26/02/2009 - 11:34h Crise afunda economia espanhola

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Após anos de crescimento alto, puxado por abundância de crédito, desemprego explode no país

Adoção do euro limita ação do governo; empresários querem reforma trabalhista e economistas preveem retomada lenta e dolorosa

VICTOR MALLET DO “FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP

Quando um dos maiores clubes de futebol de um país tão fanático pelo esporte quanto é a Espanha deixa de pagar seus jogadores, é um aviso de que algo pode estar drasticamente errado em uma das economias mais bem sucedidas na Europa.
David Villa é um dos jogadores do Valencia cujo último salário está atrasado por tempo indeterminado pelo clube, fortemente endividado. Villa é apenas mais um entre o número crescente de vítimas, ricas e pobres, de um mergulho na recessão que se encaminha para ser uma das piores da Europa.
As tensões estão começando a se manifestar na sociedade espanhola, normalmente tranquila e tolerante. Vendedores de rua e africanos residentes no país fizeram duas manifestações neste mês em Lavapiés, em Madri, protestando contra o alegado racismo e as investidas policiais; subsequentemente, veio à tona que a polícia da capital recebeu cotas semanais de imigrantes ilegais que deve prender. Em Andaluzia, no sul, milhares de imigrantes sem comida ou abrigo invadiram cidades procurando em vão trabalhos na colheita de azeitonas já tomados por espanhóis.
Guindastes estão parados em obras na costa espanhola e nas periferias. Muitas lojas pequenas no centro de Madri fecharam. Um dono de construtora arruinado é acusado de cinco assaltos a bancos.
“Não vamos ter uma recessão. Vamos ter uma depressão, como nos anos 1930″, diz o economista Lorenzo Bernaldo de Quirós, presidente da Freemarket International Consulting. Quirós é um dos analistas mais pessimistas, mas se justifica apontando previsões quase consensuais: o desemprego atingindo 19% até o final do ano (contra mais de 14%, ou 3,3 milhões de pessoas, hoje); um déficit orçamentário de ao menos 6,5% do PIB; contração econômica de 3% ou mais em 2009, e, possivelmente, uma deflação. “Somado à crise financeira, este é o quadro perfeito para definir uma depressão”, conclui.
Essa depressão pode atingir a economia espanhola -uma das dez maiores do planeta e a quarta da zona do euro- com tanta gravidade que pode fazê-la perder muitos dos ganhos conquistados na década passada desde a adoção do euro.
Até a chegada da crise global, a Espanha tinha desempenho elogiável. Seu retorno à democracia e à prosperidade após uma guerra civil e a ditadura Franco é, afinal, uma das grandes histórias de sucesso da Europa do pós-guerra. Nos dez anos terminados em 2006, o crescimento real chegou à média anual de 3,7%, contra 2,1% na zona do euro. O PIB per capital subiu para mais de 90% da média dos 15 principais países ocidentais da União Europeia.
Essa expansão ajudou a gerar mais de 5 milhões de empregos e a atrair mais imigrantes, como proporção relativa à população, que qualquer outro país da Europa. A construção civil, financiada pelo crédito fácil, foi o motor principal da economia durante uma década -e aí está a origem das dificuldades. Como nos EUA e no Reino Unido, a bolha imobiliária se rompeu, com grande força.
Estimados 1 milhão de casas e apartamentos recém-construídos estão desocupados. A construção residencial -que respondeu diretamente por 7,5% do PIB em 2006- está quase parando. O lobby que representa 14 grandes construtoras anunciou que não iniciou a construção de uma única casa nova em dezembro e só 135 em todo o quarto trimestre de 2008. “Durante 15 anos, o padrão de crescimento da economia espanhola foi baseada em mercados financeiros com alto grau de liquidez – e liquidez barata”, diz Rafael Doménech, economista-chefe para a Europa do banco espanhol BBVA. “Foi ótimo para a economia espanhola que as famílias e as empresas usassem essa liquidez para aumentar sua dívida.”
E foi o que elas fizeram. A dívida do setor privado dobrou em uma década, chegando a 120% do PIB. Com boa parte do crédito vindo de aposentados alemães e outros poupadores, através de títulos de crédito espanhóis avalizados por hipotecas, o déficit de conta corrente chegou a mais de 10% do PIB. Com o novo ambiente dos mercados financeiros, diz Doménech, “não podemos esperar usar o mesmo modelo de crescimento dos últimos dez anos”.
Teoricamente, a Espanha poderia substituir a atividade da construção com o aumento da produção em outros setores. O país é uma das economias mais abertas do mundo, e suas empresas nos setores de moda, energia renovável, infraestrutura e bancos têm sido investidores externos e exportadores ativos. Mas outras economias não estão em condições de assumir o lugar da construção. A indústria automotiva espanhola, responsável por um quinto das exportações do país e 6% de seu PIB, está lutando para fazer frente à queda na demanda doméstica e externa. O turismo, que movimenta 50 bilhões, caiu 3% no ano passado -a primeira queda anual desde 97.
O premiê socialista José Luis Rodríguez Zapatero seguiu o mesmo caminho que outros líderes na crise, anunciando uma enxurrada de planos de gastos governamentais, numa tentativa de combater o aumento do desemprego e evitar uma depressão prolongada. Miguel Sebastián, seu ministro da Indústria, vem flertando com o protecionismo -embora negue a acusação-, lançando uma campanha de “compre produtos espanhóis”.
Mas não há certeza alguma de que as medidas de gastos -algumas anunciadas apesar das objeções do ministro das Finanças e ex-responsável pela restrição fiscal, Pedro Solbes- terão os efeitos desejados. O que é certo é que a margem fiscal de manobra do governo, com o déficit orçamentário projetado já sendo mais que o dobro do teto de 3% do PIB permitido pela UE, é fortemente limitada. Embora a dívida pública acumulada ainda seja relativamente modesta, a deterioração das finanças públicas levou a agência de classificação Standard & Poor’s, no mês passado, a tirar da Espanha sua classificação AAA.
Em crises anteriores, a Espanha simplesmente desvalorizou a peseta para aumentar a competitividade das exportações e atrair investimentos -o caminho seguido agora pelo Reino Unido-, mas uma desvalorização unilateral deixou de ser uma opção possível para um membro da zona do euro.
Quase todos os executivos, economistas ortodoxos e políticos da oposição de direita concluem que a única maneira de a Espanha emergir da crise mais forte -ou sobreviver a ela dentro dos limites da zona do euro- é aumentar sua produtividade e competitividade, adotando reformas estruturais. O que querem dizer é que empregados possam ser contratados e demitidos mais facilmente, a um custo menor, e que os salários sejam definidos por empresas, não por setores.
Na semana passada, o presidente do Banco Central, Miguel Angel Fernández Ordóñez, irritou o governo ao descrever a reforma trabalhista como a medida “mais importante” contra o desemprego.
Enquanto isso, o fim da alta performance econômica deixa a dúvida: será que o país poderá retomá-la ao final da crise global? Para os economistas, a construção foi uma parte tão importante que a recuperação inevitavelmente será lenta. “A economia espanhola levará cerca de sete anos para crescer a 3% ao ano novamente”, diz Bernardo Quirós. “Os espanhóis perderão metade de sua riqueza. É horrível.”

Tradução de CLARA ALLAIN

27/01/2009 - 15:28h O economista que previu a crise continua pessimista

 

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Emma Brockes, THE GUARDIAN* – O Estado SP

O escritório em Nova York da empresa de consultoria de Nouriel Roubini é tão austero como a situação atual: uma escrivaninha, um telefone, alguns blocos de anotações e 134 páginas impressas de uma lista da Wikipédia de todos os bancos do mundo.

Há três anos, Roubini foi repudiado, tachado de fatalista enganador, quando detectou uma enorme vulnerabilidade do sistema bancário dos Estados Unidos, prevendo o seu colapso. Agora, Roubini converteu-se num guru, atraindo o interesse de governos, diretores de bancos, mas e até de sites de fofocas de Nova York.

Foi o The New York Times que o apelidou asperamente de Dr.Doom (Dr. Catástrofe) ao fazer um perfil do economista no ano passado, identificando-o como um herói insólito da crise. Em 2006, Roubini fez um discurso no Fundo Monetário Internacional, quando, entre outras coisas, previu que a economia americana corria o risco de um colapso imobiliário e uma profunda recessão, com consequências tenebrosas para o resto do mundo.

Hoje, ele sorri timidamente e diz que outras pessoas também previram esse cenário, mas ninguém foi tão preciso como ele, nem tão grave, nem foi tão ridicularizado como ele pelo sóbrio mundo da economia. Na época, seu discurso foi recebido como uma idiossincrasia de alguém que gostava de fazer teatro. Mesmo hoje alguns dizem que ele só teve sorte. É o caso do economista Anirvan Banerjee, que, indagado pelo The New York Times sobre Roubini, respondeu que “até um relógio parado acerta a hora duas vezes por dia”.

Esse tipo de menção faz Roubini rapidamente esquecer a modéstia. Acusa de ingênuo o economista, que previu um crescimento quando a crise já se intensificava. “Dizer que foi apenas sorte da minha parte é um absurdo. Fiz previsões concretas que acabaram sendo certas. Exatamente.”

Ele cita um estudo elaborado em fevereiro do ano passado intitulado “Doze passos para o desastre financeiro”, onde “cada passo foi exatamente como a crise se desenvolveu nos últimos seis meses”. “Eu disse que as duas maiores corretoras do país (EUA) iriam à falência e não haveria nenhuma grande corretora independente nos próximos dois anos. Ora, bastaram sete meses para o Bear Stearns e o Lehman (Brothers) quebrarem. Não foi uma análise imprecisa da minha parte quando declarei que ocorreria uma crise financeira. Fui bem explícito. E acertei.” Ele encolhe os ombros e sorri ante o peso de estar certo em meio à estupidez generalizada.

As razões pelas quais Roubini foi o primeiro a prever a crise têm a ver, talvez, com seus antecedentes profissionais e pessoais, e com o que ele chama de abordagem “holística” na interpretação de dados econômicos. Roubini nasceu em Istambul, a família transferiu-se para o Irã quando ele ainda era bebê e depois para a Itália, onde cresceu.

Ele fala quatro línguas fluentemente (farsi, inglês, hebreu e italiano) e trabalhou em todo o mundo, incluindo dois anos como assessor político no Tesouro dos EUA. Segundo ele, o primeiro sinal de alerta foram as similaridades que observou entre regiões em desenvolvimento e o comportamento da economia dos EUA. Para sua surpresa, viu um padrão de movimento econômico nos EUA que, em 2005, parecia muito com a “economia de mercados emergentes”, com a mesma “exuberância irracional” que, na sua opinião, só poderia ser seguida de um enorme colapso.

“Você examina a história, os dados políticos, os modelos, e faz comparações”, diz. “Esta crise não é um evento totalmente extraordinário, uma consequência aleatória de uma distribuição aleatória. Foi um acúmulo de vulnerabilidades que aumentaram com o tempo”, diz. “Tivemos dezenas de sinais distintos de que tudo acabaria num ponto de não retorno. A ocorrência de uma crise era algo totalmente óbvio para mim.”

É tentador fazer perguntas a Roubini como se ele fosse um oráculo. Mas seu histórico recente faz com que seja irresistível. Para começar, ele acha que 2009 deve ser apagado completamente. Do ponto de vista financeiro, diz ele, está perdido. No “Jogo do Pior Cenário”, Roubini olha para o mundo avançado e considera que muitas economias estão sob o risco de seguir o caminho da Islândia e se tornarem insolventes. A maior parte é de pequenas nações da Europa Ocidental.

“Se uma grande instituição (financeira) na Suíça, na Holanda, na Bélgica ou na Irlanda enfrentar um problema, o país não tem recursos suficientes para resgatá-la”, avisa.

A Grã-Bretanha está em um estado tão ruim quanto os Estados Unidos do ponto de vista fiscal. Segundo ele, a necessidade de as decisões na zona do euro serem aprovadas por consenso faz com que resgates de instituições financeiras sejam mais difíceis de implementar.

Roubini diz que mais fundos hedge (os mais arriscados do mercado) vão quebrar, mas o efeito em cascata nem sequer começou a ser sentido. “As perdas agora estão concentradas nas hipotecas. Espere até que atinjam os imóveis comerciais, as companhias de cartão de crédito, os empréstimos automotivos, o crédito estudantil e os bônus corporativos. Há uma pilha de coisas. O sistema financeiro está insolvente. Está tecnicamente falido.”

*Emma Brockers é articulista

09/11/2008 - 12:40h Brasil foi premiado pela prudência, diz especialista

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Para estudioso do acúmulo de reservas pelos emergentes, ‘swap’ do Fed mostra que a imagem do País mudou

Fernando Dantas - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Economista do Council on Foreign Relations (Conselho de Relações Exteriores, think-thank americano), Brad Setser já passou pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e trabalhou com o agora famoso Nouriel Roubini, o economista que previu mais acuradamente a atual crise financeira global. Estudioso do gigantesco acúmulo de reservas internacionais pelos países emergentes nos últimos anos, Setser acha que o Brasil tem dólares suficientes para se defender da crise, e só poderia ter problemas se a turbulência se agravasse ainda mais e perdurasse por muito tempo.Para Setser, um observador atento dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China), a linha de swap de US$ 30 bilhões estendida pelo Fed (Federal Reserve, banco central americano) ao Brasil é “um prêmio” pela prudência da política econômica brasileira, e significa uma mudança na forma pela qual o País é visto pela comunidade financeira internacional.Setser considera que a tão propalada mudança da arquitetura financeira internacional já começou, e diz que mais foi feito nessa direção nas últimas três semanas do que no longo período de discussão do assunto que sucedeu as crises financeiras do fim dos anos 90. Ele cita como mudanças profundas, que o deixaram surpreendido, a extensão ilimitada pelo Fed de linhas de dólares (”swaps”) para países europeus, e também (de forma limitada) para Brasil, Coréia, México e Cingapura.

A seguir, a entrevista:

Como a crise financeira vai afetar os Brics?

A crise tem três impactos amplos, que afetam todo mundo, mas em graus diferentes. O primeiro é uma significativa desaceleração no crescimento da demanda por produtos manufaturados, notadamente nos Estados Unidos e na Europa, e isso vai ter um forte impacto na China. O segundo efeito, que afetou a Rússia de forma particularmente forte, mas também atingiu o Brasil, é que a crise financeira e bancária levou a uma forte redução do crédito para as economias emergentes. Isso gerou uma pressão para baixo nas moedas da maioria destes países, e quase todos tiveram de gastar suas reservas para compensar a retirada de financiamento bancário internacional. A Rússia ficou numa situação particularmente ruim, por causa da extensão em que o setor privado russo tomou emprestado do sistema financeiro internacional. E, finalmente, há a grande oscilação do ciclo econômico global, que causou uma significativa correção no preço das commodities. Isso terá impacto na Rússia, por causa do petróleo, e no Brasil, por causa do minério de ferro e muitas outras commodities que o País exporta.

As reservas brasileiras são suficientes para enfrentar esta crise?

As reservas brasileiras são substancialmente maiores do que suas dívidas de curto prazo. O Brasil tem a vantagem de, adicionalmente às reservas, dispor agora de acesso a US$ 30 bilhões do Fed na linha de swap, e provavelmente poderia sacar no novo instrumento de financiamento de curto prazo do FMI. Então o Brasil tem pelo menos US$ 30 bilhões, e talvez até US$ 50 bilhões, em crédito adicional. O único cenário no qual poderia haver mais pressão do que o Brasil poderia agüentar seria aquele em que qualquer um com exposição ao real tentaria fazer um hedge dessa posição. Para isso, seria preciso um choque ainda mais forte do que o que vimos até agora, um longo período no qual o País financiaria com as suas reservas não apenas uma queda de curto prazo no crédito bancário, mas teria de gastá-las também para suprir o déficit em conta corrente. Não subestimo o risco para o Brasil, mas ainda acho que está em melhor situação do que muitas outras economias emergentes.

As economias emergentes sofrerão um impacto na economia real tão forte quanto aquele que já começa a afetar os países ricos?

Estou cada vez mais preocupado com a possibilidade de que a desaceleração dos emergentes, de forma agregada, seja comparável em escala àquela experimentada pelos países ricos. A Rússia vai ter uma desaceleração bem aguda, que também ocorrerá em muitos países do Leste europeu. Bem, no caso da China pode-se dizer que um crescimento de 6%, que muitos já acham que possa ocorrer no início de 2009, é mais rápido do que o de muitos países num ano bom. Mas é uma significativa desaceleração a partir do nível de 11%, 12%. Quanto ao Brasil, minha esperança é de que, com a medidas tomadas para reduzir a vulnerabilidade, o País possa ajustar-se gradualmente, e a parada súbita seja apenas dos fluxos de capital, mas não da economia.

O mundo está caminhando para uma nova arquitetura financeira internacional, o chamado “novo Bretton Woods”?

Minha visão provavelmente é influenciada pelo fato de ter trabalhado no Departamento do Tesouro durante o último esforço para reforma da arquitetura financeira internacional. E confesso que fiquei chocado com o fato de que as mudanças acordadas nas últimas três semanas sejam, em certo sentido, muito maiores e muito mais significativas do que as que foram acordadas depois das crises de 1997, 1998 e 1999, quando houve um período muito mais longo de debate e reflexão sobre a reforma da arquitetura. O fato de que o Fed forneceu US$ 500 bilhões em crédito para os bancos europeus é indicativo da escala da mudança. É impactante que o Fed concorde em emprestar para os bancos centrais europeus literalmente sem limites, com o instrumento do “swap” (troca de dólares por euros), para que estes possam cumprir o papel de emprestadores de última instância de dólares para o sistema bancário europeu. E há também o novo instrumento de financiamento de curto prazo do FMI. Olhando para a frente, ainda há alguns pontos necessários sobre os quais ainda não se chegou a um acordo, como tornar o FMI substancialmente maior do que ele é hoje, e recalibrar o peso dos votos no Fundo para refletir a crescente importância dos países emergentes na economia global.

O Brasil foi um dos quatro países emergentes que também teve acesso à linha de swap do Fed, como o sr. mencionou, embora de forma limitada. Qual o significado disso?

Acho que é o reconhecimento de que o Brasil fez muitas coisas para reduzir a sua vulnerabilidade a crises financeiras. Foi um prêmio para as políticas econômicas prudentes que o Brasil praticou nos últimos poucos anos. Se você é gestor de política econômica nos Estados Unidos, com experiência de crises em mercados emergentes, é difícil não ficar impressionado com o fato de que o governo do Brasil saiu de uma posição de devedor líquido internacional para a de credor líquido internacional. Houve uma mudança na maneira pela qual o Brasil é visto na comunidade financeira internacional. Por outro lado, a concessão do swap também reflete o fato de que o Brasil é sistemicamente importante, e deixá-lo de fora poderia ser um sinal para que os investidores fizessem ainda mais hedge da sua exposição ao País, o que poderia acabar criando uma situação ruim.

Qual será o papel do presidente Obama na montagem dessa nova arquitetura?

Teremos uma noção muito melhor quando ele escolher o seu secretário do Tesouro e sua equipe econômica. Minha suposição é de que o governo Obama terá mais inclinação do que o governo Bush para contemplar a hipótese de um FMI maior como parte da solução para os problemas financeiros dos mercados emergentes. Certamente, um governo Obama será mais favorável do que o de Bush a propostas que aumentem o nível de regulação no sistema financeiro americano. Por outro lado, nos últimos três meses Bush abriu mão de muitas posições ideológicas, e reagiu de forma muito pragmática à crise. Várias mudanças importantes, como o instrumento de financiamento de curto prazo do FMI, e a extensão do swap do Fed para países emergentes, já ocorreram sob o comando do Bush, porque os eventos assim exigiram. De alguma forma, a administração do Bush já abraçou algumas das idéias que estavam circulando entre os assessores do Obama.

07/10/2008 - 09:12h Contágio pode quebrar a zona do euro

Angela Merkel, primeiro-ministro da Alemanha
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Larry Elliott * – O Estado de São Paulo

De certo modo, quando o ministro das Finanças da Alemanha, Peer Steinbrueck, disse no mês passado que o aperto do crédito era um problema americano, houve a sensação de que ele estava desafiando o destino. Quanto tempo levaria para que o contágio que limpou Wall Street e a City de Londres também fizesse uma ou duas vítimas no setor bancário da zona do euro? Bom, as palavras presunçosas de Steinbrueck mal saíram da sua boca, e recebemos a resposta. Belgas e holandeses tiveram de resgatar o banco Fortis; os irlandeses trataram de estender uma garantia geral para os seus depósitos, com medo de que pelo menos um, e provavelmente dois de seus grandes bancos estivessem perto de capotar.

A reflexão de Steinbrueck sobre a possibilidade de os Estados Unidos estarem perdendo seu status de potência hegemônica da economia mundial foi interrompida pela necessidade de buscar a aprovação de Bruxelas para a malfadada operação de resgate do grupo HRE alemão, de 35 bilhões de euros. E no final de semana os líderes dos quatro grandes países da Europa – Alemanha, França, Itália e Grã-Bretanha – convocaram uma reunião de cúpula global de emergência para o próximo mês. Uma lição para os ministros das Finanças: procurem não irritar os deuses.

O crescimento da França no terceiro trimestre baixou de 0,7%, no terceiro trimestre do ano passado, para 0,4% em cada um dos dois trimestres seguintes, depois tornou-se negativo em 0,3% no segundo trimestre deste ano. Christine Lagarde, a ministra das Finanças, prevê que o Produto Interno Bruto (PIB) sofrerá nova contração no terceiro trimestre. O que equivale tecnicamente a uma recessão: dois trimestres consecutivos de resultados em queda.

A Itália teve um desempenho ainda pior. O PIB caiu tanto no quarto trimestre de 2007 quanto no segundo deste ano, empurrando a taxa de crescimento anual já anêmica para zero. Na França, é 1,1% e na Grã-Bretanha, 1,4%. A Alemanha obteve o melhor desempenho das quatro principais economias da Europa, mas também está reduzindo o crescimento, porque a demanda de suas exportações foi afetada pela crise global. A produção alemã caiu 0,5% no segundo trimestre, empurrando sua taxa anual de crescimento para 1,7%.

Em comparação, a expansão anual dos Estados Unidos é de 2,2%, embora seu forte desempenho no segundo trimestre se devesse a um corte único dos impostos de US$ 150 bilhões, e agora a economia pareça estar baixando seu ritmo ainda mais rapidamente. Há evidências de que em todo o mundo desenvolvido está havendo uma redução do ritmo, e isto ocorre nos países que seguem tanto o modelo da Europa continental quanto o anglo-saxônico: nos países em que surgiram bolhas no mercado da habitação, e nos que não houve bolha; nos países que adotaram o euro assim como nos que não o adotaram. A Espanha, por exemplo, está na união monetária, mas na sexta-feira anunciou uma ampla queda de 7% da produção industrial e apresenta um aumento acentuado do desemprego.

Três pesquisas realizadas na semana passada entre gerentes de compras na Grã-Bretanha – nos setores da manufatura, serviços e construção – advertiram que há uma recessão. A primeira reunião do gabinete da guerra econômica de Gordon Brown, realizada ontem, havia muito o que discutir.

O quadro é variado no que se refere a Islândia, Noruega e Suíça, que não fazem parte da União Européia. A Islândia está numa situação calamitosa, a confiança em seu sistema bancário em frangalhos e a economia já em marcha a ré acelerada. A Noruega, graças à alta do preço do petróleo, cresce a 3,3%, 1 ponto porcentual acima da Suíça.

Não é fácil enxergar através dessa névoa estatística, mas é possível tirar algumas conclusões. A primeira delas é que nenhum país do mundo desenvolvido ficará imune à crise. A segunda é que os seus efeitos para a “economia real” demoraram para se fazer sentir, mas agora estão se intensificando.

A este respeito, as medidas – ou a falta de medidas – do Banco Central Europeu são curiosas. Ao contrário do Federal Reserve (Fed, banco central americano) ou do Banco da Inglaterra, o BCE decidiu que o aumento da inflação, este ano, causado pelo aumento dos preços do petróleo e dos alimentos , merece a elevação das taxas de juros.

Agora, a inflação está caindo e, a julgar pelos comentários de Jean-Claude Trichet, seu presidente, o BCE pretende abrandar sua estratégia até o início de 2009, quando haverá abundantes evidências de que Europa, Japão e Estados Unidos estão em recessão, e isto terá um efeito enorme para a Grã-Bretanha, onde 50% das exportações vão para o restante da Europa. Entre os presidentes dos bancos centrais. talvez Mervyn King seja o que mais se aproxima dele.

Queimar lentamente Uma terceira conclusão é que o efeito do enfraquecimento lento do sistema bancário europeu provavelmente tem mais a ver com as diferenças nos sistemas contábeis do que com a maneira como é administrado. Como Steinbrueck sabe muito bem, os bancos alemães imitaram seus equivalentes britânicos e americanos no cassino subprime e fizeram as mesmas apostas questionáveis em derivativos arriscados. O que aconteceu foi que demorou mais tempo para os prejuízos aparecerem.

Uma quarta observação – novamente bastante óbvia – é que a zona do euro continua um híbrido. É uma união monetária, mas não uma união política, e portanto, países como a Irlanda tiveram de se arranjar sozinhos na operação de resgate dos bancos em dificuldades. Há uma nítida distinção entre os Estados Unidos, onde o governo tem peso financeiro em todos os 50 Estados, e a União Européia.

Convocar uma cúpula global não é a mesma coisa que fazer algo concreto, e Angela Merkel deixou claro que a Alemanha não ajudará bancos malandros de outros países da União Européia. O Banco Europeu de Investimentos decidiu liberar uma ajuda de emergência de 12 bilhões de libras esterlinas (US$ 2 bilhões) para as pequenas empresas, mas dada a dimensão e a escala da crise da União Européia, a quantia é insignificante.

No longo prazo, as uniões monetárias não sobrevivem sem uma união política, e portanto a quinta conclusão é que há pressões tanto para uma integração maior quanto para a desintegração. A crise poderá fortalecer os que argumentam que as medidas corretivas são intrinsecamente instáveis e continuarão assim até que haja uma união fiscal e monetária. Por outro lado, a crescente ameaça de recessão poderá levar alguns países a questionarem se valerá realmente a pena continuar numa união monetária.

Charles Goodheart, da School of Economics de Londres, observou na semana passada que nos últimos anos houve variações extremas na competitividade, nos custos da mão-de-obra e nas balanças comerciais em toda a zona do euro. As preocupações do BCE com a inflação só poderão ser corrigidas pelos países que registram grandes déficits da conta corrente, como a Espanha, ou que sofrem de uma profunda falta de competitividade, como a Itália, crescendo mais lentamente e reduzindo o padrão de vida. Evidentemente, estas não serão medidas populares.

Goodheart conclui que, se tivessem de decidir agora, alguns membros da união monetária votariam contra seu ingresso.

Optar não aderir é muito diferente de decidir sair, e haveria consideráveis conseqüências para um país que voltasse a adotar sua moeda nacional em lugar do euro. Goodheart aponta para o risco de que a união monetária possa quebrar-se em 10% a 20%, o que é pouco, mas certamente não deixa de ser significativo.

*Larry Elliott é editor de Economia do jornal britânico ‘The Guardian’