados Unidos e pela Europa, previstas para este e o próximo ano: estão confirmadas? Quem regerá o grupo nas viagens?

28/02/2009 - 17:02h Maestro francês, que assume Osesp até 2011, diz que orquestra precisa de mais visibilidade internacional

ENTREVISTA

YAN PASCAL TORTELIER

“Por que não pensar alto e planejar uma turnê mundial?”

Maestro francês, que assume Osesp até 2011, diz que orquestra precisa de mais visibilidade internacional

Tortelier rege a Osesp, no ano passado; ele afirma que, ao assumir a orquestra, não quer se envolver com “encargos burocráticos”

JOÃO BATISTA NATALI

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O maestro francês Yan Pascal Tortelier, que assume a Osesp (Sinfônica do Estado) como regente principal, disse à Folha que um de seus objetivos nos próximos dois anos será o de dar à orquestra mais visibilidade internacional. “Por que não pensar alto e planejar uma turnê mundial?”, sugere. O substituto de John Neschling, que foi demitido em janeiro, não revela seu salário: “Em geral, ganho menos do que deveria”, avalia. A seguir, trechos da entrevista, feita na última quarta, por telefone, de Manchester (Reino Unido).

***

FOLHA – O sr. já conheceu a Osesp por tê-la regido seis vezes, em dois programas diferentes, em 2008. O que falta para que se torne uma das grandes sinfônicas mundiais?
YAN PASCAL TORTELIER
– No ano passado, trabalhei com a orquestra um repertório francês, do qual me sinto bastante próximo. Mas preciso ainda trabalhar outros repertórios, como Elgar e Rachmaninov, que estarão no primeiro programa desta temporada. E preciso trabalhar peças do repertório brasileiro, o que não me constrange. A Osesp já possui reputação internacional razoável. Creio que ela precisa de mais visibilidade internacional. Essa visibilidade será facilitada pelo fato de a orquestra merecer comentários positivos. Mesmo na revista “Gramophone”, que a situou entre aquelas cujo trabalho merece ser acompanhado.

FOLHA – A Osesp gravou 32 CDs e fez mais de uma turnê pela Europa e pelos EUA. Isso já não é visibilidade?
TORTELIER
– Por enquanto, é difícil para mim especificar um plano de trabalho, já que preciso ainda conversar com a direção da orquestra em SP, a partir da próxima semana. Mas acredito que o simples fato de eu assumir meu posto na Osesp dará a ela um ângulo diferente de exposição. Desde janeiro, recebi cumprimentos inúmeros no meio musical americano e europeu por ter aceito dirigir a orquestra. Eu e ela poderemos, de certo modo, nos dar mutuamente visibilidade. Por que não pensar alto e planejar uma turnê mundial? Quanto às gravações, também tenho meus contatos para permitir aos músicos continuarem a ser mais conhecidos internacionalmente.

FOLHA – O sr. mencionou o repertório brasileiro, que compreensivelmente não lhe é familiar. Como o sr. fará para programá-lo e regê-lo?
TORTELIER
– Eu não estou entrando a bordo da orquestra de modo improvisado. Mas é algo novo, que há poucas semanas ainda me era impensável. As coisas são ainda muito novas para mim. Preciso conversar com a direção da Osesp, discutir os desafios, inclusive quanto ao repertório brasileiro. O que posso dizer humildemente é que estou estudando esse repertório e espero que me seja dado o tempo para tomar decisões com relação a ele.

FOLHA – Além das oito semanas que o sr. ficará em São Paulo nessa próxima temporada, há de sua parte o plano de permanecer por aqui mais tempo para cuidar dos problemas de uma centena de músicos?
TORTELIER
– A Osesp é uma grande orquestra. Quando a regi no ano passado, tinha à disposição 14 primeiros-violinos. Nem todas as grandes orquestras europeias conseguem reunir um naipe tão numeroso. Sobre as minhas atribuições, não serei um simples “regente convidado”. Serei bem mais do que isso. Serei o regente principal, pela experiência que tenho. Mas não me envolverei nos problemas cotidianos. Meu desejo é reger, sem os encargos administrativos e burocráticos.

FOLHA – A Osesp se diferenciou das demais orquestras brasileiras pela ousadia do repertório. O sr. pretende manter essa especificidade?
TORTELIER
– Não fui ainda integralmente informado sobre os padrões das programações das temporadas precedentes. Mas, pessoalmente, apesar de minha formação centrada na música francesa ou na excelência do romantismo alemão, não teria dificuldades em manter essa “ousadia”, com a programação de compositores do século 20, como Witold Lutoslawski, Paul Hindemith ou Zoltán Kodály, que eu gravei exaustivamente com a Filarmônica da BBC. São nomes importantes. Precisamos fazer peças menos conhecidas de Stravinsky e Chostakovich. Não que eu seja um fanático do repertório esotérico. Bem pelo contrário, preciso consumir meu pão com manteiga.

FOLHA – O sr. manterá a atual programação de gravações?
TORTELIER
– Peço que a pergunta seja refeita dentro de duas ou três semanas, quando já tiver discutido o assunto em SP. Claro que gravaremos, em razão da visibilidade que mencionei.

FOLHA – Quando é que o sr. foi convidado para assumir a Osesp?
TORTELIER
– No ano passado, a orquestra me convidou para reger dois programas em 2010. Mas, para minha surpresa, nos primeiros dias de janeiro, meu empresário procurou-me e relatou a intenção da Osesp de me ter como regente principal.

FOLHA – Seu predecessor, o maestro John Neschling, foi criticado por receber um salário mensal de R$ 100 mil. O sr. acredita que essa quantia é exagerada?
TORTELIER
– [gargalhada] É uma pergunta bastante engraçada. É claro que não tenho comentários sobre o salário do maestro, do mesmo modo como não permitiria comentários sobre o meu. O que posso afirmar com tranquilidade é que não sou um músico movido a dinheiro. Em geral, ganho menos do que deveria ganhar por minha experiência em meus já completados 61 anos. E sempre ganhei bem menos que os maestros de orquestras americanas.

FOLHA – Afora música clássica, de que tipo de música gosta?
TORTELIER
– Eu não tenho muito tempo para ouvir música e gosto de ir ao cinema e ao teatro. Mas, quando saio do repertório clássico, eu gosto de jazz. Nem o tão moderno, nem o tão antigo. Algo próximo do swing.

 saiba mais

Mandato de maestro será de dois anos

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Yan Pascal Tortelier assume a direção da Osesp no desfecho da maior crise interna desde sua criação, em 1954. Ele substitui o maestro John Neschling, que passou a dirigir a orquestra em 1997 e deu a ela um padrão de excelência inédito entre as sinfônicas brasileiras.
Neschling estava desde 2007 em rota de colisão com o Conselho da Fundação Osesp, com a Secretaria da Cultura do Estado e com o governador José Serra. Um dos integrantes do conselho comunicou a ele que seu contrato não seria renovado a partir de outubro de 2010.
Em dezembro do ano passado, em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”, o maestro qualificou de “irresponsável” a forma como era conduzida sua sucessão. Ao mesmo tempo, o conselho passou a suspeitar que Neschling estimulava o movimento por sua permanência, que cresceu entre frequentadores da Sala São Paulo.
Segundo Fernando Henrique Cardoso, presidente do conselho, a sucessão estava atrapalhada porque o diretor artístico dizia publicamente que ela não daria certo.
Tortelier foi contatado pelo conselho nos primeiros dias de janeiro. No dia 12, FHC encontrou-se em Londres com o maestro que se tornaria regente principal por dois anos, numa espécie de mandato-tampão, até a escolha de um novo diretor artístico, a partir da temporada de 2011. Em 21 de janeiro, um dos integrantes do conselho, o embaixador Rubens Barbosa, foi encarregado de comunicar a Neschling que ele estava demitido. Horas depois, um e-mail de FHC confirmava a demissão.
Antes de Neschling, a Osesp tinha a reputação de uma sinfônica de segunda linha, mesmo sob o comando, por 23 anos, de Eleazar de Carvalho, um dos grandes da regência brasileira, que foi no entanto desprestigiado pelos sucessivos governos estaduais que se recusavam a pagar aos músicos salários compatíveis.
Em 1997, Neschling demitiu todos os músicos, obrigou os que quisessem ser recontratados a se submeter a um novo concurso, no qual os aprovados passaram a receber salário cinco vezes maior. (JBN)

01/02/2009 - 11:24h Demissão de John Neschling da Osesp gera “sinfonia” de silêncio e especulações

PRIMEIRO ATO

O destino da Sala São Paulo e da orquestra em três atos: presente confuso, passado glorioso e futuro incerto

ADRIANA KÜCHLER E GUSTAVO FIORATTIDA REVISTA DA FOLHA

No princípio, era a música. E a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo gravaria, a partir do dia 12, mais um CD para o selo sueco Bis, com a participação do trompetista norueguês Ole Edvard Antonsen. Mas esse importante compromisso da pré-temporada, agendado há um ano, foi cancelado.
O motivo todos conhecem: a demissão do polêmico maestro e diretor artístico John Neschling, 61, anunciada em 21 de janeiro, da orquestra que comandava há 12 anos.
Após a carta de demissão ao regente, assinada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que encabeça a fundação, foi combinado um pacto de silêncio, que só seria quebrado na última sexta-feira para o anúncio oficial do francês Yan Pascal Tortelier, 61, como maestro substituto para as temporadas de 2009 e 2010.
Filho do renomado violoncelista Paul Tortelier, Yan comandou a Filarmônica da BBC e é considerado um regente de primeira, como Neschling.
“Tudo isso foi feito com um único propósito: preservar a qualidade da orquestra”, disse à Folha Fernando Henrique Cardoso. “O processo foi realizado com serenidade e pesar.”
No comando da Osesp, o maestro carioca criou um projeto e uma nova forma de administrar. Profissionalizou e fez a orquestra reconhecida no cenário internacional. Exigiu a construção da Sala São Paulo, inaugurou a era das turnês internacionais e garantiu maiores salários para os músicos e um orçamento que chegou a R$ 59,9 mi em 2008 -R$ 43 mi bancados pelo governo.

“Neschlíngua”
Enquanto aumentava a visibilidade internacional, Neschling cultivava a fama de autoritário e centralizador. Ganhou inimigos entre os músicos e o governo do Estado e o apelido maldoso de “neschlíngua”. Chegou a chamar o governador José Serra de menino mimado em um ensaio cujo áudio foi gravado e difundido pelo site YouTube, em 2007.
Após uma série de troca de farpas, o maestro anunciou, em junho do ano passado, que não renovaria o seu contrato, que expiraria em outubro de 2010.
Do tripé de apoio a um maestro, Neschling ainda tem um pilar para sustentá-lo: os fãs. Em um dos últimos concertos do ano passado, os assinantes da Sala São Paulo organizaram um coro de apoio. “Fica! Fica!”, cantaram por dez minutos, num momento emocionante.
Na comunidade musical, no entanto, as reações são diferentes. “Se há assinantes reclamando, também tem muita gente comemorando”, afirma Arthur Nestrovski, violonista e articulista da Folha. Procurado pela reportagem, o maestro não quis se manifestar.
A questão agora é saber se a separação será de comum acordo ou litigiosa. A Fundação Osesp alegará rompimento de contrato? Terá de pagar indenização pela demissão?
Uma sinfonia que ainda promete muitos atos e outros tantos acordes dissonantes. Mas nem sempre foi assim…

SEGUNDO ATO

Passado foi de autoritarismo, inovação e busca por excelência JOÃO BATISTA NATALI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Antes da reformulação da Osesp por John Neschling, em 1997, os paulistanos só ouviam boa música sinfônica quando orquestras estrangeiras se apresentavam pela Sociedade de Cultura Artística ou pelo Mozarteum Brasileiro. O salto qualitativo com a Osesp foi imenso, e a história é longa.
Eleazar de Carvalho morreu em 1996. Foi um dos grandes da regência brasileira, mas a Osesp em suas mãos, por 24 anos, foi uma orquestra desimportante e desprestigiada pelos sucessivos governos. Com Eleazar morto, o então secretário estadual da Cultura, Marcos Mendonça, contatou John Neschling, que vivia no Rio, e propôs conversar.
Neschling impôs duas condições. A primeira: carta-branca para a seleção dos instrumentistas. A segunda: sala de acústica impecável. O então governador Mário Covas concordou.
O maestro exercia seu perfeccionismo de modo intempestivo e autoritário. Em setembro de 2001, enfrenta sua primeira crise interna.
Mas seus destemperos, por mais que afetassem o clima entre os músicos, eram exercidos nos ensaios. O público testemunhava o produto final.
Os “anos Neschling” na Osesp trazem uma última inovação na história brasileira da música sinfônica. O ex-diretor artístico e sua orquestra ampliaram o repertório à disposição do público.
A verdade é que nenhuma instituição possui em seu comando alguém insubstituível. Neschling pode dar lugar a outro nome que mantenha a Osesp em seu atual padrão elevado. Mas o caminho é escorregadio, e os riscos, imensos.

TERCEIRO ATO

Maestro assume cargo diante de plateia cheia de incertezas

DA REVISTA DA FOLHA

Em 5 de março, quando o maestro levantar a batuta, uma nova fase da Osesp vai debutar. Entre músicos, críticos e amantes da música erudita, não faltam perguntas. “Mantive minha assinatura, mas com muitas dúvidas. A principal delas é se o grupo vai manter a excelência”, diz a professora Maria José Ferraz do Amaral.
Entre especialistas, nenhuma aposta de declínio. “Yan Pascal Tortelier é um músico de reputação. Tenho certeza de que a orquestra vai crescer”, diz o oboísta Alex Klein.
O currículo do regente francês não deixa dúvidas de que ele está apto. Tortelier foi maestro titular da Filarmônica da BBC entre 1992 e 2003. Já regeu orquestras imponentes, como a Sinfônica de Londres e a Orquestra de Paris.
O futuro da Osesp estará nas mãos e na competência de uma nova governança que ainda é uma incógnita. Principalmente, porque as funções exercidas por Neschling que acumulava também a de diretor artístico, que responde pela programação, serão exercidas por profissionais distintos.
Confirmado o nome de Tortelier como regente da Osesp, a direção artística do grupo, por hora, deve ficar nas mãos de dois conselheiros contratados.
Resta outra questão crucial: o quanto a Osesp estará disposta a pagar pela excelência de seu comando. O salário de Neschling era de R$ 100 mil. Tortelier costuma receber US$ 25 mil (R$ 57 mil) por programa. E a Fundação Osesp vai ter de bancar os consultores.
Enquanto os músicos afinam os instrumentos para a nova temporada, a Osesp tem muitas contas a fazer e a prestar. (ADRIANA KÜCHLER e GUSTAVO FIORATTI)

31/01/2009 - 17:37h FHC: ”O risco para a Osesp seria maior sem a substituição”

Em entrevista, o presidente do conselho da fundação, Fernando Henrique Cardoso, defende demissão de Neschling

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João Luiz Sampaio – O Estado SP

 


O ex-presidente da República e presidente do conselho da Fundação Osesp Fernando Henrique Cardoso confirmou ontem o nome do maestro Yan Pascal Tortelier como novo regente titular da orquestra, substituindo John Neschling, demitido na semana passada. Seu contrato é de dois anos – em 2011, assume um novo diretor artístico, que será escolhido por uma comissão ainda a ser nomeada. Em sua primeira entrevista depois da demissão, creditada a declarações de Neschling publicadas em entrevista ao Estado, na qual questionava o processo de escolha de seu substituto e falava em articulações políticas para tirá-lo do cargo, FHC, acompanhado de outros membros do conselho (o banqueiro Pedro Moreira Salles e o editor Luiz Schwarcz) e do diretor-executivo da orquestra, Marcelo Lopes, foi categórico: “O risco para a orquestra seria maior sem a substituição do maestro.”

Como se chegou ao nome do maestro Yan Pascal Tortelier para assumir o posto de regente titular nas próximas duas temporadas?

Fernando Henrique Cardoso – Ele foi bem apreciado pelos críticos e pelos músicos quando esteve aqui trabalhando com a orquestra. Estamos em contato com consultores internacionais, que também têm uma boa impressão dele. E ele está entusiasmado, gostou muito daqui.

A fundação já chegou aos critérios que vão nortear a escolha do novo diretor artístico a partir de 2011?

FHC – Vamos criar uma comissão de seleção. Em março chega o Tortelier e os consultores estarão aqui também. Ainda não definimos o tamanho da comissão, mas certamente eles estarão representados, assim como o conselho e os músicos. Essa comissão terá um prazo para chegar a um nome. Vai convidar maestros a reger a orquestra e serem avaliados. Será um escolha feita com todo critério, o objetivo central é manter a qualidade do grupo e ampliá-la. Brasileiro ou não, será escolhido alguém capaz de fazer isso. E não será levada em conta apenas a questão artística, mas também a capacidade de organizar temporadas e de se relacionar dentro da orquestra.

Membros do conselho já falaram na possibilidade de não ter apenas uma pessoa como diretor artístico e regente titular, ao contrário do que ocorre hoje. Neschling tinha poder demais dentro da orquestra?

FHC – Havia uma concentração de poder e a tendência contemporânea é outra. Vamos discutir isso ainda, essa questão da governança, até mesmo revendo o papel do conselho. Isso não é de hoje, essa necessidade de reavaliação. Estamos abertos a muitas possibilidades, fomos buscar informações sobre os muito caminhos possíveis e vamos discuti-los. Agora, esse modelo unipessoal é cada vez mais raro no mundo todo.

Pedro Moreira Salles – Não foi por acaso que chamamos um consultor americano e outro europeu, com vasta experiência à frente de orquestras. Os dois lidaram com modelos diferentes e vão, com isso, nos ajudar na busca do melhor formato de governança, tendo em vista a institucionalização da orquestra. É esse o momento para isso, a segurança institucional da orquestra não pode depender unicamente de uma pessoa.

Em entrevista em dezembro, no entanto, Neschling diz temer pelo futuro da Osesp e afirma que o grupo se encontra em um momento de seu processo artístico em que substituições seriam nocivas.

FHC – Nós precipitamos a saída do maestro porque uma orquestra para funcionar precisa de harmonia. Ele quebrou essa harmonia e não só com o conselho, mas em todas as instâncias. Uma orquestra que, como ele diz, está em um momento delicado de sua trajetória, não pode ser sujeita a isso. O risco para a orquestra seria maior sem a substituição.

Salles – São 12 anos de trabalho, não três ou quatro, e de um trabalho bem-feito. Mas, agora, para se fortalecer, a Osesp precisa de outros maestros. Dizer que ela não sobrevive sem ele é dizer que o trabalho não foi bem-feito e que não existe uma orquestra mas, sim, um maestro. Se fosse do jeito que imaginávamos, a transição se daria depois de 14 anos de trabalho. Mas, do modo como aconteceu, era hora de tomar uma decisão ou a orquestra não conseguiria, até lá, garantir sua institucionalização.

Neschling afirma também que sua demissão foi motivada por pressões políticas do governo do Estado. Houve essa pressão?

FHC – Comunicamos oficialmente a decisão ao secretário de Cultura. Todos sabem de minha relação com o governador e, portanto, também liguei a ele para contar da decisão. É óbvio que prestamos contas ao governo e mantemos aberto o diálogo mas, como membros da fundação, é nossa função manter nossa independência. Se o governador fez pressão no início, nunca mais fez. Se houve qualquer movimento, fizemos uma barreira. A relação com o governo precisa ser harmoniosa e isso significa ouvir e ser ouvido, de acordo com as obrigações de cada um.

O contrato de gestão entre fundação e governo termina em 2011. Já está sendo discutido um novo contrato? Em que ele será diferente?

FHC – Sim, já há discussões, adiantadas, e queremos resolver isso logo para preservar a continuidade do projeto Osesp.

Marcelo Lopes – Não há grandes mudanças, o principal diz respeito ao aumento do número de concertos populares e de apresentações no interior.

Por que não se esperou a volta de Neschling ao Brasil para demiti-lo?

FHC – Porque a temporada começa em março e precisávamos logo de um regente. O desgaste foi recente e nos sobrou pouco tempo. Não queríamos contratar ninguém pelas costas, daí a decisão de comunicá-lo. E, bem, a entrevista dada por ele também foi nas férias… Mas ele não foi afastado por e-mail. Avisei por e-mail que o embaixador Rubens Barbosa (membro do conselho da Osesp) iria comunicar a ele por telefone a natureza do assunto importante que precisávamos tratar. Depois disso, mandei por correio a carta de demissão e, a pedido dele, uma cópia por e-mail. E, também, convenhamos que hoje em dia o e-mail é uma forma natural de correspondência.

Salles – Tudo foi feito para preservar a programação, para evitar interrupções na temporada, o que seria violento. Mas precisávamos agir, as relações estavam insustentáveis. E precisávamos da ajuda do regente da orquestra para abrir espaços na temporada de forma que maestros convidados viessem e regessem o grupo, sendo avaliados. É bom deixar claro que foi tudo para preservar a programação, para não interromper a temporada, o que seria violento.

Haverá mudanças na temporada?

FHC – Apenas ajustes por questão de agenda e um número maior de maestros convidados. Já chamamos Isaac Karabtchevsky e Fabio Meccheti e chamaremos outros. O comitê de busca precisa avaliar esses artistas. O Tortelier, de qualquer forma, regerá nove semanas em 2009, sendo oito de concertos e uma de gravações, que, aliás, serão todas mantidas, não há mudanças nos contratos com a BIS e Biscoito Fino.

Quando olhamos a temporada de 2009 há um número muito alto de concertos regidos por Neschling, são 14 ao todo. Os senhores estão sugerindo que ele bloqueou a temporada para atrapalhar a sucessão?

FHC – Isso ficou claro para nós. A tese dele é de que antes de 2013 seria impossível encontra um substituto.

Salles – E ele nos disse que só colaboraria se ficasse até 2013.

FHC – Para ele, a Osesp só funciona se ele tiver todo o poder.

25/01/2009 - 14:46h Adeus à música

Da Folha

por ALAIN LOMPECH
Critico musical e editor do jornal francês “Le Monde” desde 2000. Foi editor-chefe do “Le Monde de la Musique” de 1981 a 1988 e colunista da “Diapason Magazine”.

A RESPEITO da dispensa do maestro John Neschling do seu cargo de diretor artístico e regente titular da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), a única coisa que eu posso dizer, como crítico de música e observador há 30 anos da vida musical internacional, é que se trata de uma perda incomensurável para a cultura brasileira e para o conhecimento que se pode ter, noutros países, das riquezas musicais do Brasil.

O trabalho de John Neschling à frente da Osesp, certamente como maestro, mas também enquanto diretor musical, deu início a uma recuperação à altura de um patrimônio musical inestimável, mas que estava perdido no esquecimento. Para começar, ele soube criar uma orquestra cuja qualidade é reconhecida internacionalmente. Quando a Osesp fez uma turnê pela Europa no ano passado, ela recolheu triunfos e elogios amplamente merecidos, tal a forma com que os seus músicos exibiram um nível técnico e musical indubitavelmente de primeiro nível. Nenhuma orquestra brasileira, até hoje, atingiu esse nível de qualidade.

O que se admira fora do Brasil é o modo como Neschling renunciou a sua carreira internacional para construir a sua orquestra, para ser um verdadeiro diretor artístico à moda antiga, cuidando de tudo, como o fizeram no passado um George Szell (um quarto de século à frente da Cleveland Orchestra, EUA) ou, mais recentemente, um Simon Rattle (duas décadas na City of Birmingham Symphony Orchestra, Inglaterra).

O regente britânico, atualmente na Filarmônica de Berlim (Alemanha), permaneceu na pequena cidade de Birmingham para trabalhar e também recusou convites de outras orquestras para poder realizar um trabalho de fundo com a sua. O mundo musical tinha os olhos voltados para São Paulo, para a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo e para John Neschling, que encarnam essa grande tradição. O resultado? O canal cultural franco-alemão Arte transmitiu para toda a Europa e para o mundo o concerto realizado no Ano Novo pela Osesp, bem como o realizado pela Filarmônica de Viena (Áustria)! Será que o Brasil se dá conta verdadeiramente do que isso quer dizer? Eu tenho a impressão de que não.
Regendo Camargo Guarnieri, Francisco Mignone e, é claro, Heitor Villa-Lobos, bem como Alberto Nepomuceno, Luciano Gallet, Henrique Oswald, Claudio Santoro e tantos outros, fazendo editar as suas partituras, criando uma biblioteca e um arquivo musical, gravando discos distribuídos internacionalmente que tiveram sucesso e críticas inesperados, John Neschling esteve à altura da grande renovação política, econômica e cultural do Brasil, país que encontra enfim um lugar merecido no concerto das nações.

Não existe atualmente no Brasil nenhum maestro que seja portador de um projeto artístico de tal envergadura, que pode ser considerado único no mundo pela qualidade de sua programação.

Aliás, tampouco existem muitos outros pelo mundo afora… E o que eu digo é fácil de verificar. A internet permite, hoje em dia, um acesso à programação de todas as grandes orquestras. A de São Paulo causa admiração no mundo inteiro.

Não existe nenhuma orquestra francesa, inglesa ou alemã, por exemplo, cuja programação seja tão inventiva e tão respeitosa do patrimônio musical nacional como a da Osesp. Eu certamente ignoro as razões que fizeram Neschling ser dispensado, mas sou francês e também conheço a inconsequência dos eleitos e dos políticos quando tomam decisões na área da cultura. Raramente eles compreendem as implicações culturais profundas. Com uma assinatura, podem destruir anos de trabalho, assim como podem criar as condições para que esse trabalho possa começar e se desenvolver. Dessa vez o destruíram.

Daqui a 20 anos, daqui a 50 anos, o nome de John Neschling será conhecido como o de um músico que realizou um trabalho excepcional no Brasil, o mais excepcional desde Villa-Lobos. Há 90% de chance de que o nome de quem o demitiu esteja esquecido.

24/01/2009 - 13:05h Demissão de Neschling motiva cartas de protesto nos jornais

Fórum de leitores do jornal O Estado de São Paulo

A DEMISSÃO DO MAESTRO

Confesso que estou seriamente preocupado com a forma e as razões da demissão do maestro Neschling: por e-mail e sua entrevista ao Estado publicada em 9/12. Sou consumidor habitual de música clássica desde 1954, o que não sei é quantos membros do Conselho de Administração da Fundação Osesp o são – certamente seu presidente não é, fato que absolutamente não o impede de exercer essa função administrativa. Entretanto, é importante recordar que a atual Osesp é a primeira orquestra do Brasil a atingir níveis internacionais de qualidade, capaz de tocar todo o repertório da música clássica. Nenhuma outra chegou a esse patamar, nem mesmo a Orquestra Sinfônica Brasileira nos tempos do saudoso maestro Eleazar de Carvalho. Sem dúvida, John Neschling foi essencial na criação desta dádiva ao povo brasileiro e tem de ser reconhecido e respeitado por isso. Sua pretensão de participar da escolha do novo maestro titular é legítima e deveria ter sido acolhida pelo conselho, mesmo com todas as dificuldades de convivência. O êxito da Osesp não depende de convivências agradáveis nem de arranjos políticos, mas de competência musical e de liderança. Os modelos não são regentes que não incomodam, porém os Karajans e Bernsteins, com que o conselho teria bem maiores dores de cabeça do que com Neschling! O público amante da música esperou mais de um século para ouvir uma excelente orquestra e ficará muito decepcionado se em poucos meses ou anos for destruída.

György Miklós Böhm, professor emérito da USP, gyorgybohm@terra.com.br

São Paulo

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Vá lá, o maestro não poderia ser mesmo eterno e foi ele que começou o tiroteio. Mas essa mistura de política e arte não costuma dar certo. Temo pela Osesp, de que sou assinante desde que isso se tornou possível. Manifesto o meu respeito pelo maestro John Neschling. Sem ele a orquestra não teria chegado aonde chegou.

Paulo Reali Nunes, reali@mp.sp.gov.br

São Paulo

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O sr. Fernando Henrique Cardoso e equipe ofendem profundamente os maestros brasileiros contratando um estrangeiro para dirigir a Osesp. Temos maestros no Brasil tão bons ou melhores, com diplomas do exterior e de grande competência. Sugiro-lhes buscarem também nos EUA, na Europa ou na China alguém mais preparado do que eles para governar São Paulo e o Brasil. Se nossos políticos administrassem o País como John Neschling administrou a Osesp, o Brasil estaria bem melhor.

Leniza Castello Branco, leniza@castellobranco.com

São Paulo

PAINEL DO LEITOR – FOLHA DE SÃO PAULO

Osesp
“Lamento profundamente a saída repentina do maestro John Neschling da Direção Artística da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Poucas vezes, na música brasileira, um homem juntou tanta competência e arte a uma profunda capacidade de realização. Mesmo sabendo que ninguém fica eternamente num cargo como aquele, a saída de Neschling representa uma grande perda para a Osesp.”
RICARDO TACUCHIAN , maestro (São Paulo, SP)

23/01/2009 - 18:32h Delito de opinião

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O maestro John Neschling tinha contrato até 2010. O seu salário foi estabelecido de comum acordo com os que o demitiram agora. Ou seja, a demissão não está motivada pelo salário, como justificam alguns. Até porque a ruptura de contrato (Serra é aficionado em romper contratos) vai provocar seguramente indenizações com custo superior, sem falar no salário de outro maestro de renome.

A carta de FHC é clara quando justifica a abrupta demissão por causa de declarações de Neschling, ou seja trata-se bem de delito de opinião. Se nas suas entrevistas Neschling tivesse falado bem do processo de escolha do seu substituto, não teria sido demitido. Se tivesse falado bem do governador Serra, continuaria no cargo. Ele deu sua opinião e provocou a revanche dos atingidos pela crítica. Delito de opinião mesmo.

Alguns comentários criticam o temperamento do maestro e outros não gostam do seu jeito de dirigir. Temperamentos caracteriais não são raros no meio artístico, particularmente entre regentes. Karajan tinha reputação de ditatorial e Toscanini também. Bernstein era um doce. Não estou comparando Neschling com esses gênios, estou simplesmente constatando um fato.

A OSESP ganhou renome internacional sob a direção de John Neschling. O maestro e a orquestra serviam ao ufanismo tucano, como se fossem eles os que regiam, mas viraram intolerantes quando foram questionados abertamente pelo regente.

Não estou defendendo o temperamento de Neschling, não estou reivindicando sua direção musical, nem justificando remunerações. A demissão do maestro é por ter aberto a boca e criticado publicamente a condução de FHC, os caprichos de Serra e as escolhas de João Sayad. Direito dele que deveria ser defendido mesmo pelos que discordam de sua maneira de reger, seu temperamento e seu salário.

Luis Nassif tinha contrato com a TV Cultura, o contrato expirou e não foi renovado. Nassif tinha virado desafeto de José Serra. Salomão Schwartzman, crítico contumaz de Lula, tinha contrato com a Rádio Cultura e seu programa uma importante audiência. Salomão teve que levar sua voz para outras emissoras. Na TV Gazeta, na TV Cultura e na Rádio, o controle passou a ser cada vez maior e ninguém apita contra o governador do Estado. Se ele dá ordem até nas redações de jornais independentes, imaginem nas que estão sob seu controle via o governo do Estado de São Paulo?

Esqueci, a mídia anda dizendo que José Serra virou um unificador, um pacificador e até um serrinha paz e amor. Neschling que o diga. LF

23/01/2009 - 17:36h John Neschling no olho da rua: a reação na blogosfera

Neschling conta as mágoas

 

O governador Mário Covas era um homem simples. Não bebia (apenas tomava guaraná) e não dava bola pras artes. Mas sabia que ele era um, e o interesse do povo era outro. E foi por isso mesmo que São Paulo experimentou, no seu governo, um salto cultural histórico com inúmeras iniciativas, cujos destaques são o tapão definitivo que seu deu na Pinacoteca e o convite para que John Neschling digirisse a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp).

Antes de Neschling, a Osesp era praticamente uma repartição pública em que se tocavam instrumentos. A coisa era muito ruim. Não pela presença do Maestro Eleazar de Carvalho, mas porque o corpo de músicos era simplesmente um braço fubá da Administração Pública. Quase como uma conclusão, os caras eram ruins pra caramba.

Lembro que, ao chegar, Neschling cometeu uma ofensa inominável ao ufanismo tapuia: dedetizou a coisa e chamou músicos de fato bons – estrangeiros, muitos deles órfãos do Leste Europeu pós-Muro -, numa equação entre não gastar os tubos e obter um trabalho de ótima qualidade. O pissoal chiou: afinal de contas, nós brasileiros somos maravilhosos em tudo. E foi Neschling também que exigiu uma casa decente para a orquestra. E teve: a Sala São Paulo.

O maestro, além de ser fodão e exigente, tem toda a pinta de ser vaidoso até. Na minha humilde opinião, tem pouquíssima gente que pode se dar esse luxo, e Neschling é um deles. Na opinião de outros, mais vale uma orquestra meia-boca, mas só de gentchiboa, dessas que dá pra chamar pra feijoada lá em casa. Ponto de vista.

Isso fez que bocas espumassem eternamente pelos corredores e coxias. E certamente foi um dos donos dessas boquinhas crispadas que gravou esse vídeo, em que Neschling desce o pau em Serra.

O episódio, aliado ao fato de, na Virada Cultural de 2005, Neschling ter se recusado a se apresentar com a Orquestra ao ar livre por falta de condições técnicas, formou a fofoca toda para que o maestro anunciasse, em meados deste ano, que cumpriria seu contrato até 2010, e só.

Hoje no Estadão há matéria extensa em que ele conta seu ponto de vista.

Fiquei muito triste com essa coisa toda. Gosto do governo Serra, e do Neschling também. E acho que certos setores da Administração têm de ficar longe, muito longe da mentalidade funcionalística-publística. O maestro foi o único que conseguiu a façanha de levar a Osesp para o país inteiro e para as melhores salas internacionais. Para para isso foi necessária uma boa dose de antipatia e pulso firme.

John Neschling nem precisaria desse excelente trabalho em São Paulo pra ter lugar em qualquer parte do mundo. Já a Osesp, não sei como fica, não…

A crise da música erudita paulista

Blog de Luis Nassif

Comentário

Pelo menos no campo da música erudita, a gestão Serra está procedendo a um desmonte cultural em São Paulo. E conseguiu colocar contra si maioria esmagadora da comunidade da música erudita.

Dia desses conversava com velho colega da Escola de Comunicações e Artes da USP. Quando a Universidade Livre de Música Tom Jobim conseguiu se reestruturar – me disse ele – ficou bem à frente da Escola Municipal de Música. Em seguida, houve uma reação da Escola, estabelecendo-se uma competição virtuosa. Percebia-se isso pelo nível dos alunos que passavam no vestibular da USP.

Quando a OSESP (Orquestra Sinfônica de São Paulo) explodiu, continuou, os alunos passaram a estudar quatro horas diárias, porque havia perspectiva pela frente, de uma orquestra de padrão internacional.

Segundo ele – que está desde os anos 70 no setor – jamais a música erudita de São Paulo experimentou salto igual. Ele endossa muitas das críticas feitas ao maestro Nescheling, de temperamento difícil, personalismo. Mas o fato concreto, me dizia ele, é que colocou a música erudita de São Paulo no mapa do mundo. E não se pensou nisso quando se decidiu por seu afastamento.

O primeiro baque foi a destituição da OSCIP responsável pela Universidade Livre de Música e a divisão da ULM por outras entidades. Agora, a destituição de Neschling.

Gosto do Sayad, fui membro do Conselho da ULM, mas sem ter uma participação mais ativa, pedi demissão quando senti a guerra da Secretaria com a OSCIP, a seu pedido passei dicas e idéias para membros da sua equipe.

Mas tenho a impressão que meteu os pés pelas mãos. Era até compreensível que não se quisesse um vice-rei à frente da OSESP. Mas o voluntarismo de Serra ajudou a acelerar esse desmonte.

Trecho da carta de demissão, assinada por Fernando Henrique Cardoso:

Por LPorto

O que fizeram com o maestro é anti ético, fora o desrespeito com o grande profissional..

Link da entrevista, estopim para a demissão, segundo o presidente do conselho Fernando Henrique. Clique aqui.

É claro que o maestro não deu esta entrevista a toa.

Ele veio responder a esta, que o Presidente do conselho não comentou na carta de demissão. Clique aqui.

 

Blog de Olavo Soares

Uma notícia interessante que saiu hoje foi a demissão de John Neschling do cargo de maestro da Orquestra Sinfônica de São Paulo (Osesp). A história não é relevante apenas pela sua dimensão cultural, e sim por outros aspectos envolvidos.

Neschling é uma unanimidade. Todas as opiniões que se ouve sobre ele batem na mesma tecla: é uma pessoa extremamente competente no que faz, mas ao mesmo tempo é dono de um caráter não dos mais elogiáveis. A grossura com os músicos que comanda é célebre; o maestro, no comando da Osesp, não fazia a menor cerimônia na hora de repreender alguém que estivesse fazendo um trabalho – ainda que só um pouquinho – em desacordo com as ordens do chefe.

Isso ficou bem claro em reportagem que a Piauí publicou no ano passado. O texto é longo e revela o fato de que Neschling é uma personagem que merece, mesmo, um bom espaço. Justamente por essas questões relatadas, sua competência e sua grosseria.

Mas a demissão de agora não se explica unicamente por um, digamos assim, “desvio de comportamento” do regente. A coisa é mais grave. Neschling nunca se entendeu muito bem com José Serra, governador do estado e seu chefe. Do alto de sua arrogância, o maestro não tolerava as ingerências de Serra no seu trabalho. E a coisa só poderia dar em confusão.

Agora Neschling segue o seu caminho. E, o mais importante, espera-se que a Osesp também siga o seu. É inegável que o maestro, em seus mais de 10 anos de trabalho, transformou a cara da orquestra. Tomara que quem o substituirá consiga manter a excelência – e se for um pouquinho menos grosseiro, melhor ainda.

P.S.: falar de música erudita me faz lembrar do trabalho de assessoria que fiz com a Orquestra de Câmera Paulista. Foi uma experiência bem legal. Recomendo a entrevista que fiz com Vera e Tânia, respectivamente viúva e filha de Camargo Guarnieri. Foi divertido.Postado por Olavo Soares.

Le Monde saúda Villa-Lobos e Neschling. É porque eles não conhecem o Serrágio

Blog de Paulo Henrique Amorim

26/dezembro/2008 12:14

Serrágio não consegue conviver com um gênio tropical

. O jornal francês Le Monde – que quando sai com as páginas em branco é melhor do que o PiG (*) – faz comentários entusiasmados sobre Villa-Lobos – “Le génie tropical” – por conta de dois concertos que a Orquestra Sinfônica de São Paulo dará nos dias 30 e 31, sob a regência de John Neschling, ao vivo, na Arte.

. O Monde recomenda o CD da Bis com Neschling e a Osesp com os Choros 2, 3, 10 e 12.

. O Monde compara Villa a Sibelius e Schumann.

. Diz que o Choros # 10 é “bárbaro” e “primitivo” de forma “extraordinária”, embora se perceba a influência da Sagração da Primavera de Stravinsky.

. Sobre Neschling, o Monde diz que ele rege a Osesp e Villa com “excelência”.

. E que Neschling é um “infatigável defensor da música flamboyante e tropical de seu compatriota” (Villa).

. Caro leitor, a partir de 2010, se você quiser assistir a Neschling na direção da Osesp – que Neschling ressuscitou, enquanto Mário Covas e Geraldo Alckmin eram governadores de São Paulo – terá que ir a Paris, provavelmente.

. José Serrágio tanto fez que Neschling pediu o boné e não vai renovar o contrato com a São Paulo.

. A mediocridade de José Serrágio não podia respirar do mesmo oxigênio (poluído) de Neschling (e Villa).

. Tudo começou quando Serrágio (de pedágio, os mais altos do Brasil) era prefeito de São Paulo.

. (O leitor se lembra: ele assinou, na Folha (*), documento em que dizia que ficaria no cargo de prefeito até o fim.)

. Serrágio mandou Neschling levar a Osesp para uma “Virada” cultural.

. Neschling perguntou ao intermediário se, no local (um parque aberto), haveria mictório para 100 músicos.

. O interlocutor disse que não.

. Neschling disse que, sem mictório, a orquestra não poderia tocar.

. O interlocutor ficou de resolver o problema.

. Não resolveu.

. E a Osesp não foi.

. Serrágio ficou uma fera e jurou destruir Neschling.

. Foi o que começou a fazer, assim que rasgou o documento da Folha (*) e foi ser governador de São Paulo (provisoriamente, já que, em 2010, ele assume a Presidência …)

. Tanto fez – disse que Neschling ganhava demais… – que Neschling foi embora.

. É isso, caro leitor.

. Serrágio é a cara de São Paulo.

. Se você mora em São Paulo, compre o CD da BIS e vá à forra…

FHC rompe contrato de Neschling. E diz que é por justa causa

Blog de Paulo Henrique Amorim 22/janeiro/2009 10:00

Entre Toscanini e Furtwangler, FHC e Pedágio vão escolher o maestro de Hitler

Entre Toscanini e Furtwangler, FHC e Pedágio vão escolher o maestro de Hitler

. A colonista (*) da Folha (**) Mônica Bergamo fez uma reportagem irretocável – do ponto de vista do José Pedágio e de FHHC (o que esperar de um colonista (*) da Folha (**)?

. Leia o press release de José Pedágio, governador de (e tudo para) São Paulo

. Pedágio demitiu Neschling por causa de um mictório.

. O resto é uma sequência de arbitrariedades de um Putin que não pode conviver com o talento (diga aí, caro leitor, que talento habita, por exemplo, o secretariado do Pedágio?) e a critica.

. John Neschling é irascível.

. E, na raça, construiu uma obra que ficará gravada na história cultural do Brasil.

. Ele e Mário Covas.

. Pedágio e Fernando Henrique Cardoso não deixarão impressões digitais na história cultural do Brasil.

. FHC, o Farol de Alexandria, rompeu o contrato de Neschling que ia até 2010.

. E disse que foi por justa causa.

. O típico argumento daqueles empresários do Conselho da Osesp, empresários tucanos que estão em busca de emprego (diante das atribulações terminais de suas empresas).

. O argumento do Farol é que Neschling é um desbocado.

. Quando era presidente da República, seu Ministro das Comunicações, Sérgio Motta, disse que o trabalho da antropóloga Ruth Cardoso não passava de masturbação.

. O que o Farol fez?

. Nada.

. Disse que o Serjão, sabe como é, é o temperamento dele.

. Foi o que eu pessoalmente ouvi, numa entrevista coletiva no Hotel Hay Adams, a um quarteirão da Casa Branca, quando FHC visitou Bill Clinton.

. O Farol faz o que Pedágio manda.

. Antes de tomar posse do primeiro Governo, em Miami, no Hotel Fontainebleau, eu, correspondente da Globo, perguntei a ele se Serra seria ministro de seu Governo.

. Nem pensar, ele disse.

. Se o Serra sentar numa cadeira do Ministério ele vai querer mandar no Governo todo.

. E ali na minha frente conversou por telefone com o futuro Ministro, inimigo de Pedágio até hoje, ele, sim, confirmadíssimo, Pedro Malan.

. Serra foi ministro duas vezes: do Planejamento e da Saúde.

. Quem mandou o farol nomear Serra?

. Serjão.

. Serjão une Serra e FHC até a morte – e até Luxemburgo.

. Putin e o Farol não conseguiriam ter Toscanini como diretor da orquestra.

. Toscanini era insuportável.

. Um gênio furibundo.

. O Farol e o Pedágio preferem Furtwangler.

. Aquele que serviu a Hitler com devoção.

23/01/2009 - 16:15h Família Tortelier

tortelier_yan.jpg Yan Pascal Tortelier

Yan Pascal Tortelier

O maestro francês esteve à frente da Osesp por duas semanas, em maio do ano passado, em programas de música francesa que deixaram os músicos e o público bem impressionados. Ele substituiu de última hora o também francês Michel Plasson, inicialmente contratado para aqueles concertos.

Filho do violoncelista Paul Tortelier (1914-1990), Yan Pascal Tortelier já foi titular da Filarmônica da BBC, de Manchester, e da Sinfônica de Pittsburgh. (Fonte Folha SP).

A seguir concerto da família Tortelier, sem o filho Yan Pascal.

Trio Sonata in G-minor HWV 387  de Handel

Transcription de Louis Feuillard

Paul Tortelier – violoncelo
Maude Tortelier – violoncelo
Maria De la Pau Tortelier – piano

 

23/01/2009 - 14:30h Osesp terá maestro interino até 2011

Fundação deve anunciar nos próximos dias o regente; fontes ouvidas pelo Estado confirmam nome de Yan Pascal Tortelier

 

Sala São Paulo in São Paulo/Brasilien. Wolf/Wagner-Konzert. OSESP mit Spalla (Konzertmeister). Copyright: OSESP São Paulo. April

João Luiz Sampaio – O Estado SP

 


Com a demissão do maestro John Neschling, anunciada na noite de quarta-feira pela Fundação Osesp, a orquestra deverá ser regida interinamente até 2011 (quando assume um novo diretor artístico) pelo maestro francês Yan Pascal Tortelier. A Fundação Osesp não confirma ou nega a informação, obtida pelo Estado com fontes ligadas à orquestra; informa apenas que as negociações estão bem adiantadas e que o nome do novo regente principal pode ser anunciado nos próximos dias. Filho do célebre violoncelista Paul Tortelier, o maestro francês já foi regente principal da Filarmônica da BBC e principal regente convidado da Sinfônica de Pittsburgh; em 2008, comandou a Osesp durante duas semanas, com resposta positiva dos músicos e da crítica.

A demissão de Neschling foi anunciada em carta enviada por correio ao maestro, que está regendo na Grécia e volta ao Brasil apenas no início de fevereiro. O presidente da Fundação Osesp, Fernando Henrique Cardoso, afirma que as declarações dadas pelo maestro ao Estado em entrevista publicada no dia 9 de dezembro (leia ao lado) repercutiram negativamente entre os músicos, levando o conselho “a analisar a entrevista e estimar seu efeito nas condições em que a sucessão no comando da orquestra se daria nos quase dois anos ainda por decorrer até a expiração do atual contrato”. Fernando Henrique Cardoso lamenta ainda que “o passo natural de renovação não tenha sido percorrido de melhor maneira” e encerra com “justas homenagens pelo admirável trabalho realizado”. Mas afirma que “à luz da gravidade dos termos da entrevista, o conselho optou pela ruptura contratual imediata”.

Por intermédio de seu assessor de imprensa, o maestro informa que não vai se pronunciar sobre a demissão antes da chegada ao Brasil e que está consultando seus advogados sobre questões contratuais – segundo a fundação, a conduta pública do regente está em desacordo com as cláusulas de seu contrato. O silêncio, de resto, se espalha. Membros do conselho da Fundação Osesp também recusaram pedidos de entrevista. Maestros das principais orquestras do País procurados pelo Estado, como Roberto Minczuk (ex-diretor artístico adjunto de Neschling e atual diretor da Sinfônica Brasileira e do Municipal do Rio), Isaac Karabtchevsky (diretor da Sinfônica Petrobras), Ira Levin (diretor da Sinfônica do Teatro Nacional de Brasília) e Jamil Maluf (diretor do Municipal de São Paulo) também preferiram não se pronunciar sobre a questão. Já o secretário-adjunto de Cultura Ronaldo Bianchi disse que o governo “tem profundo respeito pelo trabalho do maestro” e que ficou sabendo da decisão de demiti-lo “da mesma forma que a imprensa e o público”.

O compositor Gilberto Mendes elogiou, na manhã de ontem, o trabalho de Neschling e afirmou que sua saída é “o fim de uma era, o começo do fim da Osesp”. O mesmo espírito pode ser encontrado nos diversos fóruns de discussão que se estabeleceram na internet desde a divulgação da notícia. Da mesma forma, fãs da orquestra criaram na rede um abaixo-assinado no qual pedem a permanência do atual corpo administrativo e artístico da orquestra “para que todo o trabalho realizado até o momento não tenha sido em vão”. No Orkut, comunidades têm sido criadas em torno de um vídeo, postado no YouTube, em que, após concerto em dezembro, a plateia da Sala São Paulo inicia um coro de “Fica! Fica! Fica!”. “Esse coro pesará para sempre na decisão dessa gente que acha que pode fazer o que quiser com a nossa orquestra. Mas não podem! A orquestra é nossa, não deles!”, diz um dos integrantes.

A repercussão em torno da demissão toca no ponto nevrálgico da relação da orquestra com o maestro: qual o significado no futuro da Osesp da saída de Neschling? Em seus comunicados oficiais, a fundação tem insistido que o processo de seleção continuará como previsto e que, nas próximas semanas, os critérios que vão guiar a escolha do novo diretor artístico, obtidos em conversas com consultores internacionais, serão divulgados à imprensa e ao público. Entre as possibilidades estudadas, está a divisão de funções: em vez de um diretor artístico também regente-titular, dois profissionais seriam escolhidos, tentativa de diminuir a centralização que foi uma das marcas da gestão Neschling.

Ouvidos pelo Estado, músicos da Osesp, que preferiram não se identificar, se disseram “aliviados” com a solução, tendo em vista a “relação tumultuada” dos últimos tempos entre eles e o maestro. Segundo eles, no final de novembro, uma comissão havia enviado uma carta à direção da fundação fazendo reparos ao trabalho do maestro nos últimos meses. “Há um pouco de insegurança no ar por não sabermos ainda quem virá reger a orquestra em seu lugar nos próximos tempos. Mas recebemos da fundação a garantia de que, apesar da decisão final ser do conselho, nós seremos consultados sobre o nome do novo diretor artístico”, disse um músico, integrante da orquestra desde o início do processo de reestruturação iniciado pelo maestro em 1997. Quanto à escolha de Yan Pascal Tortelier para o posto de regente-titular interino, parece não haver polêmicas. “Gostamos muito de trabalhar também com o Mario Venzago e com o Frank Shipway. Mas o Tortelier fez um excelente trabalho”, disse o músico. Estava marcada para o começo da tarde de ontem uma reunião entre a orquestra e membros do conselho.

Relação de Sucesso e Polêmica

A CHEGADA

Em 1996, o maestro John Neschling é anunciado pelo governo do Estado como regente-titular e diretor artístico da Osesp, com o objetivo de reconstruir o grupo, plano que previa a construção da Sala São Paulo e o aumento dos salários dos artistas, tendo em vista programações regulares e ambiciosas.

A PRIMEIRA POLÊMICA

Em 2001, após desentendimentos com o maestro Minczuk, na época diretor artístico e regente-titular adjunto, oito músicos, entre eles representantes da orquestra, são demitidos por telefone por Neschling, levando a manifestações de entidades de artistas.

TURNÊ E DEMISSÃO

Após a primeira turnê da orquestra pelos EUA, a diretora-executiva da Osesp, Cláudia Toni, deixa o cargo presumidamente por conta de desentendimentos com o maestro John Neschling sobre problemas na produção da viagem.

FESTIVAL

Em 2004, Roberto Minczuk é escolhido pelo governo para dirigir o Festival de Campos do Jordão. Começava, nos bastidores, o desentendimento entre ele e Neschling. No ano seguinte, Minczuk deixaria o posto de adjunto, assumindo a posição de regente convidado principal. Antes do fim da temporada, no entanto, ele deixaria a orquestra, alegando falta de clima propício ao trabalho.

VIRADA CULTURAL

Em 2005, no primeiro ano da gestão de José Serra como prefeito de São Paulo, a Osesp recusa-se a participar da Virada Cultural, alegando falta de condições de trabalho. Começava ali o desentendimento entre maestro e governante.

CONCURSO

Em 2006, a reputação do Concurso Internacional de Piano Villa-Lobos é colocada em questão com acusações de fraude e interferência na seleção de candidatos. Ilan Rechtman, coordenador do evento e antigo colaborador de Neschling, faz as denúncias e é processado pelo maestro. Sua mulher, violoncelista do grupo, é demitida meses depois.

FARPAS

Continuam, no início de 2007, os desentendimentos públicos entre Neschling e o governo do Estado. O secretário de Cultura João Sayad diz à imprensa que considera alto o salário do regente. No Festival de Campos do Jordão, Serra encontra-se com Minczuk para jantar no Palácio Boa Vista, gerando boatos de que ele poderia empossá-lo como novo diretor da Osesp.

YOUTUBE

Meses depois, surge no YouTube vídeo em que Neschling chama o governador de “menino mimado e autoritário”.

SAÍDA

Em junho, a fundação Osesp informa a decisão de John Neschling de não renovar seu contrato em 2010.

PROCESSO SELETIVO

Dia 3 de dezembro, chega a SP Timothy Walker, o primeiro dos consultores internacionais convocados para ajudar a Osesp na escolha do novo maestro. Em seguida, veio ao País Henry Fogel, ex-presidente da Liga das Orquestras Sinfônicas Americanas.

ENTREVISTA

Dia 9 de dezembro, falando ao Estado, Neschling critica abertamente a condução do processo de seleção.

23/01/2009 - 14:06h Neschling: ”A sucessão está sendo feita de um jeito irresponsável”

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Leia trechos da entrevista concedida pelo maestro ao Estado em dezembro

 

 

 

 

O COMEÇO DO FIM

“No primeiro almoço que tive com o vice-presidente do conselho, Pedro Moreira Salles, me falaram dos consultores estrangeiros que a orquestra traria para ajudar na busca pelo novo maestro. Disse a eles que o melhor consultor seria eu mesmo. Quem conhece esse país? Quem conhece a política local? Eu. Achava a saída muito intempestiva e queria achar outra solução. Eles me perguntaram: quanto tempo mais? Certamente, não seria em 2010. E pedi a eles que não discutissem a questão antes da hora. Mas já em março começaram os boatos, falaram que viria o maestro Daniel Barenboim. É muito difícil para alguém no meu posto conviver com esses boatos. Por um membro do conselho, fiquei sabendo que os consultores haviam sido chamados. Não havia mais clima. Escrevi uma carta ao presidente Fernando Henrique Cardoso, falando sobre tudo isso. Nela, eu colocava que, por tudo o que estava acontecendo, se eu não dissesse que sairia, seria ?saído?. Era uma carta pessoal, não foi oficial. Mas, antes de qualquer resposta, recebi uma carta, uma semana depois, aceitando minha decisão de não renovar meu contrato.”

ALMOÇO

“Por tudo isso, há um ano, em dezembro, fui chamado para um almoço com o vice-presidente do conselho (o banqueiro), Pedro Moreira Salles. Para mim, tratava-se da oportunidade de fazer balanço daquele ano difícil e de discutir a necessidade de um plano de comunicação diferente para 2008. Qual não foi minha surpresa quando ele me afirmou com todas as letras que não havia a menor condição de renovar meu contrato, o que precisaria ser feito até outubro de 2008. Segundo ele, politicamente não havia possibilidade. Naquele dia, embarquei para a Europa e lá conversei com amigos, músicos, empresários. E eles ficaram estupefatos, escreveram cartas para o conselho da Osesp, perguntando o que havia de errado, afinal a orquestra estava em um ótimo momento. Voltei em fevereiro e procurei Pedro Moreira Salles, o presidente Fernando Henrique Cardoso. Tivemos várias conversas e defendi que não era o momento de mudança, que a orquestra estava no meio de um processo e era perigoso uma mudança dessas antes de a sonoridade estar estabelecida, com a disciplina bem estruturada.”

CONSULTORES

“Estou preocupado com o futuro. A Osesp é um projeto meu, não deles. Mas, agora, é deles, daqueles que não me quiseram mais na orquestra, a responsabilidade de levá-la adiante. O perigo é imenso. A possibilidade de dar errado é grande porque não há projeto claro. A vinda dos consultores é símbolo disso. Você traz um cara inexpressivo para passar aqui não mais que 36 horas para dizer o que mudar no projeto? A Osesp é concreta, não é abstrata, está aí, toca, viaja, grava. Falaram que vão trazer um australiano… Onde tem uma Osesp na Austrália? Se eles sabem tanto, por que não criaram uma lá? É de um provincianismo muito grande. Além disso, você traz o cara para vir dar palpite aqui e ele não tem como ajudar porque não conhece a questão. O problema na Osesp não é artístico, é político. Como eles vão lidar com uma vida política que não conhecem?”

A TROCA

“Não sou insubstituível, mas não concordo com a maneira como está acontecendo a troca. Agora, a responsabilidade é deles e eles têm de arcar com esse peso. Mas, o que vai fazer uma Secretaria de Cultura que só desconstrói? Eu não durmo de preocupação! Essa é uma grande responsabilidade. Levar um projeto como a Osesp adiante é difícil, precisa de mais trabalho exaustivo para que ela se estabeleça como grande orquestra e não desapareça. É difícil chegar ao ranking das melhores, mas é mais difícil ficar nele. Qual a mágica solução que vem agora de fora? O que há de novo para acrescentar a um projeto que é indiscutível?”

MÁGOA

“O que mais me magoa é ver um trabalho reconhecido internacionalmente, uma posição que adquiri ser colocada em jogo com ligeireza. O que me deixa magoado não é querer rediscutir as coisas mas, sim, fazer isso sem a minha presença, sem pensar que esse foi o trabalho de uma vida. Eles têm todo o direito de não renovar meu contrato. Mas há maneiras e maneiras de fazer isso. Frituras políticas independem de você, não há saída. Quando um governador, um secretário de Cultura ou uma de suas assessoras decide tirar você da jogada, e têm poder político para tanto, o conselho acaba sendo influenciado cedendo. Agora, insisto que não há razão artística para minha saída. O que existe é uma assessora do secretário, Cláudia Toni, que foi diretora da Osesp e cuja missão pessoal é, hoje, se vingar. Ela sempre foi assim, é uma pessoa muito idiossincrática.”

23/01/2009 - 13:17h Francês é substituto temporário na Osesp


Yan Pascal Tortelier regerá a orquestra até o segundo semestre de 2010, quando um novo maestro será escolhido

Tortelier já foi titular da Filarmônica da BBC e esteve à frente da Osesp em 2008; ele substitui John Neschling, demitido anteontem

JOÃO BATISTA NATALI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

John Neschling será substituído na Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado) pelo maestro francês Yan Pascal Tortelier, 61. A contratação será anunciada o mais tardar em dez dias.
Ele regerá a orquestra até o segundo semestre de 2010, quando um novo regente, a ser escolhido por uma comissão, se tornará o titular definitivo.
O maestro francês esteve à frente da Osesp por duas semanas, em maio do ano passado, em programas de música francesa que deixaram os músicos e o público bem impressionados.
Ele substituiu de última hora o também francês Michel Plasson, inicialmente contratado para aqueles concertos.
Filho do violoncelista Paul Tortelier (1914-1990), Yan Pascal Tortelier já foi titular da Filarmônica da BBC, de Manchester, e da Sinfônica de Pittsburgh. A Folha não conseguiu localizar o maestro, que mora em Londres, e seu empresário estava viajando.
Ao assumir a Osesp, ele terá problemas de agenda. No final de abril deveria reger a Sinfônica de San Francisco, na mesma semana em que Neschling dirigiria em São Paulo uma versão de concerto de “Falstaff”, ópera de Giuseppe Verdi. Tortelier tem ainda concertos agendados em Pittsburgh (EUA) e Melbourne (Austrália).
Neschling foi demitido anteontem, por e-mail, por Fernando Henrique Cardoso, presidente do conselho da fundação que é responsável pela administração da orquestra. Procurado pela Folha, FHC disse, por sua assessoria, que não dará nenhuma declaração adicional sobre a demissão. O maestro se desgastou por atritos com o governador José Serra, com o secretário estadual da Cultura, João Sayad, e com músicos, que o julgavam arrogante e se queixavam de seu autoritarismo.
Também entrou em choque com os integrantes do conselho da orquestra, que acusou em dezembro de “irresponsáveis” no processo de escolha de seu sucessor. Seu contrato expiraria em outubro de 2010. A informação sobre a demissão o pegou de surpresa. Sayad não quis comentar a maneira como se deu a demissão: “Cabe à Fundação Osesp se pronunciar”, disse.
A Folha apurou que pouco depois das 16h de anteontem FHC enviou ao maestro, que está na Suíça, e-mail que o alertava para a importância de um comunicado que lhe seria enviado em seguida. Sem mais informações, Neschling mobilizou amigos e só por volta das 19h30 soube do que se tratava.
Às 20h10 os músicos recebiam e-mail com a notícia da demissão, e pouco depois o site da orquestra exibia carta assinada por FHC que reprimia o maestro pela “gravidade” de suas críticas ao conselho e deixava “poucas dúvidas” quanto a sua suposta intenção de manter uma relação de conflito.
Ontem pela manhã a Folha teve rápida conversa telefônica com ele. “Eu não quero falar sobre nada”, afirmou, da Suíça, depois de se dizer “chocado”.
A escolha de Tortelier, embora mantida em sigilo, já estava feita. Não está claro se ele cumprirá os compromissos assumidos por Neschling. A orquestra tem turnê pelos EUA no segundo semestre. A temporada de 2009 começa em 5 de março com o oratório “Paulus”, de Felix Mendelssohn-Bartholdy. Antes disso, em 12/ 2, os músicos se fechariam por duas semanas para gravações.
Entre as peças do CD estão as “Séries Brasileiras”, de Alberto Nepomuceno (1864-1920).
Em junho último o conselho anunciou que o contrato de Neschling não seria renovado, contrariamente aos planos dele de permanecer até 2012.

Repercussão
Segundo um de seus amigos, a fundação acreditou que Neschling estava disposto a reverter a situação por meio da mobilização do público da Sala São Paulo. Manifesto na internet pela permanência tinha ontem 1.184 assinaturas; comunidades do Orkut pediam o mesmo. Em de 13 de dezembro, o público o aplaudiu ao final do concerto aos gritos de “fica, fica”.
Nelson Freire e Antonio Meneses, os dois músicos eruditos brasileiros de maior projeção internacional, lamentam a demissão. “Ele transformou a Osesp numa orquestra de primeiro mundo”, diz Freire. “Espero que essa história seja repensada e que ele volte.” Meneses diz estar “realmente chocado”: “Neschling é possivelmente o músico que fez a maior diferença na música brasileira dessas últimas décadas e merecia ao menos uma despedida digna de suas realizações”.


Colaborou IRINEU FRANCO PERPETUO

23/01/2009 - 12:53h Música, maestro!

TENDÊNCIAS/DEBATES – FOLHA SP

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br


JOÃO SAYAD


Quero deixar registrado que a demissão não está de nenhuma forma associada a algum conflito pessoal entre Neschling e o governador

O MAESTRO John Neschling pediu demissão algum tempo atrás com o compromisso de permanecer no cargo até o fim do contrato, que se encerraria em outubro de 2010. O Conselho da Fundação Osesp, entretanto, resolveu antecipar o desligamento -Fernando Henrique Cardoso, presidente da Fundação Osesp, escreveu ao maestro, anteontem, explicando os motivos. Foi uma decisão unânime do conselho.
Jornalistas explicaram as razões e a cronologia dos eventos com imprecisão e muitos erros. É natural -o maestro tem um número igual de admiradores e adversários. Aqui vai a explicação do secretário estadual da Cultura.
Somos gratos ao maestro que deixa agora a Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo). Foi ousado ao propor a transformação da orquestra, selecionando músicos por processo impessoal e democrático, aberto a todos, contratados de acordo com as leis trabalhistas e com salários condizentes com a qualidade e a dedicação exigidas dos músicos. Brigou com a burocracia conservadora, convenceu autoridades orçamentárias e acabou criando uma orquestra de excelência artística, bem administrada e com personalidade.
Claro que o maestro é apenas o protagonista mais visível entre tantos outros heróis. Foi Yoshiaki Nakano, secretário estadual da Fazenda na época, quem teve a ideia de excluir a estação Júlio Prestes do processo de privatização da Fepasa. O governador Mario Covas (1995-2001), secretários da Cultura, os músicos e muitos outros, maiores e menores, também merecem créditos pela obra. Todos os brasileiros são gratos.
Entretanto, criadores e criaturas não convivem bem eternamente. Deus e Jó, pais amantíssimos, mães extremadas e filhos talentosos, dr. Higgins e Eliza (”My Fair Lady”).
Olhando à distância e friamente, deveríamos dizer que se dão muito bem, sim, mas sofrem intensamente no momento da separação, quando a criatura ganha personalidade, autonomia e precisa ultrapassar os limites impostos pelo criador zeloso ao “seu” projeto de criatura.
Nos últimos tempos, os músicos começaram a reclamar usando os meios de que dispunham -confidencialmente, por e-mails anônimos e em conversas particulares. Além disso, mas ainda em surdina, acumulavam criticas à própria condução artística da Osesp e à qualidade da regência.
O estilo autoritário da liderança do maestro impedia que essas reclamações chegassem ao Conselho da Osesp -havia medo de represália, de demissões. Verdade que, historicamente, maestros são temperamentais, difíceis de conviver. Atualmente, isso não é mais verdade. E o Conselho da Osesp não podia deixar que o futuro da orquestra e a obra do maestro fossem comprometidos pelas explosões do maestro na imprensa, no YouTube ou até em palco.
A preocupação máxima do conselho, da secretaria da Cultura e até dos amigos da orquestra, fãs de Neschling, era garantir uma transição tranquila. Demonstrar que o governo continua comprometido com o apoio à orquestra, que não existe conflito entre orquestra e governo. Não só porque não existe de fato esse conflito mas também porque essa é uma condição necessária para atrair e contratar novos maestros e músicos que permitam o crescimento ainda maior desse corpo musical.
Quero deixar registrado o meu agradecimento ao Conselho da Osesp, que conduz a transição com habilidade e competência. Aos jornalistas, quero deixar registrado que a demissão não está de nenhuma forma associada a algum conflito pessoal entre Neschling e o governador. Em dois anos de governo, não fiz mais que relatar ao governador as informações que o conselho me transmitia confidencialmente para evitar problemas maiores nessa difícil transição. O governador administra um programa de investimentos ambicioso e a vida política do Estado. E, sem demérito à importância da Osesp, delegou totalmente ao secretário da Cultura as decisões sobre a orquestra.
E o secretário confiou totalmente no discernimento e nas decisões do Conselho da Fundação Osesp.
Começamos nova temporada. Tenho certeza de que Neschling, após alguns meses de mágoa e ressentimento, desejará boa sorte aos músicos e à orquestra criada por Eleazar de Carvalho e que ele conduziu por dez anos.
Assim, só me cabe agora desejar sorte e sucesso ao maestro Neschling, dar as boas-vindas ao novo maestro e dizer-lhe que continuaremos apoiando com entusiasmo a grande orquestra de São Paulo.
Música, maestro!


JOÃO SAYAD, 63, doutor em economia pela Universidade Yale (EUA), é o secretário da Cultura do Estado de São Paulo. Foi secretário de Finanças e Desenvolvimento da prefeitura de São Paulo (gestão Marta Suplicy), secretário da Fazenda do Estado de São Paulo (governo Montoro) e ministro do Planejamento (governo Sarney).

22/01/2009 - 19:14h Dia de ira!

OSESP – Verdi – Requiem – Dies irae e Tuba mirum
John Neschling
***

Gravação da TV Cultura. Maestro John Neschling à frente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, com os Coros da OSESP e da Fundação Príncipe das Astúrias. Março de 2006 concerto na Sala SP.

 *

Dia de ira!
O dia em que tudo restará em cinzas
Assim disseram David e a Sibila
Dia de ira!
Que temível será o futuro,
quando o Juiz estiver entre nós
E nos julgar com rigor

O som admirável da trombeta, por entre os sepulcros
Guiará a todos diante do trono

22/01/2009 - 10:27h Neschling demitido por delito de opinião

Você já imaginou se o maestro Leonard Bernstein tivesse sido demitido da Filarmônica de New York por apoiar na época os “Black Panters”, ser contra a guerra de Vietname e ter criticado as autoridades? Ou rescindir o contrato de Daniel Barenboim, o regente israelense que critica acerbamente a política do seu governo em Gaza e contra os palestinos?

Pois é, FHC foi o executor da sentença contra Neschling, culpável do crime de lesa autoridade. Também que ousadia, o maestro manifestou publicamente seu desagrado com os métodos de José Serra. Intolerável. LF

http://www.biscoitofino.com.br/artistas/johnneschling.jpg

O Estado de São Paulo

Maestro John Neschling é demitido da Osesp por e-mail

Entrevista ao ”Estado”, em que ele criticou a administração, acelerou a saída

Por causa de reações negativas a entrevista concedida ao Estado, o maestro John Neschling foi demitido ontem da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) por e-mail. A decisão, assinada pelo presidente do Conselho de Administração da Fundação Osesp, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), foi unânime. Por meio de assessor, Neschling, que está na Grécia, afirmou que recebeu a carta por e-mail ontem à tarde, que vai conversar com algumas pessoas para entender melhor a situação e que não vai se pronunciar sobre a demissão até seu retorno, no final da próxima semana.

Neschling já havia comunicado, em 13 de junho do ano passado, que só permaneceria à frente da orquestra até 31 de outubro de 2010. Mas, diz a carta de FHC, como as declarações do maestro ao Estado, em entrevista publicada no dia 9 de dezembro, repercutiram negativamente entre os músicos, o conselho reuniu-se para analisar a entrevista e “estimar seu efeito” nas condições em que a sucessão no comando da orquestra se daria “nos quase dois anos ainda por decorrer até a expiração do atual contrato”.

“À luz da gravidade dos termos daquela entrevista, que coroa uma série de manifestações na mesma direção, o Conselho de Administração, com pesar, mas no cumprimento de seu dever estatutário (…), decidiu, por unanimidade, pela ruptura contratual imediata”, afirma o texto. “A manifestação pública de Vossa Senhoria deixa poucas dúvidas quanto à possibilidade – como era nossa intenção – de uma convivência harmoniosa, no processo de sucessão, evidenciando conduta indesejável e inconciliável com o desempenho das atribuições contratuais”, prossegue a carta.

”PROJETO MEU”

Na entrevista, Neschling criticou ter sido marginalizado do processo sucessório. “Estou preocupado com a maneira como a sucessão está sendo feita. E magoado por ter sido excluído do processo”, disse. Ele também declarou que há 12 anos a Osesp “era inexistente, existia mal e porcamente, estava acabando” e que, sob seu comando, “uma orquestra que não existia fez de São Paulo um centro sinfônico”.

Ele afirmou ter proposto uma transição “mais lenta” e “pacífica”. “Pedi mais dois anos de contrato ao longo dos quais eu regeria menos e ajudaria a procurar um substituto. Não obtive resposta”, declarou.

Neschling afirmou também estar preocupado com o futuro. “A Osesp é um projeto meu, não deles. Mas, agora, é deles, daqueles que não me quiseram mais na orquestra, a responsabilidade de levá-la adiante. O perigo é imenso. A possibilidade de dar errado é grande porque não há um projeto claro.”

Na carta de demissão, Fernando Henrique Cardoso lamenta que “o passo natural de renovação” não tenha sido “percorrido de melhor maneira” e encerra com “justas homenagens pelo admirável trabalho realizado”.

21/01/2009 - 23:38h Maestro John Neschling é demitido da Osesp

http://www.festivaldeinverno.sp.gov.br/imprensa/img/johnneschiling.jpg

MÔNICA BERGAMO Colunista da Folha de S.Paulo

O maestro John Neschling foi demitido hoje da Osesp, a Or­questra Sinfônica do Estado de São Paulo.

No ano passado, de­pois de intensa pressão do gover­nador José Serra, que queria tirá-lo do cargo, Neschling comunicou ao conselho da Fundação Osesp que não renovaria seu con­trato. Na ocasião, no entanto, fi­cou combinado que o maestro permaneceria à frente da Osesp até o fim de 2010, como previa seu contrato.

A situação, no entanto, ficou insustentável. Neschling, que chegou a chamar Serra de “meni­no mimado” e “autoritário” logo no começo do governo, conti­nuou a dar entrevistas espina­frando com o governador e com o secretário da Cultura, João Sayad, mesmo depois de ter sua saída definida. A gota d’água foram as críticas que ele vinha fazendo publicamente à decisão do conselho de formar um comitê para a escolha de seu sucessor.

09/12/2008 - 12:49h ”Minha sucessão está sendo feita de maneira irresponsável”, diz Neschling e acrescenta “Tudo começou há dois anos, quando assumiu o governador José Serra”

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Para o maestro John Neschling, opção por sua saída em 2010 do posto de diretor da Osesp é precipitada

João Luiz Sampaio – O Estado SP

http://www.semptoshiba.com.br/patrocinio/img/orquestra.jpg

O temperamento forte, a fama de genioso e truculento, fizeram da passagem do maestro John Neschling à frente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo uma história de sucesso – e polêmicas. A mais recente delas foi o anúncio, em junho deste ano , de que ele não renovaria seu contrato de diretor-artístico e regente titular do grupo, que termina em 2010. A decisão, na época, foi atribuída à boataria sobre sua possível saída. “Eu não queria deixar a Osesp. Se saio é porque percebi que o clima estava muito ruim e que, se não o fizesse, seria saído”, diz ele em entrevista exclusiva ao Estado, a primeira desde o anúncio de seu desligamento.

Neschling assumiu a Osesp em 1996, chamado pelo então governador Mário Covas para reconstruir a orquestra. Em 12 anos, o trabalho mostra seus resultados. Além dos concertos semanais na Sala São Paulo com casa lotada, um número de assinantes que ultrapassa 12 mil pessoas, as gravações premiadas mundo afora, chegou na semana passada um novo reconhecimento: em seu panorama do cenário orquestral mundial, a revista inglesa Gramophone elegeu a Osesp como uma das três orquestras em que vale a pena prestar atenção.

A trajetória do projeto Osesp nem sempre foi pacífica. Desavenças entre maestros e músicos; polêmicas em torno dos valores investidos na orquestra e outras que dizem respeito a algumas de suas iniciativas, como o concurso de piano Villa-Lobos; jogos de poder entre regentes e governo fizeram parte da rotina do grupo. A situação, no entanto, ganhou força com a chegada do governador José Serra ao poder, em 2007. Ali começou a se falar oficialmente na troca de guarda na direção artística da Osesp. Em seguida, um vídeo colocado no YouTube mostrava John Neschling fazendo comentários pouco amistosos sobre o governador durante um ensaio da orquestra. Estava instaurada a confusão.

Em junho deste ano, a fundação Osesp informava, enfim, ao público a decisão do maestro de não renovar seu contrato. Na época, em entrevista ao Estado, o presidente da fundação, o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, dizia que viriam ao Brasil consultores estrangeiros para ajudar na formatação do processo de escolha do novo diretor-artístico. Timothy Walker, da Sinfônica de Londres, o primeiro deles, esteve em São Paulo na semana passada. Na semana que vem, chega ao Brasil Henry Fogel, membro da Liga das Orquestras Americanas.

“Não sou insubstituível”, disse o maestro Neschling na tarde de sábado, ao longo de uma conversa de quase três horas em seu apartamento no bairro de Higienópolis. “Mas estou preocupado com a maneira como a sucessão está sendo feita. E magoado por ter sido excluído do processo.” A seguir, os principais trechos da conversa:

OSESP, ONTEM E HOJE

“Não podemos perder de vista que, há 12 anos, a Osesp era inexistente, existia mal e porcamente, estava acabando. Os músicos ensaiavam em um restaurante, tocavam em cinemas para um público reduzido, tinha uma administração ineficiente. Naquele momento, o governador Mário Covas e o secretário de Cultura Marcos Mendonça me chamaram e tiveram a coragem e a visão de entregar um projeto que não existia na mão de alguém com uma idéia. Era só o que eu tinha a oferecer: uma idéia, um projeto definido. Meu plano era claríssimo, previa certos passos, certas atitudes a serem tomadas, como a construção da Sala São Paulo, para transformar a Osesp em uma orquestra importante. Nem eu sabia qual seria essa importância, hoje as pessoas ficam surpresas ao ver onde chegamos. Depois de 12 anos, não se trata mais de nós dizendo que somos bons. A Gramophone acaba de nos escolher como umas das três orquestras do mundo em que se deve prestar atenção. Não estamos na lista das 20 melhores, mas estamos entre aqueles que podem aspirar a fazer parte dela. É um processo. A Osesp ainda é um work in progress, não é um trabalho terminado, tem muito que melhorar, crescer, em todos os sentidos. Mas chegamos a um ponto que ninguém sonhava. Recebemos cinco Diapason D’Or, o Grammy. Somos a única orquestra do mundo a aumentar, nesses anos, o número de assinantes, que já passa de 12 mil. Não crescemos como em outros anos, 10%, mas no momento atual de crise, mantivemos a subida. Todos os indicativos são de que a orquestra vive um bom momento. Em 2010, vamos tocar no Musikverein, de Viena, e na sede da Filarmônica de Berlim. Em 12 anos, uma orquestra que não existia fez de São Paulo um centro sinfônico.”

O COMEÇO DO FIM

“Tudo começou há dois anos, quando assumiu o governador José Serra. Não é segredo nenhum que, mesmo antes da posse, já se falava na minha substituição. O governador não queria, não gostava, não sei o quê. Os motivos? Teve o episódio da Virada Cultural e não sei o que mais, o fato é que a todo momento eu lia que ele não gostava de mim, que havia uma briga entre nós. Quando ele assumiu, continuou a polêmica, com a mídia batendo a todo instante. 2007 foi um ano difícil para mim, fui imolado pela imprensa, todo mundo falava mal de mim, diziam que o concurso de piano era uma fraude, que tudo o que eu fazia era ruim. Isso criou uma situação muito delicada que, evidentemente, teve conseqüências no clima da Osesp, não na qualidade, mas sim no clima. Fizemos a turnê pela Europa e voltamos debaixo de uma saraivada de balas. Ninguém falava – olha só, a Osesp foi à Europa e foi um sucesso. Não, parecia que eu era um bandido, um ladrão, um corrupto. Durante o ano, a coisa foi se acirrando, houve o episódio do YouTube, que criou uma situação entre mim e os músicos.”

ALMOÇO

“Por tudo isso, há um ano, em dezembro, fui chamado para um almoço com o vice-presidente do conselho (o banqueiro), Pedro Moreira Salles. Para mim, tratava-se da oportunidade de fazer um balanço daquele ano difícil e de discutir a necessidade de um plano de comunicação diferente para 2008, não podíamos continuar daquele jeito. Qual não foi minha surpresa quando, no almoço, ele me afirmou com todas as letras que não havia a menor condição de renovar meu contrato, o que precisaria ser feito até outubro de 2008. Segundo ele, politicamente não havia possibilidade. Naquele dia, embarquei para a Europa e lá conversei com amigos, músicos, com o presidente do selo BIS, empresários. E eles ficaram estupefatos, escreveram cartas para o conselho da Osesp, perguntando o que havia de errado, afinal a orquestra estava em um ótimo momento. Voltei em fevereiro com esse apoio todo e procurei o Pedro Moreira Salles, o presidente Fernando Henrique Cardoso, o Horácio Lafer Piva. Tivemos várias conversas e eu defendi que não era o momento de mudança, que a orquestra estava no meio de um processo e era perigoso uma mudança dessas antes de a sonoridade estar estabelecida, com a disciplina bem estruturada. Não era o momento.”

A DECISÃO

“Já naquele primeiro almoço, me falaram dos consultores estrangeiros que a orquestra traria para ajudar na busca pelo novo maestro. Ninguém perguntou o que eu achava, apenas me comunicaram. O que disse a eles, depois, foi que o melhor consultor seria eu mesmo – quem conhece esse país? Quem conhece a política local? Eu. Achava a saída muito intempestiva e queria achar outra solução. Eles me perguntaram: quanto tempo mais? Certamente, não seria em 2010. E pedi a eles que não discutissem a questão antes da hora, porque no momento em que se falasse em sucessão, pronto, acabou, a temporada de caça começaria e perderíamos o controle sobre o processo. Mas já em março começaram os boatos, falaram que viria o maestro Daniel Barenboim. É muito difícil para alguém no meu posto conviver com esses boatos. Por um membro do conselho, fiquei sabendo que os consultores haviam sido chamados. Não havia mais clima. Escrevi uma carta ao presidente Fernando Henrique Cardoso, falando sobre tudo isso. Nela, eu colocava que, por tudo o que estava acontecendo, se eu não dissesse que sairia, seria ?saído?. Era uma carta pessoal, não foi oficial. Mas, antes de qualquer resposta, recebi uma carta, uma semana depois, aceitando minha decisão de não renovar meu contrato.”

O DIA SEGUINTE

“Eles, então, me chamaram para conversar. A decisão já estava tomada. E continua tomada, eu vou embora, minha permanência ou não já não deve ser discutida. Enfim, queriam que eu participasse do processo de seleção do novo maestro. O que eu respondi é que eu não poderia participar de um processo de sucessão no qual não acreditava. Eu queria uma sucessão orgânica, tranqüila, bem-feita, tudo o que acho que não será agora, colocando o projeto em risco. Propus, então, uma transição mais lenta, pacífica. Pedi mais dois anos de contrato ao longo dos quais eu regeria menos e ajudaria a procurar um substituto. Não obtive resposta. E, tempos depois, vejo no jornal que chegou o primeiro dos consultores. Isso me deixa cada vez mais certo da minha decisão.”

CONSULTORES

“Estou preocupado com o futuro. A Osesp é um projeto meu, não deles. Mas, agora, é deles, daqueles que não me quiseram mais na orquestra, a responsabilidade de levá-la adiante. O perigo é imenso. A possibilidade de dar errado é grande porque não há um projeto claro. A vinda dos consultores é símbolo disso. Você traz um cara inexpressivo para passar aqui não mais que 36 horas para dizer o que mudar no projeto? A Osesp é concreta, não é abstrata, está aí, toca, viaja, grava. Falaram que vão trazer um australiano… Onde tem uma Osesp na Austrália? Se eles sabem tanto, por que não criaram uma lá? É de um provincianismo muito grande. Além disso, você traz o cara para vir dar palpite aqui e ele não tem como ajudar porque não conhece a questão. O problema na Osesp não é artístico, é político. Como eles vão lidar com uma vida política que não conhecem?”

JOGO POLÍTICO 1

“Todas as grandes orquestras do mundo foram criadas por grandes maestros e todas tiveram momentos em que eles foram contestados. Eles precisavam incutir uma linha dura para iniciar o trabalho. Não conheço nenhuma orquestra criada por um conselho de sábios. Todas tiveram alguém forte à sua frente, moldando a instituição. Mas no Brasil há características que impedem isso e uma delas é a falta de continuidade. Além, claro, da famosa frase do Tom Jobim: fazer sucesso no Brasil é um perigo, é uma cultura autofágica que odeia a recusa da mediocridade. A Osesp é uma instituição de R$ 67 milhões ao ano. É muito dinheiro e dinheiro é poder. Ninguém brigava para tirar o Eleazar de Carvalho da Osesp porque ninguém queria a Osesp. Os regentes querem ter o poder que vem com o posto de chefe da Osesp, querem usá-la para se projetar internacionalmente. Nesse sentido, a orquestra é uma jóia. E o governo não quer um cara que chega e diz o que quer, que defende o fato de quem manda aqui é ele, que sabe o que quer. Durante oito ou nove anos, me aceitaram assim e eu correspondi com os resultados conquistados. Até que assumiu um governo que acha que pode fazer melhor, apesar de não ter a menor idéia do que é uma orquestra sinfônica. Aí vira briga e busca de prestígio.”

JOGO POLÍTICO 2

“Em Birmingham, depois que o maestro Simon Rattle saiu da orquestra, ninguém mais sabe o que acontece lá. Em Montreal, foi o mesmo depois da saída do Charles Dutoit. Não sou insubstituível, mas não concordo com a maneira como está acontecendo a troca. Agora, a responsabilidade é deles e eles têm de arcar com esse peso. Mas, o que vai fazer uma Secretaria de Cultura que só desconstrói? Fecharam a Universidade Livre de Música, estão destruindo o Conservatório de Tatuí. Dizem que vão construir um teatro de dança. Duvido. Eu não durmo de preocupação! Essa é uma grande responsabilidade. Levar um projeto como a Osesp adiante é muito difícil, precisa de mais trabalho exaustivo para que ela se estabeleça como grande orquestra e não desapareça. É difícil chegar ao ranking das melhores, mas é mais difícil ficar nele. Qual a mágica solução que vem agora de fora? O que há de novo para acrescentar a um projeto que é indiscutível?”

A FUNÇÃO DO DIRETOR

“É claro que pode funcionar um diretor-artístico menos forte, que não seja também o regente titular, como eles têm dito. Funciona em Londres, Chicago, Nova York. Mas essas orquestras têm 100 anos de idade. Falem o que quiserem, mas as orquestras precisam de uma figura de galeão. Montreal não era conhecida pelo seu diretor-executivo mas, sim, pelo seu maestro. Quem era o diretor da Filarmônica de Nova York durante a gestão de Leonard Bernstein? Ninguém sabe. Esse formato pode funcionar quando a orquestra tem maturidade para se autogerir. Se um música da Filarmônica de Berlim não toca bem, o primeiro a reclamar é seu colega. Aqui, ainda estamos numa fase em que a orquestra funciona como corporação, defende a mediocridade, o músico não cobra um colega porque tem medo de ser o próximo. Ouvi do Pedro Moreira Salles que, em seu banco, um executivo que chega aos 60 anos precisa começar a pensar na sua saída. Não trabalho num banco! A fase de glória de um regente vem depois dos 60 anos. Há, em tudo isso, uma tentativa de enfraquecer a figura do maestro. Tenho sérias dúvidas sobre se isso vai fazer bem ao grupo.”

MÁGOA

“O que mais me magoa é ver um trabalho reconhecido internacionalmente, uma posição que adquiri ser colocada em jogo com ligeireza. O que me deixa magoado não é querer rediscutir as coisas mas, sim, fazer isso sem a minha presença, sem pensar que esse foi o trabalho de uma vida. Eles têm todo o direito de não renovar meu contrato. Mas há maneiras e maneiras de fazer isso. Frituras políticas independem de você, não há saída. Quando um governador, um secretário de Cultura ou uma de suas assessoras decide tirar você da jogada, e têm poder político para tanto, o conselho acaba sendo influenciado e acaba cedendo. Agora, insisto que não há razão artística para minha saída. O que existe é uma assessora do secretário, Cláudia Toni, que foi diretora da Osesp e cuja missão pessoal é, hoje, se vingar. Ela sempre foi assim, é uma pessoa muito idiossincrática. Você consegue imaginar uma pessoa que é assessora da Secretaria de Cultura e se recusa a falar com o maestro da Osesp? Eu não sei se o conselho concorda com a necessidade de mudança, mas se rendeu a ela.”

A FUNDAÇÃO

“No começo do projeto Osesp, eu dizia para o Marcos Mendonça: ?Você confia em mim? Me dá o dinheiro então que eu administro.? E ele sempre respondia: ?Maestro, sempre terá alguém acima de você, a burocracia estatal é assim.? A idéia da fundação, portanto, surgiu já no primeiro dia do projeto. Cortei minhas próprias pernas com isso? A instituição agora existe e continuo achando que é a melhor maneira de fazer a Osesp. Mas, estranhamente, a orquestra ficou mais dependente agora do Estado do que era antes. Nossa autoridade vinha dos resultados que obtínhamos e o governo a aceitava. Era muito mais fácil se livrar de mim naquela época, eu brigava demais com o governo. Nem sempre consegui o que queria, mas eles respeitavam quando eu dizia que esse ou aquele era o caminho a seguir. Hoje, tem sempre alguém de fora dizendo o que é melhor, o que devemos fazer.”

FUTURO DA OSESP

“Eu diria que estamos no fim do capítulo 1. Saímos do zero e chegamos a uma orquestra que no mundo todo sabem que existe, que é boa, que vale a pena ouvir, que ganha prêmios. Mostramos ao mundo como Villa-Lobos é interessante. As pessoas começaram a ouvir as sinfonias de Guarnieri. Colocamos a música brasileira num patamar de respeito internacional. Comissionamos obras, fizemos 30 e poucas primeiras audições. Editamos partituras , gravamos, elevamos o nível de público, com três casas cheias por semana. No começo, tínhamos uma média de 90 pessoas por concerto; hoje, são 1.400. O segundo capítulo? É continuar, fazer o que a Gramophone espera de nós, corresponder às expectativas. Há muito o que fazer, é preciso trabalhar a sonoridade, essa é uma orquestra com músicos de escolas diferentes. Ainda precisamos de uma primeira flauta, primeiro violoncelo, primeira viola. Temos de ir moldando a orquestra para que ela tenha uma sonoridade própria. Há ainda que incutir a autoconfiança, a autodeterminação, os músicos não podem depender do maestro para tocar bem, a orquestra tem de ter estrutura para cuidar da própria qualidade. Inundamos a orquestra nos últimos 12 anos com novos repertórios, agora é momento de curtir essa expansão, aprofundar a interpretação, fazer com que essa orquestra possa tocar com menos ensaios para poder render mais. Ainda é um trabalho tão longo quanto o que fizemos até agora. Estamos no fim do capítulo 1, e o 2 vai demorar tanto quanto ele.”

FUTURO DO MAESTRO

“Tenho uma história, uma carreira, toda minha vida regi na Europa e volto sempre para lá, tenho concertos. Eventualmente, assumirei uma orquestra européia, não tem por que não acontecer. Não estou preocupado com o meu futuro.”

Polêmicas

A CHEGADA

Em 1996, o maestro John Neschling era anunciado como regente titular e diretor artístico da Osesp, com o objetivo de reconstruir o grupo.

A PRIMEIRA POLÊMICA

Em 2001, após desentendimentos com o maestro Minczuk, na época diretor artístico adjunto, oito músicos, entre eles representantes da orquestra, são demitidos por Neschling.

TURNÊ E DEMISSÃO

Após a primeira turnê pelos Estados Unidos, a diretora-executiva da Osesp, Cláudia Toni, deixa o cargo presumidamente por conta de desentendimentos com o maestro Neschling sobre a produção da viagem.

FESTIVAL

Em 2004, Roberto Minczuk é escolhido pelo governo para dirigir o Festival de Campos do Jordão. Começava, nos bastidores, o desentendimento entre ele e Neschling, fazendo com que Minczuk deixasse a orquestra um ano depois.

VIRADA

Em 2005, no primeiro ano da gestão de José Serra como prefeito de São Paulo, a Osesp recusa-se a participar da Virada Cultural, alegando falta de condições de trabalho.

CONCURSO

Em 2006, a reputação do Concurso Internacional de Piano Villa-Lobos é colocada em questão com acusações de fraude e interferência na seleção de candidatos.

FARPAS

Começam, no início de 2007, os desentendimentos entre o maestro John Neschling e o governo do Estado. O secretário de Cultura João Sayad diz à imprensa que considera alto o salário do regente. Durante o Festival de Campos do Jordão, Serra encontrava-se com Minczuk – nos bastidores, os boatos davam conta de que ele estudava a possibilidade de empossá-lo como novo diretor da Osesp.

YOUTUBE

É colocado no YouTube um vídeo em que Neschling chama o governador de “menino mimado e autoritário”.

SAÍDA

Em junho deste ano, a fundação Osesp informa decisão de Neschling de não renovar seu contrato em 2010.

PROCESSO SELETIVO

No dia 3 de dezembro, chega a São Paulo Timothy Walker, o primeiro dos consultores internacionais que vão ajudar a Osesp na escolha do novo maestro.

Frases

“Há um ano fui chamado para um almoço com o vice-presidente do conselho, Pedro Moreira Salles. E ele me disse com todas as letras que não havia a menor condição política de renovar o meu contrato com a orquestra em 2010″

“A decisão foi tomada e continua tomada. Eu vou embora, minha permanência já não deve ser discutida. Queriam que eu participasse da escolha do substituto, mas não posso fazer parte de um processo em que não acredito, que está sendo feito de maneira intempestiva e irresponsável”

“Estou preocupado com o futuro. Agora está nas mãos deles a responsabilidade de dar continuidade ao projeto. O perigo é imenso. Não há uma idéia clara do que eles vão fazer. A vinda dos consultores é símbolo disso. Você traz um cara inexpressivo lá de fora para ficar aqui 36 horas e dizer o que tem que mudar no projeto. Isso é muito provincianismo”

“Durante anos, me deixaram fazer meu trabalho e eu honrei a confiança. Agora assume um governo que acha que pode fazer melhor, apesar de não ter idéia do que seja uma sinfônica.”

JOHN NESCHLING, MAESTRO

03/08/2008 - 19:14h Gabriela de Tom Jobim com a Banda Nova está no Intermezzo e aqui no sinfonico

Volta prá casa, fica comigo …

Modelo – Aldemir Martins

 

Tenho pensado muito na vida
Volta bandida mata essa dor
Volta pra casa, fica comigo
Eu te perdôo com raiva e amor
Chega mais perto, moço bonito
Chega mais perto meu raio de sol
A minha casa é um escuro deserto
Mas com você ela é cheia de sol
Molha a tua boca na minha boca
A tua boca é meu doce é meu sal
Mas quem sou eu nesta vida tão louca?
Mais um palhaço no teu carnaval
Casa de sombra vida de monge
Quanta cachaça na minha dor
Volta pra casa, fica comigo
Vem que eu te espero tremendo de amor…
(trecho de “Gabriela” – Tom Jobim)

Fonte Blues Amor e Poesia

Jobim Sinfonico 2002 – OSESP